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segunda-feira, 25 de junho de 2018

A Caixa do Dybbuk - A misteriosa caixa que aprisiona uma força maligna


Parece que existem nesse mundo certos objetos que atraem para si lendas e histórias fantásticas.

Seja qual for o motivo, forças sobrenaturais, espíritos, entidades, ou maldições parecem gravitar ao redor desses itens, impregnando cada um deles com algo estranho que desafia nossa capacidade de explicar e compreender. Um desses objetos impressionantes surgiu há alguns anos em uma popular página de vendas da internet e imediatamente mexeu com a imaginação das pessoas com histórias sobre estranhos incidentes ao seu redor. E ela continua gerando narrativas cada vez mais estranhas.

A história a respeito do que veio a ser conhecido como Caixa do Dybbuk (fala-se DAI-Buk), ganhou nos últimos anos o status de Lenda Urbana. Ela envolve uma velha caixa de madeira bastante arranhada e dilapidada, cujo passado sombrio foi apresentado por seu proprietário, Kevin Mannis um colecionador de antiguidades do Oregon. Imediatamente quando a história foi contada ela ganhou notoriedade entre os interessados pelo sobrenatural.

A caixa comprada por Mannis vinha acompanhada de uma história bizarra que ele ouviu do dono anterior. Segundo este, a caixa pertenceu originalmente a um importante rabino que a manteve por muitas gerações. Eventualmente ela acabou indo parar nas mãos da avó do dono original, uma sobrevivente do Holocausto. A avó foi a única sobrevivente da família, e com alguns outros judeus, ela conseguiu imigrar para a Espanha onde tomou posse da caixa. Ao que parece, a caixa havia sido comprada no final da década de 30 depois que a sinagoga onde ela era mantida foi incendiada. O protetor da caixa, o rabino em questão, foi morto e a maioria de seus bens confiscados. A caixa, por não parecer especialmente valiosa, acabou sendo vendida por uma ninharia, indo parar nas mãos de um negociante espanhol que a levou para a Galícia. Obviamente ele não tinha nenhuma ideia a respeito do que era a caixa e quando a guerra terminou, sabendo que se tratava de um objeto ligado a judeus, decidiu entregá-lo a mulher que professava essa fé.

Essa parte da história é curiosa uma vez que o comerciante não pediu nada em troca da caixa, simplesmente perguntou se a mulher era de origem judaica e quando ela confirmou, entregou-lhe o objeto dizendo: "Isto é para você, mas se tiver juízo vai mantê-la fechada para sempre".

Quando a mulher, então com 20 e poucos anos conseguiu documentos para imigrar para os Estados Unidos, levou consigo a caixa e a manteve por muitos anos como uma espécie de tesouro da família. Ela casou e constituiu família, se estabelecendo em New Jersey. A caixa sempre ficou guardada cuidadosamente, um mistério a respeito do qual ela evitava falar. Em 1992, a mulher já com idade avançada chamou sua filha e revelou a ela o que sabia a respeito da caixa.


"Essa é uma Caixa de Dybbuk, ouça com atenção pois você jamais deve abri-la", alertou com grande seriedade antes de prosseguir: "Um rabino aprisionou um espírito maligno chamado Dybbuk em seu interior muito tempo atrás. Esse espírito é uma espécie de Demônio, uma entidade maligna que só trará tristeza e sofrimento caso um dia consiga escapar. Eu mantenho essa caixa há muito tempo e agora chegou a sua vez que ficar com ela".

Quando a filha perguntou se aquilo era algum tipo de brincadeira a velha revelou como havia obtido a caixa e fez a filha prometer que o objeto seria mantido em segurança. A seriedade de suas palavras serviram para convencê-la de que aquilo não era simples excentricidade de uma velha, mas algo solene e de grande importância.

Finalmente a filha perguntou examinando a caixa: "Você já a abriu? Sabe o que existe no seu interior?"

Ao que a mulher respondeu consternada: "É por saber que eu lhe digo... nunca abra essa caixa" e lhe fez prometer que sua vontade seria obedecida.

O tempo passou, a guardiã da caixa morreu em 1995, e o objeto ficou em poder de sua filha por algum tempo. Em 2002 ela passou para as mãos de seu último dono na família, o homem que a vendeu para Kevin Mannis, após contar essa incrível história.

"Você nunca teve curiosidade de abrir?", Mannis quis saber depois de ouvir a história. O homem que trouxe a caixa até a pequena loja de antiquário no Oregon acenou negativamente:

"Eu nunca abri, é algo de família" ele explicou, "sinceramente eu não acredito nessas histórias, mas por uma questão de respeito jamais quis saber o que existe aí dentro", respondeu olhando a caixa que estava sobre a bancada da loja. "Pode ter qualquer coisa!" arriscou em seguida com um sorriso: "Ouro, prata, jóias... pode não ter nada".

"Pode ter o tal demônio", completou Mannis.

"Se você acredita nessas coisas...", ponderou o homem dando de ombros.

Apesar, ou talvez por causa da história sinistra, o antiquário acabou ficando com a caixa, intrigado com o que lhe foi relatado. Era afinal o tipo de história que "vende um objeto" e acabaria despertando a curiosidade de algum comprador em potencial. E não é isso que as lojas de antiguidade procuram? Algo diferente do normal, algo que atraia o comprador?

A caixa ficou em poder de Mannis por alguns dias enquanto ele debatia consigo mesmo a respeito do que fazer. O mais provável é que tivesse sido enganado pelo vendedor e a história não passasse de uma bobagem fabricada, na melhor das hipóteses uma superstição tola, na pior, estaria vazia, ou teria em seu interior alguma tolice.

Mannis era um bom antiquário e sabia avaliar objetos para determinar que a caixa era de fato antiga. A madeira era trabalhada e os símbolos em hebraico entalhados eram muito bem feitos, um trabalho cuidadoso de carpintaria. Além disso, os detalhes em bronze eram claramente de origem judaica, o que reforçava sua suspeita de que a caixa fosse um tipo de maleta usada por um rabino itinerante para carregar objetos religiosos. Estava claro que havia algo no interior da caixa, ao pegá-la era possível sentir um peso no interior, mas o que seria?

Em duas ocasiões Mannis esteve próximo de abrir a caixa, mas no último momento cedeu a um pressentimento inexplicável. "Bobagem! dizia a si mesmo. "Mas e se..." ponderava a seguir sem ser capaz de completar o argumento em contrário.  

Enfim, o antiquário decidiu que aquilo já havia ido longe demais e que se pretendia se manter no negócio de comercializar objetos antigos, tinha de afastar esse tipo de superstição barata em nome da praticidade. Usando um pequeno formão ele enfim rompeu o lacre de cera que mantinha a caixa lacrada, quebrando ao mesmo tempo a regra de jamais olhar o que existia no interior.

"Foi um tanto frustrante", contou depois de abrir a misteriosa caixa.

Ela continha uma coleção eclética de objetos variados, sem dúvida de origem judaica que incluíam um pequeno cálice de vinho em estanho, um pedaço de granito de 28 centímetros com a palavra hebraica "shalom" (que significa paz) talhada, um velho castiçal de bronze, duas moedas inglesas (pennies) da década de 1920 e os items mais curiosos, dois pequenos cachos de cabelos amarrados com corda. 

Mannis revirou a caixa em busca de mais algum objeto oculto e encontrou em uma reentrância um botão de rosa ressecada.


Como o próprio Mannis reconheceu mais tarde, ele ficou frustrado com o conteúdo da caixa. Nada daquilo era realmente valioso, embora os objetos fossem claramente antiguidades que podiam ser negociadas, não valiam tanto quanto ele havia pagado pela caixa.

Mas é a partir desse ponto que a história começa a ganhar contornos estranhos, construindo lentamente a fama da Caixa do Dybbuk como um objeto amaldiçoado.

"As coisas começaram lentamente!" conta o antiquário se recordando do que houve nas semanas seguintes.

