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sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Mistério Ancestral - Os Enigmas da Cidade mais Antiga do Mundo


Ocupando a Planície de Konya, na região da Anatólia, sudeste da Turquia e se espalhando por centenas de quilômetros por uma área remota e selvagem, encontramos a ancestral cidade de Çatalhöyük (pronuncia-se Cha-tal uy uk). Repousando às margens de um rio seco há mais de um milênio atrás, o misterioso assentamento é fonte de mistérios e enigmas insondáveis.

Desaparecida da face da história há tantos séculos, ela foi encontrada por acaso em 1958 quando o arqueólogo James Mellaart e sua equipe buscavam indícios de ocupação humana. As escavações motivadas pela descoberta de fragmentos de vasos sinalizavam com uma descoberta importante, mas eles não tinham ideia do que haviam encontrado até as primeiras ruínas serem desenterradas. O que foi removido do sítio se provou muito mais antigo e consideravelmente mais bizarro do que eles poderiam imaginar. Lentamente, a escavação revelou paredes, artefatos e os restos deixados por uma civilização que habitou aquele recanto isolado do planeta, quando a própria humanidade era jovem. A cidade desconhecida não apenas era uma joia da antiguidade e palco de um extraordinário passado, como desafiava tudo o que se presumia a respeito dos povos pré-históricos.

O primeiro aspecto intrigante de Çatalhöyük é sem dúvida a sua incrível idade, os arqueólogos estimaram que ela teria sido ocupada no Período Neolítico, em algum momento de 7500 a.C, fazendo as ruínas romanas erguidas nas proximidades, mais de 6 milênios depois, positivamente modernas em comparação. Para se ter uma ideia, as Pirâmides de Gizé, no Egito datam de 2700 a.C. Após sua descoberta a cidade foi imediatamente apontada como um dos mais antigos assentamentos organizados na face do planeta, merecendo o título de "Mais Antiga Cidade do Mundo". O que realmente impressiona é o fato de que nesse mesmo período a maior parte da humanidade se resumia a tribos esparsas de nômades e andarilhos. 

Desenho da cidade em seu auge
Fora dos limites da cidade, os pesquisadores encontraram evidências de campos usados para agricultura, um conceito revolucionário para esses caçadores-coletores, algo praticamente desconhecido no período. Mas não é só isso... além de campos de plantio, as escavações revelaram ossadas de milhares de ovelhas, cabras, cavalos, cães, porcos, coelhos e outros animais domésticos. Isso sugere que a população da cidade não apenas sabia como domesticar esses animais, um conhecimento notável, como sabia como reunir e tratá-los em cativeiro. Ao invés de caçar, os habitantes da cidade criavam animais para seu sustento. A cidade é um testemunho da transição do homem de uma condição de subsistência baseada em caça e coleta, para a habilidade no cultivo e domesticação de animais. Foi ali possivelmente se deu a transição do homem nômade para o colono, um momento marcante em nossa evolução.

Mas essas coisas não são o que mais impressionou os pesquisadores a respeito da cidade. Mellaart e outros arqueólogos ao longo dos anos descobriram que Çatalhöyük possuía uma estrutura social extremamente complexa. Para começar, a cidade não possuía ruas: os moradores transitavam por muros baixos de barro e sobre os telhados das casas. Estas eram construções de tijolos e gesso sem janelas, arregimentadas em grupos e com entradas no topo ao invés de portas. A planta da cidade, em formato de uma colmeia incluía uma rede de ladeiras e rampas que conectavam os prédios e permitiam aos moradores navegar pelo alto das construções onde também haviam áreas comunais. Não se sabe ao certo de que forma se dava o conceito de propriedade ou mesmo se ele existia. É um tipo de organização social diferente de tudo o que já foi encontrado e ainda não inteiramente compreendido pelos estudiosos.

