sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A Condessa de Sangue - A Vida e Mortes de Elizabeth Bathory

Qual a forma mais frequente do mal? Da loucura? Da crueldade?

Na maioria das vezes o mal se manifesta na forma de algo inumano, hediondo, nefasto... mas nem sempre o mal toma essa forma. No final do século XVI e início do século XVII, uma bela mulher escreveu seu nome com sangue, lado a lado aos mais cruéis seres humanos de que se tem notícia.

Elizabeth (ou 'Erzsebet') Bathory era filha de George e Anna Bathory, ela nasceu na atual Eslováquia em 1560. Bathory passou a maior parte de sua vida adulta confinada no Castelo de Cachtice. Embora o Castelo seja frequentemente situado na lendária região da Transylvania, na verdade ele fica próximo à cidade de Vishine, a poucas milhas da atual Bratislava (onde Austria, Hungria e a Eslováquia compartilham uma tríplice fronteira).

Bathory cresceu em uma época em que a maior parte da Hungria estava sob ataque do poderoso exército turco do Império Otomano. Os Hapsburgos também enfrentavam o avanço Turco transformando a Áustria em um vasto campo de batalha. A região inteira era dividida por rivalidades religiosas. A Família Bathory havia se convertido ao Protestantismo que abertamente contestava o poder do Papa e do Catolicismo Romano. Elizabeth foi criada na propriedade da família em Ecsed na atual Transylvania. Quando criança ela era afligida de surtos nervosos acompanhados de ira e comportamento incontrolável.

Em 1571, o primo de Bathory, Stephen tornou-se Príncipe da Transylvania e, no final da década assumiu o trono da Polônia. Ele foi um dos mais eficientes governantes de sua época. Entretanto, seus planos de unir a Europa contra os turcos fracassou pois ele teve de desviar sua atenção para a ameaça representada pelo Czar Ivan - que entrou para a história com o título "O Terrível". O governante russo tinha ambições sobre a Polônia e pretendia anexá-la ao seu império.

Aprisionada no castelo, Elizabeth ficou grávida como resultado de um breve romance com um camponês em 1574. Quando sua condição se tornou evidente, ela foi sequestrada e escondida da visão de todos para que o boato não chegasse ao Conde Ferenc Nadasdy a quem ela estava protegida. Em 1575 ela e o Conde se casaram. Como Nadasdy era um soldado, ele estava frequentemente longe de casa, o que deixava nas mãos de Elizabeth a responsabilidade sobre as terras da Família Nadasdy. Foi a partir de então que a carreira maligna de Elizabeth começou.

Em uma época em que crueldade era uma ferramenta empregada por aqueles em posição de poder, Elizabeth conseguiu se sobressair. Ela não apenas punia aqueles que infringiam as suas regras, mas encontrava desculpas para castigar fisicamente seus serviçais, em especial jovens criadas, deliciando-se com a tortura e morte. O repertório de atrocidades de Lady Bathory é vasto e medonho. Ela contratou à peso de ouro torturadores de toda Europa que tinham fama de manter suas vítimas vivas por dias, enquanto ministravam seu doloroso ofício. Elizabeth assistia estasiada as sessões e chegava ela própria a participar aprendendo as técnicas usadas. Ela adorava enfiar agulhas e alfinetes em pontos sensíveis como sob as unhas. No inverno ela ordenava que os presos de sua masmorra fossem despidos e levados para a neve, onde eram encharcados até que congelassem totalmente. Elizabeth se divertia quando os corpos congelados como estátuas petrificadas eram então despedaçados a golpes de martelo.

O Conde Ferenc partilhava do mesmo fascínio doentio da esposa pela dor e sofrimento. Durante sua campanha no oriente, ele havia aprendido várias técnicas usadas pelos turcos. Entre elas a cruel tortura do "favo de mel" empregada pelos otomanos para punir o crime de adultério. Nessa modalidade, a vítima era despida e coberta de mel, então era amarrada numa estaca e deixada ao relento para que insetos a picassem até a morte. O sadismo era tamanho, que o casal assistia sessões de tortura - sobretudo flagelamento - enquanto mantinha relações sexuais.

O Conde adoeceu e morreu em 1604, Elizabeth se mudou para Viena logo depois de seu enterro. Em sua belíssima propriedade em Beckov, coberta de florestas e riachos, ela daria início aos seus mais famosos e cruéis crimes.

Na Austria ela conheceu Anna Darvulia, uma viúva acusada de assassinar o marido. Elizabeth e Anna se tornaram boas amigas. A mulher tinha fama de praticar bruxaria e de conhecer magia negra, ela prometeu à condessa arranjar uma maneira de preservar sua beleza que com a idade começava a se desgastar. Diz a lenda que Darvulia instruiu a condessa a drenar o sangue de jovens moças e se banhar com ele para assim ganhar vitalidade e juventude. Esses rumores lhe valeram o título de Condessa de Sangue e a suspeita de vampirismo. Também é dito que Elizabeth mordia suas vítimas e bebia seu sangue ainda quente em cálices de cristal.

