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terça-feira, 7 de agosto de 2018

Aklo - O Idioma dos Grandes Antigos, sua origem e o mistério que o cerca


Por Shub-Nigger
Originalmente publicado no excelente Blog Morte Súbita
https://www.mortesubitainc.org/lovecraft/mitos-de-cthulhu-1/dicionario-aklo1

"Dicionários são sempre divertidos, mas nem sempre reconfortantes".
- M.F.K. Fisher

É inegável que um dos maiores charmes presentes não apenas nas histórias de H.P. Lovecraft mas também de seus "afilhados", são os fragmentos de rituais escritos em línguas alienígenas ou inumanas.

O trecho mais famoso está presente em seu conto "O Chamado de Cthulhu" (Call of Cthulhu), escrito em 1926 e publicado dois anos depois. No conto, a história se desenrola em torno do que se identifica como o Culto de Cthulhu e suas práticas ao redor do globo desde eras imemoriais até os dias de hoje. Durante uma batida policial em um pântano encontram membros do culto em um frenesi, cercado por corpos talhados com marcas estranhas e no centros das atenções uma estatueta medonha. Todos eles entoando a frase:

ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn

Eventualmente Lovecraft a traduz, dando como significado "Em sua casa em R'lyeh, Cthulhu morto espera sonhando".

Essa língua inteligível nunca foi propriamente batizada, mas em outras três obras, Lovecraft menciona um nome, criado por um de seus escritores favoritos, Arthur Machen. Em 1899 Machen escreveu "As Pessoas Brancas" (The White People), um conto curto de horror fantástico sobre uma conversa entre dois homens a respeito da natureza do mal. Um deles revela então um temido Caderno Verde, que tem em sua posse. O caderno contém os escritos de uma jovem que, de forma ingênua e provocante, descreve suas memórias de quando era ainda mais nova, além de conversas que teve com sua ama, que a inicia em um mundo secreto repleto de folclore e magia ritual. No caderno, a jovem faz alusões crípticas a ninfas, Dôls, voolas, cerimônias brancas, verdes e vermelhas, Caracteres Aklo, às línguas Xu e Chian, jogos Mao e a um jogo chamado Cidade de Tróia.

Aklo nunca passou disso em suas primeiras evocações, Machen apenas cita "Caracteres Aklo" uma vez no conto, mas isso serviu para incendiar a imaginação de Lovecraft. Por conseguinte, ele os menciona em três contos seus, "O Horror de Dunwich" (The Dunwich Horror), escrito em 1928, "O Diário de Alonzo Typer" (Diary of Alonso Typer), escrito em parceria com William Lumley em outubro de 1935 e "O Assombro das Trevas" (The Haunter in Darkness), escrito em novembro de 1935.

Machen não faz nenhuma menção nem tentativa alguma de explicar o que são os tais Caracteres Aklo, ou como, onde ou por quem são usados. Já Lovecraft, em "O Horror de Dunwich", os menciona duas vezes em uma única passagem encontrada no diário de uma das personagens:

"Hoje aprendi o Aklo para o Sabaoth, mas não gostei, podendo ser respondido das colinas, mas não do ar."

e

"Imagino como irei parecer quando a terra for limpa e não houverem mais nela seres terrenos. Aquele que veio com o Aklo Sabaoth disse que eu posso ser transfigurado já que muito do exterior deve ser trabalhado."

Neste trabalho Lovecraft une a linguagem Aklo ao termo Sabaoth. Sabaoth é o termo judaico para "Hoste" ou "Exército", e é usado exclusivamente com o nome do Senhor, para designar Deus como sendo o Senhor das Hostes ou Senhor dos Exércitos. Lovecraft teve acesso aos livros de Eliphas Levi, como o "Dogma e Ritual da Alta Magia" onde o termo Sabaoth aparece em dois capítulos.

O "Sabbat dos Feiticeiros", foi usado por Lovecraft em seu romance "O Caso de Charles Dexter Ward" (The Case of Charles Dexter Ward). O nome Sabaoth aparece precedido de um dos títulos de Deus: Adonai Sabaoth e Elohim Sabaoth respectivamente. O nome parece ser usado para rituais de necromancia ou a confecção de amuletos que necessitam de rituais que envolvem sangue. Algo perfeito para Lovecraft, mas que no texto, como ele o colocou, parece ficar deslocado. Uma hipótese é que tenha usado a palavra Sabaoht no lugar da palavra Sabbath, o termo utilizado para designar, popularmente, a conferência das feiticeiras, assunto tratado à exaustão e com todos os detalhes góticos no capítulo do livro de Levi. Assim ter aprendido as runas para o Sabbath e aquele que veio do Sabbath talvez fizessem mais sentido. Mas isso é indiferente no momento.

No segundo conto que escreveu com Lumley, O Diário de Alonzo Typer, Lovecraft menciona o Aklo três vezes, dando um pouco mais de forma à idéia do que poderia ser:

"Eu acredito que possa ter se aliado a poderes que não desta terra - poderes no espaço além do tempo e além do universo. Ele se eleva como um colosso, se levarmos em consideração o que dizem os textos Aklo."

seguido por

"Mais tarde eu subi ao sótão, onde encontrei vários baús repletos de livros estranhos - muitos de aspecto completamente alienígena, tanto em sua escrita quanto em sua forma. Um continha variações da fórmula Aklo que eu nem sabia existir."

e finalmente

"Eu acredito que mais de uma presença possui tal tamanho e eu sei agora que o terceiro ritual Aklo - que achei no livro do sótão ontem - tornaria tal ser sólido e visível."

Neste texto Lovecraft expande o conceito de Aklo de meros caracteres ou língua, para uma cultura, os "Textos Aklo", compõem fórmulas e rituais. A ideia de que um Ritual Aklo deveria ser usado para tornar um ser imaterial em uma presença sólida e visível, o que é compatível com a ideia usada no Horror de Dunwich, onde Wilbur Whateley deseja manifestar em nosso mundo uma dessas criaturas usando as fórmulas contidas no Necronomicon. Assim o Aklo que ele aprende pode ser uma parte fundamental do processo de evocação. 

Nos "Diários de Alonzo Typer" existe a menção a uma série de Rituais Aklo. Isso poderia indicar uma forma não apenas de linguagem, mas de "tradição mágica", assim como a Cabala tem sua cultura e caracteres, o Bon Po, etc. Aklo poderia ser uma cultura que transcende apenas um alfabeto e uma linguagem.

No "Assombro nas Trevas", Lovecraft faz apenas uma menção ao Aklo, mas desta vez mais ampla:

"Foi em junho que o diário de Blake falou de sua vitória sobre o criptograma. O texto estava escrito, ele descobriu, na sombria linguagem Aklo, usada por certos cultos de maligna antiguidade e que ele aprendera de maneira hesitante através de pesquisas anteriores. O diário é estranhamente reticente sobre o que Blake decifrou, mas ele estava claramente impressionado e desconcertado por seus resultados. Haviam referências a um Assombro das Trevas que podia ser desperto ao se contemplar nas profundezas do Trapezoedro Brilhante e conjecturas insanas sobre os golfos negros do caos de onde ele era invocado."

