segunda-feira, 16 de abril de 2018

O Segredo do Dr. Willett - Os artefatos profanos de Charles Dexter Ward


“Nesse meio tempo, Willett subira ao laboratório desmantelado e trouxera para baixo alguns itens não incluídos na mudança do mês de Julho anterior, dentro de uma cesta tapada, por isso o Sr. Ward não viu do que se tratava".…”

A postagem a seguir tem relação com a fantástica novela "O Caso de Charles Dexter Ward"  de H.P. Lovecraft. Se você não leu essa história, é impostante avisar que o artigo possui spoilers a respeito de temas centrais. Proceda por sua conta.

Para celebrar os 90 anos que Charles Dexter Ward foi destruído pelo Dr. Marinus Willet, em 13 de abril de 1928, aqui está uma postagem relacionada. 

O Laboratório móvel de Joseph Curwen
por Bigford Works (Dale Bigford)


Em Julho de 1966 a Câmara de Comércio de Providence, no Estado de Rhode Island leiloou a propriedade localizada no número 10 da Rua Barnes. A casa e terreno, um belo exemplo do estilo victoriano de 1880 foi propriedade do viúvo e sem filhos médico, Dr. Marinus Bicknell Willett. Willett faleceu em 1950 e a casa ficou vazia desde então. Curiosamente, o testamento de Willett possuía uma cláusula acessória de que a mansão do bom doutor deveria continuar vazia pelo período em que um fundo especialmente reservado para suprir as taxas se mantivesse. Em seguida, a cláusula explicitava que ela deveria ser demolida.

A despeito dos protestos da firma legal que representava o espólio, brechas legais que não existiam na década de 1950 permitiram que a cidade assumisse a posse da propriedade.

Após o leilão os novos donos que arremataram a propriedade imediatamente contrataram operários para fazer a restauração da casa. Embora vazia por 16 anos a estrutura estava em excelentes condições, com apenas alguns reparos menores sendo necessários em áreas onde o gesso, piso, calefação e encanamento haviam se deteriorado. Além desse trabalho necessário, o restante se resumia a limpeza e manutenção básica.

Doutor Marinnus Willett
No interior do belo aposento em que ficava a biblioteca os operários encontraram uma situação inusitada: Uma pintura à óleo de um homem de boa aparência com trajes do período de 1920 e uma placa com as iniciais "CDW". A tela estava colocada sobre a lareira, ou assim parecia. Logo ficou claro que a pesada moldura que envolvia o retrato estava fortemente presa à parede. Enquanto buscavam por uma forma de soltá-lo, um dos operários descobriu uma alavanca escondida. Uma vez pressionada dobradiças enferrujadas estalaram revelando um nicho oculto atrás da tela.

Atrás da pintura, em um gabinete oculto, coberto de grossa camada de poeira acumulada descobriram um velho baú de madeira contendo várias pastas com papéis, documentos, recortes de jornal e fotografias. 

Se o chefe dos operários não estivesse presente no local, provavelmente o baú teria discretamente sumido no porta malas de um caminhão e desaparecido para sempre. 

Tendo vasta experiência em estruturas antigas e mobiliário o capataz ficou surpreso com a descoberta. O baú de madeira reforçada era um belo exemplo de carpintaria do século XVIII. O estilo da peça remetia ao período medieval, tipicamente usado em caixões, mas não se tratava de um relicário ou ataúde. Alças empoeiradas de couro cru evidenciava que o item era móvel e costumava ser carregado. Os pesados arremates de bronze já corroídos sugeriam que nem sempre ele havia sido usado como uma caixa para guardar objetos e que provavelmente ele havia sido colocado em um ambiente úmido por algum tempo. As fechaduras também tinham uma aparência antiga. O baú foi entregue aos novos donos da casa - que por direito haviam adquirido tudo em seu interior. Eles imediatamente contrataram um chaveiro para abrir a fechadura e descobrir o que continha.   

Quando finalmente a tampa do baú foi destrancada, os donos recuaram em aversão. A caixa segundo um antiquário foi identificada como um estojo de viagem usado por apotecários para carregar seus artigos. O que havia dentro, no entanto, era de natureza muito mais sinistra.

O baú era uma espécie de laboratório móvel. Será que o Dr. Willett escondia uma vida secreta? Estaria aquele pilar da comunidade envolvido com as artes negras e com superstições?  

