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domingo, 19 de julho de 2015

O Ídolo de Shigir - A Ancestral estátua de 10 mil anos de idade


Muito se fala a respeito de arte e do que cada obra representa. o que o artista quis dizer com a sua obra, o que ele desejava representar, que reações ou emoções ele pretendia produzir. 

Mas qual seria o significado oculto por trás de uma estátua com mais de 10 mil anos de idade?

O Idolo de Shigir é considerada uma das peças mais importantes e misteriosas de arte pré-histórica encontrada na Europa. A ancestral estátua de madeira, que atualmente se encontra no acervo de um museu na Rússia, foi datada por testes de rádio carbono como tendo 10.000 anos de idade, fazendo dela pelo menos 5.000 anos anterior ao Monumento de Stonehenge e duas vezes mais antiga do que as Pirâmides do Egito. O Idolo não é apenas a mais antiga estátua de madeira do mundo, mas é também a mais alta obra primitiva de que se tem notícia, atingindo, quando completa, quase dois andares de altura. 

Coberta com estranhas marcas e com símbolos geométricos em toda sua superfície, alguns pesquisadores supõem que ela contém informações codificadas sobre a criação do mundo, deixadas por homens do período mesolítico.

A estátua foi descoberta em janeiro de 1890 na região de Sverdlovsk, nos limites ocidentais da Sibéria, na Rússia. Ela foi preservada, graças a uma espécie de cápsula formada naturalmente a aproximadamente quatro metros de profundidade no solo rochoso. Protegida por camadas de lama com ínfima concentração de bactérias, ela ficou preservada no interior de uma mina de ouro. O idolo sobreviveu à deterioração graças ao efeito da lama e da temperatura constante; fria e seca no interior de seu invólucro.     

Quando ela foi encontrada por mineradores, o ídolo estava separado em várias partes. Seus descobridores não sabiam exatamente o que haviam descoberto e supunham que se tratava de um fardo com pedaços de esquis ou de um trenó primitivo. O material estava guardado dentro de uma espécie de saco rústico de couro coberto de lama. Por pouco, os mineradores não destruíram as peças e usaram seus pedaços como lenha. O que os conteve foi a descoberta da "cabeça" que fez com que os homens se perguntassem o que realmente seria aquela coisa misteriosa enterrada nas profundezas da mina com enorme cuidado e devoção.


Um professor chamado Dmitry Lobanov foi chamado para avaliar a descoberta que ficou em um canto, guardada num galpão, por cerca de meio ano. Os homens não gostavam daquela coisa e só o seu temor primitivo evitou que a estátua fosse destruída. O professor tirou algumas fotos mas não dedicou muita atenção à estátua, considerando que ela apenas um exemplo da arte de povos nômades. A peça foi embalada e levada para a cidade de Ecaterimburgo onde permaneceu aguardando por alguém que lhe desse a devida importância.

Na virada do século XIX várias peças curiosas começaram a ser encontradas na mesma mina e estas atraíram a atenção de arqueólogos. A estátua foi então estudada com mais cuidado e Lobanov encaixou as peças fazendo com que a estátua chegasse a altura de 2,80 metros. Ela foi finalmente apresentada como uma obra de arte importante, muito embora ninguém soubesse sua verdadeira idade. Em 1914, o arqueólogo siberiano Vladmir Tolmachek realizou um novo estudo nas peças e descobriu outras partes que não haviam sido usadas no modelo de Lobanov; uma vez incorporadas ao conjunto, a estátua passou a medir impressionantes 5,30 metros de altura.

Durante os anos de caos e agitação política com a Revolução Bolchevique, o Museu de Ecaterimburgo foi saqueado e a estátua danificada. A porção montada por Tolmachek foi removida. Supostamente Tomachek não era bem quisto pelos revolucionários que desqualificaram suas credenciais e seu trabalho. As peças posteriormente acabaram destruídas, mas ao menos, os desenhos e fotografias que o estudioso havia feito, sobreviveram.   

A estátua permaneceu no Museu de Ecaterimburgo, ou Sverdlovsk como a cidade passoua  se chamar em homenagem a um dos heróis revolucionários. Em 1948, Tolmachek que morreu em um gulag siberiano foi reabilitado e seu trabalho reconhecido.

Hoje, o ídolo de Shigir está em exposição em uma ala especial dedicada apenas a ela.

A estátua foi entalhada em madeira de lariço e para moldá-la o artista utilizou uma colher e talhadeiras de pedra. Seu corpo é achatado e retangular com uma série de lihas horizontais no nível do tórax, que parecem represnetar as costelas. De acordo com pesquisadores, existem sete faces representadas na estátua. Em ambos os lados, na frente e no verso, existem faces dispostas ao longo da obra, com uma sétima face conectando os dois lados, completanto sua composição. Acredita-se que a estátua represente a imagem de seu criador, com um nariz afinalado e uma estrutura óssea bem particular na face. A impressão vista do alto é de uma face tridimensional, com uma boca levemente aberta, lembrando objetos de arte tipicamente astecas. Parte da face foi quebrada e se perdeu.

A superfície de madeira do Idolo de Shigir é decorada com símbolos Mesolíticos e adornada com temas geométricos como divisas, intercessões, linhas paralelas, espirais e outros símbolos abstratos, nenhum dos quais passível de uma identificação até o momento. De acordo com os pesquisadores esses símbolos não seriam meramente decorativos, mas teriam um significadopara seu(s) criador(es). Alguns acreditamq ue os símbolos gravados no peito da estátua carregam uma espécie de código gravado que poderia represnetar uma das primeiras tentativas de comunicar conhecimento através de um objeto. Se essa presençãoé verdadeira, seria este, possivelmente, o primeiro código escrito no planeta, com mais de 9.500 anos de idade.


Teóricos e estudiosos há anos se dedicam a tentar compreender os padrões e linhas talhadas na madeira de uma forma meticulosa. Um trabalho dessa natureza sem dúvida demoraria meses e mesmo um artesão com ferramentas de qualidade (o que não era o caso) teria de demonstrar enorme habiliadde para talhar alguns dos símbolos mais discretos. O que realmente chama a atenção na obra é o caráter minucioso das insígnias, como se cada uma tivesse uma razão, um objetivo, uma regra. Pesquisadores supõem que a obra teha demorado anos para ser concluída, o que é notável, visto que os homens primitivos não costumavam fixar residência devotando-se a uma vida nômade. Em virtude do tamanho do ídolo dificilmente ele poderia ser carregado d eum lugar para o outro.