Tanto o texto de Machen quanto os de Lovecraft dão a ideia clara que o Aklo se deriva de uma cultura incrivelmente antiga e muito avançada nas artes obscuras. Capazes de evocar criaturas de outras dimensões, materializá-las em nosso mundo e conhecida por poucas pessoas nos dias de hoje. Uma cultura que possuía uma língua proibida e poderosa e possivelmente não humana.

Em vários textos Lovecraft faz uso de sua língua para dar clímax a alguma passagem específica, como no Caso de Charles Dexter Ward onde a fórmula "Y'AI 'NG'NGAH, YOG-SOTHOTH H'EE-L'GEB FAI THRODOG UAAAH" é usada. Ou os gritos de "IA SHUB-NIGGURATH" que ecoam em diversos de seus contos.

Lovecraft não apenas nunca batizou explicitamente esta língua como também nunca ligou suas diversas menções em diferentes contos com uma única fonte. Geralmente aponta que uma das personagens encontrou as evocações em livros malditos como o Necronomicon ou o De Vermis Mysteriis, cada um desses livros tendo sido escrito por diferentes pessoas em diferentes épocas, mas, implicitamente, lidando com as mesmas criaturas do panteão Lovecraftiano, conhecido como Mito de Cthulhu.

Mais do que mera linguagem


Podemos assumir que essa linguagem tem origem extra-terrestre e foi ensinada a magos, feiticeiros, sacerdotes e ocultistas que entraram em contato com tais seres, os Antigos. Mas seria correto dizer que esta língua/cultura alienígena seria o Aklo? Machen nunca foi além de sua única menção aos "Caracteres Aklo", mas Lovecraft escreve que o Aklo é usado "por certos cultos de maligna antiguidade" trazendo informações sobre os horrores que se escondem além do tempo e do espaço. 

Os próprios nomes das divindades parecem derivar do Aklo, ou ao menos parecem ter chegado à Terra nessa língua: Cthulhu, Shub-Niggurath, Shoggoths, Cthugua, Tsathogua, etc. Além de outros nomes como a cidade de R'lyeh construída pelo Grande Cthulhu, o Planalto de Leng ou mesmo a misteriosa Sarnath, além disso existem menções a fórmulas e rituais como a fórmula de Dho-Hna; se somarmos a isso a menção de Lovecraft ao aspecto "completamente alienígena, tanto em sua escrita quanto em sua forma" podemos associar não apenas os rituais mas a origem dos Antigos e seus costumes ao Aklo. Talvez os Antigos sejam o Povo de Aklo, assim como nós somos humanos.

Um ponto importantíssimo do Idioma Aklo é que, ao contrário de qualquer outro idioma conhecido, ele não foi concebido para ser pronunciado por humanos, ou por criaturas presas na forma humana. Ele não foi nem mesmo concebido para ser pronunciado com o uso da garganta e língua humana, de modo que devemos ter ciência de que um homo sapiens falando Aklo é como a Gorila Koko falando a linguagem de sinais. Sempre uma mera aproximação limitada por nossa anatomia, neurologia e nossa consciência. É um idioma que deve ser falando principalmente com a mente, e não com as cordas vocais.

Essa ideia foi desenvolvida de forma magistral por Alan Moore no conto curto "O Pátio" (The Courtyard), publicado na antologia Sabedoria Estrelar: Um Tributo a H. P. Lovecraft (The Starry Wisdom: A Tribute to H. P. Lovecraft). Em sua visão, Aklo não é apenas uma língua alienígena, mas uma chave para se abrir as portas da percepção da mente humana. De acordo com Moore apenas ouvir, ler ou pronunciar o Aklo não causa nenhum efeito à mente, mas se "absorvida" por um cérebro em um estado alternado de consciência os resultados podem ser devastadores.

No conto o Agente Federal Sax ingere DMT-7, para que pudesse "receber" o Aklo. A escolha de Moore é curiosa e muito acertada, já que a DMT, ou dimetiltriptamina é uma substância psicodélica encontrada não apenas em vários gêneros de plantas como a Acacia, Mimosa, Anadenanthera, Chrysanthemum, Psychotria, Desmanthus, etc. - famosa em celebrações religiosas como o culto do Santo Daime, da ayahuasca e da Jurema - como também é sintetizada no cérebro pelo próprio corpo humano. Não se sabe até hoje de forma concreta qual a função do DMT em nosso organismo, nem que órgão o produz - frequentemente se especula que a responsável é a glândula pineal. De acordo com Moore, assim que o DMT produz seu efeito no cérebro, cada "dose", ou palavra em Aklo destrava na mente a compreensão física para seu próprio significado. Enquanto Lovecraft trabalhava apenas com a tradução do significado de cada palavra:

ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn 


Em sua casa em R'lyeh, Cthulhu morto espera sonhando

Moore trabalha com a compreensão de cada significado, especificamente de três palavras:

WZA-Y'EI

"Conhece a Tudo". É uma palavra para o espaço conceitual negativo que rodeia um conceito positivo. As classes de coisas maiores do que o pensamento, sendo tudo o que o pensamento exclui.

DHO-HNA

"Uma força que define". Algo que dá significado ao seu receptáculo como uma mão dentro de uma luva, ou vento nos moinhos de vento. Um visitante ou um intruso que cruzam um umbral, lhe dando significado.

YR NHHNGR

Não há uma definição em palavras, pensamentos esquecidos se juntam em flashes que cegam, e fusões impensáveis ocorrem. Surge uma visão de tudo o que existe além de nosso universo, não apenas físico, mas mental.

Se uma língua é um sistema formado por regras e valores presentes na mente dos falantes de uma comunidade linguística, podemos evocar Korzybski, que afirmou que todos nós somos limitados por nosso sistema nervoso e nossa linguagem. Assim, Moore pode ter encontrado a fórmula para se reprogramar o cérebro e a consciência com os valores presentes em uma cultura alienígena pré-humana, o DMT serviria para preparar o sistema nervoso para receber não apenas uma palavra mas todos os valores presentes nela, desta forma a pessoa aprenderia um dialeto novo não pela repetição ou pelos inúmeros atos de fala com que tem contato, mas de forma viral, já que para compreender o significado de uma palavra a pessoa entraria em contato com todas as palavras usadas para descrevê-la, e cada palavra, por si só, tem o próprio significado.

Moore afirma que Aklo é a "Sintaxe de Ur", o vocabulário primogênito que recebeu sua forma de ordens pré-conscientes vindas das estrelas. Ela é composta de cores perdidas e intensidades esquecidas e isso faria com que, uma vez absorvida pelo cérebro, desimpedisse a mente de suas limitações ou, como escreveu Blake: "Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito". Isso também faria com que a pessoa pudesse enlouquecer, já que os valores que temos podem ser completamente diferentes daqueles que inundarão nossa mente, o que é uma constante nos textos de Lovecraft, onde a personagem, quando se defronta com o conhecimento alienígena/antigo enlouquece, traz para si uma antiga maldição, morre ou as três coisas - não necessariamente nesta ordem.

