domingo, 1 de maio de 2016

O Culto do Leopardo - Uma Seita aterrorizante no Coração da África


Todas civilizações humanas tiveram estranhos cultos escondidos nas sombras e na periferia da sociedade. Alguns possuíam práticas que a maioria das pessoas consideram bizarras, alienígenas ou mesmo doentias. Certos cultos espreitavam das trevas promovendo rituais que criavam um borrão entre os reinos do real e do sobrenatural.

Um culto com essas características surgiu na África, estabelecendo um domínio baseado no terror, capturando a imaginação dos colonizadores ocidentais e fazendo com que muitos acreditassem em poderes místicos, magia negra e nos mais tenebrosos sacrifícios humanos. Envoltos na escuridão, seus membros alegavam poder se transformar em grandes felinos que matavam de forma implacável e despertavam um medo primitivo tanto nas populações brancas quanto nas negras. 

Hoje, o misterioso Culto do Leopardo é tratado pela maioria das pessoas como uma lenda ou ficção. Mas a verdade é muito mais aterrorizante do que se possa imaginar. O Culto de fato existiu e esteve ativo até muito recentemente. Ele permanece sendo um dos mais estranhos, pouco compreendidos e perturbadores Sectos da História. Ele conseguia fundir magia, assassinato e práticas sobrenaturais, criando um dos maiores enigmas do Continente Negro.

Na primeira metade da década de 1870, uma série de assassinatos macabros começou a aterrorizar a fronteira e as áreas rurais da colônia francesa de Libreville, atual Gabão, uma das regiões mais ermas da África Colonial. Corpos apresentando ferimentos grotescos condizentes com o ataque de animais selvagens, com marcas de mordidas e arranhões, por vezes, eviscerados, com membros faltando, ou até mesmo decapitados surgiam. A população local, naturalmente supersticiosa, ficou em pânico a medida que cadáveres cada vez mais mutilados apareciam na selva. Embora as autoridades no início atribuíssem as mortes ao ataque de feras selvagens ou escravos descontentes, logo ficou claro que algo muito mais sinistro estava acontecendo.

Após entrevistar alguns nativos, veio ao conhecimento das autoridades coloniais que há muito tempo havia existido na região uma espécie de Sociedade Secreta de natureza selvagem formado por canibais e conhecido como O Culto dos Homens Leopardo. Em diferentes momentos da história esse grupo deixava a obscuridade para levar a cabo seu trabalho sangrento, deixando um rastro de superstição e terror.


Os membros do Culto, de acordo com as crenças populares amplamente difundidas, tinham a capacidade de literalmente se transformar em leopardos ou em seres híbridos meio homens-meio-leopardos. Mas este era apenas um dos seus incríveis e diversos poderes; segundo alguns, eles também podiam controlar animais selvagens e absorver várias propriedades sobrenaturais ingerindo uma poção mágica chamada borfima, que era produzida a partir da mistura de sangue e de órgãos internos de animais e vítimas humanas. Esse tipo de crença era bastante conhecida na África nesse período, a convicção de que se alimentar da carne ou dos órgãos de um inimigo conferia força, resistência e habilidade superior. Além disso, através de rituais e magia negra, os cultistas que matavam e devoravam o coração de certos animais como leão, babuíno, leopardo e crocodilo absorviam o espírito do animal em questão, sendo capazes de assumir a forma deles e se tornar uma dessas formidáveis bestas. De fato, no submundo dos cultos e seitas africanas, existiram Cultos devotados a Babuínos e Crocodilos que agiam como seus animais totêmicos, imitando seu comportamento e matando conforme estes agiam na natureza. O leopardo, no entanto, era o maior e mais temido dos Cultos por ser considerado um animal forte e responsável por guiar os mortos no outro mundo.

O governo colonial não acreditava nessas supostas habilidades místicas, mas a realidade era quase tão bizarra quanto o mito. É claro, os membros do culto não se transformam em leopardos humanos, mas de fato, faziam parte de uma sociedade que perpetuava estórias legendárias sobre caçadas e façanhas realizadas. Os cultistas usavam máscaras e peles de leopardo durante os rituais e vagavam pela noite empunhando garras afiadas de metal, punhais mortais como presas e bastões com pontas aguçadas. Por vezes carregavam até objetos que simulavam o formato das pegadas de leopardos para deixar como rastro. 

