sábado, 15 de março de 2014

Luz e Trevas, Forma e Conteúdo - Recap do Episódio Final de True Detective


No fim, há apenas Luz e Trevas

Não há Rust Cohle, não há Martin Hart. Não há Reggie Ledoux e não há Errol William Childress. Não há Maggie, nem Lisa, nem Beth ou Audrey. Não há Rei Amarelo e tampouco Monstro Spaghetti. Todos eles são parte de uma entidade ou de outra, Luz ou Trevas, que lutam uma contra a outra pelo Supremacia do Universo. Por vezes a luz não parece nada além de um brilho fugaz riscando o céu escuro. Em outros momentos, ela pode se apresentar como uma infinidade de estrelas pontuando o céu noturno. Um lado nunca consegue superar o outro, ao menos, não por muito tempo. 

Essa introdução para falar a respeito do último episódio de True Detective, uma série que desde já deixa saudade e joga uma enorme responsabilidade para a segunda temporada, que terá a dura tarefa de ser tão envolvente quanto esta. 

Na semana passada o episódio sete, “After You’ve Gone” serviu um aperitivo do que o episódio final reservava para os que seguiram desde o início a investigação dos horríveis crimes na Louisiana em três diferentes épocas. 

Nem preciso dizer que há inúmeros SPOILERS daqui para frente a respeito de “Form and Void”, o episódio final de temporada. Recomendo que antes de ler esse texto, corram para assistir o episódio final a fim de não estragar nenhuma surpresa.

O formato desse episódio já se inicia de uma maneira diferente dos demais. Pela primeira vez temos uma perspectiva de acontecimentos que não pertence a nenhum dos dois detetives protagonistas. A cena inicial que se passa em uma casa em ruínas, afastada, na beira de um pântano escuro e ermo, envolve duas pessoas. O primeiro é o homem do cortador de grama, Errol Childress, o suspeito maior de ser o responsável pelos horríveis crimes cometidos contra mulheres e crianças. Quando vemos o sujeito pela primeira vez, ele está diante de alguém acorrentado em uma cama de molas. Errol fala com uma voz arrastada e monótona do sul dos Estados Unidos, aquele sotaque típico dos red necks (caipiras) da Louisiana.



Quando deixa a cabana, repleta de frases e palavras rabiscadas nas paredes dedicadas ao Rei Amarelo, o sujeito entra em outra casa imunda e se posta diante de uma televisão onde passa o clássico "North by Nortwest" de Alfred Hitchcock, estrelado por Cary Grant. Quando uma voz de mulher chama lá de dentro, ele responde copiando o sotaque britânico com exatidão, como se de uma hora para outra tivesse se tornado uma pessoa diferente, deixando claro que ele pode ser mais do que um caipira vivendo num fim de mundo. Ele é capaz de vestir "máscaras" que o transformam em pessoas muito diferente.

A mulher que fala com ele se aproxima e ele a chama "carinhosamente" de retardada e lenta. Errol diz que está na hora de deixar a sua marca novamente e ela reclama que faz algumas semanas desde que eles "fizeram flores pela última vez". Enquanto Childress afaga a mulher grotescamente, e ela estremece diante de seu toque, ela murmura como o avô dos dois (o que os torna ao menos, meio-irmãos!) a encontrou certa vez em uma plantação, quando ela não passava de uma criança, e a jogou de costas no solo quente para violentá-la.

Essa primeira sequência marca a jornada na escuridão que será esse episódio. 

A viagem sem escalas rumo a um centro pulsante de horror, loucura e perversidade que brotou no pântano da Louisiana e que foi lentamente cultivado por um assassino absolutamente repugnante. Nós já havíamos visto esse monstro no episódio anterior, comentando como sua família sempre viveu naquele lugar, lançando suas raízes profundamente nesse solo negro e fértil. Apenas não sabíamos o tamanho de sua devassidão e a amplitude da sua corrupção.