Uma das possibiliaddes é que o Ídolo fosse a representação de um Deus, de um Herói ou de um indivíduo ilustre cuja memória se desejava preservar. Em se tratando de uma entidade, a figura poderia ser portanto um dos primeiros deuses, venerado em uma época da qual o misticismo nos é inteiramente desconhecido. O mais curioso é se tratar de uma represnetação de conceito humano. Há conjecturas de que a figura poderia ser usada como uma espécie de totem religioso, mas não há como ter ceretza de tal suspeita.
 
O maior mistério do Ídolo, entretanto, reside no mistério das informações que alguns sugerem ele carrega. Os trechos de símbolos dispostos em padrões verticais parecem ter sido entalhados por diferentes indivíduos ao longo de um certo tempo. Alguns acreditam que o ídolo tenha passado pelas mãos de diferentes artistas e que cada qual deixou sua marca nele. Os pesquisadores mais ousados sugerem inclusive a existência de uma escrita primitiva, o que a tornaria a mais antiga da história humana. Um dos pesquisadores da Academia Russa de Ciências e do Instituto de Arqueologia, Professor Mikhail Zhilin, responsável pela estátua a considera uma obra única que encerra dentro de si um segredo ancestral:

 "Estamos diante de uma obra de arte inigualável. Ela carrega uma carga emocional gigantesca. Em termos de arte pré-histórica não existe nada tão elegante e trabalhado no mundo. Os ornamentos que recobrem a superfície são únicos. Aqueles homens pré-históricos estavam passando adiante o seu conhecimento".

Outros postulam que o Ídolo de Shigir poderia ser uma espécie de mapa primordial, que as linhas retas, paralelas e setas indicam uma lugar ou um destino final para algum tipo de jornada empreendida na aurora dos tempos. De acordo com essa teoria polêmica, certos símbolos poderiam representar montanhas, lagos, o curso de rios, ravinas e outros pontos importantes. Mas se esse é o caso, o que haveria no final desse mapa? O que esses homens desejavam identificar com tamanho cuidado?

Outra teoria é que os símbolos serviriam como uma espécie de mapa celestial, com os símbolos retratando o posicionamento de estrelas e de astros visíveis no firmamento pré-histórico. Nesse contexto, seria ainda necessário traçar os símbolos afim de compreender o que se desejava demarcar - uma conjunção? Um alinhamento?  

O ídolo passou por testes de radio-carbono na década de 1950 e sua idade foi determinada em aproximadamente 10.000 anos por técnicos da Academia de Ciências da (então) União Soviética em Moscou. Até então, acreditava-se que a estátua tinha no máximo 2.000 anos. A notável descoberta tornou o ídolo a peça mais valiosa do museu da noite para o dia.

Em 2014 o governo russo permitiu pela primeira vez na história, que pesquisadores estrangeiros, no caso alemães, tivessem acesso ao ídolo. Até então a obra jamais havia sido estudada por outros especialistas além de russos. Essa curiosidade alimentou teorias conspiratórias de que os russos desejavam guardar para si qualquer descoberta contida na estátua que pudesse representar um segredo ancestral.

Não resta dúvidas de que a estátua antropológica de Shigir é uma das obras mais notáveis, um testamento a criatividade e genialidade do homem antigo.

Atualmente, o magnífico ídolo está guardado em um sarcófago de vidro temperado preenchido com gás inerte no Museu de História de Ecaterimburgo.

domingo, 14 de junho de 2015

Carne e Metal - As Estranhas Máquinas Anatômicas de Nápoles



A histórica cidade de Nápoles, Itália, foi o lar de alguns dos maiores mestres e artistas ao longo do Renascimento. Andando pelas suas ruas antigas e pelos majestosos museus, o visitante pode encontrar lugares exóticos como a Cappella Sansevero, também chamada de Capela de Santa Maria della Pietà. À primeira vista, ela parece ser apenas mais uma igreja, construída nos primeiros anos do século XVI, mas ela possui certas peculiaridades que a tornam única. A Capela foi erguida para servir como uma espécie de depósito para algumas das mais belas obras concebidas pelos maiores artífices italianos; um acervo que reúne um dinâmico tesouro, parte da herança cultural da nação.

Em meio às notáveis telas à óleo pintadas por mestres renascentistas e maravilhosas esculturas em mármore resplandecente, o viajante pode não perceber alguns detalhes pitorescos em meios aos tesouros que adornam a capela. Contudo, o visitante mais cuidadoso poderá descobrir detalhes inesperados, sendo alguns deles criações absolutamente bizarras. A sensação de estranheza vai aumentando a medida que que se desce para as câmaras inferiores, nas criptas labirínticas da capela onde os clérigos depositaram - ou talvez ocultaram - algumas das mais sinistras e menos compreendidas obras de arte produzidas por mãos humanas, as enigmáticas e assustadoras máquinas anatômicas de Sansevero.  

A Capela em si foi erguida em 1590 por ordem do Duque de Torremaggiore, Johannes Francesco di Sangro, em um terreno doado pela próspera Família Sansevero. O lugar deveria ser um templo privativo de adoração, que posteriormente foi convertido em uma capela de sepultamento, com criptas e câmaras mortuárias se espalhando no subsolo. O projeto foi concebido por Alessandro di Sangro, um importante arquiteto renascentista. Em meados de 1749, seu descendente, o influente Príncipe Raimondo di Sangro empreendeu uma enorme obra de renovação, fazendo com que a capela ganhasse detalhes em estilo barroco e uma forte influência maçônica. Raimondo di Sangro contratou alguns dos mais importantes artistas de sua época e não fez economia para transformar a até então simples igreja em uma obra luxuosa.

Cappella Sansevero
O Príncipe Raimondo di Sangro era conhecido pela sua excentricidade e era tido como um homem enigmático com interesse por misticismo e pelo mundo oculto. Ele supostamente era o grão mestre da Casa Maçônica de Nápoles, o que explica a grande quantidade de símbolos maçons adornando as paredes e painéis da capela. Raimondo era extremamente curioso, um estudante de vários campos da ciência, bem como um entusiasta da alquimia e das disciplinas ocultas. Dizem que ele chegou a estudar as artes proibidas da necromancia, pagando feiticeiros para lhe ensinar seus segredos. Ele teria livrado mais de um acusado das masmorras ou do patíbulo em troca de instrução mística. Mas esses são rumores, de concreto sabe-se que ele dominava idiomas exóticos como hebraico e árabe. Ele também era um inventor, que desenvolveu projetos curiosos como uma carruagem mecanizada com cavalos de bronze na qual dizem, ele costumava passear andando sob a terra e água.