O primeiro incidente ocorreu apenas dois dias depois da caixa ser aberta. Mannis havia saído para cuidar de alguns negócios e quando retornou descobriu a loja toda remexida, como se alguém tivesse jogado objetos e quebrado peças sem qualquer motivo. Uma vez que a vizinhança já havia reportado a ação de ladrões, ele não se importou muito com o ocorrido, muito embora nada tenha sido levado, nem mesmo dinheiro na caixa registradora. Uma das câmeras de segurança da loja simplesmente se desligou. Além disso, que tipo de ladrão seria capaz de arrombar a porta da frente sem quebrar a fechadura e sem causar nenhum dano a ela? O antiquário achou aquilo estranho, mas não encarou como algo relacionado com a Caixa do Dybbuk, esta aliás continuava no mesmo lugar em que ele a havia deixado.

Passaram-se duas semanas para que algo mais dramático acontecesse. Mannus conta que a instalação elétrica da loja, que havia passado por uma revisão recente começou a apresentar problemas com as lâmpadas acendendo e apagando sem ninguém por perto. Um técnico foi chamado e disse que tudo estava em ordem, mas no dia seguinte um atendente da loja contou aterrorizado que várias lâmpadas estouraram sozinhas.

Mannis continuava sem acreditar em alguma conexão daquilo com a Caixa do Dybbuk, mas então um incidente que ele próprio testemunhou fez com que suas convicções fossem colocadas em cheque. 

"Eu cheguei um dia cedo e abri a loja. Logo senti uma fragrância de jasmim no ar, como se alguém com um perfume muito forte tivesse estado ali poucos momentos antes, o que era impossível já que a loja estava fechada. Foi então que ouvi um som vindo do escritório que parecia com alguém xingando e reclamando num idioma que a princípio eu não identifiquei. Achei que podia ser um ladrão, talvez o mesmo que atacou semanas antes".

Mannis apanhou um objeto pesado e abriu a porta do escritório, encontrando o lugar vazio, mas um cheiro muito forte de jasmim. "Era um cheiro muito forte, quase insuportável!" contou lembrando do incidente. "Posteriormente também descobri que as palavras que ouvi eram ditas em hebraico, embora jamais tenha sido capaz de entender o que significava".

Eventualmente Mannis decidiu retirar a Caixa do Dybbuk de sua loja e a levou para casa de sua mãe onde pretendia deixá-la por algum tempo, ao menos até decidir o que fazer. Naquela mesma noite, depois de deixar a caixa lá, sua mãe sofreu um derrame e ficou cega. Ela sobreviveu à experiência mas implorou para que o filho levasse aquela coisa embora pois conseguia sentir a malevolência emanando ali dentro. 

Mannis acabou levando a Caixa do Dybbuk para sua própria casa. Ele começou a dar telefonemas procurando por um rabino que pudesse responder questões a respeito da caixa e quem sabe exorcizar a presença em seu interior. Naquela mesma noite, Mannis experimentou um pesadelo aterrorizante com uma mulher velha que tentava sufocá-lo. Ao acordar aos gritos, o cheiro de jasmim em seu quarto era quase insuportável, mais estranho ainda era o fato dele ter encontrado marcas de arranhões, mordidas e ferimentos ao redor do pescoço, exatamente onde, no pesadelo, a velha havia lhe agarrado.


Além desse pesadelo, Mannis começou a perceber figuras sombrias no canto da vista, como se formas fantasmagóricas estivessem espreitando na periferia de sua visão. À beira de um ataque de nervos, ele visitou duas sinagogas, mas os rabinos disseram não poder ajudá-lo. Um terceiro pediu para ver a caixa e depois de estudá-la disse que o objeto realmente era muito antigo e pertencia a crença judaica. O rabino entretanto, não estava familiarizado com o termo Dybbuk e portanto não poderia ajudá-lo com um exorcismo. Ainda assim ele garantiu que estudaria o caso e buscaria uma solução.

"Eu não posso simplesmente jogar a caixa fora?" perguntou o antiquário, para o que o rabino respondeu que não faria diferença e que poderia até ser pior pois dessa forma o espírito não poderia ser aprisionado novamente.

Finalmente Mannis surgiu com uma ideia no mínimo inusitada para lidar com a situação. Ele decidiu anunciar o objeto no site de vendas eBay, explicando como a caixa havia parado em suas mãos, bem como tudo o que sabia a respeito e também os fenômenos associados a ela. Na descrição do item à venda ele escreveu:

"Eu destruiria essa coisa imediatamente se imaginasse que isso terminaria com essa situação, mas tenho medo que isso torne tudo ainda pior. A verdade é que não sei com o que estou lidando e por isso gostaria que alguém com o devido conhecimento e entendimento ficasse com ela. Eu imagino que alguém que compreende desses assuntos possa se interessar. Se você for uma dessas pessoas, por favor, compre esse item e faça com ela o necessário para encerrar com essa presença maligna".      

Em 2003 um comprador chamado Iosif Nietzke arrematou o item pagando por ela meros 140 dólares e levando para casa a caixa, seu conteúdo estranho e qualquer maldição que a acompanhasse. Quase que imediatamente depois de ter adquirido a caixa, Nietzke começou a mencionar coisas estranhas acontecendo ao seu redor. Objetos eletrônicos apresentavam mal funcionamento, luzes piscavam e objetos pareciam sumir e reaparecer em lugares estranhos. Além disso, o estranho cheiro de jasmim (quase sufocante) podia ser sentido cada noite mais forte. Depois que uma surpreendente infestação de insetos se instalou nas paredes de sua casa, Nietzke achou que já havia experimentado o bastante de um objeto amaldiçoado. Ele resolveu então se livrar dela da mesma maneira que o dono anterior havia feito, colocando a caixa para venda no eBay.

Dessa vez a caixa foi comprada por alguém que não era um mero curioso no assunto, mas uma pessoa que podia jogar uma luz sobre a Caixa do Dybbuk. Jason Haxton era curador do museu da Universidade do Missouri e estudioso de objetos religiosos em Kirksville, Missouri.

  

Haxton não teve melhor sorte do que os donos anteriores no que diz respeito à maldição. Imediatamente depois de adquirir o objeto ele começou a sofrer com vários problemas de saúde com vergões, erupções na pele, crises de alergia, tosse, fatiga e problemas na garganta sem motivo aparente. Ele também mencionava um forte odor de jasmim e de urina de gato todas as manhãs no local onde a caixa ficava guardada. Haxton entrou em contato com Rebecca Edery, uma especialista em artefatos judaicos para estudar a caixa e ela determinou que ela era de fato uma relíquia judaica, possivelmente usada para aprisionar espíritos malignos. 

"As duas portas se abrem como um tipo de armário religioso, ou Aron HaKodesh, um receptáculo para os Manuscritos Sagrados da Torah. Objetos como esse eram usados por rabinos que tinham de sair da sinagoga para confortar alguém que não podia se locomover até o templo. A Torah era carregada ali dentro, portanto não era qualquer objeto. O aprisionamento de um espírito maligno dentro de um Aron HaKodesh fazia sentido já que ele poderia ser considerado sagrado por comportar a Torah. Uma manifestação espúria presa dentro dessa caixa ficaria impedida de escapar".

Haxton, que ainda é o dono da Caixa do Dybbuk, foi aconselhado a buscar o entendimento de outros rabinos para a realização de um ritual que prendesse o espírito novamente. Ele jamais mencionou detalhes de como, quando ou onde, mas tal ritual foi realizado em meados de 2011, com a ajuda de três rabinos ortodoxos que conseguiram exorcizar a presença e aprisioná-la na Caixa. Depois do ocorrido, Haxton se negou a falar a respeito do assunto e se desviou de todas as perguntas feitas a respeito, chegando ao ponto de se negar a participar de entrevistas e palestras. Na única vez em que concordou em falar sobre o assunto disse:

"Eu sou o guardião dessa caixa há sete anos, e nesse período experimentei diferentes sentimentos a respeito do que ela representa. Cada pessoa que deteve essa caixa conta a respeito de um sentimento de perda e alívio. Eu trabalhei com cientistas e cabalistas, ocultistas e especialistas em parapsicologia que puderam explicar um pouco a respeito do que ela é. Eu a mantenho comigo, lacrada em uma arca de acácia, sempre trancafiada. Isso acalmou seus efeitos e não tive mais problemas com ela. Estou satisfeito com o fato dela estar pacificada".