True Detective já havia chamado a atenção com um excelente piloto e um arco de cinco episódios consecutivos cujo ponto alto foi The Secret Fate of All Life”, um capítulo que beirou a perfeição. A série que pode ser vista como um drama policial (embora não seja sobre procedimento), vai ficar marcada por ter trazido algo diferente: a história dos personagens se sobrepondo ao próprio crime por eles investigado. Form and Void”, o capítulo derradeiro dessa tour de force, é inquestionavelmente frustrante por não ser reveladora, mas ao mesmo tempo ela consegue oferecer uma resolução que acaba se mostrando suficiente, mesmo para os fãs (eu inclusive) que ansiavam por uma reviravolta arrebatadora no último minuto.

Mas vamos com calma...

Logo após a introdução em que quase podemos sentir o gosto de alumínio e cinzas na boca, somos levados de volta ao último paradeiro de Marty e Rust que haviam sequestrado o Xerife Distrital e estavam dispostos a dar a ele um tratamento de tortura para que ele confessasse sua participação na ocultação de um dos crimes. Mas basta ele ver a medonha fita que estava em poder do Reverendo Tuttle para o próprio xerife desmoronar.

Eu adoro o fato de como essa fita parece amaldiçoada... aqueles que assistem sentem o frio da escuridão tocando suas almas. E o Xerife não é diferente! Rust percebe isso e imediatamente sabe que o Xerife embora seja um canalha disposto a olhar para o lado e obedecer a "Cadeia de Comando", não faz parte desse horror. Ao menos não conscientemente. Ao menos desse crime ele é inocente.

Mas justo quando pensamos que a possibilidade dos dois detetives realmente torturarem outra pessoa não passava de um blefe, descobrimos que eles não estão para brincadeira. Basta o xerife jurar vingança para que Cohle acene e balas voem pelo ar, legitimando a sua ameaça de que um franco atirador já havia sido pago para eliminar o xerife caso ele tentasse algo.


"L'Achaim, fat ass"! diz Marty ao entrar no carro. Os dois não estão brincando, esse é o último round e as apostas estão altas. Os dois precisam jogar pesado se quiserem ir até o fim dessa jornada que durou 17 anos.

De volta ao Escritório de Marty, os dois continuam se esforçando para ver o que ainda não conseguiram enxergar em meio às pistas. Quando a solução surge, ela é incrivelmente simples... a pista que eles precisavam, quem diria, viria do pequeno detalhe do "Monstro Spaghetti" ter orelhas verdes.

Quando assisti pela primeira vez, achei a resolução um tanto simplista, mas depois lembrei do Manual de Procedimento Criminal de De Burger (um dos papas da criminologia), que cita que pequenos detalhes, que geralmente passam desapercebidos se você não olhar cuidadosamente, são responsáveis por resolver 90% dos crimes. E aqui não é diferente: motivados pela pista eles descobrem quem é o responsável por ter pintado a casa da menina e com base nessa informação mundana conseguem relacionar as informações e chegam a Errol Childress. No fim das contas, Marty estava certo o tempo todo a respeito da maldição do detetive: "A solução está bem de baixo do nariz do investigador, o tempo todo".

Mas ainda há uma escala nos preparativos para o showdown no pântano...


Marty procura o detetive Papania e marca com ele um encontro num restaurante. Muita gente se perguntou porque ele convidou apenas Papania e não o parceiro deste, Gilbough que se mostrou muito mais comedido e menos direto nas suas suspeitas sobre o envolvimento de Cohle. Acho que tem a ver com o fato de Marty ter conseguido ler nas ações de Papania uma indignação real, um comprometimento verdadeiro em fazer justiça, coisa que ele não conseguiu captar em Gilbough. Em resumo Papania parecia legitimamente querer pegar o criminoso, não por ser um policial, mas porque era a coisa certa a fazer.

Na reunião, Marty quer saber se Papania estará disposto a ajudá-lo caso seja necessário. É quase como um pressentimento de que em breve, as coisas vão sair de controle. Quase um sexto sentido a respeito da letalidade daquilo que eles estão prestes a enfrentar.