Escrevendo com o Aklo


Como Lovecraft e sua turma não desenvolveram o Aklo além de citações breves e enigmáticas, coube a seus fãs modernos e contemporâneos desenvolver a língua. Inclusive muitos a rebatizaram de R'lyehan, Cthuvian e até Tsath-yo, além de Lovecraftiano e outros nomes mais estúpidos. Tanto R'lyehan quanto Cthuvian associam a língua diretamente a Cthulhu e a cidade que lhe serve de prisão, R'lyeh. O problema com esses nomes, é que além de ridículos transformam a linguagem em um dialeto, lhe roubando a universalidade que seus criadores lhe atribuíram originalmente, é como chamar a língua falada no Brasil de Santista, Paulista ou Carioca só porque uma celebridade de alguma dessas cidades caiu na graça dos estrangeiros. Assim vamos nos ater a seu nome original.

Um primeiro obstáculo que encontramos quando começamos a analisar o Aklo é que ele foi desenvolvido por pessoas que falavam o inglês e que não tentaram desenvolver a complexidade da língua. Assim "Cthulhu fhtagn" é traduzido para o inglês "Cthulhu Dreaming" ou Cthulhu Sonhando.

"ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn" é traduzido para o inglês "In his house at R'lyeh dead Cthulhu waits dreaming" - Em sua casa em R'lyeh, Cthulhu morto espera sonhando. As únicas três palavras que podem ser traduzidas corretamente por comparação são dois nomes, Cthulhu e R'Lyeh e Fhtagn que significaria sonhando. Qualquer tradução palavra por palavra do texto cai no achismo, ainda mais que podemos ver que R'lyeh e Cthulhu são invertidos na tradução. Não há indicações do que "ph’nglui", "mglw’nafh" e "wgah’nagl" signifiquem respectivamente, e ainda se pararmos para pensar que existem três palavras/termos/conceitos em Aklo que devem ser transliterados nas palavras/termos restantes, "em sua casa", "morto" e "espera/aguarda", não sabemos como a gramática funciona - por exemplo, em Latim, o que determina o significado de uma palavra não é sua ordem na frase, mas a terminação de cada palavra, assim 'Caim matou Abel' pode ser escrito, em latim, tanto 'Caim matou Abel' quanto 'Abel matou Cain' ou ainda 'matou Abel Caim' que saberíamos não apenas o significado da sentença mas quem faz o papel de assassino e quem foi a vítima. Poderíamos afirmar que Aklo seria semelhante ao latim ou teria uma estrutura mais rígida como o português ou inglês moderno? Não podemos afirmar nada.

Mesmo assim, compilando frases e termos em Aklo usado não apenas na ficção Lovecraftiana mas no material que surgiu posteriormente, podemos chegar a algumas conclusões:

- Aparentemente o Aklo não faz distinções entre pronomes, verbos, adjetivos e outras figuras de linguagem.

- Pronomes podem não aparecer.

- Verbos possuem apenas dois tempos: presente e não presente. A mente dos Antigos não pode ser explicada linearmente, e o nosso conceito de tempo - presente, passado e futuro - se mostra extremamente limítrofe e primitivo.

- Não existem preposições soltas, elas estão geralmente implícitas.

- As palavras se combinam facilmente com prefixos e sufixos que explicam se está sendo descrito um lugar, entidade ou dimensão, ou se algo está acontecendo agora ou não agora.

- Prefixos e sufixos são ligados, geralmente através de apóstrofe.

- Termos novos formados por duas ou mais palavras são ligados por hifem.

- O plural geralmente é indicado pela repetição da última letra.

- Não existe definição de gênero, que é uma limitação característica do tipo de existência física deste planeta, ao invés disso existe uma ligação entre energia e forma, tudo relacionado a energia é tido como masculino, tudo relacionado ao que dá forma é feminino, por isso a distinção entre Pai - principio energético - e Mãe - o ser que dá a forma à vida.

- Não existe diferenciação de localização espacial e localização temporal.

Além da forma, a direção da escrita também é vista como elemento diferenciador do sistemas Aklo. Semelhante ao grego antigo, o Aklo é escrito em linhas com direção alternada: uma linha da direita para a esquerda e a linha seguinte da esquerda para a direita, invertendo a direção das letras; a terceira linha equivalia à primeira e a quarta à segunda e assim sucessivamente. Esse método é chamado de boustrophedon, uma palavra grega que significa “da maneira como o boi ara o campo”. Em livros recentes é compreensível que a escrita seja feita da esquerda para a direita como se tornou comum no ocidente.

Os Caracteres Aklo


Não existe um alfabeto Aklo "oficial" apontado por Machen, Lovecraft ou outro escritor, o que existem são trabalhos feitos por fãs que tentam representar o que consideram ser o alfabeto. O problema com a maioria é que se revelam rebuscados demais para serem práticos. Ou runas trabalhadas demais, ou simbolos carregados de um barroquismo que interferem em sua escrita.

O Aklo sempre foi mostrado de duas formas: ou a transliteração fonética das palavras, como Fhtagn, ou descrição de arabescos e hieroglifos hediondos, antigos e não relacionados com nenhuma civilização. É sabido que a forma de escrita mais antiga que se tem conhecimento hoje era essencialmente formada por ideogramas. O desenho de um pão representava o próprio pão. Duas pernas poderiam representar tanto andar quanto ficar de pé. Com o tempo os símbolos se tornaram abstratos, deixando de representar conceitos para indicar sons. A letra M do nosso alfabeto evoluiu de um hieróglifo egípcio que representava ondas na água e o som que essas ondas faziam, a palavra egípcia água contem apenas uma consoante: M, assim a figura M não representava apenas a ideia de água mas o som que ela faz.

Quando a escrita necessitou se tornar "portátil", os ideogramas foram substituídos por caracteres que pudessem ser desenhados com rapidez pelas ferramentas de mão no meio em que seriam carregados. As ferramentas eram um instrumento pontiagudo e forma triangular e o "papel" da época eram tábuas de argila. O que determinou a evolução da escrita então foi o instrumento usado para escrever, logo que o triangular foi substituído por outro em forma de cunha, surgiu a escrita cuneiforme aproximadamente no século XXIX a.C.

Assim é lógico que qualquer tipo de escrita primitiva feita por humanos teria que seguir uma linha cuneiforme, ou sem formas que exigissem muita complexidade. Isso explicaria também a aparência alienígena atribuída aos textos encontrados nos tomos antigos.

Em 1934, seis anos após a publicação do conto O Chamado de Cthulhu, H.P. Lovecraft enviou uma carta a R.H. Barlow com uma ilustração de próprio punho da escultura de Cthulhu sentado em um bloco com inscrições ao redor.


As inscrições com certeza seriam, na estatueta descrita, Aklo. Lovecraft tentou no desenho incorporar sua versão do Aklo ou simplesmente fez rabiscos sem sentido apenas para mostrar o conceito da estatueta? Alguns dos rabiscos de Lovecraft lembram alguns caracteres do alfabeto fenício.