Os boatos a respeito do príncipe concediam a ele um certo grau de notoriedade, alguns o viam como um estranho, mas outros o acusaram de práticas impuras de magia negra que poderiam condená-lo ainda que fosse um nobre da mais alta estirpe. As acusações mais sérias, cochichadas na corte, afirmavam que o príncipe presidia rituais mágicos e sacrifícios humanos. Dentre as incríveis proezas mágicas que Raimondo podia alcançar, ele seria capaz de transformar água em sangue, de converter chumbo em ouro e extrair uma poção mágica a partir de várias misturas que prolongava a vida muito além do natural. Os servos mais próximos relatavam estórias aterrorizantes sobre os rituais macabros realizados na calada da noite pelo seu mestre, inclusive estórias que envolviam a reanimação de cadáveres.

Todos esses rumores obscuros e lendas que envolviam o Príncipe serviram para tornar o nobre um sujeito temido e evitado. Um bispo influente quando convidado a visitar as terras do Príncipe teria dito que preferia visitar o inferno a sentar à mesma mesa que Raimondo. Curiosamente, o Príncipe fazia pouco para negar esses rumores e de certa forma até os encorajava, como forma de ganhar notoriedade.

A excentricidade de Raimondo di Sangro se reflete em algumas das muitas peças de arte em exibição na capela que ele ajudou a restaurar, elas são um atestado da devoção do Principe por temas incomuns e pelo chocante. Segundo as estórias, di Sangro era um adorador da arte macabra e adquiria com artistas proscritos novas aquisições para sua coleção. Estranhas pinturas, esculturas e até mesmo equipamento científico compunham sua inusitada menágerie, trancafiada nas câmaras subterrâneas da Capela. Em meio a coleção, era possível encontrar trabalhos de arte atípicos para o período.


Uma das peças, uma escultura criada por Giuseppe Sanmartino, normalmente referida pelo nome Cristo Velato, ou "O Cristo Velado", retrata uma cena pós-crucificação e foi cinzelada com um mármore peculiar escolhido especificamente pela sua fluidez. É uma estatua notável, famosa pela sensação de hiper-realismo na qual o mármore assume uma textura idêntica a pele humana. O efeito chega a ser enervante, como se a figura humana coberta por um véu fosse realmente uma pessoa prestes a se mover, ao invés de uma construção inanimada. A arrepiante estátua parece tão real, que por muitos anos alguns supersticiosos acreditaram que ela havia sido criada com feitiçaria, com a transformação de uma pessoa viva, em pedra.

Outras estátuas únicas em exibição causam um efeito similar de inquietação, incluindo uma obra de Francesco Queirolo chamada de Disinganno (Desilusão), que retrata um homem tentando se livrar de uma rede, e Pudicizia (Modéstia) de Antonio Corradini, também conhecida como "Verdade Oculta", no qual uma figura feminina - supostamente inspirada pela mãe do Príncipe, veste uma máscara assustadora.

Há outras maravilhas para serem vistas na capela. O teto é recoberto por um impressionante afresco com uma paleta caótica de cores vibrantes como em nenhuma outra igreja do período. Pintado por Francesco Maria Russo ele é chamado de "A Glória do Paraíso", as cores predominantes na obra não saõ o branco e o azul celeste - como seria de se supor, mas o vermelho e o dourado. Além disso, ainda que pouco reste intacto do piso original, idealizado por Francesco Celebrano, é possível ver um padrão preto e branco, com um efeito labiríntico que aponta para tradições de iniciação maçônicas. Boa parte do piso foi destruído após o colapso de uma porção do teto em 1889, mas ainda é possível discernir os padrões concêntricos em alguns trechos do corredor. Mais curioso é que, exatamente esse corredor, conduz à escadaria e ao porão onde o Príncipe di Sangro reunia suas obras de arte mais desconcertantes.


Seguindo por essa escadaria de mármore amarelado até as câmaras inferiores da capela, o visitante é saudado por uma tela incomum datando de 1750, pintada pelo artista romano Giuseppe Pesce intitulada Madonna con Bambino (A Virgem com o Menino), que foi executada usando uma tinta com base de cera de abelha. Os séculos se encarregaram de derreter parcialmente a tinta, concedendo a tela uma aparência lúgubre.

A pintura fica exatamente acima do portão que revela uma grande câmara circular onde ficam guardados os dois mais bizarros residentes da capela: as criações de carne e metal normalmente chamadas de "modelos anatômicos", ou mais morbidamente batizados por alguns de "máquinas anatômicas". Essas obras que desafiam as convenções da normalidade foram criadas pelo anatomista Giuseppe Salerno em 1760. As esculturas, se é que elas podem ser chamadas dessa forma, representam um homem e uma mulher grávida, apelidados de Adão e Eva, e foram construídas sobre dois esqueletos humanos verdadeiros com os ossos ainda à vista, conectados por uma profusão de parafusos de ferro, veias e artérias enrijecidas. No passado, a estátua de Eva possuía um feto inserido na cavidade do ventre, que podia ser aberta para ser visto. A peça foi roubada séculos atrás e ninguém jamais soube de seu paradeiro.


Os esqueletos foram recobertos por uma complexa teia de filamentos endurecidos formando um impressionante sistema arterial, com representações perfeitas das vísceras e musculatura humana, meticulosamente detalhadas. O crânio das duas estátuas possuem portinholas podendo ser abertos, revelando o conteúdo incrivelmente detalhado, formado por vasos sanguíneos e um cérebro metálico bulboso no seu interior. As perturbadoras estátuas constituem modelos anatômicos perfeitos, contando com minúcias vívidas que atestam o profundo conhecimento anatômico de seu idealizador. De fato, a obra é tão perfeita e fidedigna da fisiologia humana que até o século passado estudantes de medicina as usavam como modelos para complementar seus estudos.


Como não poderia deixar de ser,  quando as bizarras estátuas foram apresentadas pela primeira vez, houve enorme comoção. Em uma época em que os mistérios do corpo humano ainda suscitaram dúvidas e temor, tais estátuas eram para as mentes supersticiosas, verdadeiras abominações. E ainda havia a questão de como elas haviam sido construídas, algo que muitos apostavam ter sido realizado por intermédio de feitiçaria. A despeito das estátuas serem ou não produtos de magia negra, Adão e Eva apresentam uma série de mistérios, sobretudo no que diz respeito a sua construção.

Por muitos anos o método utilizado foi fonte de discussão entre cientistas e médicos especializados em anatomia. A principal dúvida era se o sistema circulatório, seria real e se fosse esse o caso, como ele teria sido preservado dessa maneira? Seria ele artificial? Mas se esse é o caso, como o artífice conseguiu reproduzi-los com tamanha fidelidade? Uma vez que não restaram registros da construção das máquinas anatômicas, as respostas para essas questões parecem fadadas a jamais serem obtidas.  A principal teoria é que as duas máquinas anatômicas tenham sido criadas através de um processo conhecido como "plastificação" ou "metalização humana", que envolve injetar substâncias diretamente na corrente sanguínea de uma pessoa enquanto ela ainda está viva. Dessa forma, o sistema circulatório se encarrega de distribuir o material através das veias, irrigando órgãos e os enrijecendo, num processo extremamente doloroso e irremediavelmente fatal. Há  outros exemplos de plastificação na história médica, mas é provável que o utilizado nessas estátuas tenha sido pioneiro. Ninguém, entretanto, sabe ao certo.


