quarta-feira, 23 de setembro de 2020

A maldição de Zyre - Conclusão de uma estranha narrativa


Após acordar do pesadelo, Tess subiu ao escritório e bateu a porta insistentemente, sem obter resposta. Com uma sensação de que algo ruim estava acontecendo, ela decidiu usar uma chave reserva que guardava em caso de emergência. Ao adentrar o aposento, se deparou com uma sala às escuras e horrivelmente fria, mas o que a fez recuar em terror foi o cheiro nauseante, reminiscente a algo que apodrecia horrivelmente. Ela instintivamente tampou boca e nariz para afastar aquele ar fétido que quase a fez perder a consciência. Com a outra mão tateou em busca do interruptor e o acionou lançando luz no recinto até então imerso nas trevas.

Sentado na escrivaninha do Dr. Emmitt encontrava-se um cadáver humano medonho, coberto de uma substância preta parecendo piche. A cabeça estava jogada para trás e a boca aberta em um grito silencioso. O corpo estava inchado, a pele macilenta havia adquirido uma coloração amarelada doentia. A visão da morte, nua e crua a atingiu em cheio. A combinação era tão aterradora que Tess deu um passo para traz sem conseguir acreditar no que estava vendo. Pelas roupas concluiu que se tratava do Dr. Emmitt, ainda que suas feições estivessem diferentes, alteradas pelo processo de decomposição. No entanto, diante de todo aquele horror macabro, um pequeno detalhe foi o que mais chamou sua atenção: na mão cadavérica de dedos finos, repousava o anel com opala - o Olho de Zyre.

Tess observou a coisa pela primeira vez, ponderando sobre o que fazer. Sua reação foi apanhá-lo e se livrar dele como se isso pudesse, por milagre resolver a situação e apagar aquele horror. Sentia que a coisa era responsável pela atrocidade, não sabia como, mas tinha certeza disso! Ela chegou a se inclinar para apanhá-lo, mas um arrepio a fez retroceder como se meramente tocá-lo fosse um perigo que não estava disposta a correr.    

De alguma forma, conseguiu voltar ao corredor para tentar limpar a mente. Andava de um lado para o outro ponderando sobre o que fazer em seguida. Sua vontade era correr, sair dali o mais rápido possível. Correr sem olhar para traz e afastar aquela visão de suprema deterioração à qual havia sido exposta. Por ela, jamais entraria ali novamente. Mas um inerente senso de dever falou mais alto - ela devia aquilo ao seu patrão e se apegou a isso para então voltar ao estúdio.

Tampando o rosto com um lenço ela se aproximou novamente da escrivaninha e de seu ocupante solitário. Sobre o tampo reparou que havia uma caixa de madeira de aspecto antigo e fechadura de bronze. Horríveis cabeças demoníacas foram entalhadas na peça. A secretária respirou fundo e apanhou a coisa que era bem mais pesada do que ela imaginava. A caixa estava aberta e ela verificou o interior revestido com veludo vermelho e pequenas placas de bronze gravadas com um misterioso alfabeto de runas curvilíneas. Era sem dúvida um estojo usado para acomodar o anel.

Ao lado da curiosa caixa encontrava-se um caderno de anotações, do tipo usado normalmente pelo Professor Emmitt para rabiscar seus rascunhos. As páginas estavam repletas de anotações feitas apressadamente com uma caligrafia cursiva difícil de ser decifrada, mas que sem dúvida pertencia a ele. Não havia tempo para ler aquilo e cada fibra de seu corpo implorava para não olhar aqueles rabiscos mais que o necessário. 

Mas não era aquilo que Tess estava procurando. Aflita ela olhou em volta sabendo que deveria haver ao menos mais uma coisa naquele estúdio, algo que dizia respeito especificamente a ela: o gravador! Emmitt usava o gravador para fazer seus apontamentos e de fato, ele estava na extremidade oposta da escrivaninha sob algumas folhas amassadas de papel. Ao lado, uma caixa com fitas k7 já gravadas e numeradas de 1 a 5, prontas para serem convertidas em material datilografado. 

Tess sabia que tocar em qualquer uma daquelas coisas poderia trazer-lhe problemas e que ela estaria alterando uma possível cena de crime, mas algo a compeliu a verificar o aparelho. Ela apertou o botão de ejetar apanhando a fita que estava ali e enfiando no bolso junto com as demais. O gravador foi para dentro de um dos armários.

Obviamente Tess chamou a polícia e estes responderam imediatamente. Os detetives a cobriram de pergunta que ela respondeu da maneira mais sincera possível. Ela contou do interesse do Professor Emmitt a respeito de ocultismo sabendo que não haveria como ignorar isso. Mencionou a coleção e os itens presentes no sótão. Os detetives com uma mistura de curiosidade e excitação decidiram vasculhar o museu. Se concentravam mais no que não estaria lá, do que no que estava: roubo era uma causa provável para matar. Alguns dos itens eram claramente valiosos, mas não parecia estar faltando nada e Tess confirmou que tudo estava em ordem.

Ela contou que o professor estivera concentrado em seu trabalho e que ficou restrito ao seu estúdio nos últimos dias. Tess, no entanto, omitiu um detalhe além das fitas que pareciam queimar no interior de seu bolso. Ela não falou nada a respeito do anel que permanecia no dedo do cadáver. Como não poderia deixar de ser, a coisa acabou chamando a atenção dos investigadores. Um deles ergueu a mão do cadáver com um lenço e se abaixou para olhar mais de perto o anel: "Coisa medonha!" disse entredentes antes de liberar o corpo para o trabalho da equipe de remoção.

Tess temia o que poderia acontecer, mas o inquérito seguiu sem que se concentrasse nela. De fato, os próprios detetives não sabiam exatamente no que pensar a respeito daquela morte e na ausência de uma explicação conveniente preferiram tomar o caminho mais fácil de ignorar as circunstâncias atrozes da cena. O legista apurou que a morte ocorrera por causa natural, ataque cardíaco fulminante, sem sinal de ferimento ou violência, veneno ou condições externas. Da mesma forma que os detetives, o perito não tentou explicar as condições lastimáveis do corpo ou o que poderia tê-las ocasionado. Os restos cobertos por aquela substância betuminosa escura e o fedor azeviche que o envolvia permaneceriam um mistério.

Tess tirou uma semana de folga antes de receber autorização para voltar à casa do Dr. Emmitt para reaver objetos pessoais que ainda estavam lá. Um policial a acompanhou o tempo todo, desde a porta com faixas amarelas advertindo se tratar de uma "cena de crime" até o escritório onde o cheiro que se entranhou no carpete era apenas um pouco mais tolerável. Depois disso, ela não retornou mais à casa. O corpo do Professor foi enviado para seu estado natal para ser sepultado, sem filhos ou esposa, a cerimônia foi triste e fria, ou assim ela ouviu dizer. Um fim condizente para um homem que viveu e morreu sozinho.

Dias passaram, mas algo ainda deixava Tess preocupada. As fitas que ela havia recolhido continuavam em sua posse. Na semana que transcorreu, ela ponderou a respeito de ouvir ou não seu conteúdo. Parecia ser uma opção perfeitamente aceitável ignorar aquilo e abraçar a doce sensação que só a ignorância pode proporcionar. Ela tinha certeza que ouvir as fitas seria desagradável. Por pelo menos duas vezes, cogitou destruir tudo aquilo, enrolar as fitas até rasgar o delicado material, atear fogo numa lata de lixo, jogá-la num lago... haviam tantas opções. Mas por mais que quisesse, não o fez!

Ela desconfiava que se assim fizesse; não saber, aos poucos se tornaria uma obsessão e que isso a consumiria até o último suspiro. O alívio de agora seria a incerteza de uma vida inteira. Com isso em mente, e encorajada por duas doses de whisky que desceram queimando pela sua garganta, ela apanhou um gravador e colocou a primeira fita k7, marcada com o número 1 dentro dele. 

A fita começou a rodar e logo a voz grave e familiar do Dr. Emmitt se fez ouvir. Era como uma voz vinda do além. A primeira fita tinha 54 minutos de duração e cobria uma narrativa a ser transcrita posteriormente por Tess. O relato começava com Emmitt descrevendo como havia conseguido o Olho de Zyre e como ele era muito mais bonito que o esperado. A forma como Emmitt se referia à coisa fez Tess encher mais uma dose de bebida que dessa vez desceu mais fácil. 

O professor explicou ter levado seis anos para colocar as mãos no anel, tempo em que tinha de aguardar os trâmites de liberação de uma herança. Infelizmente ele era muito vago a respeito da obtenção do objeto, mas deixou escapar que o proprietário anterior uma mulher chamada B. Graham teria cortado os pulsos em uma banheira. O anel era a única coisa que ela usava quando foi encontrada. De fato, várias pessoas que tiveram o anel morreram ou sumiram nas mais estranhas situações, decorrendo disso sua fama de maldito. Embora Emmitt desse detalhes sobre isso, Tess preferiu não falar à respeito.

Emmitt mencionava um intermediário chamado Tiestras que havia sido vital para conseguir o anel que foi incluído no espólio da sra. Graham. O tal Tiestras havia convencido os sucessores a vender alguns itens, entre eles o anel, ou assim ficava subentendido.  

Na fita marcada com um 2, o Professor falava um pouco da origem do Olho de Zyre. Segundo a pesquisa, o primeiro dono do anel foi um aristocrático senhor de terras, o Marquês de Montségur no século XVI. Montségur era conhecido por seu interesse no oculto e chegou a ser acusado de feitiçaria e bruxaria, sem jamais, contudo, ser alvo de um inquérito oficial em função de sua riqueza e influência. Havia o boato dele ter firmado um pacto infernal e que sua existência foi marcada pela iniquidade e perversidade. Alguns diziam que o anel era o símbolo de sua barganha com as trevas e que fora um presente do próprio Diabo. Após sua morte em circunstâncias trágicas (mais uma vez), o anel passou pelas mãos de muitos outros indivíduos interessados nele. O olho, segundo a lenda permitia ao seu dono ter um vislumbre do inferno e com ele se comunicar.

A fita seguinte, de número 3, trazia uma descrição detalhada do objeto e de seu estojo. O Professor se deteve num pormenor. Ao revistar o interior do estojo, ele havia encontrado um pedaço de velino desbotado oculto num nicho sob o veludo. O fragmento cuidadosamente manuscrito trazia uma série de símbolos similares aos que adornavam a parte interna do anel e o próprio estojo. Emmitt dali em diante se referia a ele como "o texto" e ele se tornaria o foco das suas pesquisas. Ele acreditava que aqueles símbolos continham a chave para decifrar as palavras e compreender as runas.

Na fita com o 4, a voz de Emmitt soava claramente irritada com a falta de avanços em suas tentativas de entender o decifrar alfabeto. Ele havia tentado diferentes interpretações e consultado sua biblioteca em busca de alguma correlação. Era como tentar montar um quebra cabeça sem conhecer a figura original que resultaria da junção das peças. O cansaço se somava à falta de progresso que por sua vez resultavam em imensa frustração. Emmitt suspeitava que Tiestras havia plantado o texto sabendo que o professor tentaria decifrar aquilo já que era famoso por sua natureza inquisitiva. "Sem dúvida ele vai surgir com uma forma de decifrar o texto. Mas para isso vai querer mais dinheiro. Bastardo!" dizia o professor num tom que não escondia sua irritação.       

Em um trecho gravado posteriormente na mesma fita, Emmittt afirmava que Tiestras havia "sumido da face da Terra". Ele desconfiava que o sujeito estivesse escondido, tentando valorizar o fragmento de informação que apenas ele poderia suprir. As dúvidas de Emmitt, no entanto, se esvaem quando ele fica sabendo que o intermediário morreu: "Foi achado morto em sua casa, vítima de uma overdose de drogas" ou assim ele soube de terceiros. No trecho final da gravação As palavras dele soavam tão estranhas e lamurientas que Tess não foi capaz de compreender. Parecia que Emmitt havia bebido e que não dizia coisa com coisa. Por reflexo, Tess colocou a garrafa e o copo de lado antes de continuar ouvindo.


A fita de número 5 era de longe a mais bizarra, mencionava um sonho ou alucinação ocorrido quando Emmitt estava em seu escritório tentando compreender o misterioso texto. De acordo com o trecho, a experiência foi no mínimo assustadora:

"Tive o mais estranho dos sonhos ontem. Devo ter adormecido em minha escrivaninha enquanto tentava fazer a tradução. Eu sonhei com uma figura totalmente negra que entrava no escritório. Era uma forma esguia com corpo feminino, mas inteiramente escura, como uma sombra tridimensional. Essa coisa se aproximou e percebi que ela não tinha feições, nem detalhes ou reflexão, era um vulto formado por um contorno e nada mais. O que mais chamou minha atenção foram as pequenas nódoas, como manchas azuladas que cobriam seu corpo. Me ocorreu que eram exatamente como os pequenos fragmentos de silica capturados na superfície do Olho de Zyre.

Assim que fiz essa associação, a coisa-sombria se atirou sobre mim. Antes que eu pudesse recuar, me agarrou e tamanho era o frio que dela emanava que me vi incapaz de reagir. A coisa então segurou minha mão e deslizou em meu dedo o Olho de Zyre. Minha mão foi acometida de uma dor lancinante, como se milhares de agulhas geladas estivessem espetando ao mesmo tempo e essa dor se espalhou para meu braço. Foi essa sensação que me fez acordar com um grito... levei alguns momentos para me acalmar, enquanto flexionava os dedos para confirmar que a dor excruciante havia sido apenas imaginária, Mas então, para meu horror descobri que o anel estava em meu dedo, onde jamais havia ousado colocá-lo".

O sonho fez com que Emmitt se tornasse ainda mais paranoico, acreditando que o anel estava preso em sua mão e ele era incapaz de removê-lo. Meramente tentar fazê-lo causava-lhe uma sensação indescritível de dor e apreensão. Foi nessa ocasião, ponderou Tess, que ela encontrou o Professor Emmitt pela última vez, justamente quando ele estava mais abalado.

"A mão no bolso que ele tratou de esconder. O anel já estava lá", lembrou a secretária. 

Depois disso, Emmitt descreveu algo que definiu como sendo uma súbita clareza de ideias que trouxe consigo uma notável compreensão acerca da natureza do texto. Os complexos símbolos curvilíneos e as runas que até então pouco significavam começaram subitamente (alguém poderia até dizer magicamente) a fazer sentido. Era como se ele tivesse um vislumbre da imagem que formava o quebra-cabeças e finalmente as peças dele se encaixassem. Renovado pelo progresso repentino, o Professor se deixou levar pela empolgação. Dois dias de trabalho contínuo se seguiram a medida que a densa névoa que impedia entender o alfabeto se dissipava. 

É claro, ele estava ciente da associação direta entre sua súbita compreensão, o sonho bizarro e o anel em seu dedo, mas no momento que tudo fez sentido, talvez pela curiosidade, pelo cansaço ou quem sabe por outros fatores sobre os quais é melhor não pensar muito, ele decidiu continuar a tradução. A fita 5 terminava com o consenso de que a tradução do texto estava quase pronta.   

Por fim, restava apenas uma fita, a gravação que se encontrava no gravador quando Tess entrou no escritório e encontrou Emmitt naquele estado lastimável. Algo dizia para parar ali, mas ela chegou longe demais para ignorar o trecho derradeiro. Com a mão tremendo, ela acionou o PLAY do gravador. 

A última fita começava com uma breve introdução das dificuldades de traduzir e dos detalhes sobre como o alfabeto poderia ser compreendido. Tess entendeu pouco das referências feitas a linguagens obscuras e idiomas mortos, mas respirou fundo quando enfim o professor começou a recitar o texto. Com uma voz à princípio vacilante que aos poucos ganhava força, as palavras foram sendo proferidas como se ele estivesse entoando algo:

"O trecho final... eu o tenho... são palavras ou nomes próprios, o anel é uma forma de comunicação... o Marquês de Montségur assim o usava...  (ininteligível)

Aos sete que protegem o portal: Seteasvis... Varganuth... Ghorta... Engratha... Drellaemon... Halzavan... Ezohtal... na escuridão a luz,... nos sonhos a verdade. Zyre, abre teu olho.

Vejo luzes... vejo um brilho... é incrível... como, se estivesse se abrindo... (ininteligível) eu vejo..."

E então seguiu-se um grito de horror petrificante e um som indefinido de estranho gorgolejar que durou apenas alguns segundos, mas que foram o suficiente para fazer Tess sentir como se o mundo sob seus pés se desfizesse e o ar lhe faltasse. Tomada de um terror indescritível, ela arrancou a fita do gravador e a fez em pedaços até que nada mais restasse dela. 

O relato de Tess termina assim, de modo abrupto. 

Anos depois ela escreveu esse relato e publicou em um fórum de discussão sobre acontecimentos sobrenaturais. Suas palavras finais sobre o incidente foram as seguintes:

"Eu não peço a ninguém que acredite nessa narrativa, embora eu assegure que ela é verdadeira em cada detalhe (exceto, é claro, no que diz respeito aos nomes). Há coisas que não somos capazes de compreender ou lidar, forças que vão muito além daquilo que consideramos normal. Eu mesma não acreditava nessas coisas, até ser confrontada por elas. Acreditem quando digo que o sobrenatural existe e que está sempre à espreita. Quando ele se insinua em nossas vidas, nos transforma rapidamente. Da minha parte eu sei que jamais serei capaz de esquecer o que presenciei e vivi na companhia do falecido Professor Emmitt".


Essa postagem criou uma grande discussão em um fórum de debates a respeito de fenômenos paranormais e depois se espalhou por vários outros. A principal questão obviamente era: até que ponto essa história era real e se ela de fato aconteceu. 

Pouco depois de ter surgido, o perfil que enviou a postagem foi apagado e os tópicos - inclusive a história original, apagados. Felizmente, ele foi salvo por outros usuários que evitaram dele desaparecer da mídia digital. Com o passar do tempo, a história se tornou uma persistente lenda na internet.

No que diz respeito à veracidade da história, temos muito pouco a procurar. Os nomes e indivíduos que fazem parte da narrativa parecem ser fictícios, bem como as datas e localidades. A única fotografia que acompanhava o artigo era a do anel, o suposto Olho de Zyre. A postagem não oferecia nenhuma prova ou evidência, nenhum audio e menos ainda documentos oficiais. Usuários do Reddit realizaram pesquisas tentando rastrear pistas, mas não conseguiram muito, fazendo com que a maioria das pessoas considerasse o incidente como uma ficção, uma creepypasta.

Pesquisadores da internet chegaram a apontar um caso misterioso ocorrido em Boston no qual um certo Professor William T. Bosworth teria morrido em circunstâncias incomuns na sua residência em 2007. Bosworth era um antropólogo, Mestre em Harvard e um interessado em história antiga e ocultismo. Sua coleção de antiguidades era bastante impressionante segundo amigos.  Algumas pessoas apontaram Bosworth como a identidade verdadeira do Professor Emmitt, mas outros acham uma simples coincidência.

Da mesma maneira não há nenhuma informação a respeito de um anel chamado Olho de Zyre, a não ser aquelas que tem ligação com essa narrativa. Talvez o nome da peça também tenha sido alterado, quem pode saber ao certo...

Seria essa apenas uma lenda urbana nascida na Internet? É provável que jamais saibamos ao certo se a Tess da história realmente viveu esses acontecimentos, mas de toda forma, ela permanece como uma narrativa história assustadora.

domingo, 20 de setembro de 2020

O Olho de Zyre - O Anel Maldito do Dr. Emmitt


Existem pessoas com histórias para contar e nos últimos anos, a Internet parece ter dado voz a elas, permitindo compartilhar suas narrativas com quem estiver interessado em ouvi-las. Quanto mais estranhas e incomuns, melhor. Não importa o quão inacreditáveis sejam, quanto mais inusitadas melhor.

Tomemos por exemplo essa narrativa enviada a um fórum, o Spectre (atualmente encerrado) dedicado a discussão e debate a respeito do Sobrenatural em 2006. O tópico foi iniciado por uma pessoa que preferiu usar nomes inventados para os envolvidos na sua narrativa como forma de preservá-los. Ela, no entanto, afirmava que todos os detalhes eram reais e que transcorreram conforme descrito.

A pessoa que usou o nome Tess se dizia ex-secretária particular de um homem chamado W. M. Emmitt. Ela descrevia Emmitt como um respeitado Professor de Antropologia e também um especialista em Ocultismo e História Antiga. Além dessas qualificações, Emmitt era ainda um ávido colecionador de antiguidades, em especial objetos que possuíam conturbadas histórias ligadas ao sobrenatural. De fato, a devoção do Professor ao tema era tamanha que ele chegou a criar um pequeno museu para guardar seus artefatos. Este museu particular ficava em sua própria casa, no sótão e contava em seu acervo com uma série de objetos à primeira vista inofensivos, mas que escondiam uma natureza sinistra. Eram bonecas, quadros, estatuetas, peças de vestimenta, joias e um sortimento imenso de artigos insuspeitos que o Professor garantia estavam infundidos por energias paranormais. Nem todos eram necessariamente malignos, mas uma grande parte deles poderiam ser perigosos.

Emmitt passava seus dias escrevendo e preparando aulas. Com a idade ele viu a necessidade de ter um assistente e contratou a narradora dessa história para ajudá-lo a organizar sua agenda, cuidar de seus documentos e datilografar trabalhos. Como parte do trabalho, ela morava na casa e podia tirar folga nos finais de semana. No início Tess estranhou um pouco o teor do trabalho, sobretudo quando suas atribuições envolviam transcrever as informações a respeito dos curiosos itens do Museu. Com o tempo, no entanto, ela foi se acostumando com o caráter excêntrico de seu trabalho e de seu patrão, por quem desenvolveu certo grau de afeição. 

Em seus últimos meses no trabalho, Tess começou a se preocupar com a saúde do Prof. Emmitt. Em suas próprias palavras, ele havia se tornado obsessivo com um item em particular recém chegado à sua coleção. Tamanho era seu interesse a respeito desse item que ele passou a sonegar suas aulas e compromissos. Até mesmo seu sono era deixado de lado para se dedicar exclusivamente a saber mais a respeito do objeto. A coisa em questão tinha um nome chamativo, o "Olho de Zyre", uma grande opala negra encrustada em um anel bastante antigo.

Tess não sabia dizer em que circunstâncias o Dr. Emmitt havia obtido o anel, mas suspeitava que ele teria chegado às suas mãos através de algum antiquário, já que vários deles costumavam suprir a coleção do estudioso com itens que lhe pudessem ser interessantes. Boa parte da coleção havia sido adquirida daquela maneira. 

Antes de conseguir a peça, Emmitt teria realizado extensivas pesquisas a respeito da sua história: sua origem, quem foram seus donos e como ele influenciou a vida de diferentes pessoas. As considerações de Emmitt eram gravadas e depois entregues à sua assistente para que ele fizesse a transcrição para seu arquivo pessoal. Mas naquele caso ele decidiu manter para si suas conclusões, o que era uma quebra da rotina, algo incomum em uma pessoa tão metódica.

Foi nesse ponto que a narrativa começou a ficar realmente estranha, levando a secretária a descobrir um inesperado mundo de obsessão, insanidade e horror sobrenatural.

Os estudos do misterioso Olho de Zyre se tornaram o foco de todos os esforços de Emmitt e sua secretária imediatamente percebeu a mudança dele. Foi no dia 11 de março de 201x, que ele recebeu o objeto e voltou para casa com um brilho diferente nos olhos. Emmitt levou imediatamente o pacote fechado para seu estúdio e pediu para não ser perturbado uma vez que tinha muito trabalho pela frente. Tess relatou que ele passou várias horas trancado no aposento e que ao passar pelo corredor conseguia escutar através da porta algumas palavras vindo de dentro. 

À princípio, Tess não chegou, uma vez que, imerso no trabalho, Emmitt se desligava de tudo. Entretanto, daquela vez ele ficou afastado por muito tempo o que a preocupou. Depois de bater à porta, ela obteve uma ordem ríspida vinda de dentro para não perturbar a não ser que fosse chamada. Depois disso, Tess decidiu não incomodar novamente o professor e saiu para sua folga de final de semana sem perturbá-lo mais. Ao retornar na segunda feira o encontrou de melhor humor. Ele pediu desculpas por sua reação, mas reforçou que precisava de paz e tranquilidade para que seu trabalho pudesse progredir. 

O Prof. Emmitt, também falou brevemente sobre o anel cuja história ele havia levantado. A secretária escreveu a respeito da primeira vez que ela e o professor falaram a respeito do objeto:

"Na ocasião, o Professor Emmitt mostrou uma fotografia do anel que ele estava pesquisando. Depois disso, ele se tornou muito zeloso de compartilhar qualquer informação a respeito do item. 

A foto, disse ele, havia sido tirada no início dos anos 50 para uma seguradora que exigia essa formalidade. A imagem mostrava um anel de aro grosso com uma grande opala no topo. Segundo o Doutor aquela era a única imagem registrada do anel já que seus donos sempre se mostraram relutantes em capturar sua aparência em foto (o anel aparecia também numa pintura retratando um antigo proprietário dele, datada de 1838). De acordo com o professor, seus donos raramente mencionavam a joia, exceto para parentes próximos ou amigos íntimos. Se era pelo valor dela ou por temer atrair atenção indesejada, não ficou claro. Ele deu a entender que sua história estava ligada a ocultistas e pessoas com legítimo interesse pelo assunto.

É curioso que naquela ocasião eu não percebi a ironia de que o Professor incorria no mesmo comportamento dessas pessoas, preferindo me mostrar a foto do anel ao invés do próprio que estava logo ali, no escritório. Só me dei conta disso mais tarde, mas não questionei pois estava habituada às pequenas excentricidades dele.

O que posso dizer pela foto é que eu não gostei do anel... ele parecia grosseiro, algo grande e desajeitado que provavelmente ficaria exagerado na mão. A foto era próxima o bastante, permitindo ver detalhes da enorme pedra redonda. Havia algo inquietante nas raias azuladas suspensas na superfície da opala negra, algo que eu não conseguia explicar. Aos meus olhos, pareciam pequenas formas de pessoas desenhadas, como sombras dançando na superfície escura. Algo que me causou um arrepio involuntário.

O que mais posso dizer é que era lisa, mas não parecia trabalhada como se tivesse sido encontrada daquela forma, moldada exclusivamente pela natureza. Percebi que havia uma pequena parte lascada como se alguém tivesse batido a opala com força e quando questionei a respeito, o Professor observou que uma joia com tantos séculos era difícil jamais ter sido de alguma forma avariada. Quando ele mencionou "tantos séculos" eu perguntei inocentemente qual era a idade da peça e ele me lançou um olhar estranho. Não sei explicar, mas era como se eu tivesse feito uma pergunta imprópria, ou que ele julgava indevida. O professor apenas apanhou a fotografia e desconversou dizendo que tinha que prosseguir em seu trabalho e que não queria ser incomodado. Como eu disse, estava acostumada às suas pequenas excentricidade e dei de ombros".

Mas as coisas começaram a ficar ainda mais estranhas nos dias que se seguiram. O Professor Emmitt passava cada vez mais tempo trancado com a coisa, perdendo palestras e aulas. Nas poucas vezes que saia do escritório ele se comportava de forma arredia: tinha os olhos arregalados, estava pálido e irritadiço, muito diferente de seu estado normal. Suas refeições eram compostas de porções cada vez menores. Após alguns dias com esse comportamento recluso, ele deixou de ir à universidade de uma vez por todas. Depois disso, se negava a atender telefonemas e responder mensagens, mandando que a secretária inventasse desculpas.

Tess temia que a saúde mental e física de seu patrão estivessem em perigo. De fato, ele não descia mais para comer, pedia que a bandeja fosse deixada na porta em horários fixos e mais de uma vez, Tess a encontrava intocada. Por vezes, ao recolher o prato ela ouvia sons vindos do interior, mas até então, ela não se sentia à vontade ara espionar o professor e se meter nos seus assuntos. Ela reconhecia estar preocupada, mas não a ponto de romper a confiança do velho estudioso.

Duas coisas, no entanto, fizeram com que ela mudasse de ideia. 

A primeira aconteceu na noite de 19 de março quando um grito medonho vindo do estúdio a acordou no meio da madrugada. Tess se vestiu rapidamente e foi ver do que se tratava achando que encontraria a porta trancada como habitual. Mas ao invés disso se deparou com o professor saindo do aposento furtivamente. Ele estava claramente confuso e assim que viu Tess, mergulhou a mão no bolso do roupão. A secretária ficou impressionada ao ver como o homem havia mudado em apenas uma semana: normalmente alguém cuidadoso com a aparência, ele estava desgrenhado com barba por fazer, descabelado e com a roupa amarrotada. Com algum esforço, Tess o convenceu a descer até a cozinha onde ofereceu uma refeição leve.

Tess escreveu a respeito dessa pequena interação com o Professor:

"Quando mencionei que ele deveria fazer uma pausa ele me olhou com uma expressão de desconfiança que me deixou consternada. Ele então fez um movimento de se levantar: "Eu tenho muito o que fazer... eu não posso... não quero..." mas acabou sentando novamente como se estivesse demasiadamente cansado. Eu tentei oferecer algum apoio, para que ele pudesse se abrir e percebi o quão cansado estava. Mas ele se limitou a sorrir sem graça elogiando o cheiro da sopa que eu estava esquentando. A seguir disse: "Você está me ajudando, Tess... mas eu preciso de mais tempo para esse trabalho. Não é algo fácil... é algo que... cobra um preço alto.. todos que pesquisaram sobre isso... sabe...", e nesse momento ele se empertigou incomodado e pediu que eu levasse a sopa pois ele subiria para adiantar alguns pormenores de sua pesquisa".    

Aquela foi a última vez que Tess conversou com o Prof Emmitt e em retrospecto ela pensou que deveria ter insistido mais com ele. Talvez se o tivesse feito pudesse impedir o que aconteceu a seguir.

Nos dois dias que se seguiram, 20 e 21 de março, Tess não viu o Professor W.M. Emmitt ou ouviu qualquer som vindo do estúdio. As bandejas de comida se acumulavam e ela estabeleceu que na manhã seguinte bateria à porta ou chamaria algum amigo do professor, não importando se isso significasse sua demissão.

