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sábado, 2 de maio de 2015

Estranho e Bizarro - Uma Breve História sobre Espetáculos de Aberrações


Lazarus e Johannes Baptista Colloredo foram dois dos mais famosos gêmeos de sua época. Muitas cidades convidavam os irmãos para fazer uma visita, e eles viajaram através da Europa toda no início do século XVII. Desde seu nascimento em 1617, na cidade de Genova, Italia, os Irmãos Colloredo fascinavam e horrorizavam as pessoas. 

Lazarus segundo se conta tinha uma bela aparência e era um rapaz simpático, saudável e agradável. Seu irmão gêmeo, era seu oposto, literalmente. O corpo deformado de Johannes Baptista se projetava de cabeça para baixo, do peito de seu irmão. Ele era significantemente menor do que Lazarus, e apenas a porção superior de seu corpo e a perna esquerda podiam ser vistos como extensões do torso de Lazarus. Embora sua capacidade mental não possa ser determinada, historiadores acreditam que Johannes Baptista sofresse com alguma deficiência grave. Segundo os registros, ele não era capaz de se comunicar verbalmente e nem de agir por conta própria. Seus olhos estavam sempre fechados e sua boca permanecia constantemente aberta. A única resposta de Johannes Baptista às pessoas que tentavam se comunicar com ele era mover a cabeça de um lado para o outro ou emitir um suspiro lamentoso.

Lazarus costumava viajar com seu irmão para obter seu ganha-pão. Ele chegou a visitar a Inglaterra, fazendo aparições na corte do Rei Carlos I no início da década de 1640. Quando não estava em exibição, Lazarus costumava esconder seu gêmeo congênito dos olhares curiosos das pessoas, vestindo um manto largo que ocultava sua presença. Embora existam poucas informações sobre a vida pessoal dos irmãos Colloredo, sua popularidade pela Europa não era algo único ou inesperado, de fato, muitas pessoas com deformidades incomuns eram vistas como verdadeiras celebridades.

A tradição histórica dos Shows de Aberrações (eu compreendo que o termo pode soar politicamente incorreto, mas creio que é a tradução mais fiel a palavra "freak show") antecede ao reinado de Elizabeth I na Inglaterra, quando eles se tornaram extremamente populares. Em meados do século XVI, severas deformidades físicas e anomalias congênitas não eram mais consideradas como resultado de maldições ou evidência de espíritos malignos residindo nas pessoas. Aqueles com características físicas incomuns converteram-se em um tipo de curiosidade pública que multidões estavam interessadas em ver. Empresários se apressavam para contratar essas pessoas e trabalhavam para transformá-las em estrelas. Ainda que não se saiba ao certo se Lazarus Colloredo contava com a assessoria de um empresário, sabe-se que a maioria das "aberrações" que viajavam pela Europa tinham um desses profissionais, com quem dividiam seus lucros.

Apesar de atraírem o interesse de curiosos, foi só no século XIX que os espetáculos de aberrações capturaram de vez o imaginário das pessoas. O público estava disposto a pagar ingresso para ver de perto esses "erros da natureza". Shows itinerantes rodavam pelo interior e grandes centros urbanos oferecendo a chance de ficar cara a cara com celebridades grotescas como o rapaz com cara de cachorro, a mulher com cinco pernas ou o menino com duas cabeças. Esses shows se tornaram um enorme sucesso de público e deixaram seus organizadores ricos. Na Inglaterra e nos Estados Unidos eles atraíam multidões que formavam enormes filas.

"Espetáculos de Feira" (Sideshows), ou Shows de Aberração como eles ficaram conhecidos, reuniam vários tipos de entretenimento em um mesmo pacote. Os populares espetáculos de "dez em um", ofereciam dez aberrações expostas de frente para o público. Os espectadores entravam em uma tenda dividida por cortinas e andavam de aposento em aposento conhecendo as atrações. Mágicos, acróbatas e equilibristas também se misturavam ao espetáculo como forma de aliviar a tensão de se deparar com os estranhos astros da companhia. Entretanto, nem todas as aberrações, eram pessoas nascidas com deformidades. Alguns eram simples artistas circenses com um talento exótico, comer fogo, engolir espadas ou ter tatuagens cobrindo todo corpo. 
   
Certos espetáculos eram considerados impróprios para mulheres e crianças, categorizados como "apenas para cavalheiros". Esses geralmente incluíam apresentações de mulheres voluptuosas dançando em trajes sumários. Outra modalidade de espetáculo eram as exposições de "aberrações enlatadas": descobertas exóticas e estranhas, animais empalhados, figuras grotescas e principalmente "pickled punks" como eram chamados os fetos preservados em vidros. O famoso Piccadilly Egyptian Hall, administrado pelo naturalista britânico William Bullock oferecia uma exposição de insetos bizarros, animais estranhos e outras curiosidades trazidas dos quatro cantos do mundo. A Exposição chamada Gabinete do Dr. Grayson trazia mais de uma centena de potes de geleia contendo fetos e bebês deformados.

Em 1844, o pioneiro do entretenimento circense nos Estados Unidos, P.T. Barnum, viajou pela Inglaterra com sua última descoberta bizarra, Tom Thumb (Tom Polegar). 

Nascido como Charles Stratton, "Polegar" era na realidade um primo distante do próprio Barnum. O rapaz foi treinado no mundo das artes, aprendendo a cantar, dançar e imitar figuras famosas da época. Quando estava pronto para a vida circense, Barnum deu a ele um nome de palco, batizando-o de General Tom Thumb. Medindo apenas 56 centímetros de altura, a pequena estrela da companhia foi instruída a mentir sobre sua idade, e dizer que tinha doze anos ao invés de oito. Barnum acreditava que fazendo Tom mais velho do que ele realmente era, tornaria sua estatura algo notável. Para chamar a atenção da população, Barnum também mentiu sobre a nacionalidade de Tom, afirmando que ele havia sido encontrado nas ruas de Londres como Flea Boy (Garoto Pulga). O rapaz eventualmente foi apresentado a Rainha Victoria, que se declarava uma fã dos espetáculos de feira.
Os espetáculos de aberrações americanos começaram a aparecer em 1829, sendo o mais antigo, o que apresentava os gêmeos siameses Chang e Eng. Com a popularidade dos espetáculos americanos que visitavam a Terra da Rainha, começaram a aparecer versões britânicas igualmente bem sucedidas. Na Era Victoriana, aberrações eram vistas com imensa curiosidade. Foi uma época de avanços médicos e científicos significativos, e portanto as pessoas estavam dispostas a testemunhar a existência dessas figuras estranhas. Médicos improvisados tentavam explicar para o público o que eles estavam vendo, concedendo um verniz científico a apresentação. Essa foi a era de ouro dos "shows médicos", quando pessoas pagavam para assistir cirurgias de apêndice ou vesícula realizadas em pleno palco.      

Um famoso incidente envolveu Hoo Loo, um chinês que sofria com um massivo tumor de 23 quilos. Embora ele fosse apresentado como uma aberração, o homem tinha sido originalmente trazido a Londres para realizar um procedimento médico. Quando um empresário viu Hoo Loo conseguiu persuadi-lo a permitir que fossem vendidos ingressos para sua cirurgia no Guys Hospital, um dos mais respeitados da capital britânica.  Embora Hoo Loo tenha morrido na mesa de operação depois de sangrar até a morte, sua estória se tornou conhecida em toda Inglaterra. A historiadora Meegan Kennedy escreveu em seu ensaio, “Pobre Hoo Loo: Sentimento, Estoicismo e o Grotesco na Medicina Imperial Britânica", que como curiosidade médica, Hoo Loo simbolizava o ápice da simpatia das pessoas para com um estrangeiro oriental, alguém que podia ser salvo pela medicina superior do ocidente. Ele incorporava  o contraste entre o lado positivo e negativo de chamar a atenção em face de severas anormalidades físicas. Um caso como o dele provocava discussão entre pessoas de todas as camadas sociais e chamava a atenção para atrair investimentos destinados a pesquisa de doenças congênitas.  