Seus covis eram montados em cavernas e grutas nos arrebaldes da civilização. Lá eles se comportavam como os animais que tanto admiravam: devoravam as carcaças de suas vítimas, roíam seus ossos e os usavam como uma macabra decoração. Esses antros rescendiam com o fedor da carne putrefata se decompondo e eram temidos pelos nativos. Haviam chifres e peles penduradas nas paredes e uma grande área central onde ocorriam lutas mortais e orgias blasfemas. Os Homens Leopardo capturavam mulheres e crianças e as usavam como escravos ou sacrifícios diante de totens banhados em sangue humano.

Quando uma vítima adequada era encontrada, em geral um viajante solitário à noite, os Homens Leopardo tramavam uma emboscada e saltavam das sombras atacando como feras animalescas. Eles mordiam e arranhavam, em um tornado de sangue e selvageria. Após a vítima ser violentamente assassinada, os corpos eram esquartejados, com órgãos e sangue cuidadosamente coletados para o uso em festivais de canibalismo, na criação das poções e em rituais bizarros nas cavernas. Um ataque planejado por Homens Leopardo em 1872, no interior do Gabão, deixou um saldo de 13 mortos, todos membros de uma mesma caravana aniquilada pelos cultistas. Os sobreviventes descreveram o massacre como um ataque de homens que pareciam bestas e se vestiam como tal.

Um médico missionário alemão chamado Werner Junge, trabalhando na Libéria em 1930 descreveu a descoberta de uma vítima do Culto do Leopardo da seguinte maneira:

"Havia uma esteira na cabana, e sobre ela encontramos o corpo horrivelmente mutilado de uma menina de quinze anos. A garganta havia sido rasgada por mordidas que deixaram a cabeça ligada a meros retalhos. Havia sinais de mordidas no resto do corpo e inúmeros arranhões nas costas, braços e estômago. Os intestinos foram arrancados, a pélvis esmagada e uma parte do quadril estava perfurado. Uma perna havia sido descarnada e o osso branco estava exposto para fora do ferimento sangrento evidenciando que havia sido roído. A princípio achamos que aquilo era resultado do ataque de um animal da selva, mas uma breve investigação trouxe a luz certas particularidades que nos fizeram repensar essa teoria. Eu percebi, por exemplo, que a pele em diferentes pontos havia sido cortada por uma lâmina afiada. Além disso, o fígado havia sido removido do cadáver com um corte preciso que nenhuma besta poderia efetuar. Eu também fiquei chocado quando averiguei que uma parte do intestino fora cortada de forma limpa. Finalmente, havia a fratura pélvica, um exemplo clássico de dano produzido por uma pessoa incidindo seu peso sobre outra". 


Mas a despeito do que se pensava, as vítimas não obedeciam a um padrão. Havia tanto homens quanto mulheres entre os mortos, de todas as idades, etnias e classes sociais. O Culto dos Homens Leopardo não diferenciavam a origem do sangue derramado pelas suas garras e presas. Os rituais visavam salvaguardar plantações, eliminar doenças e extrair vingança através da magia negra. Também havia um componente de rebeldia dos colonizados contra a opressão dos colonizadores. Embora não se tenha um número oficial de vítimas, as mortes no Gabão tiveram um aumento que pegou de surpresa as autoridades europeias em meados de 1870. A natureza sangrenta e bizarra dos assassinatos chocava a todos, mas atingia com mais força a comunidade branca semeando um pavor crescente nas cidades e vilarejos isolados. Aterrorizados, muitos colonizadores deixaram a região, venderam fazendas ou mandaram suas famílias para outras nações africanas. Os crimes no Gabão ficaram em evidência por quase três anos, as pessoas sumiam na escuridão, eram emboscadas de surpresa e mortas rapidamente. Mas tão rápido quanto se iniciaram, as mortes abruptamente cessaram.

Mas esta não foi a última vez que se ouviu falar do Culto dos Homens Leopardo. Pelo contrário, o banho de sangue estava apenas começando. 

