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quarta-feira, 25 de abril de 2018

Il Trillo del Diavolo - A lenda de uma composição inspirada pelo Diabo em pessoa


Diz o famoso ditado que a Música é o alimento da alma.

Ela é uma das expressões artísticas mais sublimes da humanidade, uma forma de elevação do espírito e da alma. Para alguns artistas, a música é divina e proporciona um vislumbre do paraíso. Antonio Salieri, que ficou famoso por invejar a obra de Wolfgang Amadeus Mozart, costumava implorar a Deus por inspiração e depois de cada sonata que compunha se colocava de joelhos como agradecimento. Outros compositores se consideravam inspirados por Deus que lhes proporcionava aquela fagulha determinante para seus melhores trabalhos.

Mas e se o outro lado, também tiver interesse na arte musical e de alguma maneira patrocinasse suas próprias composições, valendo-se de métodos especiais. O Diabo, dizem, é o pai do Rock n' Roll, mas muito antes do surgimento desse tipo de música, ele já trabalhava nos bastidores criando histórias incríveis.

A música está cheia de lendas e rumores a respeito de músicos famosos e compositores envolvidos com o sobrenatural. De Fausto e Mefistófoles até o Fantasma da Ópera, dos guitarristas de blues esperando em encruzilhadas para vender sua alma ao estrelato, das travessuras pagãs de Jim Morrison, até os rituais de Telema tentados pelo membros do Led Zeppelin, a música e o ocultismo caminham de braços dados desde que ambos surgiram.

Uma das histórias mais fascinantes sobre o assunto envolve o compositor barroco italiano Giuseppe Tartini (1692-1770) e sua associação com ninguém menos do que o Diabo em pessoa.


Diz a lenda que em certa noite do ano de 1713, Tartini, um jovem e promissor musicista sonhou que havia encontrado o Diabo cara a cara. O demônio ofereceu a ele uma barganha: transformá-lo no melhor violinista do mundo e assim lhe garantir enorme sucesso. O acordo foi firmado, o Diabo concordou com a proposta e disse que o rapaz seria famoso e que iria compor uma música inesquecível. Em determinado momento do sonho, Tartini ficou curioso e perguntou ao Diabo se ele era um conhecedor de música, afinal, quais eram seus conhecimentos para determinar o que é verdadeiro talento?

O diabo se sentiu ofendido com a desconfiança e pediu que Tartini emprestasse a ele o violino que tinha em mãos - no sonho ele estava com o instrumento. Em seguida, ele não se fez de rogado, habilmente posicionou o violino no queixo, testou duas vezes e começou a tocar de maneira sublime.

O som que o Diabo produziu com o violino mudou a vida de Tartini.

Quando despertou do sonho, com a música fresca na cabeça, ele correu para escrever a melodia. A peça era tão complexa, tão bem executada que o rapaz ficou estarrecido. Tartini tentou inúmeras vezes recriar o som e a melodia ouvida, mas alguns trechos acabaram se perdendo e ele não conseguia lembrar dos detalhes bem o suficiente para colocar em uma partitura.

O jovem experimentou desapontamento após desapontamento já que era incapaz de atingir o grau de complexidade e de delicada precisão que a composição exigia. Após meses trabalhando na obra, Tartini se sentiu tão perdido que tentou o suicídio usando as cordas de seu violino para cortar os pulsos.

Felizmente ele sobreviveu!


Nos seus devaneios às portas da morte, o diabo fez mais uma visita ao rapaz. Escorregando para a morte, Tartini implorou ao tinhoso para ele tocasse a sonata uma vez mais. No sonho, ele ouviu com atenção e fez um esforço sobre-humano para memorizar cada movimento e os trechos mais intrincados. Ao despertar pediu por uma pena e papel para que pudesse anotar cada detalhe.

Quando finalmente saiu do hospital onde estava internado, Tartini contou o que havia acontecido. Os padres católicos que administravam o lugar disseram que o rapaz havia enlouquecido depois que relatou sua blasfêmia. Giuseppe tornou o objetivo de sua vida replicar aquela melodia ouvido apenas em seus sonhos. 

Ele demorou sete longos anos para finalizar sua Sonata Diabólica, como ela foi apelidada. A música ganhou o nome de "Il Trillo del Diavolo" (O Trinado do Diabo) e nos tempos modernos se tornou uma peça bastante conhecida e admirada. Considerada uma das composições mais difíceis de serem executadas. Curiosamente o compositor lamentava jamais ter conseguido reproduzir com exatidão a música que continuava assombrando sua mente febril. Aqueles mais próximos contavam que o rapaz sofria de uma enorme depressão por não ser capaz de atingir o tom desejado. Tartini tornou-se temperamental, chegou a destruir inúmeros instrumentos em acessos de fúria, encerrava apresentações furiosamente e dizem, pensou em suicídio outras vezes.

É provável que a "culpa" não fosse de Tartini, uma vez que os violinos da época não possuíam cordas resistentes o bastante para suportar a pressão das mudanças de tons e acabavam arrebentando. Apenas com a modernização dos instrumentos é que musicistas conseguiram atingiram a plenitude do que Tartini havia concebido.

A famosa mística e medium, Madame Helena Blavatsky escreveu um conto curto em sua coleção de Histórias de Terror com o título "A Alma no Violino". Na sua versão fictícia, Tartini obtém seu talento graças ao pacto diabólico e se arrepende no final de sua vida.


Vários compositores dos séculos XVIII e XIX consideravam o tritono - o  intervalo entre alturas de duas notas musicais que criam três tons inteiros, uma inspiração e construíram adaptações em cima dele. Não por acaso, o tritono, a invenção de Tartini, é considerado uma das dissonâncias mais complexas na música ocidental, realizado apenas por músicos extremamente talentosos. O musicista francês Camille Saint-Saëns em sua Danse Macabre conseguiu criar um tritono claramente inspirado por Tartini.

Extremamente polêmica, a história acabou repercutindo na Igreja Católica que condenou o uso do tritono como uma construção maligna. Um dos argumentos dos religiosos era de que a música derivava de Deus e portanto exigia harmonia. Um som dissonante seria algo a ser evitado. A campanha da igreja para desqualificar o tritono fez com que muitas partituras e compositores fossem perseguidos. O tritono hoje em dia é usado em vários estilos. 

Estudiosos de música e pesquisadores tentaram explicar até hoje como Tartini teve a inspiração para compor sua obra prima, alguns chegaram a sugerir que ele teria nascido com polidactilia, ou seja, seis dedos funcionais em cada mão. Talvez isso explicasse sua genialidade, mas talvez, ele fosse realmente inspirado pelo Diabo... quem pode saber ao certo?

Para tirar suas dúvidas, aqui está a Sonata para violino em sol menor de Giuseppe Tartini, o Trinado do Diabo. 

Ah sim, a coisa fica animada aos 4 minutos, dá para perceber que em certos momentos parecem dois violinos sendo tocados simultaneamente, mas na verdade é apenas uma pessoa alterando o tom.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

RPG do Mês: Tales from the Loop - Os Anos 80 que nunca existiram


Os anos 80 estão na moda.

Não é de hoje que uma onda avassaladora de nostalgia varreu o mundo, fazendo com que aqueles que viveram os saudosos anos 80 queiram revisitar essa época mágica. O mais engraçado é que essa onda atingiu com força mesmo quem não viveu a chamada Década Perdida, mas que se sente, de alguma forma, intrigado pelo seu estilo e glamour. 

Ok, estilo é questionável, glamour, idem. Os anos 80 foram uma época, pensando em retrospecto... peculiar para quem era criança ou adolescente.

Quem viveu essa época curiosa deve ter uma série de lembranças guardadas com carinho: seja da música pop que se tornava uma tendência mundial, de modismos hoje absurdamente esquisitos, programas de televisão e filmes que marcaram época e incríveis novidades que pareciam surgir a cada semana com uma velocidade vertiginosa. Os anos 80 foram marcantes, sinalizando com um futuro que parecia se materializar diante de nossos olhos, prometendo modernidades que mal sabíamos, logo seriam superadas nas décadas seguintes. Entretanto, naquele momento, aquilo tudo era simplesmente incrível! Câmeras, video cassetes, computadores pessoais, telefones, transportes modernos, fax... A sensação era de ver o futuro acontecendo diante dos nossos olhos, testemunhar aquelas transformações em ritmo acelerado era incrível!


É claro, nem tudo foi lindo e maravilhoso... a época que nos deu Michael Jackson, Madonna, Atari 2600, De Volta para o Futuro e A Super Máquina, foi a mesma que acenou com problemas e crises profundas. Guerras Civis, fome na África, o consumismo desenfreado, Yuppies, drogas cada vez mais poderosas, a Epidemia da AIDS e é claro, o temor da Guerra Fria entre Americanos e Soviéticos que ameaçavam mergulhar o planeta no Apocalipse Nuclear. Quem cresceu nessa época sabe do que estou falando e sabe que não é exagero.

Parece um contraponto que uma década tão questionada, marcada por exageros e pieguismo, desperte um saudosismo tão gritante em quem a presenciou. Mas a verdade é que os anos 80 deixaram saudade e se tornaram objeto de culto de toda uma geração.

Tomemos, por exemplo, o revival de séries de televisão, transformadas em filmes e as refilmagens de sucessos da época. A reedição de músicas que foram hits estrondoso e que são gravados novamente por artistas contemporâneos que nem sequer tinham nascido. A redescoberta de estrelas esquecidas no mundo da música e da arte. As festas nostálgicas com direito a coreografias e músicas eletrônica sampleada. Os modelos retro de máquinas, aparelhos e eletrônicos. Tudo isso voltou com força, tudo com a distinta exceção dos ridículos cortes de cabelo e das medonhas roupas com ombreiras.


Uma das maiores provas do culto aos anos 80 possivelmente é o sucesso de programas de televisão como Stranger Things. Produzida e escrita por pessoas que cresceram nesse período, a série do Netflix oferece uma experiência de catarse para o espectador saudosista, na qual ele mergulha de cabeça nos sons, cores e filosofia oitentista.

Nesse contexto, parece perfeitamente natural prever que outras mídias seriam igualmente tomadas de assalto por essa moda. Quanto tempo, por exemplo, demoraria para surgir um RPG tendo os anos 80 como pano de fundo? Bem, não demorou muito... 

TALES FROM THE LOOP é um RPG sueco criado pela Free League e idealizado por Nils Himtze, os mesmos responsáveis por jogos que tem conquistado cada vez mais espaço no mercado internacional. Nos últimos anos, a Suécia se tornou referência para ambientações de RPG inovadoras e com ideias cheias de frescor e imaginação - vem de lá, para citar apenas outros exemplos Symbaroum, Coriolis e Mutant: Year Zero, além do controverso e clássico Kult. O interesse por jogos suecos tem atraído editoras norte-americanas que literalmente saem no tapa para conseguir os direitos sobre esses jogos. Loop por exemplo, foi comprado pela Modiphius Entertainment num estalar de dedos, tão logo foi ventilada a premissa do jogo. E pode apostar, foi uma aposta segura!


