terça-feira, 16 de maio de 2017

O Japão e seus Místicos - A Guerra Secreta no Império do Sol Nascente


Continuando o artigo a respeito do Japão e suas experiências com o sobrenatural na Segunda Guerra Mundial.

Não é de se surpreender que existissem muitos outros místicos e indivíduos com dons paranormais atuando nas Forças Armadas do Japão. Com o envolvimento de pessoas interessadas em ocultismo no Exército e na Marinha, era questão de tempo até estes começarem a se destacar e buscar espaço.

Um destes místicos era Wasaburo Asano (1874-1937), um dos pioneiros no campo das pesquisas psíquicas e parapsicologia. Graduado na Universidade de Tóquio, ele começou a sua carreira como professor de inglês dentro da Academia Naval na Capital do Japão. Como membro fundador da Shinto sect Omoto (ou Oomoto) ele se tornou famoso por realizar previsões e profecias. Em 1921 ele previu uma mudança dramática na estrutura do governo e quando esta aconteceu, chegou a ser preso sob suspeita de participar da conspiração. A seguir, Asano fundou a Sociedade Japonesa de Estudo Psíquico em 1922. Ele manteve fortes conexões com oficiais da Marinha como resultado de seus anos na Academia Naval e é claro, era um membro da Oceano Escuro, uma Sociedade Secreta com membros na Marinha Imperial. Seu irmão mais velho, Seikyo, foi comandante naval de alta patente e mais tarde ascendeu ao posto de Vice-Almirante. Os irmãos Asano forjaram uma poderosa aliança dentro do secto religioso da Oomoto estabelecendo rituais que eram realizados entre os Oficiais da Marinha como iniciações e até casamentos.

Em agosto de 1925, Asano assinou um artigo a respeito do estudo da parapsicologia no Japão para a Revista britânica Light. O artigo descrevia Asano como "um homem com mente aguçada, culto e plenamente versado no estudo psíquico, uma das maiores autoridades no conhecimento das faculdades mentais". O texto informava que o Japão possuía centros de estudo e academias patrocinadas pelo governo com o intuito de pesquisar indivíduos com dons mediúnicos. Segundo Asano, o governo japonês realizava testes em alunos de colégios e universidades em busca de pessoas com capacidades psíquicas inatas. Uma junta de professores treinados pelo próprio Asano realizava a triagem e separava os candidatos que apresentavam potencial.


Na mesma publicação, ele comentava que alguns de seus alunos haviam manifestado faculdades de clarividência, telecinesia e telepatia comprovadas e documentadas pela Sociedade Japonesa de Estudo Psíquico. Em um dos experimentos, uma mulher em Kioto foi capaz de "ler a mente" de uma pessoa em Tóquio, usando para isso um transe que lhe permitiu escrever uma mensagem detalhada. Em outro teste, um médium conseguiu descrever sete fileiras de números que foram transmitidos mentalmente por uma pessoa em outro prédio. Um homem de Ryu seria capaz de criar fogo com a mente e acender fardos de feno apenas se concentrando neles. Asano se vangloriava de que os japoneses possuíam o maior centro de capacitação psíquica do mundo, com cerca de 3 mil estudantes.


O líder da Seita Oomoto, Deguchi Onisaburo (1871-1948) também era um estudioso da parapsicologia e alguém que acreditava poder interpretar emanações psíquicas enviadas do futuro. Onisaburo falou a respeito da Segunda Guerra Mundial, suas causas e seu desfecho, prevendo não apenas a derrota do Japão, mas o uso de armas de destruição que devastariam seu país natal. Onisaburo ofereceu ao Departamento do Exército informações que segundo ele, seriam vitais para vencer a Guerra, mas muitos afirmam que suas sugestões não foram levadas à sério.  

