sábado, 1 de dezembro de 2018

Revisitando Lovecraft - "Dagon" (1917)


Esses tempos eu pensei a respeito de algumas histórias que li, logo que descobri a obra de H.P. Lovecraft.

Curiosamente, algumas delas (na verdade, muitas delas), embora tenham me marcado bastante, não foram lidas novamente. Logo eu, que me considero um grande fã do autor, não as visitei mais. Resolvi então buscar alguns contos clássicos de Lovecraft para saber se eles terão um efeito diferente na minha percepção, hoje, mais velho. Resolvi aproveitar e fazer algumas considerações a respeito de cada conto que será revisitado.

O resultado veremos aqui.

Vou começar com alguns dos mais simples e ir passando posteriormente para os medalhões.

Decidi dar o pontapé inicial com Dagon, que Lovecraft escreveu em Julho de 1917 e foi publicado pela primeira vez em novembro de 1919 em uma revista chamada The Vagrant.


Sumário: Um narrador sem nome está prestes a ficar sem morfina, a única coisa que acalma dos seus nervos em frangalhos. Ele planeja dar cabo de sua própria vida e se atirar de sua janela assim que terminar sua descrição dos terríveis acontecimentos que o transformaram no que ele é hoje.

No início da Grande Guerra, ele foi capturado pelos alemães. Eles o trataram de maneira civilizada, e de forma tão condescendente que ele consegue escapar. É provável que os alemães não estivessem muito preocupados em vigiar os prisioneiros uma vez que sabiam que uma "fuga" naquela parte do Pacífico seria um verdadeiro suicídio, ainda mais para alguém com pouca experiência náutica.

Ainda assim, o narrador escapa em um pequeno bote. Ele fica ao sabor da maré por dias, até que finalmente desperta com o bote atolado em uma ilhota de lama oceânica pútrida que se estende até onde a vista alcança. Cercado de carcaças de peixes podres e de lodo escuro, ele se vê em maus lençóis. Ele supõe que a ilhota é resultado de algum tipo de atividade vulcânica submarina que teria feito aquela massa de terra vir à superfície.

 O chão vai secando ao longo de um dia e se torna sólido o bastante para que ele possa caminhar. Ele prepara uma bolsa com suas provisões e começa a explorar a ilha em busca de um possível resgate.
Ele se dirige para uma espécie de monte no centro da ilha, um dos únicos lugares à vista na paisagem desoladora. Por volta do quarto dia ele consegue atingir a base do monte onde decide descansar. Seus sonhos são selvagens e repletos de visões bizarras que o fazem despertar suando frio.

 Ele decide seguir em frente, já que o clima é mais fresco à noite, e começa a escalar o monte. Quando chega ao topo ele vislumbra do outro lado o que parece ser um abismo iluminado pela lua cheia. Nesse abismo é possível ver fincado uma espécie de monólito branco e gigantesco. A peça parece ter sido esculpida e possui algum tipo de conotação religiosa. Observando com mais cuidado, com um misto de medo e curiosidade científica, ele percebe estranhos hieroglifos e entalhes com criaturas humanoides marinhas. As figuras são estranhas e colossais, implicando na existência de monstruosidades habitando as profundezas. Ele acredita se tratar de algum tipo de divindade submarina venerada por tribos primitivas e ancestrais.  

É então que o narrador acaba surpreendido por uma figura gigantesca, semelhante às que estão representadas no monólito que se ergue da água. A coisa caminha na direção do monólito e o abraça quase de maneira respeitosa. Aterrorizado com a visão, ele corre de volta para o bote. Ele se recorda de ter cantado e gargalhado e de uma grande tempestade, mas os detalhes de sua fuga foram apagados de sua mente febril.

Ele acorda em San Franscisco. O capitão do navio que o encontrou à deriva diz que ele esteve delirante desde o momento que foi resgatado. Posteriormente, ele faz perguntas a respeito de divindades aquáticas e descobre a lenda do Deus Filisteu Dagon, o Senhor dos Peixes.

Quando a noite vem, principalmente acompanhada de uma lua cheia, o narrador enfrentar pesadelos com o que testemunhou. A Morfina é a única coisa que o ajuda a suportar esse fardo. Ele sonha com a paisagem alienígena da ilha, com o monólito e o que estaria escrito nele e com a terrível criatura que se ergueu das profundezas. Ele imagina quantos desses horrores habitam os abismos submarinos e fica obcecado coma  noção de que tais criaturas podem um dia se erguer. Por fim, tomado pelas alucinações e pela abstinência da droga, ele acaba tendo uma visão aterrorizante na qual o horror o visita em sua própria casa.

A visão é suficiente para fazê-lo saltar para a morte...


O que é tipicamente Lovecraftiano: O monólito sem dúvida é o elemento mais "lovecraftiano" da narrativa. Trata-se de uma obra criada por mãos não-humanas, ou quando muito, proto-humanas há incontáveis eras. Neles estão representados monstros marinhos, divindades das profundezas e criaturas que o ser humano não está preparado para conhecer.