Enquanto isso, Errol também antecipa o que está prestes a acontecer. No seu trabalho, como faz tudo para escolas e grupos religiosos comunitários, nós o encontramos pintando uma cerca de colégio com tinta amarela. É como se ele estivesse marcando seu território de caça. No dia a dia, Errol veste a máscara do inofensivo e amável zelador de fala mansa que agradece educadamente a professora que pergunta se quer que traga algo da cafeteria. Mas quando ela se afasta, seus olhos cheios de cobiça investigam as crianças no playground e se derramam sobre um garotinho que se aproxima curioso. Quantas crianças como essa, Errol perseguiu, arrastou para seu covil e sacrificou? Em um único olhar é possível perceber o desejo doentio e monstruoso e que ele se contenta em refrear porque precisa estar preparado para o que está vindo. A luta entre luz e trevas que será travada na sua casa.


De volta para sua casa repleta de tranqueiras, Errol e sua irmã "colhem flores", quase como se fosse um ritual de preparação. O círculo está prestes a se fechar e o mesmo sexto sentido de Marty parece contagiar seu adversário.

Quando finalmente os detetives se dirigem para os recessos do pântano, Rust sente a presença das trevas que eles vem espreitando há 17 anos. A caçada está perto do fim. Ao descer do carro, eles sabem que estão no lugar certo. Marty conversa com a parceira de Errol, a loucura da mulher está a flor da pele, transbordando em suas palavras sem sentido em que ela alude ao irmão/amante como sendo "o pior de todos" que "está em todo canto".

A minha teoria para isso é simples: Errol é o herdeiro do Culto, o último membro da antiga família que cultua o Rei Amarelo; ele caça, captura, mata e sacrifica em seu nome agora que todos os outros morreram ou se foram. Errol é tudo o que restou do cabal de cultistas degenerados. Em sua loucura, ele mantém viva a tradição do clã e imita os rituais que viu os outros membros do culto (os Tuttle e seu próprio pai) executarem nas cerimônias. Mas sua presença é tão avassaladora e onipresente que se sobrepõe aos demais. Errol acredita estar se tornando algo mais, está ascendendo a uma condição divina, ele se tornará o próprio Rei Amarelo. As trevas preencheram totalmente a sua alma, permitiram que ele se tornasse algo poderoso, quase indestrutível, alguém capaz de moldar o mundo à sua volta a partir de suas fantasias perversas. Essa é versão de Errol para o "lugar com as pedras antigas na floresta", mencionado por outros cultistas e pessoas que ouviram falar do local onde "gente rica se reúne para venerar o diabo" - Carcosa!

O que Errol Childress, o herdeiro do Culto construiu por conta própria é sua própria versão de Carcosa, um labirinto de horror em nome da divindade que ele decidiu venerar a seu modo. Não há nenhuma menção a isso, mas na minha opinião é uma explicação perfeitamente razoável; assumir que Errol tomou para si o direito de se auto-proclamar sacerdote do Rei Amarelo, ousando acreditar ser capaz de se tornar o próprio.


Enquanto Marty se ocupa com a irmã, Rust (possivelmente farejando o assassino, como se fosse um perdigueiro) se afasta e acaba se deparando com Errol. Ao dar ordem de prisão, este simplesmente responde "NÃO" com um tom gutural assustador e corre. Ele tirou definitivamente a máscara de caipira gentil e vestiu a de Rei Amarelo.

E é então que seguindo o assassino através de um túnel, que os detetives (primeiro Cohle, depois Hart) adentram os domínios de Carcosa. (NOTA: A legenda em português da HBO em certo ponto dá a entender que "Carcosa" é uma pessoa, mas na verdade é um lugar).

A Carcosa criada por Robert Chambers no conto "The King in Yellow" é uma cidade atemporal, maldita e ancestral. Ele se localiza em outro planeta, possivelmente em outra realidade ou universo. A versão de Carcosa construída por Childress é um labirinto onde despontam os sempre presentes devil catchers, cadáveres de vítimas mumificadas, símbolos desenhados nas paredes e troféus extraídos de sacrifícios. O lugar escolhido para a filmagem foi um velho forte da Guerra Civil que foi praticamente engolido pelo pântano. Uma ótima escolha da produção que se esmerou em tornar o ambiente absolutamente claustrofóbico e aterrador. Desde o clássico filme "O Silêncio dos Inocentes", quando a personagem de Jodie Foster penetra na masmorra do assassino na conclusão, não se via um ambiente tão ameaçador, a materialização das fantasias que permeiam a mente de um serial killer.


