domingo, 10 de setembro de 2017

Fúria Selvagem - Os brutais ataques de Chimpanzés


ATENÇÃO: Esse artigo possui imagens gráficas que podem incomodar pessoas impressionáveis.

Para a maioria das pessoas, o chimpanzé é o mais "humano" dos animais.

Ágil, simpático e incrivelmente inteligente esse animal possui um vínculo indissolúvel com o homem e com nossos antepassados. Charles Darwin estudou o comportamento desses animais e com base nessa observação começou a escrever o clássico divisor de águas, "A Origem das Espécies"  que remonta a nossa humilde origem, nos vinculando aos nossos primos menos evoluídos.

Há, no entanto, um elemento que muitas pessoas esquecem. A despeito de sua notável inteligência e maneirismos humanos, Chimpanzés são animais selvagens com um comportamento instável, capazes de ataques extremamente violentos. Pode ser difícil imaginar que animais desse tipo - comuns em zoológicos, shows de animais e comédias, possam ser capazes de causar enormes danos a pessoas. Mesmo animais aparentemente domesticados e acostumados com a presença de humanos podem sofrer acessos de fúria extremamente perigosos.

Chimpanzés adultos são extremamente fortes quando comparados a nós, dotados do que poderia ser chamado de super-força. Um animal em boa forma física pesa quase 100 quilos e é de cinco a sete vezes mais forte que uma pessoa com o mesmo peso. A parte superior de seu corpo é especialmente poderosa, sendo que a mão e os dedos são capazes de apertar com uma força tamanha que poderia facilmente esmagar todos os ossos da mão de um adulto.


"Eles são incrivelmente fortes e as pessoas tendem a subestimar isso", relata o zoólogo e primatologista Coleen McCann. "Um macho adulto é um animal formidável. Eu não gostaria de estar diante de um deles durante um ataque de fúria. Chimpanzés podem arrancar facilmente um braço, se estiver determinado a fazê-lo".

Nem todos os Chimpanzés são criaturas dóceis e amáveis conforme costumam ser apresentados em programas de TV. Altamente territoriais, chimpanzés costumam disputar seu espaço de maneira agressiva contra outros bandos. Não é raro ver esses animais na natureza lutando entre si mesmos, com vigorosas mordidas e potentes golpes que ferem e por vezes matam. E,bora sejam vegetarianos, eles costumam caçar e matar outros animais para obter comida, jovens chimpanzés machos são capazes de criar instrumentos rudimentares usadas para caçar e matar suas presas. Quando há necessidade eles caçam animais, sobretudo mamíferos, em busca de carne.

Ataques contra seres humanos são relativamente raros, mas quando ocorrem, os resultados tendem a ser letais. O ex-piloto de Nascar, James Davis, que criou um chimpanzé como animal de estimação, foi atacado por chimpanzés em uma reserva florestal em 2005. Ele conseguiu escapar do ataque de três adultos, mas os danos que sofreu foram tão severos que ele precisou ser induzido ao coma pelos médicos por três meses. Davis foi mutilado na face e desfigurado pelo ataque.

Isso nos leva ao foco deste artigo, o brutal ataque realizado por um Chimpanzé chamado Travis, famoso por ser usado em propagandas e comerciais. Travis era amado em Stanford, estado de Connectcut, conhecido por ser tratado quase como um ser humano, com direito a banhos e roupas. Há imagens dele interagindo com pessoas e até usando computadores. Travis era tido como um animal doméstico e mantido perigosamente próximo das pessoas.

Travis pesava 105 quilos e até então, jamais havia dado qualquer sinal de agressividade. De fato, todos o tinham como carinhoso e tranquilo. Sua proprietária era Sandra Herold, uma mulher de 70 anos, que havia recuperado Travis em um safari fotográfico no qual os pais do animal haviam sido capturados por caçadores. Como parte de um programa contra o tráfico internacional de animais selvagens, Herold adotou o animal e o levou para os Estados Unidos seguindo todos os trâmites legais. Travis foi seu "inquilino" por 13 anos.


Em 13 de fevereiro de 2009, Charla Nash, amiga de Sandra Herold a visitou pela manhã. Era uma segunda feira e as duas tinham combinado tomar o café da manhã juntas. Charla entrou na casa e percebeu que Travis estava ansioso e fazendo mais barulho do que o normal, ela estava acostumada a presença do animal e já havia visitado a casa inúmeras vezes. Sandra explicou que Travis estava apenas "mau humorado" e que não havia problema. Ela decidiu levar Travis para o lugar onde ele dormia e deixou Charla na sala de estar. Charla reparou que um dos brinquedos de Travis havia ficado para trás e o apanhou do chão para entregá-lo. Isso foi o suficiente para dar início a uma fúria assassina.

A cena foi aterrorizante, Travis se agarrou em Charla e usou seu peso para derrubá-la no chão. O chimpanzé mordia ferozmente e começou a atacar sua face. Pedaços de pele pendiam e cada vez que Travis conseguia soltar um pedaço de pele ou músculo com seus dentes, ele puxava vigorosamente arrancando-o por inteiro. Sandra tentou afastar Travis jogando objetos nele. Em seguida, apanhou uma faca de cozinha e começou a esfaquear o chimpanzé, mas diante da fúria, ela achou melhor pedir socorro pelo telefone. A ligação, registrada no serviço de emergência da polícia é dramática, é possível ouvir os gritos da vítima e os ruídos de Travis ao fundo.


Charla acabou desmaiando em virtude dos ferimentos sofridos, mas mesmo assim, Travis continuava a desfigurar sua face, arrancando o nariz, olhos, lábios e bochechas. Três dedos na mão direita foram arrancados e o pulso da outra mão quebrou em três lugares. Os ferimentos da vítima foram classificados como extremamente graves.

O primeiro paramédico a chegar na casa disse que "jamais viu um ataque tão brutal em um paciente ainda vivo". Os policiais que acompanhavam a equipe de socorro tentaram afastar o chimpanzé da vítima, mas ele continuava a gritar e agredir a vítima. Diante da grave ameaça, um dos oficiais sacou a arma e baleou o chimpanzé que ainda assim continuou atacando. Quatro disparos da pistola 7,65 foram necessários para matá-lo.

Charla foi levada em estado crítico para o hospital e sobreviveu quase que por milagre. Os danos extensivos causaram uma desfiguração massiva em sua face. Nos anos seguintes foi necessário realizar um transplante de mandíbula, colocação de pinos, dentes artificiais e inúmeros enxertos de pele. Depois de aparecer em um conhecido programa de auditório e expor seus ferimentos, Sandra foi aceita para realizar de um transplante experimental de face com o objetivo de restaurar, ainda que parcialmente suas feições.

Três momentos: antes, após o ataque e depois da cirurgia de transplante facial.
Especialistas e tratadores de animais se dividiram na interpretação do que levou um animal, até então pacífico, como Travis a um ataque tão violento. Alguns sugeriram que o animal havia sido diagnosticado com a Doença de Lyme, que em raros casos pode causar comportamento psicótico. A verdade, entretanto, é que chimpanzés vivendo entre pessoas estão sujeitos a condições instáveis, sendo verdadeiras "bombas relógio" prestes a estourar. Não importa quantos anos eles passam na companhia de seus donos; chimpanzés jamais se tornam animais domésticos e podem surtar sem aviso. 

"Eles são animais selvagens, e como todos animais selvagens são potencialmente perigosos", explicou a especialista Colleen McCann. "As pessoas que tratam chimpanzés como animais de estimação não sabem o perigo ao qual estão se expondo. Quando uma tragédia ocorre, é lamentável, mas não chega a ser uma surpresa".

Em 1974, um chimpanzé de nascido e criado em um circo se descontrolou durante uma apresentação. O animal atacou o tratador e depois de causar ferimentos em sua face, se voltou contra o público. Três crianças foram feridas gravemente até que o animal foi morto a tiros. Recentemente outro caso ganhou notoriedade mundial. O menino Dunia Sibomana da República do Congo foi atacado por uma tribo de chimpanzés que por pouco não o mataram. O ataque deixou profundas cicatrizes no rosto do menino de 11 anos, sobretudo na boca e bochechas e ele também passará por um transplante facial.


A despeito do perigo em potencial, muitos estados americanos ainda permitem que pessoas criem esses animais domesticamente, contanto que ofereçam condições pré-determinadas obedecendo a um calendário de vacinação, ofereçam espaço mínimo e alimentação adequada. Uma lei criada a partir do caso de Travis ainda depende de aprovação e prevê que esses animais sejam confiscados e levados a reservas ou zoológicos e proibidos de serem criados em casas.

Durante os debates para aprovar a Lei Travis - como ela ficou conhecida, a conversa de Sandra Herold com o atendente da polícia foi apresentada ao juri. Ela serviu para demonstrar o drama que estava transcorrendo naquele momento.

É importante dizer que chimpanzés e quaisquer outros animais não são malignos ou violentos em condições normais. O fato deles serem mantidos sob cativeiro em situações diferentes do normal entretanto pode resultar em tragédias como essa.

Uma prova de que a natureza selvagem jamais poderá ser domada. 

4 comentários:

  1. O livro "Zoo", de James Patterson e Michael Ledwidge, retrata ao menos um ataque de chimpanzé da mesma maneira. E lendo e imaginando a cena já dá para sentir a brutalidade que o animal pode empregar, vendo as imagens e escutando ao áudio (já conhecia a história principal, mas não me lembrava da mesma) fica tudo ainda mais vivo.

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  2. Quando li o começo da matéria, me recordei da música "And Then She Bleed" da banda Suicide Silence, e nela é usado o áudio do pedido de socorro no caso Travis.Em uma noite voltando de carro com meu pai para casa, acabei dormindo enquanto escutava música,de repente acordei um pouco assustado e vi que estava tocando a música citada acima.
    fui ver a letra,descobri sobre esse caso e me deu uma aflição na hora(ainda por cima tinha assistido recentemente um episódio de MonsterQuest do canal History que falava sobre ataques de homens primatas).

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  3. Depois de ler essa matéria fiquei curioso para ler "Congo" do Michael Crichton. Mas esse tipo de selvageria inerente aos animais sempre me faz pensar no caso dos "Devoradores de Homens do Tsavo", os dois leões mostrados no filme "A Sombra e a Escuridão" (The Ghost and The Darkness", no original).

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  4. É de se espantar que mesmo em um mundo razoavelmente civilizado o selvagem ainda seja nosso vizinho diário.

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