quarta-feira, 28 de julho de 2010

Nevasca Negra - Tempestades de Areia varrem a América dos anos 30



"O dia de repente se tornou noite, era como uma parede escura no horizonte ocultando o sol. E de uma hora para outra tudo ficou escuro e coberto de poeira".

No início da década de 30 um fenômeno climático de proporções catastróficas atingiu as grandes pradarias no coração dos Estados Unidos. As chamadas Nevascas Negras (Black Blizzards) eram de fato tempestades de areia colossais que espalharam o caos e o desespero por onde passaram.

As Nevascas atingiram com maior intensidade a região centro oeste dos Estados Unidos, mas seus efeitos puderam ser sentidos até a Costa Leste. A área ocupada pelos Estados mais afetados passou a ser conhecida como Dust Bowl (bacia de poeira), eram eles o norte do Texas, Oklahoma, Novo Mexico, Colorado e Kansas.

O fenômeno foi resultado direto da ação do homem sobre o ambiente. As pradarias do oeste americano a partir da metade do século XIX começaram a ser ocupadas por famílias que recorriam a agricultura. A área que originalmente era um deserto semi-árido passou a ser cultivada e grandes fazendas tomaram conta da paisagem. Por algum tempo, as fazendas prosperaram. As South Plains eram um verdadeiro paraíso com uma vasta paisagem verdejante coberta de campos de plantio. A abundância trouxe a prosperidade e atraiu um fluxo cada vez maior de imigrantes interessados em se estabelecer e desfrutar daquela terra prometida. No início do século XX, as fazendas cobriam toda a paisagem.

Mas esse período de prosperidade não iria durar para sempre. Ele fazia parte de um ciclo de chuvas abundantes que estava chegando ao fim. No verão de 1930, uma severa seca atingiu toda a região. Os campos já preparados para o plantio ficassem secos e as plantações morreram. Pior do que isso, o solo sofreu uma gradual erosão pelo vento e foi cozido pelo sol causticante.

A seca transformou o solo antes fértil em uma camada fina de poeira negra semelhante a farinha ou pó de gesso. Quilômetros e mais quilômetros de campos cobertos de poeira. Quando o vento soprou sobre esses campos, a poeira acumulada se levantou formando enormes nuvens negras que viajavam velozmente pelas pradarias engolindo tudo em seu caminho.

"Era horrível!" recorda Will Bryce, sobrevivente da Nevasca Negra que vivia no estado do Kansas em 1934, "As nuvens de poeira se moviam com enorme velocidade e às vezes você não tinha tempo nem de se proteger. Tudo o que você podia fazer quando uma nuvem aparecia era correr para dentro de um abrigo e rezar para que ela passasse logo". Bryce teve sorte, em 1934 ele tinha 12 anos e lembra perfeitamente da fúria da Nevasca Negra que cobriu Kansas City. Seu irmão Arnie não teve a mesma sorte, ele morreu em decorrência de complicações pulmonares causadas pela poeira.As tempestades sopravam continuamente, arremessando toneladas de poeira para a atmosfera do planeta. As nuvens viajavam a uma velocidade de 200 km/h, crescendo a medida que engoliam fazendas e plantações. As South Plains foram varridas, o trabalho de décadas arruinado em poucas horas.

As maiores nuvens podiam atingir dimensões colossais com milhas de extensão e centenas de metros de altura. A nevasca composta de poeira fina encobria tudo, reduzindo a visibilidade a pouco mais de um metro. Cidades engolidas pela nevasca eram cobertas de areia e poeira que entrava por frestas e se depositava em cada canto: nos quartos, sobre os pratos, na comida, na água. "Era preciso usar uma pá para conseguir sair de casa". Os campos verdes haviam se tornado cinzentos e estéreis.

Animais foram os primeiros a sentir os efeitos das nevascas, as fazendas pecuárias foram completamente devastadas. O gado morria sufocado com a poeira. Mas ninguém foi mais afetado que os pequenos produtores que viviam no coração do Dust Bowl. A devastação foi inacreditável, fazendas inteiras cobertas pela poeira e as plantações já minguadas arruinadas. Já sob o efeito da Grande Depressão econômica instalada a partir de 1929, o impacto foi acentuado levando inúmeras famílias à bancarrota.

"Nós perdemos tudo! Tivemos de mudar de vida e partir de nossas terras". relembrou Clela Schmidt que enfrentou as nevascas na fazenda de seus pais em Spearman, Texas. Sua família não foi a única que teve de abandonar o Dust Bowl, mais de 500 mil pessoas ficaram desabrigadas em decorrência do fenômeno. Ele também foi responsável pelo maior êxodo da história dos Estados Unidos, entre 1931 e 1935 quando mais de 2,5 milhões de pessoas fugiram da área afetada.

A princípio as pessoas acreditavam que as tempestades seriam passageiras, mas elas prosseguiram sem parar ao longo de metade da década de 30. Seus efeitos continuaram sendo sentidos até o início dos anos 40. Muitas pessoas jamais se recuperaram: a poeira das nevascas foi responsável pelo surgimento de doenças. Alergias e irritações de pele eram bastante comuns. Pessoas cegadas temporaria e permanentemente pela poeira também somavam milhares. Mas nada era mais perigoso que a Pneumonia do Dust Bowl. A poeira aspirada se alojava nos pulmões e muitas vezes acabava se solidificando em pedras, o resultado: falência respiratória crônica. A morte era lenta e agonizante a medida que a vítima sufocava e tossia sem parar.

Para se proteger das nevascas as pessoas se valiam de receitas caseiras, como vedar janelas e batentes com gaze molhada misturada com cimento. Na região do Dust Bowl as pessoas costumavam usar panos na face ou "máscaras de poeira" para escapar da substância irritante que entrava nos olhos, nariz e boca. O governo federal reaproveitou estoques de máscaras usadas na Grande Guerra e distribuiu milhões de kits para os habitantes.

"Em meu aniversário de 10 anos, quando recebi de presente uma máscara de gás, igual às que os soldados usavam na Guerra", recordou-se Will Bryce. "Era uma coisa assustadora feita de borracha, mas ao menos ajudava a respirar!". Muitas pessoas usavam máscaras diariamente desde a hora que acordavam até a hora de dormir, as retirando apenas para comer.

Pessoas colhidas em meio a tempestades de areia corriam sério risco. Viajar pelas estradas do Dust Bowl era uma aventura, pois ninguém sabia quando apareceria uma Nevasca Negra. As grandes nuvens podiam se formar com assustadora rapidez e pegar as pessoas de surpresa. Cidades menores nos arredores do Dust Bowl possuíam rudimentares estações de observação que noticiavam quando uma nuvem era vista. Com um pouco de sorte, o observador conseguia soar um alarme e as pessoas corriam para suas casas a fim de se proteger.

"Eu me recordo de um homem que desapareceu no meio de uma Nevasca Negra, era um comerciante local, ele foi arrastado e soterrado pela tempestade". comentou a sra. Schmidt. "O carro dele quando foi encontrado estava quase todo coberto de terra".

Não existe uma estimativa de quantas pessoas morreram em decorrência das tempestades, mas levando-se em conta que várias cidades foram literalmente soterradas, o número deve ser alto.

Cidades inteiras eram fustigadas pelas tempestades e seus habitantes não podiam fazer nada a não ser se esconder e esperar. Algumas tempestades podiam terminar rapidamente devolvendo as pessoas aos seus afazeres diários, outras podiam durar horas... ou dias.

Em março de 1932, os habitantes de Kansas enfrentaram 20 dias consecutivos de tempestade e escuridão. O ano de 1933, contabilizou 193 dias de tempestade. A tempestade podia bloquear o sol e fazer com que a temperatura caíssem até 40 graus Farenheit em apenas uma hora.

Em 14 de Abril de 1935, o Dust Bowl experimentou a sua maior provação. O dia que ficou conhecido como Black Sunday (Domingo Negro) começou bonito e com um sol agradável que motivou as pessoas a sair de suas casas. Muitos resolveram fazer picnics ou visitar parentes e amigos. Mal sabiam que mais de 20 tempestades estavam prestes a se formar simultâneamente na mais forte tempestade da época.

As primeiras nuvens foram avistadas ao meio dia e rapidamente os ventos começaram a varrer a região erguendo uma quantidade de poeira capaz de preencher o equivalente a 50 estádios dos Yankees de Nova York (uma arena para 70 mil espectadores). As pessoas fugiam e se refugiavam em celeiros, carros e porões. Aqueles que foram colhidos pela tempestade experimentaram um verdadeiro inferno na Terra. Muitos desapareceram...

O violência dessa tempestade foi tamanha que dois dias depois as nuvens atingiram a costa leste do país e as cidades de Chicago, Nova York e a capital do país Washington D.C. Na Nova Inglaterra areia vermelha de Oklahoma caia do céu como se fosse flocos de milho. Ironicamente foi só a partir dos eventos do Domingo Negro que a situação catastrófica dos habitantes do Dust Bowl começou a chamar a atenção do restante do país.

Nessa época a miséria e a fome já se espalhava como uma epidemia pelo meio oeste americano cada vez mais abandonado pelos habitantes originais. Muitos jornalistas cobriram o fenômeno e foram responsáveis por fotografias inacreditáveis que demonstravam as dimensões da catástrofe. Poucos relatos foram mais fiéis que o clássico romance "As Vinhas da Ira" de John Steinbeck, a respeito de uma família diretamente afetada pela Nevasca Negra.

A administração do presidente Franklin Delano Roosevelt instituiu um programa emergencial de socorro para as famílias na área da tragédia. O programa também previa o remanejamento da população das áreas críticas para outras menos afetadas e o início de um programa pioneiro para conservação do solo.

No início dos anos 1940, as Nevascas Negras finalmente começaram a perder força. Foram necessários dez anos para que a natureza reparasse os danos sofridos pelo solo. Os anos 40 também foram de superação, com o fim da Grande Depressão. O Programa New Deal de Roosevelt buscou ensinar aos fazendeiros técnicas para prevenir a erosão do solo a partir de rotação dos campos e irrigação adequada.

A lição do Dust Bowl, no entanto, jamais foi esquecida. Nas palavras de Will Bryce: "Foi uma época difícil, de incerteza e desespero. Muitos diziam que era o fim do mundo e como não acreditar? Quando o dia vira noite, você sente um medo profundo e acredita que a esperança se foi... em um mar de poeira".

sábado, 24 de julho de 2010

Palavras no Diário - Trechos do Diário da Campanha "O Filho das Estrelas"

A seguir alguns trechos do diário relatando os acontecimentos e fotos:

A Capa interna do Diário e alguns dos Handouts encontrados durante a aventura.

"Para nossa surpresa, o Sr. Mirolenko tinha revelações estarrecedoras a fazer sobre suas pesquisas na Biblioteca da Universidade antes de nossa partida. O monge disse que estava realizando pesquisas no salão da biblioteca, consultando vários almanaques e compêndios, quando se afastou por alguns instantes de sua escrivaninha. Ao retornar encontrou sobre a mesa uma estranha carta sem identificação alguma. O conteúdo da carta era tão bizarro quanto aquela que recebemos em Arkham semanas atrás. Quem é o responsável por essas cartas e qual seria o seu interesse em nossa expedição?"