Mas eram as "aberrações" que dominavam os holofotes.


Os empresários tentavam recrutar indivíduos com desfigurações exóticas ou talentos incomuns em todo canto. Para fazer sucesso era necessário chocar e perturbar e os empresários faziam o possível para criar expectativa e tornar suas estrelas, criaturas interessantes. Um dos mais famosos empresários do século XIX, Tom "O Rei Prateado" Norman escreveu certa vez: "não é o show que faz sucesso, mas a estória que você conta". Mentiras deslavadas eram contadas como verdades incontestáveis - a Sereia de Fiji, uma mulher com as pernas unidas, na verdade tinha nascido em Blackpool. O Gigante Selvagem, um suposto índio americano com dois metros e meio de altura, era na realidade um lenhador francês pintado com tintura de hena e vestido como um nativo americano.   

Como muitos empresários, Normam se aproveitava da bondade de estranhos. Era uma prática comum inventar estórias comoventes para despertar a piedade do público e obter alguns trocados extras para aliviar a dura vida dos circenses. Em 1870, Norman apresentou suas novas estrelas: Eliza Junkins, o esqueleto humano, Robert Shooeman, o garoto com cabelos na face e o bebê com cabeça de balão. Ele viajou a Inglaterra toda, de Nottinghan a Glasgow apresentando seus "erros da natureza" e pedindo a compreensão das pessoas para a situação dramática de suas estrelas que careciam de ajuda. Na verdade, as "aberrações" de Norman tinha uma vida muito tranquila e confortável. 

Em 1883, Norman contratou duas das maiores estrelas do espetáculo de aberrações, Mary Anne Bevan, chamada de a mulher mais feia do mundo e Joseph Merrick, que ganharia fama mundial como "O Homem Elefante". Norman costumava impedir que médicos visitassem suas estrelas com medo de que um doutor pudesse oferecer a eles uma cirurgia milagrosa que terminasse com seu "exotismo". Além disso, eles poderiam parecer menos misteriosos se um médico classificasse suas deformidades.

Ao contrário da crença popular, aberrações raramente eram mal tratadas pelos empresários que controlavam os espetáculos. Pelo contrário, eles recebiam regalias e eram tratados como verdadeiras estrelas circenses. Quando o Dr. Frederick Treves, o "descobridor" do Homem Elefante acusou Norman de humilhar Merrick, este o processou legalmente e exigiu uma retratação afirmando que jamais tratou sua estrela de forma desrespeitosa ou abusiva. As testemunhas de Norman corroboraram suas afirmações e o próprio Homem Elefante contou que sempre foi muito bem tratado durante seus anos no papel de atração.


Aberrações também eram frequentemente descritas como figuras soturnas, infelizes e dóceis, sempre tristes com a sua condição de vida. Em muitos casos, na Era Victoriana, nada podia estar mais distante da realidade. A maioria deles eram bem tratados, considerados companheiros da vida circense, respeitados como verdadeiros colegas e irmãos de profissão. Muitas estrelas se impunham diante de seus empresários, exigiam aumento e uma fatia maior dos lucros. Em 1851, Isaac Sprague, outra versão do esqueleto vivo, ganhou uma verdadeira fortuna vendendo cartões postais com sua própria imagem. Quando seu empresário pediu uma fatia desses lucros, Sprague o despediu sumariamente. Com 1,70 de altura, o "esqueleto vivo" pesava apenas 32 quilos, mas era muito esperto nos negócios. No fim de sua carreira ele chegou a escrever uma biografia que foi sucesso de vendas.

Em 1890, a popularidade dos espetáculos de aberrações começou a diminuir. Vários fatores foram responsáveis por essa queda de interesse, até que eles desaparecessem de vez por volta de 1950.

O repórter e historiador Henry Mayhew sempre foi um feroz crítico desse tipo de espetáculo, considerando sua existência uma afronta ao bom gosto e contrário aos interesses de uma sociedade sadia. Em 1861, Mayhew escreveu um duro manifesto criticando toda a estrutura desses espetáculos, considerado por ele a "mais baixa demonstração da estupidez humana". Ele rejeitava o argumento de que os circenses constituíam uma forma de entretenimento, e via tudo aquilo como o cúmulo da degradação. Embora Mayhew desse voz a uma aversão que hoje em dia é comum, demorou mais de 30 anos até que as pessoas começassem a concordar com suas críticas. No início do século XX, o público já não demonstrava tanta curiosidade para com o mundo misterioso das aberrações e a maioria dos shows passou a ser visto como uma exploração em nome do entretenimento.    

Com o avanço nas ciências médicas, pessoas afligidas por condições incomuns passaram a ser diagnosticadas e tratadas. Como resultado direto, os shows foram se tornando cada vez menos interessantes. A Primeira Guerra Mundial também deu sua contribuição para derrubar os Espetáculos de Aberrações. Muitos homens retornaram do Conflito com ferimentos e cicatrizes medonhas, mas glorificados como heróis que mereciam mais da sociedade do que serem comparados a aberrações circenses.

Em meados de 1930, os tão famosos shows de aberrações estavam confinados a espetáculos mambembes e itinerantes que rodavam o interior oferecendo novidades por meio níquel. Os Carnivales ainda preservavam um pouco dessa aura e chegaram a experimentar um pequeno revival por conta da Grande Depressão, mas não durou muito tempo. Nações editaram leis os proibindo, como foi o caso da Alemanha em 1937 e Itália em 1938. Mais e mais pessoas evitavam esse tipo de "espetáculo barato", que passou a ser associado a indivíduos ignorantes ou insensíveis.

Hoje, os Parques de Diversão de Coney Island, no interior de Nova York, estão entre os últimos Espetáculos de Aberrações em atividade no mundo. Ainda que fora de moda e pouco atraentes para o público em geral, eles continuam oferecendo um cardápio variado de atrações exóticas. Desde 1983, a apresentação da trupe "Sideshow by the Seashore" se converteu em uma atração turística bastante famosa. Ele oferece o último número conhecido de "um em dez" que se tem notícia.

A despeito de seu desaparecimento, a história dos freak shows continua a incendiar nossa curiosidade.

sábado, 25 de abril de 2015

Tristeza Húngara - A Sinistra estória dos Sorrisos de Budapeste

The Creepy Story of How Budapest Became a "City of Smiles" in the 1930s
Olá pessoal,  essa estória não envolve nada sobrenatural ou qualquer coisa do gênero. Não se trata de algo lovecraftiano, mas ainda assim me deu arrepios. Isso prova que o mundo é um lugar muito estranho e que as pessoas estão sempre dispostas a torná-lo ainda mais bizarro.

A estória é a seguinte:

Nos anos que se seguiram ao fim da Grande Guerra, uma trágica epidemia de suicídios varreu a capital da Hungria, a bela cidade de Budapeste . Nunca se soube ao certo o motivo, talvez fosse o sentimento de perda das pessoas, sua frustração ou quem sabe a desesperança com os rumos da humanidade. Talvez fosse apenas uma apatia inexplicável ou falta de interesse manifesta. Alguns estavam convencidos de que o problema era causado por uma triste música chamada "Gloomy Sunday" uma melodia que de tão melancólica, se ouvida repetidas vezes poderia causar um irreversível desejo de cometer suicídio. 

[Para saber mais a respeito de Glommy Sunday, clique aqui no link

Seja como for, Budapeste, havia se convertido na capital européia das mortes auto-infligidas. Título que nenhum morador da cidade deveria se orgulhar.

