domingo, 30 de dezembro de 2012

Cinema Tentacular: Citadel - "Eles podem ver o seu Medo"


Esses dias, eu vinha voltando para casa depois de anoitecer e precisava atravessar uma avenida movimentada para pegar o ônibus do outro lado. A única maneira de cruzar em segurança as três pistas era descer dois lances de escada e entrar em um túnel que passava por baixo da rua.

Desci as escadas e olhei para dentro do túnel que estava em obras. A passagem estreita permitia apenas uma pessoa de cada vez, desviando de cavaletes, tábuas de compensado e uma calçada esburacada. O túnel era iluminado, mas exatamente na metade havia uma luz branca que teimava em piscar. O farol dos carros passando em velocidade surgiam nas frestas do teto e o som das rodas no asfalto soava abafado como no interior de uma caverna. Não havia ninguém no túnel, de fato, parecia que ninguém passava por ali fazia tempo. Uma mistura de garranchos grafitados com spray cobria os ladrilhos azulados do chão ao teto. Um deles me chamou a atenção, juro por deus que li, "O bicho vai te pegar!", e depois li corretamente "O bicho vai pegar!".

Com um sorriso amarelo comecei a atravessar o túnel, quando nesse exato momento apareceu na outra extremidade uma senhora puxando um carrinho de feira. Atrás dela vinham umas três crianças vestindo casaco com capuz sobre a cabeça. Elas estavam correndo na direção dela. Nada de mais, certo?

Errado!

Eu tinha acabado de assistir o filme Citadel na noite anterior e as imagens do filme estavam bem frescas na minha mente. Frescas o bastante para causar aquela sensação incômoda de "por que diabos eu decidi passar por aqui"?


Citadel é um filme irlandês recém lançado, em meados de Novembro de 2012. É claro, sendo uma produção independente, dificilmente vai ser lançado por aqui nos cinemas ou estar disponível para locação ou Streaming. Uma pena, pois sem recorrer a torturas mirabolantes, celebridades sendo retalhadas, baldes de sangue ou sustos baratos, ele consegue ser bastante assustador. É um daqueles filmes de horror que fica na sua cabeça por algum tempo e que provavelmente vai continuar na sua cabeça sempre que você tiver que passar por uma situação como essa que eu descrevi aí em cima.

Deixa eu falar um pouco sobre o filme sem revelar spoilers:

Citadel começa no dia em que o casal Tommy (Aneurin Barnard) e Joanne (Amy Shields) estão terminando de fazer a mudança de seu apartamento em um prédio soturno de Glasgow, na Escócia. Quando Tommy fica preso no elevador, ele assiste impotente sua esposa, grávida de oito meses, ser cercada por um grupo de crianças encapuzadas que começam a agredi-la sem motivo aparente. Quando finalmente ele consegue sair do elevador descobre a mulher ferida com golpes de martelo e uma seringa espetada em sua barriga. O ataque deixa Joanne em coma e faz com que ela tenha o bebê antes da hora.

Tommy começa a sofrer de um severo quadro de agoraphobia (medo de espaços abertos). Ele passa seus dias (e noites) trancado em um apartamento deserto, cuidando da filha recém nascida. Quando tem que sair precisa superar seu temor mortal do mundo exterior. Sua rotina envolve empurrar o carrinho de bebê até o hospital onde a mulher está hospitalizada e dali para um grupo de ajuda à vítimas de violência. Sem emprego, fragilizado e arrasado física e mentalmente as coisas parecem não poder piorar.


Eventualmente ele acaba percebendo que as estranhas crianças responsáveis pela sua tragédia continuam espreitando e que seu pesadelo está apenas começando. Ao que tudo indica, as tais crianças (se é que são realmente crianças), querem sua filha e estão dispostas a qualquer coisa para tê-la. Apavorado, Tommy se pergunta se não está imaginando essas coisas: se a sua mente agorafóbica não está criando esses horrores e se ele não estaria simplesmente enlouquecendo. Um perturbado padre irlandês (James Cosmo) parece ser a única pessoa que sabe quem são as bizarras crianças de capuz e o que elas querem. Ou será que ele também sofre dos mesmos delírios do rapaz?

