quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Lovecraft e a Religião - A Fé sob a visão do Mythos


Lovecraft e a Religião

Por Maurício R.B. Campos
Link para a publicação original:  Blog Maurício R.B. Campos Escritor

H.P. Lovecraft foi um escritor norte-americano de horror. O criador de um novo tipo de horror, chamado de horror cósmico. Há quem utilize o termo horror lovecraftiano como sinônimo. O horror cósmico é fortemente influenciado pela noção filosófica do niilismo existencial e pela natureza desoladora do mundo natural, principalmente do cosmo em si.

Lovecraft era um astrônomo amador, e se você já se aventurou por esse terreno, provavelmente sabe o quão desolador pode ser a descoberta de nossa insignificância perante o universo. As distâncias em unidades astronômicas, a velocidade da luz mostrando-se por demais pequena para mensurar os valores espaciais e o vazio soturno e melancólico que se propaga pelo espaço e pelo tempo. O físico Stephen Hawking certa vez disse que:

“Quando as pessoas me perguntam se um deus criou o universo, eu respondo que a questão em si não faz sentido. O tempo não existia antes do big bang, então não havia um tempo para deus criar o universo. É como pedir as direções do canto da Terra; a Terra é esférica; não tem canto; procurar por ele é um exercício de futilidade. Cada um é livre para acreditar no que quiser, e é minha visão que a explicação mais simplista é: deus não existe. Ninguém criou o universo e ninguém dirige o nosso destino. Isso me levou a uma conclusão muito profunda; a de que provavelmente não há Paraíso (Céu), e nem vida após a morte. Nós temos esta única vida para apreciar o grande desenho do universo, e por isso eu sou extremamente grato”

Portanto, chegamos à conclusão de que a Igreja estava certa ao condenar Galileu, se não há Ciência, não há dúvidas (estou sendo irônico aqui, se me entendem). Mas o fato é que o conhecimento das dimensões do universo é um conhecimento muito difícil de conciliar com uma religião cristã. Lovecraft abraçou o ateísmo, mas foi vítima de uma grande ironia, quando, tentando negar a religião, criou o Cthulhu Mythos, uma mitologia fantástica que pretendia explicar, ou melhor, não explicar o universo. Nos contos do Mythos conhecimento não é poder, conhecimento é aniquilação.


Na mitologia lovecraftiana o universo foi criado por Azathoth, um deus cego e idiota, que habita o centro do universo. Azathoth teria desencadeado o Big Bang, quem sabe por acidente. Esses deuses primevos, os deuses exteriores (outer gods) seriam entidades, mas não deuses no sentido próprio como entendemos o termo. Um deles representa o tempo, o tecido temporal em si, outro o espaço, a energia da vida, etc. A humanidade não tem contato com esses deuses, exceto com Nyarlathotep, também conhecido como o caos rastejante. As motivações e os desígnios deste último são um mistério dentro de um enigma.

A ideia do autor nunca foi desenvolver um material claro e coerente sobre o que se convencionou chamar de mythos. Ao contrário, há diversas contradições em relação a esses deuses, apenas para deixar claro que a humanidade compreende o cosmos assim como uma formiga compreende os seres humanos.

De qualquer maneira é bem irônico que um autor ateu tenha desenvolvido uma série de explicações para os mistérios que sondam a humanidade. Lovecraft era muito imaginativo e criativo, e suas criações refletem um encantamento com a grandiosidade do universo. Em uma carta que pretende defender suas convicções (mas que na verdade não sai de cima do muro), o gênio Einstein escreveu que “a experiência mais bela e mais profunda que um homem pode ter é o sentido do mistério. É o princípio fundamental da religião, bem como de todo esforço sério na arte e na ciência. Aquele que nunca teve essa experiência parece-me que, se não está morto, então, está pelo menos cego. Perceber que por trás de tudo o que pode ser experimentado há uma coisa que a nossa mente não pode compreender, cuja beleza e magnificência nos alcança apenas indiretamente: isso é religiosidade. Neste sentido, sou religioso. Para mim, basta questionar estes segredos e tentar humildemente entender com a minha mente uma mera imagem da estrutura elevada de tudo que existe”.

Esse foi o mistério de fundo de nossa existência, captado por Lovecraft e transformado nas histórias fantásticas e envolventes sobre criaturas sobrenaturais e seu relacionamento com os humanos.


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Maurício R. B. Campos é autor, escritor e tradutor, participou do premiado álbum "O Rei Amarelo - em quadrinhos" pela editora Draco. Seus lançamentos mais recentes Guerras Cthulhu, O Julgamento de Samuel Stefano e O Distrito Amarelo ficaram entre os principais lançamentos de 2017 segundo o blog Biblioteca do Terror.

4 comentários:

  1. Excelente postagem, como sempre. Realmente, entender como funciona esse panteão de "deuses" de Lovecraft é uma tarefa muito desafiadora.
    Acho que se tratando da religião no universo de Lovecraft, talvez podemos dizer que ela funciona como uma espécie de proteção contra o conhecimento destas coisas inconcebíveis, que destroem qualquer sanidade?

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  2. Assumo que se não fosse pelos posts daqui eu nunca teria começado a ler Lovecraft, excelente blog!

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  3. Meio pretensioso taxar o Lovecraft como o criador do Genro Horror/Cosmico sendo que alguns autores já escreviam sobre cosmic horrors bem antes de Lovecraft, até o próprio Arthur Conan Doyle já fez.

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