A respeito da lamentável fama da cidade, um jornal inglês publicou o seguinte artigo em outubro de 1937: 

"Embora seja um verdadeiro imã para turistas e viajantes de todas as partes do mundo, Budapeste nos últimos anos se tornou conhecida com a Cidade dos Suicidas. A capital da Hungria sofreu bastante com os horrores da guerra e tem recebido desagradável publicidade graças ao número assombroso de casos de auto-destruição entre seus habitantes. Para todos os padrões, a quantidade de suicídios em Budapeste é definitivamente alta. O método favorito adotado por muitos residentes melancólicos é o afogamento - pessoas se lançam nas águas turbulentas do Danúbio do alto de pontes ou das margens. A preocupação das autoridades é tamanha que motivou um grupo de policiais e barcos de patrulha a ficarem sempre à postos para recolher algum desesperado. Outro método empregado pelas pessoas é o envenenamento, por isso as farmácias e apotecários foram proibidos de vender substâncias tóxicas e venenos a população. Finalmente, há o caso de indivíduos que preferem morrer utilizando armas de fogo ou lâminas. Os boatos informam que o número de pessoas que cedem ao desespero e utilizam armas dessa natureza para por fim a sua miséria, aumentou depois que medidas restritivas foram colocadas em prática para impedir o acesso a pontes e a aquisição de substâncias tóxicas. O que se passa em Budapeste causa extrema consternação e preocupação".   

Mais estranho do que o problema, foi a maneira como a cidade tentou combater os suicídios... com algo chamado "Smile Clubs." (Os Clubes de Sorriso).

Os Clubes surgiram a partir de uma piada feita por um renomado psiquiatra local, o Professor Jeno e um famoso hipnotizador chamado Binczo. Eles reputavam a razão pelo grande número de suicídios a uma condição melancólica típica do povo húngaro, uma tristeza causada pela incapacidade de estabelecer empatia e de se alegrar com as pequenas coisas da vida. O sintoma clássico das pessoas afligidas pela "Tristeza Húngara" (um termo que acabou pegando), era a incapacidade de sorrir. Segundo Jeno, muitos dos habitantes de Budapeste eram incapazes de demonstrar alegria, e boa parte não conseguia nem mesmo sorrir.

Em um espetáculo digno de vaudeville, o hipnotizador Binczo provou como o mero ato de sorrir era difícil para os moradores da cidade. Como parte de uma apresentação pública, ele colocou um grupo de pessoas tiradas da platéia em transe e fez com que eles obedecessem suas ordens, mandando que elas vissem coisas e se comportassem de maneira incomum. Mas quando finalmente ele ordenou que as pessoas no palco sorrissem, elas foram incapazes de obedecer, algumas despertaram do transe ou começaram a chorar amargamente.

Parecia haver algo de muito errado na cidade onde as pessoas não sorriam.

O governo deu início a programas para aumentar a jovialidade entre a população. Palhaços, circenses e comediantes eram chamados para se apresentar nas ruas e tentar alegrar as pessoas. Piadas eram contadas no intervalo dos programas de rádio mais populares. Cinemas e teatros receberam a ordem de apresentar comédias e substituir os dramas. Até mesmo a popular Gloomy Sunday (um sucesso arrebatador no país) desapareceu da lista de músicas.

Mas de nada adiantou... pessoas continuavam se matando em Budapeste. Um suicídio chamou a atenção, ganhando as manchetes dos principais jornais do país: uma noiva havia se matado durante a recepção de seu próprio casamento. A jovem tomou uma dose mortal de arsênico enquanto os convidados se perguntavam quando o bolo seria servido.

As pessoas até imaginavam que a tristeza húngara poderia ser contagiosa, algo que estivesse no ar e que poderia afetar qualquer pessoa, à qualquer momento. 

Foi então que surgiram os "Clubes de Sorriso".

Os primeiros grupos se organizaram como escolas ou cursos que prometiam ensinar aos húngaros o segredo da alegria, jovialidade e é claro, a arte de mostrar um belo sorriso. Pode parecer um absurdo, mas os Clubes começaram a atrair mais e mais pessoas que temiam ser contaminadas por uma tristeza letal. Estas estavam dispostas a pagar aos especialistas pelas aulas práticas e teóricas.

Diante do grande número de interessados, vários clubes começaram a aparecer, oferecendo diferentes tratamentos no combate da tristeza. Alguns contratavam professores para ensinar como deveria ser o sorriso perfeito, mostrando fotografias de celebridades e mandando que os alunos tentassem repetir a expressão da foto. Outra escola oferecia uma espécie de suspensor de lábios, uma armação metálica que ficava presa aos lábios puxando-os de tal forma que a pessoa era incapaz de conter o sorriso. Outra, ia ainda mais longe, oferecendo um tratamento de choque à base de gás hilariante (o gás do riso) para forçar os alunos a dar boas gargalhadas. 

Durante esse período, não era totalmente absurdo sair pelas ruas de Budapeste e dar de cara com pessoas usando uma placa de madeira pendurada na frente da boca com um sorriso desenhado.  Mais do que demonstrar um sorriso saudável, muitas pessoas acreditavam que uma face tristonha podia contaminar as demais, por isso, era necessário restringir aqueles que tinham uma expressão tristonha. Na entrada de metrôs algumas pessoas distribuíam lenços para serem usados por pessoas sofrendo de "tristeza húngara", esses lenços tinham sorrisos bordados na frente.

A situação perdurou na Hungria por quase um ano, depois disso, as pessoas devem ter começado a se sentir ridículas e os Clubes de Sorriso foram aos poucos fechando as suas portas.

Por volta de 1940, o governo obrigou os últimos clubes a encerrar suas atividades, acusando seus proprietários de explorar a população com charlatanismo. Por volta dessa época, o número de suicídios foi reduzindo até se tornar compatível ao restante das cidades da Europa. Infelizmente, a Segunda Grande Guerra começaria logo em seguida e não haveria muitos motivos para sorrir, em Budapeste ou no resto do mundo.

As fotos a seguir foram publicadas pela revista dinamarquesa Het Leven, no ano de 1937.  Elas mostram algumas práticas corriqueiras nos Clubes de Sorriso espalhados pela Hungria, a maioria delas parecem completamente absurdas, sobretudo a que mostra pessoas usando o tal suspensor labial para criar sorrisos absolutamente artificiais.

E você já sorriu hoje?




sábado, 21 de março de 2015

Pesadelo Ibérico - Falando da Guerra Civil que devastou a Espanha



Entre os anos de 1936 e 1939 cerca de 500,000 pessoas foram mortas no Conflito que ficou conhecido como a Guerra Civil Espanhola.

Talvez não tenha sido a guerra mais importante de um século marcado por horríveis e sangrentos confrontos, mas o conflito que dividiu o País Ibérico e custou tantas vidas, não pode ser considerado como uma "pequena guerra" restrita a uma única nação. A Guerra Civil que devastou a Espanha foi o primeiro conflito em larga escala, onde correntes políticas antagônicas, fascistas e comunistas, se enfrentaram no campo de batalha, não apenas no das idéias. Ela também serviu como uma espécie de laboratório para a Segunda Guerra Mundial, com atrocidades cometidas de ambos os lados, envolvimento direto da população civil e emprego de máquinas de guerra modernas com dramáticas consequências.

No início do século passado, a antiga influência do império espanhol, que havia governado meio-mundo nos séculos anteriores, perdera seu brilho. Suas vastas e ricas colônias na América haviam conquistado a liberdade e o envolvimento em uma fracassada Guerra contra os Estados Unidos (A Guerra Hispano-Americana de 1896) tinha custado suas últimas possessões em Cuba e no Pacífico. O país era atrasado economicamente, uma nação basicamente agrária com latifundiários governando os campos e uma indústria incapaz de competir com seus vizinhos que realizaram a Revolução Industrial.


