quinta-feira, 29 de março de 2012

O Vilarejo dos Mortos - O Inexplicável Mistério de Anjikuni (Parte 1)

Lendas sobre desaparecimentos misteriosos existem ao redor de todo mundo.

Sem dúvida, um dos mais famosos incidentes envolve o destino dos habitantes da Colônia de Roanoke, que foram vistos vivos pela última vez em 1587 e que desapareceram sem deixar vestígios.

Nota: Para quem não leu, o Mundo Tentacular publicou uma série de artigos sobre Roanoke que podem ser vistos no link ao lado: http://mundotentacular.blogspot.com.br/2011/03/o-misterio-da-colonia-perdida-o-que.html


Um caso tão incrível quanto o da colônia perdida envolve o paradeiro de 30 homens, mulheres e crianças que alegadamente desapareceram da face da Terra. O caso ocorreu em um vilarejo pesqueiro Inuit (esquimó) na primeira metade do século XX.

O estuário de Anjikuni Lake se localiza ao longo do Rio Kazan na remota região de Nunavut, Canadá. A área é rica em lendas e folclore nativo sobre espíritos florestais malignos e monstros como o Wendigo, mas por fascinantes que sejam essas estórias, não há nenhuma tão intrigante quanto o controverso mistério envolvendo o desaparecimento dos aldeões que viviam nas margens gélidas do Lago Anjikuni.

A estória se inicia em meados de novembro de 1930. Um comerciante de peles canadense chamado Joe Lebelle, colhido por uma tempestade procura um lugar para descansar e passar a noite. Ele se aproxima de um vilarejo Inuit aninhado nas encostas rochosas do lago. Labelle já havia visitado a região anteriormente e feito amizade com os pacíficos habitantes do vilarejo. Quando se aproximou do local, se deparou com tudo escuro e silencioso, o único som que ouvia era o das suas botas esmagando o solo congelado.

Labelle ficou preocupado e conteve seu avanço. Ele tinha os instintos de um homem da fronteira selvagem e podia sentir que algo estava errado. Era possível ver a silhueta das cabanas sob a luz da lua cheia, mas não havia nenhum movimento, nenhum latido dos cães que puxavam os trenós ou qualquer sinal de vida. Tudo havia sido substituído por um silêncio mortal.

O comerciante percebeu com um arrepio que havia uma única chaminé de onde saía fumaça. Com seu rifle em punho, ele entrou no vilarejo fantasma prestando atenção a cada detalhe, sobresaltado por qualquer sombra ou barulho. Ao entrar numa cabana, encontrou o lugar vazio, a fumaça vinha da lareira que era usada para cozinhar. Uma panela com cozido de peixe havia sido abandonada no fogo. O conteúdo estava queimado como se estivesse no fogo por muito tempo.

Embora fosse um mateiro veterano — tendo passado a maior parte de sua vida vagando pelas florestas de seu país— não é difícil imaginar que Labelle estivesse coberto de suor frio. Ao inspecionar os barcos de pesca da tribo, os encontrou avariados, como se alguém os tivesse danificado deliberadamente.

Labelle investigou cada uma das cabanas e barracas na esperança de achar sinal de vida ou ao menos um indício do que havia causado uma migração forçada. Para seu desapontamento, descobriu nas cabanas estoques de comida, armas e peles, que jamais teriam sido deixadas para trás. Em um dos abrigos ele encontrou uma mesa posta e restos de comida ainda nos pratos. Em outra achou um casaco descartado no chão, ainda com agulha e linha, como se a pessoa que estivesse costurando tivesse sido abruptamente interrompida.

Ele também inspecionou o depósito onde os peixes eram guardados e percebeu que nada havia sido removido. Não havia sinais de luta ou confusão, tudo estava em perfeito estado com exceção das pessoas que haviam sumido. Havia a possibiliadde da vila ter sido atacada por saqueadores, mas nesse caso, os habitantes teriam reagido. Além disso, que tipo de saqueador abandonaria itens valiosos e levaria apenas os moradores?

Labelle inspecionou então os arredores da vila à procura de pegadas ou rastros. Chocado constatou que não havia nenhum rastro recente, o que seria virtualmente impossível considerando que a migração tivesse sido realizada às pressas.

Apesar de estar com frio e cansado, o mateiro decidiu que não ficaria nem mais um minuto no vilarejo. Embora ainda pudesse proporcionar abrigo, calor e comida, ele considerou que seria uma temeridade forçar a sua sorte e permanecer naquele maldito lugar. O que quer que tivesse acontecido, desafiava qualquer explicação e recaía no reino do sobrenatural. Arrumando suas coisas, Labelle seguiu noite adentro, enfrentando temperaturas geladas ele chegou de madrugada a uma estação telegráfica localizada a alguns quilômetros do vilarejo.