Os baixo-relevos, estilo de entalhe que parece ter grande importância na obra de Lovecraft, são citados pela primeira vez e embora, o nome de Cthulhu não seja mencionado em momento algum, é possível supor que ele estaria ali representado.

O que é Degenerado: Os alemães descritos por Lovecraft são gentis e educados, aparentemente eles não haviam ainda se "degradado" e se transformado em inimigos cruéis nessa altura da Grande Guerra. Se comparados aos marinheiros alemães do conto "O Templo" (The Temple), podemos perceber que Lovecraft passa a tratar os inimigos alemães de maneira bem menos simpática.

O que pertence ao Mythos: O personagem título não é exatamente um Abissal (Deep One). Trata-se de uma criatura de considerável tamanho que habita as profundezas. Embora não seja concedida nenhuma explicação, a criatura se torna imediatamente associada ao mito bíblico de Dagon, um tipo de Humanoide monstruoso, misto de homem e peixe venerado pelos filisteus.

Posteriormente, o caráter religioso do monstro é ressaltado em "A Sombra sobre Innsmouth" na qual uma Seita Mística é criada ao redor da mesma entidade, tendo como nome "Ordem Esotérica de Dagon".

Não fica claro qual o caráter ritualístico das ações da criatura diante do monólito, mas parece justo afirmar que se trata de algum tipo de reverência. Ele baixa a cabeça e abraça a coisa... oq ue isso simboliza, só podemos conjecturar.

Tomos e Livros: Não há livros ou tomos no conto, mas o Monólito apresenta uma quantidade enorme de símbolos e hieroglifos que contam por si só como um conhecimento ancestral. O narrador não é capaz de ler esses símbolos, pois provavelmente ratam-se de complexas Runas de R'Lyeh. Se pudesse fazê-lo, talvez fosse acometido de uma loucura ainda mais severa. Podemos imaginar que parte do que está escrito ali mencione o Grande Cthulhu, a cidade submersa de R'Lyeh, as Crias Estelares de Cthulhu, bem como toda sua "família" que incluiria os Abissais.

O que é Insano: O narrador parece sofrer de algum tipo de stress pós-traumático (PTSD), acentuado pelo uso continuado de morfina para tentar aliviar os sintomas. É claro, que tal medicação acaba apenas piorando suas alucinações e ressaltando as visões o que o leva a "ver" a criatura em plenas ruas de San Francisco, tentando entrar na sua casa.

O narrador é afetado pela "ilha macabra" que surge diante de si e o próprio ambiente parece conspirar para erodir a sua sanidade a medida que ele desce do bote com o intuito de explorar o local. Cercado por uma paisagem alienígena, sua estabilidade vai desmoronando. Antes mesmo de encontrar o monólito ele já experimenta sonhos bizarros que o deixam coberto de suor. Quando encontra o monólito, vê as imagens ali talhadas e posteriormente vislumbra o monstro marinho, sua mente se fragmenta por inteiro. Ele corre febril e debilitado e por milagre consegue deixar a ilha.

Na tradição dos personagens lovecraftianos, o narrador testemunha coisas que a mente humana não deveria compreender ou entender e isso é suficiente para arremessá-lo gritando em uma espiral de loucura e alucinação. Não demora até que ele acabe piorando isso com o uso de drogas, que invariavelmente o conduzem ao suicídio.


Comentários e Considerações:

- Dagon foi um dos primeiros trabalhos de H.P. Lovecraft, mas é impressionante como vários conceitos que marcariam a sua obra por inteiro já estão presentes na história. O Horror diante do desconhecido, o temor de coisas antigas de um passado primitivo, a presença de monstros não humanos  habitando lugares distantes e um conhecimento insondável. Ele também usa todos esses elementos para demonstrar a degradação mental do personagem, salientando que tais revelações são suficientes para causar a loucura.

- Como muitos protagonistas na obra de Lovecraft, os sonhos parecem ser a porta de entrada para a insanidade. São os seus sonhos vívidos e febris aos pés do monte que dão início ao seu descenso. Quando ele testemunha a criatura se erguendo das águas ele tem certeza de que os sonhos não são mera ficção, mas compõem uma verdade inquestionável de que a Terra é o lar de horrores ancestrais que embora incrivelmente antigos, continuam a existir. Viver em um mundo em que tais coisas habitam aniquila de vez a sanidade do narrador.

- É interessante que no final do conto não fica claro o que o narrador está experimentando, se há algo na sua porta ou não. Mas parece razoável supor que, trata-se de uma alucinação induzida pela abstinência da heroína. Não há um monstro gigante andando pelas ruas de San Francisco, a não ser os que o narrador enxerga através de sua demência.

- Lovecraft usa pela primeira vez um de seus termos mais estranhos e incomuns, "Ciclópico". No conto ele chega a mencionar a coisa marinha como "Polifêmica", invocando o Monstro da Odisséia, o Ciclope Polifemo. A criatura é usada como comparativo, visto que tanto ela quanto o monstro eram gigantes abrutalhados, criaturas não humanas de tamanho absurdo e força incomensurável.

Há também um tipo específico de arquitetura, tipicamente pertencente aos povos da Grécia Pelágica referida como Obra Ciclópica. Seriam estas obras gigantescas que pelo seu caráter impressionante poderiam ser devotadas à Divindades Superiores. Muros de pedra, grandes palácios e Portais são tipicamente considerados como "Obras Ciclópicas".

- Lovecraft cita dois artistas conceituados para tentar descrever as figuras que aparecem no monólito. Gustave Doré foi um artista francês, ilustrador e escultor de sucesso. Já George Bulwer-Lytton foi um novelista famoso pelas suas descrições extremamente meticulosas.

- Parece claro que o Grande Cthulhu acaba substituindo Dagon como o líder e principal comandante de toda hoste de horrores submarinos. Cthulhu se torna mais importante que Dagon e herda a maioria de suas características; sendo que ele é maior e mais brutal, ele é mais antigo, capaz de atingir a raça humana com emanações psíquicas e adorado por cultos ao redor do mundo. Dagon acaba sendo colocado em um "segundo plano", como uma entidade menor venerada principalmente pelos Abissais que o vêem como uma espécie de "Escolhido de Cthulhu", talvez seu representante, mas jamais um igual. Embora Dagon seja citado em "A Sombra sobre Innsmouth", ele não é mencionado em "Chamado de Cthulhu", o que mostra que ele não tem tanta importância para o Grande Antigo, no momento em que ele despertar.

-  O local em que o narrador desperta encalhado deve ter sido particularmente horrível para Lovecraft. Embora fosse um morador de uma cidade costeira - ou talvez por causa disso, ele tinha horror a tudo que vinha do mar. Animais marinhos e o cheiro de peixe despertavam nele verdadeira repulsa. Alguns biógrafos dizem que ele era incapaz de visitar feiras onde tais coisas estivessem à mostra: escamas e tentáculos eram especialmente medonhas para ele.

Soma-se a isso a lama pútrida da ilhota, as carcaças de peixes apodrecendo, algas para todo lado e o fato do narrador andar por dias e dias nesse ambiente, sem conseguir sair... Lovecraft parece estar descrevendo um pesadelo bastante particular.

- Lovecraft escreveu pouco a respeito da Grande Guerra, ele a cita apenas como um background formador para alguns de seus personagens. É curioso que ele fale relativamente pouco desse evento marcante para os que viveram em sua época. É possível que ele fizesse parte daquele grupo específico de autores que preferia afastar a lembrança do conflito. Após a Grande Guerra, muitas pessoas preferiam afastar todas as menções da Guerra como se ela fosse "águas passadas", uma ferida recente da qual era melhor não falar abertamente. Em se tratando do gênero escolhido por Lovecraft é uma pena que ele não tenha explorado o Conflito (e suas implicações medonhas) sob um ponto de vista de horror.

- Dagon é descrito por pesquisadores como um "Deus Filisteu, meio mulher e meio peixe". Já o "Paraíso Perdido" de Milton se refere ao monstro como um dos demônios marinho. A Bíblia menciona o Culto de Dagon (que em hebraico significa "pequeno peixe") em um templo na Cidade Filistéia de Azotus, localizada em Israel. Este teria sido destruído pelo herói bíblico Sansão que com a sua força sobre-humana derrubou as colunas de sustentação e fez o prédio ruir.

Existem estudiosos que acreditam que a descrição de Dagon como um monstro marinho é parte d eum erro de tradução, já que ele seria uma espécie de Deus Agrário. Outras fontes afirmam que apenas a parte superior do corpo de Dagon pertenceria a um peixe gigante enquanto o restante do corpo seria de um homem adulto.

Bom, é isso... em breve voltaremos com outro conto.

Se alguém tiver mais ideias a respeito do conto "Dagon", fique à vontade para postar aqui no espaço de comentários.

5 comentários:

  1. Análise perfeita. Dagon é um dos contos mais emblemáticos e interessantes que eu já li, isso sem mencionar a conotação religiosa em torno da trama e os eventos bizarros na ilhota. O final é soco no estômago.

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  2. Excelente "revisita" meu caro Luciano!!

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  3. Eu interpretei o conto de maneira mais literal quando o li e enxerguei na relação do monstro marinho com o monolito um tipo blasfemo de conjunção carnal simulada. Algo como se aquele ser, Dagon, estivesse se masturbando com um gigantesco consolo entalhado em honra de Cthulhu.

    Não sei se Lovecraft aprovaria isso.

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  4. Como disse o Robson, realmente perfeita a análise. Algo q deve ser notado tb é q, mesmo antes de ver a criatura monstruosa abraçando o monólito, o protagonista já tem uma confirmação de q tudo o q ele suspeita estar entalhado ali é realidade. Quando ele vê as criaturas representadas no monólito ele as reconhece nos restos pelos quais ele acabou de passar.

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