sábado, 6 de maio de 2017

Cinema Tentacular: The Void - "Existe o inferno, isso é pior"


Parece lugar comum iniciar essa resenha citando Friedrich Nietzsche que disse, "Se você olhar para o abismo por tempo suficiente, o abismo olhará de volta para você", mas vou correr o risco. O abismo, e tudo que existe nele - ou inexiste, são o tema de The Void, um filme muito aguardado pelos fãs do Cinema de Horror e cujo trailer causou imensa expectativa.

No final do ano passado, The Void, que ainda não tem título em português e nem previsão de lançamento por essas bandas (se é que vai sair aqui), começou a chamar a atenção dos fãs de horror. Não era para menos, o trailer era alucinante em todos os sentidos. O estilo remetendo diretamente aos filmes de horror apocalíptico de John Carpenter, o ritmo vertiginoso, as imagens impactantes e um tipo de horror que deixou saudades. Aquele terrorzão clássico dos anos 80, a década que gerou alguns clássicos pelos quais, todo entusiasta do gênero nutre um carinho especial.

Mas além disso, havia algo mais, algo decididamente Lovecraftiano no ar. As imagens não deixam dúvida, o Horror Cósmico pontilha cada centímetro do trailer arrebatador, trailer que eu assisti repetidas vezes. Confesso que fiquei de boca aberta e queixo caído. Os fãs de horror, não é de hoje, estão carentes de H.P. Lovecraft no cinema. Desde os saudosos dias de Stuart Gordon e do já citado John Carpenter, que conseguiram trazer para a tela algumas boas adaptações, o Cavalheiro de Providence não tem um filme decente.


Pois bem, faz umas três semanas consegui colocar minhas mãos ansiosas em uma cópia de "The Void" e essa resenha é o resultado. Vocês devem ter percebido que três semanas parece um prazo longo para escrever uma resenha, quanto mais de um filme tão esperado. Pois é, o "atraso" tem uma razão de ser: eu demorei a entender o filme.

The Void é em todos os sentidos um filme muito, muito estranho.

Minha primeira impressão era de que o filme sofria de um problema crônico de continuidade e montagem. Parecia uma colagem de acontecimentos sem muito sentido, entrecortado por cenas meio sem pé nem cabeça que não se encaixavam na estrutura da narrativa. Sabe quando você pega um bombom esperando um determinado sabor e por engano comeu aquele maldito com recheio de marmelada? Pois é, a sensação foi essa.


Eu assisti uma segunda vez, com mais atenção, já com o fogo da expectativa apaziguado, assumindo uma postura mais crítica. Filme visto e o sentimento permanecia: Continuei sem entender. Decidi que seria preciso ver uma terceira vez, deixei passar uma semana e coloquei de novo. Se depois do terceiro round eu não tivesse compreendido, das duas uma: ou o filme era ruim ou genial além das minhas capacidades. Finalmente, lá pela metade, senti aquele click e acho que as coisas se ajustaram. Ao menos entraram em perspectiva.

The Void não é o divisor de águas que eu estava antecipando. Não é um filme acontecimento, muito menos aquele que vai traduzir definitivamente o Horror Cósmico para o cinema. Contudo, isso não quer dizer que The Void seja um filme ruim, não mesmo. Ele é, como eu disse antes ESTRANHO. Estranho à beça. Estranho de cabo à rabo. Estranho, estranho e estranho... e quanto mais eu assisto mais estranho fica (sim, antes que perguntem eu vi uma quarta vez agora a pouco para escrever essa resenha!)

Mas "sobre o que é esse maldito filme?", vocês devem estar se perguntando. Fiquem tranquilos, eu não pretendo dar spoilers e estragar a diversão alheia, ao invés disso, vou falar dele de maneira bastante geral, portanto, leiam sem medo.


