segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O Deus Esfolado - Descoberta de um templo do aterrorizante deus Xipe-Totec.


Até recentemente os estudiosos dos povos nativos do México acreditavam que o terrível Lorde Esfolado, um obscuro Deus da Guerra e fecundidade pré-colombiano não possuía templos dedicados à Sua sagrada pessoa. Contudo, a descoberta de um templo na região de Ndachjian–Tehuacan nos arredores de Puebla, Mexico demonstrou o contrário.

O Deus Esfolado, cujo nome original é Xipe-Totec era tido até então como uma divindade menor. É possível que o Deus fosse considerado apenas por alguns indivíduos que lhe rendiam homenagem e devoção. Isso se deve principalmente por Xipe-Totec ser descrito como uma entidade volúvel, irascível e francamente aterrorizante. Há teorias de que ele seria uma espécie de patrono dos guerreiros, soldados e mercenários. Armas, armaduras e escudos já foram encontrados com símbolos que remetem diretamente ao Lorde Esfolado e ao que parece, sua popularidade entre guerreiros se deve ao fato dele oferecer a estes algum benefício em troca da sua adoração.

A descoberta do templo vem sendo saudada como extremamente significativa pelas autoridades do Instituto Mexicano de Antropologia e História não apenas por ser este o primeiro templo dedicado a essa divindade, mas por se tratar de um prédio de tamanho considerável localizado em uma região importante. Além do templo, os arqueólogos encontraram restos de um tipo de quartel ou forte que reunia soldados o que reforça a teoria de que a divindade estava ligada a indivíduos que seguiam a carreira militar.


Outra descoberta surpreendente é que certos símbolos encontrados no templo coincidem com entalhes achados em outras culturas. Os especialistas localizaram duas grandes estatuetas entalhadas na forma de crânios e uma caixa de pedra com tampa contendo o que foi identificado como restos de pele tanto de animais quanto de seres humanos. Acredita-se que os sacerdotes de Xipe-Totec realizavam sacrifícios e que um dos rituais envolvia esfolar a pele das vítimas com elas ainda vivas.

O Lorde Esfolado era representado como um homem grande, praticamente um gigante, com corpo esguio sem pele e com olhos cruéis. Uma visão aterradora! Ele vestiria a pele de suas vítimas decorada com tatuagens coloridas e adereços confeccionados com osso, pedras preciosas e sílex. Ao andar deixava um rastro de pegadas sangrentas e um fedor de morte que o acompanhava. Xipe-Totec portava uma lança pesada, uma faca afiada de sílex usada para esfolar suas vítimas e uma aljava com dardos para arremesso, o típico equipamento de um soldado. 

Os rituais dedicados a Xipe-Totec eram selvagens e sanguinolentos. Prisioneiros de guerra e escravos eram escoltados perante os sacerdotes que os separavam em grupos. Os homens eram pintados de vermelho e suas cabeças adornadas com coroas de penas. Em seguida alguns eram forçados a lutar como em uma espécie de arena. A maioria desses prisioneiros eram sacrificados e suas peles arrancadas com facas. O esfolamento ritual seria uma maneira de representar a fertilidade e a regeneração. 


Os sacerdotes vestiam a pele das vítimas esfoladas por pelo menos 20 dias durante o festival anual que precedia a estação das chuvas. A pele era usada ainda para fazer tambores e instrumentos musicais empregados nas cerimônias. Também é possível que alguns rituais de passagem no culto envolvesse remover partes da pele e oferecer à divindade como uma demonstração de coragem e respeito. É possível ainda que eles acreditassem que as peles antigas possuíam propriedades curativas.

Os especialistas estimaram que o templo tenha sido erguido pelos Popolocas, o povo que habitou a região de Pueblo entre os anos 1000 e 1260 da era cristã. Tratava-se de uma temida cultura de guerreiros, que costumava atacar povos vizinhos com o intuito de obter comida e escravos. Eles desapareceram sem deixar vestígio em meados de 1300, dizimados possivelmente por uma peste. 

Quando os europeus chegaram ao México, os Popolocas já estavam extintos. A lembrança deles e de seus rituais, entretanto, continuaram presentes na memória dos povos nativos. Muitas das lendas a respeito destes ferozes guerreiros e de Xipe-Totec, se espalharam entre os conquistadores.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Horríveis costumes - Os Esqueletos sem pés no Peru



Costumes são algo curioso.

Eles são uma espécie de identidade de um povo, algo particular que faz parte de sua história e de suas tradições. Os costumes em uma análise mais ampla são aquilo que tornam um determinado grupo de pessoas, o que eles são.

E como todo grupo de pessoas, suas tradições fazem sentido para eles, mas para outros podem parecer estranhos, incomuns, bizarros...

Tomemos por exemplo a recente descoberta de um sítio arqueológico no Complexo de El Chorro, no Peru. Lá, uma escavação de antigas tumbas incas revelou pelo menos 15 esqueletos humanos sem um dos pés. Para tornar as coisas ainda mais estranhas, os esqueletos com o pé ausente pertencem a crianças e adolescentes. Uma análise preliminar sugeria que talvez as amputações tivessem ocorrido em vida e que as crianças seriam escravas ou serviçais que realizavam trabalhos em casa e que não precisavam se deslocar muito. A amputação seria realizada com o propósito de evitar a fuga.

Investigações subsequentes, entretanto, apontam para outra possibilidade. Os corpos não possuíam além do pé, o femur em alguns casos e em outros a fíbula. Um indicativo de que os ossos teriam sido removidos após a morte.


Mas quem iria querer roubar pés humanos e ossos da perna de jovens e por qual razão? 

Arqueólogos acreditam que os restos humanos pertencem a membros das culturas Moche e Lambayeque, tribos que habitavam a costa norte do Peru antes da invasão do continente. Eles eram conhecidos como excelentes artistas, capazes de trabalhar cerâmica, joalheria e até metalurgia. Peças desse povo foram datadas de um período entre 50 a 800 d.C.

Uma das práticas que os estudiosos acreditam estar relacionada a eles envolve confeccionar jóias e adornos com os ossos de seus amigos e parentes falecidos, especificamente de crianças e adolescentes que faleceram cedo.    

A prática de utilizar ossos de entes queridos para fazer objetos de adorno, era comum entre as culturas sul-americanas que precederam a chegada dos colonizadores espanhóis. Algumas das sepulturas escavadas em El Chorro traziam peças específicas feitas com ossos humanos. Mais de 60 urnas funerárias foram descobertas no terreno do cemitério, algumas contendo objetos pessoais, roupas e outras peças usadas pelos indivíduos ali enterrados.


Sacrifícios humanos oferecidos aos deuses fazia parte das tradições dos Moche. Os Lambayeque, que sucederam os Moche, existiram até meados de 1400 d.C, quando seu povo desapareceu misteriosamente.

Evidências de rituais também foram encontradas nas sepulturas, indicando que as pessoas enterradas no local foram entregues aos deuses como uma oferenda em troca de comida, bebida e colheitas. Os sacrifícios ocorriam de forma sazonal, coincidindo com o calendário de plantio, quando as colheitas dependiam do clima e das chuvas. Uma criança sacrificada em um altar representava um pedido para que os deuses enviassem chuva e afastassem pragas. Acredita-se que o costume de realizar sacrifícios era corriqueiro e que ao menos uma vítima era sacrificada ao ano. Em tempos mais difíceis, de seca ou carestia, de seis a uma dúzia de sacrifícios poderiam ser oferecidos.

Os rituais eram conduzidos por sacerdotes e ocorriam com enorme pompa e circunstância. Os pais aceitavam o sacrifício de seus próprios filhos acreditando que eram necessários para a sobrevivência de toda comunidade. As vítimas eram drogadas com ervas e raízes especiais e conduzidas até o templo. Lá os sacerdotes usavam uma lâmina afiada para cortar a garganta com um único golpe. O sangue era coletado e cada gota oferecida aos Deuses em meio a uma série de rituais elaborados.


Nos arredores do cemitério foram descobertos indícios de festividades e comemorações que ocorriam após o funeral das vítimas do sacrifício. De um ponto de vista cultural, o sacrifício não era considerado um fardo sequer para as vítimas que acreditavam estar desempenhando uma função vital para a sociedade.

A explicação para a ausência dos pés é que segundo a religião local, os Deuses permitiam que as famílias mantivessem uma lembrança de seus entes queridos. Durante as festividades que antecediam o funeral, o cadáver era colocado em um altar para que o pé fosse cortado com um machado de sílex. Em seguida, o osso da perna era puxado até se desprender do cadáver e entregue aos pais.

