quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

True Detective: Resenha dos primeiros dois episódios da Terceira Temporada


Quando a segunda temporada de True Detective terminou abaixo do esperado em Agosto de 2015, parecia que havíamos visto o episódio final dessa fantástica série. A primeira temporada, que foi ao ar em 2014, se beneficiou com uma série de elementos: o fato de que produções de televisão terem atingido um padrão elevado de qualidade, um refinamento no público que desejava algo inteligente e provocativo, um roteiro muito bem escrito e dirigido e atores inspirados, quase em estado de graça. O fato de ter misturado uma história envolvente e pinceladas de sobrenatural também contribuíram para o surgimento de algo que não poderia ser visto de outra maneira, além de ser considerado um clássico instantâneo. 

A segunda temporada não foi exatamente ruim, mas ficou abaixo do esperado. Misturando uma história de sexo, corrupção, violência e repressão, com gangsters introspectivos da Califórnia e policiais problemáticos, ela teve seus méritos. Alguns altos e baixos infelizmente impediram dela igualar o brilhantismo anterior. Como dizem, lidar com expectativa sempre será complicado.

Apenas duas temporadas e True Detective parecia ter chegado ao fim da linha.

Entretanto, como qualquer um que tenha visto as temporadas prévias sabe muito bem, o passado nunca morre. Ele está lá para ser rememorado, remoído, reexaminado. Agora, três longos anos depois do encerramento, True Detective está de volta, tentando se reinventar, mas buscando nas raízes da primeira temporada a base para seu ressurgimento.


A terceira temporada de True Detective (doravante TD3), parece e soa como a temporada inaugural, mudando a quente e úmida Louisiana pelo duro e seco Arkansas, contudo, com um mistério que segue a mesma premissa de segredos perturbadores capazes de mudar o curso de vidas e corromper tudo que toca. A melhor comparação é que TD3 parece uma banda que lançou um primeiro disco arrebatador e que no segundo saiu um pouco do prumo, agora, com o terceiro, busca voltar ao trabalho original, lembrando aos fãs por que se apaixonaram por ele, em primeiro ligar.

Baseado apenas nos dois primeiros episódios que foram ao ar consecutivamente, em uma estratégia que ao meu ver funcionou bem, TD3 soa promissor. Não atrapalha em nada contar com um baita ator de presença magnética como Mahershala Ali no papel de protagonista e um roteiro bem amarrado e intrigante.

O primeiro episódio da terceira temporada "The Great War and Modern Memory," (A Grande Guerra e a Memória moderna) introduz o personagem de Ali, o detetive Wayne Hays em três diferentes momentos da sua vida: como um detetive aposentado da polícia de Arkansas dando uma entrevista a uma equipe de documentário em 2015; como um policial sendo interrogado sobre o caso mais importante de sua vida em 1990; e como um jovem detetive em 1980, investigando o referido caso, usando habilidades desenvolveu como rastreador nas selvas do Vietnã.


Logo fica claro que Wayne vai ser o centro da trama, e será através de seus olhos que iremos apreciar os desdobramentos da investigação mais importante de sua carreira. Assim como Rust Cohle, ele também tem um grau de sensibilidade sobre o mundo à sua volta, de sua sordidez e de sua inerente perversidade. Em uma das primeiras cenas em que aparece ao de seu parceiro, um típico policial durão da época chamado Roland West (Stephen Dorf), os dois estão bebendo e atirando em ratos num lixão. Wayne impede o colega de matar uma raposa, como se dissesse que o mundo não se beneficiaria caso o animal inocente fosse eliminado. Wayne é daqueles detetives que só precisa levantar uma sobrancelha ou subir o tom da voz para ter o que quer, e se não for obedecido, coitada da pessoa que está do outro lado dos seus punhos. Como vimos acontecer com um suspeito de praticar pedofilia que é interrogado de maneira nada carinhosa. É interessante o contraste da conduta do personagem nos três momentos distintos de sua vida de impulsivo para introspectivo e finalmente temeroso na velhice. As transformações faciais do personagem, com direito a uma maquiagem impressionante também chamam a atenção: que caracterização e que show de interpretação!