The Void começa com um prólogo que remete a "Enigma do Outro Mundo", no qual um ato de violência e aparente de loucura é deflagrado. Dois homens (pai e filho) entram numa casa e realizam uma chacina na base da espingarda e machado. Para coroar a matança incendeiam os corpos. A seguir, um oficial de polícia (Aaron Poole) encontra um rapaz ferido no meio da estrada e decide levá-lo até o pequeno Hospital do condado. Ele não sabe, mas o sujeito é o único sobrevivente da chacina. O hospital local está em processo de fechamento, contando com uma equipe reduzida e inexperiente, operando com poucos recursos e equipamento. Uma das enfermeiras é por acaso a ex-esposa do policial (Kathleen Munroe). A relação entre os dois derrapou feio após uma tragédia pessoal e terminou pior ainda. Carter decide deixar o rapaz por lá sob observação, acreditando que ele deve estar sob efeito de drogas ou algo assim. Ele não imagina, no entanto, que sua decisão terá consequências dramáticas, sobretudo quando algumas pessoas da equipe começarem a agir de maneira bizarra e membros de um culto sinistro cercam o prédio impedindo a fuga.

O filme investe na premissa batida de um grupo confinado em um ambiente contra sua vontade - um supra-sumo do horror. Mas dali avança para algo mais denso, a medida que os limites do hospital que deveriam representar um refúgio seguro, se provam justo o contrário. O grupo não está protegido lá dentro, quando muito está preso com coisas horríveis, muito mais perigosas do que qualquer coisa do lado de fora. Ninguém está em segurança e as situações nos corredores e alas do hospital vão se desenrolando de forma sangrenta com um pé fincado no gore.

O que eu demorei a entender a respeito de Void é que ele não é a respeito do mundo real, ele é como um pesadelo aos olhos de quem não consegue acordar. Um sonho sinistro em que, quanto mais fundo você mergulha, mais surreal ele se torna. Os personagens do filme compartilham do mesmo sentimento que o espectador: eles não sabem o que está acontecendo, apenas são confrontados com mais e mais horrores a medida que vão perdendo qualquer âncora com o mundo real. A medida que coisas abomináveis com múltiplos tentáculos, cadáveres sem pele e entidades grotescas surgindo para atormentá-los e matá-los das maneiras mais perversas. A equipe do hospital e os pacientes são confrontados pela certeza de que não há escapatória desse Caos. E mesmo que sobrevivam, eles já viram o suficiente para fazer ruir mente e espírito pelo resto de suas vidas.


The Void é ao mesmo tempo familiar e bastante inovador. As homenagens a outros filmes e livros de horror estão em todo canto, mas elas não soam derivativas. É notável como a dupla de diretores, Steven Kostanski e Jeremy Gillespie conseguiram homenagear alguns dos melhores filmes de John Carpenter, "O Enigma do Outro Mundo" e o subestimado "Príncipe das Sombras". Mas há muitas outras referências que vão de "Re-Animator" a "Hellraiser", de "O Nevoeiro" até "Madrugada dos Mortos". O filme evita sustos fáceis e investe num tom realmente visceral com cenas sanguinolentas e erupções de gosma, à medida que deixa um rastro de restos humanos e cadáveres semi-digeridos.

E o Horror Cósmico? Ah, ele ele está lá! Representado da maneira mais bizarra possível - como deve ser. Por intermédio de alucinações, o protagonista encara um mundo de Caos Indiferente, com uma paisagem alienígena na qual desponta um triângulo negro, a ponte entre nosso universo e outro, de onde escorreram os terrores que infestam o hospital. A insignificância humana é como um chute na boca do estômago. Não existe razão que sobreviva a essas revelações.

Outro mérito é que o filme apresenta alguns dos mais engenhosos efeitos práticos dos últimos tempos, dentro da proposta de gênios como Stan Winston e Tom Savini que criavam efeitos sem recorrer às facilidades digitais. O resultado são sequências assombrosas com um vigor quase barroco. O tema do nascimento blasfemo é explorado repetidas vezes em imagens de tirar o fôlego e embrulhar o estômago.


O elenco faz um bom trabalho reagindo diante desse terror inexplicável e sufocante, mas infelizmente, é na superficialidade dos personagens que reside o maior pecado do filme. Em nenhum momento eles parecem bem desenvolvidos. O policial é um protagonista adequado, mas ele não consegue carregar o filme inteiro sozinho, lá pelas tantas, suas dúvidas se tornam um tanto cansativas. Os demais personagens são muito rasos, o que é uma pena, já que um pouco mais de profundidade faria deles algo mais do que meros desconhecidos esperando sua vez de serem retalhados. 