Pior ainda, após encontrar a carta, ele ouviu uma espécie de zumbido como o canto de uma cigarra. Algo que o deixou profundamente perturbado e fez com que ele recolhesse seu material o mais rápido possível para deixar a biblioteca aos trancos e barrancos. Kiril é um homem razoável, mas sua expressão ao relatar esse evento fez com que eu acreditasse (e temesse) cada palavra de seu estranho relato".

Trecho a respeito de uma das pistas encontradas na Biblioteca.

Uma visão geral de alguns Handouts.

"A mulher Ewenk nos recebeu em sua pequena tenda, instalada nos arredores de Ehrlian. Ela é uma espécie de feiticeira ou shaman para sua tribo nômade e nos recebeu em troca de duas cabras. Trata-se de uma figura exótica e surpreendente. Impossível precisar a sua idade, as pessoas nessa parte do mundo se parecem com o ambiente em que vivem. São rústicas e sombrias. Trate essa mulher como exemplo, ela não era velha, mas sua pele era enrugada como uma folha de pergaminho, ainda que tivesse energia e vigor típicos da mocidade.

Símbolos pintados em seu rosto serviam como algum tipo de proteção, magia ritual segundo o Professor Preston. Ficamos estarrecidos ao constatar que o padrão desses símbolos se assemelhava ao padrão protetivo empregado por Basil Ives em sua cabana infernal em Arkham. Tal coisa não pode ser coincidência! Simplesmente não pode".

O encontro com a shaman Ewenk

"Não há registros formais ou detalhados da Expedição Chin-Yang, mas sabe-se que ela foi marcada por acidentes e tragédia. Ao menos um dos exploradores sofreu uma queda fatal em um túnel profundo e desapareceu. Meteoros são sinais quase universais de azar e de mau-agouro, como se o céu, ou os deuses que habitam as terras insondáveis além do firmamento enviassem sua ira através dos céus para se chocar contra o solo. Começo a ponderar sobre velhas lendas e me pergunto se o saber dos antigos, mesmo que repleto de superstições não poderia ter algo de verdadeiro. Mas assustado recuo, prefiro afastar esses pensamentos, não é sadio tê-los em uma expedição de caráter semelhante ao nosso!"

Registro no diário durante a visita a Universidade de Beijing.
"Que interminável complexo subterrâneo. Quem poderia imaginar que abaixo das ruínas a uma profundidade indefinida existisse tal mundo subterrâneo? Andamos com cautela, esses túneis me dão calafrios. É como vagar por um interminável mundo alienígena."
Ao entrar nos subterrâneos.

"As coisas... elas surgiram em meio à escuridão perene e tão logo surgiram nos atacaram. Eram bestas inacreditáveis: pálidas e abomináveis. Uma delas tinha a forma de uma colossal serpente de corpo bífido que se dividia no torso criando duas cabeças distintas. As peçonhas gotejavam com bile negra e venenosa. Outro era um monstro roedor, outro tinha peculiaridades insetóides, outro era uma espécie de tromba elefantina que se arrastava feito um verme... todos no entanto indicavam ter uma origem similar dada a composição de seus corpos repulsivos. Era a mesma lama primordial e nauseante na qual cada um se decompôs quando nossas armas os alvejaram. O que eram? O que simbolizam e como a natureza pode permitir que tais coisas existam em um mundo coerente e são?"
Nota após enfrentar as Crias de Abhoth.

"A coisa irradiava pela passagem aberta como um portão flutuante no ar carregado por energias místicas. Ela fluia lentamente, mefítica como um véu de seda carregado pelo vento. Uma onda de maldade e podridão que se intensificou como uma torrente quando nossos tiros zuniram pela câmara. Descobrimos então que ela era dotada de algum tipo de inteligência, pois seus movimentos eram realizados com consciência ainda que nefasta e absurda para nossos padrões. Corremos para a saída no topo de uma rampa inclinada. E então veio a explosão que fez a câmara toda tremer e parte do teto ruir sobre tudo que estava lá embaixo".

Após o encontro com Abhoth.

"Estamos no limiar de nossas forças num dos ambientes mais inóspitos e hostis da Terra. O vasto Gobi se estende além de nossa linha de visão. E é uma visão árdua de ser contemplada. Deixamos os túneis amaldiçoados para um ambiente totalmente inverso, mas igualmente inclemente. Rogo para que encontremos a civilização antes que seja tarde demais. Se for nosso destino perecer aqui, espero que esse diário seja encontrado e que alguém com discernimento possa avaliar cada palavra e compreender que não são elas os devaneios de um insano, mas o relato fidedigno de alguém que viveu esses fatos por mais inacreditáveis que se mostrem. Amanhã começamos a andar".

O último parágrafo antes da continuação.

O Filho das Estrelas - Update da Campanha de Call of Cthulhu

Já faz algum tempo desde que fiz o último relato dos acontecimentos na campanha que estou jogando de Call of Cthulhu, mestrada pelo Rodrigo Gonzales e intitulada "O Filho das Estrelas" (não sei porque, mas esse título não me deixa nem um pouco à vontade).

Vou fazer um resumo das últimas três sessões, é claro aconteceu muitas outras coisas, mas não daria para relatar todos os detalhes sem transformar essa postagem numa enciclopédia.

O grupo de personagens, respeitados acadêmicos da Universidade Minskatonic, se formou com o objetivo de estudar o fenômeno conhecido como Evento Tunguska. Para quem chegou atrasado e não sabe o que diabos é isso, tem um artigo a respeito do tal acontecimento no link abaixo. Tunguska, a região que foi afetada pela queda de um imenso meteoro fica na União Soviética, e o grupo entrará no país usando documentos falsos e passaportes britânicos. A expedição tem como missão estudar em primeira mão o local, recolher dados e fragmentos do meteoro.

Ainda em Arkham o grupo se envolve na investigação de misteriosos assassinatos vitimando membros do Departamento de Astronomia da Miskatonic University. Na tentativa de capturar o assassino, um psicótico estudante da própria universidade, os professores conseguem escapar por um triz de se tornarem eles próprios vítimas.

Após os eventos em Arkham, os planos são concluídos e o grupo viaja para San Francisco de onde parte com destino ao Oriente em um navio. Na China, os investigadores conduzem algumas pesquisas na Universidade de Beijing e causam um tumulto ao acusar cientistas soviéticos de espionagem. Na ocasião tomam conhecimento de uma Expedição Chinesa que buscara anos atrás um meteoro no Deserto de Gobi. A expedição foi marcada pela tragédia e por inexplicáveis acontecimentos.

Embarcando no famoso Expresso Transiberiano, os acadêmicos são confrontados por eventos ainda mais dantescos, incluíndo a chocante morte de um monge ortodoxo (a cabeça do sujeito explodiu!!!). A descoberta de certas pistas faz com que o grupo decida desviar seu caminho. Eles desembarcam na remota cidade de Ehrlian na borda do Deserto de Gobi, nas estepes geladas da Mongólia. Trata-se do local mais próximo da queda do meteoro e onde os esforços da expedição anterior se concentraram.

Após a consulta com uma líder nômade e acertos com guias nativos, o grupo finalmente parte para as terras desertas. Após dias de viagem o grupo faz descobertas incríveis: as ruínas de um velho templo, a existência de um vasto complexo de túneis subterrâneos abaixo dele e de uma espécie de animal alado totalmente desconhecido.

Acossados por uma repentina tempestade, o grupo não vê outra opção senão se refugiar nos subterrâneos do templo. Lá os investigadores se vêem em perigo mortal tendo de lutar pela própria vida contra aberrações que infestam os túneis. O Professor Neville é morto e os demais acabam entrando em contato com uma civilização de humanóides que habitam os túneis. Firmando um acordo com esses habitantes das profundezas, o grupo parte para interferir um ritual em que uma entidade dimensional será invocada (Ninguém menos que a Podridão Rastejante... ABHOTH!)

Usando dinamite, os membros da expedição têm êxito em frustrar o ritual e o culto é debelado, contudo membros chave ainda conseguem escapar.

De volta à superfície é hora do grupo lidar com o desafio de encontrar o caminho de volta a civilização e sobreviver às provações de um dos ambientes mais impiedosos do planeta.

É claro que essa estória continua...

Mas antes fotos das sessões:

Pouco antes da terceira sessão de jogo ter início, uma foto para a posteridade enquanto todos os personagens ainda estão vivos e sãos.

O keeper faz seus planos atrás do screen e esfrega as mãos malignamente.

Já em meio a aventura, o grupo negocia com os guias mongóis que se refugiaram na cidade de Ehrlian por temer algo que os expulsou do deserto. Um encontro com a líder dos nômades, que se auto proclama uma feiticeira, faz com que o grupo descubra similaridades desconcertantes entre as pistas encontradas em Arkham e nesse local inóspito. "Isso não pode ser uma coincidência, simplesmente não pode!"

O keeper descreve o estranho templo encontrado nas profundezas do Deserto de Gobi. Trata-se de um templo abandonado em forma de pagode. Abaixo dele algo mais estranho e misterioso...

A descrição de um colossal animal alado seguindo o grupo à distância faz com que os jogadores comecem a temer pelo futuro de seus personagens. Para quem conhece os mythos, a mera sugestão dos Pássaros Shantak faz com que o desespero se instale na mesa.

O Keeper em um momento de interpretação teatral: "Há algo na minha cabeça! Há algo dentro da minha cabeça!". grita o monge ortodoxo pouco antes da cabeça explodir em uma torrente de sangue e miolos. O grupo já sabe que mais cedo ou mais tarde cabeças vão rolar (ou explodir!)
E eis que o primeiro jogador "beija a lona". O pobre professor Charles Arkwright Neville é vítima da peçonha venenosa de uma bizarra serpente pálida nos túneis abaixo do templo. Por pouco outros membros do grupo não tiveram a mesma sorte.


E aqui um momento de "felicidade" quando os dados mostram 00% no rolamento para disparar com o Rifle.
Entre mortos e feridos o grupo consegue completar a primeira parte da campanha com a destruição do culto detonado em uma colossal explosão na câmara onde o ritual era realizado. Abhoth estava prestes a entrar em nossa realidade recebendo sacrifícios e a adoração de cultistas fanáticos.


Uma boa imagem do Great Old One Abhoth, conhecido como Podridão Rastejante. Engole isso aberração maldita!

Mais está por vir...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Targets of Opportunity - Resenha do lançamento para Delta Green

Por José Luiz Ferreira Cardoso - Tzimisce


Targets of Opportunity é o último suplemento lançado para a clássica série Delta Green de Call of Cthulhu, ambientada em tempos modernos. Como os demais livros da linha (Countdown e Eyes Only), o livro é uma coleção de organizações, agências, seitas e facções envolvendo o Mythos em uma ambientação contemporânea (por vezes reinterpretando o papel dado a eles originalmente por Lovecraft).
Essa resenha é dividida pelos capítulos do livro. Tentei ser sucinto, mas sinto ter falhado no objetivo. É difícil falar de forma breve de livros do quilate deste (sim, é tão bom assim).

