segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Psicologia e Call of Cthulhu: dos consultórios para as mesas de RPG – Parte 1

por Eliandro Antonio

Em primeiro lugar, é importante que eu me apresente como um psicólogo formado e atuante há alguns anos. Porém, muitos anos antes de eu ingressar na faculdade, mas na época em que eu já cogitava essa escolha, eu já jogava Call of Cthulhu. Como leitor da obra de H.P. Lovecraft (e tantos outros autores que tocavam o tema, como Poe, uma grande influência na hora de escolher qual faculdade fazer) fui aos poucos me familiarizando com a insanidade. Desde o fato de uma mente ser frágil até o momento final e irreversível daquilo que costumamos chamar por loucura, passando pelos processos de fissura, fragmentação e rompimento da razão e das emoções permeavam muitas leituras minhas.

Por esse motivo, se hoje me encontro mais a vontade no estudo de comportamento humano, vazão de sentimentos, interpretação de sonhos e psicopatologias, também me sinto mais a vontade para inserir tais elementos em minhas narrativas de Call of Cthulhu. Uma vez que invariavelmente eu jogo como Keeper junto ao meu grupo, tem sido cada vez mais comum colocar sessões de terapia, avaliações psicológicas e verossímeis demonstrações de transtornos psíquicos severos. Pelo menos, é isso o que eu tento e acredito, é claro. Ainda assim, mesmo minha mesa sendo composta de amigos de longa data, volta e meia eles me perguntam: “Quando eu uso a skill psychology e quando eu uso a psychoanalysis?”, “Para construir um personagem psiquiatra, eu uso as mesmas regras da ocupação Doctor of Medicine?”, “Um parapsicólogo é um psicólogo?” e por aí vai.

Pensando nisso, e de que mais Keepers e Players possam encontrar as mesmas dificuldades, resolvi escrever uma série de artigos a respeito de Psicologia e Call of Cthulhu. Mas precisamente, trabalhando as diferenças e semelhanças entre Psicologia, Psiquiatria e Psicanálise, enfocando suas diferentes teorias e técnicas ao longo das eras e dos continentes. Como forma de organização, separei os artigos nas seguintes categorias: Ocupação, Perícia (Skill, no original), Transtornos (Disorders, no original) e Tratamento. Comumente trarei referências não só ao livro básico, mas também ao Keepers Companion e alguns outros que tragam importantes adições de material ao tema.

OCUPAÇÕES:

Da filosofia para a medicina e de volta para a filosofia.

Para entendermos um pouco sobre o que são e o que fazem os psicólogos, psiquiatras e psicanalistas, acho importante entendermos um pouco da história da psicologia enquanto ciência.

Tentarei ser sucinto para não gerar confusões desnecessárias e nem alongar o adendo ao tópico.

Também me esforçarei para ser imparcial no julgamento de práticas diferentes daquelas que acredito. Um ponto que vale a pena antecipar é que a psicologia atua hoje em diferentes frentes: escolas, hospitais, institucionais, empresariais, etc. Por conta disso, me ative nesse primeiro momento a pensar apenas na prática clínica, deixando os outros aspectos para quando formos ver mais a respeito das Perícias. Também gostaria que entendessem que falo de Psicologia enquanto ciência estruturada e devidamente nomeada no século XIX, delegando à filosofia e à sociologia todos os fenômenos anteriores de estudos em psicologias.

Psicologia vem do grego “estudo da alma”. Embora hoje associemos o radical “psi” com mente, ele na verdade representa alma, e seu símbolo tanto pode ser a letra grega de mesmo nome, quanto uma borboleta. Compreender que a psicologia veio do estudo da alma ajuda-nos a compreender que no início os primeiros apontamentos em psicologia tinham como origem a filosofia. Filosofia essa que cuidava de conhecimentos em geral: mitos, ciências naturais, matemática, política e afinas.

Com isso, as primeiras obras de psicologia foram geradas com as primeiras obras de medicina (isso vale tanto para o Ocidente e o trabalho de Hipócrates, quanto a para a o Ocidente e as teorias de Do-in, acupuntura, etc...). Com o tempo, a saúde mental foi sendo distanciada (na História do Ocidente) da saúde física, e as perturbações mentais, outrora sincretizadas com perturbações de fluidos e órgãos internos, foram relegadas a ações sobrenaturais de deuses, espíritos e, durante o período chamado de Idade Média, ao Diabo e suas inúmeras facetas. Relatos de doenças mentais permeiam grandes obras da literatura e da religião de toda parte e época do mundo.

Então, com o advento da Iluminismo e do Renascimento, o conhecimento sobre a psique humana tornou-se foco de estudo lógico. Cálculos matemáticos se fundiam com estatísticas sociais, experimentos em laboratórios eram pautados em reflexões morais. Mas, era a Medicina quem mais contribuía para o advento da psicologia moderna, graças as suas tentativas (um tanto quanto sádicas e ignorantes, diga-se a verdade) de encontrar tratamentos efetivos para transtornos psíquicos. Assim a psicologia se dividiu em duas frentes: uma experimental (com raízes fortes no Centro e Leste Europeu e Rússia, mas difundida com êxito nos Estados Unidos e Brasil) e outra analítica (com raízes na Alemanha e Áustria e difundida por toda a Europa peninsular, Reino Unido, América do Norte e América do Sul).

A grande revolução analítica surgiu com os médicos Josef Breuer e Sigmund Freud (sim, o famoso Freud do “Freud explica”) nos últimos anos do século XIX, ganhando força com Freud por todas as décadas que abriram os século XX. Renovando as pesquisas de outro famoso médico contemporâneo, Jean-Martin Charcot, Freud e seus discípulos trouxeram a tona o pensamento psicodinâmico: pela primeira vez assumia-se que às psicopatologias não eram causadas por forças externas como traumas, doenças, espíritos ou afins, mas sim pela própria mente. A mente se tornava sua própria inimiga, nascia assim o conceito de Inconsciente: uma força impulsionadora de desejos e ações oculta de nossa consciência.

Em grossas palavras, a Psicanálise (nome da ciência criada por Freud e desenvolvida até hoje) mostra a existência de um aparelho psíquico dividido em estágios, cada um responsável por memórias e desejos conscientes ou inconscientes, tentando negociar entre si e causando transtornos brandos, moderados ou graves quando as negociações prejudicam uma dessas forças motoras. Termos como pulsão, ego, mecanismos de defesa e outros tantos surgiram aqui, antes de se tornarem populares.

Então, muito mais tarde (meados do século XX) uma resposta forte surgiu a Psicanálise: a Psicologia Comportamental. Baseado em antigos experimentos científicos e em observações concretas, essa vertente da Psicologia Moderna atesta que o Inconsciente não tem força o suficiente para afetar a sanidade de uma pessoa. Com isso, a teoria (que assim como a Psicanálise foi se dividindo em grupos de pensamentos ligeiramente diferentes ao longo dos anos) nos mostra que o único material palpável que um sujeito apresenta é seu comportamento. E é em intervenções no comportamento que um cientista deveria se focar, baseando-se em valores morais e culturais.

Só no último quarto do século XX que a disputa entre Psicanálise e Psicologia Comportamental ganhou um terceiro eixo, visando equilibrar os dois pontos da balança ao mesmo tempo em que impunha novos questionamentos e discordâncias. As psicologias humanistas e existencialistas, baseadas menos na biologia e mais na filosofia, trouxeram uma concepção otimista e acolhedora a respeito do ser humano e seu psiquismo. Embora com menos relevância científica e corpo teórico que suas irmãs, as Psicologias Humanista e Existencialista foram as primeiras a se focar atenta e intensamente nos sentimentos do indivíduo, ao invés de sua origem ou de seus sintomas.

Paralelamente a isso, temos a história da Psiquiatria. Essa de origem muito mais médica do que filosófica, mantendo-se desde sempre até os dias hoje como uma especialidade da Medicina, tem como principal foco a compreensão e o tratamento de transtornos mentais. O uso de medicamentos, terapias alternativas, eletro choques, imersões, contenções e muitos outros tratamentos (cruéis ou não, eficazes ou não, famosos pelo cinema ou não) fazem parte da profissão do psiquiatra. Seu público de pacientes é composto pelos insanos (deprimidos, ansioso, esquizofrênicos e tantos outros como discutiremos em um artigo futuro e específico). Pessoas consideradas saudáveis, mas em crises emocionais, usualmente, não requerem a procura de um psiquiatra.

E para termos históricos e de jogo, a Psiquiatria longe de consultório, aplicada em sanatórios e manicômios produziu um tipo de profissional chamado Alienista, que mais tarde evoluiria sua prática para a Psicanálise e a Psicologia Moderna. Esse alienista é quem interagia diretamente com o paciente, através de diálogos e investigações minuciosas, antes de fechar qualquer tipo de diagnóstico e partir para o tratamento clínico. Hoje, a Psicologia bebe dessa fonte do diálogo, mas não apenas para investigação como também para tratamento e cura.

Mas, então, como isso afeta a Ocupação que um jogador de Call of Cthulhu escolhe quando vai criar seu personagem para o jogo? Bem, penso que afeta de muitas formas. Embora eu não vá falar hoje sobre os Tratamentos e nem sobre as Perícias, o que determina um personagem muda muito de acordo com as possibilidades apresentadas nos livros. Principalmente se levarmos em conta o fator histórico.

Para aventuras ou campanhas situadas na Era de 1890, podemos encontrar 3 diferentes opções para Ocupação: O alienista, o psiquiatra e o psicólogo. As três Ocupações são na verdade uma especificidade da Ocupação Doutor em Medicina (ou Médico).

O personagem Alienista é um médico com profundo conhecimento teórico sobre psicologia, filosofia, sociologia e história, além de uma ampla prática em técnicas de medicina, mais especificamente técnicas de tratamento para Transtornos Mentais. Geralmente, o alienista é um profissional não muito bem visto pela sociedade: os colegas médicos têm pouco respeito por desacreditar de seus métodos e interesses; o resto da população o teme devido ao seu isolamento junto a um ambiente hostilizado e insalubre. Um jogador que deseja construir um alienista deve ter em mente que essa profissão era quase que exclusivamente masculina e se concentrava apenas na Europa e Américas, sendo raríssima fora desses continentes.

Sugiro que a construção de personagem tenha as seguintes Perícias: Accouting, Bargain (ou Fast Talk), Biology, First Aid, Latin, Library Use, Medicine, Pharmacy, Psychology (lembrando que Psychoanalysis ainda não existia, de fato, tornando-a impossível de ser usada).

Para o jogador que deseja ter, ao invés de um alienista encarcerado junto com os insanos, um médico da área que atende pacientes no conforto de seu consultório ou de uma Universidade, valendo-se do uso de medicamentos e outras técnicas aplicáveis, a recomendação vai para a Ocupação Psiquiatra. Assim como o alienista, no século XIX a maioria dos psiquiatras era formada por homens, mas esses se espalhavam por uma área maior do globo, geralmente servindo em campanhas militares ou religiosas. O psiquiatra se vale do profundo estudo de sintomas de transtornos mentais e tenta sempre relacioná-los com causas como doenças infecciosas, experiências traumáticas, desnutrição, resfriados ou febre.

Para tanto, as perícias indicadas para esse tipo de personagem seria Biology, Credit Rating, First Aid, Latin, Medicine, Pharmacy, Psychology (lembrando que Psychoanalysis ainda não existia, de fato, tornando-a impossível de ser usada) e mais alguma perícia que o jogador e o Keeper julgarem interessante.

Por fim, nos anos de 1890, temos a Ocupação do Psicólogo. Esse grupo de profissionais, embora muitas vezes de origem da Medicina, muitas vezes tem seus caminhos cruzando com a Literatura, com a Filosofia e com a História. Por conta disso, suas perícias poderiam abranger um gama significativamente diferente de opções, como Anthropology, Biology, History, Latin, Library Use, Medicine, Pharmacy e Psychology (lembrando que Psychoanalysis ainda não existia, de fato, tornando-a impossível de ser usada). Os psicólogos dessa época, concentrados especialmente na Europa Oriental, tinham como principal (e provavelmente exclusivo) foco o experimento laboratorial com pessoas e animais no intuito de compreender os mecanismos de funcionamento psíquico por trás de comportamentos, sentidos físicos, percepção, dor, prazer, etc.
Com a chegada, em termos de jogo, da Era de 1920, algumas coisas mudam consideravelmente de figura. Como Ocupação, não teríamos mais o Alienista, ele teria evoluído para o Psicanalista. Entretanto, o psicanalista não pode ainda ser considerado uma ocupação, uma vez que ele agora tanto pode ser um Psiquiatra quanto um Psicólogo. Então, vamos entender, primeiramente, como funciona a Psiquiatria nesses anos. A formação do psiquiatra, como já se sabe, é a mesma de um médico, porém especificado para a compreensão e atuação da mente humana. Agora, a psiquiatria já foi levada para a maior parte do globo (muito embora o extremo Oriente se mostre resistente) e é praticada por jovens médicos tanto homens quanto mulheres. O seu trabalho agora vem sendo exercido em consultórios, como era antigamente, mas também em sanatórios, ocupando um nicho outrora pertencente aos alienistas.

Como forma de tratamento, os psiquiatras empregam o uso de remédios e tratamentos de impacto simultaneamente com as sessões de análise. Mais sobre esses pontos será exposto em um futuro artigo, por ora as informações contidas no livro básico de regras do Call of Cthulhu devem servir. Entretanto, as perícias sugeridas para essa Ocupação, agora seriam Bargain (ou Fast Talk), Biology, First Aid, Medicine, Persuade, Pharmacy, Psychiatry (uma disciplina recém formulada em métodos), Psychology e Psychoanalysis, todavia, interesse por Anthropology, History e Literature são altamente recomendados.

Nessa década, a Psicologia também sofreu sérias mudanças e temos dois tipos possíveis de psicólogos. Um seria aquele cuja formação pode ter vindo da Pedagogia ou da Filosofia e que se interessa pelo recente sucesso do fenômeno psicanalítico (que vem mudando a forma do mundo produzir arte, especialmente, entre outras características da sociedade). Outro grupo seria o daqueles que tem dado continuidade a aos experimentos da Psicologia do século XIX e que tem cada vez encontrado voz junto àqueles que não toleram as polêmicas da Psicanálise. Ambos os grupos atuam mais em estudos e discussões, em lecionamento em Universidades, do que no tratamento específico de pacientes. Por essa razão, as perícias sugeridas para os dois grupos apresentam bastante identidade. São elas, para o primeiro grupo: Anthropology, Biology, History, Librare Use, Literature, Medicine, Psychiatry, Psychoanalysis e Psychology. Enquanto que para o segundo grupo elas consistem em Biology, History, Latin, Librare Use, Medicine, Persuade, Pharmacy e Psychology.

Assim, tendo visto como o século XX começou, chegou a hora de entender como ele terminou e deu lugar a um novo século para a Psicologia. Para Era dos Tempos Presentes, o número de Ocupações cresce exponencialmente. Agora, temos além de Psiquiatras e Psicólogos, temos enfim os Psicanalistas (que finalmente elegeram critérios que os diferenciassem sutilmente de seus colegas de área de estudo) e os Parapsicólogos. Talvez, a melhor forma de começarmos a falar das opções para os jogadores, é pelos Psiquiatras. Essa Ocupação, embora tenha recebido importantes e vastas contribuições das mais variadas ciências (inclusive da recente e popular neurociência) teve muitas de suas características mantidas ao longo do século. Seus métodos mudaram, mas seus estudos não. Portanto, eles continuam atuando tanto em consultórios quanto em manicômios, e sua sugestão de perícias se tornou uma mistura daquelas anteriores, com Anthropology, Biology, First Aid, Librare Use, Medicine, Persuade, Pharmacy, Psychiatry e Psychology.

Já os Psicólogos, tiveram uma drástica mudança ao se tornarem uma profissão com formação independente da Medicina. Se isso trouxe a perdas de conhecimentos e liberdades de intervenções medicamentosas, por outro lado trouxe um respeito e um arcabouço de técnicas únicos. A Psicologia, espalhada pelo mundo todo, nas mais diferentes classes sociais, independente de sexo e idade, enfrenta agora uma nova dúvida: qual abordagem seguir? O jogador, junto ao Keeper, poderá discutir a respeito disso melhor embasado em pesquisas pela internet, livros e no futuro artigo que escreverei sobre Tratamentos. Mas, de antemão, fica abaixo as linhas mais comuns da Psicologia atual, dividida de forma simplificada e explicadas de forma mais informal:

Psicologia Comportamental: as teorias se baseiam em educação do indivíduo diante de suas capacidades. O tratamento é curto e por um tempo pré-determinado, e inclui entrevistas de investigação e tarefas que o paciente pode realizar, visando receber algo em troca enquanto aniquila um comportamento indesejado.

Psicologia Analítica: as teorias se baseiam na Psicanálise e pregam que o inconsciente do indivíduo é responsável pelo seu sofrimento. O tratamento é duradouro e se baseia basicamente em monólogos por parte do paciente, com eventuais pontuações questionamentos do psicólogo. Regressões através de hipnose também podem ocorrer, mas isso será melhor explicado no próximo artigo, a cerca das Perícias.

Psicologia Fenomenológica: as teorias se baseiam na filosofia existencialista do final do século XIX e início do século XX, focadas nas respostas humanas diante dos eventos que estes sofrem e em sua percepção a respeito da própria finitude. O tratamento é feito unicamente de diálogos, com expectativa de longo prazo.

