segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Klarkash-Ton - A vida e Obra de Clark Ashton Smith


com base no artigo de Donald Wandrei.

Clark Ashton Smith (CAS) nasceu em 13 de janeiro de 1893, em Long Valley, California. Ele começou a escrever de forma profissional na tenra idade de onze anos. Independentemente de seus cinco anos em uma escola de gramática, Smith aprendeu tudo sobre escrita por conta própria. Isso não significa que ele tenha recebido uma educação negligente, mas, não é exagero dizer que ele nasceu com um soberbo talento para o mundo da literatura, dominando muito cedo técnicas de verso, prosa e poesia. Smith era acima de tudo um artista, que enveredou ainda pelos caminhos da pintura e escultura.

Aos 17 anos, Smith já vendia alguns de seus contos fantásticos para a Black Cat e Overland Monthly, além de outras publicações. Sua primeira coleção de versos foi publicada apenas dois anos mais tarde em uma antologia com as melhores poesias de novos talentos. Saudado como um prodígio, ele recebeu elogios de críticos e comparações com Chatterton, Rossetti e Bryant. Ele assumiu a vida de autor e começou a escrever estórias curtas profissionalmente. Disputado por revistas que dominavam o mercado editorial de Pulp Fictions, tornou-se expoente nos gêneros fantasia e ficção.

O sucesso de suas estórias inspiraram outros. Suas narrativas estranhas, fantásticas e pseudo-científicas, fascinava os leitores e escancaravam as portas para mundos de imaginação, nos quais a criatividade de CAS fornecia a própria essência dos sonhos. Ao mesmo tempo, ele continuava escrevendo poesia de alta qualidade, com trabalhos publicados na Yale Review, The London Mercury, Wings, Magazine of Verse e no Mencken Smart Set. Suas poesias foram incluídas em dezenas de antologias, e suas traduções da obra de Charles Baudelaire foram usadas na coleção The Flowers of Evil do Clube Limited Editions.

Além de sua prosa e poesia, Smith era ainda um pintor e escultor, que exibiu suas obras estranhas e cheias de mistério em galerias na Costa Oeste. Suas esculturas, consideradas especialmente poderosas e fascinantes, eram talhadas em materiais estranhos incomuns o que as tornava comparáveis a arte primitiva. Embora jamais tenham sido reproduzidas em grande quantidade, as peças originais de CAS encontraram vários interessados que as arremataram em leilões de arte. Suas pinturas também encontraram grande aceitação e foram comparadas às obras do francês Odilon Redon. 

Ao longo de sua vida, esse incansável californiano se envolveu em muitas atividades além do mundo das artes: foi jornalista, catador de frutas, motorista de caminhão, lenhador, misturador de cimento, jardineiro, mineiro de carvão e pescador. Todas as ocupações usadas para conhecer o mundo e colecionar histórias que foram sem dúvida incorporadas a sua produção literária.

De ascendência Franco-Normanda, sua família tinha parentesco com condes e barões de Lancashire e com Cavaleiros que participaram das Cruzadas. Um de seus antepassados pelo lado dos Ashton foi decapitado por ter participado da famosa Conspiração da Pólvora. A família de sua mãe, os Galards, vieram para a Nova Inglaterra em 1630. Eram huguenotes franceses em busca de terras mais tolerantes onde pudessem se estabelecer após sofrerem perseguições pela revogação do Édito de Nantes. O pai de Smith, Timeus Smith foi, ele próprio, um viajante, assim como o filho. Cruzou a América de ponta a ponta e chegou ao Alasca onde participou da Corrida do Ouro. Estabeleceu-se em Auburn onde morreu com mais de 100 anos de idade. 

É provável entretanto que o legado de Clark Ashton Smith seja mais lembrado pela sua amizade e cooperação com outro monstro sagrado da ficção fantástica, H.P. Lovecraft. A arte de Smith não inspirou apenas os simbolistas franceses, mas teve enorme influência sobre Lovecraft. 

A amizade entre Ashton Smith e Lovecraft começou em 1922 e progrediu ao longo dos anos a medida que o nome de ambos ganhava fama entre os leitores da Weird Tales e outras revistas pulps da época. HPL tomou conhecimento da obra de CAS através de um amigo que lhe apresentou sua poesia. Imediatamente, Lovecraft sentou em sua escrivaninha e redigiu uma carta elogiosa endereçada da seguinte maneira: "Para Clark Ashton Smith, Esq., a respeito de suas Fantásticas Histórias, Versos, Ilustrações, e Esculturas".