O clima político era de total instabilidade, com pressões de vários setores populares para substituir a monarquia e instituir a República. Haviam radicais socialistas que planejavam atos públicos e agitadores anarquistas infiltrados nas cidades dispostos a reunir as massas e lutar. O medo de uma Revolução Comunista semelhante a que varrera a Rússia menos de uma década antes, crescia entre a população. Nessa época, a Espanha era regida pelo Rei Alfonso XIII em um regime de Monarquia Constitucional, um governo considerado ineficiente e corrupto.

Para piorar as coisas, em 1921 um contingente militar espanhol foi enviado aMarrocos, uma das últimas colônias africanas ainda sob o controle da Espanha. Sua missão era acabar com uma rebelião popular. A força expedicionária, apesar de melhor aparelhada e treinada, foi massacrada pelos rebeldes de tal forma que a humilhação sofrida fomentou um sentimento de revolta contra o governo. Dois anos depois, Alfonso XIII foi forçado a abdicar em favor do General Miguel Primo de Rivera favorecido pelas classes trabalhadoras e militares.

O golpe de Estado sem derramamento de sangue, permitiu a realização de algumas mudanças que visavam modernizar o país. A Guerra na Europa permitiu que a Espanha se recuperasse no cenário econômico explorando sobretudo as suas riquezas minerais. Mas as tensões entre as autoridades civis e militares se provaram insuportáveis. Muitos grupos ameaçavam dividir a Espanha: Revolucionários socialistas que haviam ganhado força entre o operariado, movimentos separatistas regionais - bascos e catalãos sobretudo, grupos anti-clericais, e anarquistas estavam por toda parte. 


Em 1931, o General Rivera deixou o poder apresentando problemas de saúde e um governo republicano foi promulgado tendo Manuel Azaña como líder. Mudanças foram realizadas no sentido de separar a Igreja do Estado, de reformar o exército e conceder algum poder a regiões que clamavam por autonomia como a Cataluña. Partidos políticos antes clandestinos, como os comunistas e socialistas foram legalizados, seguidos do Partido Fascista criado nos mesmos moldes que na Itália e Alemanha. A tensão continuava aumentando e incidentes violentos se tornaram frequentes: fascistas e comunistas se enfrentavam nas ruas, separatistas realizavam atentados à bomba enquanto greves (convocadas por anarquistas) paralisavam o país. O ressentimento contra a Igreja e seu poder político resultou na destruição de templos e no assassinato de clérigos. A situação saiu de controle quando um movimento comandado por mineiros da província de Astúrias tentou se separar do restante do país e foi esmagado por tropas da Legião Estrangeira que havia lutado no Marrocos. 

A Lei Marcial foi decretada e centenas de milhares foram presos sob acusação de conspiração política. Mas o caos continuava: milícias se formavam desafiando a lei, grupos de homens armados cuja devoção à causa que serviam beirava o fanatismo marchavam em público paramentados e frequentemente trocavam tiros nas ruas com seus oponentes. Finalmente, uma eleição de emergência foi conclamada em 1936 e a Frente Popular, uma coalizão de esquerda formada por socialistas e comunistas moderados assumiu o governo.

Imediatamente após a vitória nas urnas, o exército sob o comando do General Francisco Franco e Emilio Mola decidiu dar início a um golpe de estado contra o governo. Os insurgentes, chamados de Nacionalistas, congregando principalmente militares que haviam lutado no Norte da África, em pouco mais de três meses assumiram controle sobre um terço do país. Contudo mesmo com essa ação, os Nacionalistas não conseguiram tomar as grandes cidades que continuavam sob poder dos Republicanos, como passaram a chamar os governistas.


A Guerra Civil que tudo indicava seria rápida, começou a se arrastar. Por três longos e sangrentos anos o país mergulhou no Pesadelo Espanhol. As tropas mal aparelhadas de ambos os lados no início do conflito se voltaram para as nações estrangeiras esperando apoio. A Guerra Civil na Espanha havia deixado de ser um conflito entre espanhóis; tornara-se uma disputa filosófica que atraia os olhos do mundo.

Franco recebeu a abundante ajuda de Itália e Alemanha, cujos regimes fascistas eram bastante semelhantes ao seu projeto de governo. A Itália enviou 70.000 homens e equipamento, a Alemanha cedeu armamento, munições e consultores militares. A famosa Legião Condor, a base da futura Lufftwaffe, também foi enviada para obter experiência prática de combate para a próxima guerra que Hitler estava planejando. O governo Republicano voltou-se primeiro para a França, que na época era liderada pelo Premier Socialista Léon Blum, mas quando eles não ofereceram mais do que sua simpatia, foi a vez de negociar com a União Soviética. Os russos enviaram armas e munições para ajudar a República, mas ao mesmo tempo seguiam uma agenda própria que visava estabelecer um governo Comunista após a vitória.

A opinião pública na Inglaterra pendia para a República, embora o governo inglês desejasse claramente a vitória de Franco. Os britânicos supervisionaram a formação de um Comitê de não-Intervenção na Liga das Nações cujo propósito era não participar da Guerra Civil e ao mesmo tempo evitar que o conflito se espalhasse além das fronteiras para o restante da Europa. A Alemanha e a Itália concordaram em participar do Comitê, assinaram documentos, mas na prática continuaram a fornecer material de ajuda aos Republicanos. Os Estados Unidos oficialmente se mantiveram fora do conflito, embora empresas petrolíferas tenham lucrado muito, vendendo combustível para abastecer as tropas de Franco.


Nenhum escritor de ficção de horror poderia conceber uma imagem mais terrível do caos fanático e da brutal violência que tomou conta da Espanha naqueles dias.


Nas áreas controladas pela República, grupos socialistas tentaram implementar o embrião de uma revolução social. Na prática, contudo, facções de socialistas, comunistas, anarquistas, camponeses, separatistas e outros grupos brigavam uns com os outros tentando colocar seus modelos políticos acima dos demais. Alguns grupos se acusavam abertamente de trair o ideal da República ou de "não ser socialista o bastante". Donos de terras e pequenos comerciantes eram obrigados a repartir o que tinham e qualquer um que tentasse conservar seus bens podia ser taxado de inimigo, denunciado, preso, ou pior. Em cidades controladas por milícias, lojas e empresas foram saqueadas e aproveitadores usavam a revolução como pretexto para criar confusão. A Igreja Católica era acusada de compactuar com os Nacionalistas - o que muitas vezes era verdade, e por conseguinte inúmeros religiosos foram atacados e igrejas incendiadas. Padres foram fuzilados e freiras violentadas, o ódio era tamanho que os cadáveres dos religiosos eram pendurados nas torres das igrejas para apodrecer. O radicalismo chegava a tal ponto que execuções simbólicas de santos eram realizadas, um show bizarro em que estátuas eram fuziladas ou profanadas. Os comunistas russos tentaram impor algum controle, mas sua chegada introduziu na Espanha a típica paranoia de Stalin com uma crescente rede de denúncias e expurgos. Militares que perdiam uma batalha ou que retrocediam eram considerados ineptos e podiam ser destituídos sumariamente, isso quando não eram acusados de traição e fuzilados.

Nas regiões sob o controle dos Nacionalistas a situação não era muito melhor. As tropas de Franco iniciaram uma brutal contra-revolução. Tudo o que podia ser considerado como apologia ao socialismo era atacado, milhares eram presos, torturados ou simplesmente desapareciam na calada da noite. A Lei Marcial foi declarada e os oficiais do exército receberam carta branca para manter a ordem, o que na prática concedia o direito de eliminar suspeitos. Líderes locais governamentais e intelectuais eram rotineiramente executados. Os militares decidiram anistiar presos, muitos dos quais homens de índole violenta, para que se juntassem ao exército. Concederam treinamento e deram armas a criminosos cuja motivação única era matar os inimigos. As cadeias foram esvaziadas para abrir vagas aos presos políticos. Nas tropas nacionalistas, os mais temidos eram os membros da Legião Colonial, homens embrutecidos pelos anos servindo na colônia africana e acostumados a violência.