Nas primeiras horas da madrugada de 22, Tess foi dormir e teve o mais bizarro dos pesadelos que descreveu conforme segue:   

"Tive um sonho muito estranho sobre o Professor Emmitt. Estávamos no estúdio e ele estava sentado na poltrona. Ele estava usando o anel de opala e falando comigo em um tom calmo, ainda que eu não conseguisse entender as palavras que usava. Era um idioma exótico com palavras sem sentido. A medida que eu ouvia, percebi um detalhe curioso: a boca do Professor não se movia, seus lábios estavam entreabertos, mas sem articular palavras. As palavras pareciam emanar de outro lugar, não dele mas das sombras que se acumulavam no canto do aposento. Eu senti muito medo de olhar naquela direção, como se ali estivesse escondido algo muito ruim.

Minha atenção então se voltou para o Professor Emmitt. A expressão dele mudara: espelhava confusão, uma mistura de medo e desespero como jamais pensei ver em uma pessoa tão resoluta. Ele estava pálido, sua face transfigurada em uma máscara de horror com olhos vítreos dos quais escoriam lágrimas. Seus lábios se moveram e num sussurro ele pediu socorro. Foi quando acordei apavorada. Eu sabia que embora fosse um sonho, aquilo estava de fato acontecendo com ele."

Tess verificou o relógio, eram 4 horas da manhã e assim que o sol raiou, ela decidiu procurar o Doutor. Ela estava determinada a entrar no estúdio e descobrir de uma vez por todas o que estava acontecendo. Foi uma decisão impetuosa da qual ela iria logo se arrepender, pois o que encontrou naquela sala maldita era muito pior do que poderia imaginar. 

(cont...)

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Fantasmas no Deserto Gelado - Narrativas de Assombrações na Antártida


O desolado continente da Antártida conjura sobre si uma imagem infernal de desertos prístinos e paisagens gélidas. Trata-se de um território que não foi feito para o homem e onde tudo parece conspirar contra sua presença nele. Mas é claro, ele continua atraindo nossa atenção e exploradores se aventuram em seus perigosos limites, decididos a conquistar essa fronteira final. Nessa relação de vida e morte, muitos nunca retornam.

O que poucas pessoas falam a respeito é que a Antártida também possui lugares assombrados onde medo e terror se mesclam com o clima impiedoso. 

Um dos lugares mais sinistros no continente não oferece muito para ver, já que não passa de uma velha cabana abandonada e exposta aos elementos na isolada Ilha de Winter, parte do arquipélago argentino. A casa, que oficialmente atende pelo nome de British Faraday Station (Estação Britânica Faraday), ou simplesmente Estação F, foi construída em 1947 por James Wordie, que foi membro da Expedição Endurance liderada por Sir Ernest Shackleton em 1914-1917. Ela foi usada como observatório e base para pesquisas de geofísica, meteorologia e estudos sobre a ionosfera. A casa seria usada por décadas antes de ser completamente abandonada quando as operações principais foram transferidas para a Ilha de Galindez que oferecia condições melhores. A casa original, a Wordie House ainda se mantém como uma casca vazia em meio a paisagem branca, abrigando todos os seus fantasmas.


Os poucos que estiveram lá nas últimas décadas relatam histórias sobre acontecimentos estranhos no interior do abrigo erguido com madeira e tijolos. Dizem que objetos se movem espontaneamente, que pequenos incêndios começam sem causa aparente e que ruídos tétricos, de coisas sendo arranhadas e de passos podem ser ouvidos. Mas não é só isso: há também presenças invisíveis, uma sensação esmagadora de estar sendo observado e um senso de ameaça tão forte que muitos se dizem fisicamente acossados. Mais de uma expedição cancelou a estadia prolongada na casa depois de alguns poucos dias, preferindo seguir para outros abrigos a despeito de serem menos confortáveis. Há relatos feitos por conceituados cientistas a respeito desses incidentes, narrativas de pessoas sérias que nada teriam a ganhar inventando tal coisa.

A Casa Wordie foi investigada pelo programa de televisão Destination Truth que se propõe a visitar lugares assombrados. Na ocasião, a equipe experimentou incidentes estranhos durante sua estadia, incluindo objetos caindo das prateleiras, portas fechando sozinhas e o inquietante som de interruptores de luz sendo ligados e desligados sem que ninguém estivesse presente. Mas a descrição mais contundente é a da sensação pesada e ameaçadora que permeava essa cabana no fim do mundo. Os apresentadores e nem a equipe conseguiam definir o sentimento: era como estar em um lugar que decididamente não queria receber visitas. Como se uma força consciente estivesse de alguma forma conspirando para que as pessoas fossem embora e jamais voltassem.

A fonte dessa força permanece desconhecida, assim como a certeza do que ela realmente seria. Muito se discute se pode ser um fantasma ou uma assombração no sentido clássico de alguém ter morrido lá e seu espírito continuar presente nas paredes. Mas na Casa Wordie, o espectro parece ser algo diferente do convencional, não o fantasma de uma pessoa, mas um depositário de emoções e medos acumulados que de alguma forma teria permanecido ali. À luz da parapsicologia, fortes sensações, sobretudo de pavor e apreensão, podem dar origem à áreas em que os tormentos um dia experimentados continuam reverberando indeterminadamente. E quem for suficientemente sensitivo é capaz de captar tal coisa.


Nesse caso, a Casa Wordie seria um perfeito exemplo de local capaz de represar sensações fortes. Inúmeras expedições se abrigaram ali ao longo das décadas, temendo pelo desfecho, pelas interperies e pelas suas próprias vidas. Seria possível que estas tivessem partido, mas deixado para traz emoções duradouras? Aqueles que visitaram o local, mesmo os mais céticos, acreditam que a possibilidade existe.

Incidentalmente, a mesma equipe do programa Destination Truth explorou outro lugar com fama de assombrado na região. Trata-se de Deception Island que foi deixada para apodrecer nos tempos difíceis da Grande Depressão quando o preço do óleo de baleia que era produzido lá despencou. O local não é mais do que um ajuntamento de velhos depósitos e um cais decrépito ocupando uma triste praia pedregosa numa das ilhas mais escuras do arquipélago. Antigos barcos de pesca e baleeiros permanecem lá, enferrujando no pier semi-congelado. Basta um breve olhar para sentir que se trata de um lugar esquecido.

Construído no fim do século XIX, o local um dia foi usado como porto para baleeiros que predavam as águas gélidas do atlântico sul. Os arpoeiros arrastavam baleias mortas até a costa onde a carne delas era fervida em enormes toneis de ferro para extração de óleo. Pedaços delas também eram colocados em ganchos e pendurados nos depósitos. Os ossos por sua vez, eram pulverizados para serem aproveitados como adubo. Deception Island foi um lugar de trabalho brutal, com homens endurecidos pelo serviço extenuante e pelo clima implacável. Ela chegou a receber até 60 habitantes antes de fechar suas portas para sempre, alguns jamais partiram como comprova o pequeno cemitério nos fundos do local.


A equipe do programa de TV viu coisas muito estranhas em sua passagem pela ilha: aparições, vultos, sombras e vozes inexplicáveis. Também reportaram ter ouvido batidas secas vindas de um dos depósitos, não por acaso, onde havia uma imensa pilha de ossos de baleia. Um dos maiores mistérios, entretanto, envolvia uma figura sombria que parecia espreitar o local, como se estivesse curiosa com a súbita aparição de visitantes depois de tanto tempo sozinha. O grupo usou um aparelho de leitura térmica que captou essa presença desconhecida próxima de uma janela, quando não havia ninguém lá. Um estranho ruído de leves batidas, que foi interpretado como código morse, também foi captado por um microfone instalado na antiga sala de comunicações da estação. Coisas realmente sinistras de serem vistas e ouvidas, sobretudo quando se está há quilômetros da civilização em um lugar tão austero.

Um lugar possivelmente ainda mais assombrado na Antártida é a Ilha de Ross, que foi o palco de uma grande tragédia em 1979. Na época, alguns serviços turísticos ofereciam a bravos viajantes uma oportunidade de conhecer o continente e viver uma aventura diferente. Em 28 de novembro de 1979, um avião saindo da Nova Zelândia carregando 257 pessoas seguiu para Ross Island com objetivo de fazer um sobrevoo panorâmico. Ocorre que a equipe não tinha experiência voando em condições polares e a visibilidade no dia em questão era realmente ruim. Quando o piloto baixou o avião para que os passageiros pudessem ter um vislumbre da Geleira de Ross, a perda momentânea de visibilidade fez com que o avião alterasse o curso e só tarde demais percebesse que estava indo na direção da elevação conhecida como Monte Erebus. O avião se chocou espetacularmente contra a montanha matando todos à bordo.
 
Os corpos foram resgatados do solo congelado e levados até a Estação McMurdo, uma base norte-americana na ilha, o único lugar habitado em quilômetros. Lá aguardariam até serem transportados de volta à Nova Zelândia. Com tamanha tragédia cercando o incidente não é surpresa que o local tenha se tornado palco de várias assombrações. Visitantes e a equipe da Estação McMurdo contam ter visto aparições de passageiros vagando sem rumo pela tundra congelada ou aparecendo pela própria base. Também ouvem sons de vozes, gemidos e até mesmo gritos de horror carregados pelo vento. Esses espectros, por vezes horrivelmente mutilados, jamais interagem com aqueles que os veem, e é especulado se eles próprios sabem que estão mortos. Para alguns parapsicólogos quando grandes tragédias ocorrem, ecos de memórias de alguma forma ficam impressas na paisagem como a imagem de um filme. Isso explicaria o testemunho de várias pessoas que afirmam categoricamente ter visto um avião fantasma (que não produz som) sobrevoando a Ilha na mesma rota fatídica que o levou até o Monte Erebus.


Não por acaso, após o acidente fatal, companhias aéreas civis foram descredenciadas para voar sobre a Antártida e apenas vôos especiais que servem aos exploradores recebem autorização. Mesmo os mais experientes pilotos sabem que voar sobre a Antártida é complicado em face das mudanças climáticas, tempestades repentinas, rajadas de vento e baixa visibilidade. Os voos muitas vezes são realizados com o uso de aparelhos.  

Também na Ilha de Ross pode ser encontrado outro lugar assombrado que celebra uma tragédia que teve repercussão em todo mundo em 1913. A trágica expedição britânica Terra Nova, liderada pelo audaz explorador Robert Falcon Scott tinha natureza científica e visava ser a primeira a chegar ao Polo Sul. Infelizmente, ela não apenas falhou em conseguir sua primazia, mas todo o grupo que atingiu o Pólo morreu na jornada de volta. 