Estes podiam então enviar a peça para um artífice que a trabalhava. Primeiro ela era descarnada, limpa e os ossos devidamente polidos, moldados para se transformar em adornos, como colares, braceletes ou brincos. Usar esses enfeites eram uma forma de lembrar do morto e mostrar aos demais membros da sociedade o tamanho do sacrifício aceito pela família.


Enquanto fazer jóias com os ossos de crianças e adolescentes possa parecer estranho e absurdo de nossa perspectiva, era algo extremamente comum para eles.

Curiosamente, a prática parece ter voltado à voga recentemente. Uma companhia sediada em Phoenix chamada "Sunspot Designs" oferece vários modelos de jóias confeccionadas com restos humanos. Uma de suas linhas de maior sucesso inclui jóias feitas de ossos humanos devidamente polidos e moldados de maneira semelhante a realizada pelos habitantes do norte do Peru para honrar seus entes queridos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

True Detective - Recap do episódio 6: "Caçadores na Escuridão"


Faltam apenas dois episódios para a conclusão da terceira temporada de True Detective e a história avançou à olhos vistos essa semana. Como se alguém tivesse apertado com força o acelerador.

O episódio 6, "Hunters in the Dark" (Caçadores na Escuridão) deixou de lado os dramas pessoais do casamento do Detetive Hays e sua esposa Amelia e suas brigas nos anos 1990, para se concentrar no coração do mistério central da temporada - o Caso Purcell. Sem dúvida, esse foi, até aqui, o capítulo mais revelador da série e um dos mais empolgantes, terminando com um cliffhanger daqueles que nos faz querer que a semana passe rápido para possamos saber o que vem à seguir.

O tema central do episódio é uma questão lançada por Elisa, a entrevistadora que está conduzindo o documentário a respeito do Caso Purcell em 2015: "Como se explica que tantas pessoas ligadas aos acontecimentos tenham morrido"? Parece claro que o Caso Purcell envolve muito mais do que um "simples sequestro e assassinato de crianças. Não é de agora que sabemos que várias vidas foram afetadas por esse incidente e muitas pessoas parecem ter sofrido retaliações ou foram vítimas de uma queima de arquivo que eliminou os que podiam revelar algo. Como suspeita a entrevistadora do True Crime (o documentário do qual Wayne está participando) parece haver uma conspiração agindo nas sombras, Até aqui, haviam indícios disso, mas nesse episódio, as coisas ficaram claras.

O Caso Purcell levou à morte de dez pessoas no massacre empreendido por Brett Woddard (o índio catador de lixo), Lucy morreu em Las Vegas vítima de uma overdose, o corpo do primo Dan O´Brian apareceu em uma pedreira, Harris James, o policial sujo que ajudou a incriminar Woodard também desapareceu... o caso Purcell continua envenenando todos que chegam perto dele. Os veteranos Wayne Hays e Roland West parecem ser os únicos que restaram em 2015 e tem interesse de encontrar a verdade, mas será que eles conseguirão descobrir o que realmente aconteceu a essa altura?  


Ao que parece não será fácil: mesmo no auge de suas habilidades, o caso nos anos 1980 e 1990 continua levando os detetives a becos sem saída. Em 1980, a investigação é terminada por conta da intervenção do Promotor Gerald Kindt que se apressa em jogar a culpa de tudo nos ombros de Woodard após a descoberta de provas bem pouco convincentes na sua cabana. Apesar dos protestos de Wayne e de suas suspeitas, o caso é dado como encerrado, assumindo-se que as duas crianças Purcell teriam sido mortas. 

Dez anos depois, quando o caso é reaberto, Kindt aparece novamente, dessa vez como Chefe da Promotoria Geral do Arkansas, um cargo ainda mais importante. O Promotor parece furioso com a possibilidade de que Tom Purcell, pai das crianças possa ser o verdadeiro responsável pelos crimes e que erros graves tenham sido cometidos. A suspeita se baseia apenas no que a mulher que se identificou como Julie diz em um telefonema dado à polícia. É uma acusação rasa de que Tom teria feito algo com as crianças, mas acaba sendo o suficiente para lançar sobre Tom uma suspeita. Parece bem claro que estão tentando criar um segundo bode expiatório para o Caso Purcell, indo atrás do alvo mais fácil. A mentira a respeito de Woodard não resistiu, então é necessário encontrar um outro culpado.

Quem teria tanto poder e influência a ponto de manipular as coisas dessa maneira? Quem poderia influir nas ações do Chefe de Polícia e do Promotor Geral? Voltaremos a isso daqui a pouco, mas antes vamos falar um pouco mais das suspeitas sobre Tom Purcell.


Os detetives são enviados para escavar a vida do sujeito. Descobrem que Tom perdeu o emprego na fábrica onde trabalhava e que os colegas do serviço pegavam no seu pé. Aparentemente, um desses colegas havia visto Tom entrando numa boite gay, coisa que nos anos 1980 podia destruir a vida de alguém. Os policiais fazem um pente fino na casa de Tom e descobrem que ele buscou grupos de apoio religioso e aconselhamento a respeito de sua sexualidade. Isso lança uma dúvida a  respeito da paternidade dele, coisa que era sugerida no telefonema de Julie que se referia a Tom como "o homem que diz ser o meu pai". Também explica o comportamento da esposa dele que se ressentia do casamento, chamando-o de uma farsa.

Nos leva a outra suposição também, dessa vez a respeito do detetive Roland West. Quando Hays sugere que eles sigam atrás dessas pistas e questionem as pessoas que aconselharam Purcell, Roland é totalmente contrário a seguir nessa linha de investigação. Eu me pergunto por que? E a resposta me parece bem clara. Alguns capítulos atrás, vimos uma cena em que Tom agradecia a Roland por tudo que ele havia feito e por tê-lo ajudado após o fechamento do caso em 1980. Na ocasião, Tom parecia grato a Roland por tê-lo indicado pessoas que o ajudaram a superar essas dificuldades, a cena termina com os dois rezando juntos. Me parece que foi Roland quem indicou a Tom os conselheiros que o ajudaram a procurar uma "cura para a sua homossexualidade". 

Tanta resistência em investigar essa pista, me leva a pensar que Roland também possa ter buscado o mesmo aconselhamento em algum momento de sua vida e que ele não quer - em 1990, que Wayne fique sabendo disso. Só isso explica a forma como o tenente reage quando Hays diz que quer escavar mais a fundo nessa história. Lembrando que em 2015, sabemos que West leva uma vida solitária, nunca casou, não tem filhos e parece se ressentir de suas escolhas pessoais.


Mas o episódio não possui apenas especulações, ele oferece algumas certezas que foram lançadas no ar e levaram a pelo menos dois grandes momentos.

No curso do episódio, nós descobrimos um pouco mais a respeito de Julie, ou ao menos da mulher que se identificou como Julie, e como ela passou os anos após o seu desaparecimento. Ela teria mudado seu nome para "Mary" (ou Mary-Julie ou ainda Mary July), e em conversas com outros adolescentes fugitivos teria dito que vivia em um "quarto cor de rosa" como uma "princesa num Castelo cor de rosa". Por um momento isso parece ser apenas um devaneio de uma pessoa submetida a drogas e abuso nas ruas, mas no final do episódio ficamos sabendo que o tal quarto cor de rosa não apenas existe, mas também sua localização.

Antes, no entanto, vale a pena mencionar outros dois personagens que ganharam importância depois desse episódio.


Primeiro Harris James, o policial que tudo indica foi o responsável por plantar as provas contra Woodard em 1980. Os detetives visitam Harris e fazem perguntas a ele sobre a descoberta da mochila e do casaco de Julie achados na cabana do catador de lixo e que foram vitais para estabelecer sua culpa. Em 1990, Harris sustenta sua versão da descoberta e convenientemente se recorda de que Tom Purcell esteve mais de uma vez rondando a cabana de Woodard após o tiroteio, podendo, portanto, ter plantado as provas. 

Harris é entrevistado em seu novo emprego como Chefe de Segurança da Empresa de Alimentos Hoyt, exercendo um cargo de confiança com um belo salário. Fica claro que James recebeu o posto como recompensa por ter sido útil às pessoas interessadas em apontar um culpado. Dez anos mais tarde, James continua sendo útil, dessa vez ajudando a incriminar Tom, criando um segundo bode expiatório.

O fato de Harris trabalhar na Hoyt acende um alerta sobre essa Família que aparentemente está envolvida até o pescoço no Caso Purcell. O que sabemos a respeito dos Hoyt é bem pouco até agora: eles são poderosos, influentes e controlam muita coisa no Arkansas. O tipo das pessoas que poderiam encabeçar uma conspiração, manipular a polícia, eliminar pessoas, incriminar inocentes e até controlar o escritório da promotoria. Sabemos que Lucy Purcell, mãe das crianças trabalhou na Hoyt alimentos e que a empresa ofereceu uma recompensa de 20 mil dólares para quem ajudasse a solucionar o crime.