A Seita Oomoto foi criada depois da descoberta de Deguchi Nao, uma dona de casa do vilarejo de Ayabe que muitos acreditavam possuía um "espírito guia" que lhe permitia ter visões do futuro. Em 1892, ela se tornou famosa, canalizando mensagens que vinham através de ondas psíquicas de seu espírito guia que vivia na década de 1950. Três anos mais tarde, ela já havia reunido seguidores que acreditavam nas suas profecias. Ela conheceu Onisaburo em 1898, um professor que estudava lendas sobre possessão espiritual. Em 1900 Onisaburo casou com a quinta filha de Nao, uma moça chamada Sumi. A seita foi construída com base nas visões do futuro de Nao e nas técnicas de interpretação de Onisaburo. 

Nao afirmava ser capaz de ouvir sons e perceber silhuetas quando entrava em transe. Estas ofereciam súbitas visões do que estava por vir, ela teria previsto o Ataque a Pearl Harbor, afirmando que o ataque conseguiria causar um dano considerável nos inimigos, mas que ele acordaria um gigante. Quanto às Bombas Atômicas, a profetiza afirmou que a derrota do Japão seria dolorosa e que enormes explosões destruiriam as cidades mais importantes do Japão. Na previsão de Nao, seriam 5 cidades devastadas, Nagoya, Saporo e Tóquio que também seriam alvo de uma morte flamejante que viria do céu. Alguns afirmam que o Japão sabendo dessa profecia teria capitulado antes de mais três cidades importantes serem reduzidas a cinzas por Bombas Atômicas. 

Outro psíquico importante, Harumitsu Hida (1883-1956) apareceu em uma das Escolas Psíquicas mantidas pelo governo japonês. Durante uma aula, ele sentiu uma fonte de energia emanando de seu abdomen. Ele chamou essa energia de "Chuskin-ryoku" (A Energia Central).


Usando essa energia mística Hida afirmava ser capaz de realizar uma série de milagres como levitação, leitura de mentes, invisibilidade e pirocinese. Em suas últimas experiências, ele afirmava ser capaz de projetar sua consciência em direção ao futuro e ver o mundo como seria dali a 1000 anos. Seja lá o que ele testemunhou, Hida jamais compartilhou com ninguém. Ele morreu após 48 dias jejuando para se purificar diante das coisas que viu após lançar sua mente no futuro. Hida dizia que a raça humana passaria por períodos de provação e que não estava certo se queria viver em um mundo que estava fadado a se tornar tão aterrorizante.

Durante a Segunda Guerra Mundial, ele fez treinamento de outros místicos e supostamente se envolveu em um programa de treinamento de sensitivos que visava criar um grupo de soldados especializados em canalizar sua Energia Central como armas de guerra. A teoria é que soldados capazes de voar, incendiar o inimigo e ler a mente alheia seriam ótimos trunfos para as Forças Armadas. Hida teria treinado mais de 500 alunos com potencial paranormal, mas os registros destes testes se perderam durante a Guerra, sobretudo porque, a Escola coordenada por Hida ficava em Nagasaki.

Parece razoável acreditar que o Japão tinha interesse em misticismo, mas será que, apenas isso, prova que esse interesse era compartilhado também pela Marinha Imperial e pelo Exército? O que prova que eles se valeram de métodos pouco-ortodoxos, leia-se sobrenaturais, para o esforço de guerra?

Esse artigo e o anterior estabeleceu o contexto para o possível uso de armas e conhecimento paranormal pelas forças armadas japonesas. Foi mostrado, como os japoneses tinham inclinação para acreditar no misticismo, sendo um povo que reverenciava seu líder máximo, o Imperador Hirohito como um Deus na Terra. Ao mesmo tempo, o Japão estava em uma rota para desenvolver armas de alta tecnologia para a época. Assim como ocorreu na Alemanha Nazista, haviam Sociedades Secretas e Seitas, operando nos bastidores do poder, envolvidas com rituais e estudo do paranormal. Médiuns, videntes e estudiosos desses assuntos eram tratados com grande deferência e interesse, a ponto de serem considerados como celebridades. Havia um inegável elo estabelecido entre grupos de pesquisa, psíquicos e militares.  