Assim como aconteceu com os personagens da primeira temporada, Wayne também parece incomodado pelas lembranças da sua investigação. Ele responde ao interrogatório e aceita fazer a entrevista, com a disposição de alguém prestes a fazer seu primeiro exame de próstata. Nós não sabemos ao certo o que aconteceu durante o caso e os fatos vão sendo apresentados lentamente, como em um conta gotas que jamais entrega além do suficiente mantendo um clima de suspense que aparentemente vai durar uns bons episódios. A única certeza é que o mistério é daqueles cabeludos, com direito a reviravoltas que tornaram um sujeito como o detetive durão dos anos 80, um cara cauteloso nos 90 e um homem assombrado em 2015.

Um ponto interessante é que o caso teve influência em sua vida: muitas das coisas que aconteceram em sua vivência passaram a ter uma relação direta com ele. Ficamos sabendo que Wayne se casou com uma mulher que esteve ligada ao caso e o ajudou a sondar alguns detalhes dele, que a filha do casal pode ter brigado feio com o pai em decorrência de lembranças do caso e que parte de seu padrão de vida se deve a um livro escrito pela esposa a respeito do tal caso. Mesmo depois de envelhecer e abandonar a força policial, o caso continua ecoando em sua existência. Em determinado momento ele diz "Eu costumava dividir a minha vida em antes do Vietnã e depois do Vietnã, mas isso acabou mudando para antes e depois do caso Purcell".


Mas o que exatamente foi o Caso Purcell?

Tudo começa de maneira bastante simples, mas que sabemos, por ser True Detective, irá se converter em um mistério indevassável. Em 7 de novembro de 1980, Tom Purcell, um sujeito meio grosso, típico caipira de um lugarejo do Arkansas, instrui os filhos Will e Julie a voltar para casa antes do anoitecer. As crianças se despedem e saem de bicicleta acenando para vizinhos e amigos enquanto seguem para o parque local. Os dois acabam sumindo e os detetives Wayne e Roland são mandados até a casa dos Purcell para avaliar a situação. Eles rapidamente deduzem que o ninho de amor "red neck/ white trash" está passando por maus bocados, que Tom e a mulher, Lucy não estão dormindo juntos e que ela costuma sair para a balada deixando o marido com as crianças. O primo de Lucy, outro traste estava morando sob o mesmo teto e possivelmente fez um buraco num armário para espiar o quarto da sobrinha. Há ainda uma forte suspeita sobre um índio que vive como catador de lixo e que teria cruzado com as crianças em determinado momento.

A investigação começa dessa maneira, meio atrapalhada e sem grandes pretensões. Parece ser um caso simples de desaparecimento, como muitos que acabam rapidamente com o retorno das crianças, muito choro e lágrimas. Mas quando vemos trechos da entrevista de Wayne em 2015 sabemos que a coisa vai ficar muito pior e que o caso não vai ter nada de convencional. Nesse primeiro episódio, como não poderia deixar de ser, a maior parte da trama se desenrola em 1980, quando Wayne e Roland recolhem testemunhos, interrogam suspeitos e andam com seu carro - um monstro bebedor de gasolina, para cima e para baixo das estradas do Arkansas, fazendo trabalho investigativo.


Uma das principais pistas obtidas diz respeito a um lugar chamado Devil´s Den, local de encontro de crianças e adolescentes que se reúnem ao redor de uma torre de observação. Supostamente é ali que as crianças foram vistas pela última vez por um grupo de adolescentes que parecem claramente estar escondendo alguma coisa. É na torre que Wayne, um rastreador treinado nas selvas da Indochina, encontra uma pista central - uma estranha boneca feita de palha. Seguindo um rastro quase invisível, ele vai encontrando outras dessas bonecas que parecem conduzi-lo para uma caverna. Lá, deitado com se estivesse em repouso, ele acha o cadáver de Will Purcell, mãos unidas sobre o peito como se estivesse rezando. 

Dali em diante não tem mais volta! O caso aparentemente simples de desaparecimento acaba de se converter em um homicídio e a vida do detetive acaba de sofrer uma mudança que irá redefinir a sua existência e reescrever seu destino.