O final do episódio coloca os Hoyt novamente no olho do furacão, como veremos a seguir.


O segundo personagem que reaparece no episódio é ninguém menos do que o primo Dan O'Brian. Ele ressurge nos anos 1990 querendo falar com os detetives e compartilhar com eles o que sabe a respeito do Caso Purcell. Dan, um sujeito desprezível, revela que Lucy não morreu acidentalmente de overdose e que há pessoas poderosas envolvidas nos acontecimentos. Lucy teria confidenciado a ele o que sabia antes de morrer. "As Crianças são a razão de tudo", ele diz sem revelar detalhes, abrindo espaço para uma série de teorias. 

Seu preço, para revelar tudo que sabe à polícia é um pagamento de 7 mil dólares. Ele afirma que o que tem a dizer irá causar uma reviravolta no caso e colocar em evidência os verdadeiros responsáveis pelo crime. Sem dúvida é um material explosivo que acabou custando a vida de Dan. Sabemos que seu corpo apareceu enterrado em uma pedreira anos mais tarde. Não sabemos entretanto quem o matou ou quando isso aconteceu.

Descobrimos, entretanto, que Tom ficou sabendo que Dan reapareceu e o procurou para fazer algumas perguntas, ameaçando-o com uma arma. A discussão é acalorada e descamba para a briga e no fim, Tom coloca uma arma na cabeça do cunhado e ameaça atirar em seu joelho, orelhas e onde mais for necessário para que ele conte o que sabe. Com isso, ele conta tudo, mas infelizmente não sabemos o que foi revelado.


Mas sabemos que o pai das crianças a seguir invade a Mansão da Família Hoyt, determinado a descobrir a verdade. Tom entra na casa aparentemente deserta, avança por uma sala decorada com a cabeça de animais selvagens, dali para um corredor escuro e finalmente chega diante de uma porta. E ao abri-la encontra o quarto rosa mencionado por Julie. Chocado com algo que encontra lá dentro ele não percebe que Harris James está atrás dele...

E é o fim do episódio!

WOW! Que final é esse?!?!?!

Com isso, o mistério central da terceira temporada de True Detective parece estar sendo revelado e a grande conspiração envolvendo pessoas importantes começa a se desenhar. Parece que estamos lidando com um grupo de indivíduos influentes, ricos e poderosos que se safaram de qualquer acusação encobrindo pistas e criando bodes expiatórios ao longo de décadas.

Estamos a dois episódios da conclusão e restam muitas questões sem solução. Será que Tom não é o pai verdadeiro de Julie, como ela sugeriu no telefonema? E quem será nesse caso? Será que a menina foi sequestrada por esse motivo? Como ela apareceu nas ruas? 

Parece óbvio que Hoyt, um personagem que ainda não foi apresentado - a não ser em fotografias, é uma peça central nesse quebra-cabeças. Como aconteceu na primeira temporada, famílias importantes e poderosas parecem ser os catalizadores da tragédias e causadores de tudo. E como ocorreu na primeira temporada, a verdade irá permanecer oculta até o episódio final. Não duvido que saberemos mais a respeito da Família Hoyt apenas no episódio de fechamento de True Detective e que até lá teremos apenas suposições.


Ah sim... um último detalhe de grande importância nesse episódio e que por pouco eu não ia esquecendo. Em 1990, enquanto Amelia Hays fazia a leitura de um trecho de seu livro recém lançado e abria espaço para os fãs fazerem perguntas, temos a aparição de um misterioso homem negro com um olho só. Para quem não se recorda, o homem negro teria se encontrado com as crianças e oferecido a elas brinquedos. O "homem negro com um olho morto" teria sido ainda o responsável por comprar as bonecas de palha deixadas na cena do crime. Além disso, ele é mencionado por dirigir pela região um carro de luxo que chamava a atenção em 1980. Esse homem misterioso confronta Amelia acusando-a de explorar a tragédia e sugere que ela não tem nem ideia do que realmente aconteceu. A identidade desse sujeito permanece um mistério! É possível que ele tenha sido contratado para sequestrar Julie e que tenha causado a morte acidental de Will, mas se é assim, porque ele estaria tão furioso? Se ele está sendo devorado pela culpa, por que não busca a polícia ao invés de acusar os outros?

Mistérios dentro de mistérios... 

Pistas e Indícios:

• O título desse episódio "Caçadores na Escuridão" é bem interessante pois ele apresenta na trama vários "Caçadores", pessoas que estão em busca de uma presa e que são implacáveis nessa busca. Os detetives são a referência mais óbvia pois estão em busca do culpado. Mas temos ainda Tom que vai atrás de Dan e depois procura Hoyt. Temos Harris James que se aproxima furtivamente de Tom no final do episódio. E é claro, temos Hoyt, que no sentido literal é visto como um caçador participando de safaris em fotografias e que em sua casa possui uma coleção de cabeças de animais.


• Nós sabemos que o Primo Dan morre em algum momento, mas ainda é cedo para dizer que foi Tom Purcell quem o matou. Lembramos que o corpo dele foi escondido em uma pedreira e só é descoberto vários anos depois. Não me parece possível que Tom tenha matado e escondido Dan tão rápido e depois seguiu para a Mansão Hoyt. Se for assim, ele ainda deve estar vivo ou alguém vai encontrar e esconder o cadáver.

• Por sinal, o trecho em que Dan insinua ter um relacionamento com Lucy, que seria a sua meia-irmã é um dos momentos mais sinistros da temporada. A expressão do ator e a maneira como ele fala são ao mesmo tempo repulsiva e perturbadora. Por sinal, esse episódio foi um show dos coadjuvantes.


• "Eu realmente não gosto de ficar lembrando das coisas", diz o Wayne Hays de 1980 logo depois de transar com Amelia pela primeira vez. Ela estava tentando pressioná-lo para que ele conte um pouco mais a respeito de seu passado - e coisas da época do Vietnã. A frase soa irônica, sobretudo porque tudo que o velho Wayne, em 2015, quer é conseguir lembrar do passado e manter a sua memória intacta. Alguns dos melhores momentos da série tem sido esses lapsos de memória e lembranças no qual as timelines se misturam. Nesse episódio, por exemplo temos uma imagem em que o detetive nos anos 80 olha em um espelho e o reflexo é o dele mais velho já aposentado. Um efeito simples, mas muito bom.

• Wayne consegue descobrir quem era a pessoa que estava na companhia da entrevistadora do True Criminal, Elisa Montgomery, seu próprio filho, Henry. Ele não se sente à vontade com o que fez, mas não consegue esconder do pai detetive a traição. Henry comenta que pretende contar à esposa o que aconteceu e Wayne recomenda que não faça isso se quiser manter o casamento. Por um lado é um bom conselho, por outro; quem é o Wayne para dar algum conselho matrimonial?

• Na cena em que Amelia visita um abrigo de adolescentes fugitivos, há uma cena curiosa. Enquanto conversa com uma jovem que conheceu Julie, ela observa pela janela uma pickup estacionando. Um sujeito desce do veículo e caminha ao redor do estacionamento. Na lateral do caminhão é possível ler que se trata da Ardoin Landscapes, uma firma de paisagismo. A cena é estranha porque não é gratuita. Ardoin para quem não lembra é um sobrenome que já foi citado anteriormente. No caso, é o menino que conta aos detetives que Will e Julie iam para Devil´s Den no dia da tragédia. O que isso significa? Vai saber... mas é estranho que tenham dado destaque para a cena se não significar nada.


• A perda de memória de Hays em 2015 parece ser acentuada e está progredindo, como vemos na cena em que ele não lembra que Roland estava em sua casa depois de conversar com ele poucos minutos antes. Mas parece que o detetive está usando sua condição em causa própria em alguns momentos. Durante a entrevista ele mente descaradamente afirmando não lembrar de algumas coisas quando é pertinente. Assim foi quando a entrevistadora pergunta a ele a respeito de Harris James e ele desconversa dizendo que não sabe de quem ela está falando.

• Numa cena em que os detetives visitam a Hoyt Foods em 1980 temos essa imagem no mínimo estranha na qual aparece um quadro, supostamente de pessoas ligadas à Família Hoyt. Quem é essa mulher e a menina no colo dela? E será que é impressão minha que a mulher tem uma semelhança com Lucy Purcell?