Um dos objetivos principais do Japão, logo no início da Guerra, era aleijar a Marinha Norte-Americana, seu principal oponente no controle do Pacífico. O ataque a Pearl Harbor deveria avariar a maioria dos porta-aviões americanos estacionados em Oahu fazendo com que eles ficassem em desvantagem e acabassem derrotados pela superioridade dos japoneses. Acontece que nem todos os navios, alvos do ataque, estavam no Havaí no dia do ataque surpresa. O Almirante Yamamoto, Comandante Supremo da Marinha imperial, sempre lamentou que a Inteligência Naval tenha dado informações erradas a respeito da presença dos porta-aviões. 

Depois de terem descoberto essa falha, a alta-cúpula da Marinha exonerou os responsáveis pelas informações incompletas. Acredita-se que isso permitiu que místicos fossem recrutados para auxiliar a Inteligência com previsões feitas com base em psiquismo. Vários departamentos de análise e estatística ganharam o acréscimo desses especialistas em mediunidade e parapsicologia que se tornaram conselheiros militares de Generais e Almirantes oferecendo a eles sugestões sobre quando e onde atacar, a localização de comboios e de armadas inimigas, além de previsões do tempo e clima.

Mas havia coisas ainda mais estranhas ocorrendo nas sombras.

Existem indícios de que as Forças Armadas do Japão se valeram de Laboratórios de Pesquisa Técnicas especializados em desenvolver e testar armas pouco convencionais que seriam usadas no curso da Guerra. Conhecidos como Centros Noborito, a existência desses lugares de pesquisa, constituía um segredo guardado a sete chaves. 

Os Centros começaram a ser criados em 1919 e contavam com instalações espalhadas em todo território nacional, sendo que sua sede ficava na cidade de Kawasaki em um enorme complexo onde armas, máquinas e indivíduos com capacidades paranormais eram levados. Além disso; venenos, armas químicas e biológicas e experimentos médicos atrozes também ocorriam atrás de paredes e nos porões subterrâneos, longe dos olhos de todos. Os centros hospedavam uma população devotada ao seu funcionamento, contando com vilarejos, hospitais e quartéis.


No auge de sua operação, os Centros chegaram a empregar mais de 5000 funcionários, entre cientistas, engenheiros, pesquisadores e operários. Havia ainda campos de concentração onde cobaias humanas, em sua maioria chineses capturados na campanha militar, eram mantidos prisioneiros. Estimativas afirmam que mais de 100 mil homens, mulheres e crianças foram usados nesses Centros de Pesquisa. De acordo com o Professor Akira Yamada, da Universidade Meiji:

"Laboratórios especializados em testar armas estranhas e pouco convencionais eram um segredo mantido não apenas de estrangeiros, mas da própria população japonesa. Mesmo aqueles que trabalhavam nesses complexos não podiam sair e jamais tinham acesso a todas as informações sobre o que acontecia lá dentro".

O voto de silêncio não era quebrado por nenhum dos funcionários ligados aos Noborito, contudo, há rumores a respeito do que era testado em tais instalações. Gases venenosos, cepas de doença dispersa no ar que deveriam atingir apenas chineses, bombas levando agentes bactericidas, cirurgias horrendas testando os limites físicos e mentais de prisioneiros e outros horrores inomináveis. A lendária Unidade 731, responsável por boa parte desses horrores, teria sido um Centro Noborito ativo durante o período, responsável por experimentos megalomaníacos e de uma perversidade tamanha que poderia empalidecer até mesmo os Campos de extermínio comandados pelos Carrascos Nazistas. Sobre o terrível legado da Unidade 731 falaremos a seguir.

O estudo da parapsicologia no Japão se iniciou no final do século XIX, mas há indícios sugerindo que ele foi empregado plenamente ao longo da Segunda Guerra Mundial. Uma prova de que em Tempos de Guerra, tudo aquilo capaz de proporcionar um trunfo vantajoso, não importa o quão estranho e bizarro, poderia e seria usado com o intuito de derrotar o inimigo.

Guerra é guerra, afinal de contas!

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