Psicologia Humanista: as teorias se baseiam muito próximas da Psicologia Fenomenológica, mas agregam conceito educativos e biológicos de desenvolvimento, alegando que o indivíduo sempre caminha para a sanidade, mesmo que escolha (consciente ou inconscientemente) caminhos de sofrimento. O tratamento, de curto a longo prazo, se baseia tanto em diálogos quanto em pequenas tarefas indicadas para a realização.

Independente da abordagem que o jogador escolha para seu personagem encarar o mundo, as sugestões de perícias se mantém as mesmas: Academic Lore, Anthropology, Bargain (ou Fast Talk), Librare Use, Persuade, Philosophy & Religion, Psychiatry, Psychoanalysis, Psychology e Psychotherapy.

Conforme dito alguns parágrafos acima, a Psicanálise se diferenciou das outras áreas da Psicologia ao longo dos anos. Hoje ela é estudada por diversos profissionais como psicólogos e médicos, mas também por pedagogos, artistas, filósofos e religiosos. Embora ela não tenha uma formação a parte da Psicologia ou da Psiquiatria, ela tem uma formação própria que se estende por muitos anos de pesquisa e prática clínicas depois da formação inicial de cada profissional. Um psicanalista se diferencia de outros profissionais de sua área por conta do profundo conhecimento nas teorias de Freud, Klein, Winnicotti, Lacan e outros, e por conta de técnicas muito particulares de tratamento, como o uso do divã e o monólogo do paciente. Diferente dos Psicólogos Analíticos, que se baseiam em autores como Jung, Reich, Bowlby e outros que beberam da Psicanálise, os psicanalistas são mais puristas em relação a qual novo conhecimento adicionar em sua prática. Como Perícias, a sugestão fica para Anthropology, Biology, Literature, Other Language (especialmente alemão ou francês), Persuade, Philosophy & Religion, Psychiatry e Psychoanalysis.

Por fim, temos um fenômeno moderno na Psicologia, que a Parapsicologia. Esta ciência, atualmente reconhecida apenas em alguns países da Europa, Ásia e Américas, é praticada especialmente nos Estados Unidos, e tem como foco a compreensão de eventos anormais da mente humana, como percepções extra sensoriais, telepatia, telecinese, contato com personalidades já mortas, controle de sonhos, viagens astrais, etc... Mais pautada em experimentos, a Parapsicologia não chega exatamente a ser uma divisão da Psicologia. Ela parte de alguns preceitos da Psicologia, mas caminha por meios de ocultismo, física moderna e criptozoologia. A formação na área se dá por raros cursos de especialização ou por mestrados e doutorados na área. Geralmente, é praticada por psicólogos, mas costuma-se encontrar curiosos de outras áreas também atuando. Como sugestão de perícias, indico: Anthropology, History, Librare Use, Occult, Other Language (especialmente Latim, Alemão, Francês, Hebraico, Cópita, Inglês arcaico), Photography, Psychology e alguma outra perícia ligada a especificadade do personagem, como Biology, Physics, Chemistry, etc...

Então, depois desse longo texto, findo aqui esse primeiro artigo. Espero ter sido claro no assunto e, mais ainda, espero ter ajudado Keepers e jogadores em dúvidas quanto a possibilidades e limitações para utilizar elementos e/ou personagens ligados a Psicologia em suas aventuras. Minhas sugestões e informações, mais do que fundamentos inquebrantáveis, tiveram o objetivo de servir como base para idéias novas. Para qualquer dúvida ou comentário ou sugestão a respeito desse artigo, comentem no blog e responderei. Enquanto isso, preparo para breve o artigo sobre as Perícias relacionadas a Psicologia.

Até lá, sugiro a leitura de alguns contos de Lovecraft que tangem a Psicologia: “Do além”, “Polaris” e “O caso de Charles Dexter Ward”.

6 comentários:

  1. Pessoal, esse é o primeiro dos artigos escritos pelo nosso colega E.A. Soldi a respeito de Psicologia/Psiquiatria dentro de jogos com temática Lovecraftiana e que são úteis para quaisquer outros que contemplem a loucura, insanidade ou dão ênfase a aspectos que lidam com a mente humana.

    Ele se ofereceu para escrever essa série que ao meu ver oferece valiosas informações para curiosos no assunto e mestres de RPG interessados em conceder credibilidade aos seus jogos.

