segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

The Things we Leave Behind - Resenha da Antologia de Aventuras da Stygian Fox


Não é exagero nenhum dizer que estamos vivendo um período de redescoberta do RPG Call of Cthulhu.

Call of Cthulhu está se tornando um título recorrente e cada vez mais gente sabe do que se trata, ao invés de rolar os olhos e perguntar "O que é isso?", sobretudo quando você cita o nome do monstro que dá nome ao jogo.

Muito dessa redescoberta se deve claro à Chaosium, a editora que ao criar o jogo, não apenas se tornou a primeira a adaptar a obra de H.P. Lovecraft, mas inaugurou o gênero de Horror no universo dos RPG. Após uma longa e escura tempestade agravada por um Financiamento Coletivo que quase destruiu a empresa, a Chaosium finalmente está conseguindo dar a volta por cima sob nova direção.

Mas não é apenas a Chaosium que está patrocinando esse revival. Uma série de outras editoras estão aproveitando a hype que se formou ao redor dos Mythos de Cthulhu e adquirindo licenças para publicar livros, aventuras e suplementos inspirados por Call of Cthulhu e o novo sistema de regras. O lendário Delta Green está sendo revisto pela Arc Dream, a Golden Goblin está investindo em Cthulhu Invictus e a Dark Cults Games lançou uma campanha chamada The Star on the Shore, todos eles usando Financiamento Coletivo para capitalizar fãs novos e antigos.

Dentre as novas editoras que surgiram com o retorno do RPG Call of Cthulhu, a Stygian Fox Publishing desponta como uma das mais promissoras e é sobre ela que vamos falar nesse artigo.


O primeiro lançamento da companhia com sede no País de Gales e capitaneada por Jeffrey Moeller foi "Things We Leave Behind" (que podemos traduzir como "Coisas que Deixamos para trás"). Uma antologia composta por seis cenários para Call of Cthulhu sétima edição, todos eles se passando nos Estados Unidos dos dias atuais. O time responsável por criar essa antologia é formado por autores veteranos como o próprio Moeller, Oscar Rios e Brian M. Sammons, figuras conhecidas entre os fãs de Cthulhu. Lançado após uma Campanha de Financiamento Coletivo bem sucedido, as aventuras buscam inspiração em obras dos gêneros suspense, policial e horror. O próprio texto na contra capa sugere que o filme Fargo e as séries televisivas True Detective e Hannibal foram usadas como referência para construir as estórias. E realmente, é possível perceber que os autores se esmeraram em escrever cenários adultos aterrorizantes na América atual, cenários estes que servem a um público mais maduro.

Mas vamos falar um pouco de cada cenário, tomando cuidado para não cair em spoilers.

A antologia se inicia com "Ladybug, Ladybug, Fly Away Home" (Joaninha, joaninha, voe de volta para casa) de Jeffrey Moeller que também é o editor do livro. O cenário trata do sequestro de uma criança de cinco anos em um subúrbio da cidade de Cleveland, Ohio. Logo fica claro que o caso é mais complicado do que parece: Primeiro porque um dos sequestradores comete suicídio logo depois de entregar a menina a um comparsa. Segundo porque o sequestrador suicida era um respeitado ex-membro de uma agência do governo. E terceiro porque os pais da menina são líderes de uma Igreja Cristã Fundamentalista. A questão não é apenas recuperar a criança, mas entender o que levou um agente federal aposentado de ótima reputação a cometer um crime e em seguida tomar a própria vida.


Trata-se de um excelente cenário investigativo no qual o grupo deve correr contra o relógio para trazer a menina de volta em segurança. A medida que a investigação avança, descobertas perturbadoras vem à tona, sugerindo que nem tudo é o que parece ser. Essa aventura é especialmente adequada para um grupo de personagens que façam parte da polícia ou que sejam membros do FBI. De fato, parece ser uma ótima ideia adaptar para Delta Green - o que pretendo fazer!

Misturando paranoia e fanatismo religioso, Ladybug é um cenário poderoso no qual os elementos dos Mythos se confundem com a maldade humana. O horror sobrenatural é muito mais sugerido do que mostrado, assim como ocorre na série True Detective. Em vários momentos, os personagens ficam em dúvida se estão imaginando coisas, sobretudo diante de horrores sutis que vão se tornando cada vez mais bizarros. É um impressionante cenário de abertura que estabelece o tom para o restante das aventuras.

Após a abertura seca de "Ladybug", a segunda estória "Forget Me Not" (Não esqueça de mim) é um soco na boca do estômago. Escrito por Brian M. Sammons, o cenário começa com os investigadores acordando sem saber onde estão, o que houve e nem mesmo quem são. Tudo o que eles sabem é que sofreram algum tipo de acidente numa estrada isolada do meio-oeste e que terão de refazer seus passos para entender como chegaram lá. As pistas estão dentro da van arruinada onde eles acordam, na forma de fitas de video e relatórios do que parece ser uma investigação sobre atividade paranormal em uma casa supostamente assombrada.


Nesse contexto, o grupo terá de descobrir não apenas os acontecimentos que levaram ao acidente, mas suas verdadeiras identidades. É claro, não se trata de uma aventura simples, ela funciona melhor com os jogadores assumindo personagens pré-concebidos e distribuídos pelo mestre. Cenários com amnésia funcionam como um quebra cabeças que vai sendo montado e via de regra são bastante interessantes, ainda que dependam da perfeita sintonia entre o mestre e jogadores. Para o grupo correto, esse será um cenário absolutamente memorável!

O terceiro cenário da antologia com o título "Roots" (Raízes) é de autoria de Simon Brake e tem lugar no meio-oeste dos Estados Unidos. Ele também trata de uma criança desaparecida, dessa vez a filha adolescente de um amigo dos investigadores. Tudo tem início quando a menina, que foi adotada ainda bebê, expressa o desejo de conhecer seus pais biológicos. Após investigar sua origem as pistas acabam levando-a a um estranho vilarejo isolado onde ela foi vista pela última vez. Os jogadores podem fazer o papel de amigos preocupados ou de investigadores contratados para recuperar a garota, mas na minha opinião, essa é outra ótima oportunidade para inserir Delta Green na trama.

Roots é uma daquelas aventuras a respeito de segredos de família trancafiados à sete chave e esquecidos. Segredos que desencadeiam um efeito avassalador em todos que são tocados por ele. Quem conhece o clássico filme de horror "O Homem de Palha" (The Wicker Man) vai encontrar várias referências ocultas envolvendo sacrifícios, paganismo e rituais incomuns que remetem diretamente a essa produção. Há também algo de conto de fadas e fantasia dark no roteiro que é muito bem estruturado. 

"Hell in Texas" (Inferno no Texas) escrita por Scott Dorward leva o grupo a uma jornada de horror no coração do maior estado americano, onde eles precisam elucidar o mistério de uma manifestação sobrenatural que parece surgir durante o Halloween. A história também trata de um tema recorrente: o fanatismo religioso e os exageros de certas seitas que enxergam pecado em todo canto e estão preparadas para punir/purificar os pecadores. Temas polêmicos como sexo, aborto, homosexualidade, drogas e álcool são pincelados ao longo da narrativa que conduz a uma dramática escolha entre Inferno e Paraíso.


Os jogadores podem se envolver de diferentes maneiras, seja como agentes contratados para descobrir a verdade ou como membros da congregação que compartilham da visão "fogo e enxofre" da sua Igreja. Sinceramente, a segunda opção me parece mais desafiadora, embora exija um grupo com certo grau de maturidade já que envolveria interpretar indivíduos preconceituosos.

Obviamente, por se tratar de um cenário de horror, coisas medonhas espreitam ao longo da narrativa, não necessariamente fantasmas como é sugerido mo início, mas coisas dentro do escopo dos Mythos ancestrais. Uma aventura bem interessante.

O cenário seguinte escrito por Jeffrey Moeller tem o título "The Night Season" (A Temporada Noturna) é é de longe o mais incomum da antologia. A história tem início quando os investigadores são contratados para revisar os fatos envolvendo o suicídio de um adolescente na cidade de Anchorage, Alasca. O que teria feito o rapaz a se matar e quais circunstâncias o levaram a isso?


A história se inicia de forma tranquila, mas a medida que avança, elementos estranhos, alucinações e sonhos vão se acumulando fazendo com que os personagens se perguntem se estão realmente acordados ou sofrendo pesadelos. O mais curioso a respeito da aventura é que ele não e necessariamente um conto de horror, tudo depende da maneira como o Keeper irá apresentar a história. Uma das grandes sacadas da trama diz respeito a uma série de ficção científica que se torna real envolvendo os personagens em uma espécie de realidade a parte na qual o que eles veem na televisão se torna parte do mundo real. Uma ótima opção, seria adaptar alguma série conhecida pelos jogadores e fazer com que eles participem dela, como personagens inseridos em um episódio. O conceito é no mínimo... divertido.

Fechando a antologia temos "Intimate Encounters" (Encontros Íntimos), um cenário bônus de Oscar Rios. Os jogadores, dessa vez encarnem jornalistas atrás de uma história suculenta ou investigadores particulares com a árdua tarefa de rastrear um assassino em série apelidado de "Lipo Killer" (Matador da Lipoaspiração), uma vez que ele drena a gordura corporal de suas vítimas. A história é simples e bem direta, mas muito bem escrita e divertida.

Tudo nesse cenário sinaliza afirmativamente para uma homenagem a séries de TV que tratam de investigadores do paranormal às voltas com algo inacreditável, no melhor estilo Arquivo X, com direito a "Monstro da Semana" responsável pelos acontecimentos. A inspiração principal do cenário, aliás é um episódio da série Kolchak: The Night Stalker, que infelizmente é pouco conhecida no Brasil. "Encounters" é um cenário mais convencional, com o grupo visitando cenas de crime, entrevistando testemunhas, coletando pistas e juntando as pontas soltas que eventualmente irão levá-los a um confronto com o horror.


"Things we Leave Behind" é uma antologia com ótimas opções de cenários de horror moderno. Alguns fãs de Call of Cthulhu tendem a torcer o nariz para aventuras modernas, sobretudo porque alguns julgam que o horror dos Mythos acaba diluído no contexto dos dias atuais. Outros defendem que um dos grandes charmes da ambientação é usar como pano de fundo a década de 1920 ou a Era Victoriana. Eu mesmo reconheço que sempre tive uma certa resistência a respeito de rolar cenários contemporâneos, mas essa antologia em especial me deixou muito animado para uma campanha nos dias atuais. O horror dos Mythos contido nessas aventuras não é de modo algum diluído, pelo contrário, ele parece perfeitamente inserido nas nossas aflições, alimentando-se de nossas dúvidas a respeito do mundo que construímos.

A apresentação física do livro é excelente. O visual é limpo e simples, mas ainda assim bastante atraente, remetendo aos livros antigos de Call of Cthulhu. A capa é discreta, com uma bela fotografia de árvores antigas numa floresta, algo que evoca perfeitamente o clima de isolamento das estórias. A arte interna me agradou muito, os trabalhos em preto e branco conseguem passar a dramaticidade das cenas e concedem referências visuais valiosas para os acontecimentos - exatamente  que se deseja encontrar num suplemento de aventuras prontas.    

A edição que chegou às minhas mãos, gentilmente oferecida pela Stygian Fox tem capa dura e um acabamento impecável. É um livro que definitivamente vale a pena ter na coleção e cujo conteúdo "pede" para ser usado na mesa de jogo. Para grupos que apreciam aventuras investigativas, bem elaboradas e adultas, essa antologia é uma excelente pedida. Material de altíssima qualidade, assinado por veteranos que sabem o que estão fazendo e que prometem sangue novo para o Horror Moderno de Cthulhu.


UPDATE: Antes de concluir essa resenha, a Stygian Fox, esperta como uma raposa (desculpe o trocadilho) já atacou novamente. Está em curso outro Financiamento Coletivo pelo Kickstarter, uma segunda antologia de aventuras modernas de Call of Cthulhu 7th edition. Com o título "Fear's Sharp Little Needles" (Pequenas e afiadas agulhadas de medo, em uma tradução mandrake) é uma nova antologia contendo aventuras curtas - destinada a uma única sessão de jogo, se passando novamente nos dias atuais.

Com a chancela de "Things we Leave Behind", não é de se estranhar que a meta inicial do Financiamento tenha sido batida em apenas 5 horas e 16 minutos. Os apoios continuam subindo em um ritmo alucinante e não vai ser surpreendente que ele vá atingir um belo total quando a campanha se encerrar dentro de 30 dias.

Fiquem de olhos abertos para a Stygian Fox, esses caras ainda vão dar o que falar!

Fear's Sharp Little Needles - Página do Kickstarter



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