Mas há outras coisas estranhas. As casas possuíam adornos e elementos artísticos que as diferenciam entre si, com características que deviam refletir o gosto pessoal de seus ocupantes. Várias das casas apresentavam pinturas adornando as paredes tanto dentro quanto fora, desenhos geométricos e glifos complexos que denotam uma sensibilidade para refletir o mundo e o que as pessoas viam. Além disso, crânios de animais, sobretudo touros e bodes ganhavam destaque, dispostos nas paredes em nichos. O interesse pelos crânios não é exatamente estranho em muitas culturas, mas em Çatalhöyük ele parece ser um elemento significativo. Crânios de animais eram colocados pelos habitantes em lugar de destaque nas casas. Além de crânios, ossos polidos e fragmentos de obsidiana talhada demonstram a inclinação artística dessas pessoas que gastavam tempo e se dedicavam a construir figuras e estatuetas. 

A Cidade de Çatalhöyük, ou como ela deve ter sido
Os arqueólogos se surpreenderam com a descoberta de objetos anômalos achados na cidade, como um mural que retrata uma vista aérea ou panorâmica da cidade e do vulcão Hasan Dagi localizado a cerca de 12 quilômetros de distância. O mural é tido como o mapa mais antigo do mundo, já que ele mostra a posição relativa da cidade e dos seus arredores. Os pesquisadores também ficaram maravilhados com a descoberta de uma obra de arte, a representação de uma cabeça humana feita de gesso e pedra, adornada com olhos de obsidiana. A peça não havia sido largada, mas colocada cuidadosamente em uma urna de pedra talhada que foi depositada em um nicho de uma das casas, quase como se tivesse sido guardada ali.

A maioria das casas era equipada com um tipo de rudimentar lareira usada para fornecer calor e também permitir o preparo de alimentos. Cada casa tinha ainda uma espécie de janela ou exaustor utilizado para ventilação que permitia manter o ambiente fresco, ainda que protegido de poeira. As pessoas em  Çatalhöyük tinham uma vida diferente de todos no mesmo período, com segurança e conforto único.

Outro aspecto exclusivo diz respeito a como os mortos eram tratados na cidade. Os arqueólogos à princípio não encontraram nenhum sinal de cemitérios comunais, o que os levou a acreditar num primeiro momento que os mortos eram enterrados no deserto ou queimados em algum local distante. Isso indicaria que as pessoas na cidade tinham pouco interesse em tratar os mortos com devoção. Contudo, as suposições dos estudioso não poderiam estar mais equivocadas! Os mortos em Çatalhöyük não eram colocados em cemitérios, mas sob os alicerces das casas, possivelmente para ficar o mais perto possível de seus parentes e amigos.

Sepultura na base das casas
O tratamento dispensado aos cadáveres também chama a atenção. Em vários casos o crânio era removido, possivelmente seguindo algum propósito ritualístico, e só enterrado posteriormente. Há indícios de que certos crânios desapareceram ou foram movidos para outros lugares, possivelmente até mesmo o interior das moradias. Seguindo o raciocínio de que crânios animais eram usados como adornos, é possível imaginar que as cabeças de entes queridos seriam decepadas e então dispostas no interior das casas. Lá ficariam, à vista de todos, até serem retornadas para as sepulturas com os demais restos.

Quem sabe o que significava esse costume ou a razão para ele ser seguido? Contudo, ao que parece, essa tradição fazia parte da vida das pessoas na cidade, sendo praticado ao longo de gerações. Talvez eles achassem que os entes queridos deveriam continuar de alguma forma participando de suas vidas. Ainda assim, é um conceito no mínimo bizarro de se imaginar.

A despeito desse estranho costume, a cidade de forma geral demostrava ser inusitadamente limpa, com indícios de que o lixo e os refugos fossem queimados ou enterrados. Além disso, os prédios possuem sinais claros de restauração e manutenção preventiva. Com efeito, as pessoas que residiam em Çatalhöyük eram incrivelmente saudáveis para os padrões neolíticos. Também graças à sua limpeza e asseio notáveis, a expectativa de vida era quase 15 anos maior do que qualquer outro local no período.