Marty ainda explora o galpão onde Errol mantém seu velho pai, o Xerife Childress acorrentado a uma cama de molas. Não que ele vá fugir, é claro. O cadáver putrefato, "que vem atraindo moscas cada vez maiores" alude a Psicose, mas na minha opinião é o último vínculo de Errol com o Culto original. O pai que participava dos rituais, foi substituído pelo filho. Ele é mantido ali para que presencie em primeira mão a transformação de Errol (a criança que ele próprio marcou na face com cicatrizes, segundo soubemos através da criada dos Tuttle). Errol etá prestes a virar o Rei Amarelo e ele deseja que seu pai assista essa transição, mesmo que seja através das órbitas vazias de sua caveira. Eu imagino que ele poderia até estar imaginando que "a morte não é o fim" (como disse a velha criada) e que através da sua transição, talvez o velho Childress pudesse ser trazido de volta. A cenografia novamente se esmera nessa cena, as paredes grafitadas com nomes de personagens extraídos do conto de Robert Chambers são um detalhe à parte.

Mas de volta ao labirinto, onde Cohle já bem adiante, persegue Errol com a voz gutural reverberando em todo canto, guiando seus passos como um Minotauro: "Come on inside little priest... to the right little priest, take the brides path... This is Carcosa." ("Venha para dentro pequeno pastorzinho... pela direita, pequeno pastorzinho, pelo caminho das noivas... Esta é Carcosa").

Enquanto caminha pelos corredores cheios de sombras e recessos escuros, Cohle finalmente adentra o salão principal de Carcosa onde se encontra um enorme altar. Essa é na minha opinião a maior referência ao Rei Amarelo contida na série. O altar/trono do Rei é uma coisa simplesmente hedionda, uma espécie de totem profano, com crânios no topo, ossos humanos misturados a galhos onde pendem pedaços de tecido amarelo como um manto de retalhos puídos.


Para os que não conhecem a mitologia do Rei Amarelo ele é uma espécie de Avatar de uma entidade entrópica. Quando o Rei Amarelo decide assumir uma forma para conversar com humanos, ele costuma optar pela imagem de um homem coroado, trajando um manto amarelo (daí o seu nome). Esse manto é retalhado e em farrapos, daí o outro nome pelo qual ele é conhecido "The Tattered King" (O Rei em Farrapos). Em alguns contos que decorrem da história principal, o Rei Amarelo assume também a forma de um magnífico trono que adorna a mais importante Câmara de Carcosa. E creio que essa é exatamente a função desse aposento, o mais importante de Carcosa. Trata-se da Sala do Trono onde o Rei Amarelo reina absoluto e onde ele pretende assistir a luta.


E diante desse trono que vai se dar o embate final entre Luz e Trevas, representados pelos detetives e pelo assassino. Rust por um instante capta a grandiosidade dos domínios do Rei Amarelo e consegue vislumbrar, ainda que rapidamente, a presença divina do Rei. Talvez a visão cósmica tenha sido apenas uma alucinação, já que Rust comentou várias vezes experimentar visões decorrentes do abuso de drogas, mas quem pode saber ao certo? Talvez as drogas que ele usou tenham aberto as portas de sua percepção a esse tipo de revelação. Fato é que ele viu algo que desviou sua atenção o suficiente para que Childress surgisse das sombras e o pegasse de surpresa. Ferido mortalmente com uma lâmina enfiada na barriga, Rust acaba se desvencilhando quando Marty irrompe na Sala do Trono atirando. Mas o Rei Amarelo (ou a loucura) concede a Errol uma força nada menos que sobrenatural, e ele reage lançando uma machadinha que atinge o segundo detetive e o derruba no chão. Parece que tudo está perdido. O Minotauro se ergue sobre Marty, arranca a machadinha e a ergue no ar, mas antes que possa baixá-la, Cohle o liquida com um disparo certeiro na cabeça.