Outros simplesmente parecem rabiscos mesmo. Mas como os fenícios evoluíram dos Sumérios, e uma das cidades estados mais conhecidas da Suméria era Ur talvez não seja um chute tão extremo dizer que Aklo poderia ser representado por caracteres que tenham sido usados pelos fenícios. Curiosamente em uma das edições mais populares do Necronomicon, a de Simon, todo panteão Lovecraftiano é associado com as divindades sumérias, mas essa associação nunca foi feita de forma explícita ou implícita pelos escritores do Mito.

Outra curiosidade a respeito do Necronomicon é que outra de suas edições, conhecida como O Necronomicon de Wilson-Hay-Turner-Langford, graças a seus autores, Colin Wilson, George Hay, Robert Turner e David Langford, oferece um alfabeto de Nug-Soth para ser usado em rituais e sigilos. Nug-Soth é personagem do conto "A Sombra fora do Tempo" de Lovecraft, um mago dos conquistadores negros que viveu no século XVII d.C - DEPOIS DE CRISTO - e que por causa de uma tranferência de mentes com um dos membros da Grande Raça dos Yith ficou aprisionado no ano 150,000,000 a.C. - ANTES DE CRISTO.



Nunca foi afirmado que esse alfabeto fosse Aklo, e basta uma olhada para ver que, apesar dele ter uma funcionalidade prática para a antiguidade, lhe falta a aura alienígena e o aspecto sombrio tão presentes nos textos lovecraftianos. E assim voltamos ao alfabeto fenício. Em 1518 um alfabeto de origem desconhecida foi publicado na obra Polygraphia de Johannes Trithemius. O alfabeto foi atribuido a Honório de Tebas, uma figura cuja existência beira a lenda. Ninguém sabe quem foi Honório, já afirmaram que na verdade era o Papa Honório, e assim sua figura foi associada não apenas com um Papa mas dois: Honorius I e Honorius III. Ele é o autor de um dos maiores livros de magia negra medieval existentes, conhecido como Liber Juratus ou O Livro Jurado de Honório. Curiosamente esse alfabeto não foi encontrado em nenhum dos dois livros atribuídos a Honório que sobreviveram a Inquisição. O alfabeto Tebano, como ficou conhecido, não apresenta semelhança com os alfabetos da época em que foi publicado, seus caracteres não se assemelham a letras latinas, hebraicas, árabes ou de nenhum tipo, mas tem certa semelhança a um alfabeto mais antigo, o fenício. O Alfabeto Tebano, também conhecido como Alfabeto das Bruxas, por causa do seu uso difundido em grupos de feiticeiras ou mesmo por praticantes solitárias, tem as características oníricas e estranhas evocadas por Lovecraft e se assemelham a alguns de seus "rabiscos" na base da estátua. Se levarmos em conta sua presença em livros de magia negra medievais, sua origem desconhecida, sem uso místico, podemos ver que serve perfeitamente como um bom candidato a canal para o Aklo ser transmitido.


Assim como no Latim não existe diferença entre a pronuncia do I e do J ou do U e do V - ou o W moderno - sendo os mesmos caracteres usados para indicar os diferentes sons. Não existem também diferenciação entre maiúsculas ou minúsculas, como no caso do hebraico. Assim as diferentes "letras" representam os sons pronunciados pelo mago. Também não existem apóstrofes, hífens ou qualquer pontuação além de uma indicação de fim de sentença, o que indica que o texto não era separado em frases ou parágrafos, sento escrito em bloco com o sinalizador de fim de sentença.


Isso sim é algo que esperamos encontrar garatujado no Necronomicon.

Os apóstrofes, hífens, etc. que surgem na transliteração são indicativos apenas da sonoridade da palavra, de sua pronúncia, não existem no texto Aklo original.

Pronunciando Aklo

Apesar de deixar sempre claro que os nomes e palavras Aklo não poderiam ser pronunciados por gargantas humanas, existe uma aproximação fonética.

Por exemplo, apesar de Lovecraft ter sugerido diferentes pronúncias para o nome Cthulhu, a mais aceita é a que oferece em Selected Letter V: o "u" é similar a urubu, e a primeira sílaba não sendo muito diferente de "Klul", então o primeiro "h" representa o som gutural do "u". Isso seria, de acordo com Lovecraft, o mais próximo que as cordas vocais humanas chegariam de pronunciar uma língua alienígena.

Mas a pronúncia nos contos é muito próxima da fonética das letras. No Caso de Charles Dexter Ward a fórmula:

Y'ai 'ng'ngah, Yog-Sothoth, é pronunciada no inglês antigo:

Aye, engengah, Yogge-Sothotha

ou, "abrasileirando":

Iai, ingeingá, Iogui-Sototi

ou ainda:

Yi nash Yog Sothoth

ou, "abrasileirando":

I-í náchi Ióg Sossóss

Além disso esbarramos em outro problema levantado pelo próprio Lovecraft quando desejamos aprender a pronunciar corretamente as palavras. Em O Chamado de Cthulhu ele escreve:

"[...] de um ponto indeterminado das profundezas veio uma voz que não era uma voz; uma sensação caótica que apenas uma suposição poderia traduzir como som, mas que ele tentou traduzir com um entulho de letras quase impronunciável, 'Cthulhu fhtagn'."

"[...] uma voz ou inteligência subterrânea gritando monotonamente em enigmáticos impactos sensoriais indescritíveis a não ser como sons inarticulados [...]"

"[...] o modo de discurso [dos Grandes Antigos] era a transmissão de pensamentos."

E no Horror de Dunwich:

"É quase errôneo chamá-los de 'sons', uma vez que muito do seu medonho, e grave timbre falava diretamente com lugares sombrios de consciência e do terror, muito mais sutis do que o ouvido; mesmo assim é necessário que o façamos, uma vez que sua forma era indiscutivelmente, todavia de forma vaga, a de 'palavras' semi-articuladas."

Assim fica claro que qualquer transliteração de Aklo se torna apenas uma aproximação fonética da forma pronunciada da palavra, pronunciada por uma mente alienígena; forma esta que inclui imagens, sensações, emoções, impressões e qualquer outra forma de informação que o limitado cérebro humano possa processar. É um idioma que deve ser falando principalmente com a mente, e não com as cordas vocais. Faça um exercício, tente traduzir a sua última trepada em uma única palavra, escreva em um papel e depois leia a palavra e veja se ela está à altura do ato. Isso torna a proposta de Moore muito mais interessante, talvez com o uso de alguma droga, como o DTM, o aprendizado do Aklo nos leve mais próximo de seu real significado do que meramente de sua pronuncia. Já que nossa mente filtra apenas o que podemos processar e compreender podemos afirmar que o que sabemos desta língua é muito limitado se comparado com o que um Antigo pode compreender e tentar nos passar.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Terrores Profanos - Os contos de Horror do Mestre Arthur Machen


Um experimento sinistro nas montanhas do País de Gales.

Uma criança nascida de uma comunhão profana!

Um jovem aterrorizado por testemunhar algo incompreensível numa clareira da floresta.

Perturbadores desenhos no caderno de um artista.

