domingo, 10 de fevereiro de 2019

H.H. Holmes - A terrível história do Monstro da Cidade Branca


"Eu nasci com o demônio dentro de mim. Eu não posso evitar o fato de que sou um assassino, não mais do que um poeta pode evitar ter inspiração para compor" 

Dr. H. H. Holmes, confissão, 1896 


No ano de 1883, a cidade de Chicago foi o palco da espetacular Feira Internacional - A Exposição de Colombo, celebrando o aniversário da descoberta da América por Colombo. Era um tempo de grande desenvolvimento para a cidade e milhares de pessoas vieram de todos os cantos do país e do mundo para visitar a feira. Infelizmente, a lista de "desaparecidos" após o término desta era muito grande e a polícia posteriormente tentou traçar os passos dessas pessoas para entender como e onde elas haviam desaparecido. Nem tudo era lindo e brilhante conforme as propagandas da Exposição na "Cidade Branca". Havia um demônio à solta em uma das maiores cidades americanas. O primeiro verdadeiro assassino em série da América, enganava os visitantes e os atraía para seu "hotel", onde eles desapareciam - para jamais serem vistos novamente.

Hoje em dia, a vizinhança de Englewood é parte da cidade de Chicago, mas no final do século XIX, ela era uma vizinhança suburbana tranquila e independente no sul da Cidade dos Ventos. Era um lugar pacífico, o lar de donas de casa e comerciantes de classe média. Entre essas pessoas decentes vivia uma mulher chamada "Sra. Holden". Ela era viúva de um médico e administrava uma farmácia na rua 63 com a Wallace. O trabalho era pesado demais para uma senhora sozinha de meia idade, uma vez que era a única farmácia da região e atraia uma enorme clientela naqueles dias. Ela ficou muito feliz, portanto, ao encontrar um assistente que a ajudasse a tocar o negócio, o Dr. Henry H. Holmes. Ele logo se tornou uma figura conhecida e respeitada em Englewood.

Na época, um farmacêutico tinha uma função importante, prescrevendo e produzindo drogas e remédios para o consumo da população. O Dr. Holmes parecia ter enorme conhecimento das fórmulas e prescrevia remédios com naturalidade. Seus longos dedos moviam-se com a habilidade de um cirurgião, sua bela face parecia sempre simpática e seus olhos azuis cintilavam quando ele atendia os clientes. Ele era tido como um pilar da comunidade, um cavalheiro civilizado e educado. Considerado bem humorado, ele trouxe vários novos clientes para a farmácia, especialmente mocinhas da vizinhança que confiavam nele para curar suas aflições. Além disso, ele mantinha os livros contábeis em ordem. Ele era, o perfeito assistente para a proprietária.

Não demorou muito até que Holmes conseguisse se tornar muito mais um gerente do que um simples atendente. Entretanto, ele passava mais tempo conversando com os clientes do que produzindo as drogas. O Dr. Holmes se tornou uma figura familiar na vizinhança e alguém de total confiança.  

Os negócios continuaram melhorando, deixando a Sra. Holden muito satisfeita. Mas Holmes ainda não estava feliz, uma vez que planejava expandir os negócios. Em meados de 1887, a Sra. Holden desapareceu sem deixar rastro. Supostamente ela havia decidido do dia para a noite deixar Chicago e se mudar para o Oeste. Holmes anunciou que havia comprado a farmácia que pertencia à viúva e que pretendia realizar algumas mudanças no estabelecimento.


O Hotel de H.H. Holmes, também chamado de Castelo dos Assassinatos
Dois anos se passaram, ele comprou um grande terreno atrás da farmácia e deu início a construção de um edifício que planejava transformar em hotel. Ele, é claro, havia ouvido falar da Exposição Mundial que aconteceria, e alojamento para os visitantes eram algo muito necessário. Não há registros de como Holmes pretendia chamar o prédio, mas as gerações de policiais, pesquisadores de crimes e residentes de Englewood, passaram a conhecer o lugar por um nome sinistro e aterrorizante - o Castelo dos Assassinatos.

Henry H. Holmes, cujo nome real era Herman W. Mudgett, nasceu em 1860 em Gilmanton, New Hampshire, onde seu pai era um respeitado cidadão que trabalhava numa agência postal por mais de 25 anos. Cedo em sua vida, Mudgett assumiu uma nova identidade e passou a chamar a si mesmo de H.H. Holmes, nome com o qual cursou a universidade de medicina. Ele sempre foi uma criança agradável e um adolescente charmoso, mas anos mais tarde, parentes lembrariam que ele era cruel com animais e crianças mais novas. Ainda assim, Holmes foi um aluno brilhante e um excelente estudante, formado com honras.

Em 1878, Holmes casou com Clara Lovering, a filha de um próspero fazendeiro de New Hampshire, e no mesmo ano começou a estudar medicina em uma pequena universidade em Vermont. Ele pagou seus estudos com uma pequena herança recebida. Holmes foi transferido para outra instituição depois que seu nome foi envolvido em um estranho caso de cadáveres que haviam desaparecido do laboratório. Ele também foi acusado de ter desfigurado cadáveres e esconder partes deles como uma forma de brincadeira macabra. Holmes foi acusado de ter recebido um seguro de vida, fazendo-se passar por parente de mais de uma pessoa falecida em acidente. 


Poucos meses depois de completar seus estudos, ele realizou uma fraude de seguro que lhe rendeu um bom dinheiro, o que lhe permitiu seguir para Nova York. Ele decidiu abandonar a esposa que jamais o viu novamente.


Depois disso, Holmes sumiu por alguns anos. O que ele fez ao longo de um período de seis anos não se sabe, e nem os Detetives da Prestigiosa Agência Pinkerton conseguiram descobrir, quando começaram a investigar sua vida pregressa. Por cerca de um ano e meio ele trabalhou em Nova York, realizando consultas e fazendo cirurgias menores. Ele também seduziu e roubou a esposa de um fazendeiro, deixando-a grávida e sem um tostão.

A face do assassino
Holmes não era uma boa pessoa, embora todos o julgassem confiável e adorável.

Em 1885, quando chegou a Chicago, não demorou muito até que ele se casasse com Myrtle Belknap, a única filha de um rico comerciante que desconfiava da fala mansa e manipuladora de Holmes. Embora a união tenha resultado em uma filha, ela era considerada incomum. Myrtle morava em uma cidade distante, enquanto Holmes passou a viver em Chicago. Os dois se viam apenas esporadicamente e nas ocasiões em que se encontravam ele era sempre muito distante e pouco atencioso com ela. O casamento terminou em 1889.

Foi pouco depois de casar com Myrtle que Holmes passou a trabalhar na farmácia em Englewood e teve sua carreira meteórica. A construção do hotel seria seu passo mais ambicioso, que renderia um retorno financeiro considerável.

Nessa época, Holmes conheceu um de seus comparsas, um homem chamado Benjamin Pietzel, que também vivia de aplicar pequenos golpes. Ele continuou trabalhando na farmácia depois de tê-la comprado e acrescentou a ela um balcão onde vendia jóias. Em 1890, ele contratou Ned Connor como relojoeiro e joalheiro. O sujeito tinha uma bela esposa chamada Julia e uma filhinha de nome Pearl. A família aceitou a proposta de Holmes de ocupar um quarto nos fundos da Farmácia. A beleza de Julia capturou o interesse de Holmes que passou a assediá-la de modo muito direto. A situação era tão incômoda, que Ned acabou pedindo divórcio e deixou Chicago logo em seguida.

Holmes decidiu acolher a mulher e a criança que ele tratava como sua própria filha. Entretanto, o farmacêutico secretamente fez uma apólice de seguros para Julia e Pearl, nomeando a si mesmo o único beneficiário.

Apesar dos negócios irem bem na Farmácia, as obras para a construção do Hotel consumiam a maior parte de seus recursos. Não foi por acaso que o prédio recebeu o apelido de "Castelo". A fachada tinha três andares e era construído com alvenaria e pedra. A estrutura tinha mais de 60 aposentos que serviriam como quartos para alojamento. Holmes foi o próprio arquiteto, responsável por desenhar a planta e supervisionar cada aspecto da construção. Ele também contratava e despedia os operários. Além do desenho excêntrico do prédio, o lugar tinha corredores que terminavam em becos sem saída, portas que não davam em lugar nenhum, alçapões, escadas secretas, quartos sem janelas, rampas que levavam para o porão e portas que só podiam ser abertas por fora. Tudo muito estranho e pouco prático, ainda mais em um prédio destinado a receber visitantes. Para alguns ele parecia um labirinto, para outros lembrava uma masmorra.


Uma sala de Dissecção do século XIX
O primeiro andar do prédio possuía lojas dedicadas ao comércio, enquanto os superiores seriam usados pelos hóspedes. Holmes também reservou um aposento no segundo andar para servir de escritório e administração.

Hoje sabemos que o projeto de Holmes desde o início foi idealizado com o objetivo de satisfazer suas fantasias homicidas. Ele criou quartos que funcionavam como "câmaras de gás", onde as vítimas podiam ser mortas com uma mistura de gás venenoso dispersado no interior do aposento. Outras câmaras eram equipadas com placas de aço que eram aquecidas por maçaricos tornando o piso e as paredes perigosamente quentes. No porão, Holmes construiu uma mesa de dissecação idêntica à que existia em universidades e seu próprio crematório. Havia ainda uma banheira de ácido e piscinas que podiam ser usadas para dissolver cadáveres rapidamente. Além disso, haviam pequenas celas com trancas à prova de arrombamento e com tecido nas paredes para absorver ruídos. Essas celas eram usadas por Holmes para isolar seus prisioneiros e mantê-los afastados. Quando ele desejava torturar esses prisioneiros ele podia acender luzes fortes, modular a temperatura ou acionar alarmes sonoros barulhentos. Vítimas podiam ser mantidas cativas por meses até as suas mortes, e de fato, tal coisa aconteceu repetidas vezes.

O Castelo foi completado em 1891 e pouco depois, o proprietário anunciou que iria alugar os quartos para turistas que vinham visitar a Feira Mundial. Assume-se que muitos destes turistas jamais retornaram para casa depois da Feira, mas não há como saber ao certo. Holmes estava sempre em busca de pessoas viajando sozinhas, com dinheiro e que não haviam dado informações a respeito de onde ficariam hospedadas e por quanto tempo. 

Porém, esse não era o único método de Holmes encontrar suas vítimas. Um grande número de vítimas do sexo feminino vieram através de anúncios falsos publicados nos classificados de pequenos jornais locais. Holmes oferecia uma série de pequenos trabalhos para jovens mulheres e prometia um salário justo. Ele oferecia quartos para essas moças e as instruía a depositar seus salários junto com o dinheiro do hotel. Na verdade, ele usava esse expediente para coletar o dinheiro de suas funcionárias. 

Holmes era um homem extremamente cruel, fascinado pela noção de infligir dor e tortura. Ele adorava ouvir as súplicas de suas vítimas e as sujeitava a humilhações, prometendo que se elas se submetessem a ele, ganhariam a liberdade. No entanto, ele jamais pensou em permitir a fuga de seus prisioneiros. O maníaco mantinha os cativos nas celas do porão e as observava através de pequenos "olhos mágicos" ocultos. Ele se divertia conversando com elas, acionando as buzinas e alarmes para acordá-las de surpresa, modulando a temperatura das celas para deixá-las quentes ou congelantes ou ainda abrindo o registro de gás para que s prisioneiros chegassem perto do sufocamento.

Uma visão do que seria o porão do Castelo
Por vezes, Holmes liberava no interior da cela um gás anestésico que fazia o prisioneiro dormir profundamente. Este então era removido da cela e levado para um dos outros aposentos que o maníaco reservava para suas experiências com tortura e morte. Muitas das suas vítimas eram dopadas e acordavam amarradas e amordaçadas em uma cadeira ou mesa cirúrgica, impotentes diante de seu algoz. Supõe-se que Holmes usava suas habilidades como cirurgião para dissecar suas vítimas, por vezes, sem aplicar qualquer anestesia ou supressor de sentidos. Ele também se divertia levando duas vítimas simultâneamente para essa sala de autópsia. Enquanto uma passava pelas cirurgias, ele mantinha a outra assistindo impotente a todo procedimento, prometendo que ela seria a próxima.

O horror dessas vítimas só pode ser imaginado...

É surpreendente que Holmes tenha conseguido manter a sua operação de morte em segredo por tantos anos, mesmo com o hotel recebendo um fluxo constante de visitantes. Ele teria matado um número desconhecido de pessoas, a maioria mulheres, em seu Castelo dos Horrores. Ele confessou 28 assassinatos, embora, muitos acreditem que o número possa ser muito mais alto. Alguns pesquisadores sugerem que ele poderia ter facilmente matado mais de uma centena de pessoas. O nível de planejamento e preparação para a realização de cada morte beirava a paranoia. Holmes pensava em cada detalhe e se precavia para não ser capturado. Os preparativos eram parte de sua fantasia psicótica e lhe rendiam uma satisfação doentia. Tendo provado do "fruto proibido", ele não tencionava parar nunca de cometer assassinatos cada vez mais detestáveis.

Não resta dúvidas de que ele foi um dos assassinos em série mais metódicos e prolíficos da História Americana. O Centro de Pesquisas comportamentais do FBI, dedica um curso para novos agentes que se baseia na carreira homicida de Holmes, o considerando um dos assassinos mais terríveis de que se tem notícia.

Em 1893, o já rico empreendedor H. H. Holmes conheceu uma moça chamada Minnie Williams e se apresentou a ela como um inventor, sob a identidade falsa de Harry Gordon. Minnie era herdeira de uma fortuna considerável no Texas e isso logo chamou a atenção do maníaco que viu ali uma oportunidade de ganhar ainda mais dinheiro. Holmes se aproximou dela e depois de algumas semanas a pediu em casamento usando sua identidade falsa. Ele ainda era casado com Julia Connor e cuidava da pequena Pearl, mas pouco depois de seu casamento as duas simplesmente desapareceram. Certo dia, quando Ned Connor visitou Chicago a procura de sua ex-esposa e filha, ouviu de Holmes que elas haviam se mudado para Michigan sem deixar endereço.

Em sua confissão, Holmes admitiu que Julia havia morrido em decorrência de um aborto realizado por ele próprio. Julia havia engravidado, e Holmes disse que não iria aceitar a criança. Durante o procedimento para terminar a gravidez, ele matou a esposa e o feto. O médico teria explicado que "estava cheio de Julia" e que "precisava de tempo para ficar com Minnie". Os corpos foram posteriormente descartados no crematório do porão. Havia apenas o problema da menina Pearl de sete anos, que ele havia criado como sua filha até então. Holmes resolveu a questão matando-a com veneno de rato dissolvido em leite. Sem demonstrar qualquer sombra de remorso, ele contou em sua confissão que Pearl também foi cremada no porão.

A Feira Mundial de Chicago
Minnie Williams se mudou para o Castelo e morou lá por mais de um ano. É provável que ela tenha sabido mais a respeito dos crimes de Holmes do que qualquer outra companheira dele. Para alguns ela teria instigado o marido a matar certas pessoas, sobretudo jovens mulheres que flertavam com ele. Uma dessas vítimas foi uma jovem de 17 anos chamada Emmeline Cigrand, que conseguiu emprego no hotel e de quem Minnie tomou enorme antipatia. Holmes confessou ter trancafiado a garota em uma de suas celas à prova de som, onde a violentou. Minnie descobriu e enciumada, disse que o marido teria de "dar um jeito naquela bobagem que havia feito" do contrário o abandonaria. Nessa ocasião, ele teria usado um equipamento especial que havia desenvolvido. Sempre curioso a respeito de quanto sofrimento o corpo humano podia suportar, ele criou uma mesa que distendia os membros até rasgar os músculos.

Holmes e Minnie foram parceiros em vários golpes, muitos dos quais recorrendo a fraudes de seguro e assassinatos para obter vantagens. Eventualmente ele acabou se cansando da mulher e decidiu também se livrar dela para coletar um seguro que fez em seu nome. O corpo de Minnie jamais foi encontrado, supostamente foi dissolvido por Holmes em uma banheira de ácido no porão do Castelo. 

Depois da morte de sua esposa, Holmes voltou a aplicar seus golpes na companhia de seu velho comparsa Ben Pietzel. Ele forjou pelo menos cinco esquemas contra seguros e embolsou um bom dinheiro na Philadelphia e St. Louis. Eventualmente, Holmes planejou um novo golpe no qual a vida de Pietzel foi segurada em quase 20 mil dólares, uma verdadeira fortuna para a época. O plano era forjar a morte de seu comparsa em uma explosão, colocar o cadáver de um vagabundo no lugar e alegar que ele havia morrido no acidente. A esposa de Pietzel, Georginna seria a beneficiada direta e receberia o seguro.

Mas Holmes tinha outros planos, ao invés de dividir o dinheiro, ele matou seu parceiro. Em seguida, convenceu Georgianna a ir buscar o seguro explicando que seu marido estava em segurança no Canadá esperando por eles. Holmes manipulou a mulher e fez com que ela deixasse três de seus cinco filhos (Alice, Nellie e Howard) na sua custódia, como garantia de que ele iria receber sua parte. Quando a seguradora suspeitou de que pudesse haver algum esquema, Georginna foi detida e Holmes escapou para o Canadá levando consigo as crianças.

Frank Geyer, um detetive da famosa Agência Pinkerton foi contratado para investigar as atividades de Holmes e encontrar as três crianças desaparecidas. Seguindo uma série de pistas deixadas pelo caminho, ele acabou localizando uma casa que Holmes havia alugado em Toronto na companhia de três crianças. Infelizmente, não havia ninguém lá, mesmo assim, ele decidiu revistar a casa em busca de alguma pista. Geyer achou mais que isso: no porão encontrou os corpos em decomposição de duas meninas que haviam sido enterrados sob o piso. Mais tarde o maníaco confessou ter trancado Alice e Nellie em um baú de viagem no qual fez um furo e introduziu uma mangueira conectada a uma saída de gás. As duas crianças foram asfixiadas e enterradas no porão de uma casa que ele estava alugando em Toronto.

Geyer continuou buscando o paradeiro de Holmes que teria seguido para Indianápolis após voltar aos Estados Unidos. Ele encontrou outro endereço, uma cabana na qual um homem havia se hospedado na companhia de um menino. Lá ele encontrou dentes e fragmentos de osso calcinados em uma lareira. Holmes havia matado o menino, cortado seu corpo com facas e então o queimou até virar cinzas.

Um jornal da época trata Holmes como "O Arqui-demônio"
Após essa descoberta macabra, Holmes foi declarado como procurado pela lei. A polícia recebeu autorização para revistar sua residência em Chicago em busca de pistas que pudessem ajudar a determinar seu paradeiro. Nenhum dos policiais envolvidos na batida ao hotel esqueceriam o que encontraram naquele dia!
Eram detetives devotos a casos graves e acostumados com a brutalidade do período, contudo, nem eles estavam preparados para aquele horror. O segundo andar era um verdadeiro labirinto de passagens e corredores, com portas ocultas e passagens secretas. Os investigadores levaram alguns instantes para compreender a utilidade dos quartos com várias trancas e fechaduras externas. Em uma placa de ferro reforçado eles encontraram uma impressão digital sangrenta deixada por uma mulher, o único sinal de que ali havia sido mantida cativa. Alguns quartos não tinham janela e outros davam para escadarias e rampas secretas que conectavam com o porão. Impressionados coma descoberta os detetives começaram a descer para o porão onde descobriam a extensão da loucura de Holmes.

O porão era uma verdadeira masmorra medieval, uma câmara de tortura projetada pela mente de um maníaco. Os homens se detiveram no laboratório de dissecação de Holmes, observando os aparelhos usados para cirurgias e tortura, encontraram o crematório saturado de restos de ossos e cinzas e as banheiras com restos de ácido de dissolução. Uma busca nas gavetas do crematório revelaram dentes e alguns objetos pessoais de Minnie Williamns, além de botões e zíperes. No interior de uma gaveta, um detetive achou uma coleção de cabelos femininos cuidadosamente separados em tranças.

Havia ossos, pedaços de pele e órgãos humanos acondicionados em vidros de pickles guardados em grandes baús. Estes provavelmente eram vendidos para faculdades e universidades de medicina para serem usados em aulas de anatomia. Holmes tinha vários contatos em instituições médicas. Os restos de Ned Connor foram encontrados em uma banheira semi dissolvidos pela ação de um poderoso ácido. 

Em 20 de julho operários foram trazidos para fazer uma escavação nas fundações do prédio, onde acreditavam poderiam ser encontrados mais ossadas. O fedor de degradação era insuportável e os homens se revezavam em turnos de no máximo duas horas para não sucumbir aos efeitos insalubres. Um dos homens um trabalhador chamado Kannon teria enlouquecido com a descoberta de um armário contendo esqueletos humanos macabramente ainda vestidos com trajes femininos. Em determinado momento, um dos operários acertou um cano com uma picareta e gás rapidamente se espalhou pelo porão inteiro. Os homens tiveram tempo de sair antes que uma enorme explosão fizesse o prédio inteiro tremer. Parte do porão desabou e a explosão causou dano na rua inteira.

Ironicamente a explosão revelou para o público alguns dos corredores e câmaras usadas por Holmes, o que atraiu uma verdadeira multidão de curiosos que desejavam ver com seus próprios olhos aquilo que os jornais batizaram de "o lugar mais aterrorizante da América". Supõe-se que muitos objetos tenham sido removidos por curiosos, inclusive ossos e restos humanos vendidos posteriormente como souvenir. O povo de Chicago estava em choque com as descobertas e com as coisas que eram removidas do porão. Os vizinhos de Englewood que conheciam Holmes ao longo de anos não podiam acreditar naquelas revelações aterradoras.


Em 19 de agosto, o Castelo foi destruído em um incêndio, Três grandes explosões trovejaram no meio da madrugada, supostamente causadas por outros vazamentos de gás. Uma chama alta irrompeu no prédio e ele queimou até o chão em cerca de duas horas. Os bombeiros fizeram pouco esforço para conter as chamas e salvar o lugar, para muitos o incêndio foi uma benção para devolver um pouco de dignidade e tranquilidade à vizinhança que havia se tornado local de peregrinação de curiosos. Outros três incêndios menores também foram registrados, causados pelo acúmulo de gás e estes foram responsáveis por destruir por completo qualquer resquício que poderia ter escapado. 

O terreno em que o Castelo havia sido construído permaneceu vazio por décadas até que finalmente ele foi ocupado por uma agência dos correios estabelecida em 1938. A essa altura a área havia sofrido uma enorme desvalorização imobiliária e grande parte dos moradores eram imigrantes que não sabiam de seu passado. Histórias a respeito da localidade entretanto continuaram a ser contadas pelos moradores mais antigos de Chicago que lembravam do que havia ocorrido ali.

Mesmo após a construção da Agência Postal, pessoas que viviam nas imediações costumavam atravessar a rua para não passar na frente do local onde morte e tortura haviam acontecido. Vizinhos que passavam com cães afirmavam que os animais começavam a latir e ganir como se pudessem sentir alguma coisa no ar... alguma coisa invisível aos olhos humanos. Além disso, funcionários da agência costumavam falar a respeito de sons estranhos, ruídos na calada da noite e sensações que não eram capazes de explicar ou colocar em palavras. Como ocorre frequentemente com lugares onde horrores tiveram lugar, ele se tornou famoso por alegados incidentes sobrenaturais.

Mas e quanto ao causador de todo aquele horror? O que aconteceu com H.H. Holmes?

Com a comoção nacional a respeito dos crimes cometidos em Chicago, a face do assassino se tornou notória em todo canto. Jornais de costa a costa estampavam as notícias sanguinolentas e a fotografia do homem responsável por tudo aquilo. Holmes tentou se disfarçar e usar seu incrível talento para criar identidades falsas, mas ele acabou sendo reconhecido em Boston. Um cerco a ele se fechou e agentes da Pinkerton se mantinham no seu seu encalço até que ele acabou sendo capturado. Na ocasião ele se entregou e como sempre, muito simpático disse que não pretendia reagir. Depois de devidamente fichado, Holmes foi transportado de trem de volta a Philadelphia, sob forte esquema de segurança em virtude de ameaças à sua vida. Apesar de tudo, ele ainda se divertia com a situação, afirmando se sentir como uma celebridade em meio a todos os cuidados que lhe eram dispensados.

O julgamento de Herman Mudgett começou na Philadelphia um pouco antes do Halloween de 1895. Ele durou apenas seis dias mas foi um dos acontecimentos mais sensacionais do ano. Os jornais fizeram uma cobertura completa relatando uma vez mais todos os crimes, os acontecimentos e detalhes daquilo que foi chamado de "Crimes do Século perpetrados pela mais maligna mente criminosa de todos os tempos". Holmes reagiu conforme o esperado de uma celebridade: relatou seu ponto de vista, chorou e tentou conquistar a simpatia do juri. Dispensou seus advogados duas vezes, fez ele mesmo a exposição do caso e o fechamento, desafiou a autoridade do juiz e ridicularizou o promotor. Não há transcrições do julgamento, mas testemunhas afirmam que Holmes foi confiante, esperto e carismático. Talvez se o volume de provas reunidas contra ele não tivesse sido tão grande, bem como a comoção pública a respeito do caso, ele tivesse se safado. O juri deliberou por apenas duas horas e retornou com a sentença de culpado. Mais tarde, os jurados disseram que haviam concordado em apenas dois minutos, mas que preferiram esperar para "manter as aparências".

O mapa do Castelo dos Horrores


Em 30 de novembro, o Juiz acatou a sentença de morte. O caso foi levado à Suprema Corte que confirmou o veredito e ao governador que se recusou a intervir. A data da execução foi marcada para 7 de maio de 1896, apenas nove dias depois dele completar 36 anos de idade.

A essa altura, s detalhes sórdidos sobre o caso já eram de conhecimento público que reagia com um misto de raiva, horror e fascínio, especialmente em Chicago, onde a maior parte daqueles atos haviam sido cometidos. Holmes aceitou fazer uma entrevista relatando em detalhes a o caráter depravado e perverso de seus atos. Isso garantiu a ele notoriedade ainda maior e reconhecimento com um dos mais odiados criminosos de seu tempo. 

Ele não demonstrou arrependimento em momento algum. Pouco antes da execução, ele foi visitado por dois padres católicos que vieram até sua cela e lhe deram a comunhão, embora ele tenha se recusado a pedir perdão pelos seus pecados. Ele foi conduzido de sua cela para o patíbulo já vestindo um capuz preto que escondia sua face. O diretor da cadeia temia que Holmes pudesse ser desrespeitoso com as testemunhas presentes e por isso, sequer perguntou a ele por suas últimas palavras.

Quando o alçapão abriu sob os pés de H. H. Holmes sua cabeça se moveu para um lado, os dedos se contorceram e os pés dançaram no ar por vários minutos. Embora a força da queda tenha sido suficiente para quebrar seu pescoço e a corda tenha entrado na sua pele quase a ponto de cortá-la, o coração de Holmes continuou batendo. Guardas chegaram a cogitar se deveriam agarrar seus pés e puxá-lo para baixo para abreviar o espetáculo macabro, mas não o fizeram. Ele levou quase 15 minutos para morrer.

Na época houve uma série de histórias sinistras associadas a execução de Holmes. Uma dessas lendas é que no exato momento em que o corpo caiu no cadafalso um raio riscou o céu. Mas isso não foi tudo... uma das lendas mais duradouras é que Holmes teria deixado uma maldição sobre aqueles que o executaram.

Um dos primeiros livros a respeito dos crimes
Pouco tempo depois do corpo de Holmes ser enterrado sob duas toneladas de concreto, a primeira morte aconteceu. O primeiro a morrer foi o Dr. William K. Matten, o legista que foi testemunha chave da promotoria, responsável por descrever a perversidade de algumas das mortes. Ele morreu repentinamente apenas uma semana após a execução, vítima de uma infecção. Mais mortes se seguiram, incluindo a de outro legista que auxiliou Matten. O Juiz Ashbridge, que sentenciou Holmes à morte morreu alguns meses depois. Ambos subitamente de doenças que não haviam sido previamente diagnosticadas. Mas não para por aí! O superintendente da prisão onde Holmes foi preso cometeu suicídio três meses depois. O pai de uma das suas vítimas morreu em uma explosão de gás e o Detetive responsável por iniciar a perseguição a Holmes, Frank Gyer também ficou muito doente.

Uma Companhia de Seguros que Holmes usava frequentemente em suas fraudes pegou fogo. Tudo no escritório da Companhia foi destruído, exceto uma apólice com a assinatura do assassino que o dono havia mandado emoldurar. Muitos dos que acreditavam na maldição viram nisso uma prova de que algo maligno estava agindo. Quatro meses após a execução, um dos padres que visitaram o condenado na cela, morreu durante uma missa. O legista que conduziu a autópsia disse que a causa da morte era envenenamento por ureia. O Chefe do Juri que condenou Holmes morreu algumas semanas mais tarde em um acidente elétrico enquanto tentava conectar fios. Nos anos que se seguiram, várias pessoas envolvidas direta ou indiretamente em sua captura e e condenação encontraram mortes violentas e algumas vezes bizarras. Para alguns, a maldade de Holmes continuava envenenando tudo e todos mesmo após sua morte.

Até os dias atuais, H.H. Holmes é considerado um dos mais terríveis assassinos em série da história.

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