• Então o tal buraco no armário do quarto de Will não foi feito por Dan? Ele era de Will, usado para enviar mensagens para o quarto da irmã sem que alguém visse. Mas por qual razão as crianças iriam precisar trocar mensagens em segredo? Quem elas estavam tentando evitar? Seria a mãe?

• Na cena em que Wayne visita a casa dos Purcell em Shoepick Lane podemos ver que o local está abandonado e tomado de pichações. Duas delas são interessantes em meio ao monte de grafite que recobre as paredes. A primeira é uma pirâmide com um olho, símbolo universal dos Iluminati, com o olho que tudo vê. O outro remete à primeira temporada trazendo uma espiral que era o símbolo do Rei Amarelo usado pelo assassino para definir um lugar como uma possessão de Carcosa. Bem legal!


domingo, 10 de fevereiro de 2019

H.H. Holmes - A terrível história do Monstro da Cidade Branca


"Eu nasci com o demônio dentro de mim. Eu não posso evitar o fato de que sou um assassino, não mais do que um poeta pode evitar ter inspiração para compor" 

Dr. H. H. Holmes, confissão, 1896 


No ano de 1883, a cidade de Chicago foi o palco da espetacular Feira Internacional - A Exposição de Colombo, celebrando o aniversário da descoberta da América por Colombo. Era um tempo de grande desenvolvimento para a cidade e milhares de pessoas vieram de todos os cantos do país e do mundo para visitar a feira. Infelizmente, a lista de "desaparecidos" após o término desta era muito grande e a polícia posteriormente tentou traçar os passos dessas pessoas para entender como e onde elas haviam desaparecido. Nem tudo era lindo e brilhante conforme as propagandas da Exposição na "Cidade Branca". Havia um demônio à solta em uma das maiores cidades americanas. O primeiro verdadeiro assassino em série da América, enganava os visitantes e os atraía para seu "hotel", onde eles desapareciam - para jamais serem vistos novamente.

Hoje em dia, a vizinhança de Englewood é parte da cidade de Chicago, mas no final do século XIX, ela era uma vizinhança suburbana tranquila e independente no sul da Cidade dos Ventos. Era um lugar pacífico, o lar de donas de casa e comerciantes de classe média. Entre essas pessoas decentes vivia uma mulher chamada "Sra. Holden". Ela era viúva de um médico e administrava uma farmácia na rua 63 com a Wallace. O trabalho era pesado demais para uma senhora sozinha de meia idade, uma vez que era a única farmácia da região e atraia uma enorme clientela naqueles dias. Ela ficou muito feliz, portanto, ao encontrar um assistente que a ajudasse a tocar o negócio, o Dr. Henry H. Holmes. Ele logo se tornou uma figura conhecida e respeitada em Englewood.

Na época, um farmacêutico tinha uma função importante, prescrevendo e produzindo drogas e remédios para o consumo da população. O Dr. Holmes parecia ter enorme conhecimento das fórmulas e prescrevia remédios com naturalidade. Seus longos dedos moviam-se com a habilidade de um cirurgião, sua bela face parecia sempre simpática e seus olhos azuis cintilavam quando ele atendia os clientes. Ele era tido como um pilar da comunidade, um cavalheiro civilizado e educado. Considerado bem humorado, ele trouxe vários novos clientes para a farmácia, especialmente mocinhas da vizinhança que confiavam nele para curar suas aflições. Além disso, ele mantinha os livros contábeis em ordem. Ele era, o perfeito assistente para a proprietária.

Não demorou muito até que Holmes conseguisse se tornar muito mais um gerente do que um simples atendente. Entretanto, ele passava mais tempo conversando com os clientes do que produzindo as drogas. O Dr. Holmes se tornou uma figura familiar na vizinhança e alguém de total confiança.  

Os negócios continuaram melhorando, deixando a Sra. Holden muito satisfeita. Mas Holmes ainda não estava feliz, uma vez que planejava expandir os negócios. Em meados de 1887, a Sra. Holden desapareceu sem deixar rastro. Supostamente ela havia decidido do dia para a noite deixar Chicago e se mudar para o Oeste. Holmes anunciou que havia comprado a farmácia que pertencia à viúva e que pretendia realizar algumas mudanças no estabelecimento.


O Hotel de H.H. Holmes, também chamado de Castelo dos Assassinatos
Dois anos se passaram, ele comprou um grande terreno atrás da farmácia e deu início a construção de um edifício que planejava transformar em hotel. Ele, é claro, havia ouvido falar da Exposição Mundial que aconteceria, e alojamento para os visitantes eram algo muito necessário. Não há registros de como Holmes pretendia chamar o prédio, mas as gerações de policiais, pesquisadores de crimes e residentes de Englewood, passaram a conhecer o lugar por um nome sinistro e aterrorizante - o Castelo dos Assassinatos.

Henry H. Holmes, cujo nome real era Herman W. Mudgett, nasceu em 1860 em Gilmanton, New Hampshire, onde seu pai era um respeitado cidadão que trabalhava numa agência postal por mais de 25 anos. Cedo em sua vida, Mudgett assumiu uma nova identidade e passou a chamar a si mesmo de H.H. Holmes, nome com o qual cursou a universidade de medicina. Ele sempre foi uma criança agradável e um adolescente charmoso, mas anos mais tarde, parentes lembrariam que ele era cruel com animais e crianças mais novas. Ainda assim, Holmes foi um aluno brilhante e um excelente estudante, formado com honras.

Em 1878, Holmes casou com Clara Lovering, a filha de um próspero fazendeiro de New Hampshire, e no mesmo ano começou a estudar medicina em uma pequena universidade em Vermont. Ele pagou seus estudos com uma pequena herança recebida. Holmes foi transferido para outra instituição depois que seu nome foi envolvido em um estranho caso de cadáveres que haviam desaparecido do laboratório. Ele também foi acusado de ter desfigurado cadáveres e esconder partes deles como uma forma de brincadeira macabra. Holmes foi acusado de ter recebido um seguro de vida, fazendo-se passar por parente de mais de uma pessoa falecida em acidente. 


Poucos meses depois de completar seus estudos, ele realizou uma fraude de seguro que lhe rendeu um bom dinheiro, o que lhe permitiu seguir para Nova York. Ele decidiu abandonar a esposa que jamais o viu novamente.


Depois disso, Holmes sumiu por alguns anos. O que ele fez ao longo de um período de seis anos não se sabe, e nem os Detetives da Prestigiosa Agência Pinkerton conseguiram descobrir, quando começaram a investigar sua vida pregressa. Por cerca de um ano e meio ele trabalhou em Nova York, realizando consultas e fazendo cirurgias menores. Ele também seduziu e roubou a esposa de um fazendeiro, deixando-a grávida e sem um tostão.

A face do assassino
Holmes não era uma boa pessoa, embora todos o julgassem confiável e adorável.

Em 1885, quando chegou a Chicago, não demorou muito até que ele se casasse com Myrtle Belknap, a única filha de um rico comerciante que desconfiava da fala mansa e manipuladora de Holmes. Embora a união tenha resultado em uma filha, ela era considerada incomum. Myrtle morava em uma cidade distante, enquanto Holmes passou a viver em Chicago. Os dois se viam apenas esporadicamente e nas ocasiões em que se encontravam ele era sempre muito distante e pouco atencioso com ela. O casamento terminou em 1889.

Foi pouco depois de casar com Myrtle que Holmes passou a trabalhar na farmácia em Englewood e teve sua carreira meteórica. A construção do hotel seria seu passo mais ambicioso, que renderia um retorno financeiro considerável.

Nessa época, Holmes conheceu um de seus comparsas, um homem chamado Benjamin Pietzel, que também vivia de aplicar pequenos golpes. Ele continuou trabalhando na farmácia depois de tê-la comprado e acrescentou a ela um balcão onde vendia jóias. Em 1890, ele contratou Ned Connor como relojoeiro e joalheiro. O sujeito tinha uma bela esposa chamada Julia e uma filhinha de nome Pearl. A família aceitou a proposta de Holmes de ocupar um quarto nos fundos da Farmácia. A beleza de Julia capturou o interesse de Holmes que passou a assediá-la de modo muito direto. A situação era tão incômoda, que Ned acabou pedindo divórcio e deixou Chicago logo em seguida.

Holmes decidiu acolher a mulher e a criança que ele tratava como sua própria filha. Entretanto, o farmacêutico secretamente fez uma apólice de seguros para Julia e Pearl, nomeando a si mesmo o único beneficiário.