Após o horrível desfecho, a polícia cerca a área. final de contas, Marty aparentemente conseguiu contatar o Detetive Papania e este respondeu imediatamente. Enquanto os ex-parceiros se esvaem em sangue na Sala do Trono de Carcosa, eles vêem a luz de uma pistola sinalizadora cruzar os céus iluminando a escuridão. É uma metáfora perfeita para o fim da carreira sangrenta de Errol Childress e para o epílogo que se segue.

Tudo levava a crer que um ou quem sabe até os dois personagens morreriam no final. De fato, muita gente parecia estar contando como certa a morte de Rusty, já que desde o início o personagem dava mostras de que mais cedo ou mais tarde acabaria "se cansando de desempenhar sua programação como ser humano". Uma das surpresas do último episódio, foi justamente o fato de nenhum dos dois morrer no final. Eu li em algum lugar, que um dos desfechos possíveis mencionava que Rusty desapareceria após a luta contra Childress. Marty seria o único ferido, e ele simplesmente deixaria o local antes da chegada da polícia. O paredeiro de Rusty seria um mistério, como se, após concluir o caso que consumiu 17 anos de sua vida, ele não tivesse mais nenhuma razão para continuar ali e preferisse sumir de circulação. Mas no fim, o roteiro preferiu outra solução.

Enquanto os dois passam por cirurgias delicadas, ficamos sabendo alguns pequenos detalhes sobre o desfecho do caso. Uma repórter narra brevemente que cadáveres estão sendo desenterrados ao redor da propriedade de Childress e que "um rumor" envolvendo o nome do Senador Edwin Tuttle e o assassino não foi comprovado, ou seja o envolvimento dos Tuttle provavelmente não será trazido à tona.


Marty quando sai da cirurgia recebe a visita de Papania e Gilbough em seu quarto. Os dois detetives até começam a detalhar o que aconteceu, mas Marty os corta bruscamente: "Sério, eu não quero ouvir mais nada sobre isso!".

Para muitos, essa conclusão pode parecer insatisfatória ou até frustrante. Maggie estaria ou não envolvida no caso?  E quanto a Audrey e os indícios de que ela teria sofrido abusos quando criança? Qual seria o grau de envolvimento dos Tuttle no caso? Quem eram os homens na fita? Seriam eles os "homens ricos e influentes" que realizavam sacrifícios no pântano? De onde surgiu o mito do Rei Amarelo e o que ele representa?

O roteiro deixou essas questões em aberto e passou ao espectador a faculdade de preencher as lacunas vazias com suas próprias suposições, sem concordar ou discordar em momento algum. Eu imagino que daqui a alguns anos ainda vão haver teorias a respeito do caso e pessoas inconformadas com a conclusão que não respondeu 100% das perguntas formuladas ao longo dos oito episódios. Eu mesmo gostaria de saber um pouco mais, contudo, depois de assistir o capítulo final mais duas vezes, compreendi que deixar o mistério no ar é uma maneira muito eficiente de perpetuar True Detective. 

Em última análise, mantendo a verdade na penumbra, distante e inacessível o que temos é uma conclusão realista, com a noção de que nada no mundo pode ser totalmente compreendido. E que em alguns casos, uma conclusão ainda que incompleta, é melhor do que conclusão nenhuma.     

O tema principal da série, é que existem pessoas más, com "M" maiúsculo capazes de cometer atos de crueldade inenarrável. Mas também existem pessoas que, apesar de suas falhas e defeitos, estão dispostos a serem essencialmente Boas e lutar pelo que é certo. Este é o ponto central do epílogo, com os dois detetives falando não a respeito da investigação de que tomaram parte, mas sobre o sentido de tudo aquilo: luz lutando com as trevas. A confissão de Rust de que quando estava prestes a morrer sentiu a presença da filha, as observações de Marty a respeito de que as trevas parecem ganhar um grande território e a eventual resposta de seu parceiro de que ele está vendo as coisas de forma errada, e que do seu ponto de vista, a luz, no final das contas está ganhando, são assertivas de que a série é a respeito dos detetives e que o caso é apenas o pano de fundo.  Nesse contexto a resolução acaba realmente ficando em segundo plano. 

