domingo, 23 de junho de 2019

Wendigo - Uma Terrível besta com um insaciável apetite por carne humana


O Wendigo é uma besta selvagem, mas não é como nenhum animal da floresta. Ele é como um espírito, mas feito de carne. Sua pele é esticada sobre os ossos, como um cobertor cinza pálido. Seus olhos fundos brilham na escuridão, reluzindo com um vermelho sobrenatural. Ele parece um esqueleto que foi desenterrado de sua cova. Ele não tem lábios e seus dentes estão sempre sangrentos. Seu corpo é sujo e sua carne coberta de feridas que rescendem a podridão, corrupção e morte.

Basil Johnston, Professor da Tribo Ojibwe, Ontario, Canadá

Nas montanhas do extremo norte do Continente americano, as florestas que circundam os Grandes Lagos parecem não ter fim. As árvores são altas e antigas, as matas fechadas e a neve perpétua. É um lugar de belezas inenarráveis, mas de lendas estranhas e terríveis. Na região central do Canadá há uma lenda desse tipo. Ela fala de uma criatura maligna que lança o medo no coração de todos que ouvem a respeito dela. Os nativos a conhecem, através de velhas tradições e histórias orais, contadas pelos pais de seus pais, e pelos pais destes. Eles chamam esse ser de Wendigo, a besta que tem fome de carne humana.

Essa criatura de pesadelos é um monstro, mas tem algumas características comuns aos homens. Muitos acreditam que ele seja na verdade um homem cujo corpo foi possuído e então transformado em algo monstruoso, pela ação de um espírito maligno. As lendas tendem a variar para cada tribo, entretanto há pontos em comum: historicamente os Wendigo estão associados a canibalismo, assassinato, crueldade e a quebra de tabus culturais. Poucas coisas são mais ofensivas para as tribos que habitam o Extremo Norte do que romper com as tradições e conscientemente quebrar os tabus de seus antepassados. O Wendigo talvez seja um mito criado para ensinar aos jovens a respeito dos perigo de agir contra as tradições. Contudo, muitos acreditam que ele não é uma mera referência, mas uma criatura que de fato existe, habitando as profundezas da floresta onde a civilização jamais adentrou.

Conhecido por muitos nomes - Windigo, Witigo, Witiko e Wee-Tee-Go — cada um deles pode ser traduzido de maneira semelhante como "O espírito impuro que devora o homem". O nome diz muito a respeito da lenda e define exatamente o que ele é: um espírito que perverte a carne, de dentro para fora.

O Mito é especialmente difundido entre as tribos Algonquian, Ojibwe, entre os Cree do Norte e Cree do Pântano, os Saulteaux, Naskapi, e Innu. Todos estes povos descrevem os Wendigo como gigantes, muito maiores do que o mais alto dos homens. Embora a descrição geral possa variar, é comum para todos os povos a noção de que os Wendigo são criaturas perversas, canibais, nascidas de uma forma não natural e fortemente associadas com o inverno, o norte, o frio e a fome.

Os Algonquin descrevem o monstro nos seguintes termos: 


"Um gigante com o coração de gelo; por vezes, alguns o descrevem como um monstro totalmente feito de gelo. Seu corpo é esquelético e deformado, sem os lábios ou dedos, partes que o frio se encarregou de arrancar-lhe. Por vezes possui galhadas no topo da cabeça, chifres recurvos como o dos grandes alces.".

Os Ojibwa acrescentam: 

"Ele é uma criatura grande, tão alta quanto um pinheiro no coração da floresta. A boca não possui lábios e não conseguem esconder os dentes afiados como facas. Suas pegadas deixam um rastro sangrento, pois o sangue sempre o acompanha, onde quer que ele espreite. Se o monstro encontra um homem, uma mulher ou uma criança, ele os devorará. O Wendigo tem seu próprio território e não admite invasores. Morrer vítima do Wendigo não é tão ruim, pois aquele que morre pelas suas garras ou presas descansa. O pior acontece quando o Wendigo escolhe uma pessoa para possuir, e esta se torna, ela própria, um Wendigo. Ela então passa a viver apenas para a caça, e para devorar a carne de seus semelhantes". 

De acordo com as lendas, um Wendigo é criado sempre que um homem recorre conscientemente ao canibalismo para sobreviver. Trata-se de uma maldição, uma punição que se manifesta quando um dos maiores tabus das tribos - o consumo de carne humana, é quebrado. No passado, essa horrenda transgressão ocorria mais frequentemente, pois nativos acabavam perdidos na imensidão gelada, com neve para todo lado e nenhum sustento. Levados ao desespero extremo, eles acabavam cedendo e terminavam saciando sua fome com a carne de outras pessoas. Quando um homem nessas florestas místicas recorre a tal atrocidade, os espíritos malignos que habitam o local são atraídos e tendem a entrar em seu corpo. Aos poucos ele vai se transformando em uma besta atroz - o Wendigo.

Há outras versões da lenda que citam homens que são especialmente gananciosos, gulosos ou que cedem aos excessos para se satisfazer plenamente, sonegando todo o resto. São indivíduos que matam seus companheiros para ter lucro, que consomem porções extras de suprimentos mesmo sabendo que isso irá impactar nos demais, ou indivíduos que submetem ou forçam outros aos seus caprichos. Aqueles que cometem atos perversos, tortura ou assassinato, também tendem a atrair os espíritos malignos e se tornam propensos a serem possuídos por eles. Fica claro que o mito age como um alerta para que certas condutas e comportamentos sejam evitados. Cooperação e moderação são virtudes que praticamente todas as tribos do norte gelado estimulam.

A transformação é descrita como algo tenebroso. A primeira mudança, no entanto, ocorre na mente do indivíduo. Este perde o controle e a capacidade de refrear os seus instintos animalescos. Uma lenda especialmente perturbadora entre os Cree, descreve um homem faminto que em desespero assassina seu irmão e depois corta um naco de carne para dele se alimentar. O ato acaba convidando os espíritos da floresta a possuir seu corpo e quando eles o fazem, o sujeito perde o controle. Ele afunda seus dentes na carne do irmão, a rasga vorazmente, mordendo pedaços inteiros e engolindo com um prazer medonho. Em outro exemplo, um caçador mata seu companheiro para ficar com valiosas peles que foram coletadas na floresta ao longo de meses. O ato de traição atrai os espíritos e condena sua existência para sempre. Sob influência dos espíritos malignos ele arranca a pele de seu antigo companheiro, como se ele fosse um dos animais que ambos caçavam até recentemente.

Há um momento único de sanidade que se segue à loucura que acomete o indivíduo tomado pelos espíritos. Após um período de selvageria e sanguinolência, o indivíduo acorda na manhã seguinte capaz de entender o que se passou. Esse é o momento em que ele pode encontrar a redenção, optando por romper a maldição que dele se apossou. Para tanto, ele precisa tirar a sua própria vida. Se o indivíduo amaldiçoado não aproveitar essa oportunidade para se redimir, ele estará condenado para sempre e quando o sol se puser será uma vez mais tomado pelos espíritos, dessa vez para sempre.

Curiosamente a lenda se refere a qualquer pessoa como um candidato a se tornar um Wendigo. Não há impedimentos raciais para que uma pessoa venha a se transformar no monstro: nativos e colonos estavam sujeitos à maldição. Por ironia, após a chegada dos colonos brancos, os nativos acreditavam que o número de Wendigos em seu território havia aumentado, sem dúvida em função da presença de forasteiros que não compreendiam os mistérios daquelas terras.


As lendas que falam do Wendigo o descrevem minuciosamente. Ele é tratado como um espírito de grande altura, com mais de três metros, mas podendo ser ainda maior, grande como um pinheiro. O corpo parece estranhamente emaciado, como se tivesse de alguma forma secado e então esticado. Os membros se tornam muito longos e finos, com braços e pernas compridas que dão a ele uma aparência esquelética. A pele vai se tornando pálida, bem como os cabelos que ficam brancos e continuam crescendo em fios longos e lisos. Em muitas representações ele surge com uma grande galhada na cabeça ou uma máscara de crânio de alce, que realça seu aspecto selvagem. Os olhos passam a emitir um brilho avermelhado que pode ser visto na escuridão, como se fossem duas pedras incandescentes. As presas vão se alongando e aparecem entre os lábios rachados que também vão rescindindo até desaparecer por completo. A aparência é absolutamente animalesca!

