quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Não abra os olhos - Resenha do Livro "Caixa de Pássaros" de Josh Malerman


Feche seus olhos (não vale espiar!).

Agora experimente ouvir o mundo à sua volta, de preferência de madrugada. Ouça com atenção e vários ruídos irão parecer estranhos e incomuns. Espere mais um pouco... preste atenção nos tons, nas nuances, em cada detalhe. Agora faça uma outra experiência, tente andar pela casa apenas ouvindo as coisas à sua volta. Com os olhos vendados, tentando se guiar apenas pelos sons. Que barulho foi esse? Que ruído foi aquele?

Estar cego, virtualmente incapaz de perceber o ambiente. Não ter coragem de abrir os olhos porque o mundo como conhecemos não existe mais e dependendo do que enxergar, você pode enlouquecer de vez e se tornar uma ameaça à todos à sua volta.

Bem vindo a Caixa de Pássaros.

A premissa do primeiro romance de Josh Malerman, lançado aqui no Brasil pela Editora Intrínseca, é que o mundo acabou por conta de uma espécie de epidemia violenta e incontrolável. Ninguém sabe ao certo o que é, como se transmite ou mesmo do que se trata. Essa epidemia, no entanto, causou sérios danos a civilização como um todo e obrigou os sobreviventes a se esconderem em suas casas e não olhar para fora. Abra seus olhos e você pode ficar louco. Matará seus entes queridos e depois vai acabar matando a si mesmo em um frenesi assassino. Quanto tempo é possível evitar espiar o que está acontecendo? Até quando é possível suportar a privação do principal sentido?

Nesse romance pós-apocalíptico não temos informações suficientes para compreender o que aconteceu? Seria uma doença neurológica? Um tipo de histeria em massa? Uma invasão alienígena? Ninguém sabe ao certo, mas há muitas conjecturas. Como nos filmes de zumbis, a catástrofe despencou sob a cabeça das pessoas comuns e a derrocada da humanidade foi muito, muito rápida. A única coisa que está clara é que sair de olhos abertos para o exterior resulta em insanidade, não apenas confusão ou atordoamento, mas violência destrutiva do tipo homicida.  

A estória se passa em um futuro bem próximo, algum tempo depois da desgraça se abater sobre o mundo. Malorie é uma jovem mãe, que cuida de suas duas crianças da melhor maneira possível. Ela está treinando as crianças há mais de quatro anos, a ouvir e reconhecer o mundo através da audição e não da visão. As crianças desenvolveram uma notável sensibilidade e são a sua esperança em uma arriscada missão. Ela planeja embarcar em uma jornada às cegas através de um rio tentando encontrar ajuda. Qualquer som pode ser alguém ou alguma coisa a persegui-la. Ela precisa confiar nas habilidades do menino e da menina para guiá-la por um território misterioso e insondável. E os leitores a acompanham em sua viagem sem saber para onde ela está indo e o que ela espera encontrar.


Os capítulos do livro alternam diferentes épocas da vida de Mallory: sua jornada através do rio, como ela enfrentou o início da crise e como ela foi parar na casa refúgio que se tornou o seu lar. Nós ficamos sabendo como o "problema" começou, acompanhamos o horror e destruição que se instala em um bairro suburbano de Chicago, o início da paranoia, a morte de parentes e amigos e a busca desvairada por um lugar seguro onde ela, grávida, possa ter o filho que carrega. Mallory finalmente encontra um santuário, uma casa onde os habitantes tiveram a oportunidade de se preparar para a crise, lá ela encontra um grupo de indivíduos desajustados, afundados no medo e na superstição. Lá ela também ficará sabendo de teorias conspiratórias sobre a natureza da crise, fará amigos e conhecerá ameaças.

Em estórias de horror, temos dois tipos de personagens. Aqueles com quem não nos importamos e que rapidamente se tornam vítimas das circunstâncias ou dos horrores que espreitam nas páginas. E aqueles para os quais torcemos e esperamos que sobrevivam até a última página. Em Caixa de Pássaros, temos o segundo tipo de personagem personificado em Mallory. Com os saltos na cronologia temporal, acompanhamos como se dá a transformação dela, de uma moça frágil e insegura, em uma lutadora, disposta a tudo para sobreviver e superar as imensas adversidades impostas a ela e suas crianças. A forma como a personagem vai se preparando para sua perigosa viagem, a maneira que ela trata as crianças e os horrores que enfrenta no caminho e nos anos anteriores a partida, são cobertos ao longo da trama.

Malerman conta a história de uma maneira sempre interessante, fazendo com que o leitor vire as páginas em uma agonia crescente.   

A dinâmica de uma casa cheia de refugiados também é um dos pontos altos da trama. Os personagens coadjuvantes que habitam a casa transformada em um microcosmo, estão sempre discutindo, sempre no limite de suas forças físicas e mentais. À um passo da insanidade. Além disso, tem o clima de constante paranoia e medo. Alguns acreditam que a causa da tragédia são monstros; criaturas vindas de outro mundo, realidade ou dimensão (ninguém sabe) que são tão bizarros que apenas olhar para eles resulta em loucura. Os sobreviventes precisam aprender a trabalhar em grupo, usar seus recursos com parcimônia, realizar tarefas em nome da coletividade e, é claro, superar a desconfiança inerente. Nem todos querem colocar em risco a precária segurança do refúgio e as maiores discussões envolvem as expedições para buscar alimento, remédios e material. A narrativa se mantém fixa no olhar de Mallory diante dos acontecimentos, de modo que o leitor só sabe aquilo que ela sabe.

Malerman consegue trabalhar muito bem o conceito familiar de uma sociedade pós-apocalíptica. Não é uma ideia nova, e francamente eu não esperava que ele conseguisse ser original quanto a isso. Mas realmente, ele consegue! Já vimos livros a respeito de civilizações devastadas por doenças misteriosas, por invasões alienígenas e por pragas de zumbis, mas em Caixa de Pássaros, ninguém tem a mais remota ideia do que está enfrentando e isso é terrivelmente assustador. Talvez não haja mais nenhuma ameaça ou perigo do lado de fora, mas é claro, ninguém quer se arriscar. Quem será o primeiro a remover as cortinas das janelas e abrir a porta, convidando o horror a entrar?


Lá pela metade do livro você nem quer mais saber quem ou o que é responsável pelo horror, tudo que quer é que Mallory consiga chegar com suas crianças a um lugar seguro. É claro, a jornada envolve perigos humanos, animais selvagens e a natureza inclemente. Há ainda um inequívoco odor de Horror Cósmico pairando no ar, algo bem próximo do pavor primitivo presente na obra de H.P. Lovecraft. A própria Mallory não sabe ao certo o que está sentindo ou se há alguma coisa inumana perseguindo sua canoa, mas a mera possibilidade a deixa aterrorizada.

"Caixa de Pássaros" é um excelente entretenimento e uma novela difícil de largar. Se você for ler no ônibus ou trem, é possível que perca o ponto ou a estação onde planejava descer. Caso esteja lendo na cama, prepare-se para dormir tarde, pois vai querer ler "apenas mais um capítulo" e quando se der conta, já serão duas da manhã. Caixa de Pássaros é estruturado de uma maneira que você se sente compelido a virar as páginas e saber de uma vez por todas como termina, ao mesmo tempo em que provoca aquela sensação de querer adiar ao máximo o parágrafo final afim de estender o mistério.

Não se trata de um livro de horror sobrenatural, mas um horror íntimo e psicológico que toca cada pessoa de maneira diferente. Alguns talvez se vejam menos suscetíveis ao horror oculto, mas outros vão adorar a sensação de se sentir acossados pelo desconhecido. O fato da personagem que conduz a trama tatear pelos capítulos finais literalmente às cegas, incapaz de traduzir o que está acontecendo é enervante. É um daqueles livros que recorre a imaginação do leitor para que ele mesmo crie em sua mente a perspectiva mais assustadora. E acredite, se você se deixar levar pela história, irá construir o pior cenário possível.  

Eu realmente gostei de Caixa de Pássaros e recomendo a todos os fãs de suspense que por vezes gostam de sentir uma saudável dose de claustrofobia.

2 comentários:

  1. Estava procurando um livro nesse estilo para ler. Obrigado!

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  2. Depois do 'feche seus olhos' nâo li mais nada

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