O problema mais grave é que o vilão do filme também é pouco aproveitado. Uma pena, pois ele poderia literalmente roubar o filme se tivesse espaço suficiente para explorar suas motivações e maldade. Do jeito que ele é apresentado, ficamos sem saber o que ele pretendia. O tal culto também não tem muito espaço, e o efeito macabro dos maníacos vestidos com mantos e portando facas curvas, acaba diluído no meio da trama. Você fica torcendo para que o filme fale mais deles, mas isso não acontece o que acaba sendo frustrante. 

A despeito de seu roteiro confuso e dos personagens unidimensionais, The Void ainda é um filme instigante. Com certeza, ele irá dividir opiniões, sendo elogiado na mesma medida que outros irão detestá-lo com igual ou até maior intensidade. Mas se existe um mérito em The Void, esse reside na forma como ele captura a essência do pavor diante do desconhecido. O filme não é a respeito de um horror que pode ser definido em palavras, os monstros estão lá e com certeza são aterrorizantes, mas não é a forma deles que assusta, e sim o fato deles serem absolutamente inaceitáveis do ponto de vista racional. E se isso não bastasse, The Void ainda conta com um final pra lá de inusitado, que reverbera por longos minutos depois que os créditos se encerram.


Ainda é cedo para cravar a previsão, mas eu imagino que The Void tem tudo para se tornar um Cult Movie, admirado por fãs que enxergam nele méritos, muito além dos defeitos. E há espaço para ambos. Torço de coração para que um dia tenhamos uma versão do diretor, com alguns minutos a mais que poderiam fazer uma diferença marcante.

Se você depois de assistir The Void ficar em dúvida a respeito do que acabou de ver e se sentir incapaz de definir até mesmo se gostou ou não, faça como eu: diga que ele é simplesmente estranho, muito estranho. 

Você não estará errado.

Trailer #1:


Trailer #2:



Cotação:



13 comentários:

  1. Gostei muito do filme, assisti apenas uma vez até agora, e não fiquei nem um pouco decepcionado, de todos os filmes inspirados no universo lovecraftiano acredito que seja o que mais se aproxima da ideia alienígena, da insanidade. Excelente filme super recomendo.

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    1. Sou obrigado a discordar pela falta de explicação no enrredo, não se sabe quando começa e quando termina, muito desconexo tudo.

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  2. Infelizmente não consegui gostar desse filme. A qualidade técnica é muito boa e retrata de forma satisfatória a loucura e outras características fundamentais do horror cósmico, mas falta um roteiro/enredo que signifique tudo que é mostrado. Talvez se fosse mais longo o desenvolvimento fosse melhor...

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    1. Um filme parecido que tem mais lógica é a beira da loucura do john carpenter

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  3. eu gostei bastante do filme, sem duvidas uma idéia diferente... pode ateé não ter explicado muito sobre as coisas que apareceram, porem eu gosto disso, onde nós expectadores podemos tirar nossas própria conclusões e servir de idéia inspiradora para aventuras de rpg !!

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  4. Esse eu não conhecia. Vou dar uma conferida é sempre bom termos novos filmes Lovecraftiano .

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  5. Vou tratar de assistir agora mesmo!!!

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  6. Deus me livre desse filme... não gosto de bizarrice e insanidades. Gosto de filmes que, mesmo com final ruim - trágico, violento, etc., pelo menos traga uma explicação para tudo o que aconteceu. Esse aí é loucura total.

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    1. verdade, não tem uma explicação no enrredo

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  7. Mais uma vez o mundo tentacular faz uma indicação excelente de filme!!! O final é realmente impactante, diferente e lovecraftiano hahahaha... A parte "subterrânea" do hospital me lembrou o Kult rpg, principalmente quando aparecem aqueles seres bizarros!!!

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  8. Vei na boa, esse filme tinha tudo pra ser MUITO bom. Mas a superficializadade dos personagens incluindo vilão e culto acabaram com o filme.

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  9. Realmente a trama tem todos os elementos para um excelente filme, mas pecou ao deixar lacunas de continuidade e também faltou mais aprofundamento a cada personagem por parte do roteirista, uma pena, tinha tudo para surpreender, mas deixou a desejar.

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