Apesar dos negócios irem bem na Farmácia, as obras para a construção do Hotel consumiam a maior parte de seus recursos. Não foi por acaso que o prédio recebeu o apelido de "Castelo". A fachada tinha três andares e era construído com alvenaria e pedra. A estrutura tinha mais de 60 aposentos que serviriam como quartos para alojamento. Holmes foi o próprio arquiteto, responsável por desenhar a planta e supervisionar cada aspecto da construção. Ele também contratava e despedia os operários. Além do desenho excêntrico do prédio, o lugar tinha corredores que terminavam em becos sem saída, portas que não davam em lugar nenhum, alçapões, escadas secretas, quartos sem janelas, rampas que levavam para o porão e portas que só podiam ser abertas por fora. Tudo muito estranho e pouco prático, ainda mais em um prédio destinado a receber visitantes. Para alguns ele parecia um labirinto, para outros lembrava uma masmorra.


Uma sala de Dissecção do século XIX
O primeiro andar do prédio possuía lojas dedicadas ao comércio, enquanto os superiores seriam usados pelos hóspedes. Holmes também reservou um aposento no segundo andar para servir de escritório e administração.

Hoje sabemos que o projeto de Holmes desde o início foi idealizado com o objetivo de satisfazer suas fantasias homicidas. Ele criou quartos que funcionavam como "câmaras de gás", onde as vítimas podiam ser mortas com uma mistura de gás venenoso dispersado no interior do aposento. Outras câmaras eram equipadas com placas de aço que eram aquecidas por maçaricos tornando o piso e as paredes perigosamente quentes. No porão, Holmes construiu uma mesa de dissecação idêntica à que existia em universidades e seu próprio crematório. Havia ainda uma banheira de ácido e piscinas que podiam ser usadas para dissolver cadáveres rapidamente. Além disso, haviam pequenas celas com trancas à prova de arrombamento e com tecido nas paredes para absorver ruídos. Essas celas eram usadas por Holmes para isolar seus prisioneiros e mantê-los afastados. Quando ele desejava torturar esses prisioneiros ele podia acender luzes fortes, modular a temperatura ou acionar alarmes sonoros barulhentos. Vítimas podiam ser mantidas cativas por meses até as suas mortes, e de fato, tal coisa aconteceu repetidas vezes.

O Castelo foi completado em 1891 e pouco depois, o proprietário anunciou que iria alugar os quartos para turistas que vinham visitar a Feira Mundial. Assume-se que muitos destes turistas jamais retornaram para casa depois da Feira, mas não há como saber ao certo. Holmes estava sempre em busca de pessoas viajando sozinhas, com dinheiro e que não haviam dado informações a respeito de onde ficariam hospedadas e por quanto tempo. 

Porém, esse não era o único método de Holmes encontrar suas vítimas. Um grande número de vítimas do sexo feminino vieram através de anúncios falsos publicados nos classificados de pequenos jornais locais. Holmes oferecia uma série de pequenos trabalhos para jovens mulheres e prometia um salário justo. Ele oferecia quartos para essas moças e as instruía a depositar seus salários junto com o dinheiro do hotel. Na verdade, ele usava esse expediente para coletar o dinheiro de suas funcionárias. 

Holmes era um homem extremamente cruel, fascinado pela noção de infligir dor e tortura. Ele adorava ouvir as súplicas de suas vítimas e as sujeitava a humilhações, prometendo que se elas se submetessem a ele, ganhariam a liberdade. No entanto, ele jamais pensou em permitir a fuga de seus prisioneiros. O maníaco mantinha os cativos nas celas do porão e as observava através de pequenos "olhos mágicos" ocultos. Ele se divertia conversando com elas, acionando as buzinas e alarmes para acordá-las de surpresa, modulando a temperatura das celas para deixá-las quentes ou congelantes ou ainda abrindo o registro de gás para que s prisioneiros chegassem perto do sufocamento.

Uma visão do que seria o porão do Castelo
Por vezes, Holmes liberava no interior da cela um gás anestésico que fazia o prisioneiro dormir profundamente. Este então era removido da cela e levado para um dos outros aposentos que o maníaco reservava para suas experiências com tortura e morte. Muitas das suas vítimas eram dopadas e acordavam amarradas e amordaçadas em uma cadeira ou mesa cirúrgica, impotentes diante de seu algoz. Supõe-se que Holmes usava suas habilidades como cirurgião para dissecar suas vítimas, por vezes, sem aplicar qualquer anestesia ou supressor de sentidos. Ele também se divertia levando duas vítimas simultâneamente para essa sala de autópsia. Enquanto uma passava pelas cirurgias, ele mantinha a outra assistindo impotente a todo procedimento, prometendo que ela seria a próxima.

O horror dessas vítimas só pode ser imaginado...

É surpreendente que Holmes tenha conseguido manter a sua operação de morte em segredo por tantos anos, mesmo com o hotel recebendo um fluxo constante de visitantes. Ele teria matado um número desconhecido de pessoas, a maioria mulheres, em seu Castelo dos Horrores. Ele confessou 28 assassinatos, embora, muitos acreditem que o número possa ser muito mais alto. Alguns pesquisadores sugerem que ele poderia ter facilmente matado mais de uma centena de pessoas. O nível de planejamento e preparação para a realização de cada morte beirava a paranoia. Holmes pensava em cada detalhe e se precavia para não ser capturado. Os preparativos eram parte de sua fantasia psicótica e lhe rendiam uma satisfação doentia. Tendo provado do "fruto proibido", ele não tencionava parar nunca de cometer assassinatos cada vez mais detestáveis.

Não resta dúvidas de que ele foi um dos assassinos em série mais metódicos e prolíficos da História Americana. O Centro de Pesquisas comportamentais do FBI, dedica um curso para novos agentes que se baseia na carreira homicida de Holmes, o considerando um dos assassinos mais terríveis de que se tem notícia.

Em 1893, o já rico empreendedor H. H. Holmes conheceu uma moça chamada Minnie Williams e se apresentou a ela como um inventor, sob a identidade falsa de Harry Gordon. Minnie era herdeira de uma fortuna considerável no Texas e isso logo chamou a atenção do maníaco que viu ali uma oportunidade de ganhar ainda mais dinheiro. Holmes se aproximou dela e depois de algumas semanas a pediu em casamento usando sua identidade falsa. Ele ainda era casado com Julia Connor e cuidava da pequena Pearl, mas pouco depois de seu casamento as duas simplesmente desapareceram. Certo dia, quando Ned Connor visitou Chicago a procura de sua ex-esposa e filha, ouviu de Holmes que elas haviam se mudado para Michigan sem deixar endereço.

Em sua confissão, Holmes admitiu que Julia havia morrido em decorrência de um aborto realizado por ele próprio. Julia havia engravidado, e Holmes disse que não iria aceitar a criança. Durante o procedimento para terminar a gravidez, ele matou a esposa e o feto. O médico teria explicado que "estava cheio de Julia" e que "precisava de tempo para ficar com Minnie". Os corpos foram posteriormente descartados no crematório do porão. Havia apenas o problema da menina Pearl de sete anos, que ele havia criado como sua filha até então. Holmes resolveu a questão matando-a com veneno de rato dissolvido em leite. Sem demonstrar qualquer sombra de remorso, ele contou em sua confissão que Pearl também foi cremada no porão.

A Feira Mundial de Chicago
Minnie Williams se mudou para o Castelo e morou lá por mais de um ano. É provável que ela tenha sabido mais a respeito dos crimes de Holmes do que qualquer outra companheira dele. Para alguns ela teria instigado o marido a matar certas pessoas, sobretudo jovens mulheres que flertavam com ele. Uma dessas vítimas foi uma jovem de 17 anos chamada Emmeline Cigrand, que conseguiu emprego no hotel e de quem Minnie tomou enorme antipatia. Holmes confessou ter trancafiado a garota em uma de suas celas à prova de som, onde a violentou. Minnie descobriu e enciumada, disse que o marido teria de "dar um jeito naquela bobagem que havia feito" do contrário o abandonaria. Nessa ocasião, ele teria usado um equipamento especial que havia desenvolvido. Sempre curioso a respeito de quanto sofrimento o corpo humano podia suportar, ele criou uma mesa que distendia os membros até rasgar os músculos.

Holmes e Minnie foram parceiros em vários golpes, muitos dos quais recorrendo a fraudes de seguro e assassinatos para obter vantagens. Eventualmente ele acabou se cansando da mulher e decidiu também se livrar dela para coletar um seguro que fez em seu nome. O corpo de Minnie jamais foi encontrado, supostamente foi dissolvido por Holmes em uma banheira de ácido no porão do Castelo. 