Com a isca devidamente lançada, o episódio dois "Kiss Tomorow Goodbye" (Dê adeus ao amanhã) se inicia com mais perguntas e dúvidas a respeito dos acontecimentos transcorridos na década de 80. Wayne e Roland passam a dedicar atenção total ao caso, investigando pequenas pistas aqui e ali, enquanto que os segmentos centrados nos anos 1990 e 2015 oferecem pequenos indícios do que está para acontecer, sugerindo as razões pelas quais Wayne permanece em estado de alerta ao remexer suas memórias do caso.
        
Os detetives começam a investigação interrogando o catador de lixo, um sujeito chamado Woodward que também lutou no Vietnã e trouxe na bagagem lembranças e traumas de guerra. Ele parece ser um suspeito óbvio, já que foi visto nas imediações, se desloca pelas estradas e foi abandonado pela mulher que carregou os filhos. Óbvio demais, como fica claro depois de um interrogatório rápido no qual os detetives parecem descartar seu envolvimento no caso. Há um eco de niilismo na entrevista, bem ao gosto de Rust Cohle quando o veterano pondera com tristeza que sente saudades da época em que a maior preocupação dele era não saber se iria ficar vivo ou não no final do dia.


A cidadezinha de West Finger através de seus habitantes acrescenta um pouco mais de paranoia à narrativa. No episódio anterior os detetives interrogaram um adolescente que esteve no parque Devil´s Den e comentam a respeito de sua camisa da banda Black Sabbath. Rolland pergunta o que significa aquilo, e Wayne responde pelo rapaz dizendo se tratar de "Um tipo de Missa Negra". Parece claro que o roteiro irá buscar inspiração no surto de paranoia que varreu os EUA nos anos 1980, a preocupação exagerada a respeito de cultos e seitas demoníacas que supostamente estaria entranhada na sociedade americana. De fato, no auge da paranoia a respeito da ameaça de satanismo, que parecia inquestionável, muitas pessoas acabaram sendo acusadas e investigadas por suspeitas infundadas. Adolescentes no estado vizinho do Missouri acabaram sendo presos e acusados de terem tramado e executado duas crianças, encenando o que os investigadores na época acreditavam ser uma missa negra e adoração ao demônio. O caso ficou famoso como "Os Três do Missouri" e ainda hoje causa comoção, sobretudo porque os rapazes acusados eram totalmente inocentes e não fizeram nada além de ouvir Heavy Metal.

Pode parecer absurdo hoje, mas na época, tudo aquilo era sério, tanto que a primeira dama Nancy Reagan deu sua opinião a respeito do crescimento de seitas e cultos na América. Ela alertou aos pais que mantivessem suas crianças em segurança, proibindo que elas ficassem na rua depois do anoitecer, quando supostamente maníacos poderiam raptá-las. O mais irônico é que todo esse temor, jamais se mostrou justificado! O FBI, instruído a investigar os tais cultos satânicos e suas ações não encontrou absolutamente nenhum indício de que crianças estariam desaparecendo e sendo sacrificadas em altares profanos. Nada!

Isso, contudo, não impediu que pessoas fossem processadas, acusadas de participar de seitas e de sequestrar crianças. A mídia, jornais e televisão, se aproveitou desse temor crescente e como não poderia deixar de ser, fizeram a festa com manchetes sensacionalistas e especulações infundadas. A onda de paranoia atravessou fronteiras... até aqui no Brasil houve um caso escandaloso de uma creche e escola infantil em São Paulo que supostamente realizava sacrifícios e abusava de crianças. Nada foi provado, mas o dano foi enorme e duradouro.


Voltando ao caso, além dos rapazes, temos ainda as misteriosas bonecas de palha que aparentemente foram distribuídas na véspera do Halloween, algumas semanas antes do sequestro por uma pessoa desconhecida. Julie Purcell teria aceito uma dessas bonecas, lançando base para a suspeita de que o assassino teria se aproximado da menina dessa maneira, oferecendo a ela um presente e assim ganhando a sua confiança. O que poderiam ser as tais bonecas de palha? É impossível não lembrar das espirais feitas pelo assassino na primeira temporada e deixadas na cena do crime e nos lugares usados por ele para venerar o Rei Amarelo. Será que teremos alguma ligação aqui ou é apenas um aceno inocente? 