Um herdeiro levado à miséria após ser enganado por sua misteriosa esposa.

Uma sucessão de inexplicáveis suicídios na alta sociedade.

"Un succés fou! Un succés fou!" declarou ninguém menos que Oscar Wilde após ter acesso à obra – um sucesso insano. No ano de 1893, a icônica novela de horror fantástico "O Grande Deus Pã" (The Great God Pan) chocou e escandalizou a pudica cena literária britânica, que se sentiu ultrajada e fascinada na mesma medida. 

O Jornal "The Manchester Guardian" chamou a estória de "o mais agudo e intencionalmente desagradável livro escrito no idioma inglês".

Continuou a seguir:

"Nós poderíamos falar mais a respeito, mas qualquer comentário a respeito seria dar publicidade a esse trabalho."

E essass foram algumas das críticas mais leves, claro, houve comentários ainda mais contundentes: "The Lady’s Pictorial", um semanário dedicado a literatura chamou a novela de "inumana", enquanto o "Glasgow Herald" recomendou que "após ler tal coisa, melhor seria desanuviar a mente e limpar os pensamentos com algo mais leve afim de esquecer a experiência". O Literary News, um periódico londrino julgou o livro "doentio demais para ter vindo de uma mente saudável!"

O Grande Deus Pã realmente causou sensação na Sociedade Victoriana!

Sacudiu as estruturas do romance gótico de horror de uma maneira que nem mesmo obras consagradas como Drácula, de Bram Stoker conseguiu. O livro se tornou maldito, várias editoras o recusaram por achar a narrativa absurda e demasiadamente extravagante. Os editores temiam que os leitores pedissem seu dinheiro de volta. Que ficassem enfurecidos. Que queimassem o livro causando assim uma publicidade negativa.


O autor de "O Grande Deus Pã" era um jovem de 30 anos, nascido na parte mais escura do País de Gales, uma terra selvagem e inóspita coberta de florestas ermas que ele conhecida e temia como poucos. Seu nome era Arthur Machen (Fala-se Má-Ken).

Ao longo dos sete anos seguintes, ele iria produzir mais alguns trabalhos, e estes, nas palavras de H.P. Lovecraft estariam um degrau acima de tudo que foi escrito no gênero durante o período, superando tudo o que vinha antes. "Algo que marcou um diferencial na história da literatura".

Lovecraft sabia do que estava falando. Em seu ensaio Horror Sobrenatural na Literatura, ele rende elogios rasgados a obra de Machen e o coloca entre os maiores autores do gênero. Não é à toa que muito do Horror Cósmico, termo cunhado por Lovecraft, bebeu da fonte de Machen que dedicou várias de suas estórias a noção de Deuses Alienígenas, entidades extraterrestres e raças inumanas desaparecidas que habitaram o passado longínquo.

Há algo na obra inteira de Machen que soa estranho, bizarro, perturbador... "The Three Impostors", "The Inmost Light", "The Red Hand", "The Shining Pyramid", "The White People", e é claro, "The Great God Pan" representam uma visão muito particular do que seria o Mal Sobrenatural. Os horrores de Machen são os precursores do estilo lovecraftiano, em intensidade e forma são bastante semelhantes. As criações de Machen reverberam e continuam influenciando a literatura de horror, permanecem atuais e apavorantes mesmo hoje. Stephen King sempre rendeu homenagem a Machen, dizendo que o Grande Deus Pã ainda o aterroriza, passados tantas décadas desde a primeira vez que o leu.


E na boa, quem sou eu para contrariar alguns desses luminares do horror? Na minha opinião, Mache é simpelsmente genial. Um dos autores mais viscerais em sua narrativa e perversos em seus temas. A maneira como as estórias de Machen são construídas vão aumentando um suspense e uma aura de estranheza perceptível. 

Muitos críticos, entretanto, encaram a obra de Machen como um tanto superficial, um resultado da decadência do fim do século XIX que lançou uma sombra pessimista sobre o século que estava prestes a se iniciar. Machen foi um dos pioneiros a introduzir sugestões claras de sexo e luxúria nas páginas de livros que seriam folheados pelas senhoras britânicas em busca de sustos e emoções fortes. Não por acaso, mais de uma senhorita teve de recorrer aos seus sais depois de ler as obras de Machen.

O autor foi um dos expoentes no movimento dos doentios "Livros Amarelos" cujo conteúdo chocava e incomodava os conservadores. Mas se a maioria dos autores dessa vertente se dedicavam a decadência do submundo das metrópoles como Paris e Londres, com láudano e absinto enebriando os sentidos, Machen buscava nas regiões remotas de seu País de Gales as raízes para os medos primitivos, com cheiro de mato e madeira apodrecida. Nas florestas ermas, nas charnecas cujas árvores jamais viram um machado, descritas em suas narrativas em detalhes, habitam os horrores ancestrais e que ao cruzar o caminho dos homens, desencadeiam horrores incomparáveis.

Machen foi acima de tudo um poeta, mas também um estudioso do mundo oculto e espiritual. Ingressou na Ordem Hermética da Golden Dawn, ao lado de outros luminares ocultistas do período por indicação de A.E. Waite. Participava de reuniões e rituais de onde extraía inspiração para suas estórias de horror sobrenatural. Alguns colegas torciam o nariz para suas estórias, achavam que ele estava falando demais, compartilhando seus segredos místicos.

Nascido na região de Gwent, ele tinha medo das florestas verdejantes e dos vales profundos que repousam na sombra das montanhas. Afirmava que nenhum lugar era mais aterrorizante do que sua terra natal. Aos 19 anos, com certo alívio, mudou-se para Londres, mas jamais esqueceu das paisagens rústicas que lhe causavam falta de ar e pesadelos. Forçado a escrever para aliviar a pobreza crônica em que vivia, começou a rascunhar suas primeiras estórias antes de completar 20 anos.


Os editores o achavam estranho e evitavam publicá-lo. Vivia, portanto, em estado de quase penúria. Alimentava-se de pão e chá verde, fumava tabaco barato e por vezes conseguia surrupiar um biscoito de algum vizinho ou amigo. Era, no entanto, muito solitário. Habitava um quarto pequeno no qual se trancava para escrever suas estórias. Passava dias sem ser visto. Atiçava a lareira de seu lar com um único cômodo até que as chamas ficassem quase fora de controle, o quarto fervia com o calor do fogo feroz. Enquanto escrevia, o suor se misturava à tinta que escorria da pena para o papel. 

"O Grande Deus Pã" a obra prima pela qual ganharia fama, foi escrito para aliviar suas aflições. Um colega o aconselhou a colocar no papel as lembranças de sua juventude, vivendo em um lugar que conforme ele descreveu causava "uma sensação permanente de perturbação, mistério e terror". Talvez assim, seus pesadelos pudessem ser exorcizados. Vivendo sua infância no vilarejo medieval de Carleon, um assentamento fundado pelos romanos sob o nome de Isca, Machen acreditava em espíritos da natureza, fadas e seres elementais. Era um entusiasta da história antiga e medievalismo.