Mas isso não impediu que o objeto ganhasse enorme notoriedade. A Caixa do Dybbuk desde então se tornou uma espécie de fenômeno com sua estranha história sendo contada em numerosos artigos, livros e filmes, mais notavelmente "Possessão", dirigido por Sam Raimi em 2012. Ele também foi objeto de grande debate e discussão em fóruns da internet a ponto de se tornar uma espécie de lenda urbana. Mas até que ponto essa história é verdadeira? Bem, depende muito a quem você perguntar.

Os céticos são rápidos em apontar que a história possui uma série de buracos que carecem de verificação ou provas que jamais foram apresentadas. Tudo o que se tem são testemunhos de pessoas que alegadamente ficaram com a caixa por algum tempo. Além disso, a identidade de alguns dos alegados proprietários, como Iosif Nietzke e do vendedor original, jamais foram reveladas, o que pode significar que eles jamais existiram. O antiquário Kevin Mannis, que colocou a caixa à venda no eBay escreveu um livro a respeito de sua experiência sobrenatural, o que fez muitas pessoas levantarem a suposição de que tudo não passou de uma farsa criada para gerar interesse, construir um mito e faturar com a curiosidade alheia. Além disso, existe o argumento contra a existência de maldições e objetos amaldiçoados que não passariam de meras superstições e exagero.

Outras pessoas, com a mente mais aberta contemplam a possibilidade de que forças misteriosas existem e que podem ser capturadas em objetos, como no caso, uma caixa. Infelizmente as poucas informações que se tem a respeito da origem da caixa tornam muito difícil determinar quem teria conduzido o ritual para prender a tal entidade maligna. Existem tradições místicas cabalísticas que possuem elaborados rituais visando aprisionar e até controlar demônios, fazendo incidir sobre eles o Poder Divino. Mas que tipo de entidade seria essa? A respeito desse pormenor, o dono atual da Caixa do Dybbuk, Jason Haxton, deu sua opinião:

"Eu acredito que a caixa em si seja neutra - não é boa e nem má. Enquanto ela for mantida lacrada e isolada, afastada do alcance das pessoas, ela se manterá nesse estado de neutralidade e não poderá causar nenhum dano. O que ela encerra no seu interior é por definição algo maligno. Eu não sou capaz de definir o que é, e francamente nenhum dos especialistas soube dizer ao certo. O consenso, no entanto, é que ele está melhor preso do que livre. E se depender de mim, ele irá ficar preso para sempre!"

Embora tudo indique que a misteriosa Caixa do Dybbuk seja um objeto real, ainda existe muito debate a respeito de sua natureza. Ela seria um artefato místico usado para capturar uma entidade perversa ou não passaria de uma quinquilharia velha? Com o tempo, as histórias foram se multiplicando e outras Caixas de Dybbuk apareceram ao redor do mundo, cada qual com sua própria mitologia e associada a histórias aterrorizantes.

A verdade nesse objeto amaldiçoado parece fora de nosso alcance. Talvez, a única maneira de realmente saber se existe algo, além de mera superstição, seria abrir a caixa e deixar, seja lá o que está dentro dela, escapar, mas isso, poucas pessoas estariam dispostos a fazer.

domingo, 22 de abril de 2018

A Cadeira Satânica - A História de uma peça de mobília maldita


O Museo de Valladolid é uma instituição que se localiza na cidade de mesmo nome, no sudeste da Espanha.

Ele é conhecido como um dos mais importantes museus ibéricos com um rico acervo de peças, sobretudo voltada para a arqueologia e belas artes. Entre as coleções permanentes em exposição o visitante encontra elementos da história de Valladolid, que é a capital da Província de Leão e Castela. Objetos do passado da cidade como moedas romanas, armas usadas pelos povos mouros que a ocuparam, roupas típicas, obras de arte e pinturas renascentistas disputam as atenções, entretanto a peça mais famosa do Museu é outra: uma cadeira.

Mas não se trata de uma simples peça de mobília antiga do século XVI. A cadeira em questão tem nome e uma história estranha que inclui uma maldição, assassinato e superstição. Ela é chamada de "Cadeira do Diabo" e o título é bem merecido.

De acordo com a lenda, o dono original da cadeira era um estudante português chamado Andres de Proaza que se estabeleceu na Espanha para estudar Medicina na Universidade de Valladolid - uma das mais antigas do mundo. De Proaza, segundo alguns, era um jovem de apenas 22 anos, inteligente e determinado, certas fontes sugerem que ele tinha ancestrais judeus responsáveis por introduzir técnicas médicas aprendidas com os árabes. 

Em 1550, o Curso de Medicina enfrentava uma furiosa oposição da Igreja Católica e da Inquisição que censuravam duramente as aulas de anatomia. O renomado Dom Alfonso Rodriguez de Guevara, decano do Departamento de Medicina tentou introduzir aulas de anatomia e dissecação conforme ele havia aprendido na Itália, mas os clérigos espanhóis ficaram escandalizados. Na concepção dos religiosos, estudar cadáveres equivalia a profanação e portanto era blasfêmia.  

Proaza já possuía um profundo conhecimento em anatomia. Seu pai e avô haviam estudado em segredo com médicos mouriscos que dominavam as principais técnicas da época. Ainda criança ele frequentou as clínicas de seu pai e avô onde teve contato com todo tipo de aflição e doença, muitas das quais os estudantes normais só vinham a conhecer através de seus mestres. Mais do que isso, Proaza tinha uma vantagem sobre seus colegas: ele já havia visto autópsias e não era estranho aos horrores e maravilhas oferecidos pela engenhosa máquina humana.


Não é de se estranhar que todos na Universidade tenham ficado impressionados com o conhecimento de Andres. Mestre Guevara tomou o jovem português como seu pupilo e pensava até em transformá-lo em seu sucessor. Contudo, havia algo estranho naquele rapaz, algo que deixava algumas pessoas inquietas, embora nem todos fossem capazes de determinar de que se tratava. Talvez fosse a maneira como Andres falava sem cerimônia de temas funestos e até sinistros. Quem sabe fosse sua familiaridade com a condição humana já que nada parecia perturbá-lo; enquanto a maioria dos alunos demonstrava uma natural aversão ao sangue e às vicissitudes da carne, Proaza sequer piscava.     
     
Ninguém sabe exatamente como apareceram os primeiros rumores. É possível que tenham sido os vizinhos que residiam nos arredores da quinta que Proaza havia alugado. Talvez eles tenham ouvido sons estranhos: gemidos e lamentos que chegavam até eles na calada da noite. Pode ter sido ainda a estranha coloração do riacho que passava atrás da casa do jovem médico, que de vez em quando amanhecia avermelhado. Seja como for, os boatos de que o jovem estudante de medicina era praticante de necromancia começaram a se espalhar. 

Foi então que uma criança de nove anos, um jovem ajudante de cavalariço desapareceu e os vizinhos de Proaza ficaram atônitos. Uma testemunha afirmava ter visto o estudante conversando com uma criança que poderia ser o menino sumido. Temendo o pior, contataram as autoridades que foram até a quinta do médico. Bateram várias vezes mas ele não atendeu, resolveram então arrombar a porta e revistar o lugar por conta própria.

Um cheiro desagradável os levou imediatamente até o porão que estava coberto por serragem e palha seca usados para absorver o odor e umidade. Havia uma grande mesa de madeira de onde escorria em profusão sangue fresco. A mesa estava coberta por um lençol, mas era possível perceber um volume oculto sob o tecido manchado de vermelho. Os homens engoliram seus temores e olharam o que estava ali embaixo: não era mais o corpo de uma criança, e sim os restos sanguinolentos de um cadáver secionado. 

O corpo era como "um peixe numa feira", aberto com as entranhas e os orgãos espalhados à vista de qualquer testemunha casual. A morte exposta para quem quisesse olhar. Em um carrinho de mão colocado de lado haviam ainda as carcaças de vários cães e gatos igualmente explorados pela curiosidade do jovem anatomista que confrontado com a descoberta reconheceu sua culpa.


Assassinato não era o único pecado cometido por Proaza. 

Durante seu julgamento, conduzido com alarde pela Inquisção, ele admitiu ter firmado um pacto com o Demônio, prometendo sua alma em troca do conhecimento do corpo humano. O jovem médico se gabava de ter criado um método para se comunicar com o Príncipe das Trevas usando para isso uma cadeira. Não uma simples cadeira, tenha em mente, mas um assento oferecido a ele como presente por um Necromante de Navarra.

Sentando-se na cadeira colocada no centro de um círculo de magia desenhado no chão, Proaza conseguia audiências com o demônio que surgia sempre de madrugada. O Senhor das Trevas então cumpria sua parte na barganha, revelando o que o jovem médico desejava saber a respeito de seu ofício. Segundo Proaza esse era o segredo de seu brilhantismo. Ele contou ainda que qualquer médico poderia fazer a mesma barganha com o diabo se assim desejasse, bastando sentar na cadeira e aceitar o mesmo acordo. Entretanto, qualquer um que não fosse um médico e ousasse fazê-lo, morreria três dias depois, o mesmo valendo para qualquer um estúpido o bastante para destruir a cadeira.

Pelos seus crimes inenarráveis, Andres de Proaza foi condenado à forca e segundo os registros, a sentença foi cumprida conforme ditado pelo Inquisidor mor.

Meses depois, um leilão foi realizado para que os bens pertencentes a Proaza fossem vendidos. Não é de se surpreender que poucas pessoas manifestaram interesse em adquirir a mobília associada a um assassino de crianças e satanista. Por essa razão, as coisas dele acabaram indo parar em um depósito na velha universidade. 

 Séculos se passaram, até que a história a respeito da cadeira foi quase que inteiramente esquecida.


No século XIX, um inspetor da Universidade encontrou a cadeira no depósito e tomou posse dela. O homem sentou na cadeira e conforme a maldição proferida por Proaza, morreu três dias depois em um curioso acidente.  Seu sucessor foi igualmente descuidado; ele também sentou na cadeira e não apenas morreu três dias depois, como foi encontrado sentado no assento maldito. A causa da morte teria sido um ataque cardíaco fulminante, mas para a maioria das pessoas ele foi vítima da Cadeira Satânica.

A essa altura, alguém descobriu o registro a respeito da cadeira e fez alarde sobre a suposta maldição. Depois de alegadamente tomar a vida de dois inocentes, a maldição precisava ser quebrada. Para garantir que as energias diabólicas da peça fossem dissipadas, um sacerdote ordenou que ela fosse levada até a capela da Universidade e suspensa de cabeça para baixo ao lado do altar. Lá ela ficou até 1890 quando foi transferida para o Museo de Valladolid depois que a capela foi demolida.

Em seu novo lar, uma faixa vermelha foi amarrada nos braços da cadeira evitando assim que visitantes desavisados sentassem nela. É claro, isso não impediu que pessoas tentassem fazê-lo e nem que ambiciosos médicos sentassem nela esperando que assim um pacto fosse firmado e os poderes infernais concedessem a eles genialidade sobrenatural. Depois de algum tempo, a direção do Museu decidiu fechar a cadeira em um armário de vidro para evitar que curiosos sentassem nela ou a danificassem. Houve um tempo em que maldições seriam o suficiente para afastar as pessoas, mas não nos tempos modernos, quando elas se vêem atraídas pelas qualidades sobrenaturais de artefatos ocultos.

A Cadeira Satânica continua em exibição no Museo de Valladolid, se ela continua agraciando aqueles que sentam nela com audiências demoníacas, é assunto para controvérsia.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

O Segredo do Dr. Willett - Os artefatos profanos de Charles Dexter Ward


“Nesse meio tempo, Willett subira ao laboratório desmantelado e trouxera para baixo alguns itens não incluídos na mudança do mês de Julho anterior, dentro de uma cesta tapada, por isso o Sr. Ward não viu do que se tratava".…”

A postagem a seguir tem relação com a fantástica novela "O Caso de Charles Dexter Ward"  de H.P. Lovecraft. Se você não leu essa história, é impostante avisar que o artigo possui spoilers a respeito de temas centrais. Proceda por sua conta.

Para celebrar os 90 anos que Charles Dexter Ward foi destruído pelo Dr. Marinus Willet, em 13 de abril de 1928, aqui está uma postagem relacionada. 

O Laboratório móvel de Joseph Curwen
por Bigford Works (Dale Bigford)


Em Julho de 1966 a Câmara de Comércio de Providence, no Estado de Rhode Island leiloou a propriedade localizada no número 10 da Rua Barnes. A casa e terreno, um belo exemplo do estilo victoriano de 1880 foi propriedade do viúvo e sem filhos médico, Dr. Marinus Bicknell Willett. Willett faleceu em 1950 e a casa ficou vazia desde então. Curiosamente, o testamento de Willett possuía uma cláusula acessória de que a mansão do bom doutor deveria continuar vazia pelo período em que um fundo especialmente reservado para suprir as taxas se mantivesse. Em seguida, a cláusula explicitava que ela deveria ser demolida.

A despeito dos protestos da firma legal que representava o espólio, brechas legais que não existiam na década de 1950 permitiram que a cidade assumisse a posse da propriedade.

Após o leilão os novos donos que arremataram a propriedade imediatamente contrataram operários para fazer a restauração da casa. Embora vazia por 16 anos a estrutura estava em excelentes condições, com apenas alguns reparos menores sendo necessários em áreas onde o gesso, piso, calefação e encanamento haviam se deteriorado. Além desse trabalho necessário, o restante se resumia a limpeza e manutenção básica.

Doutor Marinnus Willett
No interior do belo aposento em que ficava a biblioteca os operários encontraram uma situação inusitada: Uma pintura à óleo de um homem de boa aparência com trajes do período de 1920 e uma placa com as iniciais "CDW". A tela estava colocada sobre a lareira, ou assim parecia. Logo ficou claro que a pesada moldura que envolvia o retrato estava fortemente presa à parede. Enquanto buscavam por uma forma de soltá-lo, um dos operários descobriu uma alavanca escondida. Uma vez pressionada dobradiças enferrujadas estalaram revelando um nicho oculto atrás da tela.

Atrás da pintura, em um gabinete oculto, coberto de grossa camada de poeira acumulada descobriram um velho baú de madeira contendo várias pastas com papéis, documentos, recortes de jornal e fotografias. 

Se o chefe dos operários não estivesse presente no local, provavelmente o baú teria discretamente sumido no porta malas de um caminhão e desaparecido para sempre. 

Tendo vasta experiência em estruturas antigas e mobiliário o capataz ficou surpreso com a descoberta. O baú de madeira reforçada era um belo exemplo de carpintaria do século XVIII. O estilo da peça remetia ao período medieval, tipicamente usado em caixões, mas não se tratava de um relicário ou ataúde. Alças empoeiradas de couro cru evidenciava que o item era móvel e costumava ser carregado. Os pesados arremates de bronze já corroídos sugeriam que nem sempre ele havia sido usado como uma caixa para guardar objetos e que provavelmente ele havia sido colocado em um ambiente úmido por algum tempo. As fechaduras também tinham uma aparência antiga. O baú foi entregue aos novos donos da casa - que por direito haviam adquirido tudo em seu interior. Eles imediatamente contrataram um chaveiro para abrir a fechadura e descobrir o que continha.   

Quando finalmente a tampa do baú foi destrancada, os donos recuaram em aversão. A caixa segundo um antiquário foi identificada como um estojo de viagem usado por apotecários para carregar seus artigos. O que havia dentro, no entanto, era de natureza muito mais sinistra.

O baú era uma espécie de laboratório móvel. Será que o Dr. Willett escondia uma vida secreta? Estaria aquele pilar da comunidade envolvido com as artes negras e com superstições?  

Charles Dexter Ward
Ansiosos por evitar um escândalo os donos entraram em contato com professores da Universidade Brown para que levassem o baú e avaliassem seu possível "valor histórico". Após uma avaliação preliminar um dos professores achou por bem consultar um colega da Universidade Miskatonic. Todos estavam de acordo que a natureza do objeto qualificavam a Miskatonic e seus departamentos de ciências humanas como os mais qualificados para um exame. Eles poderiam descobrir o seu propósito.

A Escola de Medicina de Arkham, concordou em contratar uma agência de detetives particulares para conduzir uma investigação a respeito da vida pregressa do Dr. Willett. Buscavam algo que fornecesse pistas a respeito da descoberta sem precedentes feita na sua casa.

O pouco que descobriram resultou em estranhas revelações.

O Dr. Marinus Bicknell Willett, nasceu em 14 de março de 1861, em  Providence. Ele cursou a  Universidade de Medicina de Brown em 1879, graduando-se com honras em 1883. No ano seguinte, Willett comprou a mansão na Rua Barnes, que lhe serviu de residência até o dia de sua morte. Sua carreira se iniciou em 1884 e os arquivos demonstram que ele exerceu seu ofício, sendo reconhecido como um dos melhores e mais respeitados médicos particulares de Providence. Entre seus clientes estavam algumas das mais ricas famílias da cidade.

Os investigadores não encontraram nada de estranho em sua carreira até meados de 1928 quando descobriram seu envolvimento em um estranho incidente. Um rapaz chamado Charles D. Ward nascido em Providence, paciente de longa data do Dr. Willett, fora internado no Sanatório da Ilha Conanicut, diagnosticado com colapso nervoso. O Sr. Ward teria escapado de seu confinamento em circunstâncias misteriosas e após a espetacular fuga, ninguém mais ouviu falar dele.

 À época, as más línguas especularam se de alguma maneira Willett teria auxiliado o jovem Sr. Ward a escapar da instituição. O incidente foi abafado, mas os rumores arranharam a carreira do médico deixando uma suspeita de má conduta em seu perfil até então perfeito.

Pode ser inferido que o declínio na carreira do Dr. Willett se acentuou após esses rumores. Sabe-se que Willett resolveu tirar um longo período de férias em 1929 e que retornou a Providence apenas três anos depois. Nesse ínterim as finanças do médico parecem ter sido dilapidadas pela Grande Depressão que o atingiu com força. Uma vez retornando a Providence ele tentou voltar a exercer, mas a maioria das famílias que ele costumava atender já haviam optado por outros profissionais.

A descoberta do quadro na Rua Barnes deixava claro que o retrato com as iniciais "CDW" pertencia ao jovem Charles Dexter Ward. O que não estava claro era a razão para a tela ganhar tanto destaque na parede da biblioteca de Willett e o que seriam os objetos de natureza oculta atrás dele.

Joseph Curwen
Os relatórios a respeito do período em que Ward esteve no Sanatório Conanicut são difíceis de serem localizados. Na ausência de seus pais, Theodore e Abigail Ward que morreram num espaço de dez anos após o sumiço de seu filho único, não há pessoas que possam requisitar os registros. Ward não tinha outros parentes próximos e mesmo que existissem há rumores de que muitos desses documentos foram destruídos. Há suspeitas de que os papéis da internação de Ward no Sanatório tenham sido assinados pelo Dr. Willett, o que faz sentido uma vez que ele era o médico de confiança dos Ward na época. Também existem indícios de que Willett tenha sido um dos médicos que realizou exames no rapaz na ocasião de seu confinamento. Na época alguns jornais relacionaram a internação de Ward com uma série de estranhos casos de roubo e depredações em velhos cemitérios do período colonial de Providence.

Tudo o que se sabe é que o colapso de Ward estava de alguma forma conectado a uma pesquisa genealógica que ele vinha realizando a respeito de sua genealogia. Um dos alvos principais das pesquisas de Ward era um antepassado chamado Joseph Curwen que viveu em Providence na época colonial. Mas a respeito de Curwen existem pouquíssimas informações disponíveis. Ward parece ter vasculhado arquivos e removido a maioria dos documentos e certidões a respeito de seu ancestral.

Ward jamais foi acusado formalmente de ato ou atos criminosos, contudo, após o seu dramático desaparecimento as investigações do caso envolvendo as profanações, foram encerradas. Nenhuma outra notificação foi feita.

Os papéis que estavam reunidos na misteriosa caixa em poder de Willett eram bastante curiosos. Uma pasta continha artigos recortados de periódicos entre 1927-28, noticiando o roubo a sepulturas e ocorrências de profanação em Providence. Também havia um recorte a respeito das queixas frequentes de habitantes das proximidades do cemitério colonial concernente a cães barulhentos que causavam verdadeira algazarra à noite.

As fotografias reunidas em outro envelope retratavam Charles D. Ward em várias poses, provavelmente nos dias em que ele esteve internado no Sanatório. As fotos amadoras, provavelmente feitas pelo Dr. Willett com uma câmera de sua propriedade, pareciam se concentrar em manchas e sinais de nascença de Ward. Em alguns existentes e outros ausentes.

Também havia fotografias de uma antiga sepultura profanada pertencente a um tal Ehzra Wheedon, do cemitério colonial e de uma antiga casa que segundo informações foi adquirida por Ward e serviu como sua morada até seu confinamento e subsequente sumiço. Uma curiosa fotografia, aparentemente tirada de surpresa, mostrava um homem vestindo chapéu, sobretudo e óculos escuros. No verso dela estava escrito o nome "Doutor Allen". Um detetive sugeriu que a foto era o tipo de material usado por investigadores particulares como evidência.


A avaliação dos professores da Universidade Miskatonic quanto ao restante dos itens no baú serviram para levantar mais questionamentos do que para oferecer respostas.

Todos os objetos estavam cobertos por uma densa camada de poeira e teias de aranha evidenciando que eles não eram manipulados a muito tempo. 

O conteúdo mais eclético era uma mistura de ingredientes alquímicos, tanto processados quanto crus acondicionados em frascos grossos de vidro, algumas relíquias de natureza mística, páginas amareladas arrancadas de tomos, pergaminhos antigos, diários relatando o resultado de experiências e reações químicas, além de cadernos com relatos de experimentos no campo da necromancia. Além destes itens, havia ainda alguns instrumentos de tortura autênticos - um chicote conhecido como gato de nove caudas e um quebrador de dedos, inquietantes regalias religiosas, uma estatueta e placas de chumbo com gravações peculiares.


Mais perturbador talvez tenham sido a descoberta de uma caixa de madeira contendo oito velas que uma vez examinadas se provaram ter sido produzidas com gordura extraída de seres humanos. Finalmente haviam seis potes bojudos de chumbo cinza escuros contendo poeiras de procedência ignorada. Esses potes estavam rotulados com uma caligrafia rebuscada indicando o conteúdo de cada um. Lia-se "Custodes" em dois deles e nos demais a palavra "Materia" seguida de um número romano (I a IV). As palavras em latim significavam respectivamente Guardas e Material. Todos os vasilhames tinham tampas de metal e cobertas por uma cera amarelada na qual haviam sido desenhados símbolos cabalísticos.

