sábado, 8 de maio de 2010

Cthulhu Dark Ages - O horror do Mythos na Grande Noite


Era inevitável. O carro chefe dos jogos de RPG no mundo inteiro são os jogos com temática medieval. Isso ninguém discute. Tudo teve início com o bom e velho Dungeons and Dragons afinal de contas. E como aconteceu com Vampire da White Wolf que se rendeu e lançou alguns anos atrás a sua versão Dark Age, o mesmo ocorreu com Call of Cthulhu que lançou um suplemento de campanha inteiramente dedicado a Idade das Trevas. A razão pela qual essa era de decadência e brutalidade fascina tanto as pessoas poderia ser objeto de estudo para uma longa dissertação, porém não é esse o objetivo dessa resenha.



Cthulhu Dark Ages
176 páginas, $ 23,95, capa mole, interior preto e branco, em inglês
sem previsão de tradução para o português.
Autor: Stephane Gesbert and Friends
Arte interior: Stephane Gesbert, François Launet, Andy Hopp e outros
Editora: Chaosium Inc
Sistema: Call of Cthulhu Clássico

As regras para jogar na Idade das Trevas são essencialmente as mesmas do Livro Básico de Call of Cthulhu. Aos desinformados é interessante fazer um parênteses aqui: Muita gente na época em que Dark Ages foi lançado imaginava que as regras seriam compatíveis com o sistema d20, mas não é esse o caso.

É importante ressaltar que Dark Ages Cthulhu não é um "Dungeons and Cthulhus". A proposta da ambientação não é a de um mundo de fantasia e magia. Não há armas encantadas, bolas de fogo e nem masmorras para serem vasculhadas. Ao invés disso o que se tem é o ambiente perigoso e sujo da Idade Média por volta do ano 1000. A Europa varrida pelos flagelos da guerra, doença, morte e fome é o terreno ideal para a proliferação de cultos adorando os antigos.

A Era das Trevas é encarada de uma maneira crua e realista: ignorância, violência, sujeira e fanatismo fazem parte do jogo que se opõe totalmente ao estilo "medieval clean" da maioria dos cenários fantasia. Não espere amenidades, o suplemento pinta um retrato dantesco da Era das Trevas que nos faz pensar: "como conseguimos sobreviver à tamanha barbárie"?

Nessa época ainda não temos uma igreja totalmente centralizadora e alguns dos reinos estão apenas se formando a partir das ruínas do Império Romano pilhado por bárbaros. A era das trevas é retratada como a "Longa Noite" da Europa e ao meu ver essa premissa funciona muito bem para cenários de Call of Cthulhu.
Foi justamente a oportunidade de situar os mitos de Cthulhu numa época totalmente diferente da orignal que despertou minha curiosidade. Os cenários básicos de COC são centrados em três diferentes épocas: 1890, 1920 e atual. Com o lançamento do Dark Ages, o jogo expande seus horizontes olhando para o passado, deixando a certeza que o mal dos mitos de Cthulhu sempre estiveram presentes na evolução humana como uma sombra ameaçadora.

Nesta era em particular as coisas são ainda mais complicadas. Se nas outras eras, os jogadores já se encontravam em desvantagem mesmo dispondo de armas de fogo, automóveis e explosivos, aqui as coisas pioram pois a arma mais avançada é um mero arco e flechas. Pior ainda! Antes era possível obter informações em bibliotecas ou antigos livros de magia que ajudariam a combater criaturas malignas, na Era das Trevas não há quase livros, quem dirá bibliotecas. Mesmo saber ler é uma vantagem que poucos possuem.

O jogo se resolve em torno de investigação, no entanto há uma margem maior para combate direto, visto que os personagens são homens e mulheres com uma percepção diferente do mundo a sua volta, em muitos casos uma completa ignorância e falta de informação. Violência e brutalidade andam de mãos dadas e muitas discussões podem ser resolvidas na ponta da faca ou na lâmina de um machado.

O poder da sugestão, das lendas e do folclore são bastante explorados nessa ambientação. Criaturas como o Lloigor, que tem uma forma reptiliana, podem muito bem ser confundidos com um dragão. E como se trata de uma época de religiosidade latente, beirando o fanatismo, temos a interpretação errônea de que os seres dos mitos são, grosso modo, Demônios do Inferno. Soma-se a isso elementos da própria Era das Trevas que constróem um rico pano de fundo para as aventuras.

Arte, Diagramação e Estética

A capa é excelente: escura, sinistra e soturna, ela mostra um guerreiro com uma tocha, vestido com uma armadura de correntes investigando o que parece ser uma erma caverna. É uma imagem que evoca perfeitamente a idéia da ambientação. O mundo imerso numa escuridão perpétua, enquanto o brilho efêmero de uma tocha é a única luz presente. No fundo o Elder Sign brilha de forma tênue e ameaçadora.