Entre os dois lados, milícias formadas por bandidos vagavam à esmo pela zona rural instituindo uma justiça própria que vitimava os pobres camponeses pegos entre dois fogos. Ladrões, desertores e facínoras cobravam proteção de vilarejos e ao seu modo faziam uma revolução particular. 


As atrocidades se tornaram lugar comum durante a Guerra Civil. Ódio e ressentimento se converteram em moeda de troca entre os lados opostos: se um lado fuzilava os prisioneiros, o outro reagia decapitando os seus. Se uma vila aliada era aniquilada por um lado, o outro imediatamente promovia um massacre ainda maior. A escalada de selvageria, encontrava eco nas aterrorizantes telas de Francisco Goya que um século antes havia retratado cenas igualmente trágicas durante a guerra entre França e Espanha.

Em uma demonstração de absoluto terror ensandecido, implementos de tortura usados pela Inquisição deixaram os museus para serem usados uma vez mais em um horrível renascimento de uma das piores épocas da história. O garrote, o ferro em brasa e outros instrumentos odiosos voltaram a ter uso nas mãos de carrascos e sádicos.  

Não demorou para que os Insurgentes de Franco se mostrassem mais preparados para a Guerra e começassem a vencer as principais batalhas. Além de contar com armas e equipamento superiores, os Nacionalistas tinham a seu favor uma quantidade maior de soldados profissionais, enquanto os Republicanos contavam com muitos voluntários cheios de vontade de lutar, mas com pouca experiência de combate.

Em novembro de 1936, as tropas Nacionalistas realizaram um assalto a capital, Madri. Largo Caballero, então primeiro-ministro da República, achou que a derrota era questão de tempo e providenciou a evacuação do governo para Valência. Ele deixou um leal, general chamado José Miaja, encarregado da defesa da cidade, provavelmente mais para supervisionar o processo de rendição. Para grande surpresa de todos, Miaja conseguiu coordenar os esforços de seu exército com a população civil e as forças voluntárias. Ele teria dito às suas tropas que havia apenas uma ordem: "resistir". E quando lhe perguntaram para onde as tropas deveriam se retirar se necessário, ele respondeu: "para o cemitério." 


Quando o ataque de Franco contra Madri começou em 8 de novembro Miaja e suas forças estavam prontas. Eles foram auxiliados por membros da recém-formada Brigada Internacional, voluntários de todo o mundo que acreditaram na causa anti-fascista: muitos destes veteranos da Grande Guerra foram fundamentais na batalha. A primeira investida contra Madri durou dez dias, sem pausa. Os insurgentes despejaram milhares de bombas sobre a cidade, que naturalmente não tinha abrigos e quase nenhuma arma anti-aérea. O combate corpo-a-corpo se alastrou pelos arredores da cidade, pelas ruas, pelas praças e prédios arruinados. 

Mas os republicanos mantiveram suas posições, e depois de 18 de novembro forçaram os insurgentes a desistir, concentrando suas atenções em outros cenários. Madrid tornou-se uma cidade sitiada, e permaneceria assim até o final da guerra, em 1939.

A luta se deslocou para o fronte ao norte, onde um dos massacres mais infames da Guerra Civil ocorreu em 1937. A Legião Condor, aparentemente com o intuito de realizar um teste de calibragem de bombas, devastou a pequena cidade indefesa de Guernica. Um total de 1600 civis foram mortos pela esquadrilha.

Em 1938, com o rumo da guerra já decidido e cada vez menos resistência por parte dos Republicanos, Franco formou um secretariado de transição que passou a ser considerado o governo legítimo. Naquela altura, Hitler já tinha tomado a Áustria e fazia seus primeiros movimentos na Tchecoslováquia atraindo a atenção do mundo. O impasse na Espanha foi se tornando uma preocupação cada vez menor para os líderes europeus. Com as fileiras de voluntários das Brigadas Internacionais se esvaziando, a República estava com seus dias contados. A fuga para a França e o exílio passou a ser a única meta de um contingente cada vez maior de soldados. 

Em fevereiro de 1939 a Grã-Bretanha e a França reconheceram o governo de Franco. A União Soviética, por muito tempo a maior aliada da República terminou por cortar relações com ela e suspender seu apoio quando Stalin e Hitler assinaram um acordo bilateral de não-agressão. Após algumas últimas batalhas, no final de março o comando republicano se rendeu, e Francisco Franco se tornou o governante incontestável da Espanha.

A Guerra Civil Espanhola foi o campo de provas para a maior parte do armamento e estratégia militar que seriam largamente usados na Guerra Mundial. Ela demonstrou a vantagem que o poderio aéreo representava e a capacidade destrutiva de armas modernas. Após a Guerra Civil, nações de todo o mundo iniciaram o processo de modernização de aeronaves para utilização militar: caças e bombardeiros se tornaram ferramentas chave para as ambições bélicas. Os Estados Unidos por exemplo, modernizou suas esquadrilhas após receber informações sobre a destruição de Guernica, bombardeada pela Legião Condor. A Grã-Bretanha começou a se preparar para um cenário semelhante desenvolvendo abrigos anti-bombas nas suas maiores cidades. 


O Conflito também demonstrou com amargor que a Europa não estava pronta para uma paz duradoura como almejava a geração que havia lutado na Grande Guerra (1914-1918). É provável que a Guerra em si não tivesse durado tanto tempo, e nem tivesse deixado um saldo tão elevado de vítimas, se não fosse a interferência estrangeira. O golpe de Franco teria possivelmente falhado, não fosse o auxílio dos aliados fascistas, e a República não teria resistido em Madri se não fossem as Brigadas Internacionais.

Por um lado, as potências ocidentais democráticas haviam apenas observado e permitido que um governo democraticamente eleito fosse esmagado por fascistas. Por outro lado, esse mesmo governo democraticamente eleito acabou por se tornar tão brutal e cruel quanto qualquer fascista poderia ser.

Era difícil saber para quem torcer nesse trágico conflito.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Caçando Fósseis e Ovos de Dinossauros na Mongólia - A Expedição automotiva de Andrews


A despeito de todas as dificuldades, em abril de 1922, a expedição de automóveis Dodge comandada por Roy Chapman Andrews passou através de um portão na Grande Muralha da China, e tomou o caminho, rumo ao desconhecido.

O primeiro grande achado da expedição foram fósseis de Baluchitherium, um tipo de rinoceronte pré-histórico que viveu durante a Era do Gelo. Um dos motoristas percebeu uma mandíbula simplesmente brotando da terra como uma estranha planta cinzenta. A descoberta animou os cientistas: em que outro lugar do mundo seria possível achar fósseis literalmente brotando do chão?

O grupo montou um acampamento e desenterraram a maior parte dos ossos do enorme animal. A expedição conseguiu recuperar a ossada quase completa, inclusive o imenso crânio com os chifres ainda ameaçadores em perfeito estado. As peças foram removidas cuidadosamente e acondicionadas em caixotes de madeira recheados de palha. Como estavam no início da jornada, enviaram dois automóveis de volta para que os ossos fossem guardados por colegas na China.  

Os automóveis que retornaram foram ameaçados por bandidos, mas conseguiram passar por esse contratempo graças a uma demonstração de poder. Um dos motoristas colocou uma metralhadora Thompson para fora da janela e disparou uma rajada para o ar acabando com as pretensões hostis dos ladrões. A ossada enfim chegou a China e de lá foi remetida para Nova York, chegando a cidade em dezembro de 1922. Harry Osborn, o diretor do Museu de História Natural, classificou o transporte para os Estados Unidos como um dos maiores feitos da história da paleontologia. Até aquela data, tudo que se tinha de um espécime de Baluchitherium se resumia a alguns poucos fragmentos e sua existência chegava a ser contestada. A descoberta era tão significativa que os cientistas foram capazes de compreender o funcionamento daquele enorme animal, com quase dois metros de altura e mais de seis metros de comprimento, com base na sua estrutura óssea.

