quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Terrores Profanos - Os contos de Horror do Mestre Arthur Machen


Um experimento sinistro nas montanhas do País de Gales.

Uma criança nascida de uma comunhão profana!

Um jovem aterrorizado por testemunhar algo incompreensível numa clareira da floresta.

Perturbadores desenhos no caderno de um artista.

Um herdeiro levado à miséria após ser enganado por sua misteriosa esposa.

Uma sucessão de inexplicáveis suicídios na alta sociedade.

"Un succés fou! Un succés fou!" declarou ninguém menos que Oscar Wilde após ter acesso à obra – um sucesso insano. No ano de 1893, a icônica novela de horror fantástico "O Grande Deus Pã" (The Great God Pan) chocou e escandalizou a pudica cena literária britânica, que se sentiu ultrajada e fascinada na mesma medida. 

O Jornal "The Manchester Guardian" chamou a estória de "o mais agudo e intencionalmente desagradável livro escrito no idioma inglês".

Continuou a seguir:

"Nós poderíamos falar mais a respeito, mas qualquer comentário a respeito seria dar publicidade a esse trabalho."

E essass foram algumas das críticas mais leves, claro, houve comentários ainda mais contundentes: "The Lady’s Pictorial", um semanário dedicado a literatura chamou a novela de "inumana", enquanto o "Glasgow Herald" recomendou que "após ler tal coisa, melhor seria desanuviar a mente e limpar os pensamentos com algo mais leve afim de esquecer a experiência". O Literary News, um periódico londrino julgou o livro "doentio demais para ter vindo de uma mente saudável!"

O Grande Deus Pã realmente causou sensação na Sociedade Victoriana!

Sacudiu as estruturas do romance gótico de horror de uma maneira que nem mesmo obras consagradas como Drácula, de Bram Stoker conseguiu. O livro se tornou maldito, várias editoras o recusaram por achar a narrativa absurda e demasiadamente extravagante. Os editores temiam que os leitores pedissem seu dinheiro de volta. Que ficassem enfurecidos. Que queimassem o livro causando assim uma publicidade negativa.


O autor de "O Grande Deus Pã" era um jovem de 30 anos, nascido na parte mais escura do País de Gales, uma terra selvagem e inóspita coberta de florestas ermas que ele conhecida e temia como poucos. Seu nome era Arthur Machen (Fala-se Má-Ken).

Ao longo dos sete anos seguintes, ele iria produzir mais alguns trabalhos, e estes, nas palavras de H.P. Lovecraft estariam um degrau acima de tudo que foi escrito no gênero durante o período, superando tudo o que vinha antes. "Algo que marcou um diferencial na história da literatura".

Lovecraft sabia do que estava falando. Em seu ensaio Horror Sobrenatural na Literatura, ele rende elogios rasgados a obra de Machen e o coloca entre os maiores autores do gênero. Não é à toa que muito do Horror Cósmico, termo cunhado por Lovecraft, bebeu da fonte de Machen que dedicou várias de suas estórias a noção de Deuses Alienígenas, entidades extraterrestres e raças inumanas desaparecidas que habitaram o passado longínquo.

Há algo na obra inteira de Machen que soa estranho, bizarro, perturbador... "The Three Impostors", "The Inmost Light", "The Red Hand", "The Shining Pyramid", "The White People", e é claro, "The Great God Pan" representam uma visão muito particular do que seria o Mal Sobrenatural. Os horrores de Machen são os precursores do estilo lovecraftiano, em intensidade e forma são bastante semelhantes. As criações de Machen reverberam e continuam influenciando a literatura de horror, permanecem atuais e apavorantes mesmo hoje. Stephen King sempre rendeu homenagem a Machen, dizendo que o Grande Deus Pã ainda o aterroriza, passados tantas décadas desde a primeira vez que o leu.


E na boa, quem sou eu para contrariar alguns desses luminares do horror? Na minha opinião, Mache é simpelsmente genial. Um dos autores mais viscerais em sua narrativa e perversos em seus temas. A maneira como as estórias de Machen são construídas vão aumentando um suspense e uma aura de estranheza perceptível. 

Muitos críticos, entretanto, encaram a obra de Machen como um tanto superficial, um resultado da decadência do fim do século XIX que lançou uma sombra pessimista sobre o século que estava prestes a se iniciar. Machen foi um dos pioneiros a introduzir sugestões claras de sexo e luxúria nas páginas de livros que seriam folheados pelas senhoras britânicas em busca de sustos e emoções fortes. Não por acaso, mais de uma senhorita teve de recorrer aos seus sais depois de ler as obras de Machen.