Black Cod Island

No primeiro capítulo somos apresentados a um povo nativo americano que vive em ilhas no extremo sul do Alasca, fronteira com o estado da British Columbia (Canadá). Trata-se do Black Cod People – algo como “Povo do Bacalhau Escuro” – que seriam os últimos remanescentes de nativos originários da região. Já dá para notar que temos aqui toda uma nova “Innsmouth” para os investigadores se divertirem. A diferença é que somos apresentados a uma cultura indígena diligentemente integrada e dedicada à adoração dos Deep Ones (e ao contrário de Innsmouth, bem mais sutil e inteligente em se esconder do resto do mundo). De fato, o Black Cod People é de certa forma superior aos híbridos de Innsmouth, dado os séculos de miscigenação com os horrores das profundezas.

O arquipélago local – que envolve as ilhas em torno da grande Prince of Wales Island – é totalmente descrito, com as cidades, rotas de viagens, clima, serviços e demais informações necessárias para um cenário. Tudo bem mastigado para os Keepers. A dedicação dos autores aos detalhes é ainda maior quando a saúde física dos nativos da Black Cod Island é desenvolvida (afinal, trata-se de uma colônia de Deep Ones). As mutações mais leves dos híbridos – as únicas que os nativos deixam ser vistas – são confundidas com disfunções genéticas (muito bem descritas, uma delas inclusive sendo real!).

O grande destaque do capítulo é que ganhamos finalmente o “tratamento Delta Green” dos Deep Ones (ou seja, a visão dos autores dessa lesser independent race). O resultado não decepciona e explica de forma bem interessante o motivo pelo qual os Deeps Ones podem cruzar e gerar filhos com humanos. Uma opção dos autores da linha à qual sempre considerei mais fiel ao espírito dos contos de Lovecraft (especialmente os últimos) é o tratamente de magia como “ciência hiperdimensional” (ou seja, conhecimento sobre o universo além da capacidade humana), e temos mais dele aqui. O resultado é trazer um pouco de frescor a uma das criaturas provavelmente mais batidas do Mythos.

O capítulo fecha com alguns casos que podem levar ao Black Cod People, além de novos NPCs (com direito inclusive a ilustrações do blog de um destes NPCs).

Disciples of the Worm

Esse novo culto é um exemplo arrepiante de como criar um cenário de “body horror” envolvendo os Mythos, além de lidar com a interessante (e perturbadora) questão de até onde o homem está disposto a ir para assegurar a imortalidade.

Os Disciples of the Worm (ou “Discípulos do Verme”) são uma macabra seita mencionada pela primeira vez no tomo De Vermis Mysteriis, escrito por Ludvig Prinn, que os descreve como um culto de feiticeiros sarracenos que alcançaram a imortalidade permitindo que demônios possuíssem seu corpo. A verdade é bem pior, envolvendo ritos ocultos de sodomia e a comunhão com uma raça de parasitas hiperdimensionais.

Como é tradição, os autores fornecem uma rica e detalhada história dos fundadores do culto, desde sua origem como embaixadores e mercadores muçulmanos, seu encontro com uma ordem tibetana monástica e as terríves consequências desse acontecimento. O papel da ordem ao longo da história e sua conexão com o tráfico mundial de entorpecentes (os membros da ordem precisam de grandes quantidades de drogas para controlarem as horríveis dores porque passam) também é detalhada.


O capítulo traz ganchos, propostas de cenários, novas magias e tomos, além de NPCs e criaturas. Campanhas inteiras podem ser montadas com base no culto e seus associados (dentre eles uma corporação farmacêutica) – provavelmente um dos adversários mais horripilantes e repugnantes de se enfrentar.

DeMonte Clan

Uma ótima mistura é feita aqui: ghouls e vodu. Na verdade sobre como um clã francês de ghouls exilados, com base no Haiti, que após a revolução dos escravos foge para Nova Orleans, usa o vodu como uma forma de manipulação. Outra diferença é que esses ghouls em particular se consideram uma espécie de “nobreza” da raça. Nada de catacumbas frias, buracos lamacentos e jornadas místicas para as Dreamlands – os ghouls DeMonte se vêem como aristocratas e usam de magia para se ocultarem entre humanos.

Os dois destaques do capítulo são a longa luta entre os DeMonte e a Delta Green (quem conhece a personagem Agent Nancy do livro básico do Delta Green vai lembrar), além dos detalhes envolvendo o furacão Katrina em Nova Orleans. O material serve como um primoroso exemplo de como usar um evento real para criar cenários. O nível de detalhe envolvendo a tempestade é incrível (tem até uma timeline!).

O capítulo traz o usual: novos tomos, magias e artefatos. Há também fichas dos principais membros do Clã DeMonte, além da ficha de alguns agentes da Delta Green que se envolveram com os ghouls.

M-EPIC

Aqui somos apresentados aos “irmãos” canadenses da Delta Green. Apesar de não possuir qualquer relação com a conspiração norte-americana, essa divisão secreta do governo canadense (que se esconde sob o código de “departamento M” da “Environmental Policy Impact Comission” – ou M-EPIC) possui o mesmo foco: investigações e caça a eventos e ameaças sobrenaturais. Na verdade, a M-EPIC está em campo há mais tempo que qualquer outras das agências de inteligência sobrenatural da atualidade.

O capítulo fornece mais uma forma de se unir um grupo de investigadores, com uma base operacional, recursos e uma justificativa para peitar o Mythos. De fato, toda a M-EPIC serve como um bom exemplo de como construir sua agência de caça ao sobrentural. Apesar de nem longe ser tão interessante quanto a Delta Green, a M-EPIC cumpre bem esse objetivo. Dada sua localização, boa parte da história da agência tem sido na luta contra os cultos de Ithaqua, em suas várias formas. Todavia, o capítulo traz interessantes seções onde, sem dar todas as cartas, são mencionados diversos outros casos sobrenaturais. Isso torna a leitura bem divertida para quem gosta de ir identificando criaturas e fatos do Cthulhu Mythos.

Como é tradição, há uma extensa e detalhada descrição da hierarquia, procedimentos e modus operandi da M-EPIC. Temos a relação da agência com as demais conspirações do universo Delta Green (com direito a um gancho envolvendo a agência britânica PISCES e os Insetos de Shaggai). Há também novos NPCs, com ricos backgrounds – como um serial-killer que viaja no tempo – e referências a Mythos pouco vistos (pelo menos por mim) em livros de RPG, como Tsathogga e a alquimia necromântica do romance O Caso de Charles Dexter Ward. O capítulo fecha com a ficha esquemática da agência, contendo as perícias ocupacionais típicas e um exemplo de agente pronto para se jogar.

The Cult of Transcedence

Finalmente chegamos ao grande destaque de Targets of Opportunity – o famoso Cult of Transcendence, uma seita de proporções mundiais dedicada a Nyarlathotep, cujos membros usam o poder do medo, ódio, ganância e luxúria para alimentar e acelerar a própria autodestruição da humanidade.

Prometido desde o lançamento do primeiro livro da linha, havia uma grande expectativa sobre esse material. E não é por menos, pois o Cult foi desenvolvido por Greg Stolze (autor de RPGs como Unknown Armies e Reign), enquanto que o capítulo do Targets conta com a participação de Adam Scott Glancy (da linha Delta Green) e daquele que é considerado o mestre de “todas as coisas Lovecraft” – o renomado Kenneth Hite (Rastro de Cthulhu e Day After Ragnarok).

Qual é o resultado deste gestalt criativo?

A princípio, pode-se dizer que o Cult of Transcendence é encontro entre Call of Cthulhu e os Illuminati. Todas as figurinhas marcadas estão aí: Cruzadas, Cavaleiros Templários, Maçons, Rosacruzes, aliens e abduções (aos que conhecem Delta Green: nada a ver com os Mi-Go), conspirações dentre conspirações etc.

O início da grande seita se dá com a descoberta por cruzados no Egito do famigerado P’Dwahr M’Ankanon Nyarlatathotep – um tomo que já era antigo quando “descoberto” pela primeira vez pelos magi da Hiperbórea. A história do Cult é praticamente a história das manipulações, derrotas e “iluminações” sofridas pelos seus mestres nas mãos deste macabro artefato (que, por sua vez, é nada mais do que mais uma das máscaras do Crawling Chaos). E é nesse ponto que os autores inserem o twist que torna o Cult of Transcendence tão interessante e diferente das demais seita de dominação mundial descritas por aí: os membros do Cult são tão vítimas de Nyarlathotep quanto os pobres mortais que caem em suas redes de influência. Fundado originalmente com objetivo de angariar poder temporal das grandes casas nobres da Europa através de recursos sobrenaturais, o Cult of Transcendence passa a quase totalidade da sua existência sofrendo derrotas e retrocessos para cada mísero avanço que obtém – até o dia que os seus mestres compreendem a futilidade de se tentar dominar a humanidade e, por consequência, a futilidade do ser humano “no grande esquema das coisas”. A partir daí os mestres da conspiração se dedicam em “superar” a humanidade, num processo de horror e alienação que culmina com sua ascensão – através de Nyarlathotep – para a Corte de Azathoth (daí o nome da seita).

Como sempre, são os detalhes que impressionam. Além da longa história do Cult e sua interação com o Mythos, temos também a sua extensa e piramidesca organização. A conspiração puxa sua estrutura da Igreja Católica (afinal, foi fundada por cavaleiros) e se divide em priorados, cada um dedicado a uma faceta da “natureza” humana por meio do qual o Cult canaliza sua força para encontrrar novos candidatos capazes de “transcender”. Os priorados são quatro: medo, ódio, ganância e carne (luxúria, gula etc). A filosofia pervertida do Cult alimenta essas emoções, até que a vítima, de tão distorcida e consumida, torna-se para todos os efeitos um completo sociopata – bem no espírito do velho Casto do conto de Lovecraft (a clássica citação: “The time would be easy to know, for then mankind would have become as the Great Old Ones; free and wild and beyond good and evil, with laws and morals thrown aside and all men shouting and killing and revelling in joy”). De fato, o Cult é uma forma moderna e muita bem sacada de usar este gancho sem apelar para apocalipses e outros usos descarados de sobrenatural.

