quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Cinema Tentacular: O Farol - Segredos em uma ilha isolada


Diz um famoso ditado que "o Inferno são os outros".

Mas é bem possível que depois de assistir "O Farol" (The Lighthouse/2019), você concorde que o Inferno é estar confinado num lugar isolado na companhia de uma pessoa detestável. Seja lá como for, o Farol, filme de Robert Eggers (diretor do elogiado A Bruxa) mexe com nossa percepção e invoca situações extremas e perturbadoras. Tudo isso para descrever minuciosamente como é uma descida rumo à loucura.

O Farol não é um terror como estamos acostumados e isso é preciso ser dito antes de prosseguir nessa resenha. Não espere por um filme de sustos ou de monstros espreitando na escuridão. O horror de "O Farol" não é algo físico e perceptível, ou mesmo compreensível que possa ser qualificado ou quantificado. Esse não é um filme convencional e quem for assistir esperando algo convencional tem 99,9% de chance de sair desapontado ou pior ainda, irritado e xingando até a décima geração dos produtores do filme. 

Embora seja claramente um filme dentro do gênero horror, é difícil dizer que tipo de medo esse filme instiga. Talvez não seja medo em absoluto, mas uma sensação incômoda como algo rastejando por baixo de sua pele. Algo que não é possível ver, mas que pode ser sentido na boca do estômago.


No filme, temos dois Guardiões de Farol sozinhos em uma ilha remota na tempestuosa Costa da Nova Inglaterra enlouquecendo juntos a media que a companhia tóxica um do outro vai alimentando sentimentos de paranoia, irritação e rivalidade.

Willem Dafoe e Robert Pattinson são respectivamente Thomas Wake e Ephraim Winslow - homens taciturnos e severos com seus cachimbos e cigarros presos no canto da boca, raramente capazes de esboçar um sorriso. No início do filme acompanhamos a dupla em sua viagem rumo à isolada (ou seria desolada) ilha, pouco mais do que uma pedra em meio a um mar habitualmente violento e fustigado pelo vento. Os dois foram contratados para ficar na ilha por quatro semanas cuidando do farol. Winslow está substituindo o colega anterior de Wake que desapareceu sem deixar vestígio depois de enlouquecer de vez.


Tom é o típico veterano do mar, um marinheiro que sustenta um ferimento na perna, abandonou a família e abraçou conscientemente uma existência solitária. Excêntrico, tirânico e supersticioso ele faz valer o seu posto de oficial sênior e como tal impõe a sua vontade ao novo colega determinando desde o início quais são as atribuições do seu novo parceiro. Winslow é jovem e impetuoso, um ex-lenhador do Canadá em busca de uma ocupação que o faça esquecer de seu último ofício. A ele cabem as funções braçais e de manutenção do farol, que incluem limpar, escovar, esvaziar penicos, costurar e manter o maquinário em ordem. A atribuição mais importante: tomar conta da lâmpada do farol, acaba sendo exclusiva de Wake que não admite dividir com o colega essa responsabilidade.

Desde o início Ephraim se ressente com o tratamento dispensado por seu superior que o obriga a trabalhar pesado e critica todos os seus esforços. Tratado como "rapaz", Tom sequer se preocupa em saber o nome do ajudante. Tudo que interessa do seu ponto de vista é cumprir o contrato de trabalho da forma que ele determina. Já Ephraim labuta arduamente, sendo atormentado pelas condições insalubres do farol, pelo equipamento barulhento e por um albatroz que teima em importuná-lo. 


Os personagens batem de frente e de sua interação surgem palavras ásperas carregadas de termos náuticos e arranjos de frases complicadas. Boa sorte para quem tentar assistir esse filme sem legendas, assim como A Bruxa, a linguagem aqui é de época, repleta de floreios. O roteiro, no entanto, dá preferência à interação entre os dois homens com o mínimo de diálogo possível, valendo-se bem mais da troca de olhares, expressões e reações físicas - que incluem de resmungos a soluços, de roncos a peidos, do que palavras. 

A relação entre os dois colegas improváveis só começa a se formar quando eles dividem uma garrafa de bebida, dias depois de já estarem na ilha. O álcool funciona como uma espécie de condutor que permite estabelecer uma comunicação entre eles. Através desse primeiro contato, ficamos sabendo a história deles e das estranhas superstições de Wake que pontua suas regras com absoluta autoridade.

Logo de início percebemos também que há algo de estranho na história de Ephraim que parece estar escondendo algum detalhe sobre o seu passado e os motivos reais para estar no farol. O sujeito também começa a ser atormentado por visões cada vez mais bizarras envolvendo uma espécie de sereia, logo depois de achar uma estatueta feminina enfiada no colchão de sua cama.


Eventualmente o desesperado isolamento, a imensa frustração e a rotina de bebedeiras começa a cobrar um pesado preço de Ephraim. Em meio a um acesso de raiva ele quebra uma das regras impostas por Wake, o que perturba o equilíbrio da convivência e conduz a terríveis eventos. A transgressão de Winslow atrai a fúria dos elementos e uma tempestade desce feroz sobre o farol causando danos e levando a incidentes que fazem os homens questionar sua própria razão.

"O Farol" desse momento em diante se torna um filme cada vez mais estranho. O espectador assiste a partir de então a derrocada de Winslow rumo a absoluta insanidade, a medida que ele vai se desapegando da realidade, mergulhando em um estado alucinante cada vez mais profundo. Por algum motivo, Winslow acredita que na proibida sala da lâmpada do farol, se encontra a resposta para suas aflições e que se deixando banhar pela luz encontrará sua redenção. Se os sonhos vieram primeiro e conduziram à loucura, ou se a loucura já está lá desde o início e apenas foi fomentada pelas circunstâncias, pouco importa. A descida no turbilhão de insanidade é tão acentuada que em alguns momentos chega a causar vertigem. 

A dupla de protagonistas oferece um duelo particular no qual entregam atuações viscerais alternando trechos de inimizade, companheirismo, intimidade e ódio. Eles bebem juntos, enfrentam ressacas, discutem, brigam e tentam esconder seus segredos. Willem Dafoe com seu cabelo e barba desgrenhados, olhos esbugalhados e palavras cuspidas furiosamente parece a encarnação de uma divindade marinha colérica. Já Robert Patinson, tem a melhor atuação de sua carreira, compondo um personagem que escorrega perigosamente rumo a sua própria perdição. Se os atores estivessem menos inspirados ou sob a tutela de outro diretor, as coisas podiam desandar feio e o filme se tornaria patético. Mas não... a loucura chega a ser palpável e a forma como ela vai se instalando no ato final, até transbordar numa sequência beirando o surreal, é no mínimo bizarra.


Visualmente o filme também impressiona pelas belas imagens em preto e branco. Filmado com câmeras antigas que causam um efeito claustrofóbico, as cenas sobrepõem luz e sombra de forma quase hipnótica. Há algo de estranho nas imagens e nos enquadramentos que habilmente exploram as expressões dos personagens e suas reações diante do imponderável.

Com controle e precisão semelhante a de um diretor do Cinema Expressionista, Eggers vai conduzindo a trama até o limite obtendo um resultado tão abrasivo quanto a bebida que os personagens consomem.

Quando o filme termina e sobem os créditos, é difícil emitir uma opinião a respeito do que acabamos de assistir. Não tenho dúvidas de que muita gente vai torcer o nariz e considerar o filme desnecessariamente complicado e demasiado pretensioso. Até mais que a Bruxa, que muitos consideram confuso. É inegável, entretanto, que se trata de algo poderoso que acerta em cheio se o objetivo desde o início era perturbar.

Trailer:


Poster:




2 comentários:

  1. Gostei do filme, apesar de ter torcido o nariz quando vi que tinha o cara do crepúsculo - até hoje eu vejo ele e penso naquele filme hehe - mas a atuação dele foi realmente bem satisfatória, como vc disse na resenha; já a atuação do Willem Dafoe está SINISTRA, realmente o cara é genial.
    Achei que haveriam mais elementos estranhos na narrativa, e isso me decepcionou um pouco, mas a sensação de entropia enquanto os personagens mergulham na loucura foi bem construída e deixou o filme bacana pra quem gosta de umas coisas bizarras.

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  2. Vi quando voce postou isso aqui, mas esperei pra ler até hoje, que assisti o filme. Vim aqui direto. Realmente terminei o filme satisfeito, savendo que vi algo bom, mas sem saber o que pensar. Produzir isso requer algum grau de genialidade, uma genialidade estranha. Recomendo, mas nao pra qualquer um.

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