HPL se sentiu atraído pelo estilo poético de CAS, pelo teor macabro de seus contos e pela sua sagacidade. CAS por sua vez procurou ler tudo que HPL publicava. Ele admirava a criatividade do colega, seu "domínio de noções de tempo e espaço" e, sobretudo,  a filosofia do que ele chamava "indiferença cósmica" (a crença de que a humanidade era tão insignificante no universo quanto um grão de areia numa praia). HPL acreditava que seu colega poderia contribuir com a mitologia em que ele vinha delineando. Para tanto, encorajou CAS a se aventurar mais a fundo no gênero Horror Cósmico. Por alguns meses, as cartas de ambos trataram do tema e vislumbraram uma espécie de parceria na qual os dois poderiam expandir a mitologia.

Não é incomum para autores criarem uma série de contos usando o mesmo protagonista ou situar suas histórias em uma terra fictícia. No entanto, era bastante incomum um autor utilizar o protagonista e as terras fictícias de algum colega com sua permissão - quanto mais se este ainda estava vivo e trabalhando nesses conceitos. Lovecraft acreditava que sua mitologia poderia se beneficiar de outros pontos de vista que somariam às suas ideias e ajudariam os mitos ancestrais a crescer. Dessa maneira ela seria algo sempre em expansão. De fato, Lovecraft convidava seus colegas a experimentar com suas ideias originais, emprestando os seus conceitos. Também os incentivava a acrescentar suas próprias criaturas, deuses, terras e personagens a coleção de seres que compunham os Mythos de Cthulhu.

O termo Cthulhu Mythos - que se popularizou apenas após a morte de Lovecraft, congregava todas as obras criadas a respeito dessa mitologia específica. Eles eram o que autores atuais chamam de "mundo compartilhado", no qual vários escritores unem esforços para expandir uma mesma criação através de histórias independentes.  

Foi Smith quem criou a fabulosa terra medieval de Averoigne, que fascinou inúmeros leitores e incendiou sua imaginação com lendas de Druidas, seres mitológicos e criaturas mágicas. Ele também idealizou as terras lendárias de Hyperborea, Atlantis e Poseidonis, situadas num passado remoto em que magia, misticismo e fantasia se misturavam para criar um ambiente que mais tarde serviria de inspiração para a Era Hiboriana de Robert E. Howard e a Terra Média (de J.R.R. Tolkien). Invertendo esse conceito, Ashton idealizou o continente perdido de Zothique, uma terra num futuro distante em que a decadência lançou a humanidade em um nova Idade das Trevas com a redescoberta da magia e volta a barbárie.

Além de lugares mágicos, CAS também contribuiu para os Mythos de Cthulhu, acrescentando sua própria hoste de Deuses e Monstruosidades onde se destacavam Aboth, Atlach-Nacha, Quachil-Uttaus, Ubbo-Sathla, o ancestral Povo-Serpente e é claro, Tsathoggua sua criação mais marcante. Também foi o responsável por um dos tomos mais famosos dos Mythos, o célebre Livro de Eibon (também conhecido como Liver Ivonis).

Autores dentro do círculo de amigos de Lovecraft, aproveitaram essas idéias para seus próprios ciclos de histórias. Assim, a Hyperborea se tornou um dos Reinos Hiborianos, enquanto o Povo Serpente passou a figurar como inimigo mortal do Rei Kull. O próprio Lovecraft aproveitou Tsathoggua em suas histórias, citando o Deus-Sapo no Necronomicon e relacionando Averoigne em mais de um conto. Mais do que admirar Clark Ashton Smith, Lovecraft tratou de imortalizá-lo, nomeando o Sumo Sacerdote de Tsathoggua com o sugestivo nome de "Klarkash-Ton".

Clark Ashton Smith imaginado como Klarkash-Ton
Após a morte de Lovecraft em 1939, CAS continuou escrevendo ficção fantástica mas sem o mesmo ímpeto ou interesse. Ele foi contatado por August Derleth que havia criado a editora Arkham House que o incentivou a prosseguir, contribuindo para expandir os Mythos de Cthulhu. Infelizmente, em 1953, após um ataque cardíaco, sua saúde se deteriorou e ele entrou em uma semi-aposentadoria na qual passava os dias cuidando do jardim e de seus netos.

Em agosto de 1961, Clark Ashton Smith faleceu tranquilamente enquanto dormia.

Ele tinha 68 anos de idade.

Alguns entretanto asseguram que ele apenas retornou para a Hyperborea, para ser saudado como o mestre escriba que sempre foi. 

Um comentário:

  1. Lamentavelmente, creio que o CAS nunca foi publicado no Brasil... pelo visto deve sair alguma coisa só quando a obra dele for de domínio público.

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