Depois da morte de sua esposa, Holmes voltou a aplicar seus golpes na companhia de seu velho comparsa Ben Pietzel. Ele forjou pelo menos cinco esquemas contra seguros e embolsou um bom dinheiro na Philadelphia e St. Louis. Eventualmente, Holmes planejou um novo golpe no qual a vida de Pietzel foi segurada em quase 20 mil dólares, uma verdadeira fortuna para a época. O plano era forjar a morte de seu comparsa em uma explosão, colocar o cadáver de um vagabundo no lugar e alegar que ele havia morrido no acidente. A esposa de Pietzel, Georginna seria a beneficiada direta e receberia o seguro.

Mas Holmes tinha outros planos, ao invés de dividir o dinheiro, ele matou seu parceiro. Em seguida, convenceu Georgianna a ir buscar o seguro explicando que seu marido estava em segurança no Canadá esperando por eles. Holmes manipulou a mulher e fez com que ela deixasse três de seus cinco filhos (Alice, Nellie e Howard) na sua custódia, como garantia de que ele iria receber sua parte. Quando a seguradora suspeitou de que pudesse haver algum esquema, Georginna foi detida e Holmes escapou para o Canadá levando consigo as crianças.

Frank Geyer, um detetive da famosa Agência Pinkerton foi contratado para investigar as atividades de Holmes e encontrar as três crianças desaparecidas. Seguindo uma série de pistas deixadas pelo caminho, ele acabou localizando uma casa que Holmes havia alugado em Toronto na companhia de três crianças. Infelizmente, não havia ninguém lá, mesmo assim, ele decidiu revistar a casa em busca de alguma pista. Geyer achou mais que isso: no porão encontrou os corpos em decomposição de duas meninas que haviam sido enterrados sob o piso. Mais tarde o maníaco confessou ter trancado Alice e Nellie em um baú de viagem no qual fez um furo e introduziu uma mangueira conectada a uma saída de gás. As duas crianças foram asfixiadas e enterradas no porão de uma casa que ele estava alugando em Toronto.

Geyer continuou buscando o paradeiro de Holmes que teria seguido para Indianápolis após voltar aos Estados Unidos. Ele encontrou outro endereço, uma cabana na qual um homem havia se hospedado na companhia de um menino. Lá ele encontrou dentes e fragmentos de osso calcinados em uma lareira. Holmes havia matado o menino, cortado seu corpo com facas e então o queimou até virar cinzas.

Um jornal da época trata Holmes como "O Arqui-demônio"
Após essa descoberta macabra, Holmes foi declarado como procurado pela lei. A polícia recebeu autorização para revistar sua residência em Chicago em busca de pistas que pudessem ajudar a determinar seu paradeiro. Nenhum dos policiais envolvidos na batida ao hotel esqueceriam o que encontraram naquele dia!
Eram detetives devotos a casos graves e acostumados com a brutalidade do período, contudo, nem eles estavam preparados para aquele horror. O segundo andar era um verdadeiro labirinto de passagens e corredores, com portas ocultas e passagens secretas. Os investigadores levaram alguns instantes para compreender a utilidade dos quartos com várias trancas e fechaduras externas. Em uma placa de ferro reforçado eles encontraram uma impressão digital sangrenta deixada por uma mulher, o único sinal de que ali havia sido mantida cativa. Alguns quartos não tinham janela e outros davam para escadarias e rampas secretas que conectavam com o porão. Impressionados coma descoberta os detetives começaram a descer para o porão onde descobriam a extensão da loucura de Holmes.

O porão era uma verdadeira masmorra medieval, uma câmara de tortura projetada pela mente de um maníaco. Os homens se detiveram no laboratório de dissecação de Holmes, observando os aparelhos usados para cirurgias e tortura, encontraram o crematório saturado de restos de ossos e cinzas e as banheiras com restos de ácido de dissolução. Uma busca nas gavetas do crematório revelaram dentes e alguns objetos pessoais de Minnie Williamns, além de botões e zíperes. No interior de uma gaveta, um detetive achou uma coleção de cabelos femininos cuidadosamente separados em tranças.

Havia ossos, pedaços de pele e órgãos humanos acondicionados em vidros de pickles guardados em grandes baús. Estes provavelmente eram vendidos para faculdades e universidades de medicina para serem usados em aulas de anatomia. Holmes tinha vários contatos em instituições médicas. Os restos de Ned Connor foram encontrados em uma banheira semi dissolvidos pela ação de um poderoso ácido. 

Em 20 de julho operários foram trazidos para fazer uma escavação nas fundações do prédio, onde acreditavam poderiam ser encontrados mais ossadas. O fedor de degradação era insuportável e os homens se revezavam em turnos de no máximo duas horas para não sucumbir aos efeitos insalubres. Um dos homens um trabalhador chamado Kannon teria enlouquecido com a descoberta de um armário contendo esqueletos humanos macabramente ainda vestidos com trajes femininos. Em determinado momento, um dos operários acertou um cano com uma picareta e gás rapidamente se espalhou pelo porão inteiro. Os homens tiveram tempo de sair antes que uma enorme explosão fizesse o prédio inteiro tremer. Parte do porão desabou e a explosão causou dano na rua inteira.

Ironicamente a explosão revelou para o público alguns dos corredores e câmaras usadas por Holmes, o que atraiu uma verdadeira multidão de curiosos que desejavam ver com seus próprios olhos aquilo que os jornais batizaram de "o lugar mais aterrorizante da América". Supõe-se que muitos objetos tenham sido removidos por curiosos, inclusive ossos e restos humanos vendidos posteriormente como souvenir. O povo de Chicago estava em choque com as descobertas e com as coisas que eram removidas do porão. Os vizinhos de Englewood que conheciam Holmes ao longo de anos não podiam acreditar naquelas revelações aterradoras.


Em 19 de agosto, o Castelo foi destruído em um incêndio, Três grandes explosões trovejaram no meio da madrugada, supostamente causadas por outros vazamentos de gás. Uma chama alta irrompeu no prédio e ele queimou até o chão em cerca de duas horas. Os bombeiros fizeram pouco esforço para conter as chamas e salvar o lugar, para muitos o incêndio foi uma benção para devolver um pouco de dignidade e tranquilidade à vizinhança que havia se tornado local de peregrinação de curiosos. Outros três incêndios menores também foram registrados, causados pelo acúmulo de gás e estes foram responsáveis por destruir por completo qualquer resquício que poderia ter escapado. 

O terreno em que o Castelo havia sido construído permaneceu vazio por décadas até que finalmente ele foi ocupado por uma agência dos correios estabelecida em 1938. A essa altura a área havia sofrido uma enorme desvalorização imobiliária e grande parte dos moradores eram imigrantes que não sabiam de seu passado. Histórias a respeito da localidade entretanto continuaram a ser contadas pelos moradores mais antigos de Chicago que lembravam do que havia ocorrido ali.

Mesmo após a construção da Agência Postal, pessoas que viviam nas imediações costumavam atravessar a rua para não passar na frente do local onde morte e tortura haviam acontecido. Vizinhos que passavam com cães afirmavam que os animais começavam a latir e ganir como se pudessem sentir alguma coisa no ar... alguma coisa invisível aos olhos humanos. Além disso, funcionários da agência costumavam falar a respeito de sons estranhos, ruídos na calada da noite e sensações que não eram capazes de explicar ou colocar em palavras. Como ocorre frequentemente com lugares onde horrores tiveram lugar, ele se tornou famoso por alegados incidentes sobrenaturais.

Mas e quanto ao causador de todo aquele horror? O que aconteceu com H.H. Holmes?

Com a comoção nacional a respeito dos crimes cometidos em Chicago, a face do assassino se tornou notória em todo canto. Jornais de costa a costa estampavam as notícias sanguinolentas e a fotografia do homem responsável por tudo aquilo. Holmes tentou se disfarçar e usar seu incrível talento para criar identidades falsas, mas ele acabou sendo reconhecido em Boston. Um cerco a ele se fechou e agentes da Pinkerton se mantinham no seu seu encalço até que ele acabou sendo capturado. Na ocasião ele se entregou e como sempre, muito simpático disse que não pretendia reagir. Depois de devidamente fichado, Holmes foi transportado de trem de volta a Philadelphia, sob forte esquema de segurança em virtude de ameaças à sua vida. Apesar de tudo, ele ainda se divertia com a situação, afirmando se sentir como uma celebridade em meio a todos os cuidados que lhe eram dispensados.