Exausto, Labelle se arrastou para o posto onde foi ajudado pelos guardas. Dentro de minutos ele contou o que havia visto e uma mensagem de emergência foi enviada para o quartel da Royal Canadian Mounted Police, a polícia montada canadense. Quando os policiais chegaram horas depois, Labelle contou novamente sua perturbadora estória.

No caminho até o Lago Anjikuni, o grupo de resgate parou numa cabana que pertencia a um caçador chamado Armand Laurent. Os policiais explicaram ao homem que seguiam para o povoado inuit para lidar com "um tipo de problema".

Os policiais ouviram do homem e de seus dois filhos, que algo estranho vinha acontendo nas últimas noites. Eles haviam visto uma espécie de luz muito brilhante banhando os céus noturnos e estranhos objetos em forma de cilindro sobrevoando a área do Lago Anjikuni. O mateiro havia proibido seus filhos de deixar a casa e nenhum deles se separava de seus rifles de caça. Os três contaram que os tais objetos voavam sem produzir o menor som e que por vezes ficavam no céu imóveis. Em certa ocasião contaram mais de 15 deles sobrevoando em diferentes altitudes.

Os policiais deixaram a cabana dos Laurent e continuaram a jornada pela paisagem desolada. Ao atingir o povoado confirmaram aquilo que Labelle havia testemunhado, o lugar estava deserto como se todos o tivessem abandonado às pressas. Investigando os arredores fizeram uma descoberta, ainda mais estarrecedora.

O relatório dos policiais que conduzirama busca revela que o cemitério do vilarejo havia sido profanado. Segundo o testemunho de um dos policiais, não havia uma única sepultura que não tivesse sido escavada e, ainda mais intrigante, esvaziada. Considerando que a profanação dos mortos é um dos mais sérios tabus para o povo inuit, qual a explicação para que tantas sepulturas tenham sido perturbadas?

Para acrescentar outro elemento inexplicável, os policiais verificaram que a terra do cemitério havia sido removida em montes uniformes depositados ao lado de cada sepultura, evidenciando que o trabalho não havia sido realizado por animais escavando.

Não é preciso dizer que os policiais ficaram chocados com o que encontram e imediatamente despacharam um mensageiro para pedir reforços ao quartel. Logo dezenas de policiais montados chegaram ao local e começaram a vasculhar cuidadosamente cada pista que pudesse ajudar a entender o enigma. Foi então que eles teriam feito outra descoberta macabra.

Os policiais encontram uma área com neve remexida e começaram a cavar. Encontraram ali sete carcaças de cães usados para puxar trenós, enterradas a cerca de 300 metros da borda do vilarejo. Os animais sem dúvida pertenciam aos moradores do vilarejo e haviam sido colocados em uma cova com quase 3 metros de profundidade. De acordo com os patologistas, os pobres animais haviam morrido de fome.

Como esses animais morreram de fome, quando havia comida no vilarejo e na própria floresta é outra pergunta sem explicação. Alguns acreditam que os animais tenham sido amarrados e assim impossibilitados de buscar comida, mas por que razão isso teria sido feito? Além disso, a lógica dita que os cães não teriam tido tempo de morrer de fome entre o momento em que os moradores do vilarejo desapareceram e a chegada de Labelle que encontrou restos de comida e uma fogueira ainda crepitando.

Isso pede por outra resposta: os inuit teriam deixado seus cães morrer de fome intensionalmente antes de partir? Além disso, os cães desempenham uma função essencial para a sobrevivência das comunidades isoladas pela neve e gelo. Deixá-los morrer de fome não é apenas cruel, mas ilógico sobretudo se eles planejavam ir embora.

Se essas estórias não fossem estranhas o suficiente, os oficiais que estiveram no local afirmaram categoricamente que enquanto exploravam os arredores do Lago Anjikuni viram estranhas luzes pulsantes no horizonte. Nenhuma dessas luzes parecia natural ou com algo que eles já tivessem visto anteriormente.

Após algumas investigações, os policiais concluíram que os habitantes do vilarejo haviam simplesmente partido em algum tipo de migração sazonal. Baseando-se na descoberta de alguns alimentos estocados e no processo de deterioração, supunham que a vila estivesse vazia a pelo menos dois meses. Mas essa conclusão apresenta outra questão: se os inuit haviam partido a tanto tempo, quem seria o responsável pela lareira ainda acesa encontrada por Joe Labelle.

Além disso, porque teriam abandonado nas tendas os seus bens mais precisosos?

A região do Lago Anjikuni é evitada pela maior parte das tribos inuit, Após o acontecimento circularam várias histórias sobre uma suposta maldição existente na área da tragédia. De fato, nenhuma outra tribo inuit vivia em um raio de 50 quilômetros do estuário. Os habitantes do vilarejo tinham contato com os povos brancos há vários anos e talvez esse contato os tenha levado a desconsiderar o folclore nativo. É possível que eles não acreditassem mais nessas lendas.


(Continua: A Investigação se Inicia)

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