Citadel é um filme incomum. A Glasgow onde ele se passa  é uma cidade estéril, impessoal e fria. Não há pessoas nas ruas, tudo está sempre deserto e quieto, mas não é uma quietude tranquila, longe disso. Quando Tommy tem que apanhar um ônibus, o veículo está sempre vazio. Ele não parece ter vizinhos no prédio onde mora ou amigos além das pessoas no grupo de ajuda. As casas são tristes e sombrias com as janelas sempre fechadas, os prédios baixos parecem torres medievais abandonadas, recortadas num horizonte sempre cinzento. É quase como se Tommy e seu bebê fossem as única pessoas vivas no mundo. Isso dá ao espectador uma sensação de isolamento a medida que as jornadas monótonas se tornam cada vez mais angustiantes.  


Outro elemento perturbador do filme é a maneira como a agoraphobia do personagem principal é mostrada. O ator parece se transformar depois da cena inicial, o pavor dele fica bem claro, estampado na sua expressão de pânico, na sua palidez e nas suas enormes olheiras. Não há exagero, as cenas em que ele precisa superar seu medo e sair de casa, são escruciantes. Por exemplo, quando ele pega o ônibus errado e acaba sendo deixado num lugar distante, sua viagem de volta é um tormento. As ruas parecem cada vez mais sufocantes e em cada esquina uma sombra sugere a presença de uma das malditas crianças de capuz. 

A razão pela qual as cenas em que o personagem sofre de agoraphobia são tão reais, acredito eu, se devem ao fato do diretor (e roterista) do filme ter sofrido exatamente dessa condição. Ciaran Foy, o diretor, escreveu Citadel como uma forma de exorcizar seus próprios demônios. Quando tinha 18 anos, ele foi atacado brutalmente por um bando de adolescentes de 14 anos que o agrediram com um martelo. Após a agressão gratuita - ele jamais descobriu porque foi vítima de tamanha violência, Foy, assim como o personagem de seu filme, passou a sofrer de desordem de ansiedade. 

Incapaz de sequer cruzar a porta de casa, levou anos para que ele conseguisse superar o medo que sentia do mundo. O horror que está expresso no filme é legítimo e as situações descritas fizeram parte de seu dia a dia. Isso por si só, torna o filme assustador.


Pessoalmente eu gostei muito de Citadel. As situações de claustrofobia literalmente transbordam da tela direto para o espectador, há um clima de expectativa, você sabe que algo está prestes a acontecer e que é inevitável assistir. O roteiro não explica no final das contas exatamente qual a origem do horror que atormenta os personagens principais, ele deixa em aberto para o público preencher as lacunas e tentar arranjar uma explicação para o que está sendo mostrado. Quando isso é feito de forma competente o efeito é muito bem feito e se torna duradouro na memória de quem assiste o filme.

O que me leva de volta a minha estória lá no início...

Felizmente, as crianças que vinham atrás da senhora empurrando o carrinho de feira, estavam com ela. Deviam ser os netos ou algo assim. Pelo menos foi o que eu pensei comigo mesmo depois de parar bruscamente na metade daquele túnel mal-iluminado ao vê-los aparecendo do outro lado. E quando eles passaram ao meu lado, não quis olhar para seus rostos para, digamos assim, não ter alguma surpresa desagradável.

Bons filmes de horror são aqueles que ficam com a gente depois que as luzes se acendem e que são lembrados na calada da noite... eles permanecem conosco como uma casca de ferida que você sabe que é melhor não coçar, mas que, por alguma razão - quando você menos espera, você já arrancou.

Trailer (legendado em espanhol):

3 comentários:

  1. Parabéns pela resenha. Curti e vou assistir :)

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  2. Assisti o filme hj e é bem interessante mesmo. A fraqueza do protagonista é agonizante. Achei perturbador o cenário: é uma vizinhança barra-pesada e decadente!

    Clayton Mamedes

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  3. Adorei a resenha. Vou assistir!

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