Machen desconfiava da beleza, reputava a ela uma qualidade indecifrável e dizia que tudo que era belo em seu íntimo era também perigoso. Boa parte da visão de mal definida por Machen, passa pela noção de que a beleza oculta uma feiura indescritível. Em suas descrições da luxuriante natureza do interior de Gales, é possível enxergar beleza perene, mas há por detrás dela, uma perversidade palpável, bem escondida.

Em outra de suas novelas mais celebradas, a "The Dark Seal", o protagonista se rende a exuberância do interior de Gales e baixa sua guarda diante da armadilha que é o lugar. As cenas pastorais nas quais a natureza parece oferecer o que tem de melhor, sempre contrastam com um medo ancestral, forças quase esquecidas que o homem moderno é incapaz de compreender e enfrentar. As criaturas ancestrais que vivem nas florestas isoladas agem através de suas crianças: o assustador povo pequeno, as nada inocentes fadas silvestres e outros seres que habitam as sombras de sua ficção. São horrores rústicos que o mero vislumbre ocasiona loucura e desespero, bem no estilo dos Mithos de Cthulhu.


A aura de beleza sinistra derivada do interior não está limitada às paisagens, mas integra a própria mecânica do horror criado por Machen. A bela aparência Helen Vaugn, personagem central em "O Grande Deus Pã", evoca "os mais vívidos sentimentos de perversidade". Em determinado momento, um dos personagens se refere a ela como "a mulher mais bela e repulsiva que ele conheceu". Assim como em estórias de vampiros, o mal nas estórias de Machen é extremamente sedutor, oferecendo inúmeros prazeres e descobertas para quem aceitar abraçá-lo.

Os rituais de fertilidade realizados em honra ao Deus Pã se referem a comunhão sexual entre Deuses e Mulheres. Seres chifrudos e beldades de aparência inocente. Algo que deveria ser belo, mas que se mostra aniquilador para a sanidade. Tudo está implícito na obra de Machen, em "The Hills of Dreams" por exemplo, o mal se esconde na beleza onírica, todo um mundo de sonhos que é na verdade um portal para os pesadelos mais vívidos.

Os heróis de Machen são indivíduos inocentes, vivendo existências solitárias, seus vínculos afetivos se resumem a amizade, eles são ludibriados pela beleza e se deixam enganar pela aparência angelical de belas mulheres. Só despertam para o perigo quando é tarde demais e enlouquecem pouco antes de terem suas mentes cooptadas pelo horror.

Na obra de Machen, o universo conspira contra a humanidade, e não há uma força benevolente regendo tudo. Não há um Deus, apenas forças antigas dotadas de desejos que pretendem saciar sua vontade às custas da pobre humanidade. Nesse processo, muitos dos heróis de Machen são reduzidos a testemunhas impotentes, fadadas a um destino tenebroso, o que nos leva a mais um elemento célebre na obra de Lovecraft, a impotência e o fatalismo diante de um universo indiferente.

Anos mais tarde, já gozando de fama, Machen escreveu que seu maior erro como escritor foi constantemente retratar o desconhecido como algo tenebroso e maligno. Hoje parece justamente o inverso, esse não era seu maior erro, sem dúvida foi seu maior acerto. Machen era um mestre em sugerir o horror e raramente mostrá-lo. Além disso, seu horror tinha um status universal, ao invés de ser apenas folclore localizado ou mera superstição.  


O Grande Deus Pan serviu para consolidar a carreira de Machen. Apesar, ou talvez por conta, das críticas em várias revistas literárias, a novela chamou a atenção do público. Muitos compravam o livro justamente por conta do teor sexual e das insinuações de profanidade. O livro chegou a uma segunda edição, algo incomum para autores de fantasia gótica. Com sua carreira deslanchando ele se casou e mudou para uma casa maior.

Na virada do século a morte da esposa, após uma longa luta contra o câncer fez com que ele repensasse vários aspectos de sua vida. Por pouco não abandonou de vez a literatura.

Machen se envolveu com movimentos espiritualistas muito em voga no período e se tornou uma autoridade em Religiões Célticas e Cristianismo Primitivo. Ele escreveu várias dissertações sobre o Santo Graal e a respeito de Lendas Arthurianas. Em 1910, Machen decidiu se dedicar ao jornalismo e se tornou um correspondente internacional para o Evenning News. Em 1914, no início da Grande Guerra, ele viajou para a França e começou a fazer a cobertura dos acontecimentos no front.

Nesse período escreveu importantes obras que foram usadas para promover o patriotismo: "The Bowman" e "Angels of Mons" são seus contos mais importantes do período, mas ele também escreveu a novela "The Terror" e "The Great Return", todos marcados pela fantasia e horror. Nos anos 1920 Machen experimentou o reconhecimento de críticos e fãs, publicou biografias, trabalhos importantes e teve seu nome enaltecido como um dos grandes autores britânicos do período. Ele morreu em 1947 em situação financeira confortável e com grande aceitação popular.


Infelizmente, Arthur Machen é pouco conhecido em terras brasileiras. Poucas de suas obras foram traduzidas para o português e mesmo clássicos de suma importância como "Hill of Dreams" e "The Three Impostors", estão indisponíveis em nosso idioma, contudo o lançamento da Editora Clock Tower (ver release) que acertou na mosca com essa publicação, promete corrigir essa grave falha. A Antologia irá reunir o que Machen tem de melhor.

As estórias de horror e fantasia escritas por Arthur Machen podem ser lidas em noites de tempestade em um quarto silencioso e à meia luz, como manda o figurino para estórias do gênero. Contudo, mesmo durante o dia, em um banco de praça ou num parque, será possível apreciar sua narrativa na qual o horror se apresenta no mundo natural. E se a qualquer momento, você sentir um arrepio ao perceber o formato inusitado de uma nuvem, uma fila de formigas ou o piar de algum pássaro, será por que ele já conseguiu mexer com você.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Mestre do Oculto - Próximo lançamento da Editora Clock Tower


Segue o press release do próximo lançamento da Editora Clock Tower, uma antologia com contos - muitos deles até então inéditos em português, dedicada ao Mestre do Horror gótico, Arthur Machen.

Uma bela publicação, sem dúvida uma ótima pedida para quem é fã de horror e tem curiosidade de conhecer alguns clássicos que serviram de inspiração para compor aquilo que ficaria conhecido como Horror Cósmico.

A seguir os detalhes:

A Editora Clock Tower, conhecida pelos livros O Mundo Fantástico de H.P. Lovecraft, O Rei de Amarelo e  O Mundo Sombrio (você pode ler as resenhas clicando sobre o título) tem o prazer de apresentar nosso mais novo projeto de financiamento coletivo, o livro:

ARTHUR MACHEN - O Mestre do Horror

Trata-se de um livro com obras de horror do escritor galês Arthur Machen, grande influência para os escritos de H.P. Lovecraft e um dos maiores nomes do gênero horror e fantasia.