Vista de Çatalhöyük 
Em seu auge, a ancestral cidade de Çatalhöyük contou com uma população estimada em pelo menos 10,000 habitantes, fazendo dela não apenas a mais antiga das cidades, mas também a maior de seu período. Em termos neolíticos, um assentamento dessas proporções seria o equivalente a uma metrópole urbana atual.

Além de seu tamanho, a cidade também impressiona pela sua longevidade. As escavações revelaram ao menos 18 camadas de ocupação humana, tendo ela sido construída e reconstruída por milênios com acréscimos e melhorias. As suposições mais conservadoras sugerem que a cidade pode ter se mantido ocupada por ao menos um milênio, enquanto outros acreditam que sua ocupação pode ter perdurado por mais de dois mil anos.

Também impressiona a estrutura da sociedade em si. Embora não existam registros escritos, o estudo dos restos mostram muito pouca diferença na qualidade de vida entre homens e mulheres, sendo as casas bastante similares, em alguns casos quase idênticas. Também há poucas divisões sociais, apontando para um tipo de sociedade igualitária. Não foram encontrados indícios que apontem para qualquer tipo de governo ou centro administrativo responsável por regular a lei e a ordem na cidade. Todos os habitantes parecem ter a mesma importância com acesso aos produtos e o mesmo grau de saúde, o que seria uma verdadeira utopia atingida na pré-história.

Entretanto, embora os arqueólogos defendam a existência de uma igualdade social, há sinais de que em outros aspectos a sociedade não era inteiramente livre. Os moradores pareciam obrigados a se submeter a um controle social rígido - sendo que, aqueles que não se enquadravam neste eram presumivelmente forçados a partir. O que Çatalhöyük comprova é que para a sociedade funcionar havia a necessidade de certo grau de homogeneidade. Por gerações, os costumes foram preservados de forma ferrenha e qualquer desvio, era visto como inaceitável.

Representação da Deusa Mãe da Fecundidade
Mas se havia tanto equilíbrio, o que pode ter causado a derrocada de um lugar como Çatalhöyük? Como uma cidade de 2 mil anos de ocupação teria sido esvaziada e abandonada por famílias que ali residiram por gerações em total paz e tranquilidade?

Há mais de uma teoria, ainda que nenhuma pareça ser conclusiva. É possível que brigas internas, motivadas por acúmulo de riqueza tenha sido uma das causas de desentendimento entre setores da população. As moradias mais "novas" apresentam crescimento e ensejam a possibilidade de que alguns moradores se tornaram "mais importantes" ou "mais ricos" do que outros.

A outra teoria para a derrocada de Çatalhöyük envolve o surgimento de diferentes religiões, cada qual com os seus próprios princípios e dogmas. Os arqueólogos encontraram várias estatuetas de caráter religioso nas ruínas: as mais antigas envolvendo representações de uma Deusa da Fecundidade, englobada pela imagem da Grande Mãe que provê a vida. Essas imagens mais antigas parecem ter sido gradualmente abandonadas em favor de outras divindades, a maioria delas antropomórficas, sendo que uma divindade com Cabeça de Touro se tornou muito popular. É possível que o advento desses novos deuses tenha causado uma cisão na perfeita harmonia da cidade. A existência de pelo menos dois templos "recentes" desse Deus Touro aponta para o fato de que religiões começaram a surgir e demandar uma porção cada vez mais importante da cidade. Para reforçar essa teoria, os pesquisadores encontraram regalia e objetos luxuosos que faziam parte da indumentária de sacerdotes que aos poucos passaram a constituir uma classe social à parte.

Não há como dizer ao certo se esse foi o motivo principal para a queda da cidade, mas parece ser uma excelente suposição. Disputas motivadas por interesses pessoais e religiosos frequentemente se tornaram ao longo da história um fator de turbulência social, ao que parece, até mesmo no Neolítico.