Um exame mais detalhado de Adão e Eva demonstrou evidências da utilização de substâncias químicas como líquidos de embalsamamento e outros compostos. Através de vários testes sofisticados usando o escaneamento com microscópio eletrônico e espectroscopia infra-vermelha, descobriu-se que as veias foram expandidas por uma substância metálica, possivelmente mercúrio acrescida de fibras de seda, tratadas a seguir com cera de abelha. Essa detalhada análise ajudou a lançar uma luz sobre a criação das misteriosas estátuas, mas ainda pesam sobre elas vários enigmas. Não é possível determinar, por exemplo, se as duas vítimas já estavam mortas ou se foram sacrificadas no decorrer do processo que lhes concedeu (um tipo) de imortalidade. Também é impossível saber se essas pessoas tinham ideia do que aconteceria com elas quando o processo de transformá-las em máquinas anatômicas se iniciou. Considerando os poucos registros sobreviventes, é provável que jamais venhamos a saber como tudo aconteceu.


Seja lá por quais razões e métodos as máquinas anatômicas foram construídas, as estátuas que continuam em exposição na Capela de Sansevero certamente se encontram entre as mais estranhas e perturbadoras obras de arte concebidas pela imaginação humana. Se o excêntrico, Principe Raimondo di Sangro, o alegado nobre necromante, estava tentando intencionalmente chocar as pessoas, então, sua missão foi cumprida à contento. 

terça-feira, 16 de setembro de 2014

"A Arte que não deveria ser" - Livro com as delirantes ilustrações de Walter Pax em Financiamento Coletivo


O Mundo Tentacular sempre apoia Financiamentos Coletivos interessantes e quando eles aparecem nada mais justo do que divulgar para que o maior número possível de pessoas tomem conhecimento.

E este é especialmente interessante pois envolve diretamente os Mythos de Cthulhu. Trata-se de "Love - A Arte que não deveria ser" com ilustrações de Walter Pax, o responsável pelos excelentes desenhos da Edição Brasileira de Chamado de Cthulhu.

Aqui está o release da Página no Catarse:
 
Fã do universo de Lovecraft, o ilustrador Walter Pax escolheu as descrições mais marcantes de O Chamado de Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura e outras obras de H. P. Lovecraft e deu forma às incríveis e indiscritíveis criaturas da mitologia do autor americano. As passagens e os desenhos compõem o livro bilíngue Love – The art that should not be by W. Pax ou, em português, Love – A arte que não deveria ser de W. Pax. 
Sobre o Livro 
Com 100 páginas ilustradas, o livro apresenta cerca 50 desenhos em preto e branco feitos por Walter Pax acompanhadas de algumas breves, mas marcantes, citações de obras de Lovecraft. O tamanho do livro é de 25×16cm, com capa fosca e verniz em alguns detalhes. A edição conta também com um prefácio do ilustrador argentino Salvador Sanz e um posfácio sobre a vida e a obra do autor americano. Ah sim! O livro é bilíngue, então além das passagens originais em inglês de H.P. Lovecraft, o texto estará também em português. 

 Para viabilizarmos a publicação, precisamos de uma quantia de R$15 mil. E os que apoiarem vão receber pôsteres, livros ou recompensas ainda mais especiais de acordo com o pacote que comprarem. 
Quem é quem? 
H. P. Lovecraft (1890 – 1937) foi um autor de terror, fantasia e ficção científica. Em sua mitologia, o universo e a vida são incompreensíveis ao ser humano. Monstros alienígenas e entidades anti-humanas estão à espreita, apenas aguardando o momento de retornar. 
Walter Pax (1973) é um ilustrador gaúcho e fã de Lovecraft. Foi responsável, entre outros, pelas ilustrações do livro A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, da adaptação brasileira do aclamado RPG_O Chamado de Cthulhu e também participou das coletâneas Irmãos Grimm em Quadrinhos e The Workman, indicada ao Eisner Awards, um dos prêmios mais respeitados do mundo no segmento de quadrinhos. 

Recompensas 
Para apoiar o projeto, basta entrar no link do Catarse e clicar no botão verde "Apoiar este projeto" e selecionar o valor e as recompensas que desejar, ou clicar direto numa das recompensas. Você pode apoiar com qualquer valor e começa a receber recompensas a partir de R$18. Se ainda não tiver um cadastro, o catarse vai pedir para você se cadastrar – é bem rápido e pode usar a conta do facebook. As recompensas são pôsteres com ilustrações do livro, o próprio livro ou ainda outras vantagens, como autógrafo, o livro com capa dura, ilustrações originais ou a possibilidade de escolher uma passagem do Lovecraft que vai integrar a obra.
Para mais detalhes do Financiamento, acesse a página do Catarse através do link abaixo e escolha uma das opções de apoio.

CATARSE - LOVE - "A Arte que não deveria ser"

O trabalho parece muito promissor e baseado nas amostras dos desenhos que já vimos no PDF do Chamado de Cthulhu, fica claro que o Pax consegue traduzir no papel todo o horror delirante das abomináveis criaturas criadas por Lovecraft.

domingo, 3 de agosto de 2014

Peça Sangrenta - Montagem de Shakespeare provoca choque e desmaios


A noite de abertura da mais nova montagem da peça Titus Andronicus de William Shakespeare apresentada no tradicional Teatro Globe de Londres terminou de forma incomum.

Pelo menos duas pessoas desmaiaram e outras tantas tiveram de deixar a platéia para tomar um ar durante a encenação da mais sangrenta obra do celebrado dramaturgo. Titus Andronicus é conhecida como a peça mais violenta de Shakespeare, uma obra onde o sangue ocupa um espaço central, e onde as ações dos personagens sempre terminam em maior derramamento de sangue. Contudo, as montagens sempre censuraram, ao menos em parte, a violência crua do texto. A nova montagem que teve sua estréia na semana passada, agiu na contra-mão a esse conceito, abraçando a brutalidade e saudando os espectadores com um show de violência como não se via desde os espetáculos do Grand Guignol.

A trama de Titus Andronicus gira em torno de um general romano que comete o erro fatal de não demonstrar piedade para o filho mais velho de Tamora, a Rainha dos Góticos, que ele havia derrotado em batalha. A crueldade do romano, será paga em espécie, com uma vingança alucinada.

Nem todas as pessoas presentes no público estavam preparadas para o que estava por vir quando a cortina foi aberta. Vários dos groundlings - os espectadores da primeira fila, se surpreenderam com a entrada da atriz Flora Spencer-Longhurst, no papel de Lavinia, adentrando o palco coberta de sangue depois de ser estuprada e ter a língua e as mãos cortadas pelos romanos. Os gritos abafados da atriz, que caminhava trôpega, esbarrando em quem estivesse próximo, deu a partida para o espetáculo visceral.


Em poucos minutos, pelo menos oito pessoas na audiência tiveram de deixar o teatro às pressas, evidenciando o impacto emocional e visual da obra. Os suspiros e arfares dos presentes continuaram durante a performance, a medida que personagens tinham suas gargantas cortadas, membros amputados e uma mulher era estuprada e morta com uma espada. O sangue cenográfico era tanto que se tornou impossível evitar que ele espirrasse nas primeiras filas, manchando os espectadores.

A produção havia alertado que o espetáculo da Companhia Lucy Bailey apresentaria cenas "grotescamente violentas e ousadamente experimentais".

Um porta-voz do Teatro Globe disse que desmaios não são incomuns nas montagens da Companhia. Em 2006, uma apresentação da mesma peça, terminou com pelo menos seis desmaios. Até mesmo a equipe de produção teve que se acostumar com o caráter brutal da peça, alguns membros da equipe não suportaram as imagens e pediram desligamento da montagem. 


"Shakespeare não fez concessões quando escreveu Titus Andronicus – trata-se de uma peça brutal em que a violência é celebrada em seu ápice e a Companhia buscou se aproximar ao máximo da visão original do autor. O objetivo é manter o impacto visual, e portanto recomendamos que pessoas sensíveis não assistam a performance".


Apesar dos avisos, a montagem está com todos os ingressos vendidos para a temporada. Após a abertura e o burburinho que se seguiu, os últimos tickets se esgotaram rapidamente.

A crítica especializada dos principais jornais londrinos escreveu resenhas positivas sobre a montagem:

"Não se trata apenas de uma orgia de sangue. A selvageria é sempre perturbadora e o sadismo realmente desperta repulsa nos espectadores mais sensíveis. Contudo, a franqueza e fidelidade ao texto de Shakespeare, amparado por performances arrebatadoras, torna a apresentação sensacional", escreveu o crítico do jornal The Guardian.

A crítica teatral do Dance and Theater, Sarah Hemming escreveu: "Trata-se de uma produção que cegamente combina detalhes psicológicos com energia extraída da selvageria e do horror, mergulhando o espectador em um pesadelo sangrento"


Emily Francis, atriz da Companhia Hither Green que assistiu a apresentação, disse ter se sentido "vagamente enjoada". Ela contou ainda: "Quando uma das personagens tem as mãos serradas, senti que poderia passar mal e precisei deixar meu assento para tomar um ar e me recuperar".

A brutalidade da peça é tão extrema - terminando com a infame cena em que uma mãe é obrigada a comer pedaços de seus próprios filhos, que a platéia ficou atordoada. Por alguns instantes, após fechar as cortinas, as pessoas não conseguiam reagir, sem saber se deviam aplaudir ou simplesmente deixar o teatro em silêncio.

Jennifer Todd, crítica teatral do London Times, relatou: "Eu jamais vi esse nível de sanguinolência num palco antes, mas a montagem buscou ser fiel aos detalhes do texto. Em se tratando de uma adaptação ela é brilhante". 

                                                                             *     *     *

Impossível ler esse artigo, pinçado de vários sites sobre teatro e não lembrar da peça "O Rei Amarelo" concebida por Robert Chambers para sua obra mais conhecida.

No universo lovecraftiano, "O Rei Amarelo" (The King in Yellow) é uma peça teatral tão chocante e assustadora que o público se via de um momento para o outro arrebatado por uma poderosa sensação de horror, choque e loucura. 

Nas ocasiões em que a peça é encenada, o público reage de forma impulsiva e primal: causando a destruição do teatro, agredindo selvagemente quem estivesse por perto ou simplesmente sendo tomado por um choque tão profundo que é incapaz de qualquer reação.

Sempre imaginei se uma peça de teatro, no mundo real, poderia causar tamanho impacto e gerar uma resposta emocional palpável, deixando a platéia fisicamente atordoada. Aparentemente tal coisa é possível, como vimos nesse artigo...

E isso sem recorrer ao Mythos em nenhum momento.


Achou interessante? Leia também esse artigo sobre o Grand Guignol os espetáculos sanguinolentos que faziam sucesso na Europa no início do século XX.

E porque parar por aí? Leia também a respeito dos Insanos Cabarés da Belle Epoque.

terça-feira, 1 de abril de 2014

O Ciclo de Pesadelos - Descobertas obras inéditas (e perturbadoras) de Francisco Goya


Essa notícia é notável, ela vem circulando por aí nas últimas semanas coincidindo com o aniversário de nascimento do artista Francisco Goya

Preferi reproduzir a reportagem traduzida a seguir na íntegra:

*     *     *

[REUTERS] A curadoria do Museu des Beaux-Arts de Bordeaux (Museu de Belas Artes da Cidade de Bordeaux) anunciou no início dessa semana a surpreendente descoberta de três trabalhos até então desconhecidos assinados pelo genial pintor espanhol Francisco Goya (1746-1828).

As obras pinturas à óleo sobre tela, pertenciam ao acervo de um colecionador cujo nome foi mantido em segredo. Segundo a curadora do Museu, Isabelle Janeau as telas foram escondidas no correr da Segunda Guerra Mundial, quando várias obras de arte valiosas acabaram confiscadas pelos alemães. Era comum que marchands escondessem esses tesouros que ainda hoje são encontrados de tempos em tempos.

As pinturas de Goya estavam guardadas no cofre de uma galeria de arte e ficaram lacradas em uma gaveta por décadas, fora do alcance de todos. Elas sofreram pequenos danos, mas nenhuma avaria permanente que diminua a importância e impacto de tal achado. A descoberta se deu por acaso, quando um dos sócios da galeria, bisneto do dono original, decidiu realizar um inventário do que estava guardado no compartimento. Quando a gaveta secreta foi aberta, as obras apareceram após mais de 70 anos escondidas.

Francisco de Goya é considerado o último dos Grandes Mestres e o primeiro dos Mestres Modernos. Um dos maiores artistas espanhóis, suas obras retrataram a aristocracia da Espanha, inclusive a realeza em um dos períodos mais conturbados de sua história, marcado por guerras e disputas. A imaginação subversiva e seu estilo se tornaram referencial para vários artistas que o sucederam como Manet, Picasso e Francis Bacon.

Admirado em toda Europa, as exposições de obras de Goya ganharam notoriedade e atraíram inúmeros admiradores. Muitas de suas gravuras, em referência à moral, ao estranho e ao bizarro da alma humana, encontraram grande aceitação popular embora, em 1821, a Inquisição, ainda atuante na Espanha, tenha instaurado um processo contra o artista por considerar alguma de suas obras obscenas. 

Na última parte de sua vida, Goya produziu a famosa série conhecida como "Pinturas Negras", as mais estranhas e misteriosas de sua carreira que trata de temas como mitologia, bruxaria e o fantástico. Entre estas obras destaca-se "Saturno devorando seu filho" (1819-1823) atualmente exposta no Museu do Prado. Para alguns críticos essa coleção marca a degradação da saúde física e mental do artista. Até recentemente sabia-se da existência de 14 pinturas formando a Coleção Negra. Goya em vida raramente falava a respeito dessas obras e não tencionava expô-las. Ele afirmava que as telas que compõem essa série eram algo saído de seus sonhos e pesadelos, algo profundamente pessoal. Foi com base nelas que ele firmou a famosa frase "O sono da razão produz monstros". Em 1824, Goya, exilou-se em Bordeaux, na França onde veio a falecer quatro anos depois. 

As obras recém descobertas foram separadas do restante da coleção para serem descartadas. Biógrafos suspeitam que Goya não desejava que estas pinturas e ilustrações chegassem ao público, talvez por ele não ter ficado satisfeito com o resultado ou talvez por considerá-las excessivamente perturbadoras. Biógrafos do artista espanhol, sugerem que estas obras podem ser as que o artista se referiu como parte do "Ciclo de Pesadelos", uma série citada unicamente em uma carta enviada pelo artista a um colega. A existência destas pinturas era até recentemente contestada por estudiosos que também levantavam suspeitas sobre a legitimidade das cartas. Acredita-se que algum assistente ou pupilo do artista, tenha decidido preservar as telas e que depois elas foram vendidas ao colecionador que as guardou.

Várias instituições públicas e privadas manifestaram interesse em obter as obras para seus respectivos acervos. Por enquanto, o Museu do Prado e a Fundação Aragon tem maiores chances de expor o material que já vem sendo tratado como uma das mais significativas descobertas artísticas da década.

Veja a seguir as pinturas e ilustrações que compõem o "Ciclo de Pesadelos":

Pesadelo do Mar - Óleo sobre tela  (1822)
Homem diante do Pesadelo (1823) - Óleo sobre Tela 266 x 345 cm
Pesadelo das Profundezas (1823) - Óleo sobre Tela 240 x 320 cm

Durante a apresentação da obra no Museé de Beaux-Arts de Bordeaux em março de 2014.

Curiosamente durante a apresentação exclusiva para repórteres e personalidades ligadas às artes, registrou-se três desmaios. Uma pessoa também teve um princípio de infarto. 

Os organizadores da mostra não quiseram comentar esses estranhos incidentes.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Ouçam o Chamado IV - Entrevista com Walter Pax ilustrador de Chamado de Cthulhu



Uma das grandes novidades da edição brasileira de Chamado de Cthulhu que se encontra em Financiamento Coletivo é o fato do livro ter um estilo próprio que se difere da edição que o originou. Ainda que muitos desenhos do livro original estejam presentes, há muitas novidades no que diz respeito a arte e diagramação.

O pessoal da Terra Incógnita já revelou que a parte interna do livro será bastante diferente, remetendo a um livro de notas (scrapbook) onde informações importantes sobre uma investigação em curso seriam anotadas. Uma excelente sacada! 

Quanto as novidades na arte, estamos em boas mãos, a tarefa insana (!!!) recaiu sobre os ombros do gaúcho Walter Pax que nessa entrevista exclusiva para o Mundo Tentacular responde algumas questões sobre como foi dar uma face aos horrores do Mythos de Cthulhu.  




1 - Como foi feito o convite para você trabalhar no projeto da adaptação brasileira do livro Call of Cthulhu? 

O convite partiu do Kairam Hamdan, um dos editores da TERRA INCÓGNITA. Depois de dar uma olhada nas páginas de um projeto meu em homenagem ao H.P. Lovecraft, ele me perguntou se eu gostaria de ilustrar a versão nacional do CHAMADO DE CTHULHU

Grande honra ter sido convidado pra esse projeto.Os Grandes Anciões me estenderam seus tentáculos...



2 - Você já conhecia alguma coisa a respeito do universo criado por H.P. Lovecraft e sobre o Mythos de Cthulhu? Se sim: Quais os seus contos favoritos? Se você fosse convidado para ilustrar um conto de Lovecraft e pudesse escolher qualquer um, qual seria e porque? À propósito, você já jogou o RPG Chamado de Cthulhu? Se sim: O que achou do jogo?

Sketch para o Fungo de Yuggoth
Sou fã da obra de Lovecraft desde minha adolescência, quando li pela primeira vez  SONHOS NA CASA DA BRUXA e NAS MONTANHAS DA LOUCURA, logo seguidos daquela que considero a maior história de horror de todos os tempos: O CASO DE CHARLES DEXTER WARD. Desde então, todo meu trabalho tem sido permeado pelas “criaturas inomináveis” de Lovecraft e seu mundo sombrio.

Penso  que, se tivesse de escolher um conto pra ilustrar, seria NAS MONTANHAS DA LOUCURA. Acho que muitos elementos que definem o estilo de Lovecraft estão nesse texto, além de ter influenciado outra referência importantíssima na minha formação: o filme O ENIGMA DE OUTRO MUNDO, de John Carpenter. Passei minha adolescência inteira desenhando criaturas gosmentas que saiam do gelo...

Sempre fui fascinado pelas ilustrações fantásticas nos livros de RPG, mas tenho de confessar que nunca  joguei. Eu iria ficar babando nos desenhos e me perderia completamente...shame on me.


3 - O livro original americano (no caso estou me referindo a Sexta Edição) conta com algumas excelentes ilustrações, outras nem tanto. Você se espelhou em algum conceito do livro original ou noção norteadora para o projeto? 

Confesso que não me baseei no livro original, pois a idéia do pessoal da TERRA INCÓGNITA era dar uma identidade própria pra adaptação feita aqui no Brasil, então partimos diretamente dos conceitos traduzidos do livro original.

Claro que algum trabalho de pesquisa foi necessário pra aproximar ao máximo as referências e personagens já conhecidos pelo público do jogo e pelos fãs de Lovecraft. Também foi ótimo conhecer a versão de outros artistas para as mesmas criaturas que eu iria desenhar...



O sketch do Povo Serpente
4 - O pessoal da Editora Terra Incógnita participou de alguma maneira do processo criativo para a arte? Qual o grau de liberdade que você teve no projeto?  

Os caras me fornecem todas as descrições das criaturas e, depois de analisarem meus layouts da versão de cada uma, sugerem as alterações finais, se existir necessidade, e só então passo à finalização das ilustrações. Eles tem mantido as correntes razoavelmente frouxas ...


5 - As criaturas que figuram no Universo de Lovecraft em geral são tratadas como "impensáveis", "indescritíveis", "inimagináveis"... suponho que não deve ter sido tarefa fácil criar a imagem de algumas delas. Em algum momento você se pegou pensando "como é que eu vou desenhar essa coisa"? 

 O desafio de representar as criaturas “indescritíveis” do Lovecraft, sempre me fascinou. Para mim, é como um passeio num parque de diversões assombrado: divertido e assustador! Eu penso “como é que eu vou desenhar essa coisa ?” o tempo inteiro... e não paro de achar isso o máximo!


6 - Quantas ilustrações você apresentou para o livro "Chamado de Cthulhu"? Qual foi a que deu mais trabalho e qual foi aquela que você parou, olhou e disse: "Uau! Essa ficou realmente legal!"

Ainda estamos no processo de criação das ilustrações do livro. Algumas já estão prontas mas, temos muito trabalho pela frente. O processo já está bem acelerado e devo dizer que fiz vários desenhos que me deixaram bem orgulhoso, mas não sei dizer se há algum favorito. Estou curtindo muito cada um deles...


Abdul Al-Hazred e o blasfemo Necronomicon

7 - Fale a respeito da capa de "Chamado de Cthulhu". Como foi o processo de criação da capa em aquarela? No que você se inspirou para compor essa imagem? 


Antes de me tornar fã do Lovecraft, eu era um fanático pelas aventuras do Conan, o Bárbaro, desenhadas pelo mestre John Buscema. Muitas das cenas mais atrozes de terror Lovecraftiano que povoam a minha mente, vem dos desenhos do cara. Quis evocar a atmosfera das grandes aventuras do Conan pra essa ilustração de capa, com umas cores ao estilo Frank Frazetta, outro artista do qual sou grande admirador. 

No  processo, as referências se misturam e o resultado acaba ficando mais orgânico, bem diferente do que eu havia planejado inicialmente...mas eu acho ótimo!



8 - Uma das recompensas do Financiamento Coletivo é o livro "A Arte de Chamado de Cthulhu". O que você pode nos dizer a  respeito desse livro? Ele vai trazer imagens que não chegaram a entrar no Chamado de Cthulhu? 

O livro vai trazer ilustrações inéditas sim. Vários sketches à lápis e alguns dos desenhos de produção que fiz durante o processo de composição do CHAMADO. Eu estava muito afim de fazer um making of do projeto e os caras da editora  toparam  oferecer o livro pra custear o financiamento. Imagina se eu não estou feliz...


9 - Onde podemos ver um pouco mais do trabalho de Walter Pax? Quais são suas principais inspirações e os artistas que você admira? Você usou algum deles como referência para esse projeto?

Cthulhu
Nos últimos anos , publiquei alguns trabalhos bem legais que me deram uma boa visibilidade no meio editorial. Ilustrei A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA, pela LEYA/BARBA NEGRA ,LEONARDINHO-MEMÓRIAS DO PRIMEIRO MALANDRO BRASILEIRO, pela editora SARAIVA, e fui convidado a participar das antologias IRMÃOS GRIMM EM QUADRINHOS pela editora DESIDERATA e 24 SEVEN-Vol2, da editora americana IMAGE (que concorreu ao Prêmio Eisner como melhor antologia). Ainda criei juntamente com os amigos João “Azeitona” Vieira e Mateus Santolouco, a trilogia ZINE SUPREME, com quadrinhos autorais do trio, que rendeu um bom destaque nas ultimas convenções internacionais de quadrinhos aqui no Brasil, e nos levou a concorrer ao troféu HQMIX (não levamos, mas foi ótimo ter participado).

Bom, quanto aos artistas que me inspiram, além do  Buscema (adoro esse nome!) e  Frazetta, curto muito o trabalho do H.R.Giger, que tem um jeito inacreditável de retratar os pesadelos do Lovecraft. Tem os demônios do Gustave Doré. Os desenhos do Dr.Seuss, o traço sofisticado do Philippe Druillet. Os experimentalismos do Breccia. O virtuosismo do Wrightson... um sem número de gente boa,que sempre influenciou e inspirou o meu traço pra ele ser como é hoje. Devo muito da inspiração do meu trabalho à todos esses mestres do desenho. Espero prestar um tributo apropriado nas páginas de CALL OF CHTULHU (aí vem a música do Tenacious D bater na minha mente..."It is just a tribute,you gotta believe me...”).

Ah...sempre que cito os artistas que admiro, esqueço de mencionar um monte de gente muito boa daqui do Brasil, que também me inspira muito. Gosto do trabalho do Rafael Sica, Mateus Santolouco (Teenage Mutant Ninja Turtles), Danilo Beyruth e seu Necronauta, os caras da revista SAMBA, Rodrigo Rosa e seu traço clássico, João Ruas (maldito!), Davi Calil (mestre da aquarela), Vitor e Lu Cafaggi...enfim,uma penca de gente que também tem me influenciado muito, profissional e criativamente.

Os meus desenhos  podem ser vistos no blog maquinafantasma.wordpress.com no meu portfólio Deviantart, que é walterpax.daportfolio.com e na minha página no Facebook.

Deem uma olhada lá. Tem umas coisas que eu gosto bastante e que dão uma geral no meu trabalho, para a galera que não conhece minha arte ir se familiarizando.


10 - Uma última e importante pergunta: Você sabe que alguns desses desenhos são imagens de entidades cujo mero vislumbre causam insanidade. Você não se sente nem um pouco culpado em desenhar coisas que são matéria prima para alimentar nossos pesadelos? 

Culpado, eu? Eu sou somente o mensageiro...abro o portão e convido a entrar. Só que tem uma placa onde tá escrito :

“Antes de mim não foram coisas criadas
  Senão eternas,e eu eterna duro.
  Deixai toda  esperança vós que entrais.”

Bem vindos!

W.Pax

A entrevista foi feita através de perguntas enviadas. Obrigado ao Walter Pax pela gentileza de ter nos atendido.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Música Perturbadora - A estranha carreira de Nattramn e do Silencer


Alguém ouviu falar de uma banda chamada Silencer ou de seu membro mais conhecido, um tal Nattramn

Eu não conhecia nada sobre essa criatura, mas enquanto escrevia o artigo anterior a respeito de estrelas da música envolvidas com o oculto ou "coisas estranhas", a biografia do tal Nattramn pipocou várias vezes. E de fato, se 10% do que eu li for verdade, o cara é um dos mais perturbados e sinistros (vá lá!) "artistas" da atualidade.

A banda Silencer se formou em meados de 1995 em Stockholm. Foi uma das primeiras do gênero que passou a ser conhecido como "suicidal black metal", um estilo agressivo marcado por letras absolutamente radicais repletas de niilismo, misantropia e fúria, capaz de glorificar o suicídio, nazismo, massacres e destruição. O caos é uma das marcas registradas do gênero que possui fãs na Escandinávia, sobretudo na Suécia. 

O primeiro demo do Silencer, foi lançado em um circuito comercial limitado em 1998, trazendo uma única música intitulada "Pierce me" ("Fure-me"), com quase 11 minutos de duração. A faixa é marcada pelos urros guturais do vocalista. Diz a lenda que a gravação apresenta vários problemas de mixagem, mas que ela só pôde ser executada uma vez, já que o vocalista teria se auto-mutilado durante a gravação em estúdio. Verdade ou mentira, o som estridente e medonho dos seus gritos acabaram chamando a atenção de uma gravadora alemã, a Prophecy Productions, que no ano seguinte assinou um contrato com os membros da banda. Apontado como uma grande promessa do Doom Metal, a banda chegou a ser comparada com os alemães do Bethlehem, os pioneiros do gênero.

Apesar de existir desde meados da década de 1990, há poucos registros de que o Silencer tenha se apresentado em público. Existem dois vídeos de péssima qualidade que se supõe serem performances da banda, ambos em clubes na Suécia. Um deles sequer pode ser chamado de show, uma vez que tudo o que se vê nos quase 12 minutos da escura gravação são pessoas gritando, brigando e correndo num palco improvisado. 

O Silencer teria concedido apenas uma entrevista em sua carreira, uma imposição da gravadora que exigiu essa condição para não romper o acordo contratual. Apesar dos membros terem concordado, a "entrevista" se resume a algumas perguntas dirigidas aos músicos que apenas grunhem de forma monocórdia e gargalham. Não é à toa que depois disso, a banda perdeu o apoio da gravadora.

Pouco antes porém, o Silencer apresentou um video-clip para a música "Sterile Nails and Thunderbowels" uma verdadeira colagem de cenas bizarras com direito a mutilação e sexo-explícito extraídas do filme experimental alemão Begotten (de E. Elias Merhige). O vídeo não chegou a  ser lançado pois o diretor não autorizou o uso das imagens de seu curta metragem pela banda. Apesar disso, ele acabou caindo na internet e pode ser conferido no final desse artigo.

Em maio de 2000, o Silencer aproveitando a controvérsia sobre o vídeo gravou sua única obra completa, com o título "Death, Pierce Me". Na gravação Nattramn dá mais uma mostra de seu estilo bizarro em que as palavras nem soam como algo inteligível. Numa das faixas não há letra, apenas uma única frase urrada repetidamente: "Cortem a minha garganta! Cortem a minha garganta!" 

Mais uma vez a gravação foi marcada por rumores. Técnicos de som teriam se negado a trabalhar com o vocalista alegando que ele não era profissional. Alguns boatos davam conta que Nattramn teria mutilado as próprias mãos e o rosto com uma faca em pleno estúdio deixando os técnicos apavorados.

Uma das únicas fotos de Nattramn e a que o tornou conhecido
Apesar das dificuldades, o álbum foi lançado em 2001 acompanhado de enorme controvérsia. A capa do disco, que mostra Nattramn quase irreconhecível, ensanguentado e com uma meia cobrindo a cabeça por pouco não foi proibida em plena Suécia, país conhecido pela sua tolerância. Na fotografia, patas de porco surgem nas mangas de sua camisa manchada de sangue em uma composição por si só perturbadora. Ainda que tenha sido liberado em seu país natal, ele não teve a mesma sorte na Inglaterra e Alemanha onde uma capa preta substituiu a imagem.

Atraindo a atenção da mídia, rumores começaram a circular afirmando que o vocalista do Silencer sofria de alguma doença mental. Nos créditos do álbum ele agradece as companhias farmacêuticas que produziram medicamentos que ele alegava tomar e que permitiram concluir a gravação. "Sem essas maravilhosas drogas, eu não conseguiria chegar ao fim do trabalho!" teria escrito a respeito de drogas controladas, destinada a pacientes com esquizofrenia.

Mas o mais bizarro ainda estava por vir.

Nattramn publicou uma carta em que revelava a sua admiração por um assassino em série sueco chamado Thomas Quick. Na carta, ele contava que seu sonho era seguir os passos do maníaco que assumiu a autoria pelo assassinato de oito meninas e alegou ter cometido outro 22 crimes. "Eu vou matar meninas e ser tão famoso como Thomas Quick" ele escreveu na carta.

Ninguém levou muito à sério as palavras de Nattramn, afinal tudo indicava que se tratava apenas de um golpe publicitário para prender a atenção da mídia. Contudo, alguns meses depois o vocalista do Silencer foi preso em um parque na cidade de Ljungby, acusado de agredir e ameaçar frequentadores com um machado. Segundo o boletim da ocorrência, o músico teria perseguido um grupo de pessoas brandindo a arma enquanto gritava enlouquecido. Uma menina de seis anos teria sido ferida durante a confusão. Ele ainda tentou fugir em uma bicicleta, mas foi alcançado por policiais. Ao receber voz de prisão Nattramn implorou que o matassem.

Diagnosticado como esquizofrênico, psicótico e maníaco depressivo, Nattramn foi internado no Hospital Psiquiátrico de Vaxjo. Houve estórias de que ele tentou escapar e esses boatos acabaram causando enorme comoção na cidade. Habitantes acreditavam que além de escapar do manicômio, ele estaria armado com um machado, disposto a fazer valer as suas ameaças. Os rumores se mostraram infundados.

Durante sua internação, o músico começou a escrever um livro de memórias como forma de terapia. Em 2011, o livro Grishjarta ("Coração de Porco", em sueco) foi publicado. Em 2012, ele recebeu permissão para sair da instituição (acompanhado de policiais e responsáveis) para gravar um álbum intitulado Transformalin.

Apesar de submetido a tratamento para controlar a esquizofrenia, os médicos não deram alta a Nattramn uma vez que ele foi considerado potencialmente perigoso no caso de uma interrupção do tratamento. 

Não existe uma previsão para sua liberação de Vaxjo. Uma petição pública, assinada por vinte mil pessoas foi entregue ano passado ao Ministério Público Sueco pedindo que ele seja mantido no manicômio. 

Em tempo: Nattramn não é o nome verdadeiro do sujeito. A palavra se refere a um pássaro lendário da mitologia nórdica que se alimenta da alma de crianças. Simpático, não?

Aqui está o vídeo de "Sterile Nails and Thunderbowels" (com legendas em espanhol):