De um modo geral a arte interna é boa, mas nem de perto magnífica como a capa. Todo o interior é em preto e branco, com muitos tons de cinza, e há ilustrações em praticamente todas as páginas. A diagramação é adequada, tornando o livro fácil e gostoso de ler. Há centenas de caixas contendo informações e tabelas espalhadas pelo livro que facilitam a busca no meio do jogo. Infelizmente as tabelas mais importantes não são compiladas no final do livro o que tornaria o trabalho do mestre mais fácil. Mesmo assim há um índice que ajuda.
Conteúdo

Cthulhu Dark Ages é um livro com mais de 150 páginas, que cobre uma era repleta de detalhes e particularidades. Seria de se esperar que o livro se concentrasse em uma análise histórica para situar o leitor neste contexto seguindo então para explicar o envolvimento dos mitos e sua influência no mundo. Infelizmente não é isso o que acontece. O maior pecado do livro é explicar as regras gerais do jogo, o que toma um espaço valioso. Quase 50 páginas tratam apenas de situar as regras originais do COC no contexto da Era das Trevas.

As regras de sanidade se mantêm rigorosamente as mesmas. Há entretanto alterações importantes e necessárias quanto à criação dos personagens (um sistema alternativo de distribuição de pontos), novas ocupações (guerreiro, monge, nobre etc...) e novas habilidades Insight, Potions, Status entre outras) que modificam a ficha de jogo. De um modo geral as regras continuam as mesmas. Rola-se o D% e tenta-se tirar um número menor ou igual a sua percentagem. Fácil, limpo e sem embromação.

Se reproduzir as regras neste livro é fundamental para novos jogadores que tem aqui o primeiro contato com COC, o mesmo acaba frustrando mestres e jogadores que já conhecem as regras do jogo e que já leram o livro básico. Ao meu ver não era necessário compilar - em alguns casos - palavra por palavra as regras que se encontram no livro básico. Bastaria apontar onde estão as alterações.

Como a maior parte dos livros de Call of Cthulhu, há um grande respeito com a história e com a pesquisa. Os autores foram muito felizes em pesquisar elementos da Idade das Trevas e conceder informações que tornam o livro não apenas interessante para o jogo, mas ainda uma boa fonte de informações para todos os curiosos e entusiastas dessa era. Há um excelente glossário de termos e palavras desta era e uma interessante cronologia de eventos políticos, históricos e inexplicáveis que realmente ocorreram na Europa entre o ano 900 e 1050.

Infelizmente a parte histórica é tratada de forma sucinta, certas descrições não passam de cinco míseras linhas. Fica a impressão que os autores poderiam ocupar boa parte do livro com o resultado de suas pesquisas, mas que por limitação de espaço acabaram optando por apenas algumas páginas. O destaque desse capítulo vai para as regras opcionais de doenças e dano, enquanto que o negativo fica por conta do horrível mapa da Europa no ano 1000. Seria ótimo um mapa destacável fold-out como o que veio posteriormente no Cthulhu Invictus.

O livro discute ainda uma lista de 44 magias, pertencentes ao chamado Old Grimoire. A maior parte das magias são velhas conhecidas, já vistas no livro básico com pequenas alterações e a inclusão de algumas novas. Há também a análise dos livros de mitos existentes na Europa medieval e um extenso bestiário com as criaturas dos Mitos de Cthulhu. Os monstros são tratados com grande destaque, todos ganharam novas ilustrações e algumas fichas foram revistas. Seguem ainda explicações a respeito do papel destas entidades e servidores, na Europa da Idade das Trevas.

Finalmente a porção final do livro é ocupada por uma longa aventura que se passa no Império Germânico no ano 998 da Era Cristã. O cenário tem cerca de 40 páginas e é bem construído, muito embora eu tenha achado a história um tanto previsível. Não tenho nada contra inserir uma aventura pronta no livro, porém uma tão grande acaba ocupando o espaço que poderia ser mais bem aproveitado no capítulo sobre a ambientação.

Notas finais

Cthulhu dark Ages é um bom livro para novos e velhos jogadores de Cthulhu. O conceito de uma Era das Trevas mais realista irá agradar aos jogadores e mestres atrás de um maior grau de autenticidade em sua campanha, ao mesmo tempo em que será divertido ver os resultados de um combate entre um guerreiro armado com uma espada e um Hound of Tindalos ou Star Spawn.

Minha opinião pessoal é que a ambientação funciona melhor para aventuras one-shot, campanhas talvez sejam mais complicadas nesse ambiente.


Nota: Essa para mim é uma das imagens que evocam o espírito de perigo e horror presente no Cthulhu Dark Ages. Um barco de guerra viking surpreendido pela aparição de uma monstruosa criatura das profundezas. A primeira aventura de Dark Ages que fiz foi baseada nessa imagem.

Um comentário:

  1. ótima resenha.....me deixou empolgado para comprar esse livro....

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