O julgamento de Herman Mudgett começou na Philadelphia um pouco antes do Halloween de 1895. Ele durou apenas seis dias mas foi um dos acontecimentos mais sensacionais do ano. Os jornais fizeram uma cobertura completa relatando uma vez mais todos os crimes, os acontecimentos e detalhes daquilo que foi chamado de "Crimes do Século perpetrados pela mais maligna mente criminosa de todos os tempos". Holmes reagiu conforme o esperado de uma celebridade: relatou seu ponto de vista, chorou e tentou conquistar a simpatia do juri. Dispensou seus advogados duas vezes, fez ele mesmo a exposição do caso e o fechamento, desafiou a autoridade do juiz e ridicularizou o promotor. Não há transcrições do julgamento, mas testemunhas afirmam que Holmes foi confiante, esperto e carismático. Talvez se o volume de provas reunidas contra ele não tivesse sido tão grande, bem como a comoção pública a respeito do caso, ele tivesse se safado. O juri deliberou por apenas duas horas e retornou com a sentença de culpado. Mais tarde, os jurados disseram que haviam concordado em apenas dois minutos, mas que preferiram esperar para "manter as aparências".

O mapa do Castelo dos Horrores


Em 30 de novembro, o Juiz acatou a sentença de morte. O caso foi levado à Suprema Corte que confirmou o veredito e ao governador que se recusou a intervir. A data da execução foi marcada para 7 de maio de 1896, apenas nove dias depois dele completar 36 anos de idade.

A essa altura, s detalhes sórdidos sobre o caso já eram de conhecimento público que reagia com um misto de raiva, horror e fascínio, especialmente em Chicago, onde a maior parte daqueles atos haviam sido cometidos. Holmes aceitou fazer uma entrevista relatando em detalhes a o caráter depravado e perverso de seus atos. Isso garantiu a ele notoriedade ainda maior e reconhecimento com um dos mais odiados criminosos de seu tempo. 

Ele não demonstrou arrependimento em momento algum. Pouco antes da execução, ele foi visitado por dois padres católicos que vieram até sua cela e lhe deram a comunhão, embora ele tenha se recusado a pedir perdão pelos seus pecados. Ele foi conduzido de sua cela para o patíbulo já vestindo um capuz preto que escondia sua face. O diretor da cadeia temia que Holmes pudesse ser desrespeitoso com as testemunhas presentes e por isso, sequer perguntou a ele por suas últimas palavras.

Quando o alçapão abriu sob os pés de H. H. Holmes sua cabeça se moveu para um lado, os dedos se contorceram e os pés dançaram no ar por vários minutos. Embora a força da queda tenha sido suficiente para quebrar seu pescoço e a corda tenha entrado na sua pele quase a ponto de cortá-la, o coração de Holmes continuou batendo. Guardas chegaram a cogitar se deveriam agarrar seus pés e puxá-lo para baixo para abreviar o espetáculo macabro, mas não o fizeram. Ele levou quase 15 minutos para morrer.

Na época houve uma série de histórias sinistras associadas a execução de Holmes. Uma dessas lendas é que no exato momento em que o corpo caiu no cadafalso um raio riscou o céu. Mas isso não foi tudo... uma das lendas mais duradouras é que Holmes teria deixado uma maldição sobre aqueles que o executaram.

Um dos primeiros livros a respeito dos crimes
Pouco tempo depois do corpo de Holmes ser enterrado sob duas toneladas de concreto, a primeira morte aconteceu. O primeiro a morrer foi o Dr. William K. Matten, o legista que foi testemunha chave da promotoria, responsável por descrever a perversidade de algumas das mortes. Ele morreu repentinamente apenas uma semana após a execução, vítima de uma infecção. Mais mortes se seguiram, incluindo a de outro legista que auxiliou Matten. O Juiz Ashbridge, que sentenciou Holmes à morte morreu alguns meses depois. Ambos subitamente de doenças que não haviam sido previamente diagnosticadas. Mas não para por aí! O superintendente da prisão onde Holmes foi preso cometeu suicídio três meses depois. O pai de uma das suas vítimas morreu em uma explosão de gás e o Detetive responsável por iniciar a perseguição a Holmes, Frank Gyer também ficou muito doente.

Uma Companhia de Seguros que Holmes usava frequentemente em suas fraudes pegou fogo. Tudo no escritório da Companhia foi destruído, exceto uma apólice com a assinatura do assassino que o dono havia mandado emoldurar. Muitos dos que acreditavam na maldição viram nisso uma prova de que algo maligno estava agindo. Quatro meses após a execução, um dos padres que visitaram o condenado na cela, morreu durante uma missa. O legista que conduziu a autópsia disse que a causa da morte era envenenamento por ureia. O Chefe do Juri que condenou Holmes morreu algumas semanas mais tarde em um acidente elétrico enquanto tentava conectar fios. Nos anos que se seguiram, várias pessoas envolvidas direta ou indiretamente em sua captura e e condenação encontraram mortes violentas e algumas vezes bizarras. Para alguns, a maldade de Holmes continuava envenenando tudo e todos mesmo após sua morte.

Até os dias atuais, H.H. Holmes é considerado um dos mais terríveis assassinos em série da história.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Linha do Tempo dos Mythos de Cthulhu na Terra: A Era das Civilizações Esquecidas


Neste artigo damos continuidade com a nossa Linha do Tempo dos Mythos de Cthulhu na Terra. Para os que não leram a primeira parte, aconselhamos fazê-lo antes de dar sequência nessa leitura, ela pode ser acessada no link abaixo. 


Esta segunda parte é marcada pelo surgimento de povos, impérios e civilizações ancestrais, a maioria delas esquecida ou considerada como mera lenda. Tenham em mente que muitas delas podem sequer ter existido ou sua existência decorre de mera especulação ou de explorações na Terra dos Sonhos. As datas também são aproximadas, é impossível precisar datas e cravar certeza absoluta nas informações. A grande maioria desses povos foi literalmente "apagado da história", sendo desconhecidos pela Arqueologia contemporânea.

Percebe-se que nesse período a maioria dos Grandes Antigos se encontravam dormindo, presos pelo Alinhamento Estelar que segue mantendo-os cativos. Sua atividade, portanto, é bem mais limitada do que nos primórdios quando vagavam pelo planeta. Ainda assim, muitos deles, em companhia dos Deuses Exteriores se apresentam como uma influência que altera o destino de incontáveis civilizações. 


PARTE 2:
A ERA DAS CIVILIZAÇÕES ESQUECIDAS

1 milhão de anos atrás: Início da Era clássica da Hiperborea. Povos primitivos pré-humanos passam a ocupar a região. 

A avançada civilização de Zobna é fundada. Pouco se sabe a respeito desse povo que ergueu cidades estado e que desapareceu sem deixar sinal. Eles seriam , no entanto, os antepassados de Lomar que se estabelecem no polo norte.

850,000 anos atrás: Um Rei de Lomar está entre aqueles que trocam de mente com membros da Grande Raça de Yith, no passado distante do planeta. Esse contato permite que a civilização de Lomar aprenda a respeito de ciência e misticismo. 

750,200 anos atrás: Os tempos do Grande Feiticeiro Eibon, o maior de todos os magos da Hiperbórea. Durante sua existência, ele venera Tsathoggua que lhe oferece imenso conhecimento místico. Eventualmente Eibon é banido da Hiperbórea por sacerdotes de Yhoundeh. Ele desaparece depois de completar 132 anos, supostamente se exilando em algum planeta ou dimensão. Seu assistente Cyron Varaad reúne muitos de seus trabalhos na primeira cópia do célebre Livro de Eibon. Cyron também escreve o Vita Ivonis, uma biografia do grande mestre.


750,000 anos atrás: As Grandes Civilizações polares enfrentam sua destruição quando o polo magnético do planeta é drasticamente alterado por um fenômeno natural.

A Raça Anciã se refugia nas profundezas oceânicas em um último grande êxodo. Elas deixam para trás suas grandiosas cidades que se tornam ruínas cobertas pelo gelo polar e que aos poucos são esquecidas. 

O povo pré-humano de Lomar se espalha pelo norte dando origem aos antepassados mais distantes dos Inuit (povos esquimós).

A Civilização Hiperbórea se fragmenta em busca de refúgio e se espalha pelo planeta carregando consigo fragmentos de seu conhecimento, ciência e misticismo.

Os Hiperbóreos se fixam no Continente Turiano.

Alguns Voormis veneram Itaqua oferecendo sacrifícios para o Deus da Tempestade. Os Voormis decaem no estágio final de selvageria tornando-se pouco mais do que animais.


Indivíduos do Povo Serpente se movem para a Ilha de Lemúria onde passam a ser conhecidos como Reis Dragões. Isso marca o início do poderoso Império da Lemúria.

Tsathoggua se retira para as profundezas da Terra passando a habitar os recessos escuros de N'Kai servido pela sua Prole Amorfa.

500,000 anos atrás: A Civilização do Povo Serpente se fixa na porção ocidental do Continente Turiano. 