Uma carta, aparentemente escrita pelo próprio Dr. Willett, no formato de um diário particular (ou confissão) foi de pouca ajuda para entender o caso. A carta extremamente confusa mencionava com indisfarçável terror algo chamado "118" que por pouco não teria matado o médico. Willett ao que tudo indica não era o dono original daqueles objetos e os havia adquirido com a intensão original de destruí-los. Adicionalmente, sua carta fazia menção a "grandes pensadores" e "conhecimento profano que poderia ser usado para o mal". Parece óbvio que o Dr. Willett não era um praticante de artes ocultas, embora pelo seu testemunho ele acreditasse na existência destas.

Departamentos individuais da Universidade Miskatonic se dedicaram cada qual a uma diferente tarefa no exame dos itens do baú e tiraram suas próprias conclusões:


Alguns dos objetos encerrados no baú, como os vidros e papéis eram típicos do século XVIII, outros tinham uma idade tão avançada que não foi possível fazer uma presunção. Alguns dos itens esotéricos eram bem conhecidos, tratados de feitiçaria medievais enquanto outros eram enigmas indecifráveis de procedência ignorada. Os ingredientes nos vidros eram derivados de plantas, de animais ou de minerais comuns e raros. De fato, todos eles sugeriam estar ligados a processos biológicos em especial a estimulação da vida e sua preservação.

A poeira dos frascos de chumbo identificados como "Custodes" era fina como grafite e aderia a pele com uma consistência de talco. Sua coloração era azul-acinzentada. A análise laboratorial dessa substância foi inconclusiva.

Já a substância dos frascos marcados como "Materia", mais densa e granulosa, resultou em uma inusitada descoberta: tratava-se de material biológico (ossos, cartilagens e cabelo) pulverizados e misturados com uma série de outros componentes até adquirir uma coloração cinza escura ou marrom-esverdeada. Análises químicas revelaram que ela tinha uma curiosa resistência a dissolução ou destruição. A substância também não reagia a nenhum teste envolvendo ácidos, variação de temperatura ou composição química. As amostras resistiam a qualquer esforço de serem combinadas. Mesmo quando porções de duas ou mais substâncias diferentes eram acrescidas, elas simplesmente se separavam com rapidez a ponto de poder ser observado a olho nu, mantendo assim sua pureza.


A opinião do Departamento de Química é que as poeiras nos vasilhames "Materia", resultavam de pulverização de material humano em um grau de pureza notável. Os frascos, feitos de chumbo eram usados para preservar essa qualidade e evitar qualquer contaminação externa. Um dos frascos, o de número III, possuía um rótulo adicional no qual estava escrito o nome de Ehzra Wheedon (o nome de uma das sepulturas profanadas).

Havia outras revelações fora da esfera acadêmica sobre o caso.

Um dos detetives contratados pela Universidade de Medicina descobriu que um colega de profissão, que por sua vez fora contratado por Willett em 1927, apareceu morto meses antes do desaparecimento de Ward do Sanatório. O corpo do detetive foi achado em um beco, cerca de uma quadra de distância de seu escritório, vítima de um aparente roubo, ainda que seu relógio e carteira não tenham sido subtraídos pelo criminoso. Entre os objetos encontrados com o investigador estava uma cópia da fotografia do misterioso "Dr. Allen", indivíduo cuja identidade não foi determinada e cujo paradeiro permanece desconhecido. É possível que o detetive estivesse procurando informações a respeito de Allen quando foi morto.


Um objeto que chamou muita a atenção no lote recuperado dentro do baú foi uma estatueta com base confeccionada em chumbo. A peça maciça medindo 18 centímetros e pesando 14 quilos apresenta uma estranha forma composta de globos e ramificações tentaculares que se estendem e abraçam a massa dando a ela uma espécie de coesão. Na base que serve de pedestal podem ser vistos curiosos símbolos ou algum tipo de alfabeto de origem desconhecida. Pesquisadores do Departamento de Metafísica Medieval, uma cadeira única da Universidade Miskatonic aventaram a possibilidade da peça ser uma representação de um princípio alquímico que simbolizaria o tempo e o espaço.

Segundo o Departamento de História, as ferramentas de tortura parecem ser objetos autênticos provavelmente usados no período colonial da Nova Inglaterra. O chicote, conhecido como gato de nove caudas era um instrumento de flagelação usada para o castigo corporal. A peça possuía sinais de sangue seco que denotavam seu uso. O instrumento de tortura conhecido como "quebra dedos" também remonta ao período colonial e foi usado em interrogatórios na infame Caça às Bruxas. Além dessas peças, uma faca com gravação de símbolos na lâmina recurva também chamou a atenção dos pesquisadores. As placas de chumbo com inscrições em hebraico e latim, sem dúvida objetos usados em cerimônias alquímicas também foram entregues ao departamento de História e Antropologia para serem analisados.

Após a conclusão das análises dos itens, a família que havia adquirido as peças concordou em doá-los para a Universidade Miskatonic que os aceitou de bom grado. Eles foram movidos para o Depósito da Escola de Medicina onde permaneceram. Em 1971, ocorreu um arrombamento criminoso neste exato depósito. A princípio os investigadores não perceberam a subtração de nenhum objeto que estava guardado no local, apenas seis anos mais tarde um arquivista descobriu que alguns itens que estavam no interior do baú haviam sido levados. Entre os objetos desaparecidos estavam os frascos de chumbo (e seu conteúdo), algumas páginas de papéis, os diários e a estatueta de chumbo. Um inquérito foi instaurado, mas nenhum suspeito foi detido embora duas conhecidas lojas de antiguidades de Arkham tenham sido investigadas como possíveis receptadores.

Há boatos de que a estatueta tenha sido encontrada na posse de Marshall Applewhite, líder da Seita Heaven's Gate que em 1997 comandou um suicídio coletivo de 39 membros de seu culto apocalíptico. Os membros da Seita acreditavam que iriam embarcar em uma nave espacial oculta na cauda do Cometa Hale-Bopp quando este se encontrava em seu brilho máximo. Os rumores nunca foram confirmados a respeito dessa descoberta.

Eventualmente o baú que pertenceu ao Dr. Willett foi esquecido.

Ele permaneceu em um armário trancado no depósito por décadas até ser redescoberto em janeiro de 2018 em um inventário de rotina. Atualmente ele se encontra em exibição no Museu da Escola de Medicina como um exemplo de pesquisa clandestina de alquimia/medicina do século XVIII.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

The Witch Artifacts - The macabre Keziah Mason collection


"To some, though, the greatest mystery of all is the variety of utterly inexplicable objects—objects whose shapes, materials, types of workmanship, and purposes baffle all conjecture—found scattered amidst the wreckage in evidently diverse states of injury."

The Dreams in the Witch House
- H.P. Lovecraft

Objects created by Jason McKittrick,

A unique collection of items based on H.P. Lovecraft's classic tale, "Dreams in the Witch House". Created in incredible detail by Mythos artist Jason McKittrick, this collection is composed of artifacts belonging to Keziah Mason found in the Witch House after the unfortunate incidents involving Miskatonic University student Walter Gilman.

This collection of strange objects from the colonial period was behind a plaster wall in the attic that was occupied by the young mathematician Walter Gilman. The items were collected by the police and since there was no consensus about their purpose or if they had been used in any criminal activity, they were eventually donated to the Miskatonic University History Department. Later they became part of the Museum of History, Archeology and Anthropology collection as extremely valuable items for the colonial history of Arkham and New England.

THE MANUSCRIPT

"Other objects found included the mingled fragments of many books and papers, together with a yellowish dust left from the total disintegration of still older books and papers. All, without exception, appeared to deal with black magic in its most advanced and horrible forms; and the evidently recent date of certain items is still a mystery as unsolved as that of the modern human bones. An even greater mystery is the absolute homogeneity of the crabbed, archaic writing found on a wide range of papers whose conditions and watermarks suggest age differences of at least 150 to 200 years."



Most of the papers found in the Witche's House were greatly deteriorated and most cannot be recovered, despite the efforts of the University team. This unique page of vellum has survived almost by miracle the action of time, humidity and dust. Considering that she was exposed without any protection it is incredible that he is in such good condition.