O livro já conta com uma lista preliminar de contos:

1 – A luz interior (The Inmost Light)
2 – A mão vermelha (The Red Hand)
3 – A pirâmide de fogo (The Shining Pyramid)
4 – Ao abrir a porta
 (Opening the Door)
5 – As crianças da lagoa (The Children of the Pool)
6 – O grande deus pã (The Great God Pan)
7 – O povo branco (The White People)
8 – O sinete negro (The Novel of the Black Seal)
9 – O vinho do demônio
10- Um jovem brilhante (
The Bright Boy)

Outros contos, o acabamento refinado e os extras (que são a marca da editora), a gente espera definir junto com você leitor (temos material já traduzido para 3 livros), já que esse é um livro participativo aonde aceitamos sugestões enquanto já rola a campanha de financiamento do livro que se estenderá apenas até o fim desse ano de 2016, agora com um preço especial (R$55,00) com diversas formas de pagamento (depósito, paypal, pagseguro e parcelado).

Independente da quantidade de livros no final da campanha o livro será impresso!


Mais informações sobre o livro nos links:



sexta-feira, 28 de novembro de 2014

N. - Animação de Stephen King flerta com o Horror Cósmico


Olá pessoal,

Recentemente falamos a respeito de Stephen King aqui no Mundo Tentacular e os leitores demonstraram grande interesse pelo tema. E porque não? Afinal de contas, King é um dos mais conhecidos e apreciados autores de fantasia e horror no mundo.

Procurando material para escrever a resenha a respeito do clássico "O Cemitério", acabei esbarrando com outro título curioso da bibliografia de King. O título é simplesmente "N.", uma novela curta que faz parte da antologia "Just After Sunset".

Para muitos N. busca inspiração nas obras de H.P. Lovecraft, utilizando de doses cavalares de horror cósmico, revelações capazes de levar as pessoas a loucura e o conceito de dimensões estranhas habitadas por entidades e criaturas que são a própria encarnação do mal. Até o nome de uma das criaturas soa definitivamente lovecraftiano "Cthun". King, em uma entrevista, disse que N. é uma homenagem a um de seus autores favoritos, Arthur Machen, mais especificamente a "The Great God Pan" uma de suas estórias mais conhecidas. Aqueles que apontaram para Lovecraft não estão totalmente errados em fazer a associação, já que o próprio era um fã confesso de Machen.

N. é uma estória estranha sobre compulsão, responsabilidade e obsessão levadas as raias da insanidade. Nela, um psiquiatra que tratava de um paciente com obsessão-compulsiva descobre que os distúrbios sofridos por N. podem ter uma causa muito mais terrível do que se pode imaginar. A medida que ele vai ouvindo as palavras do sujeito nas entrevistas, descobre que ele teve contato com uma força ancestral habitando um lugar isolado no interior do Maine. A medida que o relato vai se tornando cada vez mais estranho, o psiquiatra descobre que ele mesmo foi arrastado para a trama que ameaça levá-lo a loucura.

Eu confesso que não li a estória, mas ela está nos meus planos para breve...

Descobri entretanto que N. possui uma adaptação em capítulos feita com a animação do artista Alex Maleev e com roteiro de Marc Guggenheim, ambos da Marvel. O resultado é bem interessante e aumentou muito a minha curiosidade para ler a estória.

A animação foi lançada em 25 episódios de um minuto cada, aqui condensados de uma vez só, com os créditos apenas no último episódio. 

Ele foi legendado em português pela stephenking_BR

Vale muito a pena assistir...

Então não deixem por menos, apaguem a luz, aumentem o som do computador e se deixar levar pelo clima de Assombro e Horror de N.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Aqueles que vivem na Escuridão - O lendário Povo Pequeno na Literatura de Horror

O artigo anterior a respeito dos Goblins de Hopkinsville deixa em aberto a origem e a identidade das misteriosas criaturas responsáveis pelo cerco a Fazenda Sutton. Como todo bom enigma sobrenatural, é praticamente impossível determinar o que eram os seres se é que realmente existiram. Entretanto, podemos levantar hipóteses e suposições (afinal, todos os alegados especialistas fazem isso).

Lendo o texto é impossível para quem conhece a obra do romancista galês Arthur Machen dissociar esses "goblins" do lendário Povo Pequeno (Little People) que figuram de forma proeminente em várias de suas estórias.

Após ler a estória dos Goblins, achei que seria um bom momento para falar do Povo Pequeno.

Segundo a literatura de horror de Machen, o Povo Pequeno, conhecido no folclore da Irlanda como Daione Sidhe e pelo nome Tylwyth Teg no País de Gales constitui uma raça nativa das Ilhas Britânicas. Essas criaturas viviam originalmente na superfície e eram de muitas formas semelhantes aos humanos, embora tivessem pequena estatura e feições delicadas. Os primeiros colonos humanos a chegar às Ilhas teriam sido os Celtas, que desembarcaram no litoral por volta de 1000-15000 aC. Eles encontraram o povo pequenino e imediatamente começaram a disputar espaço com ele. Sucessivas lutas fizeram com que o Povo Pequeno fugisse para a segurança de subterrâneos escavados sob montanhas e ravinas nas partes mais remotas do interior do país. Eles passaram a habitar essas regiões primitivas, criando ali os últimos refúgios de sua raça em meio a completa escuridão e isolamento. Geração após geração, essas criaturas privadas da luz do dia começaram a mudar, sofrendo uma progressiva degeneração que os transformou em monstros de pele almiscarada, olhos brilhantes e aparência bestial.  

Ainda conforme a mitologia de Machen, a humanidade perdeu o contato com o Povo Pequeno após seu êxodo para as profundezas da terra. Aos poucos, os homens esqueceram desse povo e de que ele realmente existiu em uma passado distante. As únicas lembranças a respeito deles, passaram a figurar no reino das lendas e dos mitos. A memória do Povo Pequeno foi gradualmente esquecida e absorvida pelo folclore das Ilhas Britânicas, incorporado ao conjunto de crenças sobre os sidhe, fae ou como chamamos hoje em dia, fadas.

Elfos, anões, duendes, sprites, trolls, goblins, brownies, ninfas, dryades e todos os mitos primevos que segundo o folclore das ilhas habitam as florestas, teriam surgido a partir das esparsas informações remanescentes sobre o Povo Pequeno.

Mas Machen deixou uma brecha aberta na relação entre humanos e o Povo Pequeno e explorou essa ligação em sua Literatura de Horror.

Em contos como "The White People", "Out of the Earth", "The Novel of the Black Seal", "The Shinning Pyramid", Machen considera que embora os humanos acreditem que o povo pequeno não passa de uma lenda inofensiva, na realidade tais seres continuam existindo. Mais do que isso, o povo pequeno guarda um rancor duradouro contra os humanos que os forçaram a uma existência lúgubre nas entranhas da terra. Eles sabem que os humanos foram os responsáveis pela sua degeneração e pelo confinamento imposto aos seus ancestrais, e esse sentimento se traduz em um ódio cego. Quando humanos inadvertidamente adentram seus domínios, existentes nos ermos mais selvagens além da fronteira da civilização, as consequências tendem a ser dramáticas.