Em 1609, Darvulia ficou doente - supostamente contraiu uma doença degenerativa contagiosa -e Elizabeth a mandou embora. Ela então se associou a outra mulher misteriosa Erzsi Majorova, a viúva de um de seus oficiais.

Majorova também era conhecida como feiticeira e temida em toda Viena. Apesar disso, ela foi a principal responsável pela eventual queda da condessa. Majorova aconselhou Elizabeth a matar jovens mulheres de berço nobre, garantindo que o sangue delas era mais potente e valioso. Elizabeth vinha tendo problemas em obter novas serviçais dispostas a trabalhar em seu palácio depois dos boatos sobre mortes e punições se espalharem entre a população. Em 1609, as duas tramaram o assassinato de uma nobre austríaca. Apesar das suspeitas, a morte foi considerada suicídio.

No verão de 1610, uma investigação oficial se iniciou a respeito das ações de Elizabeth. Entretanto não era o vasto número de vítimas que motivavam a investigação da justiça, mas questões econômicas. A coroa tinha uma enorme dívida em dinheiro contraída através de empréstimos feitos pelo Conde Ferenc e pretendia se livrar dela e no processo ainda lucrar com o confisco das propriedades de Elizabeth.

Em Dezembro do mesmo ano, Bathory foi capturada e poucos dias depois levada à julgamento presidido por um homem do Rei, o Conde Thurzo. Durante os trabalhos foi apresentado como evidência um diário recolhido na alcova da Condessa onde estava registrado detalhadamente com a caligrafia de Elizabeth a morte de 650 vítimas. Os cúmplices de Lady Bathory - vários guardas, torturadores profissionais e a própria Majorova, foram condenados e executados conforme a maneira que eles próprios haviam ajudado a eliminar suas vítimas. Elizabeth recebeu uma pena branda e foi sentenciada a prisão perpétua na masmorra de seu castelo.

A sentença foi cumprida à risca: Bathroy foi aprisionada em uma cela sem janela e um muro foi erguido na porta, deixando-lhe apenas uma pequena passagem através da qual ela recebia água e comida. Elizabeth viveu em confinamento por três anos e morreu em 21 de agosto de 1614. Seu corpo foi sepultado nas terras dos Bathory em Ecsed.

Outros fatos sobre a Condessa de Sangue:

Pouco se sabe a respeito de filhos legítimos ou não de Elizabeth Bathory. A lenda afirma que ela chegou a ter uma criança com um camponês em 1574. O pai de Elizabeth enfurecido teria atirado o recém nascido aos cães selvagens e forçado a filha a assistir enquanto ele era despedaçado. Ao contrário de tristeza, a jovem teria gargalhado com o brutal espetáculo.

Todos os registros a respeito da vida de Elizabeth Bathory foram selados por mais de um século após a sua morte e seu nome foi proibido de ser mencionado na Hungria. De fato, os húngaros se referam a condessa de sangue usando o termo derrogatório "Csejthe" que pode ser traduzido como "Vadia".
Diferente da maioria das mulheres de sua época, Elizabeth recebeu educação, sabia ler e escrever, dominava outros idiomas e era capaz de discutir política. A maioria dos nobres húngaros eram analfabetos e mesmo o príncipe da Transylvania conhecia pouco de livros. A maioria dos estudiosos acreditam que Lady Bathory sofria de distúrbio psicótico homicida, contudo uma análise de seu passado revela uma pessoa inteligente plenamente em controle de suas faculdades.

O personagem Drácula, criado pelo escritor irlandês Bram Stoker, foi baseado no Príncipe romeno Vlad Dracul, o impalador. Raymond T. McNally, famoso autor que escreveu quatro livros à respeito da figura histórica de Drácula, acredita que Elizabeth Bathory tenha sido uma das principais inspirações para o personagem fictício. McNally comenta que em vários momentos Stoker usa referências que se encaixam mais na biografia de Elizabeth do que na de Vlad. Por exemplo, Drácula no romance é transformado em um conde. Além disso, as referências a respeito de ingestão de sangue fazem parte do conjunto de atrocidades cometidas por Elizabeth, não por Vlad Dracul. Além disso, o propósito de beber sangue tanto para o personagem de Stoker quanto para a real Elizabeth Bathory era preservar a juventude eterna.

4 comentários:

  1. Às vezes eu fico impressionada com a crueldade das pessoas nessa época. Certas pessoas que existiram conseguem ser mais monstruosas do que criaturas da ficção.

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  2. Sim, o pessoal naquela época era muito criativo em matéria de inventar novas e cada vez mais horríveis formas de tortura.

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  3. Sou fã de pessoas criativas...
    Inteligentemente criativas, que com poucas palavras torturam seu psicológico com requinte de criatividade...!

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  4. A história foi perpetuada - como toda a história contada dessa época - pelos seguidores da igreja católica - entre o bem e o mal - e quem faz o papel de mau é a protagonista que tinha que ser protestante e suas amigas que tinham que ser praticantes de bruxaria e magia negra...rsssss... mas, o qual seria a razão da igreja se não existisse o mal.... criado por ela.

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