The manuscript presents a series of directions and landmarks scattered around the infamous house, constituting what in theory would be a guide of how to move inside the house using references to access "planes and spaces beyond". In theory, following a certain order of movement within the house it would be possible to access dimensional portals that allow traveling not only through space, but time. Presumably the paper was used by Keziah Mason in her occult practices.

Professors in the controversial Medieval Metaphysics course have conducted numerous studies and come to the conclusion that this symbols and annotations refers to extremely advanced mathematical calculations. Not even the students of the Department of Exact Sciences and Mathematics were able to decipher all the calculations and the complicated tabulation. How a practically illiterate woman of the seventeenth century used these formulas is an enigma. Some people suspected that the notes would belong to Walter Gilman, who was a mathematics student until his tragic death, yet a sample analysis resulted in confirmation that vellum and paint used in the parchment were at least 200 years old.

Unfortunately with the destruction of the house there is no way to define if the marks really existed and what would be their practical use.

THE KNIFE

"On this deep bony layer rested a knife of great size, obvious antiquity, and grotesque, ornate, and exotic design—above which the debris was piled.".



The knife used by Keziah Mason in her rituals of witchcraft and alleged sacrifices was buried in a pile of bones and dust. The material was identified by the biology laboratory as a mixture of human bones - the vast majority belonging to children, and common mice. Many of these bones were so worn that they disintegrated, evidencing their monumental antiquity. However, clinical analysis of some samples attested that some of the material was of recent origin, less than 10 years old (!)

No explanation for this was obtained.

The rudimentary knife is made of a kind of sharp Silex and is about 20 centimeters long from one end to the other. The blade is protected by strips of raw leather and ornamented with a bluish stone (possibly lapis lazuli) attached to the pommel by a chain. It is noteworthy that the blade remains sharp despite being abandoned for so long.

It has no sheath and stands on a smooth stone.

THE STATUETE

"One of these things—which excited several Miskatonic professors profoundly—is a badly damaged monstrosity plainly resembling the strange image which Gilman gave to the college museum, save that it is larger, wrought of some peculiar bluish stone instead of metal, and possessed of a singularly angled pedestal with undecipherable hieroglyphics."


Possibly the most unusual piece found in the sealed room of the attic.

The piece is made of a bluish stone, carved rudimentary but with impressive details, evidencing the talent of its artificer. There is no consensus as to what it means, but everything suggests that it is a representation of some mythical creature. Anthropology scholars have suggested that it could be the representation of some demonic entity.

Measuring exactly 17 centimeters high, from the base of the pedestal to the tip, the piece is massive weighing 5 pounds and 450 grams. Scholars were divided as to the chemical composition of the material used; some suggested that the raw material could be part of a asteroid.

The curious hieroglyphs engraved at the base of the statuette are also a mystery. No student who examined the piece was able to determine its origin or meaning.

In 1931, remnant members of the Miskatonic Expedition who visited Antarctica suggested that the piece held a striking resemblance to biological specimens found in excavations on the icy Continent. Once the specimens were destroyed in a tragic blizzard there was no way to corroborate these suspicions. Members of the expedition who came in contact with the specimens, including Professors Lake and Atwood, respectively from the Departments of Biology and Astronomy, tragically died during the same snowstorm.

In 1933, one of the surviving members of the fateful Expedition, the student graduate and airplane pilot, Danforth attempted to destroy the piece that was on display at the Museum. Security guards managed to prevent him from damaging the piece. The student paid a fine and had to pay for the damages caused. He did not explain what motivated his violent reaction to the piece.

METAL BOWL

"Archaeologists and anthropologists are still trying to explain the bizarre designs chased on a crushed bowl of light metal whose inner side bore ominous brownish stains when found".



The curious bowl or basin of metal is quite rustic and was found slightly damaged with marks consistent with crushing. The metal used for its creation challenged the notions of metallurgy of the specialists who could not determine how it was produced.

The piece is 25 centimeters in diameter and curious symbols carefully engraved inside. The symbols closely resemble those engraved on the base of the statuette which indicates that the pieces are in some way related. The basin weighs only 3 pounds.

The brown stains found inside the basin, according to the analysis of the Biology Laboratory, are consistent with dry blood. There is plenty of documentation about similar utensils being used to collect blood in rituals of black magic. The specialists of the Department of Anthropology were unanimous in affirming that the purpose of the piece was to collect the blood produced in sacrifices.

This piece disappeared from the collection of the University Museum in the year 1965.

Its current whereabouts is unknown.

THE RAT

"In the midst of this debris, wedged between a fallen plank and a cluster of cemented bricks from the ruined chimney, was an object destined to cause more bafflement, veiled fright, and openly superstitious talk in Arkham than anything else discovered in the haunted and accursed building. This object was the partly crushed skeleton of a huge, diseased rat, whose abnormalities of form are still a topic of debate and source of singular reticence among the members of Miskatonic’s department of comparative anatomy. Very little concerning this skeleton has leaked out, but the workmen who found it whisper in shocked tones about the long, brownish hairs with which it was associated.".


The skeleton of this huge rodent found in the Witch House was handed to the professors of the Department of Biology for further analysis.

There was no consensus as to the remarkable peculiarities of its bony structure, especially regarding the skull and forepaws, which resembled hands. Unfortunately the specimen was destroyed by a museum cleaner who threw it into the incinerator believing it to be a simple rat carcass. The photo above is one of the only remaining photos that corroborate the existence of the specimen.

At least the skull that had been removed for studies by another team survived to the present day.
RAT SKULL


The peculiar rodent skull found in the Witch House basement is one of the most curious pieces of the collection of the Miskatonic University Museum.

The object is a partially crushed skull of a huge rat whose abnormalities in its cranial structure are still the subject of heated debate and singular reticence among the members of the University's Comparative Anatomy Department.

The skull was placed in a dome-shaped glass and can found in the University's Biology Laboratory. He was dubbed the "Monster Rodent" by students, though some of the more adventurous ones like to call him Brown Jenkin thanks to a popular belief that Keziah Mason would have transformed a criminal into a pet servant.

The piece was removed from the collection once and remained missing for several weeks in mid-1970, then reappeared in a garbage can in the University courtyard, wrapped in newspaper sheets. The case has never been explained and is considered as a joke from of some student.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Mão da Glória - Um Talismã Macabro para abrir portas e passagens


Quem já ouviu falar da Mão da Glória, levante a... mão.

Desculpem, não deu para resistir. 

Dentre os muitos objetos peculiares e bizarros do submundo oculto, a Mão da Glória talvez seja um dos mais conhecidos, em parte por figurar em filmes e histórias de horror que a tornaram bastante conhecida. O macabro talismã já apareceu em Dungeons and Dragons e Pathfinder, já figurou no background de filmes e romances como Coração Satânico, Hellboy e Harry Potter, além de ser um item equipado nos personagens de Diablo.

A Mão da Glória, no entanto, é um objeto bastante real, com uma longa história de mito e fato que se misturam criando um confuso folclore cheio de superstições e crendices. O termo "mão da glória", acredita-se deriva do francês "main de glorie", o nome mágico da raiz de mandragore (mandrágora). Essa raiz que os alquimistas e feiticeiros consideravam um potente ingrediente místico, crescia em lugares onde criminosos e malfeitores eram executados. A mandrágora também era usada como combustível para lamparinas, criando uma luz tênue utilizada por ladrões por não chamar a atenção. 

A sinistra Mão da Glória é citada em grimórios de feitiçaria como o Petit Albert de 1722 e no Compendium Maleficarum, um manual italiano escrito por Caçadores de Bruxas e publicado em Veneza no ano de 1608. É provável que a crença nos poderes mágicos desse talismã seja ainda mais antiga, remontando ao Império Romano, ou mesmo antes dele. Sabe-se que os etruscos acreditavam que pedaços do corpo de pessoas poderosas retinham parte de seu poder. Usando essas partes cuidadosamente embalsamadas acreditavam obter sua força, vitalidade ou as habilidades do dono original. Essa crença também era comum entre os celtas que preservavam crânios, ossos, línguas, dentes e até a genitália de indivíduos notáveis como verdadeiros tesouros. Mesmo os romanos colecionavam partes de inimigos vencidos em suas campanhas que eram contrabandeadas para o Coração do Império e mostradas como mórbidos troféus conquistados em território bárbaro.