Ainda assim, a fera é dotada de uma afiada inteligência que trai a sua aparência bestial. O monstro domina inúmeras habilidades que lhe permitem se esconder, caçar e conhecer perfeitamente os limites de seu território. O Wendigo é um predador no sentido mais completo da palavra, ele vive para caçar e se delicia com o prazer da chacina e com o frenesi da matança. O cheiro de sangue fresco o atiça a ponto de torná-lo incontrolável. Segundo as lendas, apesar de grande, o Wendigo é capaz de se esgueirar sem fazer um som sequer, agarrar suas presas e levando-as consigo, sem ser percebido. Por vezes, ele se propõe a fazer esse jogo, mas em outras ocasiões se contenta em simplesmente atacar sem aviso, matando todos invasores que tiveram o azar de entrar em seu território em um verdadeiro banho de sangue.

Algumas tribos acreditam que os Wendigo são capazes de controlar o clima, causar nevascas repentinas e usar magia negra à seu favor. Eles são retratados como seres desprezíveis que acabaram aceitando a maldição causada pelos espíritos e que de alguma forma extraem dessa vil existência prazer. Os Wendigo, entretanto, jamais estão satisfeitos e sua existência é marcada por uma busca perpétua por saciar suas vontades, sejam elas fome, fúria ou ganância. 

Não há cura para a maldição do Wendigo, a condenação é pela eternidade já que os espíritos são imortais. Um indivíduo possuído está condenado a vagar para sempre pela terra tentando preencher seus apetites vorazes.  

A lenda emprestou seu nome ao termo médico Psicose do Wendigo, que é considerado por alguns psiquiatras como uma perturbação mental ocasionada pelo isolamento e que frequentemente gera a necessidade de se tornar um canibal. Ironicamente essa estranha psicose é bastante comum nos povos que residem nos arredores dos Grandes Lagos no Canadá e nos Estados Unidos, justamente onde a lenda do Wendigo surgiu. A Psicose de Wendigo tende a se desenvolver no inverno em indivíduos isolados por longos períodos e sob determinadas condições de restrição. Os sintomas iniciais são falta de apetite, náusea e comportamento anti-social. Subsequentemente, o indivíduo passa a experimentar alucinações e acredita estar se transformando em algo não humano, geralmente algo animalesco e primitivo. Pessoas com essa psicose tendem a desenvolver desejos por consumir carne crua, por vezes, carne humana. Ao mesmo tempo eles se tornam paranoicos, acreditando que outros estão tentando devorá-los.

Há casos de Psicose de Wendigo em que as vítimas apresentam mudanças físicas, assumindo uma expressão inegavelmente animalesca. Há casos documentados com uma inquietante riqueza de detalhes que se encaixam perfeitamente na maldição descrita pelas tribos do norte. Há casos de psicose do Wendigo relatados há séculos. Em 1661, um missionário jesuíta descreveu o seguinte caso ocorrido nos arredores da Província de Manitoba:

"O que nos causou grande preocupação enquanto estávamos entre os povos nativos foi tomar conhecimento de suas estranhas superstições. Uma delas se referia a homens transformados em monstros pelo ato de canibalizar seus semelhantes. Nas Nações do Mar do Norte, ouvimos tais histórias de chefes respeitados. Soubemos que um homem havia sido capturado e estava esperando para ser executado pela tribo. O pobre diabo era acusado de ter matado e devorado um vizinho no auge do inverno, quando ele não tinha de onde obter sustento. Segundo os chefes, esse homem estava amaldiçoado e se fosse posto em liberdade se tornaria um monstro selvagem determinado a matar e comer outras pessoas. Acreditavam que essa doença não tinha cura e que a única maneira de evitar mais infortúnios era matá-lo antes que sua fome se tornasse incontrolável. Quando retornamos de nossa viagem pelo interior e passamos novamente pela mesma tribo soubemos que o homem havia sido executado conforme planejado e que a tribo estava aliviada. Para eles, haver um canibal entre os seus era a suprema transgressão. Mata-lo seria a única maneira de restaurar a normalidade da tribo".

Outro caso amplamente documentado ocorreu em 1878 quando um caçador Cree de Alberta chamado Swift Runner, sofreu de um caso de loucura crônica. Runner costumava fazer comércio com a Companhia Hudson Bay que atuava na região empregando nativos e comprando deles peles de animais selvagens. O homem era casado, tinha seis filhos e era respeitado tanto pelo seu povo quanto pelos homens com quem negociava. Ele chegou a servir como guia para a Polícia Montada Canadense em missões oficiais em Alberta e foi condecorado pelos serviços prestados.


Durante o inverno de 1878-1879, Swift Runner e sua família acabaram ficando isolados em sua propriedade. Seu filho mais velho foi o primeiro a morrer de fome e em algum momento do confinamento na casa, Swift Runner teve um episódio de Psicose do Wendigo. Ele matou os demais membros de sua família a facadas e porretadas, consumiu a carne de cada um e esperou por quase dois meses. Quando o socorre enfim chegou no final do inverno, os Policiais canadenses encontraram uma cena aterrorizante. Havia cadáveres semi-devorados em toda cabana. Swift Runner então apareceu: estava nu, coberto de sangue e rosnava feito um animal selvagem. Com muito custo, os policiais conseguiram detê-lo. Eventualmente ele confessou seus crimes hediondos e foi executado no Forte Saskatchewan.

Um Wendigo alegadamente também apareceu em uma pequena cidade chamada Rosesu no norte de Minnesota no final do século XIX. Ele deixou um rastro de cadáveres que aterrorizaram as autoridades locais, até desaparecer tão misteriosamente quanto havia surgido.

Outro caso bastante famoso sobre Psicose do Wendigo envolve um sujeito chamado Jack Fiddler, um chefe tribal e curandeiro da tribo Oji-Cree conhecido por ter no passado enfrentado ele próprio um Wendigo. Fiddler afirmava ter matado a criatura em uma caçada. Ele dizia que era constantemente perseguido por outros Wendigo que desejavam extrair dele vingança.

Em 1907, Fiddler e seu irmão Joseph foram presos pelas autoridades canadenses  sob acusação de terem cometido um horrível assassinato. A vítima havia sido desmembrada e partes de seu corpo desapareceram, supostamente tendo sido atirados em um rio. Jack cometeu suicídio na cadeia. Antes de se enforcar, deixou uma longa carta na qual relatava as circunstâncias em que havia matado o homem e reconhecia sua culpa. Ele afirmava ter se tornado um Wendigo após ter matado um capataz para ficar com a esposa deste. Ele acabou sendo amaldiçoado, tornando-se um Wendigo e sob a loucura da besta havia junto com o irmão matado um inocente e devorado partes de seu corpo. Envergonhado e temeroso, ele decidiu por fim a sua existência.   


Joseph foi julgado pelo crime e condenado a prisão perpétua. Ele recebeu um perdão oficial quase 15 anos mais tarde e foi enviado para uma Instituição Psiquiátrica. Lá, ele acabou matando um outro interno (a mordidas) e acabou retornando para a Cadeia comum. Há rumores de que ele teria escapado ou então que os outros presos o teriam assassinado em uma emboscada, ninguém jamais soube ao certo.  

Entre os Assiniboine, os Cree e os Ojibwe, existe uma cerimonia que é encenada durante tempos de escassez e fome. Esse ritual existe para fortalecer os laços de amizade e companheirismo entre os membros da tribo através do qual os alimentos são partilhados para que ninguém passe por necessidades. O objetivo segundo antropólogos é evitar que um Wendigo possa surgir na comunidade em face do desespero causado pela fome.  

Atualmente, casos de Psicose de Wendigo são bastante raros e muitos psiquiatras acreditam que a condição foi erradicada. Entretanto, o mito do Wendigo continua bastante disseminado entre as populações nativas que habitam o Norte do Canadá e a fronteira do Alasca. Há pessoas que acreditam que os Wendigo e os espíritos malignos responsáveis por criá-los continuam espreitando na floresta, atentos para tabus sendo quebrados.  

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Itaqua - The Wind Walker, God of Winter and the Arctic Wastes


The cold has always been considered a scourge of humanity.

It is associated with hunger, disease, and death. From the beginning of time, the human race is subject to the weather and its oscillations caused countless misfortunes for the men. Whether in the form of harvests and plantations being devastated, in the hunger that follows these tragedies and obviously in their icy touch. The cold has been a cruel companion in our long walk.

In the universe of the Mythos, there is a deity that gathers in its figure all the elements of the primordial cold and the most severe winter. In ancient times, he was the incarnation of the winter itself, descending relentlessly, mowing everything in Its path. This perverse entity inhabits the dark skies, traveling through the firmament in the icy winds, causing blizzards and frosts. Venerated and feared in the northern latitudes of the planet he claimed as his home, this Great Old One is intimately associated with temperature and climate.