O incidente causou grande comoção já que Scott era visto como um herói nacional na Grã-Bretanha, igualmente admirado e celebrado pelas suas façanhas. Os restos da expedição, e de seus membros, só foram encontrados oito meses depois. O mais irônico é que o acampamento final deles estava apenas alguns quilômetros de distância de um abrigo com suprimentos que os salvaria. Scott e seus comandados, no entanto, não tinham mais forças para prosseguir e acabaram perecendo exauridos física e emocionalmente. Só é possível imaginar como foram os seus momentos finais, sabendo que não havia escapatória, ainda que esta estivesse logo adiante - tão longe, tão perto.  

Um memorial, na forma de uma cruz com o nome dos exploradores, foi erguido pelo grupo de resgate que encontrou os corpos. É um rumor persistente desde sua construção que o memorial se tornou um lugar fantasmagórico que atrai não apenas o espírito dos membros da malfadada expedição, mas também outras pessoas que tiveram mortes trágicas na Antártida. Testemunhas afirmam que figuras etéreas, vultos e sombras costumam ser vistas rondando os arredores do Memorial Terra Nova. O som de soluços amargos e de choro pode ser ouvido, segundo alguns.


Há um senso de profundo pesar e tristeza pairando no ar, um sentimento que alguns se referem como uma aura inquietante e não-natural. Para algumas pessoas, meramente permanecer ali por mais tempo que o necessário atrai pensamentos funestos, de aflição e melancolia. Alguns até contemplam ideias sobre suicídio como a solução para seus problemas. De fato, visitar o local não é agradável.

Como se não bastassem esses sentimentos incômodos, há manifestações que permeiam o local: sons anômalos de vozes, gritos, choro e sussurros carregados pelo vento. Também existe a impressão de que próximo da cruz, o clima gélido parece ainda mais congelante.

O que dizer de todas essas histórias macabras? Seria possível que fantasmas de exploradores e visitantes mortos na Antártida ficaram presos no continente gelado pela eternidade, capturados em uma espécie de loop que os obriga a reviver para sempre seus últimos (e piores) momentos?  

Tais histórias nos recordam que mesmo nos limites da civilização, em um reino afastado de gelo e vento, lugares assombrados podem existir. Mesmo elementos tão severos são incapazes de afastar presenças espectrais que espreitam. E há algo de especialmente triste em imaginar esses espíritos solitários habitando um dos lugares mais inóspitos do mundo.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Yellow King RPG - Video de apresentação do material


Olá pessoal,

Vamos tentar algo novo.

Eis aqui uma video resenha de apresentação do material de "The Yellow King RPG" que chegou recentemente nas minhas mãos.

Em breve teremos uma resenha escrita no modelo já tradicional do MUNDO TENTACULAR com amplas informações e análise mais aprofundada do material. Mas enquanto aprontamos isso, ficamos com uma versão improvisada filmada na qual falo um pouco sobre a ambientação e mostro o interior do livro.

Para quem não conhece, "The Yellow King" é um jogo da Pelgrane Press que foi bem sucedido no Financiamento Coletivo em 2017 e que está liberado para venda agora. Ele utiliza o sistema consagrado por Rastro de Cthulhu, o Gunshoe, mas aplicando uma variante chamada Gunshock que torna o jogo mais rápido, ágil e, aparentemente, bem mais mortal.

Ainda não tive a oportunidade de ler, menos ainda de jogar, mas ao que tudo indica é um material muito bom: bem escrito, excelente acabamento, arte incrível e boas ideias para construir uma campanha. O que mais chama a atenção é a possibilidade de escolher diferentes épocas e ambientações para as histórias, contemplando quatro e´pocas distintas divididas em quatro livros.

Com uma ambientação bem amarrada, baseada na mitologia de Hastur, Carcosa e do Rei Amarelo, com uma pegada investigativa e niilista, esse parece ser um RPG promissor.

Com certeza, vou dispensar a ele bastante atenção.

Mas enquanto não aprofundo o bastante para emitir uma opinião mais abalizada, que tal dar uma olhada no vídeo?





THE YELLOW KING RPG
Por Robin D. Laws
Editora Pelgrane Press
Sistema Gunshock (variação do Gunshoe)
Lançado em 2019



Adoraríamos ouvir seus comentários a respeito desse formato para saber se vale a pena investir tempo e dedicação nesse tipo de vídeo.

Claro, essa é uma versão bastante simples, feita "na empolgação" do material recém chegado. Vídeos desse tipo, com apresentação de material, seriam do interesse de nossos leitores?

Digam o que acham.

Ah sim, o video da Pelgrane:

domingo, 13 de setembro de 2020

O Horror de Loudun - O Sinistro Caso das Freiras Possuídas


O conceito de possessão demoníaca é bastante antigo e está presente em diversas culturas no mundo inteiro. Houve um tempo, não muito distante, em que as pessoas viviam aterrorizadas por demônios, quando eles eram considerados como uma ameaça muito real que espreitava nas sombras e aguardava para tomar vítimas inocentes. Casos de possessão eram incrivelmente comuns e estes continuaram acontecendo em tempos modernos e até na era da razão.  

Um caso de possessão demoníaca já é suficientemente assustador, mas imagine o que acontece quando múltiplas vítimas sucumbem a essas forças malignas. Esse é exatamente o caso de um dos mais famosos incidentes de possessão em massa na história. Ele ocorreu no século XVII, quando as freiras de um tranquilo convento numa região sonolenta da França se tornaram o foco de um espetáculo de horror sobrenatural debatido até hoje.

Para relatar esse acontecimento histórico real devemos retornar para a França do ano de 1632, mais especificamente na cidade de Loudun. Nesse lugar isolado e tranquilo existia um convento da Ordem das Ursulinas, originalmente construído em 1626. O convento era bastante novo na época dos eventos e era dirigido pela excêntrica, poderosa e muito influente Madre Superiora Jeanne des Anges. As freiras que viviam no Convento levavam uma existência humilde e quieta, ao menos até que algumas freiras começaram a relatar a presença de um homem. 

O misterioso visitante foi visto primeiro nos arredores do convento, atrás de seus muros, apenas pelas janelas. Ele parecia curioso, observando com interesse o lugar onde viviam cerca de 50 freiras e noviças. Contudo, com o tempo, mais e mais testemunhas afirmavam ter visto a figura andando pelo pátio, pelos corredores, pelas dependências privadas e até perambulando pela capela. Nem é preciso dizer que a presença de um homem, quanto mais alguém desconhecido, era veementemente proibida pelo severo código de conduta da congregação das ursulinas. Ainda assim, ele era avistado cada vez mais frequentemente. Durante essas visões, a figura parecia especialmente amável, com um aspecto quase angelical e modos gentis que fizeram algumas das freiras supor que pudesse se tratar de um tipo de milagre.

Mas logo essa suposição foi abandonada. 

Certa noite, uma noviça acordou aos gritos afirmando que o misterioso visitante se materializou em seu quarto no meio da madrugada sussurrando propostas indecorosas e propondo impensáveis atos sexuais. A jovem, de apenas 14 anos estava em choque e seu testemunho foi suficiente para colocar o convento inteiro em estado de alerta. Uma busca foi realizada pelo convento inteiro, de cima a baixo, à procura de um invasor indesejado: nenhum quarto foi deixado de lado, nenhum aposento ficou intocado. Entretanto, nada de estranho foi achado! A Madre decidiu então fechar todas as portas e vedar o acesso de toda e qualquer pessoa ao Convento. 


O temor era que não havendo uma explicação razoável para os acontecimentos, este residisse nos domínios do sobrenatural e que a aparição fosse um tipo de demônio enviado para tentar as religiosas.

Não há como dizer ao certo o que veio primeiro, o terror ou a paranoia, mas é certo que o severo isolamento criou as condições ideais para o drama que se seguiu. As freiras continuavam a ver o homem, cada vez mais frequentemente. Pior que isso, ele deixara de ter a aura angelical manifestada até então, assumindo uma forma bem mais sinistra e assustadora. O homem sorria maliciosamente, encarava com luxúria e fazia promessas de indescritíveis prazeres carnais. Para tornar a situação ainda mais aterrorizante algumas freiras começaram a manifestar estranhos comportamentos: tinham convulsões, se contorciam pelo chão, falavam em idiomas desconhecidos e davam vazão a um linguajar de baixo calão. Algumas demonstravam uma súbita lascívia que as acometia como um transe. Para lidar com isso a Madre ordenava que as acometidas fossem mergulhadas em banheiras de água fria e depois confinadas no claustro.

Após sofrer uma dessas crises, uma das freiras fez uma séria acusação. Ela afirmou que o responsável por aqueles ataques era um pároco chamado Urbain Grandier, que presidia a Igreja de St-Pierre-du-Marché em Loudun desde 1617. O sacerdote já havia sido acusado anos antes de comportamento decididamente pouco condizente com a batina que vestia. Rico e bonito Grandier tinha a reputação de perseguir mulheres e de ter engravidado ao menos uma. Ele também já havia sido acusado de imoralidade em 1613, tendo escapado da prisão e mantido seu status apenas em face de seus amigos poderosos. Pesava sobre ele também uma séria suspeita de que havia se metido com magia negra na juventude. Circulava o boato que ele havia realizado um pacto com o diabo e que sua devoção religiosa não passava de uma farsa. 

Enquanto isso, os incidentes no convento se intensificavam. Logo os casos passaram a ser tratados como possessão com as freiras falando línguas estranhas, demonstrando conhecimento arcano, levitando, movendo objetos com o poder da mente, manifestando força sobre-humana e revelando os mais obscuros segredos alheios. À essa altura os acontecimentos no convento já haviam se tornado de conhecimento público. Cidadãos da cidade passando pelas portas do lugar ouviam os gritos histéricos e os horríveis xingamentos vindos do interior. Madre Des Anges proibiu que as freiras deixassem o convento por temer que a loucura pudesse se espalhar. Ela instituiu um revezamento de orações que deveria ocupar 24 horas do dia para afastar a presença nefasta do demônio.


Finalmente, três padres foram enviados para investigar o fenômeno e determinar se realmente se tratava de obra diabólica. No total, 27 freiras no convento manifestavam os sintomas de possessão demoníaca. Os sacerdotes ficaram chocados com o que testemunharam no convento e determinaram que as portas ficassem fechadas até encontrar uma maneira de lidar com o problema. Um cronista do caso, Des Niau, escreveu a respeito do Horror de Loudun e dos exorcismos posteriores:

"Elas passavam de um estado de quietude para as mais horrendas convulsões, sem aumento da pulsação. As freiras possessas batiam com força no peito e na cabeça, por vezes saltavam no ar ou se atiravam contra as paredes agitando os braços em devaneio. Se feriam nessas demonstrações de loucura. Quando terminavam exauridas, ficavam imóveis, deitadas sobre o estômago com as palmas das mãos tocando o chão. O rosto transfigurado por um tormento interno. Os olhos piscando e a boca abrindo e fechando, por vezes proferindo obscenidades. As línguas terrivelmente inchadas, enegrecidas e duras por vezes se mostravam cobertas de verrugas.

Elas proferiam horríveis gritos tão altos que ninguém conseguia ficar no mesmo aposento que elas. O comportamento delas era indecente e tão indecoroso que causaria constrangimento no mais depravado dos homens, enquanto seus atos, expondo e convidando aqueles presentes causava enorme repulsa. Nem mesmo nos mais baixos antros e bordéis se via algo semelhante. Elas amaldiçoavam a Trindade e os Santos, fazendo uso de palavras tão execráveis que jamais poderiam ter surgido na mente de pessoas sãs.     

O Diabo às fazia, de tempos em tempos cair no sono: elas se largavam no chão e ficavam tão pesadas que ninguém era capaz de movê-las. E se alguém tentava fazê-lo, despertavam enlouquecidas mordendo e arranhando. Uma delas teve de ser amordaçada pois tentava morder e gritava com um conjunto de vozes que não era dela própria".

Os padres tentaram realizar o Ritual sagrado do Exorcismo, invocando o poder de Deus para libertá-las dos demônios que as possuíam, ele descreveu em detalhe so que aconteceu em seguida:

"Uma delas esticou as pernas de tal forma que pareceu crescer. Os braços ficaram flácidos como um chicote e como tal, eles tentavam alcançar o padre que mostrava o crucifixo. Em outro exorcismo a possessa flutuou no ar, tocando o chão apenas com seus cotovelos. Ela então se ergueu até o teto e permaneceu ali suspensa por vários minutos".



Um relatório com todos os acontecimentos foi rapidamente redigido pelos padres que se julgaram incapazes de enfrentar essa batalha sem arriscar sua sanidade. Eles enviaram para Sorbonne o documento assinado por várias testemunhas, médicos e autoridades eclesiásticas que estiveram presentes durante a tentativa falha de exorcismo. Até mesmo o Bispo de Poiters esteve presente a uma das tentativas e se mostrou perplexo com o que aconteceu: segundo ele, a possessa flutuou no ar 24 polegadas acima do chão. Os legisladores em Sorbonne examinaram o relatório e foram da mesma opinião que o Bispo declarando que a Possessão Demoníaca havia sido confirmada.  

Dizia-se que as Freiras possessas tentavam atacar sexualmente os padres, rasgando suas roupas e agarrando-os à força. Durante o Exorcismo de uma das Freiras, ela teria confessado que vários demônios estavam habitando o Convento: Asmodeus e Zabulon, que conferiam à elas poderes sobre-humanos e Isacarron, o demônio da perversidade sexual que despertava a luxúria que as consumia de dentro para fora. Em outro momento, o demônio teria dito que uma horda inteira de demônios menores havia sido convocada para tomar as mulheres e despertar nelas o fogo do inferno.

Um novo trio de exorcistas renomados foi escalado para enfrentar o problema, o Padre Capuchinho Tranquille, o Franciscano Lactance e o Jesuita Jean-Joseph Surin se deslocaram para Loudun. Segundo cronistas, uma multidão formada por mais de 7000 curiosos se mobilizou para acompanhá-los e testemunhar os trabalhos que seriam realizados na praça da cidade diante de um público ávido. A cidade foi inundada por uma romaria de pessoas, muitas das quais vindas de províncias distantes. O incidente se tornava um acontecimento nacional, comentado em toda França. O espetáculo ganhava proporções surreais mesmo para uma época de extrema superstição e crendice. 

O boato de que a culpa repousava sobre o Padre Grandier, que se negou a participar do exorcismo, começou a ganhar cada vez mais força. Eventualmente, o Padre foi preso tentando deixar Loudun na calada da noite e levado diante das Autoridades Eclesiásticas. Ele foi mantido preso na masmorra do Castelo de Angers e torturado para que confessasse sua participação no incidente. Nos autos do processo movido contra Grandier consta que os juízes encontraram em seu corpo as "marcas do diabo", que provavam seu conluio com as forças das trevas. Grandier teria uma marca de mordida feita por um familiar através da qual este se alimentava de seu sangue e uma verruga no pênis que evidenciava que ele havia recebido felação de uma sucubus. A culpa foi imediatamente decretada pelos juízes que apuraram ainda que o Padre havia assinado um pacto com o diabo usando seu próprio sangue. 

Ele teria escrito em um pergaminho achado em sua casa as seguintes palavras:

"Meu Senhor e Mestre Lúcifer, eu o reconheço como meu único Deus e prometo servi-lo pela minha vida mortal. Eu renuncio a Deus, Jesus Cristo e todos os Santos, à Igreja Católica Apostólica Romana e seus Sacramentos. Eu renuncio ao óleo consagrado e a água do Batismo, junto com todas as bençãos sagradas. Eu rendo a ti homenagens e devoção, três vezes ao dia, colocando em suas mãos minha vida e minha alma imortal".   



A confissão extraída de Grandier foi obtida mediante o emprego dos mais medonhos métodos de tortura à disposição. Ele foi queimado, suas pernas foram quebradas na roda e seus pulsos torcidos até se partirem. No decorrer da tortura, freiras possuídas teriam tentado defender o Padre, e até mesmo a Madre De Anges buscou interceder afirmando que as acusações contra ele eram circunstanciais. Ela chegou até a dizer que uma injustiça estava sendo cometida e que o sangue de um inocente estava sendo derramado. 

Uma nova comissão de Juízes e doutores da lei, foi então chamada às pressas. Apesar deles terem encontrado "marcas demoníacas" no corpo de Grandier, eles suspeitaram que a carta que firmava o pacto havia sido escrita por ninguém menos que a Madre Jeanne Des Anges que o havia feito para incriminar o padre. Agora arrependida ela tentava salvá-lo da fogueira.

Com essa suspeita, o caso inteiro sofreu uma grande reviravolta. Os novos juízes examinaram as freiras possessas e determinaram que elas não estavam falando uma língua misteriosa mas simplesmente inventando palavras sem nexo. Também determinaram que nenhuma delas era dotada de força sobre-humana como muitos diziam e que os rumores sobre façanhas de levitação eram muito exagerados. Em interrogatórios posteriores, algumas das freiras acabaram admitindo que estavam inventando a possessão e que haviam sido instruídas pela  Madre Superiora à fazê-lo.     

No fim, nada disso importava: a corte via nas tentativas de inocentar Granier evidência de que o diabo estava manipulando as freiras para salvar seu servo. Eventualmente os juízes ordenaram que qualquer pessoa tentando defender o Padre seria preso e acusado. Apenas as testemunhas contra Grandier foram permitidas a falar ou tentar inocentar o padre.

No fim das contas, o Julgamento, seguindo os princípios da época não foi exatamente justo, e não foi surpresa para ninguém quando o Tribunal considerou Urbain Grandier culpado de todas as acusações que incluíam "mágica, malefício e causar possessão demoníaca". A pena também não era exatamente uma novidade: queimar na fogueira. Segundo os autos do processo, não lhe foi permitido sequer as célebres últimas palavras - um costume normalmente aceito.

Na data da execução ele foi conduzido acorrentado e amordaçado até o centro de Loudun. Sua execução no entanto seria um acontecimento inusitado, como descreveu uma testemunha:

"O verdugo avançou para estrangular o réu - uma medida "piedosa" adotada para que o indivíduo não sofresse com o fogo. Mas no momento em que o executor se aproximou, as chamas já haviam se espalhado com tanta rapidez que foi impossível cumprir a tarefa. Não demorou até que as chamas chegassem até onde estava Grandier que aos gritos começou a queimar. Logo depois disso, algo muito estranho veio a acontecer. Uma revoada de pombos começou a voar ao redor da estaca onde o bruxo queimava. Alguns disseram que as aves simbolizavam a inocência do homem que estava sendo consumido naquele momento pelo fogo e pela pela injustiça. Outros, no entanto, pensavam de modo diferente, afirmaram que as aves eram demônios que vieram honrá-lo."


Surpreendentemente isso não foi o fim do Horror de Loudun.

Os exorcismos prosseguiram por mais um mês, com as freiras apresentando o comportamento de possessas para  entretenimento da multidão que parecia se deleitar com aquele espetáculo bizarro. Não demorou, entretanto para que aquilo começasse a cansar as pessoas que viam tudo como um show fraudulento. O restante dos exorcismos, sem grande interesse, foram realizados no Convento com portas fechadas. Poucos meses depois, Jeanne des Anges alegou ter recebido um sonho no qual deveria visitar o Sepulcro de São Francisco de Sales e fazer uma promessa a ele para que a possessão se encerrasse. Ela recebeu permissão para viajar e após a peregrinação aparentemente as possessões cessaram. 

Contudo, alguns dos envolvidos sofreram revezes após o Horror de Loudun.

O Padre Jean-Joseph Surin afirmou ter sido atacado espiritualmente pelos demônios. Ele ficou tão convencido disso que sua saúde física e mental se deterioraram rapidamente, ao ponto dele ter sido obrigado a se afastar de suas funções e se aposentar. Ele passou o restante de sua vida atormentado por pesadelos, encontrando paz apenas na morte em 1665. Outros indivíduos envolvidos nos exorcismos também relataram ter sido de alguma forma afetados. Doença, loucura e morte, bem como visões do espírito de Grandier os assombrando do além túmulo foram algo comum entre os Exorcistas. Padre Lactance teria ficado cego menos de um ano depois dos acontecimentos em Loudun. Ele afirmava que a última coisa que viu, foi o fantasma de Grandier. Padre Tranquille morreu consumido por uma doença devastadora que o deixou inválido pelos últimos 3 anos de sua vida. O Médico instruído a examinar as "marcas do demônio" no réu também sofreu com várias doenças e no fim da vida se disse consumido pelo remorso. Mesmo o verdugo que falhou em estrangular Grandier morreu afogado em um estranho acidente.

O que podemos concluir de tudo isso? As Possessões de Loudun se tornaram uma estranheza histórica com várias interpretações. É claro, existem aqueles que assumem que realmente ocorreu um autêntico caso de possessão, com fenômenos sobrenaturais afetando as freiras e testemunhado por padres que acabaram amaldiçoados posteriormente. Outros acreditam que o horror é um exemplo clássico de histeria em massa e que Grandier não era nada a não ser um bode expiatório que foi pego em meio ao turbilhão de paranoia. Sua reputação prévia, não ajudou em nada e ele acabou pagando um alto preço pelos seus erros.


A hipótese mais popular, no entanto, é que Urbain Grandier teria sido vítima de uma conspiração movida por inimigos que fizeram com que ele fosse acusado de feitiçaria e removido de Loudun para sempre. Embora Grandier fosse um simples padre, ele contava com apoio político e contatos que desejavam torná-lo Bispo da região. Um dos inimigos que realmente detestava Grandier era ninguém menos que o poderoso Cardeal Richelieu que era contra a promoção de seu desafeto ao bispado. A teoria é que a Madre Superiora tenha sido convencida a criar a situação e apontar o dedo para Grandier afim de que ele fosse afastado. Provavelmente a situação saiu de seu controle e a repercussão acabou sendo muito maior do que ela havia planejado. Muitas pessoas acreditam que a comprometedora carta escrita com sangue assinada por Grandier havia sido plantada por Jeanne Des Anges que não por acaso terminou os seus dias em Paris, sob a proteção de Richelieu.

O que teria acontecido em Loudun e como as coisas progrediram daquela maneira? Que tipo de loucura atingiu o convento e fez freiras acreditarem estar sob o domínio de demônios? Haveria uma força demoníaca real envolvida ou tudo não passou de simples conspiração política? Seja lá o que aconteceu em Loudun os eventos continuam reverberando como uma tragédia assustadora, alimentada pela loucura, fanatismo e superstição.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Terra Impiedosa - Narrativas dramáticas de perigo e morte na Antártida


Na desolada, quase intocada terra nos limites do planeta, existem cadáveres congelados e cada um deles conta uma diferente história sobre a furiosa relação entre o ser humano e o mais inóspito dos continentes. 

Mesmo com toda nossa tecnologia e conhecimento sobre os perigos oferecidos pela Antártida, ela permanece potencialmente letal para qualquer visitante. Em seu interior, as baixíssimas temperaturas podem cair até quase 90 graus negativos, o bastante para matar uma pessoa em minutos pela exposição. Mesmo com proteções adequadas, o frio é tão severo que uma pessoa pode sofrer efeitos de hipotermia. Mas não é apenas o frio! Em alguns lugares o vento atinge incríveis 322 km/h, uma lufada é o bastante para jogar um homem adulto a 10 metros e continuar carregando-o para longe. Uma pessoa pega de surpresa pode ser atirada do alto de uma ravina ou para as águas congelantes, ambos os casos significando provável morte. O vento é tão poderoso que corta através de casacos produzindo queimaduras de frio extremamente dolorosas.

Muitos corpos de cientistas e exploradores que pereceram nesse lugar severo não puderam ser resgatados. Alguns só foram encontrados décadas depois ou até um século após suas mortes. Mas muitos dos que desapareceram sem deixar vestígio jamais foram ou serão encontrados, enterrados no gelo ou nas profundezas de fissuras das quais nunca irão emergir. Também podem ter sido lançados no mar congelante ou esmagados por uma avalanche de neve que os enterrou para sempre.

Não são poucos os perigos encontrados na Antártida. Praticamente tudo nesse ambiente é extremamente hostil e capaz de matar. As histórias por trás dessas mortes variam de mistérios não-identificados a acidentes absurdamente estranhos. A seguir os relatos de alguns casos especialmente curiosos.

Os Ossos da Mulher da Antártida (1820)



Na Ilha de Livingston, próximo das Shetlands do Sul, na costa da Península Antártica, um crânio e um fêmur humanos foram encontrados congelados repousando sobre uma pedra. Eles são os mais antigos restos humanos descobertos no Continente, e estão lá há pelo menos 175 anos. 

Os ossos foram achados em uma praia rochosa em 1980. Os pesquisadores de nacionalidade chilena que os examinaram concluíram que pertenciam a uma mulher que morreu com aproximadamente 21 anos de idade. Ela tinha ascendência indígena com características correlatas ao sul do Chile. O problema é que as tribos residentes mais próximas viviam a 1000 km de distância e raramente se deslocavam uma distância tão grande, sobretudo para o sul, que era considerada uma terra estéril e perigosa.

Os exames dos ossos sugerem que a mulher morreu entre 1819 e 1825. Os ossos dela foram cuidadosamente dispostos sobre uma rocha chata, o crânio por cima do fêmur como se estivesse apoiado nele. A localização, cerca de 20 metros além da linha da água indica que alguém deliberadamente os colocou ali para evitar que o mar reclamasse os restos. Eles congelaram naquele ponto e permaneceram ali, desde então.

Seja quem for, essa mulher é considerada a primeira pessoa de que se tem notícia a tocar o solo da Antártida e ser colocada ali para descansar. Contudo essa fantástica descoberta levanta muito mais perguntas do que respostas.

A primeira e mais importante questão é: quem foi essa mulher? As tradicionais canoas usadas pelos nativos chilenos não conseguiriam suportar uma jornada através de mares bravios, com imensas ondas e icebergs. Elas se partiriam rapidamente. Além disso, uma pessoa navegando exposta ao clima acabaria congelando rapidamente, jamais sendo capaz de atingir tamanha distância. Os nativos não possuíam embarcações muito maiores e mesmo seus barcos de pesca encontrariam enormes dificuldades em atingir a Ilha de Livingston, cuja costa é marcada por rochas ocultas.

Jamais houve qualquer evidência de que tribos chilenas chegaram tão longe em suas explorações. Historicamente os povos da Terra do Fogo evitavam se afastar mais de 400 quilômetros da costa conhecida, uma vez que as condições climáticas tornavam virtualmente impossível ir além desse ponto. 

Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores chilenos é que a mulher fosse um tipo de guia para marinheiros explorando o hemisfério sul. As Ilhas haviam sido descobertas por William Smith em meados de 1819. Contudo, é bem pouco provável que uma mulher fosse aceita em uma expedição desse tipo. De fato, não há nenhuma informação sobre tal coisa acontecendo em qualquer diário de expedição.

A maioria das expedições que exploraram a região no século XIX estabeleceram relações cordiais com tribos nativas do sul do Chile. Por vezes eles faziam escambo de peles de foca entre si. Não é impossível que marinheiros tenham trocado informações também. Contudo, nem todas as interações entre culturas tão diferentes foram amistosas. Algumas vezes o encontro resultava em violência e os marinheiros poderiam ter tomado uma mulher nativas como prisioneira para trabalhar, cozinhar ou servir como amantes. A ausência de diários de bordo cobrindo esse tipo de pormenor, para todos os efeitos uma grave transgressão entre a maioria das expedições científicas, torna extremamente difícil traçar a história dessa mulher.      

Sua história única e o destino final de seus ossos a colocam como uma das primeiras pessoas no Continente Gelado. Para todos os efeitos, ela jamais deveria ter chegado até lá, mas de alguma forma chegou. Seus restos mortais marcam o início da atividade humana na Antártida e são um testemunho do quão inclemente é esse continente com seus visitantes.

A Corrida final de Scott (1912)



A equipe de exploradores britânicos liderada por Robert Falcon Scott chegou ao Polo Sul em 17 de janeiro de 1912, apenas três semanas depois do time Norueguês de Roald Amundsen ter partido do mesmo ponto. 

Chegar ao polo era um verdadeiro feito de resistência humana e Scott estava sobre terrível pressão para completar a missão que lhe havia sido dada. Além de ter de lidar com os desafios do ambiente, com um clima severo, a falta de recursos naturais como madeira para construir abrigos o preocupava. Scott comandava mais de 60 homens que dependiam de suas decisões e que poderiam morrer se ele tomasse a medida errada. Seus colegas na Real Sociedade Geográfica depositavam nele sua total confiança e acreditavam que Scott era o único capaz de bater os rivais noruegueses. 

Havia uma mentalidade de vencer ou morrer na época. O segundo lugar nada significava para aqueles homens e sua motivação era escrever seus nomes na história como os primeiros a atingir o Pólo Sul, uma das últimas fronteiras intocadas do mundo. Para os britânicos era uma questão de honra e Scott se encarregou de colocar isso na cabeça de seus companheiros e fazer com que eles se dedicassem ao máximo.

Os diários de Scott apresentam suas grandes façanhas, mas também suas falhas, suas dúvidas e temores. A mentalidade de "vencer ou morrer" fazia com que ele submetesse o time a riscos que para nós, hoje em dia, seriam absurdos. Para acelerar as jornadas ele reduzia o tempo para alimentação e descanso, diminuía as rações para poupar cada grama de suprimentos e manipulava os relógios para tornar mais longas as marchas. No trecho final, Scott separou a equipe e confiando em um grupo de quatro dos seus melhores homens, partiu para uma desesperada corrida final.


Mas nada disso surtiu efeito. Os noruegueses conseguiram atingir a meta primeiro e se tornaram os primeiros a chegar ao Pólo Sul. Ao chegar ao seu destino, os britânicos encontraram uma barraca pertencente aos noruegueses. O moral dos britânicos foi esmagado quando eles descobriram que haviam perdido a corrida. Mas logo, essa decepção seria substituída por preocupações muito mais sérias. 

Na jornada de volta os problemas começaram. Um dos colegas mais próximos de Scott, Edgar Evans morreu, cedendo ao esgotamento físico e mental. O grupo prosseguiu em sua desabalada marcha de volta para a civilização, mas então foi a vez de Lawrence Oates que ferido preferiu desistir. Ele considerava a si mesmo um fardo para os demais e por isso se separou do grupo se perdendo na neve. "Eu vou sair do caminho de vocês" escreveu em um pedaço de papel antes de desaparecer.

Talvez ele não estivesse ciente de que os demais também não iriam muito longe. Os corpos de Oates e Evans jamais foram encontrados, mas Edward Wilson, Henry Bowers e o próprio Robert Falcon Scott foram encontrados vários meses após as suas mortes. Extenuados e além de toda a resistência, eles ficaram pelo caminho. O grupo de resgate que localizou os restos dos três homens preferiu cobrir os cadáveres com gelo e deixá-los onde estavam. Era o tributo final à sua incrível jornada.

Na anotação final de seu diário pessoal, Scott escreveu: "Não creio que nenhum ser humano passou pelas provações que enfrentamos nesse último mês". O grupo tinha noção de que estava a pouco mais de 18 quilômetros de um depósito de suprimentos que poderia salvar as suas vidas, mas eles estavam fracos, doentes e totalmente esgotados. Não conseguiam dar mais nenhum passo e do lado de fora da barraca caía uma forte nevasca.

Sozinhos na vastidão gelada, eles acabaram encontrando seu fim.

O Trator desaparecido (1965)



Três homens estavam conduzindo um trator Muskeg pela desolação da Antártida, próximo às Montanhas de Heimefront. Atrás deles seguia um trenó puxado por cães. O Muskeg é um veículo pesado para uso em neve, com esteiras móveis desenhado para puxar equipamento e suprimentos a longas distâncias pelo gelo.

A equipe estava satisfeita, após um dia de trabalho pesado, eles estavam retornando à base britânica. Sua missão, levar suprimentos até um acampamento móvel, havia sido um sucesso e tudo o que eles queriam era chegar na base e descansar após uma viagem desgastante de quatro horas pela paisagem agreste. Jeremy (Jerry) Bailey, um cientista especializado em gelo conduzia o trator. David (Dai) Wild, um explorador experiente e John Wilson, um médico completavam a equipe. John Ross, tratador de animais e explorador era o quarto membro do grupo, ele vinha atrás com o trenó puxado por oito cães huskies.

Ross seguia a uma distância de 200 metros quando de repente os cães pararam e começaram a latir.  Com a pesada balaclava e duas proteções faciais, Ross não era capaz de escutar nada, mas os animais o salvaram. Cuidadosamente ele observou o terreno adiante havia cedido e uma nuvem de partículas de gelo se erguia da fissura adiante. O trator havia desaparecido naquele buraco.

Após amarrar os animais, ele prosseguiu cautelosamente testando o gelo com uma vara de bambu de dois metros e meio. O chão estava quebradiço, mas suportava seu peso. Ele se aproximou da fissura devagar e observou o fundo. O Muskeg havia caído de uma altura de 30 metros e suas esteiras estavam presas verticalmente em um paredão de gelo enquanto a cabine havia sido esmagada pelo impacto contra o lado oposto.

Ross deitou na beirada do precipício e gritou para os colegas que estavam dentro do veículo. Depois de 20 minutos gritando, ele ouviu uma resposta. O diálogo, conforme foi relatado posteriormente por Ross foi breve, mas aterrorizante:

Ross: Dai? Você está aí?

Bailey: Dai’ esta morto. Sou eu...

Ross: Quem está aí? John ou Jerry?

Bailey: Sou eu, Jerry.

Ross: Como você está? E John?

Bailey: John está morto, amigo. 

Ross: E você? Consegue sair?

Bailey: Eu estou todo quebrado.

Ross: Você consegue se mover ou amarrar uma corda em volta de seu corpo? 

Bailey: Eu estou todo quebrado. Não venha...


Ross não quis saber: Amarrou uma corda na beirada e tentou descer, mas o terreno estava muito instável. Bailey o alertou mais uma vez para que ele não se arriscasse, mas Ross tentou de qualquer maneira. Após várias tentativas infrutíferas, Bailey não respondeu mais aos chamados de Ross. Ele então ouviu um grito e Bailey se silenciou para sempre.

Fissuras - grandes rachaduras no gelo se estendendo por vários metros, são um dos maiores perigos quando se viaja pela paisagem da Antártida. Elas podem se abrir repentinamente revelando abismos profundos que literalmente engolem tudo que estiver na superfície. Fissuras com profundidade de até 100 metros já foram reportadas por exploradores. Infelizmente as pessoas que caem em seu interior raramente conseguem escapar. A temperatura congelante e os ferimentos produzidos por uma queda dessa natureza tendem a ser uma combinação fatal. 

Em 14 de outubro de 1965, o trator Muskeg da equipe britânica mergulhou 34 metros no vazio. A fissura havia sido encoberta por cristais de gelo que impediram o motorista perceber para onde estava seguindo. Os corpos de David Wild e John Wilson foram recuperados da fissura depois de muitas tentativas empreendidas pelo restante da equipe que veio ajudar no resgate. Os dois haviam morrido imediatamente após a queda do trator. 

Jeremy Bailey não foi encontrado. A porta do lado do motorista estava aberta e o cinto de segurança solto. Para não colocar a vida de Ross que planejava salvá-lo em risco, supõe-se que Bailey tenha aberto a porta e se deixado cair no abismo. Seus companheiros tentaram localizar seu corpo, descendo além do local onde o trator ficou entalado, mas não encontraram nada. A fissura seguia ainda por vários metros e tentar descer ali era muito arriscado.
    
Perdidos na Ilha (1982)



A missão era realizar uma expedição até a Ilha de Petersen. O inverno antártico estava se aproximando e aquela era a última oportunidade de visitar o local antes do período mais severo do ano.

A equipe composta de cientistas norte-americanos tinha como objetivo estudar na ilha a influência da Aurora Meridional. Eles deveriam permanecer lá por no máximo uma semana, uma vez que logo se daria a evacuação da estação para o recesso de inverno, quando as condições climáticas se tornavam insustentáveis. O time formado por quatro homens chegou na ilha em segurança, cruzando o mar congelado em um trator de gelo. Eles se estabeleceram em uma cabana próxima da costa. Logo deram início ao seu trabalho e tudo ia conforme o planejado.

Mas se existe uma verdade a respeito da Antártida é que o clima nesse continente é absolutamente imprevisível. Uma enorme tempestade se formou em menos de 24 horas e os cientistas se viram ameaçados. Eles tentaram realizar uma travessia improvisada para retornar à base, mas a tempestade foi tão forte que o mar congelado se partiu impedindo sua rota de fuga. O grupo ficou preso na Ilha de Petersen sem escapatória. Até então havia preocupação, mas a equipe estava confiante de que poderia resistir até a chegada de um grupo de resgate. Eles tinham suprimentos suficientes na cabana para durar um mês.

Nos dias que se seguiram a tempestade prosseguia e o gelo não chegava a se formar para permitir a travessia. Para piorar, a tempestade foi tão poderosa que alterou a geografia do canal, tornando a travessia mais longa.

O contato entre os homens presos na cabana e o mundo exterior era limitado a transmissões de rádio para a estação. A equipe tentava manter o moral enquanto aguardava. Logo haviam se passado duas semanas. As transmissões eram breves, uma vez que as baterias de rádios iam enfraquecendo dia a dia. A equipe começou então a ficar inquieta com visitantes indesejáveis. Pinguins da espécie Gentoo e Adelie começaram a cercar a cabana. Os pinguins não constituíam uma ameaça, contudo esses animais exalam um mau cheiro terrível que começou a perturbar a equipe.


Para piorar, o grupo experimentava problemas de saúde, com membros sofrendo de constante enjoo e problemas estomacais. Depois ficou-se sabendo que boa parte dos suprimentos existentes na cabana estavam deteriorados. O fedor dos pinguins tornava tudo ainda mais desagradável. Desesperados os homens se armaram com rifles e tentaram afugentar as aves para longe, mas eram muitas, talvez milhares delas. Com poucos suprimentos eles chegaram a matar dois ou três animais para aumentar suas reservas alimentícias.

Os homens aguardavam com enorme frustração. Esperavam que as águas congelassem o bastante para que pudessem fazer a travessia ou que a tempestade diminuísse e eles pudessem ser resgatados por helicóptero. Em 13 de agosto de 1982, cerca de um mês depois de chegar à ilha, as baterias se exauriram por completo. Ao menos, o mar havia congelado fornecendo alguma esperança para que eles realizassem a arriscada travessia.

Em 15 de agosto, conforme descrevia os diários, a equipe se preparou para cruzar o canal que pelos seus cálculos havia se solidificado o bastante. Era sua última cartada já que o grupo estava sem comida, debilitado e nos limites de suas resistências.

Eles partiram no começo do dia e deram início a sua jornada por terra, mas ninguém jamais soube até onde chegaram. Uma imensa tempestade atingiu a Ilha de Petersen em 16 de agosto e quando o clima amainou o gelo havia se partido novamente. O mais provável é que a tempestade os tenha atingido em cheio quando estavam no meio do caminho e o gelo sob os seus pés tenha ficado cada vez mais fino. Em dado momento ele acabou se partindo e os homens mergulharam em uma água tão fria que a exposição de segundos seria suficiente para provocar hipotermia.

Meses mais tarde, várias buscas foram realizadas mas nenhum corpo foi recuperado.

A dramática situação dos homens na Ilha de Petersen demonstra o quão implacável podem ser as forças da natureza na Antártida e como a humanidade está em desvantagem para enfrentar seus desafios.

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Para aqueles que experimentam a perda de colegas ou amigos na Antártida, o luto pode ser especialmente difícil. Quando um amigo desaparece ou seu corpo não pode ser recuperado, os rituais típicos de morte – funeral e enterro – são a única coisa que ajuda a superar a perda.

Não faltam mortos descansando na vastidão da Antártida, alguns em cemitérios improvisados ocupando um espaço nas estações, bases e acampamentos científicos. Outros tantos, porém estão perdidos para sempre na paisagem gélida.

Perdidos, mas não esquecidos.

Do lado de fora do Instituto Scott de Pesquisa Polar na Inglaterra, de onde partiu uma das primeiras expedições para o Continente Gelado, encontram-se dois pilares de carvalho maciço cuidadosamente dispostos no pátio. Eles permanecem apoiados um sobre o outro, sem jamais se tocar. Ele serve como memorial para lembrar daqueles que se foram. Nele estão escritos os nomes de todos os que pereceram na Antártida desde o início de sua exploração no século XIX.

Os nomes somam mais de uma centena mas propositalmente há espaço de sobra para muitos outros. A exploração continua, mas a fronteira final está longe de ser domada.