O autor foi um dos expoentes no movimento dos doentios "Livros Amarelos" cujo conteúdo chocava e incomodava os conservadores. Mas se a maioria dos autores dessa vertente se dedicavam a decadência do submundo das metrópoles como Paris e Londres, com láudano e absinto enebriando os sentidos, Machen buscava nas regiões remotas de seu País de Gales as raízes para os medos primitivos, com cheiro de mato e madeira apodrecida. Nas florestas ermas, nas charnecas cujas árvores jamais viram um machado, descritas em suas narrativas em detalhes, habitam os horrores ancestrais e que ao cruzar o caminho dos homens, desencadeiam horrores incomparáveis.

Machen foi acima de tudo um poeta, mas também um estudioso do mundo oculto e espiritual. Ingressou na Ordem Hermética da Golden Dawn, ao lado de outros luminares ocultistas do período por indicação de A.E. Waite. Participava de reuniões e rituais de onde extraía inspiração para suas estórias de horror sobrenatural. Alguns colegas torciam o nariz para suas estórias, achavam que ele estava falando demais, compartilhando seus segredos místicos.

Nascido na região de Gwent, ele tinha medo das florestas verdejantes e dos vales profundos que repousam na sombra das montanhas. Afirmava que nenhum lugar era mais aterrorizante do que sua terra natal. Aos 19 anos, com certo alívio, mudou-se para Londres, mas jamais esqueceu das paisagens rústicas que lhe causavam falta de ar e pesadelos. Forçado a escrever para aliviar a pobreza crônica em que vivia, começou a rascunhar suas primeiras estórias antes de completar 20 anos.


Os editores o achavam estranho e evitavam publicá-lo. Vivia, portanto, em estado de quase penúria. Alimentava-se de pão e chá verde, fumava tabaco barato e por vezes conseguia surrupiar um biscoito de algum vizinho ou amigo. Era, no entanto, muito solitário. Habitava um quarto pequeno no qual se trancava para escrever suas estórias. Passava dias sem ser visto. Atiçava a lareira de seu lar com um único cômodo até que as chamas ficassem quase fora de controle, o quarto fervia com o calor do fogo feroz. Enquanto escrevia, o suor se misturava à tinta que escorria da pena para o papel. 

"O Grande Deus Pã" a obra prima pela qual ganharia fama, foi escrito para aliviar suas aflições. Um colega o aconselhou a colocar no papel as lembranças de sua juventude, vivendo em um lugar que conforme ele descreveu causava "uma sensação permanente de perturbação, mistério e terror". Talvez assim, seus pesadelos pudessem ser exorcizados. Vivendo sua infância no vilarejo medieval de Carleon, um assentamento fundado pelos romanos sob o nome de Isca, Machen acreditava em espíritos da natureza, fadas e seres elementais. Era um entusiasta da história antiga e medievalismo.

Machen desconfiava da beleza, reputava a ela uma qualidade indecifrável e dizia que tudo que era belo em seu íntimo era também perigoso. Boa parte da visão de mal definida por Machen, passa pela noção de que a beleza oculta uma feiura indescritível. Em suas descrições da luxuriante natureza do interior de Gales, é possível enxergar beleza perene, mas há por detrás dela, uma perversidade palpável, bem escondida.

Em outra de suas novelas mais celebradas, a "The Dark Seal", o protagonista se rende a exuberância do interior de Gales e baixa sua guarda diante da armadilha que é o lugar. As cenas pastorais nas quais a natureza parece oferecer o que tem de melhor, sempre contrastam com um medo ancestral, forças quase esquecidas que o homem moderno é incapaz de compreender e enfrentar. As criaturas ancestrais que vivem nas florestas isoladas agem através de suas crianças: o assustador povo pequeno, as nada inocentes fadas silvestres e outros seres que habitam as sombras de sua ficção. São horrores rústicos que o mero vislumbre ocasiona loucura e desespero, bem no estilo dos Mithos de Cthulhu.


A aura de beleza sinistra derivada do interior não está limitada às paisagens, mas integra a própria mecânica do horror criado por Machen. A bela aparência Helen Vaugn, personagem central em "O Grande Deus Pã", evoca "os mais vívidos sentimentos de perversidade". Em determinado momento, um dos personagens se refere a ela como "a mulher mais bela e repulsiva que ele conheceu". Assim como em estórias de vampiros, o mal nas estórias de Machen é extremamente sedutor, oferecendo inúmeros prazeres e descobertas para quem aceitar abraçá-lo.

Os rituais de fertilidade realizados em honra ao Deus Pã se referem a comunhão sexual entre Deuses e Mulheres. Seres chifrudos e beldades de aparência inocente. Algo que deveria ser belo, mas que se mostra aniquilador para a sanidade. Tudo está implícito na obra de Machen, em "The Hills of Dreams" por exemplo, o mal se esconde na beleza onírica, todo um mundo de sonhos que é na verdade um portal para os pesadelos mais vívidos.

Os heróis de Machen são indivíduos inocentes, vivendo existências solitárias, seus vínculos afetivos se resumem a amizade, eles são ludibriados pela beleza e se deixam enganar pela aparência angelical de belas mulheres. Só despertam para o perigo quando é tarde demais e enlouquecem pouco antes de terem suas mentes cooptadas pelo horror.

Na obra de Machen, o universo conspira contra a humanidade, e não há uma força benevolente regendo tudo. Não há um Deus, apenas forças antigas dotadas de desejos que pretendem saciar sua vontade às custas da pobre humanidade. Nesse processo, muitos dos heróis de Machen são reduzidos a testemunhas impotentes, fadadas a um destino tenebroso, o que nos leva a mais um elemento célebre na obra de Lovecraft, a impotência e o fatalismo diante de um universo indiferente.

Anos mais tarde, já gozando de fama, Machen escreveu que seu maior erro como escritor foi constantemente retratar o desconhecido como algo tenebroso e maligno. Hoje parece justamente o inverso, esse não era seu maior erro, sem dúvida foi seu maior acerto. Machen era um mestre em sugerir o horror e raramente mostrá-lo. Além disso, seu horror tinha um status universal, ao invés de ser apenas folclore localizado ou mera superstição.  


O Grande Deus Pan serviu para consolidar a carreira de Machen. Apesar, ou talvez por conta, das críticas em várias revistas literárias, a novela chamou a atenção do público. Muitos compravam o livro justamente por conta do teor sexual e das insinuações de profanidade. O livro chegou a uma segunda edição, algo incomum para autores de fantasia gótica. Com sua carreira deslanchando ele se casou e mudou para uma casa maior.

Na virada do século a morte da esposa, após uma longa luta contra o câncer fez com que ele repensasse vários aspectos de sua vida. Por pouco não abandonou de vez a literatura.

Machen se envolveu com movimentos espiritualistas muito em voga no período e se tornou uma autoridade em Religiões Célticas e Cristianismo Primitivo. Ele escreveu várias dissertações sobre o Santo Graal e a respeito de Lendas Arthurianas. Em 1910, Machen decidiu se dedicar ao jornalismo e se tornou um correspondente internacional para o Evenning News. Em 1914, no início da Grande Guerra, ele viajou para a França e começou a fazer a cobertura dos acontecimentos no front.

Nesse período escreveu importantes obras que foram usadas para promover o patriotismo: "The Bowman" e "Angels of Mons" são seus contos mais importantes do período, mas ele também escreveu a novela "The Terror" e "The Great Return", todos marcados pela fantasia e horror. Nos anos 1920 Machen experimentou o reconhecimento de críticos e fãs, publicou biografias, trabalhos importantes e teve seu nome enaltecido como um dos grandes autores britânicos do período. Ele morreu em 1947 em situação financeira confortável e com grande aceitação popular.


Infelizmente, Arthur Machen é pouco conhecido em terras brasileiras. Poucas de suas obras foram traduzidas para o português e mesmo clássicos de suma importância como "Hill of Dreams" e "The Three Impostors", estão indisponíveis em nosso idioma, contudo o lançamento da Editora Clock Tower (ver release) que acertou na mosca com essa publicação, promete corrigir essa grave falha. A Antologia irá reunir o que Machen tem de melhor.

As estórias de horror e fantasia escritas por Arthur Machen podem ser lidas em noites de tempestade em um quarto silencioso e à meia luz, como manda o figurino para estórias do gênero. Contudo, mesmo durante o dia, em um banco de praça ou num parque, será possível apreciar sua narrativa na qual o horror se apresenta no mundo natural. E se a qualquer momento, você sentir um arrepio ao perceber o formato inusitado de uma nuvem, uma fila de formigas ou o piar de algum pássaro, será por que ele já conseguiu mexer com você.

5 comentários:

  1. Muito bom o texto, só conhecia de nome, vou atrás desse livro que a editora Clock Tower vai lançar, valeu !!

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  2. Excelente texto! Não vejo a hora de ler Machen!

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  3. Um excelente autor. Li sobre Machen anos atrás numa antiga edição do Horror Sobrenatural na Literatura, do Lovecraft, e então adquiri um exemplar publicado pela editora Iluminuras, mas que não contém seus melhores contos.

    Parabéns pelo blog, sempre uma fonte de boas histórias de terror e sobrenatural!

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  4. Conheci o autor por esse site e comprei o livro digital dele na amazon.com (em inglês)... e estou adorando. Ótima dica!

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