É possível que um dia eventualmente acabemos descobrindo o que aconteceu com essa grande cidade à frente de seu tempo. Mesmo hoje, apenas uma pequena fração dela foi desenterrada e é possível que as respostas para tantos questionamentos ainda se encontrem ocultos sob a terra. Por enquanto, ninguém é capaz de saber e a queda de Çatalhöyük, bem como quase tudo ao seu respeito, permanece como um mistério ancestral.

*     *     *

Usando a história totalmente real dessa incrível cidade e do povo que a habitou, é possível encaixar facilmente elementos dos Mythos de Cthulhu e escrever um Cenário.

Dos estranhos costumes e tradições com os cadáveres cujas cabeças eram removidas e guardadas no interior das casas, até os Deuses Ancestrais para os quais eles prestavam homenagem, tudo aqui grita MYTHOS!

Daria uma excelente aventura tendo como pano de fundo uma Expedição Arqueológica na Anatólia Turca. Eu iria situá-la em algum ponto de 1930 e incluir mais algumas lendas locais e questões políticas - já que em 1930 a Turquia era um verdadeiro barril de pólvora de disputas. 

Se valendo dos elementos descritivos, temos uma "Deusa Mãe", figura clássica que representa Fertilidade e Fecundidade que se encaixa perfeitamente no etos de Shub-Niggurath e um Novo Deus com Cabeça de Touro que poderia ser o Touro Negro, um dos Avatares menos conhecidos de Nyarlathotep. Talvez a derrocada da cidade tivesse sido causada por uma disputa religiosa entre facções de cultistas.

O Touro Negro, avatar de Nyarlathotep
Uma equipe de arqueólogos poderia encontrar nas escavações de Çatalhöyük indícios dessa cisão e a disputa entre divindades, bem como registros a respeito do que aconteceu nesse lugar. Talvez pudessem achar câmaras ocultas onde artefatos e fragmentos da história ancestral estariam aguardando para revelar sua verdadeira (e aterrorizante) história. 

O material é tão bom e repleto de possibilidades que a aventura praticamente se escreve sozinha...

terça-feira, 30 de julho de 2019

O Desaparecimento do Gringo Velho - O Misterioso destino de Ambrose Bierce


Alguns desaparecimentos misteriosos conseguem atingir o perfeito equilíbrio entre estranheza, ausência de explicação e a vida da vítima. Em alguns casos, esses desaparecimentos parecem incrivelmente adequados, como se eles estivessem fadados a acontecer e como se eles não pudessem ser evitados. Um desses casos, inclui o desaparecimento de um talentoso escritor que escreveu muito a respeito do mundo do sobrenatural e é claro, desaparecimentos, antes dele próprio sumir sem deixar vestígios. De fato, seu desaparecimento sem solução se tornou um mistério persistente que se sobrepôs a sua própria carreira literária, tornando-o mais famoso pelas estranhas circunstâncias de seu fim do que pelas suas histórias horripilantes.

No final do século XIX um dos mais populares autores dos Estados Unidos era um homem chamado Ambrose Bierce. Ele era um veterano condecorado da Guerra Civil além de jornalista e cronista, não apenas de livros e contos, mas de uma série de artigos e ensaios publicados no New York Journal, no New York American e no San Francisco Chronicle. Tamanha era a sua popularidade que ele serviu de inspiração para outros grandes escritores, incluindo Jack London e Joaquin Miller. Embora seus trabalhos hoje sejam um tanto obscuros, ele foi muitíssimo conhecido, particularmente na Costa Oeste da América, especialmente no que tange aos seus trabalhos nos reinos do bizarro e sobrenatural. Bierce era obcecado pelo oculto, pela morte e pelo paranormal, temas que apareciam repetidas vezes em seus contos, com inúmeras aparições, fantasmas e assombrações. Apesar de muitas de suas histórias terem um tom realista, uma bagagem trazida de seu trabalho como repórter, ele se sobressaia em contos de ficção e assombro. Talvez o fato dele escrever sobre o fantástico de maneira tão realista é que constituía o diferencial de suas obras.