O envolvimento do FBI no caso sinaliza para o rumo que a investigação irá tomar, envolvendo o Promotor local e figurões da política que querem obviamente ganhar fama com a solução do caso. Investigações desse tipo, com grande cobertura da mídia não raramente se converte em um espetáculo para o público. Isso só reforça a minha suspeita de que teremos uma forte inspiração a respeito da paranoia do período quanto a satanismo.


Enquanto isso, Wayne e Roland seguem outras pistas, uma delas que os leva até um pervertido fichado por ter abusado de crianças e que vive nos arredores. O interrogatório segue a cartilha da época, com o suspeito amarrado e os policiais amaciando o sujeito com socos e pontapés. No fim, tudo indica que o sujeito não tem envolvimento com o caso, mas por uma "questão de princípios" ele apanha e recebe uma advertência dos detetives. A ameaça de Wayne de que o suspeito irá "bleed black cock" na cadeia não assusta apenas seu parceiro, mas qualquer pessoa que ouça tal coisa. Isso que é intimidação!

As reviravoltas começam a surgir quando no trecho de 1990 ficamos sabendo que impressões digitais pertencentes a Julie teriam sido encontradas na cena de um roubo numa farmácia. As digitais da menina estariam no banco de dados do FBI e o fato delas ressurgirem depois de tanto tempo causa um rebuliço na investigação. Wayne, dez anos após o fechamento do caso, parece surpreso e balançado pela notícia, tanto que a família percebe como o caso ainda está fresco na sua mente. É possível que algo sinistro tenha acontecido no curso final da investigação nos anos 1980, já que aparentemente algo estranho transcorreu com o pai das crianças, que "ainda tenta um recurso para sair da cadeira". O caso parece se tornar cada vez mais estranho e misterioso... veremos até onde isso leva.


O episódio termina com sinais de que as lembranças do caso em 2015 começam a cobrar um preço alto da própria estabilidade de Wayne. Em uma mesa, na companhia do filho mais velho e do restante da família, o detetive dá mostras de que está sendo afetado pela entrevista ao repetir que eles deveriam convidar sua outra filha para esse tipo de reunião - e ser informado que ela se mudou há alguns meses. O que teria acontecido entre Wayne e a filha? Por que os dois teriam se distanciado? Será que ele teria de alguma forma projetado o caso em sua família, como aconteceu com Marty Hart na primeira temporada? Provável que sim... True Detective não é um programa convencional apenas a respeito de investigação e procedimento criminal, mas um drama sobre a forma como crimes barra pesada acabam devastando a vida das pessoas incumbidas de solucioná-los.

Quando no final do episódio dois Wayne acorda no meio da rua, sem saber como chegou ali e se perguntando o que está acontecendo em sua vida, o final soa amargo e leva a crer que as coisas ficarão ainda mais complicadas, antes de chegarmos a uma solução desse mistério.

(se é que uma solução virá).

Pistas Intrigantes e Suspeitas:

• A entrada da terceira temporada mantém o mesmo estilo das outras duas, oferecendo vislumbres do elenco de maneira estilizada que parecem se misturar a imagens do ambiente. A canção de abertura nessa temporada é um cover de "Death Letter," também conhecidas como "Death Letter Blues," gravada por Cassandra Wilson. Ela é uma adaptação de um músico do Delta do mississipi que gravou a primeira versão em 1930. A canção foi redescoberta na década de 1960. Ela é uma música sobre más notícias, tristeza e moralidade. Uma entrada bem interessante para um show como True Detective. 


• A narrativa é aberta com a data de 7 de novembro de 1980, o dia em que o lendário ator Steve McQueen, um ícone conhecido como King of Cool, morreu, vítima de um mesotelioma aos 50 anos de idade. A morte de um ícone da masculinidade em uma série como TD3, também faz sentido. Digno de nota é que a data remete a três dias após a eleição de Ronald Reagan (outro ator conhecido pelos papéis rudes). Além disso, 1979 foi o último ano em que os famosos Volkswagen (nosso Fusca) foi produzido nos Estados Unidos. Um fusca roxo aparece no primeiro episódio e parece ser importante na trama. São tempos de mudança significativa.

• O personagem do detetive Wayne era originalmente branca, até que Mahershala Ali convenceu o produtor Nic Pizzolato a fazer mudanças para que ele fosse negro. A questão racial é mencionada no primeiro episódio, em uma conversa entre o detetive e a professora, ambos negros em uma comunidade majoritariamente branca. Ela é mencionada novamente no segundo episódio quando Wayne reclama com seu parceiro por não apoiá-lo sabendo que as autoridades poderiam ouvi-lo com mais facilidade. Aparentemente, a questão racial não parece ser um tema central na série, mas ela não será ignorada.

• Quem tinha saudades daquelas cenas de True Detective com detetives conversando enquanto seguem em suas viaturas pelas estradas, deve estar feliz com o retorno delas. Em alguns momentos, as cenas são muito parecidas.


• No quarto de Will é possível ver alguns livros, entre os quais um manual de escoteiros e uma edição do Advanced Dungeons & Dragons primeira edição. Só lembrando que a paranoia com satanismo na época atacou com força em várias frentes, sendo uma delas, os RPG. Tem um outro livro chamado "Land of Leng" que eu não consegui identificar ainda, mas que parece um aceno ao horror cósmico (ou eu estou vendo demais?) 

• Wayne diz que sofreu de dislexia quando criança e que levou tempo para aprender a ler e interpretar textos. Ela comenta que é fã de quadrinhos especialmente de Batman e Surfista Prateado, um deles um vigilante amargurado e obsessivo com o combate ao crime, outro um exilado galático que não encontra seu lugar num mundo estranho e hostil. Se predileção por personagens diz muito a respeito de personalidade, então Wayne vai ser um personagem interessante.

• Nesse primeiro momento, não há como dizer se TD3 vai se inclinar sobre qualquer aspecto claro ou dissimulado do Horror Cósmico ou se a aura de niilismo voltará, contudo fica óbvio a tentativa de manter as coisas estranhas. Minha opinião: não veremos o Rei Amarelo, mas teremos uma boa dose de estranheza que já mostraram a sua face com as macabras bonecas de palha e com a estranha mensagem enviada pelo assassino, que pede que as crianças possam "rir". What a fuck?


• Outra coisa que eu consideraria interessante demais se fosse explorado: uma espécie de ligação na cronologia de 1980, 1990 e 2015, na qual o detetive mais jovem tivesse insights do que ele mesmo, mais velho, estaria sentindo no futuro. Algo no estilo que o velho Dr. Gull, o estripador experimentava em From Hell de Alan Moore. Seria incrível explorar essa questão de tempo e espaço na série.

Vamos ficar atentos, True Detective está apenas no início e muita coisa ainda está por vir. 

De qualquer maneira é ótimo perceber o esforço para atrair o público órfão da primeira temporada.

Trailers:



sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

True Detective - Lembrando e esperando


Com base no artigo de Kyle Andersom do site Nerdist

Faz cinco anos desde o final da primeira temporada de True Detective, que parece muito tempo, mas que simultâneamente, parece ter sido ontem. Tempo, conforme foi dito, é um Círculo Fechado, no qual o final encontra o início. Apesar de ter sido incrível, a lacuna de quatro anos entre a primeira e a terceira temporada, pode ter apagado, ao menos em parte alguns detalhes de True Detective.

É claro, os fãs devem lembrar de algumas cenas icônicas e das divagações niilistas de Rust Cohle, personagem de Matthew McConaughey. Outra coisa que provavelmente todos devem se recordar, é do terrível vilão da temporada, o Rei Amarelo e de sua cidade cosmicamente bizarra, "Carcosa".

O que separa a primeira temporada de True Detective de todos os outros programas sobre investigação policial é a maneira como o mistério envolveu temas metafísicos. O já mencionado círculo fechado do tempo é um exemplo, mas mesmo os assassinatos em série que estavam no centro da história eram apenas uma pequena parte da trama. Mulheres deixadas mortas, amarradas, nuas e adornadas com chifres davam a impressão de algum mal escuro e profundo, muito mais cerimonial e ritualístico do que simples assassinatos. Ao longo da investigação, Cohle e seu parceiro Marty Hart (Woody Harrelson), começaram a descobrir corrupção, mentiras e acobertamentos que permitiram o Culto ao Rei Amarelo prosperar. Os poderosos sempre protegerão os poderosos.


Há uma bela dose de Horror Cósmico em tudo que envolve o Rei Amarelo na série, e isso remete aos Mythos de Cthulhu e seu criador H.P. Lovecraft. Errol Childress, a verdadeira identidade do Rei Amarelo, o assassino cultista, é marcado na face por distintas cicatrizes em uma alusão às cicatrizes que corrompem sua alma. Assim como os cultistas lovecraftianos, ele também esconde sua natureza perversa. Em histórias como "O Chamado de Cthulhu", o apocalipse é desejado por bandos de maníacos que veneram algo não humano, algo que não deveria existir e que poderia acabar com toda a vida como a conhecemos. Childress não chega a ser ruim a esse ponto, mas os temas ainda estão lá.

Childress - quando revela ser mais do que um simples zelador, faz menção de que sua família sempre esteve naquela área, vivendo ali "há muito, muito tempo". Sua família estabeleceu algum tipo de vínculo com outros clãs do condado. Isso encontra similaridade, já que ele representa o mal cósmico, com a maneira como esse mal espreita desde tempos imemoriais. Uma das marcas dos Mythos de Cthulhu é que as entidades são antigas e eternas, elas nunca deixam de existir, nunca desaparecem por completo, permanecem meramente adormecidas.


O próprio Rei Amarelo e sua cidade decrépita, Carcosa são parte dos Mythos de Cthulhu e foram absorvidos por Lovecraft e posteriormente por True Detective. Foi o escritor americano Robert W. Chambers que escreveu a antologia de contos publicado pela primeira vez em 1895, com o título de "O Rei Amarelo" (The King in Yellow). O livro é composto de dez histórias, sendo as quatro primeiras as mais estranhas e macabras, relacionando-se a uma  peça fictícia também chamada "The King in Yellow", que faz com que qualquer um que tenha lido sobre ela ou assistido uma apresentação, caia em profundo desespero e loucura.

As quatro primeiras histórias que integram a antologia tratam diretamente da Mitologia do Rei Amarelo e seu maldito emblema, o Símbolo Amarelo, cujo vislumbre suscita loucura, corrupção e paranoia. 

A primeira história da antologia, "O Reparador de Reputações", se passa em uma versão distópica da Nova York dos anos 20, embora seja possível - e até provável - que o personagem principal e narrador não seja de todo confiável, primeiro por ser ser insano e também por ter uma ligação com a peça amaldiçoada.


A segunda história é apenas minimamente conectada, mas a terceira narrativa, "Na Corte do Dragão", fala de um homem que visita uma igreja em Paris e é repentinamente tomado por um medo insuportável. Ele logo é tranquilizado pelo organista da igreja que toca uma música relaxante, mas esta vai cedendo lugar a uma melodia estranha; alta e dissonante que o deixa ainda mais apavorado. O organista se levanta e encara o narrador com um olhar de ódio incontido. O homem foge, mas passa a ver o organista em todos os lugares que vai, até que ele finalmente surge diante dele. A seguir ele desperta de volta na igreja e percebe que foi capturado pelo Rei Amarelo; a Igreja se revela como a majestosa e terrível cidade de Carcosa onde a partir de então ele será prisioneiro. 

A quarta história tem o título "O Símbolo Amarelo", e nela temos um artista aterrorizado por um vigia de igreja que nas suas palavras se assemelha a "um verme de caixão". Esta figura sinistra certo dia explica a origem do Símbolo que tanto aterroriza o narrador e de como seu criador não é humano. 

Lovecraft e outros escritores como August Derleth, que acompanharam a obra de Chambers, se apropriaram de Carcosa e do Rei Amarelo, incorporando-os às suas narrativas e desde então eles se tornaram parte indelével do Mythos de Cthulhu. O próprio Rei Amarelo se converteu no Avatar de um Deus chamado Hastur, entidade na mesma categoria de Cthulhu, peças chave para os mitos ancestrais.


Mas como tudo isso se relaciona com True Detective?

A visão negativa e profundamente niilista de True Detective encontra uma conexão com os contos de Chambers. Os temas são muito similares, relacionando loucura, perturbação e dúvidas sobre a própria condição humana. Será que Childress é verdadeiramente o Rei Amarelo, ou meramente um lunático? As mortes tem um propósito ritualístico ou não passam das ações de um homem profundamente doente? Em True Detective, Rust Cohle, que parece ter uma sensibilidade latente e compreensão semelhante aos personagens das histórias de Chambers, também não sabe ao certo. Ele experimenta alucinações - de aves voando em espirais até coisas mais bizarras, percebe os sinais, mas não sabe como interpretar o que está vendo. Exatamente como acontece com os protagonistas de Chambers.

No episódio final, quando Rust e Marty finalmente confrontam Childress, este foge para uma enorme ruína em forma de labirinto, uma representação de Carcosa na Terra. É um lugar tão assustador e surreal que não sabemos se realmente ele existe ou é mera imaginação. As fronteiras entre o mundo real e o surreal se confundem, assim como ocorre nas histórias de Chambers. Rust persegue o maníaco até uma grande antecâmara onde encontra restos de esqueletos em uma árvore e farrapos amarelados pendendo em seus galhos. O horror do Rei Amarelo, sua decadência e glória, estão ali manifestados! Antes de ser atacado e ferido por Childress, ele vê um vórtice rodopiante que pode ou não estar ali.


A primeira temporada de True Detetive, jamais explica totalmente essas ocorrências estranhas e deixa em aberto muitos de seus segredos. Mas longe disso ser uma falha no roteiro ou um demérito na trama, ele cria um resultado perturbador e arrepiante. Muitas séries sobre crimes e investigação terão um assassino ligado à adoração demoníaca ou demonologia, mas apenas True Detective conseguiu amarrar um serial killer ao Horror Cósmico niilista e apocalíptico de Lovecraft e seus seguidores. 

Se o tempo é de fato um círculo fechado, que sempre encontra seu começo no fim, então quem sabe tenha chegado o momento de começar tudo de novo.

A Terceira Temporada de True Detective está chegando.

Veremos o que nos espera.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Férias do Mundo Tentacular - Voltamos logo e com muitas novidades



Olá pessoal, tudo bem?

Está na hora do Mundo Tentacular tirar uma de suas merecidas férias. 

Só o tempo necessário para reativar as baterias de energia mágica que andam meio exauridas. Manter uma média de postagem de dois em dois dias não é fácil ainda mais se pensarmos que a gente não faz uma pausa faz um tempinho.

Então, vamos relaxar. Que tal remover o amuleto místico, pendurar o manto no armário e colocar os pés para cima? 

Vamos deixar que os cultistas descansem um pouquinho de seus afazeres, liberar os Shoggoths, que fazem o trabalho pesado, deixemos que as Crias Estelares tirem uma soneca e que os Byakhees viajem para Aldebaran. 

Será só uma pequena pausa, apenas o bastante para que os Chefes de Culto possam colocar a leitura dos seus tomos blasfemos em dia, para que os portais dimensionais recebam sua manutenção preventiva e para que os investigadores conduzam suas pesquisas na Biblioteca da Universidade Miskatonic. 

Mas em breve, assim que "as estrelas estiverem certas no firmamento", estaremos de volta com artigos incomuns, notícias bizarras, resenhas detalhadas, dicas para sua mesa de jogo, planos para atormentar seus jogadores, ideias para props e tudo mais...

Enquanto não voltamos convido todos a explorar o Blog e ler alguns das matérias mais antigas. Tem muita coisa interessante em nossos Arquivos Profanos que pode mantê-los entretidos até nosso retorno.

Se acontecer algo interessante, eu coloco aqui, mas as ordens são descansar!

Mas quando a gente voltar, preparem-se pois vamos ter MUITAS novidades! Sobretudo porque o MUNDO TENTACULAR  está completando 10 anos de existência e temos muitos planos para comemorar essa data com estilo.

Então até daqui a pouco... o trem para Arkham está prestes a partir.


Nos vemos em breve!