No Norte da Inglaterra existem muitas narrativas a respeito da criação e do uso da Mão da Glória por feiticeiros, bruxos e ladrões que se valiam das suas capacidades. Em 1590, um certo John Fian confessou sob tortura durante um Julgamento de Bruxos ocorrido na Escócia, ter invadido uma igreja usando uma Mão da Glória. Fian, claro, foi condenado por heresia e bruxaria.

A Mão da Glória clássica é uma mão de homem cortada na altura do pulso, devidamente seca e mumificada para melhor conservação e manipulação. O processo de secagem deixa a mão curtida; ela adquire uma coloração cinzenta e um aspecto de couro rústico. Uma camada de cera é aplicada nos dedos para que eles endureçam em uma posição esticada. Na ponta de cada dedo acrescenta-se um pavio de acendimento, feito de cabelo, preferencialmente de uma jovem mulher virgem. Cada ponta de dedo se torna dessa maneira uma vela que pode ser acesa para invocar suas propriedades místicas.

Algumas Mãos da Glória se diferem quanto a sua aparência, algumas possuem uma corda para que possa ser colocada em volta do pescoço, enquanto outras são ajustadas para permanecer de pé sobre uma superfície plana, como um bizarro castiçal. Em alguns modelos, a mão permanece fechada segurando uma única vela, esta geralmente feita de gordura humana extraída da barriga ou das nádegas de uma criança não batizada.

A confecção desse medonho talismã místico depende de algumas condições que devem ser observadas. Em primeiro lugar, a mão deve ter uma origem específica, ela deve ser cortada de um assassino que foi enforcado pelos seus crimes. A mão deve ser extraída do corpo enquanto este ainda estiver pendendo na ponta da corda. Usualmente, a mão escolhida é a direita, especialmente se essa foi a mão utilizada pelo assassino quando ele produziu sua vítima. Em alguns casos, a mão esquerda pode ser obtida se o assassino reconhecidamente era canhoto. O Petit Albert adverte para que jamais sejam tomadas as duas mãos da mesma fonte.


A mão deve ser serrada à noite, de preferência durante uma madrugada sem lua, sendo que na eminência de um eclipse os poderes da Mão da Glória são amplificados. O sangue residual deve ser drenado e os dedos precisam ser posicionados. Ela é enrolada em um tipo especial de linho fino e depositada em um jarro contendo uma solução de salitre (nitrato de potássio), pimentas pulverizadas e pedras de sal grosso. Depois de duas semanas, a mão é removida e deixada para secar naturalmente, o que pode demorar alguns meses. Se o objetivo for torná-la uma vela, os dedos são mergulhados em cera, se não, uma vela adequada é posicionada como se estivesse sendo segura. O processo inteiro é acompanhado de certos rituais, incluindo a leitura de poemas e a recitação de cânticos para consagrar o talismã.  

O Petit Albert - Grimório que inspirou as lendas de St. Albertus Magnus apresenta esse método para a criação da Mão da Glória, conforme citado por Grillot De Givry em seu livro "Bruxaria: Mágica e Alquemia" ("Witchcraft: Magic and Alchemy"). Mas parecem haver vários outras formas de criação da mão, envolvendo entre outras coisas o uso de uma serra de ferro frio, a exposição do talismã à luz da lua cheia e a imersão da mão em uma panela contendo ervas cuja beberagem deve ser consumida pelo bruxo.

Nos dias atuais, praticantes de magia podem achar difícil reproduzir a receita em suas casas. Não apenas por que ser complicado encontrar cadáveres de assassinos pendendo num cadafalso, mas também pela dificuldade de duplicar certas fórmulas que envolvem gordura humana, isso sem falar de cabelos de virgens, um item que não se encontra em qualquer mercado. Dada a raridade dos ingredientes, Mãos da Glória podem ser encomendadas a feiticeiros que confeccionam os objetos seguindo uma regra de "não pergunte onde ou como ela foi feita". Acreditem ou não, o mercado para esse tipo de talismã místico é enorme e alguns praticantes de magia oferecem a criação deles por um preço elevado.

Mas qual seria a razão para justificar a criação e o uso de uma coisa tão macabra?


Segundo a crença, a Mão da Glória possui poderes e capacidades sobrenaturais que podem ser invocadas pelo seu proprietário. Essas capacidades sobrenaturais envolvem sempre o princípio de
"abrir as portas e passagens"  e "garantir adentrar uma casa sem oposição". 

Existem muitas descrições quanto aos poderes do objeto, entre os quais se encontram a faculdade de ficar invisível pelo tempo que uma vela se mantiver acesa, enxergar na completa escuridão, não produzir som algum ao se mover ou ainda provocar um estado de sonolência tamanho nas pessoas a ponto delas não perceberem sua presença. O folclore da Mão da Glória também envolve a descrição de trancas e fechaduras sendo desmontadas ou se abrindo quando tocadas pela Mão da Glória.  

Em alguns relatos, cada vela/dedo aceso represneta uma pessoa no interior de uma casa ou habitação que será afetada pelo talismã. A pessoa é imediatamente afetada tornando-se sonolenta e desatenta, incapaz de perceber a presença do indivíduo que usou a Mão. Se a qualquer momento, uma das velas se apaga, uma pessoa desperta e pode perceber a presença de um invasor. Essa parte da lenda é importante, pois em muitas narrativas o utilizador comete o erro de não saber quantas pessoas estão na casa ou simplesmente deixa o fogo apagar. Em certas versões, a luz emanando de uma Mão da Glória brilha com uma luminosidade azulada quando esta fica próxima de um tesouro ou objeto de valor.

Havia, no entanto, maneiras de se proteger dos efeitos e poderes da Mão da Glória. Beber um copo de leite fresco era uma maneira de diminuir os efeitos mágicos do talismã. Mas a forma mais confiável de proteger a casa era espalhar um tipo de unguento no batente da porta e nas janelas. O preparado místico tinha de ser produzido com a fervura de bexiga de um gato preto, a gordura de uma galinha branca e um pouco de sangue de coruja. Essa mistura precisava ser preparada numa noite de lua cheia e espalhada na primeira noite do verão protegendo a casa e seus habitantes por um ano inteiro. Segundo uma narrativa britânica, a precaução ajudou a capturar um bruxo em 1797 que teria usado uma Mão da Glória para roubar uma pensão em North Stainmore. A macabra relíquia teria sido recolhida pelo dono da taverna e preservada até ser encontrada em 1935 por um antiquário que a comprou e mais tarde doou para o Museu em Whitby. De acordo com muitos historiadores essa é a última Mão da Glória original.


Mas o que levava as pessoas a acreditar nos poderes de objetos mágicos como a Mão da Glória?

As raízes dessa lenda, sem dúvida estão atreladas a crença de que certos objetos, ou coisas vivas, tinham poderes que podiam ser roubados e usados pelas pessoas. Estudiosos compreendem essas crenças como um tipo de "magia complacente". As pessoas se perguntavam o que poderia proporcionar melhores condições para passar desapercebido por guardas e vigias? E a resposta era a mão de um assassino, alguém que atuou sua vida inteira de forma discreta. Da mesma maneira, a mão do assassino também permitia abrir portas e fechaduras.

Objetos imbuídos com "magia complacente" foram usados largamente até o início da Era da Razão, sendo que alguns continuaram presentes como amuletos de boa sorte, os trevos de quatro folhas, pés de coelho e patuás. Antes de recriminar aqueles que empregavam o poder da Mão da Glória, talvez seja o caso de perguntar se você mesmo, caro leitor, não tem um objeto de estimação que lhe dá sorte.