Em seguida somos apresentados aos líderes do Culto: os temidos Transcended Masters, insanos e inescrutáveis, mais próximos dos Outer Gods do que de humanos; os Bishops, verdadeiros responsáveis pelo comando geral do Cult (e em tentar interpretar os comandos sem sentido dos Masters); e os Acolytes, que anseiam em tomar o lugar de seus superiores. Todos são detalhados com fichas e histórias (uns 15 personagens ao todo). Os Transcended Masters em si são cada um terror a parte (a sua mera presença já interfere com o cérebro humano de maneiras perturbadoras, mas interessantes). A hierarquia de poder do Cult supõe um conjunto de rituais de “separação” da humanidade, sendo que os Masters estão literalmente a um passo da Corte de Azathoth. Inclusive nem habitam mais totalmente o espaço tridimensional da Terra, sendo sua presença perceptível apenas na base da seita, em Estocolmo – a famigerada Vagnoptus Manor, construída por um membro distante da família real sueca e nomeada em honra do tutor (e feiticeiro) de um antigo rei daquele país. Os autores falam que “A Casa de Estocolmo” faz certos lugares, como os campos de Auschwitz, parecerem incrivelmente agradáveis. A mansão, através de sua adorável arquitetura não-euclidiana, representa uma ligação física com a Corte de Azathoth, que pode ser contemplada por qualquer investigador azarado o suficiente para olhar por certas janelas do lugar (Sanity 1d20/1d100 alguém?).

O capítulo, já extenso a essa altura, passa a detalhar os quatro priorados e as diversdas organizações “de frente”, secretamente apoiadas e financiadas (às vezes uma contra as outras) pelo Cult of Transcendence. Dado o tamanho descomunal da conspiração, temos também conselhos de como usar o Cult como um antagonista, de como trabalhar com a sua estrutura em degraus de forma a alimentar o clímax da campanha (e não se intimidar com esse objetivo). Há novas criaturas, horrendos ritos, magias (principalmente as empregadas pelos Transcended Masters) e artefatos (em especial o P’Dwahr M’Ankanon Nyarlatathotep).

Como foi escrito ao longo de mais de dez anos, o Cult of Transcendence é uma leitura de certa forma polarizada. Há trechos em que a descrição visceral (principalmente envolvendo os Transcended Masters, a Vagnoptus Manor e seus grotescos guardiões) beira para o trash. Contudo, o autor Greg Stolze confessa que esse era um objetivo – o Cult deve ser chocante. Por outro lado, a história da seita, as manipulações sutis de Nyarlathotep e a rica história de seus personagens e sub-ordens está no mesmo nível de qualidade do que se espera da equipe de Delta Green. O capítulo não é fácil de digerir, há simplesmente informação demais, então é recomendado que o Keeper vá aos poucos. A ameaça do Cult of Transcendence e a possibilidade narrativa que ele apresenta – uma porta para a humanidade literalmente se tornar como os Great Old Ones – são trunfos e vão render ótimos momentos para fãs de Call of Cthulhu.

Os Apêndices

Primeiro temos novas regras de combate (called shots, martial arts, burst fire, taking cover, supressing fire e disabling wounds). A última talvez seja a mais radical: ela dá a qualquer investigador que perca mais da metade dos seus pontos de vida em único golpe a escolha de reduzir esse dano novamente pela metade com um teste Luck. Em contrapartida, o personagem recebe um “ferimento debilitante” específico, com risco de ser permanente (perda de membros, lesões em músculos e tendões etc.). A mecânica em si é bem simples e não utiliza tabelas de críticos ou coisas do gênero. A opção fica sempre por conta do investigador (e parece a princípio um “presente de grego”, sendo realmente uma opção apenas quando a vida do personagem está na linha). As regras de called shots igualmente não usam tabelas. Por fim, as regras de artes marciais fornecem pequenos benefícios no uso de certas perícias belícas.

Outro apêndice lida com uma nova mecânica de insanidade: stress disorders. Trata-se de uma opção para casos de temporary insanity. Basicamente, ao invés de adquirir a insanidade temporária, o investigador adquire uma stress disorder. Estas possuem duração indefinida, mas são bem mais brandas que as possíveis insanidades temporárias contidas no livro básico. No final, este apêndice traz uma forma, digamos assim, menos “romanceada” e mais tradicional dos traumas mentais típicos sofridos por agentes e soldados (afinal, muitas das insanidades do livro básico batem mais com o “estilo Edgar Allan Poe” e lovecraftiano do fim do século XIX e início do XX).

O terceiro apêndice introduz duas novas e interessantes mecânicas: relationships e flashbacks. Ambas são adquiridas com pontos distribuídos na criação do personagem. Relationships funcionam como perícias e determinam a relação do investigador com determinados NPCs. Esses aliados podem ser usados como contatos, uma forma de segurar a sanidade contra o Mythos (sim galera, uma mecânica para “um ombro amigo”) ou de conseguir acesso a determinadas informações. Há riscos ao se fazer um teste de relationship e ocasionalmente o agente pode ter que se dedicar a ajudar o NPC ou corrigir alguma burrada feita na última vez em que lhe pediu ajuda. Os flashbacks, por sua vez, são a mecânica mais de “vanguarda” que já vi ser aplicada a Call of Cthulhu. Basicamente, eles dão ao investigador o direito a criar em pleno jogo um caso passado onde houve um encontro com algum ser do Mythos. O propósito? Ganhar Cthulhu Mythos (5% caso o investigador não tenha perícia, ou 1% caso contrário) e – mais importante – adquirir uma pista útil para a presente investigação (a mecânica de flashback foi, ao meu ver, a maneira dos rapazes da Pagan Publishing lidarem com o problema do “failed investigation check”, outra solução é a famoso sistema GUMSHOE do Rastro de Cthulhu). Há, obviamente, consequências: a perda de sanidade, o fato de cada investigador ter apenas um flashback (é difícil adquirir novos) e o limite de no máximo um flashback por cenário (esse limite é para o grupo todo, não por investigador). Como em todas as demais mecâncias introduzidas aqui, os autores aconselham sempre o uso do bom senso.

O quarto apêndice é um ensaio sobre DNA e sua coleta em análises forenses. Um achado extremamente útil para campanhas modernas de Call of Cthulhu (ou qualquer outro RPG, uma vez que o texto é totalmente system free).

Outra Obra-Prima

Targets of Opportunity pode ser considerado a conclusão com chave de ouro da série Delta Green (ao trazer o Cult of Transcedence, ele praticamente fecha todas as referências apresentadas no livro básico da série). O livro é em preto-e-branco e a primeira impressão (ainda a ser quando desta resenha) deve ser em capa-dura. A arte interna é na maioria das vezes feita por computador e apesar de não soltar aos olhos, acompanha de forma apropriada o clima do livro (as ilustrações que abrem os capítulos então são ótimas, como a perturbadora arte do Disciples of the Worm). Se o livro tem um defeito, este seria a ausência de um cenário (ao contrários dos demais). Mas frente aos apêndices e a joias como o Cult, este é com toda certeza uma crítica menor.

Minha dica: agarre essa belezinha se puder sem hesitação!
Abraços não-euclidianos.

terça-feira, 20 de julho de 2010

The Midnight Meat Train - Resenha do Filme baseado no conto de Clive Barker

The Midnight Meat Train é um daqueles filmes que se propõem ser uma "jornada rumo ao inferno".

A estória se passa em Nova York onde o fotógrafo freelance Leon Kauffman (Bradley Cooper) vive com sua namorada a garçonete Maya Jones (Leslie Bibb). Leon ganha a vida tirando e vendendo fotos escabrosas de crimes violentos e acidentes ocorridos nas ruas da cidade. Ele é apresentado a uma influente artista (Brooke Shields) que se mostra pouco impressionada pelo seu trabalho. Provocado a encontrar algo verdadeiramente chocante que justifique uma exposição, Leon passa a buscar alguma inspiração. Sua busca eventualmente o leva até o sistema de metrô de Nova York onde uma modelo desapareceu sem deixar vestígios. Investigando os eventos por trás do desaparecimento, o fotógrafo descobre apavorantes assassinatos cometidos por um serial killer (Vinnie Jones) que usa o metrô nos violentos crimes.

Dirigido pelo cineasta japonês Ryuhei Kitamura, Trem da Carne da Meia-Noite é baseado em uma estória curta de mesmo nome escrita pelo britânico Clive Barker. O conto foi publicado originalmente em 1984 no primeiro dos seis volumes da coleção Livros de Sangue. Quem leu o conto original (publicado aqui no Brasil na década de 90 pela Editora Civilização Brasileira) sabe que existem diferenças entre o enredo acima e o conto original. Mas isso é até justificável já que o roteirista teve de preencher uma hora e quarenta minutos a partir de uma estória de 20 e poucas páginas.

No conto Nova York é atormentada por uma série de assassinatos e um infeliz acaba sendo arrastado para o meio deles inadvertidamente ao cochilar no trem. Já no filme, o fotógrafo encontra o que estava procurando, uma estória, embora jamais pudesse imaginar no que realmente estava se metendo. Em comum a reviravolta final que explica qual o verdadeiro propósito do assassino e para onde vai o misterioso trem da carne qe transporta suas vítimas.

Sem estragar a diversão de quem não viu o filme ou leu o conto, o que posso dizer é que existe algo levemente Lovecraftiano no final, ainda que nem o conto e menos ainda o filme se refiram diretamente aos mitos ancestrais. Quando li o conto achei bastante interessante e fiz algumas anotações para transformar a estrutura central da trama em um cenário de Call of Cthulhu, mas infelizmente ele nunca saiu do papel. Uma pena, pois agora que meu grupo assistiu o filme as chances de trasformar ele em uma aventura são quase nulas. Ainda assim é interessante assistir o filme para tirar umas idéias nem que seja para inspirar algumas descrições sanguinárias.

Qualquer um que assistir ao trailer terá uma boa idéia do que trata o filme: um serial killer com uma marreta matando gente no metrô. Até aí, grande novidade! O que realmente vale a pena são os 20 minutos finais que inserem um novo e dantesco significado ao sanguinário trabalho do solitário personagem de Vinnie Jones. Curiosamente muita gente se queixou justamente do final atípico que foge ao padrão de filme de matador psicótico. Quem é familiarizado com os horrores de Lovecraft, vai entender e aceitar melhor algumas coisas que ficam em aberto no transcorrer do filme. Eu pessoalmente gostei, ainda que na versão literária as coisas sejam conduzidas de uma forma mais satisfatória.

O filme têm um bom ritmo e os elementos de mistério são suficientes para manter quem assiste intrigado e curioso para saber o que virá em seguida e como as coisas vão terminar. Não se trata de um clássico, mas para uma tarde de chuva o filme cumpre seu propósito sobretudopara quem for assisti-lo sem muita espectatíva (como eu!).

Ah sim, aqui vai um justo aviso. Trem da Carne possui algumas cenas bastante chocantes que vão agradar ao pessoal do quanto mais sangue melhor, mas que podem incomodar quem é mais sensível. Francamente, quem aluga ou compra um filme com esse título deveria estar preparado para ver sangue, morte e mutilação. As cenas dos assassinatos são extremamente gráficas e executadas com um estilo perturbador recorrendo a ótimo enquadramento e ângulos. Eu chamo a atenção para a cena em que um infeliz leva uma martelada na parte de trás da cabeça e os olhos literalmente pulam fora. Fora isso ainda existe espaço para sangue correndo em profusão, ganchos de carne usados para pendurar cadáveres, um tiro no olho, empalamentos, facadas, línguas arrancadas e outras cenas brutais executadas com equipamento de matadouro.