Pessoas sensíveis são capazes de sentir a presença do Povo Pequeno espreitando e vigiando. Talvez esse "sexto sentido" tenha sido herdado de nossos antepassados que enfrentaram esse mesmo povo. Muitos ao sentir essa "presença invisível" preferem se afastar, cheios de maus pressentimentos e sensações desagradáveis. Contudo, aqueles, alheios ao perigo ou os que preferem ignorar seus pressentimentos e continuam se embrenhando cada vez mais fundo nos domínios do povo pequeno acabam invariavelmente caindo em uma de suas armadilhas. E para esses não há retorno.

É claro, na obra de Machen, nem todo o contato entre humanos e o Povo Pequeno resulta em morte. Por vezes, coisas mais tenebrosas que a morte, podem ocorrer...

Em "The White People" a jovem protagonista ingenuamente entra em contato com o Povo Pequeno acreditando que eles são bondosas entidades dos contos de fadas. Ela não imagina o perigo que corre ao trocar presentes com as criaturas. 

Em "The Novel of the Black Seal" o personagem tenta trazer à tona os segredos de uma civilização pré-humana nas montanhas do País de Gales e descobrir a verdadeira natureza de uma criança que parece esconder um segredo assustador. 

Já em "The Shinning Pyramid" um homem encontra estranhas pedras cobertas com a confusa escrita Aklo do Povo Pequeno, e ao tentar decifrar esses objetos acaba despertando a ira das criaturas. 

Mas em nenhuma outra estória a presença do Povo Pequeno causa tanta repulsa e horror quanto em "The Great God Pan". Não por acaso, na opinião de H.P. Lovecraft esta é uma das maiores obras de literatura fantástica escritas. Nessa genial estória, o Povo Pequeno age de forma demoníaca e absolutamente maligna. Em "O Grande Deus Pã" as criaturas estão dispostas não apenas a assassinar, mas violentar e enlouquecer a protagonista a ponto de fazer com que a realidade perdesse o sentido na sua mente combalida.

Arthur Machen talvez tenha sido o primeiro dos autores de ficção fantástica a tratar do Povo Pequeno e das fadas perversas, mas com certeza ele não foi o único. Jovens autores são inclinados a emular escritores que eles admiram e respeitam, Robert E. Howard não era exceção. O autor americano, muito lembrado pelos seus contos dentro do gênero Sword & Sorcery (Conan, Kull, Solomon Kane) demonstrou claramente sua afinidade com a obra de Machen ao utilizar o Povo Pequeno em muitas (e excelentes) estórias.

Howard tomou emprestado o Povo Pequeno para alguns de seus mais celebrados contos dentro do gênero Horror. Coube a ele também fazer a ligação entre o Povo Pequeno e as entidades do Mythos de Cthulhu.

Na concepção de Howard, o Povo Pequeno é o blasfemo resultado da união de uma raça anti-diluviana, o Povo Serpente da Valúsia com seres humanos. Os primeiros homens a colonizar as Ilhas Britânicas encontraram ali uma sociedade formada por medonhos Homens Serpentes, espécie ancestral cuja civilização, em um determinado tempo extremamente avançada na ciência e na magia, vinha decaindo gradativamente. Incapazes de enfrentar o grande número de humanos que migrava para seus domínios, o Povo Serpente foi retrocedendo cada vez mais para o interior da ilha. Logo eles tinham razões para temer sua própria extinção. Como forma de perpetuar a espécie, alguns tentaram procriar com fêmeas humanas gerando criaturas híbridas que não podiam se passar por humanos, mas que guardavam algumas similaridades com estes.

Vistos com desconfiança e repulsa pelos conquistadores humanos, os híbridos se refugiaram sob ravinas e montanhas, escavando túneis cada vez mais profundos no solo. Numerosos refúgios existiriam na Britânia Central e no País de Gales, locais até pouco tempo intocados pela presença humana. O tempo e o completo isolamento, em conjunto com as costumes selvagens por eles praticados, terminaram por sepultar de vez qualquer traço de humanidade que um dia vieram a possuir. O resultado foi uma progressiva degeneração em uma raça primitiva, bárbara e feroz.

Chamados em algumas estórias de "Vermes da Terra", o Povo Pequeno de Howard é tão (ou até mais) perigosos do que o criado por Machen.

"The Little People" foi o primeiro conto de Howard trazendo a raça de híbridos degenerados que habitam as montanhas selvagens do País de Gales. Um dos personagens, um jovem dono de terras recém chegado a isolada região cita Machen e "The Shinning Pyramid" referindo-se ao ambiente tenebroso onde escolheu fincar raízes. Pouco depois, horríveis criaturas tentam raptar sua irmã e arrastá-la para os subterrâneos. Ele deve resgatá-la de um destino pior do que a própria morte.

No conto seguinte, "The Children of the Night" (considerada uma de suas melhores estórias de horror) Howard aprofunda a ligação entre o Povo Pequeno e o Mythos de Cthulhu relacionando as criaturas com seu próprio Tomo de conhecimento profano, o Nameless Cults. Nessa estória, o narrador acidentalmente descobre ter sido lançado em um passado ancestral, habitando o corpo de uma prévia encarnação, na época em que homens enfrentavam o Povo Serpente pelo controle das Ilhas Britânicas. Após lutar com dezenas de híbridos com feições reptilianas, ele retorna a sua época deparando-se com uma revelação chocante.

"People of the Dark", o conto seguinte envolvendo o Povo Pequeno também está inserido no universo do Mythos. Nessa aventura negra, o narrador novamente é transportado para o corpo de um antepassado - no caso ninguém menos do que o próprio Conan o Bárbaro (personagem icônico de Howard). Uma vez habitando o corpo do cimério ele enfrenta uma situação, que guarda estranha similaridade com os acontecimentos recentes de sua vida. Ele tem que enfrentar um rival, resgatar sua amada e ainda confrontar horrendas criaturas que habitam o interior de uma caverna.

Finalmente "Worms of Earth" é o conto mais significativo da série de Howard a respeito do Povo Pequeno (e de longe o meu favorito!). Na trama, o líder bárbaro Bran Mak Morm (anteriormente citado em "The Children of Night"), promete vingança contra os romanos que invadiram as Ilhas Britânicas e massacraram seu povo. Ele se alia aos vermes da terra, uma raça de seres banidos para as profundezas pelos seus antepassados e que se transformaram em monstros bestiais. Para forçar os vermes da terra a conquistar seu intento, Bran deve recuperar um artefato perdido e assim fazer com que as criaturas obedeçam suas ordens. Mas prestes a conquistar sua tão desejada vingança, Bran descobrirá que algumas alianças não devem ser forjadas, nem mesmo contra o poder de Roma.             

Pioneiros da ficção fantástica como Arthur Machen e Robert E. Howard conseguiram subverter os contos de fadas pintando as lendas infantis com cores sombrias e sinistras. Sua contribuição continua gerando frutos ao longo dos anos com contos de fadas nada indicados para crianças. Se obras como o filme "O Labririnto do Fauno", as séries "Grimm" e "Once Upon a Time" ou os quadrinhos da Vertigo intitulado "Fábulas" existem hoje em dia, devem muito aos precursores que trilharam antes esse caminho.