domingo, 17 de julho de 2016

A Prisioneira de Poiters - A Trágica vida de Blanche Monnier



No mês de Maio de 1901, o Advogado Geral da cidade de Paris recebeu uma carta anônima descrevendo acontecimentos sinistros em uma casa isolada nos arredores de Poiters. De acordo com a carta, escrita à mão em bom vocabulário e caligrafia, uma mulher estava sendo mal tratada na tal casa. A carta não explicava muito, apenas informava que alguém deveria fazer algo e que as autoridades precisavam ser alertadas já que essa situação já vigorava há mais de 25 anos. 

O conteúdo da carta era o seguinte:

"Senhor Advogado Geral: Tenho o dever de lhe informar de uma séria ocorrência. Eu me refiro a uma velha senhora que é mantida prisioneira na Casa de Madame Monnier em Poiters. Ela está faminta, esfarrapada e vivendo em meio a sua própria sujeira pelo último quarto de século. Algo deve ser feito". 

A tal "Madame Monnier" era uma viúva de 75 anos de idade chamada Louise Monnier Demarconnay. Para muitos, ela era uma cidadã acima de qualquer suspeita. Residia em uma vizinhança próspera em uma mansão, na companhia de seu filho, Marcel. Seu falecido marido, Emile, era o diretor da faculdade local de arte. Marcel de 50 anos, era um advogado e almejava o cargo de professor na Comuna de Puget-Théniers. Para todos os efeitos era uma família normal e com uma vida tranquila, não chamavam a atenção e eram respeitados, ainda que considerados muito reservados.

Foto de um jornal da época mostrando a Mansão Monnier
As autoridades estavam céticas a respeito das alegações contidas na carta. Ainda assim, alguém lembrou que a filha dos Monnier, a jovem Blanche, havia sumido misteriosamente. Blanche era conhecida como uma jovem mulher "alegre e bem disposta" com uma "beleza marcante e expressivos olhos azuis". 

Talvez a carta fosse apenas uma brincadeira de mau gosto. O tipo da coisa que pessoas com tempo livre e coração de pedra faziam. Mas e se não fosse?

Dois policiais acompanharam o Assistente do Advogado Geral, um homem chamado Giroud que bateu a porta do número 21 da rue de la Visitation, em Poiters. Depois de muita insistência, uma mulher, a criada da casa, abriu a porta pedindo desculpas pela demora, disse que estava atarefada e que era a única empregada da família. A mulher pareceu assustada com a presença dos homens, sobretudo dos policiais uniformizados que exigiam ver sua patroa. O lugar estava estranhamente desarrumado e sujo, mas isso não surpreendeu os homens que foram conduzidos a uma sala privada onde deveriam aguardar Madame Monnier.

A mulher surgiu cerca de meia hora depois, amparada pela criada. Ela relatou que não compreendia o sentido da carta e que aquilo não passava de tolice. Os policiais estavam convencidos, mas o assistente pediu para inspecionar a casa alegando que haviam algumas infrações quanto a instalação elétrica. Madame de Monnier disse que ele poderia inspecionar a casa desde que não entrasse nos quartos para não perturbar a tranquilidade e que fosse acompanhado pela criada.

Giroud andou pela casa, observando cada canto enquanto os guardas aguardavam na entrada. Enquanto inspecionava um dos corredores no segundo andar, sentiu um cheiro desagradável que vinha de uma ala da enorme mansão que se encontrava trancada. Ele ordenou que a criada abrisse a porta e essa se negou, avisando que iria chamar a patroa. Giroud foi mais rápido e segurou a mulher exigindo que ela contasse o que estava acontecendo já que parecia claramente esconder alguma coisa. Ela se limitou a olhar para a porta e dizer que não tinha culpa do que acontecia lá dentro. O assistente chamou os policiais e estes derrubaram a porta que estava firmemente trancada.

Ao abrir a passagem o fedor transbordou de dentro e quase os fez perder os sentidos. Eles seguiram o odor até uma escada que levava ao sótão e que também estava barrada. Quando arrebentaram o cadeado encontraram um aposento escuro e apertado. Havia uma única janela coberta por uma pesada cortina que impedia totalmente a entrada de luz.

Eles afastaram a cortina e assim permitiram que o sol adentrasse aquela sala esquecida. Uma chocante revelação então veio à tona:

No canto mais escuro do aposento, coberta por um lençol imundo, havia uma mulher esquelética encolhida, descrita como "pele e ossos" pelos policiais. Ela estava completamente nua, deitada sobre um colchão de palha, ensopado de urina e coberto de fezes. O cheiro era insuportável. Fragmentos de carne, vegetais e pão formavam uma crosta de detritos ao redor do corpo. Ela estava presa a uma corrente de ferro no tornozelo com grilhões rebitados na parede. A pele em carne viva pelo longo contato com o metal. Ao ver os homens ela gritou enlouquecida, assustada pela presença humana depois de tanto tempo isolada.

Apesar de toda a ruína física e mental, o assistente reconheceu os olhos azuis de Blanche Monnier.

Com 49 anos de idade, ela pesava meros 24 quilos.  



Um dos policiais desmaiou no momento que viu as condições da pobre mulher. O Assistente Giroud e o policial restante, trataram de libertá-la, a envolveram num lençol limpo e correram para o Hôtel-Dieu o Hospital mais próximo em Paris. Madame Louise, enquanto isso, permaneceu em seu aposento. Ela foi encontrada horas depois fazendo um lanche de torradas e chá, vestindo uma confortável camisola de seda e chinelos de veludo. Fazia frio na cidade e havia uma lareira acesa. Quando os policiais deram voz de prisão ela apenas pediu que seu filho fosse chamado.

Marcel já havia sido detido na escola onde pretendia dar aula. Ele foi escoltado até a casa em Poiters onde o Advogado Geral começou a fazer um interrogatório.

Foi então que a perturbadora história de Blanche Monnier começou a ser revelada.

Quando tinha aproximadamente vinte anos, Blanche se apaixonou por um homem mais velho - um comerciante com recursos financeiros limitados. A família era contrária a esse relacionamento e exigiu que Blanche abandonasse qualquer esperança de casamento. Segundo rumores, ela tencionava fugir e se casar com seu amado em Marselha onde pretendiam se estabelecer. Outros rumores afirmavam que seu envolvimento havia resultado em uma criança ilegítima que foi abortada por exigência da família. Percebendo que Blanche estava irredutível e que nada poderia ser feito para evitar o enlace Madame Monnier e seu filho, colocaram em ação um plano hediondo.  

Certa noite, Blanche foi drogada com láudano e carregada para o sótão da casa. Quando despertou, foi informada pela mãe que a porta ficaria confinada no pequeno aposento até que aceitasse romper o relacionamento e desposar quem eles indicassem. Certamente, na opinião de Madame Louise, seria questão de tempo até Blanche desistir.

Mas Blanche não desistiu!

E assim, Madame Louise manteve a própria filha como prisioneira no sotão de seu casarão em Poiters. Após uma tentativa frustrada de fuga, Blanche passou a ser presa em um grilhão de ferro. Ela era espancada regularmente por Marcel que subia ao sótão semanalmente com um chicote de cavalo, objeto usado para disciplinar a irmã. Quando ela foi libertada haviam cicatrizes e marcas de abuso em todo seu corpo. 

Fotografias de revistas e semanário franceses da virada do século
Ferida e doente ela quase morreu várias vezes. Alimentada com restos de comida recebidos através de uma passagem no assoalho, ela foi perdendo peso e diminuindo. Ratos a aterrorizavam noite e dia, surgindo dos cantos do sótão para disputar sua comida. Ela usava um escoamento rudimentar que entupia frequentemente e a deixava coberta de dejetos. Por semanas ninguém a visitava e como ninguém respondia aos seus pedidos de socorro, ela parou de implorar por ajuda.

O comerciante com quem ela desejava casar morreu em 1885.

Os Monnier não podiam mais esconder a ausência de Blanche. Eles contaram a todos que ela havia deixado Paris para viver com parentes. Depois inventaram que ela havia casado com um importante juiz de outra província. Finalmente, depois de vários meses surgiram com a estória de que ela havia desaparecido em Marselha após um suposto sequestro. Os Monnier simplesmente inventavam desculpas para o fato dela ter sumido repentinamente. Ninguém desconfiava de nada. Os empregados foram mandados embora e apenas uma governanta de confiança ficou responsável por cuidar das tarefas diárias. A casa foi se deteriorando: a fachada descascada, o pátio sujo, o jardim coberto de ervas daninhas... a aparência era de um castelo assombrado ou uma casa assombrada. Apesar disso, ninguém se importava com o que acontecia lá dentro. Madame Monnier não recebia visitantes ou parentes, amigos não pareciam existir.  

Madame Louise e Marcel foram detidos após o resgate de Blanche. Ela foi transferida para uma prisão enfermaria depois que descobriram que ela sofria de problemas cardíacos. Quinze anos mais tarde, ela morreu em sua cama.

Acusado de cumplicidade, Marcel foi julgado sozinho; o processo começou em outubro de 1901. Ele alegou que sua irmã Blanche era insana e que era necessário ela ficar isolada de tudo e de todos. Testemunhas chamadas pela corte contrariaram sua defesa. Dezenas de pessoas que conheceram Blanche afirmaram que ela se comportava como alguém perfeitamente são antes de seu desaparecimento. Vizinhos disseram ter ouvido gritos em algumas oportunidades, mas que jamais imaginaram que se tratasse de uma mulher prisioneira. Ninguém suspeitava que pudesse ser Blanche. 

Quatro dias após o início do julgamento, Marcel foi declarado culpado e sentenciado a (apenas) 15 meses de prisão. Ele apelou de sua sentença no início de novembro. Com amigos e conhecidos nos tribunais, obteve um perdão especial - uma aberração jurídica jamais inteiramente explicada. Para desgosto da opinião pública, ele deixou a prisão como um homem livre. Após ser hostilizado nas ruas de Paris, Marcel se mudou para Nice.

Em vida foi um homem estranho, tinha prazer em processar as pessoas e recomendar penas pesadas. Em 1910 ele se envolveu em um caso de corrupção na cidade que decidiu abraçar e foi condenado a um ano de prisão na Ilha do Diabo. Dizem que era um homem sádico, envolvido entre outras coisas com magia negra e ocultismo. Mas é possível que essas alegações tenham sido inventadas pelos seus detratores. Ninguém sabe ao certo, mas dizem que ele morreu em um incêndio menos d euma semana após a morte da irmã.

Um jornal de Paris noticia o terrível acontecimento em Poiters.
O prognóstico inicial pra Blanche Moonnier era pessimista: a morte parecia iminente e  a recuperação improvável. Além dos danos causados pela má-nutrição e doença, ela não conseguia suportar a luz e seus olhos não se ajustavam a claridade já que ela havia vivido tanto tempo no escuro.

Mas como por milagre, o estado físico de Blanche melhorou, tratada por médicos voluntários que desejavam cuidar de seu delicado quadro. Blanche recebeu apoio de indivíduos ricos de toda Europa: celebridades, presidentes e até Monarcas enviaram para ela presentes. O governo da França ofereceu uma casa em Paris onde ela poderia passar seus últimos dias, além de uma pensão mensal.

Contudo, apesar de melhorar fisicamente, ela jamais recuperou sua sanidade. Blanche foi tratada por psiquiatras ilustres, entre os quais o próprio Doutor Sigmund Freud que estava em início de carreira. Ela nunca superou o trauma sofrido, acordava aos gritos frequentemente acreditando que estava de volta a escuridão do confinamento, devorada pelos ratos e coberta de sujeira.

Blanche Monnier viveu mais 13 anos. Faleceu tranquilamente em um hospital psiquiátrico de Paris em 1914.

A identidade do autor da carta anônima que possibilitou sua libertação jamais foi descoberta.

9 comentários:

  1. Os monstros que criamos em nossas estórias são meros reflexos do que o monstro humano é capaz de fazer.

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  2. Excelente artigo.Mundo tentacular não decepciona!

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  3. Mais um excelente artigo do Mundo Tentacular! Sério, nunca me decepcionou com nenhum artigo de terror/fatos reais (que é os que eu mais leio) nesse site.

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  4. Que triste, acabaram com a vida da moça, só sofreu, e qdo poderia ter uma vida feliz, já era tarde, pq ficou com a mente perturbada, mas pelo menos, teve uns anos de comida boa, cama limpa e carinho de outras pessoas, pq seus parentes, foram seu pior pesadelo..��

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  5. Insanidade total. Muito triste e a impunidade é e vive no nosso mundo! Triste

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  6. Meu Deus! A realidade sempre consegue superar a ficção! Ela era linda, olhos meigos, virou um corpo esquálido, macilento, pele e osso, acho que o cabelo nunca foi cortado. Não consigo nem imaginar o que ela passou...

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  7. Nunca subestime o potencial humano para fazer o mal.

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