Charles Dexter Ward
Ansiosos por evitar um escândalo os donos entraram em contato com professores da Universidade Brown para que levassem o baú e avaliassem seu possível "valor histórico". Após uma avaliação preliminar um dos professores achou por bem consultar um colega da Universidade Miskatonic. Todos estavam de acordo que a natureza do objeto qualificavam a Miskatonic e seus departamentos de ciências humanas como os mais qualificados para um exame. Eles poderiam descobrir o seu propósito.

A Escola de Medicina de Arkham, concordou em contratar uma agência de detetives particulares para conduzir uma investigação a respeito da vida pregressa do Dr. Willett. Buscavam algo que fornecesse pistas a respeito da descoberta sem precedentes feita na sua casa.

O pouco que descobriram resultou em estranhas revelações.

O Dr. Marinus Bicknell Willett, nasceu em 14 de março de 1861, em  Providence. Ele cursou a  Universidade de Medicina de Brown em 1879, graduando-se com honras em 1883. No ano seguinte, Willett comprou a mansão na Rua Barnes, que lhe serviu de residência até o dia de sua morte. Sua carreira se iniciou em 1884 e os arquivos demonstram que ele exerceu seu ofício, sendo reconhecido como um dos melhores e mais respeitados médicos particulares de Providence. Entre seus clientes estavam algumas das mais ricas famílias da cidade.

Os investigadores não encontraram nada de estranho em sua carreira até meados de 1928 quando descobriram seu envolvimento em um estranho incidente. Um rapaz chamado Charles D. Ward nascido em Providence, paciente de longa data do Dr. Willett, fora internado no Sanatório da Ilha Conanicut, diagnosticado com colapso nervoso. O Sr. Ward teria escapado de seu confinamento em circunstâncias misteriosas e após a espetacular fuga, ninguém mais ouviu falar dele.

 À época, as más línguas especularam se de alguma maneira Willett teria auxiliado o jovem Sr. Ward a escapar da instituição. O incidente foi abafado, mas os rumores arranharam a carreira do médico deixando uma suspeita de má conduta em seu perfil até então perfeito.

Pode ser inferido que o declínio na carreira do Dr. Willett se acentuou após esses rumores. Sabe-se que Willett resolveu tirar um longo período de férias em 1929 e que retornou a Providence apenas três anos depois. Nesse ínterim as finanças do médico parecem ter sido dilapidadas pela Grande Depressão que o atingiu com força. Uma vez retornando a Providence ele tentou voltar a exercer, mas a maioria das famílias que ele costumava atender já haviam optado por outros profissionais.

A descoberta do quadro na Rua Barnes deixava claro que o retrato com as iniciais "CDW" pertencia ao jovem Charles Dexter Ward. O que não estava claro era a razão para a tela ganhar tanto destaque na parede da biblioteca de Willett e o que seriam os objetos de natureza oculta atrás dele.

Joseph Curwen
Os relatórios a respeito do período em que Ward esteve no Sanatório Conanicut são difíceis de serem localizados. Na ausência de seus pais, Theodore e Abigail Ward que morreram num espaço de dez anos após o sumiço de seu filho único, não há pessoas que possam requisitar os registros. Ward não tinha outros parentes próximos e mesmo que existissem há rumores de que muitos desses documentos foram destruídos. Há suspeitas de que os papéis da internação de Ward no Sanatório tenham sido assinados pelo Dr. Willett, o que faz sentido uma vez que ele era o médico de confiança dos Ward na época. Também existem indícios de que Willett tenha sido um dos médicos que realizou exames no rapaz na ocasião de seu confinamento. Na época alguns jornais relacionaram a internação de Ward com uma série de estranhos casos de roubo e depredações em velhos cemitérios do período colonial de Providence.

Tudo o que se sabe é que o colapso de Ward estava de alguma forma conectado a uma pesquisa genealógica que ele vinha realizando a respeito de sua genealogia. Um dos alvos principais das pesquisas de Ward era um antepassado chamado Joseph Curwen que viveu em Providence na época colonial. Mas a respeito de Curwen existem pouquíssimas informações disponíveis. Ward parece ter vasculhado arquivos e removido a maioria dos documentos e certidões a respeito de seu ancestral.

Ward jamais foi acusado formalmente de ato ou atos criminosos, contudo, após o seu dramático desaparecimento as investigações do caso envolvendo as profanações, foram encerradas. Nenhuma outra notificação foi feita.

Os papéis que estavam reunidos na misteriosa caixa em poder de Willett eram bastante curiosos. Uma pasta continha artigos recortados de periódicos entre 1927-28, noticiando o roubo a sepulturas e ocorrências de profanação em Providence. Também havia um recorte a respeito das queixas frequentes de habitantes das proximidades do cemitério colonial concernente a cães barulhentos que causavam verdadeira algazarra à noite.