    Mais uma vez agradeço pela ajuda e fico aguardando ansioso a continuação do excelente tópico.

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    1. Boa noite.
      Desde que meu filho começou a jogar alguns games na internet a partir dos 14, começou a ficar frio com o relacionamento familiar. A mãe, que sempre o amou muito e o tratou super bem sofre muito com seu distanciamento, pois ele não aceita nem que o toquem.
      Ele mora comigo hoje, mas é super frio com relação ao amor á família, sentimentos de gratidão e com a própria humanidade. Encontro frases de Lovecraft nas coisas dele, uns tals dados para um jogo que acho ser o craft Cthulhu, e vejo a cada dia meu filho, com apenas 17 anos, cada vez mais distante das relações afetivas com sua família.
      Se isso se desse apenas comigo, que fui um pai muito enérgico com as palavras e ordens, mas com a mãe... que sempre fui muito amorosa... Não há uma explicação senão um rompimento emocional com a família e com tudo que a lembre para tentar encontrar o verdadeiro "eu" dele e seu lugar no mundo, melhorando sua auto estima.
      Questão que me preocupa muito é a visão que ele tem de ser superior os outros, de não fazer tarefas simples como ajudar a limpar a casa ou varrer um quintal porque é como se isso fosse para reles mortais. Eu não sou rico, não posso dar a ele uma vida sem trabalho, com requintes.
      Ele despreza muito a raça humana, a família e os serviçais. Minha dúvida, nesse caso, é se o RPG que ele joga não está tomando o lugar de sua vida real, se ele não está incorporando a sí mesmo características do personagem, se ele não está deslocando sua personalidade e a busca de seu self para a criação de um ser virtual com garras na vida real.
      Ele trabalha e estuda, mas é muito fechado, reservado, não aceita diálogo nem comunicação sobre suas escolhas. Aceita poucas regras dentro de casa porque depende de mim para sobreviver ainda.
      Eu tenho receio que meu filho esteja vivenciando parte da mitologia de lovercraft em sua vida, e que de alguma maneira um dia ele possa assumir este personagem como seu próprio eu.
      Vocês acham que eu estou me preocupando demais?
      Que conselhos poderiam me dar para que eu possa tentar ajudá-lo de alguma forma a considerar a criação de seu próprio a partir de outras fontes, de outras mitologias, de outras perspectivas?

      Marco

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    2. Olá Marco,

      Pedi a um amigo que joga RPG e trabalha na área de psicologia que desse sua opinião a respeito.

      O que ele muito gentilmente fez e eu transcrevo abaixo:

      Qualquer envolvimento extremado, com qualquer hobby ou passatempo é ruim.

      Muitas vezes não é uma catástrofe. Só é ruim porque limita, sobretudo nessa idade, um leque ainda maior de outras coisas bacanas a serem feitas e vivenciadas.

      E elas podem e devem coexistir.

      Se há uma preocupação neste sentido, a pessoa mais indicada para uma avaliação é um psicologo.

      Não apenas para ajudar a mensurar de forma mais imparcial o que é exagero e o que é normal dentro das mudanças esperadas durante a adolescência, mas também para ajudar o próprio adolescente a entender porque tanta energia está sendo dedicada a somente uma das inúmeras possibilidades de hobby, literatura e contato com o mundo.

      Ou seja, sim, é motivo para se preocupar porque um desenvolvimento saudável para a vida adulta requer mais de um tipo de relação com o mundo. E qualquer pai deseja que o filhote tenha diferentes formas de crescimento.

      A solução, provavelmente, não é a de se retirar, bruscamente, o garoto de uma área de interesse, mas a de ampliar os potenciais fatores agradáveis da vida, seja de outros tipos de jogos, outros autores, mas também outras atividades que permitam outras formas de estar no mundo.

      Terapia, em casos assim, pode ser indicada não tanto porque seja comum uma quebra com o real a ponto de confundir ficção com realidade, mas sim para ajudar no enriquecimento de possibilidades da realidade.

      Se fosse um adolescente que só soubesse pensar e falar sobre futebol, por exemplo, o conselho seria o mesmo. Qualquer coisa em exagero é ruim e limitante.

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  2. Muito interessante a temática do artigo. Será que ao final da séria (talvez) poderia haver uma eventual "conversão" do que não for compatível em termos de sistema para Rastro de Cthulhu?

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  3. Excelente post, coisas como essas me fazem continuar gostando de RPG depois de adulto! Parabéns.

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