Mas era apenas o início. Muito mais estava por vir. 


O achado mais famoso da expedição Andrews ao centro da Asia foi feita em 13 de julho de 1923. George Olson, um assistente de paleontologista, retornou ao acampamento afirmando ter feito uma descoberta sem precedente: ele havia encontrado ovos de dinossauro nos penhascos flamejantes de Shabarakh Usu. A princípio os membros da equipe estavam céticos achando que a descoberta não passava de uma formação natural, mas depois de uma análise mais criteriosa chegaram a conclusão que estavam diante de algo incrível. Eram três ovos intactos e algumas cascas que haviam se fossilizado graças a ação da areia. Os cientistas ficaram pasmos. Os ovos estavam praticamente na superfície, desde que foram depositados naquele local no Período Cretácio. Ainda que existissem aves habitando aqueles penhascos, os ovos eram grandes demais e não eram compatíveis com nenhum desses animais. O grupo acabou concluindo que se tratavam de ovos legítimos de dinossauro, os primeiros encontrados em perfeito estado. Até essa descoberta, alguns cientistas não estavam sequer certos de que esses animais colocavam ovos ou se davam a luz aos seus filhotes como os mamíferos. As especulações a respeito da veracidade da notícia varreram o mundo. A confirmação veio dias depois quando outro ninho foi encontrado, e dentro deste os restos fossilizados de um dinossauro de dimensões menores e sem dentes - obviamente um filhote.

O preço dessas descobertas era o perigo constante e as dificuldades de se trabalhar no ambiente hostil do Gobi. Andrews contou que certo dia, o grupo decidiu acampar no alto de um promontório de pedra avermelhada que parecia a proa de um imenso navio. Fósseis eram abundantes nessa área e os membros da expedição decidiram que seria interessante ficar ali alguns dias, ainda mais porque o lugar oferecia uma proteção contra o sol causticante. O problema é que a área era o covil de outros habitantes do deserto, encontraram por lá centenas de covas rasas onde viviam letais Víboras do Gobi. Na primeira tentativa de escavar a área, dois homens foram picados e outro caiu em um buraco, sendo resgatado miraculosamente de uma trincheira onde estavam dezenas de víboras. Para escapar dos répteis, tiveram de usar suas armas e mataram nada menos do que 47 víboras. Um dos guias chineses ao atirar a queima roupa num dos animais teve os olhos borrifados com veneno e perdeu a visão.

Em outra ocasião, um dos motoristas mandou chamar Andrews. Um dos automóveis apresentava problemas mecânicos, mas nenhum dos homens queria chegar perto do veículo para executar os reparos necessários. Quando perguntado do motivo, Andrews foi informado que haviam centenas de escorpiões mortais que escolheram justo o motor como esconderijo. Foi preciso fumegar todo o carro com fumaça para desentocar os animais, mesmo assim, ao longo da viagem, escorpiões apareciam nas frestas do automóvel. Certa vez, um dos motoristas saltou do automóvel em pleno movimento e começou a tirar a roupa em desespero. Um escorpião havia caído do teto do automóvel dentro de sua jaqueta, por sorte ele não chegou a ser picado.   


Mas os perigos não se resumiam aos animais que viviam nas planícies inóspitas. O próprio clima parecia estar contra a expedição. As tempestades de areia eram tão fortes que ameaçavam carregar tudo, virar os automóveis e espalhar as provisões pelas planícies secas. Quando uma tempestade era avistada à distância, o comboio tinha de parar imediatamente, os animais eram enviados para o caminho inverso a fim de serem protegidos e barreiras para conter o vento eram erguidas. O pior era quando a tempestade se formava repentinamente, o que forçava os homens a agir sob pressão. Uma dessas tempestades repentinas, fez com que quatro camelos simplesmente desaparecessem. Os pobres animais foram sepultados de baixo de toneladas de areia quente.

É possível que uma das descobertas mais significativas da expedição não tenha sido um fóssil grande, mas um pequeno. Em 1923, Walter Granger encontrou um pequeno crânio num depósito de calcário do Período Cretácio. Ele identificou o achado apenas como "réptil desconhecido" e enviou a peça para um museu para ser estudado. Em 1925 uma carta chegou, endereçada à base do grupo que passava as férias de verão em Pequim. O crânio pertencia a um mamífero, não a um réptil. Mamíferos que viviam na era dos dinossauros eram extremamente raros, e praticamente todos eles se tornaram extintos, incapazes de competir com seus predadores naturais. O crânio achado por Granger, entretanto, vinha de uma linha de mamíferos que podia ser relacionada a animais dos dias atuais. A carta pedia a Granger e aos demais que buscassem por mais evidências de mamíferos contemporâneos do Cretácio. Ao retornar ao Gobi no ano seguinte, a expedição desenterrou mais seis crânios de mamíferos que provaram de uma vez por todas a presença desses animais no período. 

Mas naquele mesmo dia, a expedição enfrentaria um de seus maiores desafios. Andrews escreveu em seu diário que "acordou com uma sensação estranha, como se cada nervo de seu corpo estivesse vibrando". Sem pensar duas vezes ele vestiu seu coldre, apanhou um rifle e começou a patrulhar o perímetro do acampamento, sem achar nada fora do normal. Incapaz de dormir, montou vigília no teto de um dos automóveis observando o horizonte com um binóculo. Ele percebeu que o vento estava cada vez mais forte, mas só quando amanheceu Andrews conseguiu ver uma nuvem alaranjada se erguendo poucos quilômetros a frente - era uma tempestade devastadora que se formava. Os homens foram acordados rapidamente, não havia tempo a perder e não adiantava tentar salvar os camelos ou desfazer o campo. A única chance de sobreviver era correr. 


Os motoristas aceleraram velozmente, tentando escapar da tempestade, mas em poucos minutos ela os alcançou e engoliu o comboio por inteiro. Logo havia toneladas de areia sendo soprados contra os automóveis, com tanta força que produzia riscos no vidro do para-brisa e impedia que se visse além de poucos metros. Os automóveis foram então posicionados em um círculo com pesos posicionados junto das rodas para que o vento não virasse os veículos. A tempestade foi devastadora e durou 45 minutos. Quando enfim ela amainou, o cenário era surreal: os automóveis Dodge estavam enterrados. Os homens tiveram de cavar em busca de dois deles que ficaram completamente cobertos com os passageiros confinados em seu interior. Demorou quase duas horas para resgatar os homens que por pouco não sufocaram no interior do veículo. 

Depois desse incidente, a expedição achou melhor retornar a Pequim para se reequipar. Boa parte de suas provisões havia sido perdida e os poucos animais que restavam não dariam conta de prosseguir na árdua missão. Combustível, água e munições também foram perdidas na ventania abrupta. Além disso, os membros da expedição também estavam exauridos, física e mentalmente, conquanto, por sorte, ninguém havia morrido ou se ferido gravemente. De volta a capital chinesa, Andrews contratou dois novos membros para a expedição meteorologistas que seriam fundamentais dali em diante para identificar a formação de tempestades no deserto. Graças a atuação desses especialistas a expedição se livrou de grandes enrascadas nos anos seguintes.

Mas haviam outros perigos.

Nos primeiros anos, bandidos e guerrilheiros eram mais um estorvo do que uma ameaça. Andrews havia equipado os membros da expedição com armas modernas e o poder de fogo deles era bem superior ao dos bandoleiros que infestavam a região. Quando ficava claro que a expedição tinha armas e não exitariam em usá-las em defesa própria, os bandoleiros abandonavam seus planos de atacar. Os senhores da guerra também respeitavam a expedição e evitavam confrontá-la, o carro da frente tremulava uma bandeira americana e quando a viam os comandantes ordenavam que a expedição fosse deixada em paz. Alguns generais chegaram a negociar diretamente com Andrews e em troca de alguns presentes aceitavam escoltá-los através de algumas regiões perigosas. Um pelotão de russos brancos (soldados anti-comunistas) ajudou a expedição quando esta foi emboscada por bandoleiros chineses.