Raças de pré-humanos se rebelam contra os Reis Dragões. Os humanos vencem e o Povo Serpente, derrotado, é obrigado a escapar para o sul sob constante perseguição. Muitos entram em hibernação voluntária para sobreviver.

420,000 anos atrás: O Império humano da Lemúria se forma. Seu orgulhoso povo coloniza outras massas continentais, entre as quais a Atlântida.

400,000 anos atrás: Fundação do Império de Atlântida.

300,000 anos atrás: Por volta desse período uma fêmea dos Abissais chamada Pht'thya-l'yi se torna Mãe Hidra, a mais poderosa das fêmeas da espécie.

O Grande Cthulhu que permanece morto, sonhando com seu despertar se torna o Deus principal da Raça Abissal e passa a ser venerado em todas as cidades submarinas. O culto a outros deuses é proscrito e se converte em tabu.


200,000 anos atrás: Uma civilização humana surge na Ilha de Mu dando origem ao Período dos Nove Reinados. O apogeu da Civilização ocorre quando o povo de Mu passa a ter controle sobre o clima.

Vários cultos começam a surgir em Mu, alguns venerando Deuses Negros e poderosos, incluindo Shub-Niggurrath, Nub e Yeb, com sectos rendendo sacrifícios e homenagens a Ghatanothoa, Ythogtha, e Zoth-Ommog.

Em colônias de Mu ocorrem também os primeiros casos de miscigenação entre humanos e Abissais.

173,148 a.C: O Ano da Lua Vermelha. Ghatanothoa, o Senhor do Vulcão se converte no Deus mais importante de Mu, após a destruição do Culto e do templo dedicados a Shub-Niggurath.

Em algum momento nesse período, os terríveis Lloigor são atraídos para a Terra e passam a se alimentar de energias psíquicas de seres humanos. Muitos deles se tornam seguidores de Ghatanathoa e se misturam a religião local chefiando cultos.

163,844 a.C: Um Culto dedicado ao Grande Cthulhu surge em uma das ilhas remanescentes do Poderoso Império que ele construiu no passado remoto. A Seita, entretanto acaba sendo aniquilada pelo povo de Mu.

161,844 a.C: O Culto de Ghatanothoa se torna tão poderoso e influente que todas as outras religiões são proscritas em Mu.

Zanthu, o último Grande-sacerdote de Ythogtha, tenta despertar seu Deus e acaba destruindo Mu por completo. Ele foge para o Platô de Tsang onde acaba se tornando um eremita. Em reclusão, escreve suas memórias e experiências místicas que darão origem aos Tabletes de Zanthu, um importante tratado esotérico.

100,000 anos atrás: Zhar se materializa na Terra e passa a habitar o Platô de Tsang na atual China. Lá surgem os antepassados dos Tcho-Tcho, por sua vez descendentes dos Miri-Nigri.

80,000 anos atrás: Mãe Hidra, passa a viver em Y'ha-nthlei e reinar ao lado de Dagon como a senhora da cidade submarina.

60,000 anos atrás: Indícios da presença de seres não-humanos habitando subterrâneos e se alimentando de cadáveres. Estes Ghouls, possivelmente vieram da Terra dos Sonhos e se estabeleceram fisicamente no mundo desperto.

50,000 anos atrás: Uma raça de grandes seres humanoides não-humanos passa a viver na atual África do Sul.

30,000 anos atrás: Feiticeiros humanos descobrem a existência de Yog-Sothoth.

20,000-18,000 anos atrás: O Segundo Império de Atlântida. A Civilização continental descobre e faz contato com o Deus Exterior Nyarlathotep. Eles passam a venerar o Caos Rastejante sob várias formas e nomes. Uma casta de cientistas-feiticeiros obtém enorme influência e recebe como presente de Nyarlathotep vasto conhecimento nos campos da tecnologia e magia.

20,000 anos atrás: Muitos reinos poderosos surgem no Continente Turiano, incluindo Commoria, Grondor, Kamelia, Thule, e Verulia.

Valusia é tomada por humanos.

O Rei Kull, descendente de atlantes se converte no mais poderoso monarca do período, assumindo o trono de Valusia. Entre os seus feitos está a vitória definitiva sobre os remanescentes do atávico Povo Serpente.


20,000 anos atrás: O auge da civilização subterrânea de K’n-yan.

18,000 anos atrás: Um Imenso Cataclismo destrói o velho mundo, marcando o início da Era Hiboriana.

O Continente de Atlântida afunda sob as ondas deixando apenas algumas poucas ilhas como Bal-Sagoth e Poseidonis que se tornam os últimos bastiões de conhecimento dos antigos atlantes.

Após perder o contato com os habitantes de Atlântida, o povo de K'n-yan recebe conhecimento limitado do mundo exterior pelos próximos 20,000 anos. 

Os sobreviventes da Lemúria se degeneram em povos bárbaros.

16,000 anos atrás: O Grande Antigo Bokrug é trazido à Terra e ajuda a fundar o Reino de Ib em algum lugar do atual Oriente Médio.

15,500 anos atrás: Na porção oriental do Continente Turiano, os Lemurianos se libertam da escravidão. Eles viajam para o oeste onde fundam os Reinos de Acheron e a Estígia. Em contato com membros do Povo Serpente, eles acabam adotando suas práticas e veneram seus deuses negros, entre os quais Yig, Nyarlathotep, Sebek, Set Gol-Goroth

Os estígios descobrem os muitos usos da "lótus negra", um planta sagrada.


15,000 anos atrás: Os Cimérios , uma feroz tribo de bárbaros se estabelece nas montanhas centrais do Continente Hiboriano. Um de seus chefes tribais Crom-Ya é mais tarde endeusado e passa a ser o poderoso Crom.

15,500 anos atrás: Exilados lemurianos passam a adorar Nyarlathotep que lhes ensina os mistérios da feitiçaria. Eles passam a ser a casta superior em Acheron, uma nação governada por feiticeiros.

Nessa época, o sinistro Livro de Skellos é redigido.

13,000 anos atrás: Os Reinos Hiborianos atingem o seu auge com o surgimento dos assim chamados Reinos Civilizados da Aquilonia, Argos, Britunia, Corintia, Koth, Nemedia, Ophir, e Zingara.

Acheron sofre invasões de seus vizinhos e é aniquilado. Poderosos feiticeiros se espalham então pelos reinos carregando consigo conhecimento místico. A maioria deles se estabelece na misteriosa Estígia. 

12,000 anos atrás: Os Tempos de Conan da Ciméria, bárbaro e aventureiro que através da espada conquista o poderoso Reino da Aquilônia e escreve seu nome como o mais poderoso rei hiboriano.

10,600 anos atrás: A Era Hiboriana entra em declínio a medida que os reinos e povos travam guerras. Aquilonia e Hiperbórea se enfrentam, os Pictos e Hirkânianos levam o caos aos reinos centrais deixando um rastro de destruição e morte, os Vanir aniquilam a Estígia. Os Aesir se estabelecem na Nemédia, e os Cimérios combatem os Hirkânianos antes de se retirar para o leste.


9.550 a.C: Um Imenso cataclismo destrói o Mundo Hiboriano. Várias terras são tragadas pelos mares enquanto massas continentais vêm à superfície. O mapa do planeta assume uma configuração similar a atual.

Poseidonis e Mu afundam abaixo sob as ondas.

Alguns teóricos relacionam esses incidentes com o lendário Dilúvio que teria coberto o mundo e que é citado em diferentes culturas.

9,400 anos atrás: A Cidade de Sarnath é fundada na região da Mesopotamia por um grupo de humanos. Ela fica próxima da cidade de Thuum'ha que pertence ao Reino de Ib.

O povo de Sarnath passa a rivalizar os habitante de Ib.

9,300 anos atrás: Fundação do Império de Khemi, criado por descendentes dos Estígios.

9,000 anos atrás: Os homens de Sarnath destroem Thuum'ha e o Reino de Ib.

8,500 anos atrás: Em G'Harne, o colossal Ctônico chamado Shudde M'ell se torna uma divindade e passa a ser reverenciado como um Grande Antigo.


8,000 anos atrás: Bokrug, Deus de Thuum'ha, faz com que Sarnath seja completamente devastada. Nenhum homem, mulher ou criança é poupado, nenhum prédio escapa da devastação e Sarnath desaparece da face da Terra.

8,400 anos atrás: Os Tcho-Tcho passam a adorar a estátua de Chaugnar Faugn na Ásia Central, este povo não-humano se espalha pelo coração do continente.

7,000 anos atrás: A queda do Império de Khemi, os antepassados dos egípcios se tornam os novos governantes e assimilam costumes e tradições dos derrotados.


A linha do tempo, prossegue com a terceira parte: A Era do Homem até o Fim dos Tempos.