He is called Itaqua, the Wind Walker, the Storm Eater, the Lord of the Blizzard, the White Silence and Walker in the Wastes... there are many names for this powerful and especially cruel entity. Certainly, the fact that countless peoples and civilizations associate the fury of nature with supernatural forces, contributed to Itaqua becoming the embodiment of most of the tempestuous Gods of the distant past. Scholars of the Mythos drew parallels between Itaqua and various entities, such as the Aztec god Quetzalcoatl, Thor, the Norse God of Thunder and Enlil, a Sumerian / Babylonian deity responsible for storms. In the northern hemisphere of the planet, the real nature of Itaqua is better understood by cultists who worship him with awe and submission.


Itaqua is considered one of the most important entities in the Pantheon of Inuit gods, known by Eskimo peoples as Sila. With that name, He was revered by native tribes scattered across reaches of the Arctic desert, from Siberia to Greenland. The cult of Sila also had enclaves of cultists inhabiting the most inhospitable territories of the extreme north of Canada and Alaska where His influence was unquestionable. Cultists try to placate his fury with bloody offerings and rituals. Sacrifices were offered at certain dates, with the chosen victims being tied up in stakes and abandoned on plains and deserted lands where the God materialize, accompanied by an immense storm. With these offers, the cultists believed that Sila / Itaqua would be satisfied and convinced to not send his punishment. Sometimes he was satisfied with the sacrifices, but sometimes, in anger, he bury entire villages under the snow, making them disappear forever.


Not by chance, Itaqua was always much more feared than adored, and his cults almost completely disappeared in the early nineteenth century. However, bastions still resisted in certain isolated parts of the far north in little town as Stillwater in the Territory of Manitoba, Canada or Cold Harbor, Alaska. His followers do not build temples, preferring to conduct their rites on the open plains. Worship brought few benefits to those involved since the God rarely offer artifacts or share spells, and when he did so, it was only to strengthen a priest who could control the rest of a community. In any case, Itaqua never cared for the well-being of his cultists and not rarely did exterminate them after some unrestrained fury.

As other Great Old Ones, Itaqua had his freedom restricted by cosmic principles that compel him to manifest only for short periods of time and in predetermined areas. The oral traditions shared by Siberian shamans and Sorcerers of the Cree tribesmen of the Great Lakes claim that Itaqua is not native to our planet and comes from a world, dimension or reality called Borea, a dark land with vast plains of black ice, constantly whipped by storms and furious gales. He have been drawn to Earth for unknown reasons countless millennia ago, settling into the North Pole, which became his Domain and Hunting Area.


When the stars reached their fateful alignment, Itaqua found himself trapped by these powerful cosmic chains, unable to break the prison built to capture the Great Old Ones. Like his brethren, he was prevented from manifesting freely beyond certain geographical limits. In the case of Itaqua he can not leave the area between the North of Manitoba and the North Pole, although in certain favorable circumstances and dates, he is able to manifest temporarily in other parts of the globe. Since cults devoted to him have flourished in regions of Mexico, Japan, and Persia, it is presumed that he has the tolerance to travel to milder climes, albeit in rare instances. In order to move from one place to another, Itaqua draws on colossal storms and other climatic phenomena of substantial intensity that seem to carry Him across the planet. It is possible that He also uses portals and other magical methods, even if its cultists adopt the notion that the God simply flies through the Winds. His moniker "Wind Walker" comes from this characteristic in particular, since the traditions affirm that "he is able to walk in the wind, as men walk on the land."

Little is known about the origin and history of Itaqua. Even by the standards of the obscure entities that form the Mythos, knowledge about Him is minimal. This is probably due to the fact that most of His cultists come from cultures and peoples who do not have written records. Much of the information about the God has remained confined within small isolated communities, orally transmitted. Thus, very little has been learned about him. What is known has been extracted by anthropologists and explorers who have had contact with inhabitants of these remote regions who have told legends about their gods. And even these stories certainly contain dubious information whose truthfulness can not be corroborated in whole or even in part.

Not by accident, Itaqua is one of the most mysterious Old Ones, an enigma obscured by a dense fog of rumors and whispers.


It is assumed that Itaqua is responsible for countless disappearances in the icy kingdon that makes His domains. In most cases, the god's victims simply disappear amidst a particularly violent storm. Nothing of their whereabouts is heard for days, months, years or sometimes forever. Eventually, some of these people are found buried in the snow or trapped in ice, with signs of falling from a great height. It is disconcerting that some of these victims bring with them strange objects that seem to belong to other civilizations separated by long distances. Some victims are still found alive, babbling about a colossal creature flying in the clouds. Not infrequently these victims are found miles from the point where they supposedly to have disappeared, without being possible to determine how they came about in such disparate places.

It is rare, but some can survive this traumatic experience. Among the Inuit people, those who "Wandered in the Wind" are regarded as individuals touched by the God. They experience maddening visions and prophecies to the end of their lives. They are still avoided by tribes and live as hermits. It is said that those who endured the proximity of Itaqua develop a supernatural ability to withstand extreme cold temperatures without the slightest discomfort. In the Siberian taiga, there are rumors about shamans who share this fate and are regarded as insane prophets.


Another curious legend about Itaqua concerns the Wendigo, a well-known myth, spread among the Native American peoples of the north. The myth originally refers to men who turn into wild beasts of grotesque appearance after consuming human flesh. The Wendigo are monsters feared by the Inuit tribes, ferocious creatures who live alone and who give up reason to become terrible predators.

The Wendigo are supposed to be a servant race created by the power of Itaqua. Transformation affects people who are chosen by the God and live in His company as prisoners. How he chose a person to become Wendigo is unknown. What is known is that transformation involves a series of stages in which the victim's body is slowly perverted in a form more or less similar to Itaqua itself, albeit smaller and less powerful. In the final stage, the victim completely loses consciousness, becoming savage. However, they remain entirely subject to the will of the God.

There is rumors that some remote places in Canada or Alaska, are still inhabited by Wendigo servants of Itaqua. As such, they serve His master and perform any tasks without question. It is possible that these beings are the basis for various legends about anthropoid creatures such as the sasquatch, yeti and the big foot. Those in warmer lands who are supposed to be safe, away from Itaqua grasp, may be visited by these servants of the Wind Walker. Arctic boundaries do not apply to the Wendigo, who can be sent anywhere in the world to extract vengeance on behalf of their master.

Unlike most of the Mythos horrors, Itaqua is clearly a humanoid entity. In a simplistic comparison, some might try to describe His general appearance as simiesque, but a second observation removes the notion that He bears similarity to any terrestrial life form. For all intents and purposes, Itaqua is totally alien in appearance.

His form is described as that of a polyphemic giant, more than 30 meters high, thin and emaciated. Many describe him as a colossus of pale, almost cadaverous appearance, with very long limbs ending in hands and feet endowed with claws. His face is a disfigured scowl, lean and angular, with a powerful jaw and a lip-less mouth. His white, pointed teeth protrude outwardly, like knifes. From its throat emerge misty puffs of ice crystals. The hairs on the top of his head are long and fall over his broad shoulders like a chalk white cascade. The eyes have a pale bluish coloration, strangely blurred and without iris. When furious, those wild eyes turn a reddish hue. It is supposed, that he has a acute scent, being able to perceive His prey at considerable distances. Itaqua is described as terrible predator, dedicated to the pleasure of the hunt. Strictly carnivorous, its voracity is well known.

The giant is covered with a rough coat of grayish-white or beige-gray color. This hair that grows in battens seems to offer a natural protection, accumulating in greater quantity in the neck, chest, back and genitals. Underneath this coat, his skin is pale and rigid, lining a solid musculature with tissues that resemble tendons. It is not easy to hurt that sturdy skin that has the texture of hard leather. Normal weapons find extremely difficult to pass through hair, skin and muscle. Firearm are generally diverted, except for projectiles with high penetration power, which can deflect this natural armor, without, however, producing great damage. A shotgun shot is more likely to merely irritate Itaqua.

    
Itaqua's body is supported by two legs, assuming a completely erect posture. It moves with long strides that cover an arch of at least 15 meters in each step. Its feet are palmed, endowed with six fingers, with a thick and rough soles that assures him adherence in the snow or ice. For some, the God does not really touch the ground, yet this notion seems to be false, since he often leaves his trail in the snow. His stride is powerful and the creature does not seem to care about whatever is in its path. Despite its colossal size, Itaqua can float in the air, covering hundreds of meters. The Entity is also capable of flying as long as there is a storm or blizzard in the vicinity. To take flight, Itaqua simply floats in the direction of the storm and lets Himself be engulfed by the clouds. He is able to move quickly this way, making miles in a few seconds.

A freezing aura seems to emanate from his body and individuals who got close enough to the God have described a freezing sensation that leads to hypothermia. In fact, all who have been close enough, and have survived the experience, claim that the cold emanating from God is almost unbearable. Loss of fingers, whole limbs and mucous membranes are a sad trophy carried by these survivors. Some believe that around Itaqua there is a kind of icy fog that seems to accompany Him. In general, the God chooses to manifest physically only when there is a strong storm or blizzard, and is rarely encountered under a clean sky.

Of all the horrendous characteristics of Itaqua, one deserves to be highlighted. This is described by many who crossed His path and became some kind of trademark. Itaqua produce a terrible noise, which, in the absence of a better interpretation, sounds like a howl. The Hunter Howl, as he is known among his cultists, seems to have a poignant effect on those who hear it for the first time. The howl is described as a snarling growl, but it can not be compared to any sound produced by animals of nature. This exasperating sound seems to affect its victims with a primal fear so monumental that many simply lose their reason. Faint, hysteria, and uncontrollable panic are frequent reactions. There are cases of individuals who never recover from the experience; they end up being consumed by an overwhelming sense of despair and desolation that invariably leads them to physical and mental ruin.  Those who go crazy, commit suicide or just start walking north to surrender themselves to the God.

Itaqua knows no mercy, offers no consolation, and is cruel in her disinterest for all that is around her. A true force of nature, he does not care about the fragile beings that are crushed beneath his feet.

In many ways, Itaqua is like the winter itself: Relentless and terrible.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Dissertando sobre Lovecraft - Entrevista com a autora Nathalia Sorgon Scotuzzi


O Mundo Tentacular entrevista a autora Nathalia Sorgon Scotuzzi, responsável pelo Projeto de Financiamento Coletivo via Catarse, de um livro inspirado pela sua Dissertação "Relances vertiginosos do desconhecido: a desolação da ciência em H. P. Lovecraft".

Nathalia fez sua graduação em História mas, para o mestrado, decidiu mudar sua área de pesquisa para Estudos Literários. Tendo cursado o mestrado entre os anos de 2015 e 2017, desenvolveu a dissertação deste projeto na UNESP de Araraquara.

Em sua carreira acadêmica, até o momento, publicou artigos em revistas científicas, tanto sobre a obra de Lovecraft quanto outros assuntos relacionados ao fantástico e o gótico. Também fez parte da coletânea Contos Reunidos do Mestre do Horror Cósmico da Editora Ex Machina, considerada uma das melhores publicações da obra de Lovecraft no Brasil. Neste volume, contribuiu com dois artigos a respeito da obra do autor.

Nathalia também é uma das editoras da Diário Macabro e administradora do Lovecraft Brasil, maior grupo brasileiro sobre o autor. Atualmente está cursando o doutorado, também na UNESP, onde pesquisa a respeito do horror cósmico.


Mundo Tentacular - Olá Nathalia, obrigado pela entrevista. Vamos começar pelo mais importante: você lançou um Financiamento Coletivo do de sua dissertação "Relances vertiginosos do desconhecido: a desolação da ciência em H. P. Lovecraft" no formato de livro (que já foi bem sucedido em atingir suas metas). Fale um pouco sobre qual a proposta e o tema desse livro. 

Nathalia Sorgon Scotuzzi - Oi Luciano, eu que agradeço pela entrevista! O conteúdo do livro é o texto de minha dissertação de mestrado, com algumas pequenas alterações para se encaixar melhor como um livro. O tema da dissertação é o papel da ciência dentro da obra de Lovecraft, e para chegar a uma conclusão discorri sobre assuntos como a espacialidade dentro da literatura e a filosofia do cosmicismo, que considero um projeto estético de Lovecraft. 

MT - Como foi o trabalho de pesquisa e quais fontes você consultou para produzir sua monografia? Você teve alguma surpresa a medida que fazia essa pesquisa? 

Nathalia - Cheguei ao meu tema por uma sugestão de meu orientador, o Cido Rossi. Tendo o tema definido, fui aos poucos construindo o que eu queria falar. Cada capítulo trata de um assunto diferente, mas no final todos se relacionam para chegarmos à conclusão quanto ao papel da ciência.

O primeiro capítulo é bastante biográfico, e nele apresento o contexto em que Lovecraft nasceu e viveu, usando autores como S. T. Joshi e Cecelia Tichi, sem falar de trechos de cartas do próprio autor, que utilizei em todo o trabalho. O segundo capítulo falo um pouco das origens do pensamento de Lovecraft, com a influência de autores como Ernst Haeckel e Bertrand Russell. Também faço algumas comparações entre a obra de Lovecraft e alguns de seus predecessores, como Poe. O terceiro capítulo é dedicado à racionalidade humana e o quanto de nossa realidade podemos compreender. Para isso usei, primordialmente, o pensamento de Hugh Elliot e Kant. No capítulo seguinte eu adentro a obra de Lovecraft, analisando “Um sussurro nas trevas” e Nas montanhas da loucura, com foco na espacialidade literária e suas implicações. No capítulo final analisei as possíveis revoluções científicas que o texto de Lovecraft sugere, a partir de obras de teóricos da história da ciência, como Paul Feyerabend e Thomas Kuhn.

Talvez a maior surpresa que eu tive durante minha pesquisa foi que Lovecraft era duro demais consigo mesmo e muitas vezes pintava uma imagem de si que no fundo não correspondia com o que ele era. Exemplo disso é sua relação com os escritores modernistas: apesar de afirmar que achava sua estética desprezível, no fundo o autor compartilhava da filosofia desses artistas.


MT - Eu sempre gosto de perguntar como cada pessoa que escreve ou pesquisa a respeito de Lovecraft, descobriu a obra dele e em que momento foi "fisgado" por ela. Como aconteceu com você? E qual aspecto de sua literatura chamou mais a sua atenção? 

Nathalia - A primeira referência que tive do mundo de Lovecraft foi a música do Metallica, “The Call of Ktulu”. Apesar disso, demorou um tempo para eu ir atrás de ler o autor. Depois de ver referências a ele em diversos lugares decidi que era hora de conhecer sua obra. Assim, fui até uma livraria em minha cidade e comprei o único exemplar que tinham: O caso de Charles Dexter Ward. Foi terror à primeira vista, e não consegui mais parar de ler.

MT - É curioso como Lovecraft foi redescoberto. De autor obscuro, conhecido em um pequeno nicho, ele foi se tornando, após sua morte, mais e mais conhecido. Hoje ele é amplamente conhecido. A que você acha que se deve essa popularização? 

Nathalia - Acho interessante que houveram “saltos” na popularidade de Lovecraft. Nos anos 80 foi quando ele ficou conhecido na cultura pop, mas não realmente conhecido para os padrões do Brasil, por exemplo. Desde que comecei a pesquisá-lo, em 2013, até agora, em 2019, vi um salto tremendo em sua popularidade no Brasil. Acredito que isso acontece porque finalmente as pessoas têm dado a ele o crédito merecido, reconhecendo o quanto ele influenciou MUITO do que gostamos nos dias de hoje.



MT - Qual o grau de importância hoje em dia da obra de Lovecraft? Ela continua atual mesmo em um mundo tão diferente? Como você contextualiza a importância dele para a Literatura? 

Nathalia - A obra de Lovecraft é incrivelmente atual por simples motivos: os temas com os quais ele trabalha continuam um grande mistério para a humanidade: o espaço continua obscuro, fazendo com que entidades alienígenas não possam ser descartadas; o fundo do mar ainda causa pavor e continua também deveras desconhecido; e o caos do universo cada vez se tona mais palpável no nosso mundo onde a religião morre a cada dia. Lovecraft escreveu, no século XX, uma literatura que dialoga diretamente com os pensamentos do XXI.

MT - Depois desse Financiamento bem sucedido, qual o próximo projeto? Suponho que você tenha outros temas que queira explorar. 

Nathalia - Acabamos de revelar nosso próximo projeto: a tradução de O enigma de outro mundo, de John W. Campbell, que inspirou o filme de John Carpenter. A tradução que faremos é da versão chamada Frozen Hell, uma versão completa e recém-descoberta da novela Who Goes There?, que Campbell publicou em 1938. Essa versão acabou de ser publicada nos EUA, e era inédita até o momento. Ela tem cerca de 40 mil palavras a mais do que a versão que era conhecida.


MT - Quais as suas recomendações para quem nunca leu, ou conhece pouco a respeito da bibliografia de Lovecraft? De que forma, na sua opinião, o leitor iniciante deve encarar a obra e por onde começar?

Nathalia - Eu costumo recomendar que comecem por contos que funcionem muito bem sozinhos e possuam características marcantes do cosmicismo, como “A cor que caiu do espaço” e “A sombra de Innsmouth”. Depois “O chamado de Cthulhu”, para situar o Mythos e apenas por último Nas montanhas da loucura. A essas obras sugiro intercalar outras que não sejam necessariamente do mythos e funcionem bem sozinhas, como “O modelo de Pickman” e “ A música de Erich Zann” –um de meus contos favoritos do autor.

*          *          *

O Financiamento ainda está correndo. Ele já está financiado, então não há nenhum risco quanto ao apoio, mas não deixem para a última hora, só tem mais 5 dias. Quem se interessar pelo tema, deve dar uma olhada na página do Catarse.

Vale a pena também ler a Introdução da Monografia que foi disponibilizada.

Para mais detalhes, click no link abaixo: 

CATARSE Página do Financiamento

terça-feira, 18 de junho de 2019

Itaqua - O Mito do Andarilho do Vento, Deus do Inverno e do Norte gelado


O frio sempre foi considerado um flagelo da humanidade.

Ele está associado a fome, a doença e a morte. Desde o início dos tempos, a raça humana está sujeita ao clima e suas oscilações, elas causaram incontáveis infortúnios para os homens. Seja na forma de colheitas e plantações sendo devastadas, na fome que se segue a essas tragédias e obviamente no seu toque gélido. O frio tem sido um companheiro cruel em nossa longa caminhada.

No universo dos Mythos Ancestrais, existe uma divindade que reúne em sua figura todos os elementos do frio primordial e do mais severo dos invernos. Para muitos povos da antiguidade ele era a encarnação do próprio inverno que desce implacável ceifando tudo em seu caminho. Essa entidade perversa habita as nuvens plúmbicas, viajando através do firmamento nos ventos gélidos, causando nevascas e geadas ao seu bel prazer. Venerado e temido nas latitudes setentrionais do planeta que ele reivindicou como seu lar, esse Grande Antigo está intimamente associado a temperatura e clima.

Ele é chamado de Itaqua, o Andarilho do Vento, o Devorador da Tempestade, o Senhor da Nevasca, o Silêncio Branco e Caminhante do Firmamento... são muitos os nomes dessa entidade poderosa e especialmente cruel. Com certeza, o fato de incontáveis povos e civilizações associarem a fúria da natureza a forças sobrenaturais contribuiu para que Itaqua se convertesse na personificação da maioria dos Deuses tempestuosos do passado remoto. Estudiosos dos Mythos traçaram paralelo entre Itaqua e diversas entidades, como o deus asteca Quetzalcoatl, Thor, o Deus nórdico do Trovão e Enlil, deidade suméria/ babilônica responsável pelas tempestades. No hemisfério norte do planeta, a real natureza de Itaqua é melhor compreendida pelos cultistas que o adoram com fascínio e submissão.


Itaqua é considerado uma das entidades mais importantes no Panteão de deuses Inuit, sendo conhecido pelos povos esquimós como Sila. Com esse nome, ele foi reverenciado por tribos nativas distribuídas pelos confins do deserto Ártico, da Sibéria à Groenlândia. O culto de Sila, contava também com enclaves de cultistas habitando os territórios mais inóspitos do extremo Norte do Canadá e do Alasca onde sua influência era inquestionável. Os cultistas se contentavam em tentar aplacar a sua fúria com oferendas e rituais sangrentos. Sacrifícios eram oferecidos em determinadas datas, com as vítimas escolhidas sendo amarradas em estacas e abandonadas em planícies e descampados onde o Deus se materializava acompanhado por uma imensa tempestade. Com essas ofertas, os cultistas acreditavam que Sila/Itaqua ficaria satisfeito e não enviaria sua punição. Por vezes, ele se contentava com o sacrifício, mas em outras, sua cólera se refletia em tempestades avassaladoras que soterravam vilarejos inteiros sob a neve, fazendo-os desaparecer para sempre. 

Não por acaso, Itaqua sempre foi muito mais temido do que adorado e seus cultos quase que desapareceram por completo no início do século XIX. Contudo, bastiões ainda resistiram em certas partes isoladas do extremo norte como a cidade de Stillwater, no Território de Manitoba, Canadá ou Cold Harbor no Alasca. Seus seguidores não constroem templos, preferindo conduzir os seus ritos nas planícies abertas. A adoração trazia poucos benefícios aos envolvidos já que o Deus raramente oferecia artefatos ou compartilhava magias, e quando o fazia era apenas para fortalecer uma elite sacerdotal, capaz de controlar o restante de uma comunidade. De qualquer maneira, Itaqua jamais se importou com o bem estar de seus cultistas e não raramente os exterminava após algum acesso incontido de fúria.

Como ocorre com os Grandes Antigos, Itaqua teve sua liberdade restringida por princípios cósmicos que o compelem a se manifestar apenas por curtos períodos de tempo e em áreas pré-determinadas. As tradições orais, compartilhadas por xamãs siberianos e Feiticeiros das tribos Cree, habitantes dos Grandes Lagos, afirmam que Itaqua não é nativo de nosso planeta e que vem de um mundo, dimensão ou realidade chamada Borea, uma terra escura, com vastas planícies de gelo negro, constantemente fustigada por tempestades e vendavais. Ele teria sido atraído para a Terra por razões desconhecidas incontáveis milênios atrás, estabelecendo-se no Polo Norte, que se tornou o seu Domínio ou Área de Caça.

Quando a conjunção de estrelas atingiu seu alinhamento fatídico, Itaqua se viu preso por essas poderosas correntes cósmicas, incapaz de romper a prisão constituída para capturar os Grandes Antigos. Assim como seus irmãos, ele se viu impedido de manifestar-se livremente além de determinados limites geográficos. No caso de Itaqua ele não pode deixar a porção entre o Norte de Manitoba e o Polo Norte, embora em certas circunstâncias e datas favoráveis, ele consiga se manifestar temporariamente em outros pontos do globo. Uma vez que cultos devotados a ele floresceram em regiões do México, Japão e Pérsia, é de se supor que ele tenha tolerância para viajar até climas mais amenos, ainda que em raras instâncias. Para se deslocar de um lugar para o outro, Itaqua se vale de colossais tempestades e outros fenômenos climáticos de intensidade substancial que parecem carregá-lo de um extremo a outro do planeta. É possível que ele utilize também portais e outros métodos mágicos, ainda que seus cultistas adotem a noção de que o Deus simplesmente voa através dos Ventos. Seu apelido "Andarilho do Vento" advém dessa característica em especial, já que as tradições afirmam que "ele é capaz de andar no vento, assim como os homens andam na terra firme".

Pouco se sabe a respeito da origem e história de Itaqua. Até para os padrões das obscuras entidades que integram os Mythos, o conhecimento sobre ele é ínfimo. Isso se deve provavelmente ao fato de que a maioria de seus cultistas provém de culturas e povos que não possuem registros escritos. Grande parte das informações a respeito do Deus se manteve confinada no seio de pequenas comunidades isoladas, transmitidos oralmente. Dessa forma, muito pouco foi apurado a respeito dele. O que se sabe foi extraído por antropólogos e exploradores que tiveram contato com habitantes dessas regiões afastadas que relataram lendas sobre seus deuses. E mesmo estas histórias, certamente contém informações dúbias cuja veracidade não é possível corroborar no todo, ou mesmo, em parte.

Não por acaso, Itaqua é um dos mais misteriosos Grandes Antigos, um enigma obscurecido por um denso nevoeiro de rumores e sussurros.


Supõe-se que Itaqua seja o responsável por incontáveis desaparecimentos ocorridos nos confins gélidos que integram os seus domínios. Na maioria dos casos, as vítimas do deus simplesmente desaparecem em meio a uma tempestade especialmente violenta. Nada de seu paradeiro é ouvido, por meses, anos ou às vezes para sempre. Eventualmente, algumas destas pessoas são encontradas enterradas na neve ou presas em gelo, com sinais de terem sofrido queda de uma altura considerável. É desconcertante que algumas dessas vítimas tragam consigo estranhos adereços e objetos que parecem pertencer a outras civilizações separadas por longas distâncias. Algumas vítimas ainda são encontradas vivas, balbuciando sandices a respeito de uma criatura colossal voando nas nuvens. Não raramente estas vítimas são achadas há quilômetros do ponto de onde supostamente desapareceram, sem que seja possível determinar como surgiram em localidades tão díspares.

É raro, mas alguns podem sobreviver a essa experiência traumática. Entre os povos Inuit, aqueles que "Viajaram no Vento" são considerados como indivíduos tocados pelo Deus. Elas experimentam visões e profecias enlouquecedoras até o fim de suas vidas. Tendem ainda a ser evitadas pelas tribos e passam a viver como eremitas. É dito que aqueles que suportaram a proximidade de Itaqua, desenvolvem ainda uma capacidade sobrenatural de resistir a temperaturas gélidas sem o menor desconforto. Nos confins da taiga siberiana, há rumores sobre xamãs que partilham desse destino e são considerados como sábios insanos.

Outra lenda curiosa a respeito de Itaqua diz respeito ao Wendigo, um conhecido mito, difundido entre os povos nativo-americanos do norte. O mito originalmente se refere a homens que se transformam em bestas selvagens de aparência grotesca após consumir carne humana. Os Wendigo são monstros temidos pelas tribos Inuit, criaturas ferozes que vivem sozinhas e que abandonam a razão para se tornar terríveis predadores.

Supõe-se que os Wendigo sejam uma raça serviçal criada pelo poder de Itaqua. A transformação afeta pessoas que são escolhidas pelo Deus, passando a viver em sua companhia como prisioneiros ou ainda aqueles que se alimentam de carne oferecida por ele. O critério que o leva a escolher uma pessoa para se transformar em Wendigo é desconhecido. O que se sabe é que a transformação envolve uma série de etapas em que o corpo da vítima é lentamente pervertido em uma forma mais ou menos parecida com o próprio Itaqua, ainda que menor e menos poderosa. No estágio final, a vítima perde inteiramente sua consciência, regredindo a selvageria. Ela, no entanto, permanece inteiramente sujeita à vontade do Deus. 

Há rumores de que nos confins do Canadá ou nos recônditos do Alasca ainda existem lugares habitados por Wendigo servis à Itaqua. Como tal, elas acatam suas ordens e realizam quaisquer tarefas transmitidas sem questionamentos. É possível que estes seres sejam a base para várias lendas a respeito de monstros antropoides encontrados em latitudes inferiores, como o sasquatch, o yeti e o pé grande. Aqueles em terras mais quentes e que supõem estar seguros, longe de Itaqua, podem receber a visita desses servos do Andarilho do Vento. Os limites árticos não se aplicam aos Wendigo, que podem ser enviados a qualquer lugar do mundo para extrair a vingança em nome de seu mestre.

Diferente da maior parte dos horrores do Mythos, Itaqua é uma entidade claramente humanoide. Em uma comparação simplória, seria possível tentar descrever seu aspecto geral como simiesco, contudo, uma observação mais atenta afasta a noção de que o Deus guarde similaridade com qualquer forma de vida terrestre. Para todos os efeitos, Itaqua é totalmente alienígena, bem como sua aparência.

Sua forma é descrita como a de um gigante polifêmico, com mais de 30 metros de altura e um corpo delgado a ponto de ser emaciado. Muitos o descrevem como um colosso de aparência pálida, quase cadavérico, com membros muito longos terminando em mãos e pés dotados de dedos por sua vez encerrando em garras recurvas. Sua face é uma carranca desfigurada, magra e angular, onde desponta uma mandíbula poderosa que dá forma a uma boca em esgar perpétuo, destituída de lábios. Os dentes brancos e pontiagudos se projetam para fora, acavalados uns sobre os outros como pontas de faca. De sua garganta emergem baforadas nebulosas de cristais de gelo. Os cabelos no topo de sua cabeça são compridos e caem por cima dos ombros largos como uma cascata branca como giz. Os olhos possuem uma coloração azulada pálida, estranhamente embaçados e sem iris. Quando furioso, esses olhos selvagens ganham um tom avermelhado. O Deus não parece perceber os arredores, sendo possível dele ser cego, ou ter visão limitada. Supõe-se entretanto, que ele tenha um faro apurado, sendo capaz de perceber presas à distâncias consideráveis. Itaqua é descrito como um predador contumaz, dedicado ao prazer da caçada que o leva a abater suas presas e devora-las por inteiro. Estritamente carnívoro, sua voracidade é bem documentada.      

O gigante é coberto por uma pelagem áspera de coloração branca acinzentada ou bege pardacenta. Esse cabelo que cresce em chumaços parece oferecer uma proteção natural, acumulando-se em maior quantidade no pescoço, peito, costas e genitais. Por baixo da pelagem, sua pele é pálida e rígida, revestindo uma musculatura sólida dotada de tecidos que se assemelham a tendões. Não é fácil romper essa pele resistente que tem a textura de couro batido. Armas humanas convencionais encontram enorme dificuldade em atravessar as barreiras impostas por pelo, pele e músculo. Disparos de armas de fogo geralmente são desviados, exceto por projéteis com grande poder de penetração, que podem varar essas defesas, sem no entanto, produzir grandes danos. O mais provável é que um disparo de espingarda meramente o irrite.

    
O corpo de Itaqua se sustenta em duas pernas, assumindo uma postura totalmente ereta. Ele se move com passadas longas que cobrem um arco de pelo menos 15 metros a cada passo. Seus pés são palmados, dotados de seis dedos, com uma sola grossa e áspera que lhe garante aderência na neve ou gelo. Para alguns, o Deus não toca realmente o solo, contudo essa noção parece ser falsa visto que ele frequentemente deixa rastros sulcados na neve fofa. Suas passadas são poderosas e a criatura não parece se importar com o que quer que esteja em seu caminho. Uma vez traçando uma rota, ela não se desvia dela. Apesar de seu tamanho colossal, Itaqua consegue flutuar no ar, cobrindo centenas de metros entre uma passada e outra. A Entidade também é capaz de voar, desde que haja uma tempestade ou nevasca nos arredores. Para alçar voo, Itaqua simplesmente flutua na direção da tempestade e se deixa engolir pelas nuvens. Ele é capaz de se locomover velozmente dessa maneira, perfazendo o espaço de quilômetros em poucos segundos.

Uma aura congelante parece emanar de seu corpo e indivíduos que chegaram perto o bastante do Deus descreveram uma sensação de congelamento que remete a hipotermia. De fato, todos os que estiveram próximos suficiente, e sobreviveram à experiência, afirmam que o frio emanando do Deus beira o insuportável. A perda de dedos, membros inteiros e mucosas é um triste troféu carregado por estes pobres diabos. Alguns acreditam que ao redor de Itaqua existe uma espécie de névoa gélida que parece acompanhá-lo e que é responsável por esse frio álgido. Em geral, o Deus escolhe se manifestar fisicamente apenas quando existe uma forte tempestade ou nevasca, sendo raro encontrá-lo em um ambiente de céu limpo. 

De todas as horrendas características de Itaqua, uma merece destaque. Trata-se de uma peculiaridade descrita por muitos dos que cruzaram seu caminho e que se converteu em uma espécie de marca registrada. Itaqua é capaz de produzir um ruído próprio, que na falta de uma interpretação melhor, soa como um uivo. O Uivo do Caçador, como ele é conhecido entre seus cultistas, parece causar um efeito pungente naqueles que o escutam pela primeira vez. O Uivo é descrito como um ríspido rosnado, mas ele não pode ser comparado a nenhum som produzido por animais da natureza. Esse som exasperante parece afetar suas vítimas com um temor primal tão monumental que muitos simplesmente perdem a razão após ouvi-lo. Desmaios, histeria e um pânico incontrolável são reações frequentes. Há casos de indivíduos que jamais se recuperam  da experiência; acabam se deixando consumir por um sentimento esmagador de desespero e desolação que invariavelmente os conduz à ruína física e mental. Não são poucos os que terminam por enlouquecer cometendo suicídio ou simplesmente se põem a andar rumo ao norte para se entregar ao Deus.

Itaqua não conhece piedade, não oferece consolo e é cruel em seu desinteresse por tudo que está ao seu redor. Verdadeira força da natureza, ele não se atém a questões menores, como a vida de seres frágeis que são esmagados aos seus pés.

De muitas maneiras, Itaqua é como o próprio inverno.

*        *        *  

Ithaqua (o Andarilho do Vento ou Wendigo) faz parte do Mythos idealizado por H. P. Lovecraft. A criatura e si foi apresentada por August Derleth, no conto curto "Ithaqua", que por sua vez se baseia na história "The Wendigo" por Algernon Blackwood. Mais recentemente Brian Lunley foi responsável por construir o Ciclo de Itaqua e criar uma mitologia própria para a entidade. Esse artigo se baseia nessas contribuições e em noções definidas no RPG Call of Cthulhu.

domingo, 16 de junho de 2019

Aqueles que observam das trevas - O Círculo de Vampiros do Zimbabue


Ao longo da história surgiram inúmeras lendas a respeito de vampiros, caçadores de vampiros e criaturas espreitando nas sombras e atacando vítimas inocentes para satisfazer sua sede de sangue. Tal fenômeno, curiosamente encontra eco em várias partes do mundo.

Um dos lugares onde vampiros são considerados muito mais do que lendas e tidos como ameaça real fica na África. Na nação soberana do Zimbábue, vigora uma profunda crença, entranhada nas tradições e costumes tribais a respeito de vampiros. Nesse lugar, as pessoas temem aquilo que se esconde na escuridão e que habita um lugar muito além de nossa compreensão. Lá, os horrores sobrenaturais são parte do dia a dia, e a população faz o que for preciso para se manter segura desse horror.