"Tuttle. Os homens no video. Nós não pegamos todos eles." diz Rust claramente constrangido por ter sobrevivido.

"E nós não vamos conseguir pegar todos eles. Não é assim que acontece, mas nós pegamos um deles." responde Marty com sabedoria.

E é isso que importa, nem todos os caras maus podem ser vencidos, o mundo não pode ser consertado, mas eles fizeram o melhor podiam. No fim eles tiveram sua justa recompensa, redenção para Rust, aceitação para Marty e agora podem descansar.  


Eu entendo, francamente compreendo que muitas pessoas vão criticar o final da série. Eu mesmo, em um primeiro momento fiquei um tanto incomodado pela ausência de um desfecho, ainda mais depois de ter traçado tantas hipóteses e conjecturas sobre o season finale. Mas analisando friamente o episódio, ele pode não ter sido conclusivo, mas foi satisfatório.

True Detective estabeleceu um novo patamar de qualidade de séries televisivas e, é claro, deixou a sua marca de maneira indelével. Poucas séries conseguiram esse tipo de mobilização, despertaram tanto interesse e fizeram fãs assistir repetidamente os episódios como se eles próprios fizessem parte da investigação a procura d epistas. Prova do sucesso da série é o crash do HBO Go (serviço de retransmissão dos programas do canal HBO) que simplesmente não aguentou a quantidade de acessos logo depois da exibição normal. O DVD/Blu-Ray da série já está na lista de muita gente.

É uma pena que não veremos mais Rust Cohle e Marty Hart, já que a premissa de True Detective envolve reciclar o elenco e o tema a cada temporada. Tudo o que resta é torcer para que a segunda consiga manter esse padrão.

Sentiremos sua falta!


Nota: Para quem gostou da música de entrada, ela se chama "Far from any Road" e é interpretada por The Handsome Family. Por sinal, vale a pena conhecer outras músicas desse grupo.

10 comentários:

  1. Eu acredito que a história da Audrey existiu para a composição da história do Marty. O fato dele ser tão conservador e machista não o livrou de ter que lidar com sexualidade "desviada" da filha. Como a dona do prostíbulo diz : "Homens como você não suportam a ideia de mulheres jovens gostarem de sexo. Isso mostra que o poder que um dia vocês tiveram está se esvaindo", ou algo assim. Concordo com você sobre os problemas da Audrey serem mais um indício de que Marty sofria da maldição dos detetives, sua busca em resolver problemas lá fora, sua hipocrisia e suas fraquezas o impediram de enxergar a violência entrar na própria casa, provavelmente trazida por ele, e afetar tanto suas filhas.
    O diálogo final sobre a luz e as trevas mostra, como você bem disse, que a série era muito mais sobre os detetives do que sobre o crime. Os dois durante toda a hitória lutaram contra suas próprias trevas, o Marty em um nível mais material e compatível com o homem médio e o Rust em um nível mais profundo. Enfim, dois personagens muito bem construídos e cativantes.
    Foi muito bom ler suas análises sobre a série, saciou muito do meu desejo de ter mais informações e debater com alguém sobre a riqueza desse enredo. Agora vou buscar as histórias de H.P. Lovercraft, de quem eu nunca tinha ouvido falar, mais uma coisa boa que a série me trouxe. Obrigada e continue escrevendo.

    ResponderExcluir
  2. Parabéns, novamente pelo primor dos textos. Esclarecedores e omniosos ao mesmo tempo.

    ResponderExcluir
  3. Desnecessário dizer mas sempre bom lembrar ate esse momento essa foi a serie que mais falou sobre os mitos mas o mais importante foi q mostrou a relação do cotidiano dos detetives q e qase tão pouco explorado menos por nosso mestre tão amado H.P. Lovecraft q mostra isso em seus contos
    Mal posso esperar pela próxima temporada e se o combate aos cultos do Grandes e dos Antigos ira permanecer...

    Ao que parece a próxima temporada sera sobre "mulheres duronas, homens maus e uma história secreta do sistema de transporte americano"

    Vamos esperar q as estrelas estejam alinhadas e então sera tarde para os descrentes...

    ResponderExcluir
  4. Obrigado pelo post. Boas palavras.

    ResponderExcluir
  5. "mulheres duronas, homens maus e uma história secreta do sistema de transporte americano"
    Me lembra um pouco um dos contos contidos nos "Livros de sangue" Clive Barker. Na qual um assassino mata pessoas em trens ou metros, com o intuito de alimentar seres que habitam as trevas e na verdade controlam as cidades (particularmente megalópoles). Era um segredo do sistema de transporte. E no final o personagem principal do conto tem um fim bem interessante. Recomendo.

    ResponderExcluir
  6. Como sempre seus artigos são excelentes, Luciano. Realmente, essa temporada irá deixar saudades... E como eu disse no último artigo sobre a série, todos nós fomos vítimas da causalidade mesmo, queríamos enxergar os motivos de tudo, mas a verdade foi mais simples do que pensávamos, a verdade nua e crua como uma soco no estômago ou uma punhalada nesse caso. Eu também esperava uma reviravolta nesse último episódio com talvez uma pitada de horror sobrenatural, mas mesmo assim o episódio foi muito bem dirigido e as atuações então... nem se fala, é como eles anunciaram desde o início o animal mais cruel sem dúvida e o homem. Agora, fica difícil pra eles mesmo se superarem na segunda temporada, já disseram que os detetives serão mulheres e essa história secreta do sistema de transporte americano deve falar sobre histórias de estupro coletivo como ocorrem em outros países como México, Índia, etc. vamos aguardar e ver... Mais uma vez parabéns pelo artigo!

    ResponderExcluir
  7. Ótimo final, ótima série e ótimo texto. Gostei muito de seu ponto de vista a respeito do foco da serie ser na verdade a vida dos detetives.

    ResponderExcluir
  8. Parabéns pela análise, Luciano. Como sempre, adorei. E quanto ao Season Finale, eu achei simplesmente surpreendente, mudou a forma como eu espero ver séries. A forma como a equipe capturou não os Mythos, mas a essência das histórias do Chambers (tudo deixado deliciosamente onírico com a persectiva do Cohle e as "visões"), foi estrondosa. Eles, de certa forma, mostraram o que é cosmic horror e como você não precisa de tentáculos - puxando a filosofia do Delta Green dá para ver que os monstros somos nós mesmos e esse é o verdadeiro horror da coisa (cara... as referências em si são lindas, vão do Chambers, Lovecraft, Thomas Ligotti... putz, até o Alan Moore com aquela magnífica metáfora do céu estrelado).

    Comentários de lado, acho que True Detective é - se a equipe fez isso de forma propostial, óbvio - uma resposta a Lost. Não há aqui uma "lostification" da trama, uma obsessão narcisista com os símbolos da série como um fim em si mesmo, um Mythos auto-devorador. Pelo contrário, não vemos o Culto em si ou qualquer sinal do seu fim, porque (imagino) isso na verdade não importa. True Detective é sobre Marty e Cohle, Luz e Trevas e como os homens se inserem nisso.

    Perfeito :)
    (desculpem o longo post)

    ResponderExcluir
  9. Assisti a série inteira nessa última semana, sempre acompanhando suas análises.

    Depois de ver o penúltimo episódio, e voltar aqui pra ler as teorias, até achei plausível o possível envolvimento da Maggie, porém seria muito difícil inserir isso na conclusão da trama sem que eles tivessem que mostrar tudo de última hora, de qualquer jeito.

    Já nas cenas finais, no hospital, fiquei com aquela expectativa de que algo absurdo e brutal iria acontecer.

    Agora é esperar pela próxima temporada.

    ResponderExcluir
  10. Os shows de detetive são incríveis, eu o amo, meu favorito é "True Detective" que a série é incrível, eles recomendam um monte.

    ResponderExcluir