segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Dracula - Entre a verdade e a ficção, o homem e o vampiro


"Não era particularmente alto, mas compensava a estatura com força e vigor, exalando um ar de ferocidade e crueldade. Seu nariz era grande e aquilino, com as fossas nasais largas e uma boca retorcida em um sorriso perverso. Suas sobrancelhas longas e largas envolviam olhos verdes faiscantes. O rosto e o corpo carregavam cicatrizes de batalhas, escondidas sobre a barba e bigode escuros que lhe conferiam um aspecto austero e rude. Sobre os ombros largos, envolvidos pela armadura de ferro, escorriam os cabelos compridos e encaracolados. Era um Príncipe, mas também um selvagem embrutecido pelo fogo e sangue derramados. Sua ferocidade seria conhecida em todo Leste Europeu e seu nome temido por onde passasse".

Nicolas de Modrusa - Descrição do Príncipe da Valáquia. 

Reza o provérbio que a realidade supera e muito a ficção. Entre uma e outra cavalga a figura mítica de Vlad Tepes, mais conhecido como Drácula (O Pequeno Dragão da Valáquia). A lenda consagrada pelo célebre romance de Bram Stoker converteu a figura histórica em uma terrível criatura das trevas, um vampiro com sede de sangue. Mas a sinistra e espetacular vida desse personagem real consegue ser tão fascinante e notável quanto da sua contraparte fictícia.

O verdadeiro Dracula governou o pequeno principado da Valáquia (na atual Romênia) em meados do século XV quando esta constituía a primeira linha de defesa da Cristandade contra o Império muçulmano dos Turcos Otomanos. Era um cenário apocalíptico de violência desenfreada no qual os horrores se multiplicavam e para sobreviver os homens estavam dispostos a ir além das convenções da guerra e abraçar a completa barbárie. Nesse contexto de extrema brutalidade cresceu e governou Vlad que se converteu em uma espécie de Davi enfrentando um poderoso Golias. As vitórias militares do pequeno principado, contra um oponente infinitamente mais poderoso, valeram ao Príncipe a fama de Senhor da Guerra. Mas também lhe conferiram a alcunha de demônio pela sua crueldade sem limites. O chamavam de Tepes (empalador) pelo seu método espantoso de execução contra os inimigos. Boyardos revoltosos, comunidades vizinhas hostis ao seu poder, inimigos estrangeiros derrotados no campo de batalha, elementos marginalizados da sociedade... todos eles sucumbiram cruelmente a noção particular de justiça de Vlad.

Os cronistas do período mencionavam os horrendos bosques nos quais o soberano pendurava seus inimigos em estacas para morrerem lentamente. Cadáveres e moribundos ficavam pendurados por dias, parecendo ao longe árvores macabras.

As notícias de suas expressivas vitórias alimentaram uma percepção diabólica de que o Príncipe da Valáquia era o próprio filho do demônio, um favorito do Inferno que lhe concedia os meios para vencer. Panfletos e propaganda de seus desafetos o pintavam como um monstro, e embora, muitos exageros tenham sido cometidos, mesmo estes eram baseados em fatos reais. 

Através dessas histórias se assentou no ocidente as bases de um mito que com o tempo alcançaria a categoria de arquétipo, assumindo elementos sobrenaturais pelo caminho: o vampiro, como simbologia e um repertório iconográfico com um poder de sugestão impressionantes.    

Nessa série de artigos do Mundo Tentacular, falaremos a respeito de uma das personagens mais fascinantes da história medieval, focando nas raízes de sua conturbada biografia e no contexto histórico de sua época de instabilidade e conflito. 

E é claro, falaremos de terror, muito terror...

Venham conosco, e conheceremos o Mito de Drácula.  

5 comentários:

  1. Como prelúdio do que está por vir, essa postagem serviu bem para me deixar ansioso pela continuação.
    👍

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  2. Muito bom! Com exceção da parte que diz que, "Cadáveres e moribundos sofriam um lento martírio em suas mãos." Porque cadáveres não sofrem. De resto, parabéns...

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  3. lol,realmente,fiquei confuso nessa parte sobre os cadáveres "sofrendo",mas imaginei que tivesse um outro significado que eu não pude entender ou que se referia apenas aos "moribundos" e não aos "cadáveres"
    estranho como em tantos anos de um blog que trata em grande parte do horror e do sobrenatural ainda não havia sido feito um artigo ou uma série de artigos sobre esse sujeito,ele é meio que a fonte de inspiração pro monstro sobrenatural mais icônico de todos não é?,mas antes tarde do que nunca,vou ler tudo.

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  4. Pronto, já arrumei o trecho, sem "cadaveres sofredores" agora. Deve ter escapado na minha revisão, obrigado aos que avisaram.

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