Recentemente uma série de crimes ocorridos no Zimbábue lançou medo entre a população local criando uma onda de paranoia sem precedentes. As pessoas acreditavam que uma misteriosa figura que estuprava, matava e bebia o sangue de mulheres, não podia ser outra coisa, além de um vampiro. Os jornais e meios de comunicação intensificaram ainda mais o medo, relatando histórias colhidas com testemunhas que falavam desse monstro. Os ataques tiveram início em 2015, mas eventualmente o culpado foi capturado. O acusado era Alois Tapiwa Nduma, um homem de 26 anos, preso pela polícia enquanto perseguia uma mulher. Os policiais relataram terem ficado horrorizados quando detiveram Nduna e este quando recebeu ordem de prisão, vomitou um jato de sangue. Em seguida, o vampiro se ajoelhou no chão e começou a lamber a massa sangrenta que havia regurgitado.

Sob interrogatório, Nduna confessou ser um vampiro e satanista. Ele revelou fazer parte de um culto de vampiros que existiria no país vizinho, Zambia. O alegado vampiro relatou seus crimes para os investigadores atônitos: ele calmamente revelou ter estrangulado e matado 11 mulheres para em seguida beber seu sangue. O vampiro costumava atacar na cidade de Mvuma, acossando mulheres que estivessem sozinhas nas ruas. Ele contou o seguinte:

"Eu seguia as mulheres e esperava que ficassem sozinhas em um lugar onde ninguém as ajudaria. Eu as agarrava por trás e mordia o pescoço com força. Meus dentes afundavam na garganta e eu segurava com força, movendo a cabeça de um lado para o outro, até rasgar a garganta. O sangue então jorrava e eu bebia enquanto elas perdiam a consciência. Eu bebia até me fartar e depois abandonava o corpo. Em geral elas sangravam até morrer".


O julgamento de Mduna ocorreu em 2016 e ele foi condenado a 27 anos de cadeia pelo assassinato de suas vítimas. Durante seu confinamento na Prisão de Khami, houve grande apreensão a respeito do alegado "vampiro assassino". O homem ganhou notoriedade e passou a aterrorizar não apenas os seus colegas de prisão, mas os guardas. Ele arranhou o número 666 em sua própria testa e andava pelos corredores e pavilhões da prisão como uma presença maligna sendo evitado por todos. O homem também rosnava como uma fera, falava em uma língua gutural e virava os olhos como se estivesse possuído.  

Um dos guardas da prisão contou a respeito de Nduna:

"Os guardas sabiam a respeito desse prisioneiro que estava preso em Khami. Ele tinha o hábito de vomitar e depois lamber o sangue. Certo dia, ele foi detido na solitária e suas mãos presas com algemas, mas na manhã seguinte os guardas perceberam que ele tinha um pentagrama arranhado nas costas. Não sabemos como aquilo apareceu,  já que ninguém entrou a cela e ele próprio não seria capaz de alcançar o local onde o símbolo surgiu. O homem ficava sozinho em sua cela o tempo todo, ninguém aceitava dividir o local com ele. Quando alguns homens foram obrigados a entrar, se revoltaram. Tinham muito medo! As paredes estavam cobertas de sangue, que ele usava para escrever e desenhar. Ele escrevia coisas estranhas, trechos da bíblia e outros mais estranhos. Rabiscava símbolos bizarros e números. Dizia que aquela era a escrita do inferno e que estava escrevendo uma espécie de evangelho satânico". 

Nduna alegava que ao ingerir sangue humano, ganhava força, resistência e o dom de visões. Ele foi detido depois de atacar dois outros prisioneiros e mordê-los no pescoço. O vampiro era temido e evitado por todos na prisão e a maioria dos internos acreditava que ele tinha poderes sobrenaturais. Havia o rumor de que ele podia se transformar em fumaça e que assim deixava a cela para beber o sangue de outras pessoas. Alguns acreditavam que ele podia enviar pesadelos à distância e afetar o sono das pessoas deixando-as loucas. Além disso, haviam as ocasiões em que ele vomitava sangue que depois ingeria de volta num espetáculo macabro.

Os guardas temiam o vampiro, e com razão. Em certa ocasião, ele aproveitou o descuido de um carcereiro que cometeu o erro de dar-lhe as costas. Nduna agarrou o guarda e o mordeu na face repetidas vezes. Como resultado, o homem ficou permanentemente desfigurado.


Depois desse incidente, uma petição de justiça pediu que Nduna fosse considerado insano e transferido para uma instituição especial para tratamento e isolamento. A legislação do Zimbabue é bastante ampla no que tange a tratamentos para criminosos com doenças mentais, que inclui em casos extremos - como o do vampiro, procedimentos similares a lobotomia pré-frontal. Segundo os registros da instituição o vampiro teria sido sujeito a uma intervenção cirúrgica como essa, continuando posteriormente a ser um interno da Colônia Psiquiátrica em Mocha

Mas o que dizer das bizarras alegações do Nduna de que ele era apenas um dos membros de um grande Culto de Vampiros? Obviamente, as autoridades não estavam muito propensas a acreditar nas loucuras relatadas por Nduna , contudo em 2017 um outro caso envolvendo vampirismo levantou o questionamento de que os relatos do vampiro poderiam ter algum fundamento. Em fevereiro de 2017 houve um trágico caso de atropelamento na pequena vila de Neta, no Distrito de Mberengwa. O acidente vitimou nada menos do que quatro crianças. Enquanto os cadáveres permaneciam caídos na margem da estrada, houve relatos de que quatro pessoas vestindo roupas pretas surgiram repentinamente. Esses estranhos, que jamais haviam sido vistos naquela região, agiam de forma suspeita e em determinado momento se aproximaram dos cadáveres e começaram a lamber os ferimentos produzidos. As testemunhas que assistiram a cena foram incapazes de reagir e muitos horrorizados demais com o que presenciaram simplesmente fugiram. Outros, apanharam pedras e jogaram nos vampiros até que estes cessassem aquela violação. Uma testemunha contou a seguinte história a respeito do incidente:

"A morte dessas quatro crianças deixou os camponeses sem saber o que fazer. Muitos choravam e se desesperavam.  E quando aqueles quatro desceram sobre os corpos como abutres as pessoas ficaram apavoradas. Felizmente eles foram escorraçados por alguns moradores revoltados com aquilo. Após o funeral, o Chefe Bvute pediu uma reunião e disse que era necessário chamar um Caçador de Vampiros (Tsukamutanda) que poderia identificar quem eram aquelas pessoas que beberam o sangue das crianças.  O povo de Neta concordou e um tsukamutanda chamado Banda chegou ao vilarejo para cuidar do situação". 

"O caçador era muito experiente, continuou uma testemunha, "ele conseguiu rastrear o covil dos vampiros, e onde eles estavam escondidos. Segundo a polícia que foi chamada para auxiliar na captura do bando, o esconderijo ficava em uma casa abandonada onde encontraram uma coleção macabra de imagens satânicas, objetos de aparência estranha e outras estranhezas". 

As pessoas detidas estavam de posse de objetos usados em rituais de magia negra e feitiçaria: Cabeças de babuínos, patas de hienas, garras de animais selvagens e  línguas de leopardos. Eles também estocavam sangue em garrafas de refrigerante e supostamente esse estoque era usado para saciar sua sede obscena. Eles foram presos pela polícia e conduzidos para uma delegacia onde se descobriu que todos eram estrangeiros provenientes de Zambia. Os indivíduos foram presos e posteriormente deportados para Zambia. Mas seriam eles membros do mesmo culto bizarro do qual Nduna afirmava fazer parte?


No mesmo ano, dois cidadãos do Congo também foram presos em Zimbabue acusados de fazer parte de um círculo satânico e de praticar atos horrendos que incluíam beber sangue humano. George Rene Longange, de 41 anos e Ngezi Ngendo Bragston de 37, afirmavam ainda ser parte de um Culto de Vampiros sediados em Zambia. Diferente dos demais acusados, os congoleses afirmavam que jamais haviam matado ninguém e que o sangue colhido era ofertado por membros do culto ou pessoas simpáticas a ele. Ironicamente, os dois acabaram se tornando refugiados políticos e foram aceitos legalmente no país.

Ano passado, outro caso chocou o país, dessa vez envolvendo um homem de 34 anos chamado Christopher Sibanda, que foi capturado enquanto bebia o sangue de uma mulher que ele havia assassinado. Sibanda alegou ter atacado a vítima, Subusisiwe Sigauke, com um porrete e depois cortado seu pescoço com uma faca para em seguida beber seu sangue. Ele foi detido por populares que o pegaram em flagrante, com o rosto e a boca cobertos de sangue. Interrogado por policiais chamados para prendê-lo, ele contou ser um vampiro que ganhava poderes ao beber sangue humano, embora ele não tenha dito nada a respeito de fazer parte de um culto.

Haveria uma conexão entre os casos ou apenas um tipo de alucinação coletiva atingindo essas pessoas? A despeito de todas as suspeitas e alegações a respeito de uma confraria de vampiros em Zambia, ironicamente nenhum caso de vampirismo foi reportado naquele país. As autoridade negam veementemente que poderia haver um culto atuando no submundo. Será possível que esses casos não passem de incidentes isolados alimentados pelas superstições locais? Ou haveria algum tipo de conspiração oculta tão bem urdida que ninguém encontrou sua presença?

É difícil saber ao certo o que motivou essas pessoas a insistir em relatos tão bizarros e abraçar a noção de que eles mesmos seriam seres sobrenaturais. Entretanto, em uma terra exótica, onde as superstições ainda reinam supremas, as crenças produzam monstros com sede de sangue.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Cinema Tentacular - Cemitério Maldito - "Morto às vezes é melhor"


Stephen King e Hollywood não são exatamente parceiros estranhos. 

Um dos mais famosos e lidos autores da atualidade e a indústria do cinema fizeram repetidas parcerias ao longo dos anos. Algumas com resultados interessantes, a maioria de qualidade mediana, algumas dignas de esquecimento. Enquanto muitas obras interessantes de King permaneçam ainda não adaptadas (The Girl Who Loved Tom Gordon, Revival, e Buick 8, para citar apenas três), é curioso que uma já anteriormente filmada ganhe um remake.

Cemitério Maldito (Pet Sematary) é, sem dúvida uma das mais pesadas, sinistras e macabras novelas de Stephen King. O que em se tratando do autor de Iluminado, It e Carrie, não é pouca coisa. O próprio King disse em entrevistas que de todos seus trabalhos, Cemitério é aquele que mais o assustou e que realmente lhe causou pesadelos. Não é para menos: o romance, lançado em 1983, é uma análise profunda da perda, da tragédia e da loucura, com pinceladas fortes de drama e horror. A história toca em um horror que nenhum pai gostaria de enfrentar, a perda de um filho, e pergunta até onde eles estariam dispostos a ir para apagar tudo e voltar tudo, como era antes.


Para muitos, Cemitério é um dos melhores livros do autor, com certeza ele figura na lista dos fãs como um dos preferidos. Uma história ao mesmo tempo abrasiva e difícil, mas escrita de uma forma tão instigante que não tem como evitar de virar página atrás de página. Eu escrevi uma resenha a respeito do romance aqui no Mundo Tentacular, que está à um click de distância, bastando clicar AQUI

Em 1989, Cemitério Maldito foi adaptado para o cinema, com direção de Mary Lambert e dividiu opiniões. O roteiro cortou alguns detalhes cruciais da trama, para investir pesado na carga dramática. O envolvimento do Wendigo, a criatura do folclore nativo-americano, que no livro é responsável pelo Cemitério, foi suplantada pela tragédia familiar que dá o tom na história. O sobrenatural é apenas uma circunstância para realçar o luto e as repercussões dele. 

Não é ruim! Cemitério Maldito continua sendo um filme macabro e uma bela adaptação e os fãs do horror tendem geralmente a elogiá-lo. Então, por que uma nova adaptação?


Trinta anos se passaram entre o Cemitério original e o novo. Recentemente IT (A Coisa), outra obra quintessencial de King, foi adaptada para o cinema e se tornou um sucesso de público e crítica, um dos filmes de horror com maior bilheteria na história. King continua vendendo como sempre e sua obra não perdeu fôlego. A base de fãs continua grande e o nome "Stephen King" atrai público. Então parecia uma jogada inteligente revisitar o Cemitério Maldito e tentar adaptá-lo para uma nova geração.

Parecia, poderia, seria... mas como dizem, de boas intenções o inferno está cheio.

Dirigido por Kevin Kölsch e Dennis Widmyer, o Cemitério Maldito versão 2019, acaba sendo um filme um tanto anêmico.


Não me entendam mal, a história continua interessante e o roteiro se esforça para construir uma empatia entre o público e os personagens, mas no fim, essa conexão não se concretiza. Em essência, a história continua bastante fiel a novela em que ele se baseia, mas o roteiro toma algumas liberdades, alterando detalhes para quem sabe soar inovador e atrair quem viu o primeiro filme ou leu a novela. Sem estragar a diversão alheia com spoilers, uma das mudanças é considerável, mas no fim acaba não causando o mesmo impacto que as versões anteriores. O filme tem o mérito de ser mais sério do que o anterior e busca preencher lacunas com um sentimento sinistro que permeia boa parte da duração do filme. Funciona em alguns momentos, mas em outros, parece que ficou solto demais.

Um dos problemas ao meu ver é que o filme ficou corrido demais. As coisas vão acontecendo em um ritmo rápido, como se os diretores tivessem pressa de chegar logo na parte do sangue e arrepios. Construção e desenvolvimento são coisas essenciais em qualquer boa história (vide Hereditário e A Bruxa), e o roteiro do filme poderia se beneficiar com um ritmo mais lento, que ajudasse a conectar a história e apresentar os personagens.

Para quem não conhece nada a respeito de Cemitério Maldito, a trama acompanha os Creeds, uma família que se muda para uma área rural do Maine (sempre o Maine!) na esperança de encontrar seu cantinho no paraíso. Infelizmente acabam achando um pesadelo aterrador. Louis (Jason Clarke) e Rachel (Amy Seimetz), tentam se estabelecer na comunidade com seus filhos Ellie (Jeté Laurence) e Gage (Hugo Lavoie), de 8 e 3 anos respectivamente. A família rapidamente fica amiga de Jud Crandall (John Lithgow), o vizinho que sempre viveu na cidadezinha e conhece não apenas o modo de vida local, mas os  seus segredos mais profundos. Quando o gato de Ellie morre em um acidente na perigosa estrada onde trafegam caminhões em alta velocidade, Jud compartilha com Louis o segredo a respeito de um lugar sagrado, localizado além do Cemitério de Animais. Trata-se de um terreno místico usado no passado pelos nativos e que possui poderes sobrenaturais. Contudo, esse lugar acabará trazendo graves repercussões para a família quando uma nova e mais terrível tragédia se abater sobre eles. 


As atuações são muito boas e a escolha do elenco parece ter sido muito acertada. O veterano ator John Lithgow é perfeito para o papel do vizinho e atua com solenidade e sabedoria, mas é Jeté Laurence quem brilha como a filha, Ellie. Nessa versão, ela tem muito mais importância que seu irmãozinho e aproveita a oportunidade para produzir os melhores momentos do filme. O casal de protagonistas dá conta do recado, mas a pressa em acelerar acontecimentos faz com que o mergulho na loucura dos personagens soe um tantinho forçado. O filme poderia ser bem mais interessante se tudo ocorresse de forma gradual, mas ele perde um pouco a mão na ânsia de ir direto para a parte dos sustos. A amizade entre Louis e Jud, que é um dos pontos centrais do livro, mal é explorada no filme. Também ficam de fora os pais de Rachel, os piores sogros da história. 

Assim como aconteceu no filme da década de 1980, o roteiro da nova versão diminui o envolvimento do Wendigo como causador dos infortúnios pelos quais a família passa. Embora ele seja citado brevemente, a trama assume que a força macabra que habita o terreno além do Cemitério é algo sem nome e que não pode ser explicada de forma racional. Não é ruim, mas deixa em aberto algumas questões que poderiam ser relevantes.

Além do excelente trabalho do elenco, o filme se esforça para criar uma atmosfera macabra. A cena em que crianças seguem em procissão para o cemitério de animais, vestindo máscaras é triste e sinistra na medida perfeita, mas logo essa aura de estranheza se dissipa. As aparições do espírito que tenta avisar Louis de que a desgraça acompanha aqueles que tentam alterar o inevitável, também poderia ser melhor explorada. Há alguns sustos, que felizmente não são gratuitos e o sangue não é exagerado. O final do filme, é diferente da versão original e conclui a trama de uma maneira que se não é sensacional, ao menos acaba sendo satisfatória.


De um forma geral, o filme é pouco mais do que um entretenimento rápido com alguns arrepios ocasionais. Poderia ser muito mais intenso, já que o material no qual ele se baseia é literalmente combustível para pesadelos. Em mãos mais capazes, Cemitério Maldito tinha tudo para se tornar um filme memorável, mas a sensação é que desperdiçaram essa chance uma segunda vez para apostar no "certo, ao invés do duvidoso".  

O novo Pet Sematary pode ser mais sólido e contar com melhores atuações, mas infelizmente falha justamente em causar choque e perturbação, um pecado grave em filmes de terror que se propõem a ir além do convencional. No fim das contas, fica a frase que é dita em um momento chave "Morto às vezes é melhor".

Trailer:



Poster: