sábado, 29 de junho de 2013

Violência Sagrada - A tênue linha entre fervor religioso e loucura no Culto dos Circunceliões


O nome "Circuncelião" parece saído de alguma ficção científica de qualidade duvidosa. Um tipo de raça alienígena ou algo assim. Na verdade a palavra "Circuncelion" da qual o termo decorre, significa em latim "camponeses que andam por aí".

Nada muito glamouroso.

Mas quem diabos foram os Circunceliões e porque estamos falando deles em um blog de horror lovecraftiano?

Os Circunceliões foram um culto cristão que existiu no século quarto até meados do quinto. Suas práticas religiosas consistiam em crenças no mínimo incomuns. Basicamente, o objetivo desses cultistas fanáticos era chegar até Deus o mais rápido possível, pois eles acreditavam que a Terra (e nossa existência aqui!) maculava de alguma maneira a perfeição da obra divina. 

Infelizmente, como a morte é a única maneira de alguém conhecer o criador, os Circunceliões ficavam frustrados em suas pretensões pois, ninguém sabia quando ia morrer. Eles compreendiam muito bem que suicídio era considerado um terrível pecado e que sua prática levaria suas almas para o "lugar errado".

Então o que alguém que quer morrer (mas não pode se suicidar) precisa fazer para atingir seu objetivo?

Bem, um membro poderia matar o outro, mas isso condenaria o assassino ao inferno, então nada feito.

Os Circunceliões precisavam encontrar alguém, de preferência um infiel que os matasse. Com esse objetivo, eles andavam por aí, aos bandos, encontrando viajantes nas perigosas estradas da época, com o propósito de puxar briga e fazer com que estes reagissem e os matassem.

Pode parecer ridículo, mas é a mais pura verdade.
  
Embora haja um mito de que a cristandade tenha se iniciado como uma igreja monolítica, os primeiros séculos foram um período muito estranho com grupos competindo e divergindo quanto a questões doutrinárias e políticas. Disputas religiosas podiam surgir de um momento para o outro, pelas razões que hoje consideramos absolutamente triviais. Um grupo, por exemplo, podia determinar que Cristo se manifestava na natureza, em espinheiros sagrados, como os que existiam na Grã-Bretanha do século V. E quando essa crença era colocada em dúvida, a resposta em geral era violenta. Quando espinheiros foram destruídos em um vilarejo por um outro secto, os seguidores do espinheiro santo massacraram os hereges. 

Outro grupo podia dizer que Cristo não salvaria os que não tivessem se dedicado a guardar o silêncio, jejuar e deixar crescer uma longa barba e unhas. E quando eles encontravam alguém que mantinha um bom asseio e higiene ou gostava de uma boa conversa, se sentiam ultrajados ao ponto de exterminá-los. 

Cultos assim surgiam em todo canto, tentando por conta própria interpretar passagens obscuras de livros sagrados e textos gnósticos afirmando ser uma determinada conduta a mais correta que a outra. E em geral, em meio ao fervor e "certeza" eles não estavam muito dispostos a discutir suas bases doutrinárias. Quem os questionava, era um inimigo de sua fé e portanto devia ser removido. 

Os Circunceliões eram um grupo dessa natureza. Eles apareceram no Norte da África em uma das fronteiras mais distantes e decadentes do Império Romano já em vias de esfacelamento. Seus membros eram radicais que combatiam o modo de vida dos romanos e detestavam tudo o que eles haviam construído. Roma no entender dos Circunceliões era o Império mais corrupto da Terra, pois sob sua égide, Cristo havia sido crucificado.  

Mesmo para os padrões de estranheza da época, eles tinham um comportamento bizarro.

Os Circunceliões não trabalhavam, não plantavam, não colhiam e repudiavam as cidades, acampando do lado de fora dos povoados e rezando dia e noite para que Deus os chamasse. Eles viviam de ofertas e doações e segundo o relato de um historiador, quando uma tempestade se aproximava corriam enlouquecidos tentando ser atingidos por raios.

Historiadores afirmam que os Circunceliões surgiram a partir dos Donatistas, um secto que tinha um sistema de crenças incrivelmente complexo considerando o martírio a máxima virtude do ser humano. Incorporando a crença dos Donatistas, os Circunceliões passaram a perseguir o martírio... a qualquer custo.

De acordo com os evangelhos, Jesus disse a Pedro para baixar a espada no jardim de Gethsemane, pouco antes da sua prisão. Muitos cristãos interpretavam esse ato como uma demonstração de pacifismo e negação à violência. Os Circunceliões, ao invés disso, acreditavam que a passagem significava que um cristão não deveria usar armas de lâmina afiada. Mas os evangelhos nada diziam a respeito de paus, pedras e dos ENORMES PORRETES que eles chamavam de "israelitas".


Usando seus "israelitas", os Circunceliões saiam pelas estradas em busca de algum viajante que eles pudessem atacar e provocar. Eles o importunavam e assustavam, esperando que ele de alguma maneira reagisse à altura. Enquanto isso gritavam "Laudate Deum!" (Glória à Deus!). Em face da sua violência e brutalidade, o bando passou a ser conhecido como "agonistici", que é a raiz da palavra "antagonista".

O alvo predileto dos Circunceliões eram soldados, bandidos e estrangeiros que diante de uma turba enlouquecida, acabavam pegando em armas para se defender.

Uma vez que os Circunceliões estavam destinados a serem mártires, eles não se importavam com coisas transitórias como castidade e pobreza. Eles acreditavam que o martírio lavaria todos os seus pecados e os faria renascer na presença de Deus não importando que pecados tivessem cometido em vida. Frequentemente bêbados, para ganhar coragem diante da morte, os Circunceliões costumavam roubar aqueles que se negavam a enfrentá-los (uma espécie de tributo) e por vezes também se dedicavam a estuprar, destruir plantações e atear fogo a propriedades.

Os rituais do bando envolvia a prática de "contar estórias" e compartilhar as ações de seus membros que atingiram o martírio. Eles também fantasiavam como ocorreria o encontro com Deus - no paraíso, e quais seriam as vantagens na outra vida. 

Os Circunceliões chegaram a contar com alguns milhares de membros em algum momento do século quarto, o auge do movimento. 

As guerras do período eram momentos gloriosos que permitiam aos circunceliões atingir seu objetivo. Guerras faziam aflorar o medo e nada melhor do que o temor para motivar alguém a matar um maluco descontrolado. Inúmeros Circunceliões teriam sido mortos por povos árabes. Há registros de que alguns Circunceliões teriam sido aprisionados, torturados e afogados por governantes do Norte da África que não estavam dispostos a tolerar suas sandices.

Mas a loucura dos Circunceliões por vezes era seu maior problema. Um governador da região da Dalmácia (atual Romênia)  acreditando que o secto era composto de loucos ordenou que nenhum Circuncelião fosse morto em seus domínios, uma vez que as leis proibiam a execução de doentes mentais. Como resultado, centenas de Circunceliões se atiraram em um precipício quando souberam que os dálmatas não os matariam de bom grado. 

O hábito de se atirar de penhascos passou a ser aceito pelos Circunceliões e logo centenas deles mergulhavam em queda livre, sendo considerados verdadeiros mártires pelo seu ato.

Eventualmente o culto acabou sofrendo o mesmo destino que recai sobre cultos suicidas -- ele terminou em face da grande redução de seus membros. Os Circunceliões no final do século V, já eram um movimento religioso quase inexistente. Seus poucos membros, aqueles que "ficaram para trás" aceitaram fazê-lo apenas para preservar a memória dos mártires.


Se você é um cristão, saiba que deve-se aos Circunceliões dois princípios que por muito tempo nortearam a cristandade. A "guerra justa" e a "consciência religiosa" foram formuladas por Santo Agostinho tendo esse obscuro culto como base.

O princípio da "guerra justa" foi escrito por Santo Agostinho (um dos maiores sábios da Cristandade) como resposta a pergunta: "Um cristão pode se defender com violência, caso seja atacado por Circunceliões?", pergunta que Santo Agostinho respondeu positivamente, afirmando que a violência é justificável em defesa própria para preservar a vida. Princípio usado até os dias de hoje.

Já a "consciência religiosa" é o princípio através do qual, pessoas podem atribuir a sua crença religiosa fatores que as impeçam de prestar serviço militar ou participar de guerras. Santo Agostinho usou os Circunceliões como exemplo, afirmando que nenhum homem poderia ser forçado a uma determinada ação, se esta fosse contrária às suas crenças religiosas mais profundas. A maioria dos países, inclusive o Brasil, permite a isenção do serviço militar em face desse princípio.

Ok, mas porque estamos falando desses malucos que desapareceram em algum momento do século V?

Francamente, porque buscar no mundo real parâmetros para a ficção é um exercício bastante interessante. Por mais bizarro em que fosse, esse culto de fato existiu e as provas factuais de sua existência tornam plausíveis coisas absurdas, como cultos fictícios devotados às blasfemas entidades do Mythos. Não a existência das criaturas, mas a crença na existência delas seria tão impensável?

Os Circunceliões são um exemplo inquestionável do que fervor religioso misturado a ideologias e doutrinas pode proporcionar. 

Para existir, uma religião precisa apenas de uma coisa: pessoas que acreditem inquestionavelmente em uma mesma crença por mais estranha, incomum e absurda que ela seja. Se um bando de pessoas, milhares segundo fontes históricas, acreditavam que morrer através do martírio era algo desejável e que provocar as pessoas para chegar a isso era um método válido, seria demais ponderar sobre a viabilidade de cultos apocalípticos venerando deuses inumanos e seres alienígenas?

H.P. Lovecraft certa vez escreveu: "Eu não escrevo apenas sobre ficção, mas a respeito de uma ficção possível que poderia vir a ocorrer se estivessem presentes os elementos adequados".

Um Culto de Cthulhu, por exemplo, é à primeira vista inegavelmente absurdo. Mas podemos dizer que tal culto seria impossível de existir se um grupo de fanáticos estivesse disposto a realmente crer na existência do Grande Cthulhu?

A cegueira da razão pode muito bem, vir a ser a iluminação espiritual de outros...

"Laudate Deum!"

6 comentários:

  1. Quando Diocleciano ordendou a grande perseguição aos cristãos do começo do século IV, um grupo destes, preferiu preservar a vida renunciando à fé, entregando os livros e objetos sagrados e denunciando seus antigos correligionários. Passada a perseguição (e principalmente depois da ascensão de Constantino), muitos destes quiseram voltar à Igreja. Um grupo de clérigos e de leigos achou que eles não deveriam ser aceitos novamente, e este deu origem aos donatistas.

    Mesmo com toda a documentação da época, sabe-se relativamente pouco sobre os donatistas. (Mas se sabe muito mais sobre eles do que sobre a seita dos ofitas, por exemplo). Os historiadores os conhecem quase que apenas por seus detratores. Santo Agostinho, por exemplo, condenava-os pelo juízo de que "o cristianismo progride pela morte de seus sequazes" (Liber Contra Petiliani, II, c. 89, v. 196), e abominava os circunceliões, sua vertente popular.

    Além da ideia de guerra justa, é quase certo que os donatistas também foram a seu tempo os mais entusiastas propagandistas do culto dos mártires e de suas relíquias. Eles também desenvolveram a noção de "possessão ou repouso no Espírito Santo", retomada (por outros meios) pelo revivalismo evangélico (s. XIX e XX) e pela Renovação Carismática Católica (s. XX). O Dicionário Patrístico organizado por Di Berardino registra que suas liturgias eram marcadas pelos altos brados, pelos testemunhos espontâneos e pelos cantos entusiásticos. (Eram uma espécie de pentecostais antes do tempo). Em Hipona, os barulhentos encontros presididos Macróbio, bispo donatista, constratavam vivamente com as missas celebradas por Agostinho, bispo católico.

    Na raiva dos donatistas contra o cristianismo transigente e (após Constantino) cortesão entrava um componente de desejo de autonomia regional contra o governo imperial romano (Lancel escreveu que "não foram os historiadores modernos que inventaram a Numídia donatista"). Os imperadores romanos e os bispos católicos que tentaram os reprimir eram chamados de "precursores do Anticristo". No século V eles manifestaram a mesma opinião em relação a Genserico e as conquistadores vândalos - que os exterminaram entusiasticamente. Sua doutrina já havia incorporado a esta altura uma série de elementos muito exóticos que lhes foram trazidos por pequenos grupos gnósticos perseguidos no Egito e na Palestina (como a crença na imaterialidade da imagem humana de Jesus, ou a convicção de que o mundo havia sido criado por entidades más que haviam aprisionado o ser humano na carne e afastado dele o Deus Bom).

    Quando chegaram os conquistadores islâmicos, a maior parte dos donatistas remanescentes converteu-se à nova fé com extraordinária rapidez. O Islã ainda mantém um curioso culto dos mártires no norte da África e na Costa do Ouro, talvez uma herança destas conversões.

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  2. valeu pelo adendo, Alfredo (Y)

    interessante essa seita, serve como parâmetro de maluquice, bem como o KY comentou.

    Também seria interessante usar algo nessa linha, como pano de fundo para um cenário. Não acho que eles fossem funcionar bem num mundo contemporâneo, mas é bem fácil imaginar um grupo com essas crenças existindo em um mundo medieval, ou em um mundo pós-apocaliptico.

    o livro "O Sobrevivente" do Chuck Palahniuk aborda um tema bem parecido. Recomendo fortemente.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Bem, não há quê...

    Acho, entretanto, que isso ia funcionar bastante bem em um cenário contemporâneo. Imagina só o pessoal do Jim Jones com pedras, porretes e uma vontade grande de levar para o céu (?) o maior número de pessoas que conseguissem!

    PS. Muito obrigado pela referência do livro. Dei uma olhada nas sinopses disponíveis na net e ele já entrou na lista de leituras obrigatórias para os próximos meses!

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  5. Alfredo valeu pelo comentário muuuuuuuito elucidador e instrutivo.

    Próxima vez, que tiver uma postagem nesse estilo mando para você antes para dar uma olhada e ver se tem algo que queira acrescentar.

    Fanatismo, loucura, devoção incondicional... tudo isso é combustível para cenários de horror. Quando se ultrapassa a linha da razão em nome do fervor sagrado, as coisas não raramente se tornam apavorantes.

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  6. Ótima matéria. Realmente incrível! =D

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