É provável que o melhor exemplo disso seja um conto curto com o título "A Trilha de Charles Ashmore"  (Charles Ashmore’s Trail), que foi publicada em uma coleção de 1893, sob o nome "Pode tal coisa existir"? (Can Such Things Be?). A narrativa é construída como se fosse um relato verdadeiro de algo que havia ocorrido, e envolve um jovem homem chamado Charles Ashmore, que em uma noite gélida de novembro de 1878 deixa a casa de sua família, em Quincy, Illinois para apanhar água em um velho poço. Charles não retorna, e sua família, dando pela sua falta sai a procura. Uma vez que na noite anterior havia nevado, haviam pegadas facilmente perceptíveis levando até o poço, mas elas abruptamente somem em determinado ponto. Acreditando que ele pudesse ter caído, os parentes de Charles gritam, mas não obtém resposta. Não há sinal do rapaz, não há pegadas, nem um traço sequer na neve que não parece ter sido perturbada. Ele simplesmente sumiu da existência a cerca de dois metros do poço. O pai e a irmã mais velha, verificam o buraco e descobrem que ele tem uma crosta de gelo que não poderia ter se formado se o rapaz tivesse caído nele. Tornando tudo ainda mais esquisito, a mãe de Charles, quatro dias mais tarde vai até o mesmo poço para apanhar água e ouve um sussurro chamando seu nome. O som fantasmagórico continua a chamá-la, mas ela sai correndo antes que algo pior - e que provavelmente aconteceu com seu filho, possa acontecer.

A história é interessante para qualquer pessoa que goste de mistérios. A maneira como Bierce relata os fatos e a forma como ele fornece à narrativa um verniz jornalístico influenciou muitos outros escritores. Não é exagero dizer que ele foi um dos primeiros a criar esse estilo de literatura, amparada pela prosa jornalística. Outra história dele, "O Caso de Oliver Larch", também envolve um jovem rapaz, dessa vez de de Indiana, que na véspera do Natal desaparece no ar depois que um forte brilho é testemunhado por pessoas que passavam pelos arredores. Quando a  família tenta traçar seus passos, ouve uma voz que parece ser de Oliver vindo de lugar nenhum e cuja origem parece incerta. Oliver teria sido transportado para outra realidade e se via impedido de retornar. Por vezes mencionada como se fosse uma história real, o conto parece ser uma espécie de continuação da primeira.

Há também o famoso "Caso de David Lang", que é parcialmente adaptada em cima de outra história de Bierce intitulada "A Dificuldade de Cruzar um Campo" (The Difficulty of Crossing a Field), e que muitos consideravam como uma narrativa de fatos inexplicáveis e ainda assim reais. Ela relata um incidente envolvendo um tal David Lang que também desaparece, dessa vez diante dos olhos de várias testemunhas embasbacadas. Passando-se no Tennessee, o conto tem lugar em 1880. Um fazendeiro chamado David cruza um campo aberto, quando repentinamente desaparece no ar deixando sua família e um grupo de amigos horrorizados. No lugar em que ele estava, surge um círculo de grama amarelada, e assim como ocorre nos casos de Ashmore as pessoas afirmam escutar vozes que parecem suspensas no ar por dias. No conto, um estudioso chamado Dr. Maximilian Hern, teoriza a respeito de tais desaparecimentos, afirmando que estes são causados por "um vazio no éter universal", que ele especula ser uma falha no tecido da realidade que dura apenas uns poucos segundos. Contudo, toda matéria que está em contato com essa falha acaba sendo vaporizada e destruída, bem como qualquer pessoa que tenha o azar de estar sobre ela. 

Bierce dizia ter entrevistado cientistas e metafísicos que afirmavam ser esse fenômeno causado por campos magnéticos, capazes de abrir buracos para outras realidades e dimensões, onde as vítimas colhidas ficavam presas. O curioso é que o escritor afirmava que essas histórias tinham base em incidentes verídicos. Ele dizia que embora os nomes tivessem sido trocados, as circunstâncias narradas tinham como base acontecimentos dos quais ele havia investigado em seus tempos de repórter. 