Em 1890, o Culto veio à tona novamente, dessa vez na Nigéria, depois de ensaiar um tímido ressurgimento em Serra Leoa, Libéria, Costa do Marfim e Tanzania. As terríveis atividades do Culto continuariam ao longo do século XX, produzindo mortes e causando medo onde quer que surgissem. Um surto de mortes violentas causadas pelo Culto do Leopardo se instalou pouco depois da Grande Guerra, entre 1914 e 1918, na África Ocidental. Ele foi combatido severamente pelas autoridades que aprisionaram inúmeros suspeitos e executaram aqueles que lideravam a sociedade secreta. Apenas na Tanzânia, mais de 600 suspeitos foram presos, sendo que uma centena deles foi julgada e mais da metade sentenciados a morte. Um dos "templos" usados pelos Homens Leopardo foi descoberto e de dentro dele resgataram prisioneiros torturados e encontraram centenas de ossadas lançadas em um fosso. 

Mas é claro, nem mesmo essa repressão foi capaz de deter a mortandade do Culto.   

A Sociedade continuou existindo no submundo de Serra Leoa e Libéria, mais temido e poderoso do que nunca. Os Homens Leopardo matavam impunemente e desapareciam sem deixar vestígios, misturando-se a população. Na Nigéria, eles ainda estavam ativos próximo do fim da Segunda Guerra Mundial e os colonizadores já estabelecidos no país chamavam a nação de "A Terra dos Homens Leopardo" tamanha sua influência. Durante um período de apenas dois anos, de 1945 a 1947, teriam ocorrido na Nigéria nada menos do que 81 assassinatos ritualísticos comprovados, sendo que mais de duas centenas de outros foram atribuídos a ataques de animais selvagens, embora muitos acreditem que o Culto fosse o verdadeiro responsável pela maioria dessas mortes.


Foi nessa época que o bizarro culto e as mortes ocorridas no distante continente africano chegaram ao conhecimento das pessoas mundo a fora incendiando a imaginação de todos que liam a respeito de Sociedades Secretas e fanáticos vestindo fantasias de leopardo. Um jornal da França descreveu os acontecimentos na Nigéria como "os mais terríveis e aterrorizantes casos de assassinato da história". Na Grã-Bretanha, o London Times noticiou a condição de fazendeiros que se queixavam da presença de nativos canibais que matavam indiscriminadamente.

Para o público, a ideia de um cabal de matadores, trajando peles de felinos selvagens, possivelmente com poderes sobrenaturais, e cercados por misticismo e magia, operando em uma parte do mundo exótica e pouco compreendida era irresistível. Era também a confirmação da presunção de que a África era uma terra primitiva onde ainda vigoravam costumes bárbaros. As estórias macabras sobre os Homens Leopardo começaram a pipocar na cultura popular em todos os cantos: em romances de aventura, histórias em quadrinhos, programas de rádio e televisão. Tarzan, o Rei da Selva, o famoso personagem de Edgar Rice Burroughs ganhou um novo e perigoso adversário na forma da Sociedade do Leopardo. 

Mas enquanto as pessoas falavam a respeito do Culto como uma mera obra de ficção, na África a situação era desesperadora. Um oficial colonial descreveu da seguinte maneira os acontecimentos em uma cidade do interior da Nigéria:

"As pessoas temem sair a noite, e com razão. As mortes acontecem quase toda semana, pessoas que desaparecem na calada da madrugada. Por vezes, ouve-se gritos, mas não se encontram as vítimas. Há rastros de sangue nas ruas e nas matas, mas nada dos corpos. Eles aprenderam a levar consigo os cadáveres e dar um fim neles. Alguns dizem que os membros da Sociedade do Leopardo os devoram em seus redutos. Eu não acreditava nessas estórias, mas depois de ver muitas coisas estranhas, acredito em tudo que falam agora. Pegue os rituais mais horríveis de que você já ouviu falar, multiplique por dez e mesmo assim você não estará nem perto do que acontece nesse lugar. Os Homens Leopardo semearam o medo de tal maneira que não há como viver sem se sentir sufocado pela aura de ameaça constante".

O horror no coração da Nigéria era tamanho que muitas pessoas realmente acreditavam nos poderes sobrenaturais dos Cultistas. Eles conseguiam escalar muros de três metros, entravam em aposentos trancados, matavam sem produzir nenhum som e é claro, se transformavam em animais ou bestas híbridas que caminhavam sobre duas pernas.

Os Homens Leopardo matavam impunemente e ninguém era capaz de detê-los.

Quer saber como isso terminou?

Fique atento para a continuação.

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