Com um orçamento estimado em US$15 milhões, The Midnight Meat Train não chegou a ser apresentado em cinemas, tendo sido lançado diretamente no mercado de DVD. Não deixa de ser uma pena, pois embora seja um filme de horror menor, recheado de gore, a trama é bem razoável e as atuações seguras com destaque para o matador interpretado por Vinnie Jones.

S
P
O
I
L
E
R


As criaturas no final do conto, os canibais Patriarcas que incumbem Mahogany de trazer-lhes carne ao meu ver tem uma clara inspiração lovecraftiana. Não sei até que ponto Barker se inspirou nos ghouls ao escrever esse conto mas a representação daqueles humanóides canibais vivendo nos túneis do metrô remetem quase que imediatamente a esses monstros.

Ausente no filme, mas presente no conto, os Patriarcas serviam a uma entidade tenebrosa e bizarra que vivia nas profundezas da cidade. As mortes (e a carne) das vítimas segundo o conto eram usadas como sacrifício para que essa aberração (um Great Old One???) não destruísse a cidade e permitisse que Nova York se progredisse. Eu até entendo que essa parte tenha sido limada do filme (afinal, colocar um monstro no final deixaria as coisas ainda mais bizarras) contudo no livro a explicação da tarefa do assassino e da razão de ser dos Patriarcas ficou muito bem explicada.

O filme é até legal, o conto no entanto é bem melhor. Barker sabe como ninguém descrever coisas estranhas, bizarras e perturbadoras.

Trailer:



sábado, 17 de julho de 2010

L´Empire de la Mort - As Catacumbas de Paris

por Jeff Belanger
traduzido e comentado por LP Giehl

"Avez-vous vu un fantôme?" eu perguntei ao homem na entrada no meu melhor francês, se ele já havia visto um fantasma. "Je ne sais pas," ele respondeu. O sujeito sorriu e deu de ombros. Na semana passada, passei três dias em Paris, e tive a chance de visitar as Catacumbas. Eu sabia que existiam ossos guardados em túneis abaixo da cidade, mas eu não estava preparado para descobrir quantos. Eu estava pronto para ouvir relatos a respeito de sombras se movendo e vozes fantasmagóricas se erguendo das entranhas de Paris, mas eu não preparado para a forma como a experiência fez com que eu me sentisse.

As Catacumbas de Paris são uma rede de túneis e cavernas que se estendem por mais de 300 quilômetros sob a cidade. Para construir uma cidade, você precisa de material. Os romanos foram os primeiros a retirar pedras do subsolo em meados de 60 A.C. A medida que a cidade crescia e cobria a paisagem de casas e ruas, mais e mais matéria prima se fazia necessária. Em 1180, Philippe-Auguste se tornou o Rei. Ele foi um dos maiores defensores da exploração de pedreiras na área subterrânea de Paris. Foi em seu reinado que o complexo realmente nasceu.

Nota 1 - O Monarca desejava construir muros cercando a cidade para protegê-la de invasores. Esses muros construídos com o material retirado dos subterrâneos ainda existe no entorno da parte histórica de Paris e praticamente todo o material foi retirado do subsolo de Paris.

As pedreiras subterrâneas cresceram em tamanho e complexidade produzindo material usado nas construções ao longo dos séculos vindouros. A retirada de material prosseguiu sem maiores cuidados até que os primeiros problemas começaram a surgir. No século XVIII, Paris continuava crescendo e o peso das construções passou a constituir um grave perigo uma vez que elas estavam edificadas sobre cavernas ocas.

Alguns prédios começaram a ruir e desabar nas cavernas que existiam abaixo deles. Em 4 de Abril de 1777, a Inspection Générale des Carrières foi formada para lidar com o problema, preencher ou lacrar os trechos onde havia maior risco de desabamento.

Foi mais ou menos nessa época que um segundo problema começou a atormentar os parisienses -- os cemitérios da cidade estavam lotados... realmente lotados. O Cimetière des Innocents (Cemitérios dos Inocentes) sozinho comportava trinta gerações de restos humanos. Taara, é a responsável pelo Web Site a respeito das Catacumbas. Ela contou que, "Familias costumavam pagar aos párocos para enterrar seus mortos no terreno das igrejas. Os padres aceitavam o dinheiro, mas logo não havia mais espaço para colocar os corpos. Então os religiosos decidiram criar um a espécie de depósito para os mortos que ficaram conhecidos como "charnier' [mass grave = cova comum]. Os cadáveres eram ali colocados, todos juntos num único e grande buraco cavado."

Nota 2 - Na época, poucos corpos eram colocados em caixões, pois poucos podiam arcar com esse luxo. A maioria dos cadáveres eram envolvidos em um saco de tecido cru que era então costurado. Sob os corpos era aplicada uma camada de cal virgem para ajudar na desintegração da carne fazendo com que restasse apenas os ossos.

"A medida que a cidade emergente cercava os cemitérios, não havia mais lugar para enterrar os mortos senão uns por cima dos outros. Em Cemitérios como o dos Inocentes, que continuavam recebendo cadáveres, o chão se elevava a até três metros de altura com a quantidade absurda de corpos ali depositados. O fedor era um tormento para aqueles que viviam nas proximidades. Em tempos de chuvas, as coisas eram ainda piores: as enchentes arrastavam corpos apodrecidos para as ruas. Doença e pestilência proliferavam entre os residentes dessas regiões".

Nota 3 - Paris é abastecida por rios subterrâneos e fontes de água naturais. O material depositado nos cemitérios contaminava o suprimento de água e era responsável por inúmeras doenças além da prolieração de ratos.

A decisão de esvaziar os cemitérios não foi muito popular, mas foi a medida necessária para salvar Paris de seus mortos. O local escolhido para depositar os restos foi o sistema de túneis que também constituía uma ameaça para a cidade. A medida resolveria ambos os problemas. Em 1785, os ossos começaram a ser movidos para os subterrâneos em massa, as velhas pedreiras se tornaram seu local de descanso.

Nota 4 - Encontrei uma descrição bastante mórbida sobre como os ossos eram transportados do cemitério para as catacumbas. Eles eram levados em grandes carroças cobertas com uma lona preta, sempre à noite, pois ninguém queria topar com essas carroças e seu conteúdo assustador. Os Parisienses acreditavam que se uma dessas carroças parasse ou quebrasse em frente a uma casa, era sinal de que alguém ali morreria em breve.

A primeira pedreira que recebeu os ossos ganhou o nome de 'Carrière de la Tombe Issoire.' Perturbar os mortos é um tabu universal. Muitas culturas acreditam que os mortos devem ser deixados em paz, e muitas religiões prestam rituais e cerimônias visando garantir um lugar de descanso para seus entes queridos. Entretanto, os vivos tem preferência.

Nota 5 - Antes dos restos começarem a ser transportados, seis padres responsáveis por paróquias próximas foram convocados para rezar uma missa coletiva no local onde os ossos seriam depositados. As passagens das cavernas foram abençoadas e até mesmo uma carta do Bispo de Paris foi escrita para tranquilizar as pessoas de que o trânsito dos ossos não importava em heresia. Os mais supersticiosos temiam que o Paris fosse amaldiçoada pelos mortos e muitos habitantes se mudaram da cidade.

Em um ensolarado dia de outono, eu visitei o museu da Catacumba localizado em Denfert-Rochereau na seção Montparnasse de Paris. Por cinco Euros, eu pude descer e explorar as catacumbas. Desci 130 degraus e uma rampa em espiral que me conduziu à 20 metros abaixo da superfície. Primeiro encontrei duas salas cheias de fotografias com imagens de antigos rabiscos deixados nas paredes desde a criação dos túneis.

Nota 6 - Esses rabiscos e pichações são bastante curiosas e algumas fazem parte da exposição do museu. Ao longo de sua existência esses túneis foram usados como esconderijo de bandidos e como morada de vagabundos. No romance de Victor Hugo, "Les Misérables" o complexo é citado, o escritor teria visitado os túneis várias vezes.

Após passar pelas duas pequenas salas, eu realmente adentrei as Catacumbas. O teto nos túneis é rebaixado variando entre 1,80 e 3,20 de altura. A iluminação é bem fraca, mas meus olhos se ajustaram rapidamente. Poucas pessoas visitavam o lugar na ocasião. Eu passei por um jovem casal que carregava uma lanterna elétrica e lançava a luz para apreciar os cantos. Eu observei a textura e contornos das paredes e ouvi o som do cascalho sob a sola de meus sapatos. O único som ocasional era o drip-drip vindo de algum lugar ao meu redor -- parte do teto coleta água, e quando o acúmulo se torna pesado acaba pingando no chão.

Vi alguns entalhes e graffiti cobrindo as paredes mas não consegui ler, mesmo assim segui em frente. O túnel fez uma curva de 90-graus para a direita, e resolvi andar mais rápido. Parecia que eu estava em um túnel normal, nada mais. Comecei a imaginar se estava no lugar certo. Depois de mais alguns túneis, para a direita e esquerda, eu me aproximei de um pilar pintado emoldurando uma estreita abertura. Ali havia uma placa onde se lê: Arrete! C'est ici L'Empire de la Mort -- "Pare! Este é o Império dos Mortos."

Nota 7 - Essa placa foi colocada pelas autoridades de Paris para afastar os curiosos antes do complexo ser aberto para a visitação pública. O local se tornou uma "atração turística" a partir de 1867, mas mesmo antes disso ele era procurado por curiosos. A morte e as vissicitudes da condição humana sempre atraíram público. O complexo fechou temporariamente em 2009, após um incidente de vandalismo, mas foi reaberto no mesmo ano por clamor da população.

Em virtude da diferença entre a luminosidade do túnel onde eu estava e da câmara adiante eu não conseguia enxergar direito o lugar. Fiz uma pausa e lentamente entrei no Ossuary of Denfert-Rochereaux.

Nota 8: O nome original da entrada para as Catacumbas era "Porte d'Enfer" (Ou Portão do Inferno), ele foi mudado no século XVIII. O nome é curiosamente anterior a utilização dos túneis como ossuáro.

A passagem do corredor tem algo entre 1,80m e 2,30m de largura e as paredes possuem pilhas de ossos e crânios. Na entrada essas pilhas de ossos chegam a 1,20 de altura. As órbitas vazias dos crânios saúdam quem entra. Já dentro da sala eu parei para olhar ao meu redor. Ossos recobriam toda a superfície da câmara, nada a não ser ossos e crânios até onde a escuridão do túnel, permitia a vista alcançar. Dentro da Catacumba inteira, existem mais de seis milhões de cadáveres -- apenas os ossos. Não sei dizer ao certo quantas milhares de pessoas estao depositadas no trecho de 1,7 quilômetros abertos a visitação pública. Em diferentes seções, os crânios formam padrões de cruzes feitas de crânios, corações, arcadas, e outras formas geométricas.

Nota 9 - Além dos restos mortais, os primeiros arquitetos da cripta usaram as lápides dos cemitérios para guarnecer as paredes e o piso, mas estas foram retiradas na época da Revolução Francesa (1789) para serem reutilizadas. Casos de roubos nas catacumbas são relativamente raros, embora ossos tenham sido alegadamente surrupiados por estudantes de medicina no século XVIII e XIX.

As pilhas de ossos são intrincadas, simétricas e extremamente macabras. Eu tentei imaginar como as pessoas que empilharam aqueles ossos devem ter se sentido. Despejar milhões de restos humanos em um túnel 20 metros abaixo do chão não me parece algo muito respeitoso. Talvez o trabalho meticuloso em arranjar os restos em um padrão quase artístico tenha sido a maneira com a qual os operários concederam alguma dignidade e beleza aos mortos.

Nota 10 - Muitos dos operários que trabalharam nas Catacumbas, tiveram garantido o direito de serem enterrados em cemitérios normais. Alguns poucos, no entanto, pediram que seus restos fossem colocados nas catacumbas. Os últimos cadáveres transferidos para o subterrâneo de Paris foram os indivíduos mortos nos distúrbios da Place de Grève em 1788.

O lugar que eu visitei era o Museu oficial da Catacumba -- os túneis mais adiante estão fora da rota de visitas, pois os turistas podem se perder ali dentro. Os 1.7-quilômetros que se estendem a partir do museu oferecem uma visão de apenas uma pequena fração do que é o sistema de túneis. Há ossos depositados em outras seções também. Taara contou que, "nas catacumbas fechadas, os ossos não se encontram depositados como nos túneis abertos à visitação. Eles não são tão organizados. Os ossos são simplesmente acumulados ao longo das galerias. Então você tem que rastejar e andar sobre eles. É uma sensação muito estranha, mas depois que você se acostuma, não é muito diferente de andar sobre pedras." Taara quando era mais jovem explorou esses túneis várias vezes. Mesmo com seu trabalho e família, ela ainda visita as catacumbas pelo menos uma vez por mês.

Nota 11 - Os túneis fora do circuito do tour são proibidos para o público, contudo isso não impede que curiosos desçam com o objetivo de explorar o lugar. A polícia parisiense prende e multa em média 100 pessoas anualmente invadindo esses corredores.

Em diferentes trechos dos túneis, existem placas que sinalizam de qual cemitério vieram aqueles restos, junto com a data em que eles ali foram colocados. O processo teve início em 1785, e a seção mais recente que encontrei é de 1859. O processo de transporte dos corpos para as catacumbas foi incessante, e durou pelo menos 70 anos para ser concluído.

Nota 12 - Um dos planos era usar os túneis para receber um fluxo constante de restos mortais, mas a expansão acelerada da cidade permitiu a criação de novos Cemitérios mais afastados do centro que sanaram o problema.

Taara comentou, "Você pode encontrar ossos em praticamente todo o complexo de túneis. A coisa mais interessante a respeito das pedreiras é que elas são testemunhas de grande parte da história de Paris. Por exemplo, você ainda pode ver vestígios da Revolução ou de períodos importantes como a Segunda Guerra Mundial. Você pode encontrar vários lugares com arquitetura fabulosa, o tipo de coisa que marcou cada época e que não se encontra mais. Portanto é realmente um lugar especial, e ficamos orgulhosos de saber que ele está logo abaixo de nossos pés. Muitas pessoas, franceses inclusive, não desconfiam que existe outra Paris sob Paris".

Nota 13 - Durante a Revolução o complexo subterrâneo serviu de esconderijo e rota de fuga para nobres que tentavam escapar da perseguição. Mendigos que viviam no local ficaram ricos escoltando nobres através dos túneis e para longe da plebe sanguinária. Na Segunda Guerra, membros da Resistência que enfrentava a ocupação nazista também usavam os túneis como ponto de encontro. Os alemães por sua vez construíram um bunker subterrâeo abaixo do Lycee Montaigne que era usado como depósito de armas e munições.

Eu encontrei outros americanos visitando o museu e perguntei a eles o que acharam: "É impressionante, todos esses ossos nas paredes" disse Julie Hardman de Tempe, Arizona. Hardman estava lá com sua filha, Megan. Um guarda de segurança que pediu para não ser identificado comentou, "Algumas pessoas vem aqui em baixo e ficam muito assustadas depois de ver os ossos. Alguns dizem que ouvem coisas. Vozes".

Nota 14 - Até a década de 70, a visita das Catacumbas era vedada a menores de 14 anos pois considerava-se que o conteúdo poderia ser chocante para crianças. A visitação hoje é aberta, desde que menores estejam acompanhados ou sob a supervisão de um adulto.

Próximo do fim da visita, parei novamente para lembrar a mim mesmo que todas aquelas pessoas um dia tiveram nome. Cada um deles era uma pessoa, um indivíduo. Eu não conseguia pensar em nada que pudesse fazer para reconhecê-los dessa forma. Não havia nada que eu pudesse dar em sinal de respeito. Eu rezei em silêncio e retornei para a rampa em espiral em direção à saída. Enquanto examinava minhas anotações, gravações e fotografias, percebi que tudo o que eu podia fazer era contar essa estória.

Aqueles seis milhões de indivíduos sacrificaram seu descanso eterno para que Paris pudesse prosperar. Os ossos de nobres estão misturados aos de camponeses, famílias inteiras se reencontraram com os ossos de seus ancestrais, e eu andei em meio a eles. Trinta gerações falando para cada visitantes em uma única e coletiva voz.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Servo de Cthulhu - O Oráculo de Oito Braços


Ok, era inevitável...

Recebi mensagens perguntando porque o Mundo Tentacular estava deliberadamente ignorando as incríveis profecias do mais famoso vidente da atualidade, o Polvo Paul. Depois de refletir um pouco cheguei a conclusão de que tamanhas capacidades divinitórias não poderiam passar em brancas nuvens.

Não ao menos em um Blog com "Tentacular" no nome...

Então eis aí um justo tributo a incrível, notável, impressionante sensação da Copa do Mundo 2010, o Polvo Paul. Que se bobear saiu da competição como a figura mais popular e comentada. Agitando seus pseudópodes ele deixou a tranquila vida de atração menor do aquário da pequena cidade de Oberhausen, na Alemanha para ganhar fama e prestígio mundial.

Paul não apenas apontou o time vencedor na final da Copa do Mundo. Não... o elástico Oráculo de oito braços deixou milhões ao redor do mundo sem fôlego ao escolher corretamente a vitória da Alemanha sobre a Argentina, Inglaterra, Gana e a inesperada derrota do país pela Sérvia. Correndo o risco de se transformar em uma Paella ele teve a coragem de anunciar a derrota da Alemanha para a Espanha. E também a vitória da Alemanha sobre o Uruguai na decisão do terceiro lugar. O que poucos sabem é que as habilidades de Paul já eram conhecidas, durante a Euro Copa de 2008, quando ele acertou corretamente o resultado de 5 entre 6 jogos da seleção alemã.

Após ganhar fama pelos seus prognósticos, o Aquário de Oberhausen recebeu ofertas para vender o invertebrado de dois anos e meio por 30 mil euros. Enquanto estuda propostas e revisa seu Facebook (sim, ele têm isso!), o simpático cefalópode se prepara para viajar. Ele recebeu um convite para participar do Festival do Polvo, promovido em uma cidade da Espanha onde ele será o convidado de honra.

Seus tratadores afirmam que Paul está lidando bem com a fama e que ela não mudou em nada seu modo de vida.

* * *

Mas aparentemente alguns já descobriram qual o segredo por trás das profecias de Paul.



Nyarly disse tudo: "Milhões de cultistas hipnotizados usando flautas blasfemas, grandiosos templos, cerimônias impressionantes. Talvez esteja na hora de arranjar um novo chefe".

All Hail the New Sultan!!!!

terça-feira, 13 de julho de 2010

A Lenda do Corpo de Sangue - As Profecias dos Ghouls

"E do corpo do homem tirei o sustento para minha vida:
De sua carne me fartei,
Seu sangue saciou a minha sede,
Sua pele serviu para me proteger da noite fria,
Com seus órgãos e ossos fiz apetrechos e ferramentas,
E assim vivi a vida de um ghoul".

Cultes des Ghouls - Capítulo Primeiro - A Respeito dos Devoradores de Mortos

Com base no livro The Realm of Shadows por John W. Crowe.

O Cultes des Goules possui em suas páginas uma infinidade de informações a respeito dos ghouls e de suas atividades. Contudo o livro se mostra ainda mais valioso para magos e estudiosos dos Mythos de Cthulhu que conhecem os segredos encerrados nele.

Acredita-se que o Cultes des Goules possui uma série de segredos ocultos em seus textos que podem ser decodificados através de um código críptico conhecido por poucos. Se o código correto for empregado, o leitor encontra aquilo que os ghouls convencionaram chamar de o Corpo de Sangue.

Estas profecias preditas na época em que o livro foi escrito faz parte da sabedria compartilhada oralmente pelos ghouls e diz respeito a acontecimentos importantes da humanidade preditos no início do século XVIII. Assim como as Centúrias de Nostradamus, o Corpo de Sangue foi escrito sem revelar exatamente a natureza dos acontecimentos, ainda que estudiosos tenham interpretado vários trechos correlacionando as profecias com momentos marcantes da história humana.

O "Corpo de Sangue" é uma metáfora que usa o corpo humano -- seus órgãos e partes -- relacionando-os com eventos de suma importância. Abaixo as Profecias:

"Venha. Eu lhe contarei a fábula do CORPO DE SANGUE. O Corpo é hoje uma criança. Ele irá atingir sua maturidade daqui a trezentos anos. Até lá, ele crescerá parte por parte. Eu lhe contarei a respeito de cada uma de suas partes.

Os TESTÍCULOS irão inchar com o leite do Deus Carpinteiro que irá semear terras e atravessar mares. Mas uma vez gasto, ele irá secar e se retrair como um cadáver de três meses.
[Refere-se ao declínio da Igreja Cristã na Europa]

O PÊNIS atravessará os mares para chegar até novas terras. Mas ele também irá secar e retrair. Este será o último grande ato da religião do Deus Carpinteiro.
[O fim do Puritanismo no Novo Mundo]

A GARGANTA será cortada e os Homens Coroados cairão de seus tronos no chão frio. A plebe irá se rejubilar e por um instante o mundo ficará em suspense.
[A Revolução Francesa]

Os OLHOS sabiamente verão tudo isso, e irão recair sobre noções de justiça, liberdade e tolerância. Eles irão abraçar esses valores, e abrir as portas para uma época de tolerância.
[A Democracia nas nações]

A PELE será lacerada pela lâmina atroz. A morte excitará meu povo como a muito não fazia, a neve será manchada de sangue no Leste, os campos ficarão negros e os mares revoltos pelas tropas a marchar.
[As Guerras Napoleônicas]

O OUVIDO irá escutar o tropéu do cavalo pelo campo de batalha. O grande líder terá retornado! Ele será ensurdecido pelo brado dos homens a caminho da guerra, pelo troar de poderosas armas e pelo lamento dos feridos.
[O Retorno de Napoleão]

O PULMÃO irá absorver a fumaça ocre que ascenderá aos céus nublando o sol. Os homens serão sufocados pelo vapor escuro da ganância e da cobiça. Muitos sofrerão com essa situação enquanto a fortuna se apresentará para uns poucos.
[A Revolução Industrial]

O NARIZ irá se tornar encurvado e cruel procurando qualquer sinal de contágio e corrupção. Ele irá se torcer em desdém, ainda que ele mesmo seja corrupto. Sifilítico, ele irá apodrecer e cair.
[A Ascenção e queda da Sociedade Victoriana]

A BOCA irá se abrir para o derradeiro banquete. Os campos e fazendas se transformarão em cemitérios repletos de cadáveres insepultos. Meu povo irá se fartar como nunca.
[A Grande Guerra]

Os PÉS irão fugir do banquete e marchar para casa. Eles irão seguir em massa aqueles que hão de destruir e reconstruir a grande nação. Darão as boas vindas a repressão e controle em nome de uma nova doutrina.
[A Ascenção do Bolchevismo na Rússia]

O FÍGADO será saciado. O que ele não puder ter pelo direito será obtido pela força. Ele irá crescer gordo e pustulento com a riqueza e corrupção.
[Os Anos 20 e a Proibição]

Os DENTES baterão à noite pelo frio e durante o dia rangerão de fome. Eles irão apodrecer por dentro e serão arrancados em meio a tumultos, caos e desordem.
[A Crise de 29]

MÃOS agarrarão a garganta da Europa e clamarão a vida das nações para si. Elas irão apertar até esmagar qualquer resistência e por anos governarão.
[O surgimento do Fascismo na Alemanha e Itália]

A FACE ficará marcada pela cobiça e será ferida pela violência. Um segundo grande banquete será servido e os OLHOS e MÃOS lutarão sem parar.
[A Segunda Guerra Mundial]

A LÍNGUA irá lamber toda a vida em meros segundos. Ela irá destruir nações com uma torrente de fogo destrutivo. Após sua passagem o mundo será coberto por medo e paranóia.
[O Terror Atômico]

O SOPRO não será quente, mesmo assim será longo e nauseante. Os OLHOS e os PÉS se encontram em diferentes extremos do Corpo de Sangue e um não poderá tolerar o outro.
[A Guerra Fria]

As UNHAS irão arranhar linhas em um mapa. Elas irão dividir nações e criar novas fronteiras contestadas e disputadas por povos irmãos.
[As Guerras da Coréia e Vietnã]

A BARRIGA irá roncar reclamando das privações impostas e dos vermes que crescem em seu interior. As entranhas serão abertas e expostas para que todos possam ver a podridão de seu interior.
[Escândalos e mudanças nos anos 60]

Os JOELHOS irão se dobrar trêz vezes ao dia para que o homem venere seus falsos deuses. Eles serão feridos mas nem isso impedirá que se arqueiem em fanática adoração.
[A Revolução Islâmica]

Os BRAÇOS serão estendidos e um acordo será obtido. O SOPRO irá cessar quando os PÉS não puderem mais sustentar aquilo que criaram. Os instrumentos de repressão e controle irão apodrecer e não haverá pecado.
[O Fim do Comunismo]

O grande CORAÇÃO negro irá bater cada vez mais rápido. A humanidade crescerá livre e selvagem além do bem e do mal, com leis e moral colocadas de lado. Homens irão gritar nomes esquecidos e aos poucos suas batidas irão silenciar.
[O Fim dos Tempos]

Mais do que isso eu não poderei dizer, o Corpo de Sangue tem muitas partes, e essa fábula ainda não terminou. Minha parte, contudo está concluída.

domingo, 11 de julho de 2010

Páginas dos Malditos - Folheando o Cultes des Goules


"Alguns irão rotular meu trabalho de blasfêmia; eu apenas escolhi explicar certas ações e crenças, que Deus seja o Juiz de todos nós e decida se eu estava certo ou errado".

François-Honoré-Balfour, 1703

O Cultes des Goules surgiu em Paris em meados de 1680. Seu autor, Antoine-Marie Augustin de Montmorency-les-Roches, Conde d´Erlette, foi um nobre francês versado no estudo do ocultismo e envolvido no Escândalo dos Envenenadores, no qual nobres de grande reputação se viram acusados de assassinato e magia negra. O livro versava sobre um culto secreto no submundo parisiense. O conde nunca foi acusado formalmente, mas segundo rumores ele desapareceu por ordens do próprio Rei. O Culte des Goules escrito por Antoine-Marie circulou na forma de manuscrito em círculos de estudiosos em Paris, mas jamais foi publicado.

Um Conde da mesma linhagem chamado François Honoré-Balfour, herdeiro de Antoine-Marie descobriu o manuscrito original na biblioteca do Chateau Montmorency em 1701. Balfour também era um estudioso do oculto e teria acrescentado novos capítulos ao livro publicado em 1703, em uma tiragem de 400 exemplares.

Logo após ter sido concluído, autoridades clericais denunciaram o conteúdo profano do livro e exigiram o recolhimento de todos os exemplares. A gráfica onde o livro foi impresso foi incendiada e várias cópias destruídas. Um pequeno número de exemplares entretanto sobreviveu ao fogo chegando às mãos de colecionadores. O status aristocrático de Balfour o eximiu de julgamento ou punição. Até onde se sabe, Balfour jamais escreveu novamente e passou os vinte anos finais de sua vida em isolamento.

No manuscrito original, Antoine-Marie descreve sua participação em um culto secreto que agia nos subterrâneos de Paris. O trabalho se refere também a aspectos da necromancia e necrofilia praticados na França. Embora a prática de roubo a sepulturas não fosse incomum na época, Antoine-Marie descreve o culto como uma congregação de ladrões e violadores de túmulos, que ele identifica como "goules".

Os Goules, segundo o livro habitavam as antigas catacumbas da cidade e praticavam rituais onde glorificavam a morte e a corrupção. Práticas e cerimônias envolvendo necrofagia, necrofilia e leitura do futuro usando partes de cadáveres são descritas no livro. A iniciação da sociedade secreta envolvia atos repulsivos como copular com cadáveres, vestir sua pele e beber sangue humano. Cerimônias igualmente medonhas são descritas, tais como o ritual que busca reanimar partes de cadáveres ou fazer com que espíritos revelem segredos do além. Embora as descrições contidas no livro sejam vívidas e ricas em detalhes, evidências que comprovassem de fato a existência do Culto nunca foram encontradas.

Informações sobre cabais de feitiçaria, magia negra e licantropia também fazem parte do livro. Os capítulos que versam sobre esses temas parecem ter sido adicionados por Honoré-Balfour que tomou cuidado de censurar seu envolvimento direto com essas práticas. O livro menciona Nyogtha, Shub-Niggurath, Mordiggian e obviamente os ghouls.

Para muitos estudiosos dos Mythos de Cthulhu, o Cultes des Goules é a obra mais completa a respeito dos ghouls, constituíndo um verdadeiro tratado sobre essas criaturas nefastas. Após a morte de Honoré-Balfour uma edição expurgada chegou a ser publicada em Rouen em 1737. Cópias manuscritas em italiano e espanhol também são conhecidas, contudo essas versões são bastante incompletas ou censuradas.

Sabe-se da existência de pelo menos quatorze cópias do Cultes des Goules impresso em francês. A acusção de que Honoré-Balfour possuía três volumes encadernados com pele humana jamais foi provada. Uma dessas cópias pode ser achada na Biblioteca da Universidade Miskatonic, outra existe na coleção do Starry Wisdom Cult em Providence e uma terceira se encontra na Biblioteca particular de Titus Crow (embora esta tenha sido supostamente destruída). Um certo estudioso chamado Lazarus Garvey teria feito a tradução de trechos do livro para a língua inglesa, antes de desaparecer no Himalaia.

Há rumores de que um volume pertenceu a Donatien Alphonse François, o notório Marquês de Sade e que o texto teria causado uma forte impressão no nobre. Para alguns, o Cultes des Goules foi responsável pela obsessão de Sade por torturas e perversões.

François-Honoré Balfour, le troisième Comte d´Erlette (1678-1724)

Pouco se sabe a respeito da vida de François-Honoré Balfour, o terceiro Conde d'Erlette. As poucas informações que se tem a respeito, o descrevem como um nobre excêntrico que visitava seu vilarejo natal de Erlette próximo de Vyones em Averoigne.

Rumores sobre relacionamentos do Conde e estórias de alcova afirmam que François era um verdadeiro devasso que visitava Paris em busca de prazeres obscenos nos mais sórdidos bordéis. Embora o Conde publicamente negasse seu envolvimento direto com o culto descrito no Cultes de Goules, a maioria dos especialistas crê que ele era um membro ativo da sociedade e que havia passado pelas mesmas iniciações que ele próprio chamava de bestiais.

D´Erlette se afastou após a publicação do livro e dali em diante passou a viver como eremita nos arredores de Erlette. No início de 1724, o Conde desapareceu, quatro dias depois seu filho encontrou seu corpo desmembrado e parcialmente devorado na propriedade da família. Em seu testamento, foi estipulado que o corpo deveria ser depositado em um caixão de bronze e enterrado em uma cripta de pedra. Honoré dizia que isso livraria seus restos mortais do vilipêndio daqueles que tinham motivo para detestar seu trabalho. Tudo indica que seus detratores o alcançaram ainda em vida.

sábado, 10 de julho de 2010

Devoradores de Mortos - Anatomia dos Ghouls


“Aquelas figuras não eram inteiramente humanas, apenas aparentando ser dotadas de algum grau de humanidade. Eles tinham feições canídeas e uma aparência bestial transbordando maldade”.

"Pois um ghoul é um ghoul, e na melhor das hipóteses um companheiro desagradável para um homem".

The Dream Quest of Unknown Kadath

Ghouls estão entre os monstros mais conhecidos incorporados por H.P. Lovecraft aos Mythos de Cthulhu. Um ghoul é a terrível criatura que serve como modelo para o pintos Richard Pickman no conto de mesmo nome. Em "A Procura de Kadath" é Pickman e outros ghouls que Randolph Carter encontra em sua jornada pelo mundo dos sonhos. Desde então ghouls são figuras recorrentes na literatura dos Mythos de Cthulhu aparecendo em inúmeros contos.

A versão de Lovecraft para os ghouls é inspirada no mito árabe dos ghûls mencionados nas "Mil e uma noites". Segundo os relatos árabes, o ghûl possui forma humana, mas aparência facial monstruosa que remete a um cão. Eles assombram cemitérios e mausoléus alimentando-se de cadáveres recentemente enterrados e tentando iludir andarilhos que acabam caíndo em suas garras.

Segundo Lovecraft, os Ghouls são criaturas diabólicas, humanóides com patas traseiras em forma de cascos fendidos, aparência canina e garras afiadas. Existem ghouls menos bestiais que possuem um semblante mais humano com pés relativamente comuns, uma mandíbula normal e consideravelmente menos pêlos no corpo. Alguns podem se passar por humanos, caso vistam roupas pesadas que disfarcem seus traços animalescos. Estes indivíduos eram originalmente seres humanos que ainda não atingiram o estágio final de mudança.

Ghouls tem um corpo esguio e musculoso, os exemplares mais desenvolvidos são em geral mais fortes e ágeis que o ser humano médio. A estatura deles varia entre 1,50 m e 1,85 m, podendo os indivíduos mais altos atingir até 2 metros de altura e pesar 150 quilos. Ghouls são também mais rápidos, eles podem se deslocar eretos ou usando os braços para se movimentar velozmente, de forma similar aos gorilas. Para essa função, ghouls são dotados de braços mais longos que o normal. As pernas musculosas dos ghouls também permitem que eles saltem a uma distância de até 5 metros e a uma altura de até um metros e meio saindo de um ponto estático.

Os ossos dos ghouls são consideravelmente mais densos do que os de humanos, assim como a pele e músculos que se mostram bem mais resistente. Há indícios de que ghouls possuem duas camadas epidérmicas protetoras o que ajuda a preservar sua integridade evitando ferimentos profundos. Ghouls são reconhecidamente resistentes a disparos de armas de fogo e apenas munição de grosso calibre é capaz de atravessar sua pele. Relatos a respeito de ghouls alvejados que se levantam para continuar lutando comprovam a resistência sobre-humana dessas criaturas.

Os órgãos internos e funções corpóreas de humanos e ghouls se assemelham bastante. Ghouls são capazes de ficar vários minutos sem respirar, talvez seja uma defesa natural surgida para compensar a falta de ar ou bolsões de gases tóxicos comuns em ambientes subterrâneos. Relatos afirmam que eles são virtualmente imortais por idade, contudo é mais provável que eles tenham uma expectativa de vida bastante longa beirando os 300 anos. Espécimes que eram originalmente humanos vivem consideravelmente menos, algo em torno dos 150 anos.

O idioma dos ghouls é descrito como uma série de rosnados e ganidos ininteligíveis. Assim como acontece em algumas linguagens o tom e a inclinação são de grande importância, determinando as sutiliezas do linguajar. Não se sabe ao certo se os ghouls possuem um idioma único compartilhado por toda espécie, mas embora seja aceitável a existência de diferentes dialetos, todos decorrem de uma mesma raiz linguística. É possível um humano aprender a estrutura frasal dos ghouls, mas compreender as nuances idiomáticas pode demorar anos.

Ghouls são plenamente capazes de se manifestar em idiomas humanos, ou ao menos entender a língua falada no local que habitam. Aqueles que eram originalmente humanos e que conheciam outros idiomas retém esse conhecimento após a transformação.

Poucas sociedades ghouls possuem acesso a escrita. O caráter secreto de sua existência faz com que os ghouls produzam poucas evidências de sua sociedade. Eles não costumam possuir livros que relatem sua estória ou realizações, para essa função, as sociedades ghouls mais desenvolvidas possuem indivíduos incumbidos de guardar e compartilhar os segredos do bando, sua estória, suas realizações e sua biografia. Esses indivíduos são de suma importância para manter a coesão do bando. Como ocorre em muitas sociedades primitivas, o conhecimento é compartilhado oralmente e disseminado entre todos os componentes do bando quase de modo ritualístico.

Contudo ghouls possuem artefatos com um simbolismo próprio. Esses objetos geralmente são construídos com componentes orgânicos como ossos, cabelo, tendões, dentes... podem ser itens que pertenceram a líderes mortos, feiticeiros humanos ou criaturas dos mitos abatidas e reverenciadas. Esses artefatos representam a unidade do bando e são de suma importância em rituais e cerimônias.
Ghouls tem um íntimo conhecimento das entidades e divindades dos Mitos de Cthulhu. Isso permite que eles sobrevivam incólumes às incômodas verdades relacionadas a existência e ao despertar dos Antigos. Se por um lado eles são imunes a perda de sanidade decorrente da exposição aos mitos, por outro suas existências são marcadas por um seentimento de profundo fatalismo.

Raramente ghouls reverenciam entidades dos Mitos como seus deuses, no entanto cultos de ghouls perseveram, sobretudo aqueles devotados a entidades das profundezas da Terra como Nyoghtha, Abhoth e Shudde-Mel. Outras entidades respeitadas pelos ghouls são Yibb-Tstill e Mordiggian. Este último possui aquilo que está mais perto de ser compreendido como uma religião estruturada conhecido como "Culto do Deus do Abatedouro".

Ghouls podem aprender magias e rituais, mas raramente fazem uso das disciplinas arcanas. Algumas sociedades de ghouls consideram esse aprendizado um tabu e proíbem qualquer um de se aprofundar nesses mistérios. Entretando ghouls dominando feitiçaria não são totalmente desconhecidos, indivíduos que gozam de status semelhante ao de shamans permeiam a sociedade ghoul sendo igualmente respeitados e temidos. Curiosamente ghouls não vêem impedimento em associar-se a feiticeiros e bruxos humanos que os tem muitas vezes como servos e aliados.

Hábeis escavadores, Ghouls possuem um senso natural no que diz respeito a técnica de cavar e construir túneis subterrâneos. Embora sejam capazes de usar ferramentas nessa função, ghouls tendem a utilizar as mãos e patas para essa tarefa específica.

Ghouls são perfeitamente adaptados a vida nos túneis. Seus olhos compensam a ausência de luz e eles são capazes de ver perfeitamente na escuridão. A visão dos ghouls se assemelha a visão de gatos e seus olhos emitem um leve brilho quando refletem luminosidade. Ghouls também são capazes de sentir as menores alterações no deslocamento de ar em seus túneis, como aquela provocada pela abertura de uma porta.

Os sentidos dos ghouls são comparativamente mais sensíveis que os humanos. Seu olfato é muito sensível, eles são capazes de sentir cheiros a uma distância de vários metros. Ghouls possuem uma espécie de memória olfativa que lembra a eles diferentes cheiros que são relacionados a pessoas e lugares. Um ghoul pode reconhecer um indivíduo apenas pelo cheiro. Reza a lenda que alguns deles são capazes de determinar se uma pessoa está falando a verdade ou mentindo com base apenas no odor corporal. O odor do medo segunda lendas enfurece os ghouls que se sentem compelidos a matar quando farejam esse sentimento.

Contudo, o olfato dos ghouls é muito mais apurado quando eles buscam por alimentos, leia-se carne putrefata. Um ghoul é capaz de farejar um cadáver em decomposição a quilômetros de distância e localizá-lo usando apenas o faro. A precisão de um ghoul em busca de alimento é comparável a de um cão perdigueiro. Na sociedade ghoul, aqueles que possuem o olfato mais desenvolvido são chamados de "Farejadores" e ocupam um papel de destaque na unidade familiar. O farejador afinal é aquele capaz de localizar alimento necessário para a existência do bando.

A audição dos ghouls é refinada por sua existência nas câmaras profundas e corredores subterrâneos sempre silenciosos. Eles são seres em perpétuo estado de alerta podendo captar ruídos à grande distância. Essa qualidade ajuda os ghouls a escapar quando humanos estão nas imediações. A sensibilidade auditiva por vezes pode ser uma desvantagem para os ghouls que reagem com confusão quando expostos a ruídos ultra-sônicos.

Notavelmente imundos, ghouls costumam exalar um fedor ofensivo que remete a terra remexida, odor corporal e podridão. O cabelo crespo e grosso (semelhante a crina de cavalos) que recobre o corpo dos ghouls jamais é limpo e a existência nos túneis subterrâneos, repletos de bolor, terra e detritos orgânicos favorece a proliferação de parasitas como piolhos e pulgas em quantidade epidêmica.

É dito que abaixo de toda grande cidade erguida pelo homem, existem complexos habitados por ghouls. Estes servem como morada e como uma rota segura para que as criaturas possam transitar fora da influência da humanidade. Embora ghouls evitem o contato direto com humanos, são intimamente dependentes deles visto que subexistem dos corpos depositados no solo. Teóricos dos Mythos estabelecem que sem os humanos, os ghouls não sobreviveriam.

Ghouls costumam cavar seus túneis nas proximidades de cemitérios e tumbas onde um estoque de alimento pode ser encontrado com facilidade. A tática para os ghouls removerem os cadáveres da sepultura normalmente envolve escavar um túnel abaixo de uma sepultura e em seguida remover o caixão e seu precioso conteúdo.

Em determinados momentos da história humana, os ghouls ousaram deixar seus túneis sobretudo em momentos conturbados como na Grande Guerra da Europa e em meio a tragédias como o Incêndio de Roma e o Terremoto de Lisboa. Nestas ocasiões dizem as lendas, ghouls ceiaram nas ruas das grandes cidades fartando-se dos milhares de cadáveres insepultos. Alguns ghouls acreditam que pouco antes do despertar dos Grandes Antigos, eles poderão deixar seus túneis para uma derradeira ceia em um momento de grande tumulto na sociedade humana.

Como já foi dito, ghouls são carniceiros preferindo se alimentar de corpos em decomposição. Sua dieta consiste de carne apodrecida seja de origem animal ou humana. O ideal para um ghoul é um cadáver recentemente enterrado com o processo natural de putrefação iniciado. Estas criaturas, no entanto não são tão seletivas com a comida, de modo que o grau de frescor ou putrefação pode variar enormemente conforme o gosto de cada indivíduo.
É possível que um ser humano normal se transforme em um ghoul ao longo de uma série de etapas distintas. O consumo de carne humana está ligado a essa transformação e constitui requisito essencial para iniciar a mudança. É provável que apenas indivíduos com a pré-disposição genética para essa transformação possam passar pela experiência e que ela só se inicie mediante o consumo regular de carne. Alguns estudiosos dos Mythos ancestrais, inclusive o "Cultes des Goules" defendem a hipótese de que a exposição a elementos dos Mythos também podem iniciar a mudança, contudo essa tese jamais foi confirmada.
Diferente dos Deep Ones, indivíduos com a pré-disposição podem ter uma vida normal sem jamais passar pela mudança. Porém se ela se iniciar, a alteração se torna irreversível.

Assim como acontece com os Deep Ones, a procriação entre humanos e ghouls é plenamente possível, sendo o resultado desse cruzamento híbridos conhecidos como hu-ghouls. Os hu-ghouls se assemelham aos parentes humanos e podem viver entre eles sem despertar suspeitas. Muitos hu-ghouls no entanto apresentam um desenvolvimento mental retardado e progressivo distanciamento emocional diagnosticado não raramente como autismo. A maioria dos hu-ghouls (não todos) possuem a pré-disposição para a transformação completa. A opinião dos ghouls a respeito da existência dos hu-ghouls varia bastante, em alguns lugares essas criaturas podem ser aceitas e até mesmo incentivadas a fazer parte do grupo, em outras são considerados como aberrações sacrificadas de imediato.

Ao contrário do que muitos supõem, ghouls não são feras destituídas de inteligência. Pelo contrário, embora possam parecer animais irracionais, eles possuem um nível de inteligência que os coloca no mesmo patamar dos humanos. É preciso tomar cuidado extremo ao lidar com ghouls pois na mitologia de Cthulhu existem poucas criaturas mais implacáveis e astutas.