As fotografias reunidas em outro envelope retratavam Charles D. Ward em várias poses, provavelmente nos dias em que ele esteve internado no Sanatório. As fotos amadoras, provavelmente feitas pelo Dr. Willett com uma câmera de sua propriedade, pareciam se concentrar em manchas e sinais de nascença de Ward. Em alguns existentes e outros ausentes.

Também havia fotografias de uma antiga sepultura profanada pertencente a um tal Ehzra Wheedon, do cemitério colonial e de uma antiga casa que segundo informações foi adquirida por Ward e serviu como sua morada até seu confinamento e subsequente sumiço. Uma curiosa fotografia, aparentemente tirada de surpresa, mostrava um homem vestindo chapéu, sobretudo e óculos escuros. No verso dela estava escrito o nome "Doutor Allen". Um detetive sugeriu que a foto era o tipo de material usado por investigadores particulares como evidência.


A avaliação dos professores da Universidade Miskatonic quanto ao restante dos itens no baú serviram para levantar mais questionamentos do que para oferecer respostas.

Todos os objetos estavam cobertos por uma densa camada de poeira e teias de aranha evidenciando que eles não eram manipulados a muito tempo. 

O conteúdo mais eclético era uma mistura de ingredientes alquímicos, tanto processados quanto crus acondicionados em frascos grossos de vidro, algumas relíquias de natureza mística, páginas amareladas arrancadas de tomos, pergaminhos antigos, diários relatando o resultado de experiências e reações químicas, além de cadernos com relatos de experimentos no campo da necromancia. Além destes itens, havia ainda alguns instrumentos de tortura autênticos - um chicote conhecido como gato de nove caudas e um quebrador de dedos, inquietantes regalias religiosas, uma estatueta e placas de chumbo com gravações peculiares.


Mais perturbador talvez tenham sido a descoberta de uma caixa de madeira contendo oito velas que uma vez examinadas se provaram ter sido produzidas com gordura extraída de seres humanos. Finalmente haviam seis potes bojudos de chumbo cinza escuros contendo poeiras de procedência ignorada. Esses potes estavam rotulados com uma caligrafia rebuscada indicando o conteúdo de cada um. Lia-se "Custodes" em dois deles e nos demais a palavra "Materia" seguida de um número romano (I a IV). As palavras em latim significavam respectivamente Guardas e Material. Todos os vasilhames tinham tampas de metal e cobertas por uma cera amarelada na qual haviam sido desenhados símbolos cabalísticos.

Uma carta, aparentemente escrita pelo próprio Dr. Willett, no formato de um diário particular (ou confissão) foi de pouca ajuda para entender o caso. A carta extremamente confusa mencionava com indisfarçável terror algo chamado "118" que por pouco não teria matado o médico. Willett ao que tudo indica não era o dono original daqueles objetos e os havia adquirido com a intensão original de destruí-los. Adicionalmente, sua carta fazia menção a "grandes pensadores" e "conhecimento profano que poderia ser usado para o mal". Parece óbvio que o Dr. Willett não era um praticante de artes ocultas, embora pelo seu testemunho ele acreditasse na existência destas.

Departamentos individuais da Universidade Miskatonic se dedicaram cada qual a uma diferente tarefa no exame dos itens do baú e tiraram suas próprias conclusões:


Alguns dos objetos encerrados no baú, como os vidros e papéis eram típicos do século XVIII, outros tinham uma idade tão avançada que não foi possível fazer uma presunção. Alguns dos itens esotéricos eram bem conhecidos, tratados de feitiçaria medievais enquanto outros eram enigmas indecifráveis de procedência ignorada. Os ingredientes nos vidros eram derivados de plantas, de animais ou de minerais comuns e raros. De fato, todos eles sugeriam estar ligados a processos biológicos em especial a estimulação da vida e sua preservação.

A poeira dos frascos de chumbo identificados como "Custodes" era fina como grafite e aderia a pele com uma consistência de talco. Sua coloração era azul-acinzentada. A análise laboratorial dessa substância foi inconclusiva.

Já a substância dos frascos marcados como "Materia", mais densa e granulosa, resultou em uma inusitada descoberta: tratava-se de material biológico (ossos, cartilagens e cabelo) pulverizados e misturados com uma série de outros componentes até adquirir uma coloração cinza escura ou marrom-esverdeada. Análises químicas revelaram que ela tinha uma curiosa resistência a dissolução ou destruição. A substância também não reagia a nenhum teste envolvendo ácidos, variação de temperatura ou composição química. As amostras resistiam a qualquer esforço de serem combinadas. Mesmo quando porções de duas ou mais substâncias diferentes eram acrescidas, elas simplesmente se separavam com rapidez a ponto de poder ser observado a olho nu, mantendo assim sua pureza.