De acordo com as estórias, um dos arqueólogos da expedição Nels C. Nelson foi capturado por um grupo de bandidos mongóis que tencionavam trocá-lo por armas. Enquanto estava no cativeiro, Nelson descobriu que os homens eram extremamente supersticiosos e aproveitou essa peculiaridade para escapar. Ele tinha um olho de vidro, e quando o removeu e mostrou para seus raptores eles simplesmente fugiram aterrorizados. Nelson foi resgatado dois dias depois.

Mas as coisas mudariam a partir de 1926. A Guerra Civil estava se tornando cada vez mais brutal e todos os lados empregavam táticas de intimidação que incluíam massacres e execuções de civis. Pouco depois de deixar Pequim em direção ao Gobi, a expedição foi atacada por um contingente de soldados chineses rebeldes fortemente armados. Um dos guias abriu a porta, acenou a bandeira americana e acabou baleado na cabeça. "As balas atingiram os automóveis como se fosse uma tempestade de granizo" escreveu Andrews, "eles abriram fogo com uma metralhadora bem na nossa frente. Era possível ouvir os projéteis zunindo como abelhas furiosas acima de nossas cabeças". Pela primeira vez a expedição teve que retroceder diante de um inimigo melhor armado: além das armas automáticas, os guerrilheiros contavam com granadas.    

De volta a sua base as coisas se mostraram ainda mais complicadas. Os soviéticos acusaram a expedição de espionagem e de minar os esforços de rebeldes comunistas dentro do exército chinês. Havia um ar de ameaça nas acusações dos soviéticos. O governo chinês também começou a se ressentir da presença dos estrangeiros em seu território. Surgiu a suspeita de que membros da expedição haviam se apropriado de tesouros chineses mantidos em museus na capital. Os boatos se provaram infundados, mas dois professores chegaram a ser agredidos na rua por nacionalistas chineses. Ironicamente, Andrews acabou piorando a situação, ele leiloou um ovo de dinossauro por 5 mil dólares, a fim de angariar fundos para a compra de armamento para a expedição. Com o dinheiro, ele adquiriu três metralhadoras giratórias que foram instaladas no teto dos veículos o que irritou os chineses.

Incapaz de garantir a segurança de sua equipe, Andrews decidiu cancelar as expedições de 1926 e 1927. Em 1928 ele tentaria novamente, a expedição contava com armamento pesado: granadas, explosivos e metralhadoras, mas mesmo assim eles só conseguiram chegar a fronteira da Mongólia. No caminho eles encontraram vilas inteiras destruídas e civis massacrados por ambos os lados. Os cientistas estavam enjoados com aquele horror, alguns diziam que a expedição havia se tornado quase uma campanha militar. Para piorar, ao retornar a Pequim, os membros da expedição foram presos, acusados de roubo. A recém criada "Sociedade para Preservação de Objetos Culturais", acusava três membros da expedição da apropriação de tesouros do povo chinês. As armas e automóveis foram confiscados e Andrews passou seis semanas negociando a devolução do equipamento. Quando finalmente ele conseguiu reaver parte do material, não havia mais clima para prosseguir.

Em 1929, ele não recebeu a documentação necessária para retornar a China. O governo negou seu visto e advertiu que ele não poderia entrar no país. Em 1930, uma última expedição foi planejada. Andrews ainda tinha conhecidos no governo chinês e estes conseguiram, através de muitos subornos, documentos oficiais. Para equipar a expedição ele negociou diretamente com contrabandistas que havia conhecido nas expedições anteriores.

Nessa derradeira expedição, eles encontraram um espetacular cemitério de mastodontes, os antepassados dos elefantes e coletaram inúmeros fósseis. A despeito do sucesso, Andrews teve que admitir que as condições de trabalho na Mongólia haviam se tornado perigosas demais para continuar.

Assim se encerrou a Expedição à Ásia Central e com ela a era de ouro das grandes expedições científicas. Andrews retornou aos Estados Unidos e quatro anos mais tarde se tornou o Diretor do Museu de História Natural de Nova York. Em 1942 ele deixou o museu e seguiu para a Califórnia onde passou o resto de sua vida escrevendo sobre suas experiências. Ele morreu em Carmel, no ano de 1960.

O legado de Roy Chapman Andrews continua vivo entre os cientistas que exploram a vastidão do deserto mongol. Sessenta anos depois da expedição Andrews ter partido, o governo da Mongólia convidou uma expedição norte-americana do Museu de Ciências Naturais a retornar e refazer os passos da expedição Andrews.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Nos Velhos Tempos: O Fonógrafo - A incrível máquina de falar


Um dos pontos mais interessantes de jogos centrados no passado, é tentar reproduzir a época da estória da forma mais fiel possível.

Um dos grandes problemas que muitos narradores enfrentam é descrever o dia a dia dos personagens e inserir os jogadores acostumados com o estilo de vida moderno em um ambiente bem diferente. Um dos questionamentos centrais nas mesas de Chamado de Cthulhu, Rastro e de qualquer boa ambientação pulp (se passando entre os anos 1920-1940) é determinar o que existia, o que estava disponível e o que simplesmente ainda não havia sido inventado.

É curioso, mas essa é uma preocupação muito comum entre os narradores e que às vezes confunde os jogadores. 

Será que já existia máquina fotográfica manual em 1925 e como era tirar uma foto? Meu personagem pode ter uma filmadora para registrar um determinado evento ou esses aparelhos ainda não tinham sido inventados? Será que eu posso entrar no carro e dar a partida ou é preciso rodar aquela manivela para ele funcionar? Meu personagem precisa viajar para outro continente em 1930, já existe uma linha aérea que faz esse percurso ou ele precisa ir de navio? Como eu faço para gravar uma conversa em 1920?

São perguntas válidas para qualquer um que se propõe a narrar uma estória com o mínimo de fidelidade e comprometimento com a realidade. Na pior das hipóteses essas informações ajudam a realçar ou quem sabe até, enriquecer o panorama do cenário.

A ideia dessa série de artigos, chamados de "Nos velhos tempos" é pegar uma aspecto da vida no início do século e analisar como as questões eram resolvidas e o que estava ao alcance das pessoas para tornar suas vidas mais fáceis.

Nesse primeiro artigo, vamos falar de uma invenção revolucionária, patenteada pelo genial Thomas Edison e que progrediu muito na primeira metade do século passado. Uma invenção que levou o som e a música para dentro das casas; estamos falando do FONÓGRAFO.


Hoje em dia, quando queremos ouvir uma música, ligamos o rádio, a televisão, colocamos um CD para tocar ou clicamos num arquivo mp3 em nossos computadores. Assim podemos ouvir nossas músicas favoritas no conforto de nossas casas quando quisermos. Entretanto, CDs só surgiram há pouco mais de 30 anos e seus predecessores, os discos de vinil a pouco mais de 80 anos.

Apenas em meados dos anos 1920, discos de shellac e mais tarde vinil, começaram a substituir os arcaicos e frágeis cilindros de cera que dominaram a indústria fonográfica no período que antecedeu a Grande Depressão.

Embora a tecnologia de áudio-gravação já estivesse disponível, criada em 1860, não foi até o final de 1870 que Thomas Alva Edison inventou o fonógrafo (ou ‘gramofone’ como a invenção foi chamada na Grã-Bretanha), a primeira máquina capaz de ao mesmo tempo gravar, e então reproduzir som verdadeiro, e numa qualidade suficientemente boa para ser ouvida e compreendida. Mas como eram os primeiros aparelhos desse tipo? 

Edison anunciou a criação de sua inovadora "máquina de falar" nos últimos meses do ano de 1877. A máquina de Edison era surpreendentemente simples, mas conseguia algo considerado impossível no século XIX: Gravar sons! O aparelho incluía um amplificador, uma agulha de vibração ou stylus e um cilindro embalado com papel alumínio. A medida que Edison falava (ou melhor dizendo, gritava!) no amplificador, as ondas sonoras de sua voz, faziam vibrar a agulha que arranhava o papel alumínio preso no cilindro giratório. Quando ele falava alto ou baixo, mais funda ou rasa era a ranhura deixada no cilindro. Colocando a agulha no ponto de início do gravador, e girando novamente a manivela, o som da voz, suficientemente discernível, podia ser ouvido. As primeiras palavras gravadas dessa forma, foram Edison recitando um poema infantil: “Mary tinha um carneirinho, e sua lã era branca como a neve. E para onde quer que Mary fosse, o carneirinho a seguia!

Edison e sua invenção revolucionária
As primeiras gravações de Edison, embora surpreendentes, não tinham boa qualidade. Levou um considerável tempo para desenvolver uma maneira de tornar a captação e reprodução mais clara. Ele descobriu que se falasse alto suficiente, era possível fazer a agulha vibrar e que essa vibração era responsável por produzir as ranhuras que poderiam ser em seguida ouvidas. Mas ele precisava de um material mais confiável do que papel alumínio, algo que resultasse em melhor qualidade de áudio e que não fosse tão sensível a danos produzidos pela própria agulha. Edison fez experiências com outros materiais, e eventualmente desenvolveu uma combinação que foi saudada como revolucionária e que deu início a Era da Gravação.

Edison sabia que poderia ganhar uma fortuna comercializando sons gravados para as pessoas interessadas em sua invenção, mas antes de seguir adiante ele precisava encontrar um método confiável. Depois de ter enrolado dezenas de materiais no cilindro giratório, ele teve uma ideia genial: que tal usar o próprio cilindro para gravar os sons?

Edison desenvolveu cilindros feitos de cera moldável, produzidos em um molde. Assim ele podia produzir centenas, milhares de cilindros de gravação e vendê-los para quem quisesse reproduzi-los em seu aparelho. A maciez da cera permitia que a agulha produzisse ranhuras e sulcos perfeitos na superfície do cilindro, captando os sons de maneira mais distinta.

A melhor coisa a respeito dos cilindros de cera  é que eles eram fáceis de produzir e de usar. As pessoas podiam comprar cilindros com sons (em geral músicas) já gravados ou então cilindros em branco que podiam ser usados para gravar o que bem entendessem. Bem antes dos discos, das fitas k7, dos CDS ou mesmo dos arquivos de som, as pessoas já podiam ter suas coleções de música e som, na forma de cilindros de cera.

O grande problema dos cilindros é que eles precisavam ser reproduzidos manualmente. Era necessário girar uma manivela em um ritmo constante para que a reprodução fosse perfeita, do contrário havia distorção. Além disso, sendo feitos de cera, os cilindros eram muito frágeis e podiam quebrar facilmente. Mesmo o uso repetido do cilindro podia resultar em uma perda da qualidade de som. 

Os cilindros de cera de Edison hoje são peças de coleção
O salto de qualidade seguinte veio através dos discos de gravação, uma tecnologia que só foi substituída em meados dos anos 1980. A ideia para os discos veio do famoso compositor Emile Berliner. Ele percebeu que se a reprodução fosse feita em uma superfície horizontal, ao invés de vertical, a qualidade do som melhorava consideravelmente, já que a agulha não pulava tanto. 

Quando o Disco de Berliner foi produzido, os cilindros de Edison já haviam se espalhado por todo mundo e eram considerados confiáveis há décadas. Foi necessária uma cuidadosa campanha de marketing para que as pessoas adotassem o novo modelo. Berliner tentou recrutar cantores e músicos para mostrar que a qualidade de seus discos era superior a dos cilindros. Uma das grandes vantagens dos discos de Berliner é que eles eram menores e mais fáceis de guardar do que os cilindros de cera de Edison. Além disso eram mais fáceis de serem transportados e mais resistentes. Originalmente os discos eram prensados em folhas de shellac, um tipo de celuloide, que foi substituído por vinil no início dos anos 1940.

Quando ouvimos o som de um disco antigo em um filme ou no rádio, a primeira coisa que percebemos é a qualidade da gravação. Alguns discos eram surpreendentemente claros e agradáveis de ouvir, outros pareciam ter um som residual por baixo da gravação. Isso se dava, principalmente porque havia dois processos de gravação: o método acústico e o elétrico.

O método acústico veio primeiro e data do surgimento dos discos gravados. Nesse tipo de gravação os cantores e músicos se reuniam em torno de um enorme amplificador que captava suas performances. Os artistas deviam tocar (ou cantar) muito alto para que a agulha registrasse perfeitamente as ondas sonoras por eles produzidas.

Embora essa gravação resultasse em um som de qualidade aceitável, a reprodução da gravação quando transferida para outros discos era medíocre. Os próprios artistas reclamavam da qualidade do som, afirmavam que diferentes instrumentos se misturavam ou ficavam ocultos na gravação. A voz de alguns artistas também não saia como esperado o que irritava alguns cantores que chegavam a se recusar a gravar discos.

Em 1925, o microfone elétrico foi inventado, e ao redor do mundo, músicos e cantores puderam relaxar, fazendo gravações em que não era necessário gritar ou danificar seus instrumentos para atingir altas notas. Pela primeira vez, havia algo que amplificava o som para eles. Com esse implemento, as gravações ficaram mais claras, o som mais puro. Ao mesmo tempo, os fonógrafos foram ligados à eletricidade o que dispensava girar uma manivela constantemente para reproduzir a gravação. 

Procure uma gravação de uma faixa entre 1900-1925 e perceba que se trata de um som mais abafado e granulado. Procure então alguma coisa gravada depois de 1925 - a diferença da qualidade do som é surpreendente. O som se torna muito mais claro e agradável. Era o início da era do som elétrico.

Os discos de vinil foram o início da mudança.
Das primeiras gravações destoantes da década de 1880, passando para o som tolerável do início do século XX e finalmente evoluindo para o som mais claro dos discos nos anos 1930, em menos de sessenta anos, a humanidade assistiu um acelerado avanço da tecnologia de captura e reprodução sonora. Pela primeira vez, não era necessário contratar músicos ou viajar para ouvir o concerto de um artista famoso, bastava entrar em uma loja, adquirir um disco e ter em casa uma máquina capaz de reproduzir o som.

Com tudo isso, qual foi o impacto dos fonógrafos no início do século XX?

Em uma palavra: GIGANTESCO.

Em meados de 1920, fonógrafos podiam ser encontrados em qualquer grande cidade do planeta, vendidos em lojas, enquanto discos eram encomendados pelo correio e entregues na porta de casa. Os aparelhos se espalharam tão rapidamente, porque o custo de produção não era muito alto. Em termos atuais corrigidos, um aparelho de som, nos anos 20, custava o equivalente a 150 dólares atuais, enquanto cilindros ou os primeiros discos saiam por meros 3 dólares. Em 1930, o custo dos aparelhos caiu para 75 dólares, enquanto os discos custariam o equivalente a 5 dólares hoje em dia.

Uma vez que havia uma grande demanda, os fonógrafos conquistaram uma enorme fatia do mercado e foram produzidos em escala industrial. Não é raro em absoluto portanto que aparelhos desse tipo possam ser encontrados em cenários se passando na época.

Curiosamente, o mercado dos aparelhos reprodutores experimentou sua primeira crise na década de 1940, após o surgimento de um competidor direto que ameaçou sua hegemonia e que tomou o mundo de assalto - o rádio.

Mas essa é outra estória.

Obrigado por ouvir...

Ah sim, quando eu penso no cilindro de cera eu sempre lembro desse teaser do filme "Whisperr in Darkness". Ele dá uma ótima ideia de como era o som das gravações: