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domingo, 7 de abril de 2019

Uma Rajada de Balas - A vida sangrenta de Bonnie e Clyde


Foi durante a Grande Depressão, um período de caos na economia, que a atenção da América se viu direcionada para um casal de criminosos. Os dois eram jovens, eram impulsivos, nada parecia detê-los e as pessoas torciam por eles - a despeito deles matarem e roubarem.

Tratados como uma dupla de modernos Robin Hoods, "roubando dos bancos e nunca das pessoas", Bonnie Parker e Clyde Barrow protagonizaram uma onda de crimes que durou dois anos (de 1932 a 1934), na qual despistaram todas as tentativas de captura, dirigindo em alta velocidade e quando necessário, abrido caminho a bala. A atitude geral das pessoas no período era contrária ao governo. A vida era dura e as dificuldades se multiplicavam, nesse panorama, não era totalmente estranho que aqueles que desafiavam as autoridades fossem vistos como heróis populares. Se Bonnie  e Clyde estavam contra os bancos, eles deveriam estar à favor das pessoas mais simples. E os dois bandidos usaram isso à seu favor. Com a imagem de rebeldes, ao invés de assassinos, o casal capturou a imaginação da nação e tornou seus nomes conhecidos mundialmente.

 Mas quem foram Bonnie e Clyde?

Onde começa a história e onde termina a lenda? Como essa dupla de ladrões se tornou em um momento mais famosa do que astros de cinema, esportistas e políticos? E por que eles foram tão importantes para o período em que viveram?

De certa maneira, é fácil romantizar Bonnie e Clyde. Eles eram jovens apaixonados que ganharam as estradas americanas, fugindo dos homens da lei que haviam sido enviados para capturá-los "vivos ou mortos". A notável capacidade de Clyde de escapar de perseguições e emboscadas chegou a lhe valer o apelido de "super-homem", dotado de um sexto-sentido capaz de avisá-lo da presença de agentes da lei. Enquanto isso, Bonnie era retratada pela mídia como uma mulher moderna: inteligente, não se contentava em ficar no segundo plano. Ela decidia os alvos a serem atacados, planejava as ações e empunhava uma metralhadora tão bem quanto seu amante. Os dois eram uma novidade no marasmo de conformismo. Aos olhos do povo, constituíam uma força que se erguia contra a situação vigente. "Se a população tivesse a coragem de ser como Bonnie e Clyde, as coisas não chegariam ao ponto que chegaram", diziam alguns. Por tudo isso, a dupla não ganhou apenas a admiração, mas o coração das pessoas.

Os dois gostavam de tirar fotos com seu arsenal e ao lado dos carros.
Embora Bonnie e Clyde tivessem matado policiais, eles eram igualmente famosos por sequestrar homens da lei, mantê-los como reféns e depois, libertá-los sãos e salvos, centenas de milhas de distância. As declarações de policiais liberados dessa forma serviram para construir a imagem de que eles se divertiam à valer e que pareciam estar vivendo um tipo de aventura. Eram bandidos simpáticos.

Mas como acontece na maioria das vezes, a  verdade a respeito de Bonnie e Clyde era bem diferente da que as pessoas idealizaram e que os jornais ajudaram a perpetuar. O casal foi responsável por nada menos do que 13 assassinatos, algumas vezes de inocentes, alvejados durante os assaltos planejados por Clyde. A dupla também costumava roubar automóveis - Clyde amava carros velozes e chegou a enviar uma carta a Henry Ford elogiando seu modelo v8. Trocavam constantemente de veículo e roubavam de pessoas comuns que tinham o azar de cruzar com eles. Também atacaram muitas lojas de conveniência, armazéns e postos de gasolina, e não apenas bancos como muitos acreditavam.

Embora a história lembre deles como "ladrões de bancos", a dupla jamais conseguiu realizar um grande assalto. Os bancos sabiam do risco que corriam e por isso, evitavam deixar nas agências grande quantidade de dinheiro. Quando o faziam, costumavam usar cofres fortes e contratar seguranças armados. Em determinado momento, roubar bancos se tornou arriscado demais e a dupla abandonou esses planos, dedicando-se a atacar lugares menos protegidos. Além disso, os trabalhos em bancos obtinham dinheiro apenas suficiente para promover suas escapadas, mas nunca para garantir a eles um padrão de vida acima da média. A maioria das coisas que eles possuíam provinha de roubos menores ou da boa vontade de seus fãs que ofereciam presentes.

É fato que o casal despertava a curiosidade e atraia os olhares de todos.

Fotos como essa ajudaram a criar o mito do Casal apaixonado
Bonnie Parker nasceu em outubro de 1910, em Rowena, Texas. A família vivia confortavelmente com o salário de pedreiro do pai, até este morrer inesperadamente em 1914. A mãe de Bonnie, Emma teve então que se mudar com os filhos para uma pequena cidade nos arrebaldes do Texas, chamada Cement City (que agora faz parte de Dallas).

De acordo com a maioria das pessoas, Bonnie era uma jovem cativante. Apesar de pequena, medindo menos de um metro e meio e pesando 45 quilos, ela era esperta e atenta a tudo. Ela havia se saído bem na escola, escrevia poemas e ganhava prêmios. Todos a consideravam amável e gentil. Ela se casou aos 16 anos com Roy Thorton, um bandido de quinta categoria. A união não foi feliz, o casal vivia às turras e quando Roy foi preso em 1927, ela decidiu voltar para a casa da mãe.

Foi o tédio que a catapultou para a vida de crime. Bonnie trabalhou como garçonete e atendente de posto, a Grande Depressão em 1929 atingiu a todos e a família Parker não foi exceção. Bonnie sonhava em ser famosa, ter coisas bonitas e conhecer o mundo. Foi graças a Clyde Barrow que ela conseguiu cumprir, ao menos em parte, algumas dessas ambições.

Clyde nasceu em Telico, Texas em 1909, o sexto filho de uma família de oito. Seus pais eram fazendeiros que perderam suas terras e tinham de trabalhar como contratados na lavoura alheia. Bem jovem, Clyde teve que pegar na enxada e suar nos campos, lado a lado com seus irmãos. Sonhava em ser músico, mas não tinha tempo para praticar.

Quando tinha 12 anos, a família se mudou para o oeste de Dallas, onde o pai, Henry abriu um posto de gasolina. Lá Clyde aprendeu a respeito de automóveis e aos 15 já entendia de motores e reparos automotivos, conhecimento que seria muito útil nos anos por vir. Ele e seu irmão mais velho, Marvin "Buck" Barrow, estavam sempre metidos em confusão e haviam sido presos por roubar carros e por delitos menores. Assim como Bonnie, ele vivia em meio a poucas perspectivas e desejava mais para sua vida do que aquilo.

O Casal Bonnie & Clyde em um momento de tranquilidade
Em janeiro de 1930, Bonnie e Clyde se conheceram na casa de um amigo em comum. A atração entre os dois foi imediata e eles começaram a namorar. Poucas semanas depois, Clyde foi preso e sentenciado a dois anos de prisão por roubo. Bonnie ficou devastada. Em março do mesmo ano, Clyde conseguiu escapar da cadeia, usando um revólver entregue por sua namorada em uma visita. Uma semana depois, ele foi capturado novamente e sentenciado a mais 14 anos de cadeia na brutal Prisão Agrícola de Weldon, no Texas.

A vida em Weldon era difícil e o trabalho duro o mantinha ocupado. Desesperado, ele decidiu fingir um acidente no qual cortou dois dedos com uma machadinha para assim receber transferência. Ao invés disso, acabou recebendo um benefício inesperado e sendo liberado mais cedo, no início de 1932. Clyde disse que jamais voltaria à prisão e que preferia morrer a passar um dia que fosse naquele inferno.      

A maneira mais fácil de se manter fora da cadeia era procurar um emprego e se manter "honesto". Ele também descobriu que Bonnie havia esperado por ele, e que estava ansiosa para encontrá-lo. Infelizmente, a Grande Depressão, tornava quase impossível a tarefa de se manter na linha e Clyde não se contentava em lavar pratos ou limpar quintais, ele queria mais. Não demorou para que ele voltasse a roubar e furtar. 

Um de seus primeiros assaltos foi a um mercado local. Bonnie participou da ação, ela deveria dirigir o carro de fuga, mas acabou sendo capturada por um transeunte que percebeu o roubo. Ela foi mandada para a prisão de Kaufman de onde foi liberada mais tarde por não existir provas que comprovassem sua participação no assalto. Enquanto Bonnie estava na prisão, Clyde e Raymond Hamilton realizaram outro assalto em abril. Era para ser um ataque rápido a uma loja de conveniência, mas algo deu errado e eles acabaram baleando mortalmente o gerente.

Bonnie acabara de deixar a prisão quando Clyde a procurou em um automóvel que acabara de roubar. Ele a convidou para fugirem juntos e começar a vida em outro lugar, onde ele não era procurado por homicídio. Clyde não prometeu que abandonaria a vida de crimes, pelo contrário, disse que tinha grandes planos e que precisava dela ao seu lado para realizá-los. Ela não precisou pensar muito... Bonnie subiu no carro e Clyde acelerou estrada à fora.

O armamento de Clyde que gostava da BAR
Os dois anos que se seguiram foram de ação e excitação, e claro, crime. Bonnie e Clyde dirigiram seus carros pelas estradas e cometeram assaltos em cinco estados: Texas, Oklahoma, Missouri, Louisiana, e Novo Mexico. Eles costumavam ficar próximos das fronteiras estaduais para conseguir escapar de seus perseguidores, usando o fato de que a polícia não tinha jurisdição além de seus limites territoriais. Para ajudá-los a evitar a captura, Clyde trocava frequentemente de automóveis ou alterava as placas quase que diariamente. Clyde também estudava os mapas e conhecia com a palma da mão cada estrada, sabendo ainda a localização de atalhos e esconderijos onde poderiam ficar ocultos. Isso ajudou a quadrilha a se esvair rapidamente a maioria das vezes em que cruzavam com a lei. 


O que a polícia ainda não havia percebido é que Bonnie e Clyde costumavam fazer sempre o memso trajeto, o que os levava frequentemente de volta ao Texas, onde eles visitavam seus parentes. Bonnie tinha um relacionamento muito próximo com a mãe, que insistia que a filha passasse ao menos alguns meses na companhia dela, não importando o quanto isso poderia ser perigoso. Clyde também aproveitava para visitar a mãe e sua irmã favorita. Essas visitas por pouco não custarama  vida deles em mais de uma ocasião.

 Bonnie e Clyde já estavam na estrada há pelo menos um ano quando o irmão mais velho dele, Buck foi solto da prisão de Huntsville em março de 1933. Embora o casal estivesse sendo caçado por várias agências do governo (uma vez que seus crimes incluíam assassinatos, assalto a bancos, roubo de carros, lojas e postos de gasolina), eles decidiram alugar um apartamento em Joplin, Missouri para ter uma reunião com Buck e sua esposa, Blanche. Lá eles decidiram formar uma quadrilha, chamada Barrow Gang, na companhia de W.D. Jones, outro notório assaltante de bancos.

Após duas semanas tranquilas, Clyde percebeu carros de polícia vigiando a área. Ele foi investigar e acabou sendo reconhecido pelos patrulheiros que lhe deram voz de prisão. Um tiroteio então teve início. Tendo matado um policial e ferido outro, Clyde conseguiu chegar até a garagem onde subiu no carro. Ele resgatou os demais na casa e escapou para a estrada sendo perseguido, mas seu talento na direção continuava inigualável e ele se desgarrou dos policiais. 

Embora não tenham conseguido capturar Bonnie e Clyde naquele dia, a polícia encontrou vários objetos pessoais e informações a respeito da quadrilha. O mais notório dos prêmios foi um filme de fotografias não reveladas que mostravam o casal em várias poses portando suas armas. Também no apartamento encontraram um caderno de poesias escritas por Bonnie. Esses objetos acabaram sendo divulgados para jornalistas que publicaram o material nos principais jornais do país. Esse foi o passaporte para que o casal ganhasse fama e se tornasse extremamente popular.

Cartaz de "Procurados"
Bonnie e Clyde continuaram dirigindo, trocando de carros e tentando se manter um passo à frente da polícia que já os havia declarado procurados vivos ou mortos. A Gangue Barrow realizou um ousado assalto a um depósito do exército e conseguiu um verdadeiro arsenal na forma de metralhadoras Thompson e BAR (Browning Auto-Rifle), escopetas e pistolas, além de muita munição e explosivos. 

Mas nem tudo era festa e em junho de 1933, a quadrilha se envolveu em um acidente próximo de Wellington, Texas. Enquanto dirigiam do Texas para Oklahoma, Clyde percebeu que a ponte que eles estavam cruzando estava passando por reparos. Ele tentou frear, mas o automóvel despencou do alto da ponte e mergulhou no rio. Embora Clyde e W.D. Jones tenham conseguido saltar do automóvel, Bonnie acabou ficando presa no veículo. Os comparsas não conseguiram ajudar Bonnie, ela escapou graças à ajuda de dois fazendeiros que pararam para ajudá-la. Bonnie sofreu ferimentos em decorrência do acidente que machucou a sua perna e a fez mancar dali em diante.

Na estrada, Bonnie não podia se dar ao luxo de procurar um hospital, por isso Clyde fez o possível para tratar do machucado. Ele chegou a sequestrar uma enfermeira para que fizesse curativos e pagou a ela 100 dólares como recompensa. Embora Bonnie tenha melhorado do ferimento, ela era obrigada a ingerir Láudano e outras substâncias para diminuir o desconforto.

Cerca de um mês após o acidente, o casal, além de Buck, Blanche e W.D. Jones se hospedaram em duas cabanas no Hotel Red Crown Tavern em Platte City, Missouri. Na noite de 19 de julho, a polícia foi avisada por locais e cercou a área para tentar uma captura. Dessa vez as autoridades estavam melhor preparadas, contando com armas automáticas e agentes federais. Por volta das 23 horas, policiais bateram a porta de uma das cabanas, e Blanche pediu um instante para atender a porta. Isso deu tempo para Clyde apanhar seu rifle automático BAR e começar a atirar. O tiroteio que se seguiu foi feroz, com mais de 500 balas disparadas em um minuto. Buck foi atingido de raspão na cabeça, mas a gangue conseguiu abrir caminho com uma barragem de disparos de metralhadora que obrigou os policiais a se proteger. Com a cobertura, os bandidos chegaram ao automóvel, mas antes Bonnie tratou de descarregar um tambor inteiro de sua Thompson nos carros oficiais, furando pneus e destruindo o motor deles, impossibilitando assim a perseguição.

Clyde dirigiu até o amanhecer e o grupo conseguiu chegar a Dexter, Iowa em uma jornada longa e cansativa. Eles pararam para descansar em uma área de recreação do Parque Dexfield. Sem que eles soubessem, a polícia seguia seu rastro e foi novamente avisada da presença da gangue por um fazendeiro que encontrou ataduras ensanguentadas.

A última emboscada
A polícia local entrou em contato com a Guarda Nacional, patrulheiros e cidadãos, totalizando um contingente de mais de uma centena de pessoas para tentar capturar o bando. Na manhã de 24 de julho de 1933, Bonnie percebeu movimentação na estrada e alertou seus companheiros de uma emboscada. O grupo abriu fogo com as metralhadoras mais uma vez e seu poder de fogo conseguiu repelir os policiais. Buck acabou sendo atingido várias vezes e dessa vez não conseguiu acompanhar os membros da Quadrilha. Clyde bateu em uma árvore e o grupo escapou a nado depois de pular num rio. 

Com a captura de Blanche e Buck, que morreu alguns dias depois em decorrência dos ferimentos, a gangue se dividiu. Clyde também havia sido ferido por pelo menos dois disparos e Bonnie recebeu alguns ferimentos de fragmentos de espingarda. O ataque por pouco não custou a vida dos criminosos e depois dele, era preciso arranjar um esconderijo para que pudessem se recuperar.

Mas em novembro de 1933, após passar cinco meses escondidos, a dupla voltou a assaltar. Eles estavam mais cuidadosos e temiam ser reconhecidos, por isso Clyde começou a usar uma peruca e Bonnie pintava ou amarrava os cabelos. Eles também evitavam dirigir durante o dia, mas ainda assim, acabavam reconhecidos e atraiam uma multidão de admiradores. No mesmo mês, W.D. Jones foi capturado e revelou à polícia a localização de esconderijos da gangue. Ele contou ainda que o casal mantinha contato regular com suas famílias e que combinavam encontros. Os federais usaram uma nova tecnologia que permitia ouvir e gravar as ligações telefônicas. 

Quando uma nova emboscada colocou a vida da mãe de Bonnie em risco, Clyde ficou furioso e jurou retaliar contra os homens da lei. Em janeiro de 1934, o casal atacou a Prisão Agrícola de Eastham, onde Clyde havia sido preso. Eles coordenaram uma fuga na qual um guarda foi morto e vários prisioneiros escaparam pulando no automóvel dos dois. Um destes prisioneiros era Henry Methvin que se juntou ao bando. A notícia da fuga ganhou manchetes sensacionalistas, assim como o assassinato de dois patrulheiros rodoviários que foram alvejados depois de perseguir o carro dirigido pela gangue.

Os homens que mataram os criminosos
A situação chegou a um ponto em que as autoridades concordaram que o reinado de Bonnie e Clyde deveria chegar ao fim. A Governadora do Texas, reincorporou os Texas Rangers, grupo que havia sido aposentado, para rastrear e matar o casal à qualquer custo. A missão dada era simples: Encontrar e matar, a captura, não era mais uma prioridade.