A opinião do Departamento de Química é que as poeiras nos vasilhames "Materia", resultavam de pulverização de material humano em um grau de pureza notável. Os frascos, feitos de chumbo eram usados para preservar essa qualidade e evitar qualquer contaminação externa. Um dos frascos, o de número III, possuía um rótulo adicional no qual estava escrito o nome de Ehzra Wheedon (o nome de uma das sepulturas profanadas).

Havia outras revelações fora da esfera acadêmica sobre o caso.

Um dos detetives contratados pela Universidade de Medicina descobriu que um colega de profissão, que por sua vez fora contratado por Willett em 1927, apareceu morto meses antes do desaparecimento de Ward do Sanatório. O corpo do detetive foi achado em um beco, cerca de uma quadra de distância de seu escritório, vítima de um aparente roubo, ainda que seu relógio e carteira não tenham sido subtraídos pelo criminoso. Entre os objetos encontrados com o investigador estava uma cópia da fotografia do misterioso "Dr. Allen", indivíduo cuja identidade não foi determinada e cujo paradeiro permanece desconhecido. É possível que o detetive estivesse procurando informações a respeito de Allen quando foi morto.


Um objeto que chamou muita a atenção no lote recuperado dentro do baú foi uma estatueta com base confeccionada em chumbo. A peça maciça medindo 18 centímetros e pesando 14 quilos apresenta uma estranha forma composta de globos e ramificações tentaculares que se estendem e abraçam a massa dando a ela uma espécie de coesão. Na base que serve de pedestal podem ser vistos curiosos símbolos ou algum tipo de alfabeto de origem desconhecida. Pesquisadores do Departamento de Metafísica Medieval, uma cadeira única da Universidade Miskatonic aventaram a possibilidade da peça ser uma representação de um princípio alquímico que simbolizaria o tempo e o espaço.

Segundo o Departamento de História, as ferramentas de tortura parecem ser objetos autênticos provavelmente usados no período colonial da Nova Inglaterra. O chicote, conhecido como gato de nove caudas era um instrumento de flagelação usada para o castigo corporal. A peça possuía sinais de sangue seco que denotavam seu uso. O instrumento de tortura conhecido como "quebra dedos" também remonta ao período colonial e foi usado em interrogatórios na infame Caça às Bruxas. Além dessas peças, uma faca com gravação de símbolos na lâmina recurva também chamou a atenção dos pesquisadores. As placas de chumbo com inscrições em hebraico e latim, sem dúvida objetos usados em cerimônias alquímicas também foram entregues ao departamento de História e Antropologia para serem analisados.

Após a conclusão das análises dos itens, a família que havia adquirido as peças concordou em doá-los para a Universidade Miskatonic que os aceitou de bom grado. Eles foram movidos para o Depósito da Escola de Medicina onde permaneceram. Em 1971, ocorreu um arrombamento criminoso neste exato depósito. A princípio os investigadores não perceberam a subtração de nenhum objeto que estava guardado no local, apenas seis anos mais tarde um arquivista descobriu que alguns itens que estavam no interior do baú haviam sido levados. Entre os objetos desaparecidos estavam os frascos de chumbo (e seu conteúdo), algumas páginas de papéis, os diários e a estatueta de chumbo. Um inquérito foi instaurado, mas nenhum suspeito foi detido embora duas conhecidas lojas de antiguidades de Arkham tenham sido investigadas como possíveis receptadores.

Há boatos de que a estatueta tenha sido encontrada na posse de Marshall Applewhite, líder da Seita Heaven's Gate que em 1997 comandou um suicídio coletivo de 39 membros de seu culto apocalíptico. Os membros da Seita acreditavam que iriam embarcar em uma nave espacial oculta na cauda do Cometa Hale-Bopp quando este se encontrava em seu brilho máximo. Os rumores nunca foram confirmados a respeito dessa descoberta.

Eventualmente o baú que pertenceu ao Dr. Willett foi esquecido.

Ele permaneceu em um armário trancado no depósito por décadas até ser redescoberto em janeiro de 2018 em um inventário de rotina. Atualmente ele se encontra em exibição no Museu da Escola de Medicina como um exemplo de pesquisa clandestina de alquimia/medicina do século XVIII.

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