Tales from the Loop (que doravante será chamado apenas de Loop) à primeira vista pode parecer um Stranger Things RPG, já que bebe da mesma fonte da série da Netflix. Temos personagens centrais que são crianças pré-adolescentes, vivendo nos anos 80, investigando mistérios e se metendo em encrencas que remetem a filmes como Goonies, E.T. e obviamente o próprio Stranger Things. Mas vamos com calma que as coisas não são bem assim! 

Apesar de Loop guardar MUITAS semelhanças com a proposta original de Stranger Things, reside nas pequenas diferenças o maior charme dessa incrível ambientação. A primeira coisa que deve ser ressaltada é que o jogo não se passa nos anos 1980 com o qual estamos tão bem familiarizados. Na capa do livro podemos ler claramente "Roleplaying in the '80s that never was" (ou seja, "Roleplaying nos anos 80 que nunca existiram"). Isso significa que embora a essência do jogo esteja confortavelmente embasada na onda de nostalgia, ele oferece um outro enfoque.

Para explicar melhor do que se trata Tales from the Loop, teremos de falar de um incrivelmente talentoso artista gráfico sueco chamado Simon Stälenhag. Respeitado em seu país de origem pelo seu trabalho conceitual, Stälenhag ganhou fama com o lançamento de livros de arte retratando uma espécie de mundo fantástico no qual nostalgia e tecnologia se misturam, criando um panorama ao mesmo tempo familiar e surreal. Mais especificamente, os livros de Stälenhag oferecem uma visão de como poderia ser a década de 1980 se inovações tecnológicas como veículos antigravitacionais e robôs gigantes, tivessem sido introduzidas no período.


A fusão do mundano e do extraordinário rende imagens de tirar o fôlego e que ilustram esse artigo. O artista demonstra um talento impar para construir um mundo no qual vagões aéreos, complexos ultra-modernos e máquinas inteligentes interagem, na maioria das vezes, com crianças explorando seu funcionamento e seus mistérios. O primeiro livro de Simon Stälenhag, não por acaso, chama-se "Tales from the Loop" e oferecia um vislumbre desse mundo fantástico. Não demorou para que alguém visse no livro o incrível potencial para construir um RPG baseado nele. E foi assim que o jogo nasceu. Inteiramente inspirado por essa arte deslumbrante, Loop se propõe a ser um RPG de fantasia, com os pés bem fincados no mundo real, uma mistura inusitada e extremamente promissora. A frase "anos 80 que nunca existiram" é perfeita para definir o que o leitor encontrará nesse jogo.

Tales from the Loop me atraiu de tal maneira, quando li os primeiros comentários a respeito de sua versão americana, que fiquei doido para adquirir minha cópia. Infelizmente perdi o Financiamento Coletivo e acabei tendo de esperar para que ele fosse distribuído e depois chegasse às lojas. Foi uma longa espera, mas compensou... O livro tem um tema que me agrada muito, afinal, eu cresci nos anos 80 e estou incluído no grupo dos saudosistas que adoram lembrar dessa época - de fato, a trilha sonora que está tocando enquanto escrevo essa resenha é puro anos 80 (a título de curiosidade estou ouvindo "Jump" do Van Halen!). 

E caras, quando o livro chegou às minhas mãos foi amor à primeira vista. Literalmente! Não apenas por se tratar de um livro lindo, transbordando com as ilustrações coloridas de Stälenhag em cada página, mas pelo conteúdo simplesmente incrível. O livro é tão bem escrito e tem um linguajar tão gostoso de ler que você simplesmente o devora do início ao fim.


A versão americana editada pela Modiphius é praticamente idêntica a versão européia, com um importante adição: a inserção de um capítulo que permite situar as histórias do Loop nos Estados Unidos. Essa mudança é muito oportuna já que seria difícil conduzir aventuras se passando na Suécia dos anos 1980 sem fazer uma pesquisa prévia. De qualquer forma, o narrador tem as duas opções à sua disposição. Eu respirei aliviado quando soube que tiveram o cuidado de apresentar a cidade de Boulder, na divisa do Deserto de Nevada como opção viável para a original, a gélida ilha de Munsö no Mar do Norte.

Mas já que essa resenha está ficando grande, que tal falarmos a respeito da ambientação e mais especificamente do que trata Tales from the Loop?

Ok, vamos lá!


Tales from the Loop acompanha as aventuras e desventuras de crianças e pré-adolescentes com idade entre 10 e 15 anos que vivem em uma cidade onde coisas muito estranhas tendem a acontecer com alarmante frequência. Como já mencionamos várias vezes, a ação tem lugar em algum momento da década de 80, com o narrador podendo escolher qualquer ano que quiser. A fonte de todas as esquisitices parece ser um Mega-complexo Científico Tecnológico, fundado no início da década e que muda para sempre a maneira como os habitantes locais vêem a sua cidade. Essa instalação hospeda o maior e mais moderno Acelerador de Partículas do mundo, um engenho monstruoso e extremamente complexo apelidado de Loop. Ninguém sabe exatamente qual a extensão das pesquisas realizadas no interior do Loop, mas sabe-se que ele se dedica a todo tipo de projeto científico visando a criação de novas e revolucionárias tecnologias. 

Foi graças a lugares como o Loop que invenções incríveis ajudaram a redefinir o mundo e torná-lo diferente do que conhecemos. Nele temos coisas incríveis como naves capazes de flutuar usando o Campo Magnético do planeta (o Efeito Magnetrine), máquinas e robôs que realizam trabalhos nos campos da indústria e automação e servos mecânicos dotados de inteligência artificial imbuídos da capacidade de realizar trabalhos essenciais. O Loop por si só é um complexo que gera enorme quantidade de eletricidade e soluciona inúmeros problemas de abastecimento energético. 

Mas é claro, tudo isso tem um preço. Nem sempre as coisas funcionam como o esperado, e as vezes, algo pode fugir do controle. Existem muitos outros projetos secretos em pleno desenvolvimento dentro do Loop, muitos deles voltados para a indústria armamentista. Projetos que vão de teleportação a miniaturização, da criação de armas terríveis até viagem no tempo. E a consequência direta dessa busca incessante por avanço tecnológico é um perigo inerente para todos que vivem nos arredores da instalação. As cidades à sombra das Torres do Loop parecem um imã de acontecimentos bizarros e incidentes imprevisíveis, que vão de portais dimensionais se abrindo até contatos com alienígenas, de avistamento de dinossauros escapando de um laboratório, até a rebelião de máquinas inteligentes que odeiam a humanidade e querem sua destruição.


No melhor estilo filmes da Sessão da Tarde, a única linha de defesa capaz de conter essas graves ameaças é a interferência de crianças que acabam tomando conhecimento dessas coisas e precisam lidar com elas antes que seja tarde demais. E essa é a beleza de Tales from the Loop, o fato de que os jogadores assumem o papel de crianças e que sozinhos precisam confrontar e resolver as situações mais inesperadas. Isso tudo, sem a ajuda de adultos, contando apenas com a ajuda de seus amigos de colégio, vizinhos e irmãos. Se você já assistiu filmes como Viagem ao Mundo dos Sonhos, o Vôo do Navegador, Querida Encolhi as Crianças, E.T. ou D.A.R.Y.L sabe o tipo de aventura que o espera.

Em Tales from the Loop as crianças possuem conhecimento do mundo moderno que as cerca, muitas delas são capazes de trabalhar com desenvoltura em computadores ou operar máquinas complexas, mas o que vale mesmo é sua imaginação e criatividade. Uma criança pode não saber como desabilitar um robô militar, mas pode ser perfeitamente capaz de convencê-lo a não eliminar seres humanos ensinando a ele noções de humanidade. Da mesma maneira, uma criança pode usar seu conhecimento de video games para pilotar um vagão magnetrine. Essa falta de compromisso com a realidade formal ajuda a tornar o jogo ainda mais divertido e imprevisível.

Cada sessão de Tales from the Loop é chamada individualmente de Mistério. O objetivo é ficar sabendo da existência do Mistério, investigar sua origem, compreender o que o causou, definir uma maneira de resolvê-lo e finalmente lidar com as repercussões dele. Via de regra, as "coisas estranhas" acabam sendo resolvidas pelas crianças e os adultos nem ficam sabendo do envolvimento delas e que devem suas vidas a elas. Em Loop organizações governamentais estão sempre agindo nos bastidores para acobertar e negar os incidentes. Sempre há uma versão oficial capaz de desqualificar um rumor e transformar uma notícia bombástica em mera especulação sensacionalista. Quem gosta do tema conspirações terá um prato cheio aqui!


Outra sacada incrível do jogo é que as crianças, a despeito de estarem envolvidas com investigações e conspirações, continuam tendo ir ao colégio, interagir com seus pais e vizinhos e  fazer tudo aquilo que crianças normais precisam fazer. Isso permite que o narrador crie um vasto "elenco de apoio" composto de pais, parentes, amigos, vizinhos, professores, treinadores e colegas de classe. Entre uma aventura e outra, os jovens heróis tem de lidar com acontecimentos mundanos, mas ainda assim importantes, como a separação dos pais, um professor implicante, provas finais ou um bando de bullies que os atormenta pelos corredores da escola.

A ambientação define cinco Princípios vitais para o jogo. Essas são diretrizes que o narrador que pretende conduzir uma sessão através dos Mistérios de Tales from the Loop deve se ater. Os princípios definem que a cidade onde as crianças vivem é repleta de coisas estranhas e fantásticas, que o dia a dia é chato e implacável e que adultos estão fora do alcance portanto, é difícil contar com eles. Essas regras ajudam a direcionar a história evitando que adultos se envolvam e possam assumir o curso da investigação excluindo os verdadeiros protagonistas do jogo - as Crianças. Finalmente temos os princípios restantes que definem que os Mistérios envolvem perigos mas que as crianças raramente morrem, que a sessão avança cena por cena e que o mundo é descrito de maneira colaborativa entre o Mestre e os Jogadores.

Pode parecer bobagem, mas compreender esses princípios norteadores é essencial para que as aventuras no Loop façam sentido, do contrário, o jogo pode facilmente se desvirtuar para algo que foge a proposta original de ser uma aventura de crianças enfrentando o desconhecido. Outra ótima regra é delegar aos jogadores a função de descrever determinadas cenas, permitindo que eles contem o que está acontecendo na vida de seus personagens e possam assim ter um certo grau de interação com o mundo que os cerca. O Mistério sempre está nas mãos do Mestre, mas os jogadores são estimulados a contar um pouco da vida dos personagens entre as histórias e desenvolver seus problemas pessoais, desafios, derrotas e conquistas.


Bom, acho que já me estendi demais na resenha, então está na hora de quebrar ela na metade para que não fique muito longa. A segunda parte vai se concentrar no Crunchy do jogo, ou seja, vamos falar das regras do sistema, de como funcionam os rolamentos, como se dá a criação de personagens e como é uma típica sessão de Tales from the Loop.

Então fiquem atentos para a continuação.

Ah sim... por que não fazer uma propaganda?

Foi quem atentos pois estamos marcando uma sessão ao vivo via stream de Tales from the Loop para essa semana. Para quem ficou interessado, vale a pena clicar no link do evento.

 Tales from the Loop Transmissão ao Vivo

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A Arte de Esfolar - Detalhes a respeito de uma das mais horrendas torturas conhecidas pelo homem


Com base no texto de Laura Allan do Blog Ranker

As vezes é chocante imaginar o quanto as pessoas podem ser cruéis.

Não é agradável descobrir o quanto alguns homens podem ser perversamente criativos quando o assunto é infligir dor e tormento em seus inimigos. A morte surge como um objetivo menor, é sim desejada, mas a tortura é o principal intento.

Entre as muitas modalidades de tortura existentes, uma se sobressai como especialmente perversa e hedionda. Ser esfolado vivo pode ser considerada uma das formas mais terríveis de tortura imagináveis pelo ser humano. É um processo lento e doloroso, no qual a vítima estará consciente o tempo todo e do qual não há escapatória.

O esfolamento (também chamada de depelar ou flagelar) foi documentado como um método de execução praticado desde o ano 800 a.C no Norte da África. Desde então, o esfolamento foi usado como forma de tortura ao longo dos séculos, em todas as épocas, em cada canto do planeta. Ele foi praticado pelos Astecas em seus rituais de sacrifício ao Deus Sol, esteve presente na Civilização Grega, na China Imperial, e no Continente Africano. Vários mártires cristãos sofreram com o esfolamento, sendo que São Bartolomeu é o Santo mais conhecido por ter enfrentado esse destino por ordem do Rei da Armênia. É claro, o esfolamento foi amplamente realizado durante a Era Medieval, como punição para traidores, saqueadores e criminosos. Até o século XVIII era uma punição empregada pela Igreja contra heréticos e indivíduos que negavam a existência de Deus. Os japoneses ironicamente a usaram contra missionários cristãos que tentavam introduzir sua fé no oriente. O esfolamento era comum em Papua Nova Guiné, uma forma de reconhecer o valor de um morto ilustre era arrancar sua pele e esticá-la na parede de casa. Birmaneses, os povos dos Urais, Indianos, os habitantes da Terra do Fogo, muitas tribos de nativos americanos (os Apaches e Cree, em especial) e os anglo-saxões.

Todos utilizavam o esfolamento!    

Embora o esfolamento seja raramente empregado hoje em dia (ainda bem!), isso não torna o conceito menos apavorante. Muitas pessoas se sentem morbidamente curiosas a respeito de como era conduzida essa tenebrosa tortura. Uma vez que não e nada recomendável tentar isso em primeira mão, vamos falar a respeito do que acontece durante a experiência,  passo a passo, rumo ao amargo fim.

Nem é preciso dizer que o texto a seguir e as imagens - todas elas autênticas obras de arte onde o esfolamento constitui o tema principal, podem ser profundamente perturbadoras. Portanto esse material deve ser evitado por pessoas impressionáveis, prossiga por sua própria conta e risco.

1 - A vítima precisa ser preparada para que sua pele saia mais fácil.



Como você pode imaginar, arrancar a pele inteira do corpo de um ser humano não é a tarefa mais fácil do mundo. Com isso em mente, você deve corretamente imaginar que quando alguém esfola a pele de outra pessoa, é preciso haver certo grau de preparação antes de iniciar os trabalhos.

Pensando nisso, algumas culturas estabeleceram regras procedimentais para o esfolamento. Por exemplo, esquentar a pele com panos aquecidos era uma maneira de soltar a pele dos músculos e fazer com que os tecidos epiteliais soltassem mais facilmente. Os Astecas costumavam deixar a vítima dourar ao sol durante um dia inteiro, por vezes passando sobre seus corpos óleo de milho ou girassol. Isso não apenas preparava a pele, como permitia que a tortura fosse mais longa, já que os músculos permaneciam aquecidos por mais tempo. A pele vermelha e queimada pelo sol era mais fácil de ser removida de uma só vez. O segundo método era mais extremo. Usado frequentemente durante a Idade Média ele consistia em cozinhar a vítima em um grande caldeirão de água fervente e/ou óleo. Cozinhando a vítima por pelo menos 30 minutos imersa em um tacho, os músculos naturalmente irão relaxar permitindo o trabalho do esfolador. Era importante não deixar a vítima tempo demasiado no banho quente para evitar que ela fosse cozinhada viva.

2 - O esfolamento se inicia com cortes longos



Então, como se dava início ao trabalho de esfolar uma pessoa?

A tortura se iniciava com alguns cortes bastante específicos e bem calculados. Em geral, a primeira pele a ser removida era a da face; depois dela, o corpo era marcado em vários lugares permitindo que pedaços inteiros fossem removidos em uma única peça (ou no menor número de peças possível). Essa marcação envolvia realizar cortes transversais precisos que dependiam de certo conhecimento de anatomia humana. Em especial, era preciso conhecer o mínimo sobre a musculatura, para determinar como as camadas de pele se distribuem pelo corpo. Uma marcação básica, estabelecida pelos gregos e aprimorada pelos romanos, envolvia fazer cortes ao longo dos braços até os pulsos, na lateral das pernas até os tornozelos e no peito até o pescoço. Com esses cortes calculados era possível descascar a pele mais facilmente.

Para serem efetivos, esses cortes não precisavam ser necessariamente profundos. Contudo, eles precisavam se estender através das camadas de tecido, atingido a porção entre a pele e o músculo. Os turcos seljúcidas, mestres na arte da esfolação, acreditavam que quanto mais afiada a faca, menor seria a dor provocada e com menos trauma produzido, maiores as chances da tortura perdurar por horas. Por essa razão, os torturadores especializados em esfolar, mantinham seu equipamento em perfeito estado e as lâminas sempre afiadas. 

3 - A pele era removida em grandes pedaços 



Aparentemente, não havia propósito em esfolar uma pessoa se tudo o que restava dela, no final, fossem pequenos pedaços. Em geral, o ato de esfolar envolvia remover a pele em porções grandes, isso porque muitas culturas gostavam de expor as peles recém arrancadas como um símbolo de poder e justiça.

Historiadores sabem disso através de indícios bastante sinistros.

Existem não apenas relatos históricos escritos a respeito do destino de peles esfoladas, mas evidência física. Por exemplo, na antiga Igreja de Hadstock em Essex, existe a lenda de um saqueador dinamarquês que foi acusado de sacrilégio e que acabou esfolado como punição. Segundo os registros da época, sua pele foi esticada e pregada na porta da Igreja como um aviso para que nenhum outro saqueador ousasse profanar o templo sagrado. Séculos mais tarde, quando a porta teve de receber reparos, foram achados restos de pele humana sob a ponta de pregos antigos que ainda estavam cravados na madeira. A distância entre os pregos indicava o notável tamanho do pedaço de pele ali disposto. Da mesma maneira, na Catedral de Worcester está guardada uma grande prancha de madeira que foi usada para expor um pedaço de pele humana pertencente a outro saqueador nórdico, um dinamarquês acusado de tentar roubar o sino da igreja.

4 - A vítima sentia cada nervo sendo esticado ao máximo



Uma das perguntas centrais a respeito dessa horrível forma de tortura diz respeito a quanta dor ela irá produzir na vítima? A resposta curta e grossa é que será provavelmente a maior e mais lancinante dor que a pessoa jamais experimentou. As terminações nervosas se estendem até as ramificações mais profundas da pele, possibilitando o sentido do tato. É por essa razão que as pontas de nossos dedos são tão sensíveis, e por essa razão qualquer dano na pele tem uma pronta resposta em nossas terminações nervosas. Estas avisam imediatamente ao cérebro que o corpo está em perigo. A resposta é desencadeada por nervos sensoriais chamados nociceptores que captam os estímulos de dor.

Quando alguém é esfolado, a pele é literalmente rasgada, não apenas cortada em pequenos pedaços. A ação de rasgar entretanto, não implica em danos às terminações nervosas, que continuam ativas, enviando para o cérebro sinais de dor.   

5 - A Vítima irá perder uma enorme quantidade de Sangue



Como é de se imaginar, ter a pele arrancada não deve ser especialmente bom para o sistema circulatório. Há muitas maneiras do esfolamento resultar na morte da vítima e uma delas é pela perda maciça de sangue, algo chamado exsanguinação. Entretanto, essa modalidade de morte não é tão frequente como se pode imaginar. Acredite ou não, pessoas podem sobreviver a uma perda acentuada de sangue. Em termos gerais, é possível sobreviver a perda de aproximadamente 40% ou até mais de sangue antes disso se tornar letal.

Assumindo que a vítima seja pendurada de cabeça para baixo, como era frequentemente o caso, o sangue escorria mais rapidamente para a cabeça e dali para o chão, lavando o corpo inteiro em uma torrente escarlate. Nesse caso a exsanguinação podia ocorrer, terminando o suplício mais rapidamente. Sabendo disso, muitos torturadores evitavam deixar a vítima de ponta cabeça, prolongando assim seu martírio.

6 - A Infecção vai começar imediatamente



Embora mil coisas pudessem matar a vítima do esfolamento, a infecção constitui um sério problema. A pele é um órgão vital que protege o sangue e os músculos de agentes externos como bactérias e virus no ar. Sem a camada protetora da pele, cada parte do corpo está mais exposta ao ataque de micro-organismos hostis. Insetos são naturalmente atraídos por sangue, e supõe-se que a descarga de adrenalina faça com que urina e dejetos sejam evacuados durante a tortura, o que é um elemento agravante de impurezas. Lâminas e objetos de tortura com restos de sangue também podem ser uma fonte de doenças.

Infecções conseguem penetrar no sistema circulatório e dali se espalhar pelos órgãos vitais, instalando um quadro de septicemia em poucas horas. Assumindo que o indivíduo sobreviva, digamos, caso a tortura seja interrompida ou cancelada na metade, uma infecção provavelmente acabaria por terminar o serviço. 

7 - A vítima vai sentir muito frio



Uma das funções da pele é regular a temperatura corporal. A pele fornece uma das principais defesas do organismo contra o frio. Sem ela, o sangue, os músculos e nervos ficam expostos ao ar e esfriam com grande facilidade. De fato, uma das possíveis causas de morte por esfolamento pode ser a hipotermia.

Por sorte, hipotermia é uma morte relativamente indolor, o que levava alguns torturadores a manter o ambiente em que ocorria a tortura aquecido.

8 - A Vítima vai entrar em choque...



A medida que a tortura se inicia, o corpo, o cérebro e os nervos enlouquecem por completo, registrando todos os estímulos até o ponto de entrar em curto. Impulsos elétricos literalmente saem de controle, e o cérebro tem que lidar com essa elevada descarga sensorial. Diante da enorme quantidade de estímulos ele acaba se desligando, então, como seria de se imaginar, o resultado é o choque.

O choque ocorre quando não há sangue suficiente se movendo em seu sangue para oxigenar as suas células. A pessoa está perdendo muito sangue, sua pressão estará alterada pelo horror, sinais claros de que o choque é iminente. Em termos gerais, isso resulta em tontura, confusão e falta de ar. A pessoa experimenta um frio profundo, paralisia nas extremidades, náusea e dores agudas no estômago. E possivelmente, se a vítima tiver sorte...

9 - ...é provável que perca os sentidos.



Um dos sintomas principais de entrar em choque é perder a consciência. Os torturadores sempre tentam manter a vítima acordada por vários métodos, incluíndo agressão, queimaduras, banhos de água ou colocando a pessoa de ponta cabeça. Porém, em certos momentos, a perda de sangue será grande demais. O cérbero, percebendo que não há uma maneira de lidar com a situação, em um ato de auto-preservação tende a desligar. A pressão sanguínea cai muito rapidamente e a pessoa simplesmente desmaia, um estado do qual possivelmente jamais irá despertar.

É importante perceber que esse desmaio é muito comum em vítimas de esfolamento. Alguns relatos mencionam que a maioria das vítimas de esfolamento perdiam a consciência antes que a pele do torso fosse removida. Dada a medonha sensação de ser esfolado vivo, estes desmaios eram uma benção bem vinda. 

10 - A pessoa irá morrer, sem dúvida.



Uma questão recorrente que surge envolve as chances de sobrevivência após ser esfolado vivo. A resposta mais direta é: "Não existem chances de sobreviver". Embora possa não parecer, a pele é um dos nossos órgãos vitais. Ela contém infecções, protege nossos músculos e sangue, e age como uma barreira contra os elementos. O mais grave é que apenas uma porção da pele é capaz de regenerar, portanto, se a pessoa perde uma grande quantidade de sua pele não haverá tempo dela crescer antes de alguma infecção se mostrar mortal.

Pessoas com queimaduras severas que perdem parte de sua pele sofrem algo semelhante. Existem várias camadas de pele revestindo o corpo, queimaduras, assim como o esfolamento faz com que uma grande quantidade doa proteção seja perdida. Demora mais ou menos um mês para que a pele cresça novamente, e não há como sobreviver por tanto tempo nessas condições. É por isso que vítimas de queimaduras precisam de enxertos de pele para prevenir infecções e proteger dos elementos que podem ser mortais. Mesmo assim, as chances de sobrevivência são relativamente pequenas. Além disso, há outro problema no esfolamento, visto que esse envolve uma perda acentuada de sangue, um elemento importante para a recuperação da pele. 

11 - Pode demorar muito até a vítima expirar. 



Então, exatamente quanto tempo leva para uma pessoa perecer depois de ser esfolada? Infelizmente, esse tipo de tortura tende a durar muito tempo. É verdade que a vítima pode morrer de perda de sangue, hipotermia ou choque em poucas horas, e muitos perdem a consciência e não recobram os sentidos. Mas é bem possível que a vítima se manterá consciente ao longo de toda tortura e algumas horas depois dela ser concluída. Os relatos obtidos por cronistas antigos dão conta de que pessoas conseguiram sobreviver por várias horas e até dias após serem esfoladas, presumivelmente em dor excruciante até o fim. 

*          *          *

Diante de tudo isso, a que conclusões podemos chegar?

Em se tratando de criatividade e crueldade, a raça humana demonstrou ao longo dos séculos um inenarrável potencial para torturar, ferir e matar seus semelhantes. Se o esfolamento é o pior ou não, o auge de nossa perversidade, é difícil saber ao certo, mas sem dúvida essa modalidade tenebrosa de tormento imposta por uma pessoa a outra, encontra-se na lista das mais atrozes.

UPDATE - Me pareceu extremamente curiosa a quantidade de pinturas renascentistas com o tea de um Sátiro (criatura mitológica semelhante a um homem com patas e chifres de carneiro) sendo esfolado vivo.

Pesquisei um pouco a respeito e descobri que se trata do Mito de Marsias.

Marsias era um músico extremamente talentoso e arrogante que encontrou a flauta pertencente a Deusa Atena perdida na Terra. Tomando o instrumento de sopro, ele se converteu em um músico tão perfeito e convencido de seu dom que teve a ousadia de desafiar o Deus grego Apolo para uma competição. Pelas regras da disputa, o vencedor teria o direito de punir o derrotado da maneira que desejasse.

O sátiro tocou sua flauta e se saiu extremamente bem, tanto que aqueles que julgariam o desafio afirmaram que Apolo não teria chance de se sair vitorioso. Os comentários irritaram o Deus de tal maneira que ele se esmerou ao máximo em sua apresentação com a Lira, um instrumento até então desconhecido na Terra. Impressionando a todos com sua performance, Apolo foi apontado como vencedor da disputa.

Em um momento de crueldade típica dos deuses do Olimpo, Apolo decidiu que o fauno seria punido da maneira severa por ousar se achar melhor que um Deus. Como punição ele seria esfolado vivo - uma punição à altura da heresia por ele cometida. Sem pensar duas vezes, o Deus amarrou o pobre sátiro em uma árvore e começou a arrancar sua pele, tortura que resultou em sua morte.

Segundo versões do Mito, as lágrimas de Marsias teriam dado origem a um rio de águas salgadas com o mesmo nome.


Moral da história? Jamais desafie um Deus para uma disputa, mas se o fizer, tenha certeza de que vai vencer...

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Galeria do Medo II - Mais Quatro Pinturas Assombradas


E vamos dar sequência em nossa Galeria do Medo, com mais quatro pinturas e obras de arte consideradas malditas, assombradas ou amaldiçoadas.

Notem que muitas vezes as obras não são bizarras ou assustadoras, na maioria das vezes elas são até bastante inocentes. Mas é a história por de trás de cada uma dessas pinturas, o background no qual elas foram concebidas e a biografia de seus criadores que realmente importam e constroem o mito aterrorizante.

Vamos a elas...

Love Letters, por Richard King


Aqui está um perfeito exemplo de uma pintura que à primeira vista nada tem de assustador ou maligno. Qualquer um poderia pendurar essa tela na parede de sua casa e jamais desconfiar de sua reputação sinistra.

A pintura chamada de Love Letters (Cartas Amorosas) foi feita por Richard King, um artista que ganhou certo renome na época da Guerra Civil Americana e que era um profundo crítico do conflito. Segundo alguns o quadro retrata a imagem de uma menina, a filha de um amigo de King que servia no Exército Confederado e que foi tragicamente morto na sangrenta Batalha de Gettysburg. Segundo alguns especialistas, a carta nas mãos da menina seria o informe oficial da morte de seu pai que ela alegremente se preparava para entregar à sua mãe. O teor da carta torna a aparente alegria da criança retratada e sua expressão de satisfação algo lúgubre e cheio de mau agouro. O quadro foi mencionado várias vezes por organizações contrárias à guerra e que usaram a imagem como uma forma de denunciar a tragédia da Guerra que ainda estava sendo travada e devastava a vida de incontáveis famílias.

Ok, até aí tudo bem, mas é claro, tem mais...

A pintura de King foi comprada pelo Hotel Driskill estabelecido na cidade de Austin, Texas. O Driskill é considerado por muitos parapsicólogos como o Hotel mais assombrado dos Estados Unidos, um lugar onde se registrou atividade paranormal em vários quartos, em que alguns aposentos, acredita-se, apresentam drásticas variações de temperatura, onde sombras e fantasmas são frequentemente vistos, em que gritos e sons guturais quebram a rotina e onde os próprios funcionários colecionam histórias perturbadoras. 

Além disso, o Driskill se incendiou três vezes (sendo que, em pelo menos duas ocasiões não houve uma explicação de como o fogo se iniciou), ele foi palco de pelo menos um grande massacre (na década de 60 gangsters usaram um quarto para eliminar quatro membros de uma quadrilha rival que foram esquartejados), vários suicídios ocorreram em seu interior e a fama de lugar amaldiçoado só cresceu com a passagem do tempo. O primeiro dono do Hotel, o Coronel Jesse Driskill perdeu todas suas economias e a posse do próprio Hotel nas mesas de pôquer. Alucinado, ele teria cometido suicídio no próprio hotel jurando que seu fantasma iria assombrar o lugar. Alguns acreditam até que o Driskill foi erguido sobre o terreno de uma antiga reserva indígena, possivelmente sobre um cemitério que o contaminou com uma maldição perpétua.

Verdade ou mero boato, "Love Letters" rapidamente se incorporou às lendas macabras do Hotel.

A história mais popular afirma que uma menina chamada Samantha Morton se hospedou no Driskill acompanhando seu um Senador dos Estados Unidos em viagem. O ano era 1887, e a menina ficou encantada pelo quadro pendurado no alto de uma escadaria que levava para o Salão de Jantar do Hotel. A razão para a menina se apaixonar pelo quadro era simples, todos que conheceram a menina afirmavam categoricamente que ela era extremamente parecida com a criança retratada na pintura - além da mesma idade, o tom da pele, a cor dos olhos e cabelos, tudo era muito semelhante, quase como se a pintura tivesse sido feita com Samantha servindo como modelo.

Certo dia, Samantha estava descendo as escadas para se juntar ao pai para o desejum quando inadvertidamente escorregou no alto da escadaria. A criança despencou, antes de chegar ao último degrau já estava morta: o pescoço quebrado pela queda, torcido em um ângulo absurdo. O incidente recebeu grande destaque na imprensa que classificou o ocorrido como uma das mais pesarosas tragédias de Austin. A perda foi demais para o Senador. Após o enterro da menina, ele cometeu suicídio disparando um projétil contra a cabeça. A mãe de Samantha enlouqueceu e foi internada em um asilo onde morreu.

O Hotel contratou um artista para fazer um retrato em homenagem a Samantha. Quando ficou pronta a pintura foi colocada no final do lance de escadas onde ela se acidentou. A semelhança com a menina no quadro de King não passou desapercebida e foi motivo de grande discussão. Curiosamente, a pintura não ficou muito tempo em exposição. Certa noite, o retrato de Samantha Morton foi destruído, a tela retalhada violentamente. Ninguém soube quem foi o responsável pela destruição da pintura. Posteriormente, um novo quadro foi encomendado, mas o artista chamado para concluir a obra contraiu uma doença mortal e morreu antes de completar a tarefa. Mais ou menos nessa época, o Driskill - que já tinha fama de ser assombrado, foi parcialmente destruído em um incêndio e ficou fechado por quase dois anos.

Ao ser reaberto, várias pessoas funcionários e hóspedes começaram a afirmar ter visto uma menina com um vestido cor de rosa circulando pelas escadarias do Hotel. A menina, extremamente semelhante a Samantha Morton sempre parecia sorridente, mas quando alguém se aproximava para falar com ela, corria e sumia em algum corredor como se jamais tivesse existido. Visitantes afirmavam que o quadro exercia uma forte influência sobre pessoas mais sensíveis e que alguns sentiam vertigem e náusea diante da pintura. Alguns acreditavam que a menina na pintura era capaz de se comunicar e que sua expressão mudava de tempos em tempos. Pessoas disseram ter ouvido risadas infantis nos corredores do Hotel e o som de batidas secas nos degraus da escadaria. 

As lendas parecem exageradas, mas o fato do quadro ter sobrevivido a repetidos incêndios sem jamais ter sido danificado acrescenta um detalhe de estranheza. 

Na década de 70, Love Letters foi removido e passado para outro Hotel da Companhia que passou a administrá-lo. Durante a inauguração do Hotel, em Phoenix, houve um incêndio e três pessoas morreram queimadas na sala em que o quadro era mantido. É claro, a pintura sobreviveu ao incidente sem sofrer nenhum dano. 

Depois disso, ele retornou ao Driskill, onde se encontra em exposição até hoje. 

Man Proposes, God Disposes por Sir Edwin Landseer




No Royal Holloway College na Universidade de Londres, pode ser encontrada uma pintura de Edwin Landseer chamada "Man Proposes, God Disposes", datada de 1864. O curioso a respeito dessa obra é que em geral, uma bandeira da Grã-Bretanha cobre a tela impedindo que ela seja apreciada. Isso por que alguns estudantes acreditam que seu mero vislumbre pode pode causar confusão e até loucura só de olhar para ele.

O tema da pintura é realmente sinistro, beirando o macabro. Ela é baseada em um acontecimento notório da História das Explorações, a fracassada Expedição Franklyn ocorrida em 1845. Foram os rumores a respeito do desfecho dessa missão que inspiraram a tela e posteriormente o terror nos alunos.

A pintura de Landseer invoca toda a aura de tragédia que cerca o destino da Expedição em um panorama de pessimismo niilista tamanho que chega a soar sufocante e claustrofóbico. A pintura em si mostra dois ursos polares selvagemente atacando um dos navios da Expedição, bem como os restos mortais da tripulação que embarcou na missão liderada por John Franklin, que buscava a Passagem Norte. Descobrir essa passagem era essencial para a Grã-Bretanha e para os marinheiros do século XIX uma vez que ela ligaria os Oceanos Atlântico e Pacífico reduzindo de maneira considerável distâncias e tempo em viagens marítimas.

"Man proposes, God disposes" revela o quanto os Vitorianos se mostravam angustiados pelo fracasso da expedição científica e o destino da tripulação.

Franklin era um explorador experiente que já havia se aventurado nos mares gelados do Ártico. A Expedição partiu em 1845 composta por dois navios da Marinha Britânica, com 129 homens e suprimentos para três anos. A Expedição partiu cercada por expectativa e excitação. Em 1848, quando nenhum sinal da expedição foi ouvido, várias missões de busca e resgate foram organizadas com o intuito de descobrir seu paradeiro. Em 1854, John Rae liderou uma expedição que conseguiu obter algumas pistas através de tribos de esquimós Inuit que afirmavam ter encontrado restos dos navios nas calotas de gelo. Os tripulantes teriam abandonado os navios encalhados e seguido para terra com o objetivo de montar um acampamento e sobreviver até o degelo no ano seguinte. Os Inuit afirmavam categoricamente que ninguém conseguiria sobreviver ao inverno severo sem as devidas provisões e que certamente todos estariam mortos.

Alguns corpos foram encontrados ao lado de equipamento que serviu para reconhecer aqueles homens como membros da Expedição de Franklin - inclusive o telescópio do comandante visto na pintura. O mais tenebroso, no entanto, foram os inequívocos indícios de que os homens da Expedição sofreram horrivelmente em seus momentos finais no desolado deserto de gelo. Os ossos pertencentes aos tripulantes contavam uma história de horror, loucura e morte, marcada por sinais de violência e canibalismo.

o retornar para a Inglaterra com um relato tão medonho, Rae causou grande controvérsia. Os-vitorianos acreditavam profundamente em sua superioridade moral como a sociedade mais civilizada e avançada da época. Eles não podiam acreditar que ingleses, cristãos poderiam chegar ao ponto da completa barbárie e recorrer ao tabu definitivo, a antropofagia.

Com uma história tão macabra é surpreendente que Thomas Holloway, o fundador da Instituição que levava seu nome, tenha encomendado uma pintura baseada nesse incidente, ainda mais para adornar a parede de sua faculdade, um lugar destinado a Ciência e instrução. O resultado foi essa impressionante tela que realmente não é para os que tem espírito fraco. O objetivo de Edwin Landseer, o artista que a criou, era apresentar uma obra que mostrasse todos os perigos envolvendo a exploração das fronteiras do planeta e como a humanidade em seu desejo de desvendar os mistérios do mundo podia vir a se arrepender de tamanha ousadia.

O próprio título da obra, "Man Proposes, God Disposes" (algo como "O homem propõe, Deus dispõe") alude para todo o perigo manifesto pela ousadia científica de se tentar ir longe demais, embarcando em um caminho sem volta no qual a morte e o esquecimento são as únicas recompensas.

Durante a cerimônia de apresentação da pintura no Salão de Honra da Universidade de Londres muitos convidados se sentiram ultrajados pelo teor da obra. Imaginem só a reação dos parentes e familiares de membros da expedição que estavam presentes à cerimônia e que viram em primeira mão uma interpretação do que havia ocorrido com seus entes queridos. Os jornais da época noticiaram vaias, discussões e até desmaios na ocasião. Diante da reação, a direção da Faculdade decidiu mover o quadro para uma sala de aula ao invés de deixá-lo no Hall de entrada como haviam planejado inicialmente.

Com toda história macabra cercando a pintura, não demorou até começar a surgir rumores a respeito da natureza assombrada do quadro. Alunos e empregados do Holloway se sentiam incomodados pela presença da pintura em uma das salas de aula. Alguns alegavam não serem capazes de suportar a visão, outros simplesmente não conseguiam desviar seus olhos da sangrenta cena ali retratada. Alunos afirmavam sentir dores de cabeça, náusea, vertigem e até mesmo calafrios ao contemplar a obra.

Mas o pior ainda estava para vir.

Em 1886 um aluno que estava fazendo uma prova na sala em que a pintura fora colocada sofreu um ataque epilético causado pelo simples terror de ver os detalhes mórbidos do quadro. O estudante caiu no chão durante uma prova e teve de ser socorrido às pressas, segundo boatos, ele jamais retornou ao Holloway alegando ser incapaz de ficar próximo ao medonho quadro. Na mesma semana, outros estudantes se queixaram da pintura e logo a coordenação de ensino estava sendo abarrotada de cartas de alunos pedindo (de fato, implorando) que "Man Proposes, God Disposes" fosse removido o quanto antes, visto que estava provocando "reações peculiares" em alguns estudantes que experimentavam pesadelos com a horrível pintura.

Certo dia, um dos professores entrou na sala e descobriu que a obra havia sido coberta com uma bandeira da Grã-Bretanha. Ninguém sabe ao certo quem foi o responsável por fazê-lo, mas dali em diante, passou a ser uma tradição no Holloway College que a pintura de Landseer permanecesse coberta por uma bandeira, algo que no entender dos alunos era suficiente para conter a "maldição".

Ainda hoje, a pintura se encontra na sala de aula e é uma tradição que ela permaneça coberta durante o ano letivo sendo exibida, entretanto, em duas ocasiões anualmente: na data em que a Expedição Franklin partiu para sua derradeira missão e na data de aniversário de seu líder John Franklin. 

Nesses dias, "Man Proposes, God Disposes" pode ser visto em toda sua glória atroz atraindo multidões dispostas a encarar de frente o Horror que ele continua conjurando.

7. The Crying Boy, por Bruno Amadio


A pintura seguinte em nossa Galeria do Medo não é apenas uma obra, mas uma série de pinturas coletivamente conhecidas como "The Crying Boy" (O Menino Chorando). Em meados de 1950, o artista italiano Bruno Amadio, que também era conhecido pelo nome de Giovanni Bragolin, pintou cerca de 65 retratos de órfãos italianos chorando, que ele vendeu para turistas no final da Segunda Guerra Mundial. O objetivo de Bragolin era sensibilizar as pessoas e chamar a atenção para a triste situação de crianças que perderam seus pais nos dias mais terríveis do conflito.

Ao longo dos anos 50, as pinturas se tornaram extremamente populares na Inglaterra, sendo reproduzidas em massa e vendidas em todo país como uma obra de arte acessível para o grande público. Até os anos 1980 nenhum incidente estranho foi associado com essas pinturas. No entanto, a partir de 1985, alguns bombeiros começaram a relatar algo curioso envolvendo o Crying Boy. Diziam que diversos quadros semelhantes eram encontrados em casas e apartamentos destruídos por incêndios. Mais do que isso, as pinturas, em geral, eram encontradas em perfeito estado, não tendo sido danificadas pelas chamas e nem pela fumaça. Algumas vezes, eram a única coisa que se salvava das ruínas fumegantes. Mais estranho, os bombeiros perceberam um segundo padrão: na maioria dos casos, os lugares que se incendiavam haviam queimado até o chão e as causas para o fogo eram desconhecidas. Em várias ocasiões falava-se que o incêndio havia começado do nada, quando não havia ninguém presente capaz de produzir as chamas, fosse de modo proposital ou acidental.

Os jornais sensacionalistas começaram a investigar o caso, relacionaram mais de 50 casas que haviam sido consumidas por incêndios inexplicáveis. Em comum, o fato de que em todas elas um quadro do Menino Chorando havia sido encontrado em perfeito estado. O artigo mencionava ainda que em casas onde a pintura era exposta, ocorreram vários princípios de incêndio, a maioria sem uma explicação razoável.

Vários investigadores psíquicos sugeriram que os quadros teriam de alguma maneira concentrado uma forte carga negativa e que os incêndios estariam sendo causados por esses sentimentos ali represados. Um famoso parapsicólogo londrino afirmou categoricamente que o quadro carregava consigo uma aura responsável por deflagrar tragédias. O tabloide britânico "The Sun", publicou um artigo no qual relatava como o Orfanato em que o artista retratou as crianças na Itália havia sido destruído em um incêndio em 1984 e que tal incidente teria ligação com os incêndios que ocorriam na Inglaterra.

O resultado direto do artigo foi uma corrida das pessoas para destruir as pinturas consideradas malditas. O The Sun chegou a organizar enormes fogueiras onde os donos poderiam levar suas pinturas e destruí-las de maneira perfeitamente segura. Na época, muito se comentou a respeito do fato de que as pinturas demoravam muito tempo para pegar fogo e que apenas depois de vários minutos expostas às chamas diretamente, elas eram destruídas

Embora a maioria das pessoas não tenham levado à sério a notícia, um incidente serviria para sacramentar a "má fama" do Crying Boy. Poucos dias depois da publicação do artigo, um incêndio destruiu uma casa em Liverpool matando três de seus moradores que não conseguiram escapar à tempo. Quando o lugar começou a ser limpo, os bombeiros estupefatos encontraram pendendo em uma parede um exemplar da pintura maldita em perfeito estado. Na manhã seguinte, milhares de pessoas se livraram de seus quadros do Crying Boy.

Há uma outra versão da história do quadro que jamais foi confirmada, envolvendo sua origem.

Bruno Amadio, o artista que criou a pintura, teria fugido para a Espanha logo após o término da Segunda Guerra Mundial em busca de uma vida melhor. Em Barcelona, Amadio teria conhecido um menino órfão chamado Don Bonillo, que ficou mudo depois que testemunhou a morte dos pais em um incêndio. Amadio resolveu adotar a criança, embora ele tenha sido advertido pelo diretor do orfanato, um padre local, de que o garoto era o causador de vários incêndios misteriosos que começavam de forma inexplicável. As pessoas supersticiosas diziam que o menino era o filho do diabo.

Amadio se recusou a acreditar nessas histórias absurdas, o menino parecia perfeitamente inofensivo e carente de sua atenção. O artista usou o filho adotivo como modelo para sua pintura mais famosa, o Menino Chorando. Nessa época, ele começou a perceber que algo estava muito errado em sua casa. Por pouco o lugar não pegou fogo em duas ocasiões e sempre que Dom estava sozinho.

Certo dia, a sorte de Amadio terminou. Sua casa e o estúdio onde ele mantinha suas pinturas foi destruído. Lembrando dos avisos do padre, Amadio começou a se ressentir do menino acreditando que ele fosse piromaníaco. Eventualmente ele resolveu retornar a Itália, devolvendo o menino ao orfanato onde o havia encontrado. Até onde se sabe, Dom Bonillo cresceu no orfanato até atingir a maioridade e partir.

Décadas mais tarde, um incêndio destruiu um prédio nos arredores de Barcelona e se espalhou, consumindo vários andares. Miraculosamente, a tragédia causou a morte de uma única pessoa, o morador do apartamento onde ele teve início. O corpo horrivelmente queimado foi identificado como o de um homem de 30 e poucos anos de idade, chamado Dom Bonillo.

Nenhum desses fatos jamais foi confirmado. Bruno Amadio, morreu em 1981, a verdade sobre essa história se foi com ele. A única coisa que ele disse a respeito de sua pintura mais famosa é que se arrependia de um dia tê-la pintado: "Ela sempre será a minha maldição!" revelou de maneira enigmática poucas semanas antes de falecer.

8. Painting of a Headless Man, por Laura P.



Nossa obra final nessa Galeria assombrada de obras de arte é uma pintura feita com base numa curiosa fotografia. Em meados de 1990, uma artista obscura chamada Laura P. estava trabalhando em uma série de pinturas baseadas em fotografias antigas. Ela se sentiu atraída por uma estranha fotografia pertencente ao fotógrafo profissional James Kidd. A fotografia em questão mostrava uma antiquada carroça abandonada em um pátio junto com um vagão enferrujado. Até aí, não havia nada incomum, contudo, um exame mais cuidadoso revelava uma figura etérea sem cabeça que o fotógrafo insistia, não estava lá no momento em que a foto foi feita, tendo aparecido apenas no momento da revelação.


Laura não conseguia explicar o que a atraiu inicialmente na direção da fotografia, mas quando viu a imagem, sabia exatamente que era naquilo que ela desejava trabalhar. Ela sentia uma necessidade irresistível de traduzir aquela imagem fotográfica para uma tela através de desenho e tinta. Era como se algo a estivesse compelindo a fazer aquilo.

Durante o trabalho, Laura se sentia dominada por uma sensação quase palpável de horror, medo e inquietude. Ela não conseguia progredir e parecia adiar sempre que deveria iniciar a porção em que aparecia a imagem do corpo sem cabeça. Laura chegou a desistir do trabalho, trancou a tela em seu ateliê, mas sentia ao mesmo tempo um inquietante desejo de concluir a obra. Apesar de hesitar, ela acabou insistindo consigo mesma e enfim terminou a obra acrescentando a macabra forma fantasmagórica ao quadro que ela chamou de "Painting of a Headless Man" (Pintura de um Homem sem Cabeça).

Mas é claro, esse não foi o fim da história. 

A pintura foi emoldurada, vendida e pendurada do lado de fora de um escritório onde logo começou a aterrorizar as pessoas que lá trabalhavam. 

Funcionários do escritório se queixavam de dores de cabeça, sangramentos nasais, vertigens, assim que a pintura foi colocada na parede. Papéis e documentos sumiam, discussões bobas se tornavam bate boca violentos, os aparelhos de ar-condicionado queimaram e as luzes apagavam sem mais nem menos. Além disso, o quadro na parede estava sempre desalinhado, como se estivesse pendendo para o lado esquerdo. Após apenas três dias, o dono do escritório pediu a Laura que pegasse o quadro de volta pois os funcionários haviam exigido que ele fosse removido. Aparentemente dois empregados se negavam a aparecer no trabalho enquanto a pintura estivesse lá.

Laura curiosamente não estranhou o pedido, instintivamente ela sabia que aquela pintura tinha algo de estranho e perturbador. Até então achava que apenas ela estava sujeita a sua influência nefasta. Laura pegou a pintura, colocou em um estojo e levou para sua nova casa, os funcionários respiraram aliviados.

Não demorou até que Laura e o marido começassem a perceber coisas estranhas acontecendo em seu lar. Havia sons anormais e soturnos, batidas rítmicas nas paredes, passos no sótão, portas batendo, ruídos de respiração e gargalhadas abafadas dia e noite. Tudo acontecia perto da pintura. A partir de então as coisas foram se tornando cada vez mais assustadoras, culminando com uma frequente atividade poltergeist: objetos flutuavam e mudavam de lugar, sumiam ou estouravam como se lançados violentamente nas paredes ou no chão. O marido de Laura foi ferido por um copo de vidro que o atingiu na testa quando ele procurava a fonte de um ruído noturno. O cão da família desapareceu sem deixar vestígios.

Laura contou a um amigo sobre esses estranhos fenômenos, mas ele se mostrou deveras cético e chegou a dar uma risada quando viu o quadro aparentemente inofensivo. De acordo com Laura, quando o amigo retornava para sua casa aquela noite, um pedaço de uma marquise cedeu e atingiu seu automóvel provocando um bizarro acidente que o deixou ferido. Coincidência ou o quadro não havia gostado das risadas?

Outro amigo veio conhecer a pintura e fez uma fotografia com lentes especiais infra-vermelhas. Na foto, a imagem do espectro sem cabeça aparecia em destaque, quase se projetando à frente do background como em uma projeção tridimensional. Atormentado por pesadelos com fantasmas e seres incorpóreos, ele decidiu jogar os negativos fora e advertiu Laura a se livrar da pintura antes que fosse tarde demais.  

Laura pesquisou a fotografia tirada por James Kidd nos anos 1940 e descobriu que o local onde a foto foi tirada era um descampado isolado em Utah onde bandidos e criminosos eram enforcados e degolados no século XIX. Segundo rumores, dezenas de pessoas foram executadas por grupos de linchamento que faziam justiça com as próprias mãos. 

Assustada com tudo o que descobriu, Laura decidiu consultar psíquicos que afirmaram que a fotografia original - e depois o quadro, havia de alguma forma captado e aprisionado um espírito maligno. Provavelmente o espírito pertencente a um criminoso executado naquele lugar maldito. Ela foi aconselhada a visitar o local e pintar um segundo quadro, dessa vez, sem a imagem fantasmagórica em evidência. Laura fez conforme indicado e apesar de ter sentido um enorme desconforto ao visitar o descampado, sentiu um grande alívio quando terminou a tarefa, quase como se um peso tivesse sido retirado dos seus ombros. 

Ela substituiu o quadro original na sua parede pela nova pintura. Depois disso, a atividade paranormal cessou em sua casa. "Picture of a Headless Man" foi colocado em uma caixa e transferido para o cofre de um banco onde permanece até hoje. 

Laura recebeu várias propostas para vender sua obra, mas se negou a fazê-lo.

*      *      *

Neste artigo e no anterior, cobrimos apenas algumas das obras consideradas assombradas ou amaldiçoadas. É incrível a quantidade de pinturas que alegadamente possuem uma aura que as torna o foco de incidentes inexplicáveis. São centenas de pinturas em todo mundo...

Será que esses trabalhos artísticos são realmente assombrados ou o receptáculo de entidades sinistras? Ou não passam de construções criativas capazes de afetar as mentes mais sensíveis? Não há dúvidas que algumas dessas obras tem histórias macabras e são capazes de provocar sensações e despertar emoções inesperadas. A arte é considerada a janela para a alma, e quando um artista pousa sobre uma superfície vazia a sua criatividade, ele permite um vislumbre de sua mente e de suas aspirações. Trata-se de uma experiência sensorial que pode ser arrebatadora em suas implicações. A abertura de um portão para emoções compartilhadas: tristeza, solidão, medo, dor, angústia... emoções capazes de influenciar os outros de uma maneira surpreendente.

Seja lá o que forem, está claro que essa coleção reúne muito mais do que simples obras de arte.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Galeria do Medo - Quatro pinturas consideradas malditas


Muito se fala a respeito do propósito da arte.

No sentido conceitual, a arte proporciona uma forma de prazer visual, ela entretém, enriquece as relações humanas, desperta emoções. Não resta dúvida de que uma pintura pode exercer uma poderosa influência sobre as pessoas. Elas são coisas realmente impressionantes. Quando um artista distribui a tinta sobre uma tela, ele está de certa maneira dando forma ou canalizando sua imaginação, seu poder de criação e por vezes, sua própria alma, em imagens que serão vistas pelas pessoas. E essas imagens podem causar um forte impacto emocional no público. Alguns podem ser levados às lágrimas na mesma medida que outros podem ser acometidos por uma grande depressão. Pinturas podem inspirar, elevar o espírito, causar indignação, ou ocasionar todo um espectro de emoções meramente através de seu vislumbre.

Entretanto, é possível que a arte possa assombrar? 

Poderiam certas pinturas exercer influência sobre as pessoas a ponto de aterrorizá-las?

Seriam essas obras de arte, algo mais do que meras pinturas? 

Embora quadros possam causar um poderoso efeito sobre alguns, é certo que certas obras extrapolam os conceitos do que consideramos normal o que nos leva, por definição a enveredar no campo do paranormal.

Há muito tempo, de fato, desde o início da Arte em si, fala-se de pinturas amaldiçoadas ou assombradas, responsáveis por despertar muito mais do que reações emocionais. Nesse artigo nós iremos sondar o misterioso, ameaçador e por vezes horripilante mundo das pinturas fantasmagóricas. Mas tenha em mente que muitos consideram algumas dessas imagens aqui incluídas, como responsáveis por causar estranhos efeitos em indivíduos sensíveis, mesmo quando vistas pela internet.

Então estejam avisados!

Juntem-se a nós na exploração dessa coleção de pinturas assombradas que revelam histórias de dor, medo e tragédia.

1. The Hands Resist Him, por Bill Stoneham


Crianças sinistras, uma boneca bizarra e mãos incorpóreas em um vidro... esse quadro tem de tudo um pouco.

Com o título The Hands Resist Him (algo como "As Mãos Resistem a Ele"), esta talvez seja uma das mais notórias e conhecidas pinturas assombradas da atualidade. Assinada pelo artista americano Bill Stoneham, que atingiu certa notoriedade na profissão, ela é tratada por muitos como a "mais assombrada pintura do mundo".

A história tem início em 1972, quando Stoneham estava vivendo na Califórnia com sua esposa, Rhoann, e foi contratado para produzir mensalmente dois quadros para o dono de Galeria Charles Feingarten. Com seu prazo chegando perto do término, Stoneham decidiu criar um trabalho baseado em uma fotografia antiga de si próprio quando tinha cinco anos de idade e vivia em um orfanato. O resultado foi a pintura de um menino de olhar vazio, ao lado de uma boneca de aspecto bizarro, ambos diante de uma espécie de vitrine de vidro escura. Mais estranho do que o olhar mortiço da boneca e a vasta tristeza na expressão do menino, o que chama a atenção são as várias mãos de criança que surgem na escuridão e pressionam o vidro da vitrine. De acordo com Stoneham, a vitrine representa uma barreira entre o Mundo Desperto e o Mundo de Sonhos, enquanto a boneca é uma espécie de guia que conduzirá o menino através de um mundo de fantasia.  

Quanto às estranhas mãos (as malditas mãos!), o artista foi enigmático:

"As mãos são todas as possibilidades existentes. Aquelas que indicam o caminho ou que nos prendem e não peritem que sigamos adiante em nossas buscas". Diante da imagem, o observador fica em dúvida: seriam as mãos, membros incorpóreos ou espectrais? Elas estão flutuando no ar ou se projetam de algum lugar distante?

A pintura foi apresentada pela primeira vez na Galeria Feingarten em Beverly Hills, como parte de uma exposição mencionada pelo Los Angeles Times em um artigo escrito pelo conceituado crítico Henry Seldis. Ela foi então comprada pelo ator John Marley, que fez parte do elenco do filme "O Poderoso Chefão" (ele interpreta Jack Woltz, o empresário de cinema que encontra a cabeça de seu cavalo favorito na cama - um presente da Máfia).

Stoneham rompeu o contrato com a galeria e partiu para outros projetos. No período de um ano após a exposição, três pessoas que tiveram contato direto com a pintura morreram: o crítico de arte Seldis, o dono da Galeria Feingarten e o ator que adquiriu a obra, Marley. Todas as mortes foram inesperadas. A pintura então desapareceu por algumas décadas e ficou quase esquecida até 2000, quando foi encontrada no prédio de uma antiga cervejaria abandonada na Califórnia.

Embora as mortes de pessoas associadas a pintura já sejam curiosas, foi apenas com a descoberta da tela por um casal que as coisas se tornaram ainda mais estranhas, mergulhando a história em uma série de incidentes pavorosos e inexplicáveis. Em fevereiro de 2000, o casal decidiu colocar a pintura à venda pelo eBay com um anúncio que fazia declarações bizarras de que a pintura era amaldiçoada por forças sobrenaturais. O anúncio dizia que os donos ficaram perplexos ao descobrir uma pintura famosa, descartada como lixo em um prédio deserto. Logo descobriram a razão para a tela estar sumida e ter sido abandonada. O anúncio mais parecia um aviso cheio de maus agouros do que uma propaganda de venda. Dizia o seguinte:

QUANDO VIMOS ESSA PINTURA, PERCEBEMOS IMEDIATAMENTE QUE SE TRATAVA DE UMA OBRA DE QUALIDADE. UM CATADOR DE LIXO HAVIA A ENCONTRADO NO PRÉDIO DE UMA VELHA CERVEJARIA DESATIVADA. ELA ESTAVA COLOCADA CONTRA A PAREDE DE UMA SALA VAZIA E NÓS NOS PERGUNTAMOS PORQUE UMA OBRA DE ASPECTO ÚNICO TERIA SIDO DESCARTADA DESSA MANEIRA. 

CERTA MANHÃ, NOSSA FILHA DE QUATRO ANOS FOI ENCONTRADA DESMAIADA DIANTE DA PINTURA. ELA SEMPRE DISSE TER MEDO DA PINTURA. QUANDO RECOBROU OS SENTIDOS NÃO CONSEGUIA PARAR DE GRITAR E SÓ TRANQUILIZOU QUANDO A LEVAMOS PARA LONGE DA TELA. APÓS MUITA INSISTÊNCIA, ELA FINALMENTE CONTOU QUE HAVIA VISTO AS IMAGENS NO QUADRO SE MOVENDO DE MANEIRA AMEAÇADORA. O "MENINO" PARECIA ESTAR SAINDO DA TELA, ENQUANTO A BONECA OLHAVA COM UMA EXPRESSÃO MALIGNA.

A PRINCÍPIO NÃO ACREDITAMOS, MAS NOS DIAS SEGUINTES AO INCIDENTE, PERCEBEMOS ESTRANHAS OCORRÊNCIAS EM NOSSA CASA, EM ESPECIAL, NA SALA ONDE A PINTURA ESTAVA EM EXPOSIÇÃO. CERTA NOITE EU E MEU MARIDO TIVEMOS A FORTE IMPRESSÃO DE ESTARMOS SENDO OBSERVADOS. SONS ESTRANHOS, PANCADAS NO MEIO DA NOITE E ODORES FORAM OUVIDOS E SENTIDOS NOS DIAS SEGUINTES. FINALMENTE DECIDIMOS QUE A PINTURA ERA A CAUSA DESSAS INCIDENTES E QUE ELA DEVERIA IR EMBORA.

POR FAVOR, JULGUE POR SI MESMO. MAS ANTES DE MANIFESTAR INTERESSE, LEIA O AVISO:

NÃO FAÇA UM LANCE NESSA PINTURA SE VOCÊ FOR SUSCETÍVEL A STRESS RELACIONADO A DESMAIO, DOENÇAS CARDÍACAS E TEME O SOBRENATURAL. AO ADQUIRIR ESSA PINTURA, VOCÊ AUTOMATICAMENTE RECEBERÁ A MALDIÇÃO QUE PESA SOBRE OS SEUS DONOS ATUAIS, QUE SERÃO ISENTOS DE QUALQUER RESPONSABILIDADE PELO QUE VENHA A ACONTECER POSTERIORMENTE COM O COMPRADOR. NÃO SABEMOS AO CERTO COM O QUE ESTAMOS LIDANDO, MAS NÃO TEMOS MAIS FORÇA OU ENERGIA PARA CONTINUAR DESSA MANEIRA. TALVEZ OUTRA PESSOA POSSA COMPREENDER E LIDAR COM ESSA SITUAÇÃO, MAS ESTEJA AVISADO QUE ELA PODERÁ MUDAR A SUA VIDA E TER UM GRANDE IMPACTO EM SUA EXISTÊNCIA. PORTANTO, ESTEJA CIENTE DE QUE NÃO ACEITAMOS DEVOLUÇÕES E QUE UMA VEZ QUE A PROPRIEDADE DA PINTURA TIVER SIDO TRANSFERIDA NÃO HAVERÁ RETORNO.

- QUEREMOS NOSSA CASA LIVRE DESSA INFLUÊNCIA, ENTÃO SE EXISTIR ALGUÉM QUALIFICADO PARA RECEBER A PINTURA NÓS ESTAMOS ABERTOS A NEGÓCIOS.

O estranho anúncio vinha acompanhado de imagens e de um alerta para que as imagens não fossem mostradas para jovens e crianças e para que ela não fosse usada como protetor de tela de computadores. 

Estranho o bastante até aqui? Bem, piora! 

O anúncio atraiu a atenção de muita gente na Internet e é claro, uma multidão de interessados que totalizaram mais de 30,000 visualizações transformando a coisa em combustível para lendas urbanas. Muitas pessoas que viram a imagem de "The Hands Resist Him" no anúncio, afirmaram ter sentido dores de cabeça, náusea e uma profunda sensação de ameaça. Várias pessoas que pesquisaram a respeito da história da pintura também relataram sensações semelhantes. Pelo menos três pessoas, alegados médiuns e sensitivos, afirmaram publicamente ter sentido uma potente aura negativa ao ver a imagem. Alguns que tentaram imprimir direto do computador disseram que as impressoras apresentaram problemas repentinos. Houve ainda quem dissesse que foi capaz de ouvir ou sentir a presença de mãos espectrais agarrando ou roçando a pele. 

As descrições rapidamente ajudaram a criar uma assustadora reputação que se tornou recorrente em cada canto da internet, tema de debate em vários blogs e grupos de discussão a respeito de fenômenos paranormais.

Incrível como pode parecer, apesar de toda repercussão negativa, surgiram várias pessoas interessadas em adquirir The Hands Resist Him e mais de 30 lances foram feitos. A pintura acabou sendo adquirida por Kim Smith, dona da Perception Gallery, em Michighan que desembolsou 1,025 dólares para levá-la para casa. Cerca de um mês após a compra, Smith foi entrevistada pelo site paranormal "surfingtheapocalypse.com," e perguntada a respeito de alguma mudança ou acontecimento inexplicável já que ela havia comprado a obra e consequentemente herdado a maldição. Smith contou o seguinte:

"Eu gostaria de poder dizer que coisas bizarras ou estranhas aconteceram nesses últimos dias, mas nada de incomum teve lugar em minha vida. Algumas pessoas se ofereceram para exorcizar a pintura e purificar minha galeria, já que eu supostamente estaria sob o efeito desse objeto maligno. Até mesmo um Xamã Nativo Americano visitou minha casa oferecendo ajuda. Algumas pessoas vieram até a galeria para conhecer a obra que esteve em exposição, alguns afirmaram ter sentido náusea, dores de cabeça e reações adversas, mas eu, pessoalmente não experimentei nada disso".

Kim tentou entrar em contato com o artista responsável pela obra, mas Bill Stoneham se negou a responder suas mensagens. Atualmente, The Hands Resist Him está guardado em um cofre na Galeria de Arte depois que um visitante sofreu um ataque epilético diante da tela em 2007. Vários visitantes afirmaram sofrer reações inesperadas diante da obra o que motivou os donos da Galeria a tirá-la da exposição pública, uma vez que ela parecia estar atraindo o tipo errado de pessoas.

Na última vez que ela esteve em exposição em 2011, um grupo de médiuns e sensitivos visitou a Galeria e afirmou ter captado estranhas emanações que causaram desmaios coletivos na galeria. Segundo alguns sensitivos, observar a pintura por mais de 30 segundos pode induzir um quadro de depressão e tristeza profunda. Stoneham chegou a pintar duas telas que são sequências da infame pintura, uma delas chamada Resistance at the Threshold (Resistência no Limiar), que apresenta os mesmos personagens da tela original pintada 40 anos antes, e Threshold of Revelation (Limiar da Revelação), que foi completada em 2012. 

Nenhuma das duas parece manifestar até aqui qualquer fenômeno sobrenatural. 

2. The Anguished Man, autor desconhecido



Outra pintura que sem dúvida tem um lugar de honra na coleção das mais bizarras e horripilantes é a obra chamada The Anguished Man (O Homem Angustiado). 

A inegavelmente sinistra pintura foi mantida por 25 anos no sótão de uma senhora de idade até ser encontrado por seu neto, um sujeito chamado Sean Robinson. O quadro aparentemente estava escondido há anos. Sean lembrava da avó falando coisas estranhas a respeito de um quadro ali guardado, mas nunca achou que ele realmente existia ou que um dia poderia encontrá-lo. Quando sua avó faleceu, ele resolveu arrumar seus pertences e a pintura surgiu.

Segundo Sean, sua avó mencionou o quadro em algumas oportunidades. Ela dizia que a pintura era muito antiga, feita por um artista de menor expressão cujo nome ninguém sabia. Ela havia chegado às suas mãos como parte de um pagamento por um serviço realizado pelo marido. Havia algo de estranho no quadro e sua história era realmente bizarra. O pintor responsável por ele teria misturado seu próprio sangue na tinta à óleo espalhada sobre a tela. Sofrendo de uma profunda depressão ele teria cometido suicídio poucos dias depois de concluir a obra. Supostamente teria cortado os pulsos enquanto apreciava o quadro e a última coisa que viu a medida que morria foi a face descarnada, tomada por melancolia e angustia, retratada na tela.

A avó de Sean mencionou que jamais teve a coragem de pendurar o quadro na parede e que ele trazia uma sensação difícil de ser descrita: "Era como encarar o fim, não só a morte, mas o FIM de toda esperança". Pouco depois de trazer o quadro para casa, coisas estranhas começaram a acontecer: sons estranhos e murmúrios começaram a ser ouvidos. A voz era sempre lamentosa e triste, como se alguém acometido de enorme tristeza estivesse falando na sala ao lado. Era impossível entender as palavras, mas estava claro que se tratava de uma voz humana. Certa noite, os avós de Sean foram despertados por um som de choro que parecia vir da sala onde o quadro estava guardado, o avô de Sean respirou fundo e foi averiguar do que se tratava. Dez minutos depois de deixar o quarto, ele retornou nas palavras da esposa "branco como papel". Como se tratava de um homem sério, a mulher não teve dúvida de que ele dizia a verdade quando afirmou ter visto uma sombra encolhida junto da parede em uma posição que parecia a de alguém tomado pelo desespero.

O casal certo de que se tratava do fantasma do artista que havia se suicidado, concluiu que o quadro era assombrado. Decidiram sequer retirá-lo do embrulho e levá-lo assim mesmo para o sótão onde ficaria por décadas. Por vezes, eles ouviam algum som estranho, mas nunca mais chegara a ver a sombra.

Em 2010, quando encontrou a pintura Sean a levou para sua casa e quase que imediatamente incidentes inexplicáveis se iniciaram. 

Robinson afirmava que logo depois de ter adquirido The Anguished Man, seu filho foi empurrado do alto de uma escadaria por mãos invisíveis, que sua esposa passou a sentir uma presença invasiva na casa, e que em várias oportunidades os moradores presenciaram atividade poltergeist no interior da casa. A família também era capaz de ouvir choro, gritos e lamentos que foram se tornando cada vez mais claros ao ponto da esposa conseguir ouvir perfeitamente um choro.

A gota d' água foi o encontro com uma figura sombria que estava de pé próximo da pintura numa dada noite. A história não seria nada mais do que uma história de fantasmas se Robinson não tivesse decidido provar que estava falando a verdade. Ele ajustou uma câmera e conseguiu filmar o que muitos consideram um fenômeno paranormal. Os vídeos mostram o que parece ser a ação de um fantasma batendo portas, arremessando objetos e até produzindo fumaça. Em uma das filmagens o quadro que estava preso na parede chega a cair no chão. O material chamou muita atenção e incendiou a internet com debate a respeito da veracidade da filmagem. 

É difícil dizer se o quadro era realmente assombrado ou não, mas não resta dúvida que a pintura tem uma aparência sinistra. Robinson relatou que a pintura foi colocada no porão de sua casa e que assim os fenômenos foram diminuindo de intensidade até se encerrar por completo. 

Incidentalmente, The Anguished Man é outra pintura que muitos afirmam ser capaz de instilar uma sensação desagradável de náusea, confusão e inquietação. Mesmo através de fotos na internet alguns afirmam sentido uma aura perturbadora. 

Dê uma olhada por sua conta e risco...

3. Retrato de Bernardo Galvez, Artista Desconhecido



No fim da escadaria que leva para o Salão de Festas do famoso Hotel Galvez em Galveston, Texas, encontramos o terceiro item de nossa galeria maldita.

Trata-se de "O Retrato de Bernardo de Galvez", que foi em vida um líder militar que apoiou as forças americanas durante as Guerras da Revolução, e cujo nome serviu para nomear a cidade de Galveston em sua homenagem. Embora Galvez tenha morrido em meados de 1786, faz muito tempo que o fantasma do homem é associado a essa tela. Para comprovar a presença de algo sobrenatural, o que não faltam são estranhos fenômenos relacionados a ela. Muitos hóspedes e empregados do hotel relataram que os olhos de Galvez no quadro são incrivelmente realistas. De fato, eles parecem vivos, acompanhando as pessoas que andam de cima e para baixo do corredor. Alguns afirmam poder sentir uma presença invisível, aquela forte sensação que nos leva a dizer "tem alguém nos observando". Além disso, próximo do quadro tendem a acontecer coisas muito esquisitas: há áreas claramente mais frias, uma sensação indescritível e ameaçadora, um forte cheiro de fumaça, enxofre e pólvora.  

Um dos aspectos mais curiosos leva a crer que o quadro não gosta de ser fotografado sem a devida permissão. Muitas pessoas que tentaram tirar uma fotografia da famosa pintura descobriram posteriormente que a imagem do quadro saiu borrada, fora de foco ou simplesmente escurecida. Outros afirmaram que a foto mostrou formas ou cores estranhas e coisas que no momento em que a imagem foi captada, não estavam lá. Segundo os rumores, se a pessoa pedir permissão verbal e explícita para fazer a fotografia ao próprio quadro, elas saem perfeitamente normais. Este boato foi testado por um time de investigadores paranormais, que ficaram surpresos ao constatar que as fotos feitas perto da pintura antes do pedido saíram borradas e desfocadas, enquanto que as registradas após um pedido expresso saíram perfeitas.

Mas não é apenas essa curiosidade que persiste. Há outros aspectos mais sinistros que tornam o Retrato algo assustador. Em primeiro lugar o rumor de que o quadro teria sido feito por um artista que se enamorou com a filha caçula do líder militar. O homem, um estrangeiro teria desafiado a autoridade e as ordens de Galvez para ficar longe de sua filha, quando um romance secreto veio à tona, Galvez teria se vingado do rapaz entregando-o como conspirador para os britânicos. O rapaz teria sido executado com requintes de crueldade. Dizem ainda que em vida Galvez foi um homem cruel e despótico, responsável por matar sua primeira esposa, enlouquecer suas filhas e atormentar os genros. Apesar de sua brilhante carreira, ele também seria um sujeito difícil de tratar, odiado por seus subordinados, tanto que após sua morte poucos choraram por ele.

Outra lenda a respeito de Galvez é que ele teria sido amaldiçoado por xamãs Apache, tribo que ele enfrentou com enorme determinação no início de sua carreira. Galvez teria sido responsável por comandar ataques a acampamentos em que mulheres e crianças foram chacinadas. Da mesma forma ele teria comandado tropas espanholas em Argel, na África, uma campanha que ficou marcada pelo número enorme de mortos e feridos, inclusive civis. Considerado um "Homem de Ferro" pela sua postura implacável ele ainda agiu como Governador Geral no México sufocando incontáveis rebeliões e levantes populares, recorrendo frequentemente a tropas e violência. Ainda assim, ele é considerado um herói na Espanha e nos Estados Unidos, tendo inclusive um dia em sua memória.

Para os que acreditam em Karma, o fantasma de Galvez estaria preso ao retrato incapaz de se afastar de sua existência mortal. O espírito teria um desejo de retornar e continuar gozando da influência e do poder que dispunha quando estrava vivo. Verdade ou não, as lendas sobre o retrato se multiplicaram ao longo das décadas tornando-o muito famoso e atraindo turistas para conhecê-lo.

4. The Dead Mother, por Edvard Munch


E nossa Galeria se completa com uma das obras de Edvard Munch, um artista famoso por uma tela de aspecto macabro chamada de "O Grito" que vem causando perturbação e questionamento há pouco mais de um século (ele é de 1893).

Mas não vamos falar de "O Grito", mas de "The Dead Mother" (A Mãe Morta) uma obra menos conhecida do expressionista e que tem uma história muito estranha ao seu redor.

Mas antes falemos de Munch, um sujeito que em vida foi bastante sofrida.

Nascido no interior da Noruega no século XIX, Munch teve uma educação esmerada na mesma proporção que abusiva. Seu pai era um religioso que beirava o fanatismo, sobretudo após a trágica morte de sua esposa e filha, quando Edvard tinha apenas cinco anos. O pai jamais conseguiu aceitar as mortes e chegou a culpar o filho mais novo de ter sido o causador da doença que os levou, Edvard teria sido o primeiro a adoecer mas por milagre conseguiu se recuperar de um grave quadro de tuberculose. Apesar de se recuperar, Munch sempre foi frágil, sofrendo diferentes aflições, algo presente em toda sua família que contava com uma irmã confinada numa instituição para perturbados mentais, um primo hemofílico e outros parentes gravemente doentes.

Sua preocupação com os aspectos transitórios da vida e o sofrimento se refletem em sua obra marcada por telas carregadas de uma forte energia negativa. Apesar de ter conseguido fama como um dos pioneiros do Expressionismo, muitos consideravam as pinturas de Munch perturbadoras o que atrapalhou sua carreira e fez com que ele atingisse o auge da popularidade apenas após sua morte.

"The Dead Mother" parece refletir alguns elementos mais pesarosos e recorrentes da carreira de Munch, a angústia, o desespero e a insanidade, elementos que se cristalizam em uma imagem realmente perturbadora e difícil de ser encarada de modo passivo. Muitos dizem que quando o quadro foi apresentado pela primeira vez causou uma reação tão visceral no público que culminou com desmaios e pessoas chorando copiosamente.

A obra retrata uma jovem menina - supostamente a irmã de Munch, de costas para uma cama na qual descansa o corpo sem vida de uma mulher, sua mãe. A criança tapa os ouvidos com as mãos e apresenta uma expressão que mistura surpresa, descrença e medo. Munch descreveu a obra na época de sua maneira amarga: "Doença, loucura e morte são os anjos negros que assistem minha vida desde o berço".

A pintura já seria suficientemente perturbadora por si só, mas a história se torna ainda mais bizarra.

Pessoas que tiveram a pintura em sua posse, diziam que os olhos da menina eram realistas além da conta. Realistas demais! Eles conseguiam traduzir em imagem toda dor e o colossal sentimento de perda da criança. Diziam ainda que os lençóis da cama pareciam se mover e que toda pintura emanava uma espécie de miasma reminiscente de um quarto de hospital o que talvez tenha levado as pessoas a acreditar em uma espécie de maldição presa ao quadro, a de que seus donos estavam destinados a sofrer de alguma doença incurável e inevitavelmente mortal.

Não é de hoje que existe o boato de que "The Dead of Mother" estaria associado a uma maldição que faz proliferar pestilência e morte para quem o contempla demasiadamente. Pintado em 1899, o quadro também serviu como um mau presságio para as décadas seguintes em que epidemias letais, como a de Gripe Espanhola, varreram o mundo e mataram milhões de pessoas.

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É claro, há outros quadros e pinturas consideradas malditas mundo afora.

E eles serão vistos em um próximo artigo a respeito...