Os Rangers, chefiados por Frank Hamer, um famoso oficial da lei, reintegrado ao serviço, começaram a perseguir a quadrilha e por pouco não os apanharam em duas ocasiões. Eventualmente os homens da lei ficaram sabendo que o pai de Methvin vivia perto de uma área onde o casal havia sido visto. Eles entraram em contato com o sujeito e confirmaram que Bonnie e Clyde estavam na região e planejavam se esconder com ele nos próximos dias. Com isso prepararam uma armadilha para quando eles passassem pela estrada 154 entre Sailes e Gibsland na Louisiana. Os policiais confiscaram o caminhão de Methvin e fingiram que ele estava com problemas no pneu. O caminhão foi estrategicamente posicionado na estrada na expectativa de que Clyde encostasse para prestar ajuda. Um grupo de seis policiais se colocou atrás de uma barreira de vegetação com armamento pesado aguardando a chegada do casal.

Aproximadamente às 9 da manhã de 23 de maio de 1934, um Ford V-8 bege surgiu na estrada e se aproximou. Quando ele diminuiu a velocidade para ver o que acontecia, os policiais baixaram a barreira e abriram fogo sem aviso. Bonnie e Clyde não tiveram tempo de reagir! A polícia disparou mais de 130 projéteis no casal, matando os dois imediatamente. Quando os policiais se aproximaram para verificar, descobriram os cadáveres massacrados, cada um crivado por mais de 50 disparos.

O Ford V8 crivado de balas que pertenceu ao Casal de criminosos
O automóvel com os corpos de Bonnie Parker e Clyde Barrow foi rebocado de volta a Dallas onde ficou em exposição para o público. Os cadáveres foram levados para o necrotério local que atestou a identidade dos dois. Centenas de pessoas cercaram o carro, muitas delas incrédulas com a morte do casal que havia cativado a imaginação do público. Embora Bonnie tenha deixado uma carta pedindo para ser enterrada junto com seu amante, os dois acabaram sendo sepultados em cemitérios diferentes. Os enterros foram acompanhados por milhares de pessoas, em sua maioria fãs, que seguiram de perto a carreira dos bandidos do início ao fim. 

O fenômeno de Bonnie e Clyde foi um acontecimento curioso que viria a se repetir em outras ocasiões, com bandidos glamourizados e alçados a condição de celebridades pela mídia. Entretanto, nenhuma dupla de foras da lei conseguiu tanta repercussão e despertou tanto interesse do público. Ainda hoje, os dois inspiram filmes, séries de televisão e livros a respeito de suas façanhas.

"Clyde e Bonnie massacrados por balas de metralhadoras"

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Meta Extra #2 - Colheita Fria - Um cenário de Chamado de Cthulhu na União Soviética


O Financiamento Coletivo de Chamado de Cthulhu está avançando e a segunda Meta Extra já está à vista.

Trata-se de uma aventura de 60 páginas chamada Colheita Fria (Cold Harvest) que leva os investigadores até a União Soviética durante os complicados anos dos Expurgos de Stalin. Coo preview para o que está por vir, segue uma pequena resenha da aventura e do que os Financiadores vão encontrar dentro dela.

Colheita Fria curiosamente foi lançada antes mesmo que os Financiadores que patrocinaram a sétima edição recebessem seus livros. O cenário foi publicado com regras compatíveis com a sexta e sétima edições, afim de atingir o maior número possível de interessados. Ele é parte da série "one night of horror", que inclui Canis Mysterium e Dead Light cenários consideravelmente menores e mais simples.

Escrito por Chad Boswer, o autor de Cthulhu Invictus, Cold Harvest se diferencia dos cenários convencionais, com uma proposta histórica pesada, se passando na União Soviética, durante o período dos expurgos promovidos pelo Camarada Stalin. Os jogadores assumem o papel de membros do Narodnyy Komissariat Vnutrennikh ou Comissariado do Povo para Assuntos Internos. Em outras palavras o infame NKVD, organização que daria ensejo para outras agências de inteligência na antiga União Soviética, como a KGB.


Em Colheita Fria, os leais oficiais da NKVD (os jogadores) são enviados para uma isolada fazenda de coletivização comunal ou sovkhoz, de onde chegaram informes de atividade anti-soviética. A colheita tem sido escassa e a repentina queda da produção sinaliza com um relaxamento dos trabalhadores ou dos encarregados. Os investigadores viajam para o lugar e são surpreendidos pela descoberta de que vários trabalhadores do Sovkhoz Krasivyi Okatbyr, parecem estar sofrendo de uma estranha condição que os impede de desempenhar o papel que se espera dos cidadãos. Tem havido violência, casos estranhos e o desenvolvimento de deformidades gritantes em habitantes locais. Para piorar, o ar parece carregado com a ameaça de uma revolta camponesa, dando ensejo a um assassinato brutal. Tudo isso em uma fazenda que até pouco tempo era modelo de atividade e produção. O que está acontecendo?

Embora os agentes do NKVD estejam fortemente armados, Colheita Fria está longe de ser um cenário orientado para o combate. Seu foco principal está na boa e velha investigação e no trabalho de detetive. Os investigadores tem que vasculhar informações, ouvir testemunhas e lentamente ir encaixando as peças para compreender o quadro geral.

O clima de paranoia e burocracia permeia todas as cenas, com a ameaça de deportação e acusações de alta traição podendo ser um perigo tão ou até mais grave que as criaturas dos Mythos de Cthulhu. Esse é um ponto interessante do cenário, o fato de que os horrores lovecraftianos se mantém ocultos por boa parte da trama. O texto instrui o Guardião a conduzir o cenário de uma maneira em que o horror cometido pelos humanos se equipara ao de criaturas inumanas. Nas mãos de um bom Guardião, esse posicionamento permite criar situações perturbadoras e cenas bizarras que deixarão os jogadores constantemente na defensiva. O clima de confusão e a sensação de que algo ruim está prestes a acontecer é outra marca do cenário que segue num crescendo de estranhezas que descamba para uma verdadeira avalanche de horror cósmico.


Uma das opções para jogar Colheita Fria prevê uma aventura solo, na qual o Guardião narra a aventura para apenas um jogador. Nesse caso, o cenário assume um tom bem mais intimista. Nada impede, contudo, que a aventura seja jogada por um grupo maior, tanto que oito fichas de personagens estão incluídas na parte final do livro. Pessoalmente, eu prefiro essa opção, ainda que a oportunidade de narrar para um único jogador, sozinho contra o horror, seja tentadora.

O livro inclui detalhes históricos, apêndices com informações e um guia de conversão para a sexta edição (que não sei se estará presente na versão da New Order). Um toque interessante é o apêndice que situa essa aventura entre outras que se passam durante o período stalinista na União Soviética. A lista inclui cenários lendários como Machine Tractor Station Kharkov-37 de Bret Kramer e O Terror de Troy C. Wilhelmson, os dois no formato de monografias publicadas pela Chaosium. Ele também cita Shadows of Leningrad de Mike Ferguson uma das aventuras integrantes da série Age of Cthulhu da Goodman Games. É interessante que o autor discute a possibilidade de juntar esses cenários criando uma pequena campanha se passando na URSS dos anos 1930, uma época que ficou conhecida como a Década do Desespero. Uma pena que conseguir essas monografias e aventuras será um tanto quanto difícil, visto que alguns estão fora de catálogo.


Colheita Fria tem alguns pequenos problemas, entre os quais a falta de um suporte maior para os jogadores. O cenário inclui algumas informações a respeito de como interpretar agentes do NKVD, mas estas poderiam ser mais completas. Por se tratar de uma campanha de teor histórico, espera-se que os personagens saibam detalhes a respeito do período e do panorama em que se passam os acontecimentos. É provável que nem todos estejam familiarizados com os acontecimentos da Década do Desespero, quando a Revolução estava por um fio e Stalin tomou decisões drásticas para se manter no poder. É provável que o Guardião tenha de fazer uma pesquisa antes de narrar essa aventura e mais provável ainda que os jogadores tenham de ser inteirados de alguns detalhes para que o cenário funcione a contento. Para um narrador com tempo e disposição não será nenhum empecilho, mas para quem pensa em simplesmente ler e narrar a aventura, isso pode ser um problema.

As fichas de personagens possuem algumas pequenas alterações uma vez que se referem a personagens vivendo na União Soviética. A habilidade "Crédito" é substituída por "Status do Partido", que reflete o quão bem seu personagem se relaciona com os figurões do Partido Comunista. Há algumas semelhanças entre essa aventura e Machine Tractor Station Kharkov-37, que vão muito além das se passarem em Fazendas de Coletivização nos arrebaldes da URSS. As duas tratam de dilemas e escolhas difíceis de serem feitas à luz da moralidade. Certas escolhas que os investigadores terão de fazer em Cold Harvest são incômodas, afinal de contas, nem todos tem estômago para participar, quanto mais promover os famigerados expurgos soviéticos.


Além disso, o Guardião deve tomar muito cuidado, uma vez que os jogadores detém muito poder e autoridade nessa aventura. Eles literalmente tem poder de vida e de morte sobre aldeões e a maior parte dos coadjuvantes na trama. O risco desse poder subir à cabeça dos jogadores pode estragar toda a diversão e abreviar a sessão. Além disso, existe a possibilidade dos personagens se converterem nos verdadeiros monstros do cenário.

Finalmente, há muitos perigos nessa aventura e a possibilidade de um fracasso monumental, com o grupo inteiro morrendo, enlouquecendo, ou pior (sim é possível acontecer algo pior!), se mostra considerável. Nesse aspecto, Cold Harvest parece ideal para uma sessão one-shot com jogadores mais maduros e um Guardião com certo grau de experiência.

Sem dúvida é uma aventura diferente e interessante que mostra o quão amplo é o cardápio de possibilidades de Chamado de Cthulhu. pára quem quer fugir do óbvio e estimular os jogadores com um cenário atípico, essa é uma excelente opção.


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Canibais, zumbis e Maldições contra Hitler - A vida no limite de William Seabrook


Em 22 de Janeiro de 1941, um grupo de pessoas se trancou em uma cabana nas florestas do estado norte-americano de Maryland com uma importante missão: eles tentariam matar Adolf Hitler.

Seu método e a escolha das armas era no mínimo curiosa. Um manequim, um uniforme nazista, alguns machados, uma caixa de pregos, bebida alcoólica suficiente para embriagar um exército e uma forte crença nos poderes da Magia Negra. 

Hoje em dia, a história continua sendo das mais estranhas, e entre os participantes desse peculiar ritual estava uma das figuras mais estranhas da História dos Estados Unidos. Hoje pode parecer apenas uma excentricidade, mas para os indivíduos que tomaram parte do experimento, não foi nenhuma brincadeira. Eles realmente acreditavam que os poderes envolvidos da magia negra invocada conseguiriam amaldiçoar Hitler e enviar sua alma gritando para o inferno. E para mostrar que falavam sério, eles convidaram um fotógrafo e repórter da Revista LIFE para documentar todos os acontecimentos. 

Quem conduziu o experimento ritualístico de magia negra foi ninguém menos do que William Seabrook um dos mais polêmicos e influentes jornalistas do período. Isso talvez explique a credibilidade de uma loucura desse tamanho ganhar as páginas da mais importante publicação da época.

Atualmente poucas pessoas sabem quem era ele, mas Seabrook foi muitas coisas durante sua vida: Autor, pesquisador, viajante, explorador, ocultista e membro de uma Geração Perdida. Um homem estranho mesmo entre os estranhos, capaz de testar os limites da civilização e quebrar tabus que a maioria das pessoas viraria o rosto nauseadas. Ah, sim, Seabrook foi entre outras coisas, ao menos uma vez, um canibal.


Foi durante uma viagem pelo continente africano em 1935, onde Seabrook trabalhava como correspondente internacional, que ele conseguiu fazer contato com a perigosa Tribo Guéré. Os nativos habitavam uma região selvagem na então colônia francesa da Costa do Marfim. Eles eram hostis e atacavam qualquer um que ousasse adentrar seu território. Meses de negociação permitiram ao repórter e um pequeno grupo, não apenas encontrar o líder Guéré, mas negociar com ele. Dizem que Seabrook presenteou o Chefe Tribal com uma caixa de rifles e munição para ganhar sua atenção. Ainda assim, o presente não garantia que ele, ou seus companheiros, conseguiriam sair de lá com vida.

O objetivo da expedição, era ainda mais ousado. Seabrook queria encontrar verdadeiros canibais e registrar sua sociedade para um livro que ele planejava escrever, "Jungle Ways" (Costumes da Selva). Mas como sempre, ele esperava ir além, desejava comungar com os nativos e experimentar sua cultura ao máximo para assim compreender seu comportamento. Queria ser um deles, e para isso teria de se alimentar como eles... de carne humana. Os Guéré, no entanto, o enganaram e embora tenham lhe oferecido uma refeição afirmando se tratar de carne humana, na verdade lhe entregaram carne de gorila. Furioso o repórter partiu da aldeia por pouco não causando a morte de toda expedição. De lá seguiu para o Sudão onde conheceu um feiticeiro tribal que também era cozinheiro, um homem que prometeu saciar sua obsessão pelo canibalismo. O feiticeiro cumpriu sua parte no acordo e como resultado, o explorador escreveu um parágrafo sobre a bizarra experiência culinária:

"A carne humana crua, em aparência, era firme, um tanto quanto densa quando comparada a outras carnes de animais próprias para o abate. A textura dela, crua, tanto aos olhos quanto ao toque, lembra um bife normal. Na cor, entretanto, ela era um pouco menos vermelha do que carne de gado. Ainda assim tinha um vermelho sangrento. Ela não era cinzenta ou rosada como a carne de carneiro ou porco".

De acordo com o livro de Seabrook, publicado no ano seguinte, carne humana tinha gosto "de um bom pedaço de vitela" e de fato "nenhuma pessoa com um paladar além do ordinário, e dos sentidos normais, seria capaz de distinguir essa carne em especial, da vitela que pode ser comprada em qualquer açougue no mundo civilizado". Embora apenas uma pequena parte de "Jungle Ways" tratasse do mergulho do repórter em um dos maiores tabus da humanidade, seu livro ficou conhecido como uma obra medonha, proibida em vários países. O livro talvez não definisse a carreira do jornalista, mas dizia muito a respeito dele.

Em vida, William Seabrook era ao mesmo tempo um homem notável e uma caricatura do ridículo. O Rei das Viagens Impossíveis e dos livros sobre povos e civilizações perdidas. Desde sua morte, a obra de Seabrook desapareceu e se tornou obscura. Recentemente, um de seus livros, Asylum foi republicado, lançando uma luz sobre a vida e obra desse cronista do absurdo.



Nascido em Maryland em 1884, Seabrook iniciou sua vida como um homem de respeito. Ele cursou a universidade e recebeu um cargo importante no semanário August Chronicle, que lhe garantiu uma vida de viagens pela Europa. Ele casou com a filha de um importante executivo da Coca-Cola e fundou uma agência de propaganda. Mas essa vida convencional logo se tornou uma espécie de inferno particular para Seabrook. Ele desejava algo mais em sua existência, embora a essa altura não 
soubesse exatamente o que.

A resposta veio em 1916, quando a Europa já mergulhava no segundo ano de uma catastrófica Guerra em que milhares de homens morriam diariamente. Seabrook deixou uma carta para esposa e colegas de trabalho alegando que precisava tomar parte no acontecimento que nas suas palavras "iriam moldar o século XX". Ele não esperou pelos Estados Unidos e antes desse se juntar ao esforço de Guerra, alistou-se como voluntário na França e recebeu a incumbência de dirigir uma ambulância no fronte. A adrenalina e o caos fizeram seu sangue fluir mais rápido do que ele poderia imaginar, dali em diante ele estava contaminado pela excitação da vida no limite.


Depois da Guerra, Seabrook fez uma séria tentativa de entrar no mundo da Literatura e passou a conviver com os círculos de boêmios do Greenwich Village. Um desses boêmios era Tony Sarg, que apresentou o jornalista a Deborah Luris a mulher que por sua vez introduziu Seabrook ao mundo proibido do sado-masoquismo. Mas para a maioria dos críticos literários, ele não passava de um repórter marginal que atraia um nicho muito específico de pessoas com histórias sobre crimes, ocultismo e sobrenatural. Ele era um jornalista que pertencia a Imprensa Marrom, um grupo que não era levado à sério.

Embora seu tempo no Greenwich Village não tenha trazido grandes benefícios para sua carreira literária, Seabrook conheceu pessoas interessantes como o estudante libanês Daoud Izzedin que encantava seus colegas da Universidade de Columbia com narrativas do Mundo Árabe. Izzedin e Seabrook se tornaram bons amigos e quando o primeiro o chamou para uma viagem até Beirute, este aceitou de pronto. Alguns meses depois, Seabrook estava vivendo entre os beduínos do Deserto da Arábia, participando de cerimônias envolvendo dervishes turcos e vagando pelo deserto no norte do Iraque sob a influência de drogas exóticas, ópio e coisas piores.

Ele retornou de suas peregrinações com histórias empolgantes a respeito de terras exóticas onde homens brancos raramente eram vistos ou apreciados. Trabalhando como correspondente, Seabrook não tinha ideia do quanto suas narrativas eram populares. Nem mesmo sabia que elas estavam sendo publicadas em várias revistas. Ele era tratado então como uma espécie de celebridade, um herói que explorava os mundos proibidos da África do Norte e do Oriente Médio trazendo para a "civilização ocidental suas experiências pessoais com os povos mais estranhos do globo" - ou assim prometiam as revistas que publicavam suas aventuras.  


Com o passar dos anos, a fama de Seabrook crescia e quando finalmente ele retornou a América encontrou um público que queria ouvir ainda mais a respeito de suas jornadas. Ele foi convidado para presidir palestras em grandes universidades. Em uma dessas palestras ouviu falar pela primeira vez das religiões africanas praticadas no Haiti e se surpreendeu com o Vodu.

Não demorou até que o obstinado jornalista conseguisse patrocínio para sua próxima aventura. Ele havia ouvido falar de um curioso mito envolvendo o folclore caribenho e que havia se firmado durante o comércio colonial de escravos. Zumbis ainda eram pouco conhecidos na época e Seabrook foi um dos primeiros americanos a se interessar pelos rumores de mortos que caminhavam. O zombi cadavre imediatamente atraiu a sua atenção e ele partiu para Port au Prince disposto a explorar a origem da lenda.

Através de um coletor de impostos mulato chamado Constant Polynice, Seabrook ouviu falar de um feiticeiro vodu (um bokor) que trabalhava para uma companhia açucareira americana. O sujeito supostamente criava zumbis para servir de mão de obra barata para a plantação. O jornalista viajou até a região e entrevistou o feiticeiro, na verdade, ele e sua esposa, que eram os responsáveis por criar os zumbis e negociar com os empresários estrangeiros. Seabrook conseguiu convencer o casal a mostrar como eles criavam os zumbis. Ele os acompanhou até uma visita a um cemitério e assistiu um cadáver ser exumado e preparado para o ritual. O morto recebeu uma pitada de sal sob a língua e foi "batizado" com um novo nome a fim de esquecer quem ele era anteriormente. Segundo a narrativa de Seabrook ele ficou na companhia dos feiticeiros por alguns dias, mas teve de fugir às pressas quando um grupo de aldeões furiosos invadiu a casa onde os bokor viviam e os massacraram.

Ainda no Haiti ele visitou o vilarejo de La Gonave, onde esteve cara a cara com outro bokor que controlava zumbis e os "alugava para trabalho escravo". Seabrook participou de um "ritual de criação de zumbis"  no qual descreveu o uso de substâncias entorpecentes cujo propósito era deixar a pobre vítima dócil e suscetível a comandos. As explorações do jornalista pelo Haiti se tornaram um livro lançado em 1929 e intitulado "In the Magic Island" (Na Ilha Mágica) que se tornou um bestseller. É possível que esse tenha sido um dos primeiros trabalhos a respeito do mito dos zumbis e vodu publicados nos Estados Unidos. É provável ainda que o livro tenha sido usado como base para a utilização de zumbis em filmes e histórias de horror ao longo da década de 1930.


O livro tornou Seabrook ainda mais popular e permitiu a ele participar de novas aventuras. Em 1933, ele esteve no Norte da África na companhia da recém criada Força Aérea Francesa em uma campanha cartográfica para mapear essa parte do continente. Foi nessa época que ele participou de sua famosa jornada pela Costa do Marfim que o tornou persona non grata e lhe valeu a fama de canibal e o apelido "Abominável Seabrook". A vida intensa de viagens e empolgação cobrou um preço alto do jornalista. Adepto de drogas experimentais e quantidades devastadoras de álcool, Seabrook mergulhou em um acentuado declínio antes de chegar aos 50 anos. 

Para combater sua dependência química e psíquica ele aceitou se internar em um asilo e enfrentar uma longa terapia que durou mais de sete meses. Ao fim do tratamento ele já tinha um novo livro pronto, "Asylum" (Asilo) que tratava de seu período sob "tutela de médicos psiquiatras e na companhia de notórios insanos". O livro foi visto com curiosidade e se mostrou um de seus últimos trabalhos que alcançou o público. Mas algumas críticas negativas tiveram um efeito devastador e ele voltou a beber. Ainda assim ele continuava a pesquisar e escrever cada vez mais interessado em temas incomuns e bizarros: Percepção extra-sensorial, reencarnação, bruxaria, satanismo e viagens astrais se tornaram parte de sua literatura especulativa e renderam mais quatro livros. 

Em 1941, Seabrook voltou a ganhar exposição ao tentar seu ritual para assassinar Hitler utilizando o Vodu. Estranho como possa parecer, ele ainda tinha seus fãs, entre eles, um grupo de jovens que vivia em Washington D.C e que havia lido o livro "Witchcraft: It's power in the World Today" (Bruxaria: Seu poder no mundo atual) e estavam interessados em aprender com ele métodos de encantamento e magia negra. O grupo contatou Seabrook e pediu a ele que os liderasse em uma tentativa de matar o líder nazista através de feitiços. Sabendo que aquilo traria alguma atenção da mídia, ele aceitou.

"Feitiços Vodu", ele explicou na entrevista publicada na revista LIFE, "funcionam apenas quando a vítima do malefício sabe que está sendo atacada pelo feiticeiro". Por essa razão, ele convidou a Revista para documentar todo o experimento.

Seguindo as instruções de Seabrook, um manequim foi vestido com um uniforme nazista. Um ajudante usou um chocalho sobre a cabeça do manequim, enquanto o grupo repetia as palavras em uníssono: "Você é Hitler! Hitler é você!"


O grupo então começou a martelar pregos em uma foto de Hitler colocada sobre o peito do manequim ao mesmo tempo que repetia as palavras: "Nós estamos enfiando pregos e agulhas no coração de Adolf Hitler". Para terminar o ritual, um grupo recebeu machados e fez o boneco representando o ditador nazista em pedaços. 

"Istam!" gritou Seabrook afirmando que a palavra invocava uma entidade pagã, "Envie 99 gatos pretos para arranhar seu coração e 99 cães negros para comer o coração de Adolf Hitler".

Quando o ritual terminou, Seabrook e seus colegas enterraram o manequim em uma vala. Ali os vermes deveriam devorá-lo, até que o homem amaldiçoado encontrasse seu fim. Os fotógrafos fizeram a festa e detalharam todo o processo. A reportagem foi publicada na Revista LIFE com o título "Feitiço para Amaldiçoar Hitler e terminar com a Guerra". No artigo Seabrook garantia que até o final do ano o líder alemão estaria morto e o conflito terminado.

Hitler é claro não morreu em 1941. Ele viveria por mais três anos antes de morrer em um bunker de Berlin em 30 de abril de 1945.

William Seabrook morreria um ano depois de Hitler, também pelas suas próprias mãos ingerindo uma dose maciça de pílulas para dormir. Ele deixou para trás, uma das vidas mais bizarras e incomuns que um homem poderia desejar.

domingo, 16 de abril de 2017

Wunderwaffen - As Super Armas Secretas dos Nazistas


Pouca coisa desperta mais polêmica do que o tema Alemanha Nazista.

Ele atrai a atenção e especulação de todos há mais de 70 anos. Desde a Segunda Guerra Mundial, as pessoas se perguntam como um Regime de Horror como esse se formou justo em uma nação avançada, moderna e progressista. A despeito do horror desencadeado, há algo estranhamente fascinante a respeito da mitologia oculta do nazismo, seus significados, segredos e mistérios. A combinação de poderio militar e misticismo gerou toda uma subcultura de estudo sobre o assunto.

Um dos aspectos mais curiosos sobre o Nazismo diz respeito a algo que se convencionou chamar Wunderwaffen, armamentos de tecnologia avançada até para os padrões atuais. Essas armas vão de miras laser até motores de jatos supersônicos, coisas que não existiam na década de 1940, exceto na ficção, mas que já eram contempladas pelos cientistas alemães como possíveis e que em alguns casos chegara a ser fabricadas. Outras armas nunca saíram do papel, mas nem por isso deixam de ser fantásticas.  

Mas quanto dessas histórias são verdadeiras, e quanto não passa de invenção?

Como todos complexos militares industriais, a Alemanha Nazista possuía programas de pesquisas e desenvolvimento, bem como engenheiros e operários à seu serviço. Dentro dessas indústrias bélicas, programas e planos para o desenvolvimento de armas avançadas de fato existiram. A medida que os recursos e mão de obra diminuíram ao longo da guerra, menos projetos foram levados adiante, mas alguns dos que seguiram adiante até o final do conflito eram simplesmente incríveis.


Hoje em dia, sabemos a respeito de praticamente todos os programas militares em desenvolvimento durante o governo nazista. No final da Guerra, os Aliados conseguiram capturar várias instalações relativamente intactas e delas confiscaram tecnologia, planos e documentos. Obtiveram ainda protótipos e maquinário. Muito desse material deveria ter sido destruído pelos próprios nazistas, mas quando a guerra já estava perdida, a prioridade era ocultar crimes ocorridos nos Campos de Extermínio.  

Os planos confiscados pelos Aliados mostravam que os nazistas estavam de fato comprometidos com a construção de Caças à Jato, como os modernos Messerschmitt Me-262 e o Heinkel He-162, ambos muito superiores a qualquer avião do período. Perto do fim da guerra, algumas tropas já estavam sendo equipadas com o Zielgerät ZG-1229 Vampir, miras infravermelhas, que forneciam visão noturna, bem antes dos americanos conceberem a ideia. Talvez o auge do poderio militar nazista tenha sido o Programa de desenvolvimento do míssil de cruzeiro V-1 e do projétil balístico suborbital de longa distância, o V-2. Três mil protótipos foram testados e mais da metade deles conseguiu atingir o espaço, quinze anos antes do Sputnik 1.

Outros planos, ainda mais fantásticos de fato existiram, ao menos em plantas. Entre os veículos aéreos, existia o Horten Ho-229 um avião propelido à jato, o Mach 2.2 Lippisch P13a um caça com asas em formato delta, um avião espião de altitude similar ao U-2 americano chamado DFS-228, e até um avião com asas em rotação, o Messerschmitt P.1101, que se tornou o precursor do Bell X-5. Haviam ainda planos para o desenvolvimento de aviões capazes de realizar decolagem e pouso vertical.

Os nazistas também tentaram desenvolver agressivamente o projeto para seu Amerika Bomber, um avião bombardeiro com capacidade de voo para realizar ataques nos Estados Unidos. Os nazistas acreditavam que fazendo bombardeios sobre as cidades americanas, poderiam mudar o curso da guerra. Esses aviões incluíam variantes do jato Arado E 555 e até mesmo um veículo suborbital chamado Silbervogel que chegou a ser testado. Com esses aviões, os nazistas conseguiriam lançar bombas sobre Nova York e Boston, por exemplo, ferindo duas das principais cidades da América.


Em terra, os alemães tinham planos para a construção de enormes tanques blindados. A tecnologia de tanques nazistas durante a Guerra era muito superior a dos aliados. O Tanque Tiger II possuía uma capacidade de mobilidade, velocidade e blindagem notável, quase comparável a dos Tanques atuais. Mas os planos eram construir armas ainda maiores e mortais. O Landkreuzer P.1000 Ratte e o P.1500 Monster, comportavam uma tripulação de 40 a 100 homens respectivamente. Eram máquinas gigantescas, equipadas com canhões de longo alcance e que mais lembravam trens do que tanques. Eles podiam disparar as maiores peças de artilharia desenhadas até então, projéteis de 800 mm com poder de destruição devastador. Esses tanques poderiam reduzir cidades inteiras a ruínas se tivessem sido produzidos. 

No mar, os nazistas planejavam a construção de um novo modelo de submarino capaz de disparar seus mísseis V-2 do alto mar nas cidades norte-americanas. O plano era construir esses barcos como plataformas móveis de lançamento, transportando até 100 mísseis de longo alcance. Três chegaram a ser desenvolvidos, um até ficou pronto antes do fim da guerra, mas os testes do V-2 atrasaram em relação ao submarino. O projeto da plataforma posteriormente foi usado pelos americanos e soviéticos, mas apenas nos anos 50.

Os Nazistas também estavam próximos de desenvolver armas atômicas para equipar nos seus mísseis V-2. Documentos secretos obtidos do alto comando alemão, atestam que o projeto para a construção de complexos de enriquecimento de urânio estavam em progresso. Com esse material, não demoraria até que eles conseguissem fabricar armas de destruição em massa. 

Enquanto o Projeto Manhattan estava ocorrendo nos Estados Unidos, ele tinha um irmão gêmeo na Alemanha: o Uranverein, ou Clube do Urânio. O Uranverein teve um início tão promissor quanto o Projeto Manhattan, talvez até mais eficiente; contudo, os nazistas não dispunham de recursos para as pesquisas e o curso da guerra freou seu progresso. A operação com os reatores alemães para a criação de plutônio requeria Água Pesada, que vinha quase que inteiramente da Estação Hidroelétrica de Vemork na Noruega, um lugar que produzia nitrogênio para fins agrícolas. O Clube do Urânio foi desmantelado por aquela que talvez tenha sido uma das operações de sabotagem mais importantes da história: Operação Gunnerside, na qual uma pequena equipe de comandos noruegueses foi lançada de paraquedas atrás das linhas inimigas e esquiaram até Vemork. A seguir, escalaram os rochedos ao redor da usina, invadiram o complexo através de um duto de ventilação e plantaram explosivos. A explosão resultante destruiu todo o suprimento alemão de água pesada e a maior parte do equipamento necessário para sua produção. 3,000 soldados foram enviados atrás dos sabotadores, mas os noruegueses conseguiram escapar.


Meses mais tarde, a indústria voltou a operar, mas bombardeios aliados conseguiram atingir as instalações mais uma vez. Os alemães fizeram uma última tentativa de enviar um carregamento de água pesada através de cargueiros no Mar do Norte . Uma heroica equipe de comandos noruegueses, incluindo o lendário guerrilheiro Knut Haukelid, conseguiu plantar explosivos à bordo. Com o navio danificado, submarinos terminaram o serviço e mandaram embarcação e carga para as profundezas do mar. Isso abalou o programa nazista de armas atômicas de tal forma que ele foi cancelado. 

Vários especialistas em tecnologia acreditam que os cientistas do Clube do Urânio chegaram a realizar testes simulando explosões atômicas. As armas, no entanto, tinham o "interior oco", ou seja, embora contassem com a tecnologia para implosão do material radioativo, não foram abastecidas com plutônio. Historiadores defendem que seria questão de tempo até os nazistas desenvolverem por completo seu programa nuclear e estarem aptos a criar bombas atômicas. Se o Clube do Urânio tivesse prosseguido em suas pesquisas a Guerra poderia ter acabado de forma muito diferente. Em 2006, cientistas encontraram traços de radiação em estações de pesquisa usadas nos tempos da guerra, assinaturas de energia que comprovam manipulação de compostos radioativos. Isso mostra que os alemães, possuíam a tecnologia, anda que seu suprimento de plutônio fosse escasso. 

Isso tudo nos leva ao derradeiro e mais inacreditável projeto da Wunderwaffen nazista, um projeto ultra-secreto batizado Die Glocke, que significa "O Sino". O Sino seria um veículo aéreo em formato de disco, em geral descrito como um Disco Voador. Quando se fala na Wunderwaffen nazista, muitos pesquisadores imediatamente pensam a respeito desses misteriosos discos, seus apelidos e denominações. Em nenhuma base ou complexo industrial capturado pelas forças aliadas, algo remotamente semelhante ao Sino foi encontrado, ao menos nenhum que se saiba.


Há, no entanto, muitos papéis, documentos e mesmo plantas aludindo para a construção de tais máquinas aéreas de design absurdo. 

A origem dos Discos Voadores nazistas é discutida em detalhes em um livro escrito em meados de 1990 por um historiador militar polonês chamado Igor Witkowski chamado "A Verdade a respeito da Wunderwaffe". Em seu livro, Witkowski conta uma história sensacional: Ele teria obtido acesso (mas não a liberdade para fazer cópias) a documentos secretos redigidos nos dias finais da Guerra com um oficial nazista chamado Jakob Sporrenberg. Através das transcrições, o autor relata como tomou conhecimento a respeito do Projeto Sino que envolvia o desenvolvimento de um veículo aéreo com motores gravitacionais de flutuação.

Não se sabe, entretanto, se o livro de Witkowski tem algo de verdadeiro ou é mera ficção especulativa. Ele não oferece evidências da existência e ninguém parece apoiar as suas ideias e conclusões. O personagem principal do livro, o Oficial SS Sporrenberg também não pode corroborar as alegações. Ele foi executado por crimes de guerra em 1952. Em vida, sabemos que Sporrenberg foi um Oficial severo que enfrentou os partisans na Polônia e que teve pouca conexão com ciência aérea e os grupos de desenvolvimento de armas do exército.

Mas embora existam poucas provas para sustentar as lendas do Disco Voador Alemão, a mitologia que cerca o regime ajuda a propagar esse tipo de crença. Misticismo e o Mundo Oculto, afinal, fazem parte do Legado Nazista (se é que podemos chamar assim).

O Regime sempre foi um imã de teorias bizarras e controversas. A origem dessas histórias, parece ser o trabalho de dois autores franceses que nos anos 1960 lançaram um trabalho chamado "O Amanhecer dos Feiticeiros" (The Morning of the Magicians), no qual especulavam a respeito das muitas tradições místicas e sociedades secretas ativas na Alemanha. Entre essas obscuras Sociedades influentes nos anos que antecederam a Guerra, uma em especial chamava a atenção, seu nome era Sociedade Vril (sobre a qual teremos um artigo).


A misteriosa Sociedade Vril congregava um grupo de ocultistas, alegados feiticeiros, supostos satanistas e pessoas muito importantes no meio político que daria origem ao Partido Nazista. Segundo o Livro, a Sociedade Vril se ofereceu para aparelhar o exército alemão e torná-lo em uma Máquina de Guerra eficiente, virtualmente imbatível, cujo poder seria abastecido por conhecimento místico e tecnologia até então desconhecidas. 

A base de tudo seria o Vril. A Sociedade acreditava na existência dessa misteriosa substância que forneceria uma fonte de energia inesgotável. Utilizando o Vril, cuja origem para a Ordem é mística, as máquinas de guerra do Exército Nazista rodariam sem parar e sem a necessidade de renovação. O fluido mágico ainda ajudaria a criar soldados invencíveis uma vez que ele era também uma espécie de fórmula para a saúde e longevidade. 

É bizarro imaginar que os Nazistas realmente acreditassem nesses conceitos que parecem ser retirados de histórias pulp e de ficção científica, mas ao que parece, pessoas muito importantes na alta cúpula do Partido Nazista acreditavam na existência do Vril e nas suas incríveis capacidades. Tanto é verdade que investiram milhões de marcos antes da guerra em expedições e buscas infrutíferas pela Civilização Ancestral que ocultava o Segredo do Vril.

Mas qual a relação entre o Vril e o Projeto Die Glocke? 

Os teóricos acreditam que o Disco Voador Nazista seria uma máquina abastecida pelo combustível místico e que ele era a base para o funcionamento dos seus motores anti-gravitacionais. A grande vantagem do Vril sobre os demais combustíveis era o fato do fluído garantir uma autonomia de voo indefinida. Uma vez acionados, os motores permitiriam vôos longos e estáveis, distâncias simplesmente não importariam.

Mas existiam outros Projetos de Discos Voadores em desenvolvimento pelo Exército Alemão.


O mais conhecido talvez seja o aparelho aéreo idealizado por Victor Schauberger, um cientista austríaco que chefiou um Projeto que visava construir um veículo aéreo de formato e modelo inovador. As plantas desses projetos secretos, deixam bem claro que Schauberger estava em busca de uma espécie de Disco Voador. O cientista concebeu um sistema de propulsão chamado "Vórtex Líquido" que para alguns, ao menos na teoria, poderia funcionar.

Schauberger trabalhou em um complexo militar ligado a Lufftwaffe em Leonstein entre 1938 e 1945. Lá ele tinha autoridade para construir protótipos e realizar testes. Seu maior sucesso teria sido um protótipo de um metro e meio, pesando 135 quilos que através de um motor elétrico gerava um campo antigravidade que permitia ao aparelho capacidade de flutuação. 

Segundo Schauberger: "Se água ou ar rotacionasse em uma força giratória de oscilação chamada "coloidal", energia suficiente poderia ser gerada permitindo capacidade de levitação".

Em outro teste, ocorrido em 1942, um outro protótipo teria levitado a dois metros de altura e se movido mediante a ajuda de jatos horizontais. O aparelho teria carregado dois passageiros, mas ele não funcionou por muito tempo. Para alguns, o programa visava a construção de um hovercraft primitivo e não de um veículo de altitude.

No final da Guerra, o complexo de pesquisas de Schauberger foi destruído pelas bombas soviéticas. O cientista e sua equipe receberam ordens de explodir os protótipos e queimar as plantas e documentos para que nada caísse nas mãos dos inimigos. O cientista alegou até o final de sua vida que ele cumpriu a ordem apenas em parte. Para escapar de uma condenação, ele aceitou destruir os protótipos, mas manteve as plantas de sua pesquisa no intuito de negociar  com os americanos a tecnologia na qual vinha trabalhando. Não se sabe se essa história é verdadeira, mas Schauberger imigrou para a América em 1945 e se estabeleceu em Houston onde alegava ter trabalhado em uma divisão secreta ligada a Força Aérea Americana.


Schauberger, no entanto, não viveu muito para compartilhar de sua visão, ele logo adoeceu e contraiu uma doença degenerativa. Em seu leito de morte ele teria dito: "Eles tomaram tudo de mim. Eu não tenho mais nada! Não possuo mais, nem a mim mesmo!"

O Cientista morreu em 1947.

Durante os anos 1950, os norte-americanos tentaram desenvolver aparelhos aéreos com aerodinâmica arrojada como o Avro-Car e o Neg-G que pareciam muito com os Discos Voadores idealizados pelos cientistas do Projeto Glock. Infelizmente, os projetos acabaram sendo abandonados no início dos anos 1960 quando aviões à jato ganharam primazia e se tornaram as armas mais eficazes do arsenal aéreo. 

Seria possível que os nazistas tivessem não apenas desenhado armamentos e veículos aéreos fantásticos, mas construído tais aparelhos? Será que se eles tivessem tempo para desenvolver essas armas, elas realmente seriam usadas nos campos de batalha? E se esse fosse o caso, será que eles fariam diferença no rumo do conflito que definiu o mundo para as gerações futuras?

As super-armas de Hitler podem jamais ter saído da prancheta dos projetistas, mas elas continuam nos fascinando e aterrorizando, assim como quase tudo a respeito do Regime Nazista. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

A Grande Viajante - A vida e as jornadas de Alexandra David-Neel


Todo ano, nessa data específica em que se celebra o Dia Internacional das Mulheres, o Mundo Tentacular prepara uma postagem especial com alguma mulher que marcou época. 

Na ficção lovecraftiana o que não falta são mulheres a frente de seu tempo. O mais interessante a respeito delas, contudo,  é que muitas vezes elas foram inspiradas por mulheres verdadeiras de carne e osso que tiveram existências inacreditáveis. Uma dessas mulheres incríveis é Alexandra David-Neel, nascida na França, mas com o coração no Oriente, ela é um exemplo de aventureira cuja vida incrível parece coisa de ficção. 

*          *          * 

Mistica, contestadora, ocultista e viajante, Louise Eugenie Alexandrine Marie David nasceu em Paris em 24 de outubro de 1868. A atmosfera de sua casa durante sua infância era, segundo a maioria das pessoas, bastante austera e rígida. Quando criança, os livros favoritos da pequena Louise eram as histórias de ficção científica escritas por Jules Verne. Como uma maneira de se rebelar contra sua severa criação, ela prometeu a si mesma que um dia teria uma vida tão vibrante quanto a daqueles personagens. 

Uma das primeiras indicações de seu desejo de liberdade e anseio por aventuras foi ela ter fugido de casa aos cinco anos, logo após a família ter se mudado para Bruxelas. Só depois de ser procurada por uma noite inteira, a menina foi encontrada e conduzida a contra gosta até uma gendarmeria. Aos quinze anos de idade, Alexandra, que havia exigido o direito de estudar, tomou conhecimento do mundo oculto e ficou fascinada pelo tema. Logo ela passou a se corresponder com Elisabeth Morgan, que era membro da Sociedade da Suprema Gnosis, uma ordem de estudos do sobrenatural.

Naquele verão, a família passaria os feriados de fim de ano em Ostend, mas Alexandra queria algo mais interessante e conseguiu escapar para a Holanda onde atravessou o canal para a Inglaterra afim de encontrar a Srta. Morgan e receber instrução sobre o oculto. Morgan ficou chocada ao descobrir que ela era uma adolescente e a mandou embora. Em 1885, quando tinha 17, Alexandra fugiu mais uma vez de casa. Dessa vez, decidiu viajar de Bruxelas até a Suíça de trem. Dali seguiu a pé pela Passagem de Saint-Gotthard Pass até atingir os Lagos alpinos na Itália.

Parecia claro que nada deteria Alexandra de viajar pelo mundo. Em 1888 seus pais enfim cederam e aceitaram permitir que ela estudasse em um Conservatório em Londres. Alexandra no entretanto tinha outras ideias. Finalmente ela foi aceita na Sociedade da Suprema Gnosis provando seu conhecimento teórico de ocultismo diante de uma comissão presidida pela mesma Srta. Morgan. Entre as pessoas presentes à sabatina estava a ninguém menos que a conceituada Madame Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, cujas ideias esotéricas tiveram enorme influência sobre Alexandra e sobre os ocultistas do período. 


Aos vinte anos, ela retornou a Paris e foi aceita na Universidade Sorbone, tornando-se uma ativista política. Dizem que mantinha uma pistola e munição em seu apartamento e que se envolveu com radicais anarquistas em planos de sabotagem. Mas logo se separou deles por não concordar com alguns conceitos. Em 1891, quando tinha completado 23 anos, disfarçou-se de homem e invadiu um culto estabelecido em Paris por Sri Ananda Sarawati que usava haxixe para obter visões.

Nesse mesmo ano uma herança por parte de sua avó permitiu que ela viajasse para o Ceilão e India. Fascinada pelo mistério, magia e pelas melodias da música tibetana, ela partiu em uma peregrinação religiosa até Adyar, uma cidade próxima de Madras, onde conheceu outra ocultista, a britânica Annie Besant com quem passou a estudar sânscrito. Na Cidade sagrada de Benares, ela teve o primeiro contato com meditação transcendental e ioga com o Swami Bhaskarananda. Segundo sua biografia lá aprendeu várias técnicas que lhe permitiam entre outras coisas realizar viagens astrais, contatar entidades superiores e até flutuar. Infelizmente ela se viu obrigada a retornar a Europa quando seu dinheiro terminou.

Em 1899, Alexandra escreveu um tratado sobre política e feminismo que os editores franceses ficaram receosos de publicar. Suas ideias eram tão avançadas para os padrões comportamentais que seus detratores afirmaram que ela sofria de doenças mentais. Entre 1894 e 1900, Alexandra viveu como aspirante a atriz e cantora. Eventualmente, aceitou um trabalho na recém inaugurada Casa de Opera em Tunis, no Norte da África. Nesse trabalho conheceu Phillip Neel, um engenheiro ferroviário tão inquieto quanto ela própria, por quem se apaixonou. Os dois casaram em 1904 e passaram a viver em La Goulette, um vilarejo próximo do Mar Mediterrâneo.  

Em 1911, Alexandra empreendeu sua segunda viagem a India, desembarcando em Pondicherry, uma colônia francesa estabelecida no sub-continente, lugar de grande agitação política com agentes separatistas agindo em todos níveis. Por volta de 1912, ela chegou a Calcutá, onde se juntou a uma Escola de Fakirs, mais uma vez disfarçada como homem. Fotos da época mostram Alexandra deitada em camas de pregos, subindo por cordas mágicas e flutuando em pleno ar. Ela também tomou parte em Rituais Tântricos e se tornou a das mais jovens iniciada a tomar parte no Ritual das Cinco Sustâncias Proibidas. Dizia ser capaz de viver apenas de pequenas quantidades de água de rosas, de curar doenças através de ativação dos chacras e de processar venenos em seu corpo. Ela progrediu rápido em seus estudos de sânscrito e foi agraciada com um Doutorado honorário em Filosofia pela Escola de Benares, a primeira mulher européia a receber tal honra.


Quando decidiu se estabelecer no pequeno Vilarejo de Sikkin, no Himalaia imediatamente se sentiu em casa, sendo aceita pela população local. Ela também conheceu o Príncipe Sidkeong de quem, dizem, tornou-se amante. Alexandra foi a primeira mulher ocidental a ser formalmente apresentada ao Dalai Lama, que pediu que ela fosse aceita no Monastério Budista de Lachen, um dos mais importantes da tradição tibetana. Durante os anos que se seguiram, Alexandra foi introduzida nos segredos do budismo tibetano, aprendendo os segredos do "tumo" a arte de gerar calor corporal e usar a voz para produzir ondas sonoras capazes de curar e matar. 

Um visitante britânico de passagem pelo lugar descreveu Alexandra como uma visão impressionante. Uma mulher alta e imponente, com os trajes cerimoniais de um monge, usando um rosário de fragmentos de osso ao redor do pescoço, um avental bordado com símbolos místicos e uma adaga ritualística na cintura, uma lâmina que ela afirmava ser mágica, capaz de cortar através de pedra, metal e espíritos.  

Dois anos mais tarde ela conheceu um jovem chamado Aphur Yogden, e estabeleceu com ele uma amizade que duraria por toda suas vidas, e que resultaria na adoção de Yongden como seu filho. Os dois se mudaram para uma caverna localizada a 4000 metros na cadeia montanhosa de Sikkin onde passaram por uma provação que os obrigou a viver como eremitas. Seu objetivo no entanto era viajar até a Cidade Sagrada de Llasa. Infelizmente o Tibet raramente abria as suas fronteiras para europeus, quanto mais mulheres européias. A despeito disso, Alexandra e Yongden tentaram duas vezes, o que resultou em sua expulsão de Sikkin em 1916.


A Grande Guerra tornou impossível que ela retornasse a Europa, então ela decidiu viajar para o Japão. Em uma carta escrita ao marido - que ela não via há mais de uma década, ela confessou seus sentimentos a respeito do oriente:

"Eu tenho saudades de uma terra que não é minha. Eu sou assombrada pelas lembranças das estepes, da solidão das montanhas, da neve que jamais derrete e dos céus de um azul escuro impenetrável. Até mesmo as dificuldades: a fome, a sede, o vento que golpeia a face e atravessa os casacos, tudo isso me faz falta. Eu preciso retornar o quanto antes ao Tibete, pois lá é minha casa".  

Com o fim da Guerra, Alexandra conseguiu voltar a India e em Kum Bum estudou as técnicas de criação de um Tulpa, uma entidade criada pelo poder psíquico, produzida através de intensa concentração e rituais místicos repetidos ao longo de meses. Testemunhas afirmam que Alexandra criou a figura etérea de um monge, que se tornou seu companheiro de viagens e guardião. Para alguns sensitivos, o tulpa podia ser visto e ouvido como uma pessoa normal. Alexandra dizia que a criatura que ela construiu através do ritual era um amigo fiel que a defendia de maneira implacável. Certa vez, no entanto, o fantasma foi responsável por matar um bandido de estrada, o que fez Alexandra se culpar pelo ocorrido. Ela usou de toda sua concentração para "dissolver" o tulpa, mas ele continuou a acompanhando, mesmo quando ela tentou exorcizá-lo. Até o fim de sua vida, o tulpa a assombrou como uma presença constante em sua vida.

Em fevereiro de 1921, Alexandra e Yongden se disfarçaram de mendigos e tentaram entrar novamente em Lhasa. A viagem foi uma expedição épica de três anos, com os detalhes relatados em seu livro "Jornada a Lhasa" editado em inglês em 1927. A rota escolhida era uma peregrinação de 3900 milhas por um terreno montanhoso extremamente difícil, evitado até mesmo pelos viajantes mais experientes pelo temor de avalanches e desmoronamentos.


Em uma etapa da viagem, em meados de 1923, os dois seguiram para o Norte e chegaram ao Deserto inóspito do Gobi. De lá, retornaram através da China e seguiram para o oeste, cruzando a fronteira do Tibet com uma caravana de camelos. o longo do percurso cruzaram o caminho de bandoleiros, revolucionários, enormes tigres siberianos e clima selvagem. Ela relatou até mesmo o avistamento de um dos legendários homens das neves.

Em outro fenômeno estranho, a caravana se deparou com um "Lung-Gom", uma espécie de espírito (lama) que se movia em velocidade inacreditável. Alexandra foi alertada para não olhar na direção da silhueta tremeluzente que os seguia sob o risco dele arrancar sua alma. Ela contrariou os conselhos dos guias e conseguiu ver a forma verdadeira do lama que corria no vazio. Alexandra usou sua adaga mágica para espantar o espírito que se lançou num despenhadeiro quando ela entoou cânticos em uma língua ancestral.

Em fevereiro de 1924, Alexandra e Yongden enfim chegaram no território de Lhasa sob disfarce e puderam explorar o lugar por três meses. Enquanto na cidade, ela ganhou acesso a templos e bibliotecas e pode estudar pergaminhos e livros raros. Alexandra visitava um riacho toda manhã, onde gostava de se banhar, certo dia ela foi vista por peregrinos que a denunciaram ao governador. Uma vez que a dupla estava em Lhasa clandestinamente, isso poderia ser um sério problema, mas por sorte, o um dos conselheiros do Governador era súdito do Principe de Sikki que a avisou a tempo dela e Yongden escaparem.

Cumprida sua grande meta, Alexandra decidiu que era hora de retornar a Europa, ela chegou a Paris em 1925, e foi recebida como uma grande heroína. De comum acordo, ela e o marido decidiram pelo divórcio amigável e ela se estabeleceu em Digne, na Provence onde começou a escrever um livro de memórias. Também estabeleceu lá um "Samten-Dzong", um templo chamado "Fortaleza da Meditação". Ela publicou vários livros a respeito de meditação, ioga, sobre suas viagens, misticismo e religiões orientais. Foi convidada a presidir palestras em várias instituições acadêmicas da Europa com enorme sucesso.


Em 1937, com 70 anos, Alexandra fez uma nova viagem a China,a companhada de Yongden, usando a Ferrovia Transiberiana. Infelizmente eles chegaram no início da violenta Guerra contra o Japão, quando fome e doença eram triviais. Ela escreveu cartas e artigos para a imprensa internacional, chamando a atenção da opinião pública para a brutal campanha de expansão militar do Império do Japão. Ela chegou a ser acusada de espionagem e teve que se refugiar em um monastério ao ser procurada pelos japoneses. Eventualmente, ela conseguiu escapar da China e chegou a India onde permaneceu até o final da Guerra.

Ela voltou a França e se estabeleceu novamente na propriedade em Digne.

Em 1955 Yongden, quase 30 anos mais jovem que Alexandra morreu enquanto estava em Samten-Dzong. Alexandra trabalhou para ter seu passaporte renovado e por credenciais para retornar a India para levar as cinzas do filho adotivo. Mas beirando os 100 anos, ela não teve seu desejo atendido.

Alexandra recebeu a medalha de ouro da Sociedade Geográfica de Paris, uma grande honra e em 1969 foi agraciada com com o título de Dama da Legião de Honra. O governo do Tibet a concedeu o posto de Lama. 

Ela morreu em 8 de setembro de 1969, com 101 anos de idade.


Em 1973, suas cinzas foram levadas para o oriente e espalhadas junto com as de Yongden nas águas do Rio Ganges, diante da Cidade Sagrada de Benares. Em 1982, o Dalai Lama prestou tributo a Alexandra David-Neel visitando a casa de Digne e consagrando o local como um Lugar de Peregrinação. Hoje, lá existe um Museu devotado a sua vida e aos ensinamentos do Budismo. Os visitantes podem ver objetos pertencentes a Alexandra David-Neel e uma série de fotografias de suas viagens.

A Grande Viajante escreveu mais de 30 livros, publicados em 15 idiomas a respeito de Religião oriental, filosofia e suas viagens mais exóticas que tiveram enorme influência em numerosos autores que se inspiraram em suas narrativas. Jack Kerouac (1922-1969) e Allen Ginsberg (1926-1997) citaram as peregrinações de Alexandra como base para seus próprios trabalhos.