Muitas pessoas passaram a entender os contos de Bierce como narrativas oficiais sobre acontecimentos que de fato haviam ocorrido. Essa era a extensão de seu poder de convencimento: transformar situações fictícias em reais, fosse ou não, a sua intenção original. Bierce era conhecido não apenas por escrever com uma autoridade impressionante e uma forte capacidade de convencimento, mas por conceder às suas narrativas realismo.

Outro famoso trabalho de Ambrose Bierce, por vezes considerado como verídico, é a história curta "Casa Esquisita" (Spook House), que foi publicada no Jornal "The Advocate" na forma de artigos. O conto é a respeito de uma velha casa no Kentuck de onde uma família inteira supostamente desapareceu sem deixar rastro em 1858. Seus objetos pessoais, roupas, comida, cavalos e até mesmo escravos ficaram para trás. Na história, um ano depois do desaparecimento, dois viajantes acabam se abrigando na casa durante uma tempestade e um deles também acaba sumindo. O sobrevivente passa a se dedicar a descobrir o mistério da casa que envolve uma sinistra força sobrenatural habitando um aposento secreto. A história, considerada aterrorizante na época foi escrita no formato de reportagem, inclusive com entrevistas, o que concedia a ela uma ar de realismo impressionante.


Ainda que a história fosse fantástica e absurdamente estranha, a forma como ela foi apresentada originou um debate duradouro sobre sua veracidade. Bierce era capaz de habilmente transitar na tênue linha entre verdade e ficção, ao ponto de tornar as duas praticamente a mesma coisa.  

Como é possível perceber facilmente através de seus contos, Bierce era fascinado por mistérios, sobretudo aqueles envolvendo estranhos desaparecimentos. Para criar suas histórias ele conduzia pesquisas sobre o assunto. Ele tinha um profundo interesse nas teorias do teórico alemão Hern Leipzig, que especulava a respeito de "buracos" na nossa realidade, através do qual objetos animados e inanimados poderiam desaparecer, sendo tragados por uma realidade invisível de onde jamais conseguiriam escapar. Esse lugar era tratado como uma espécie de limbo, no qual a vítima deixava de existir, mas onde continuava existindo simultâneamente, invisível ao mundo à sua volta e incapaz de interagir com ele. Bierce concluiu que esses buracos, espaços vazios ou recessos como ele chamava, algumas vezes eram uma das causas para os inúmeros casos de pessoas desaparecidas. Ele elaborava:

"Vamos supor que esses espaços vazios existam em nosso mundo, como cavernas existem na terra, ou buracos existem em um queijo suíço. Em tais espaços vazios não existe absolutamente nada. Trata-se de um vazio completo, uma espécie de éter. Nem mesmo a luz pode penetrar nesse espaço. O som não pode vir de dentro dele, nada pode determinar a sua existência. Ele não é percebido ou captado pelos nossos sentidos e para todos os efeitos não há como determinar a sua existência. Nesse vazio, não há sequer a passagem de tempo. De quado em quando, contudo, algum fenômeno desconhecido é capaz de abrir esse vazio e permitir o acesso ao seu interior. Infelizmente tal fenômeno tem curta duração e quando terminado, aqueles que são tragados para esse vazio se vêem presos nele, para sempre. Não existem mais em nosso mundo, não estão vivos e nem mortos, mas em uma realidade que os devorou".     

Com uma fascinação tão grande por desaparecimentos e com tamanho talento para escrever a respeito deles, parece irônico e sinistramente apropriado que o próprio Ambrose Bierce tenha um dia desaparecido sem deixar qualquer sinal. E seu desaparecimento é, ainda hoje, considerado um dos mais estranhos da história.

Tudo ocorreu em 1913, quando Bierce, que já havia completado 70 anos de idade, decidiu enveredar uma vez mais pelo caminho da guerra e do caos. Em busca de aventura e excitação ele planejou cruzar a fronteira até o México, em plena Guerra Civil para encontrar as forças de Pancho Villa e testemunhar pessoalmente sua luta contra as tropas federais do General Huerta. Bierce não escondia de ninguém que considerava sua experiência como oficial na Guerra da Secessão o momento mais importante de sua existência. Embora ele tivesse lutado com distinção, havia sido ferido duas vezes. Sua participação no conflito serviu para obter inspiração para suas histórias e assunto suficiente para incontáveis narrativas. No final da vida, Bierce desejava experimentar tudo aquilo novamente e convencido que haviam histórias a serem contadas, ignorou os avisos de não se envolver na Guerra que devastava o país vizinho. Bierce escreveu em sua cara de despedida: "Eu estou a caminho do México por que é lá que está a excitação. Eu gosto desse jogo. Eu gosto da luta. E eu quero ver isso novamente".


Tudo se encaixava perfeitamente com a personalidade inquieta de Bierce, que adorava falar a respeito de seus tempos na guerra e como aquilo ajudou a moldar seu caráter. O escritor parecia enxergar a guerra sob um prisma particular: via beleza em meio ao Caos, poesia no horror. Sabe-se que Bierce antes de seguir para o Sul da Fronteira, visitou uma vez mais os antigos campos de batalha da Guerra Civil, inclusive os lugares onde foi ferido. Pouco depois, em dezembro de 1913, escreveu uma carta a sobrinha avisando que estava prestes a cruzar a fronteira próximo de Laredo, no Texas. Ele ficaria alguns dias na cidade de Juarez, para se equipar e traçar seus planos. Essa seria uma de suas últimas correspondências, e de fato, a última vez que se ouviria falar dele, exceto por um cartão postal que ele enviou de Chihuahua, México em 26 de dezembro no qual ele escrevia apenas uma frase: "Jornada de Juarez concluída, à caminho de Ojinaga, está tudo bem".

Dali em diante não se teve nenhuma outra notícia de Bierce. Assim como muitos de seus personagens, ele simplesmente desapareceu da face da terra. Até onde se sabe, ele jamais expressou planos de retornar aos Estados Unidos e chamava sua aventura derradeira de "Jornada de la Muerte", sua Jornada Mortal. Em sua carta derradeira para a sobrinha ele escreveu:

"Adeus - se você ouvir que fui amarrado e colocado diante de um pelotão de fuzilamento por mexicanos, não fique triste. Essa seria uma bela forma de morrer! Muito melhor que morrer de idade avançada, de doença ou caindo de uma escada. Ser um gringo no México, isso sim é vida!"

Em 1919, um amigo próximo de Bierce chamado George F. Weeks partiu para o México com o objetivo de traçar os últimos passos de seu amigo e descobrir o que teria acontecido com ele. Para a maioria das pessoas ele teria sido morto por revolucionários ou tropas federais, pego em alguma emboscada ou se tornado vítima de bandoleiros. Sem dúvida, a Revolução Mexicana foi um tempo de grande violência e brutalidade. Weeks planejava colocar um ponto final nas especulações de que Bierce teria perdido a memória e que passou a viver no México com uma identidade falsa. Durante sua viagem, Weeks encontrou um oficial mexicano que relatou como Bierce teria morrido em uma batalha em Ojinaga, contudo, havia muitos rumores.

Desde seu desaparecimento, teorias sobre o destino final do famoso escritor floresceram. Além da possibilidade mais óbvia e provável dele ter sido morto em uma batalha, haviam os que imaginavam que ele jamais teria ido para o México. Que havia cometido suicídio em virtude de seu estado de saúde. Esses afirmam que as cartas de Bierce e seu estado de ânimo geral demonstravam o quanto ele detestava a noção de ficar velho e inválido. Ele também pode ter cometido suicídio por achar que sua existência havia se estagnado. Outra teoria é que ele teria ficado nos Estados Unidos, mas fabricado a história do México afim de perpetuar sua própria lenda. Nesse caso, ele teria construído a narrativa de seu desaparecimento misterioso. Assim, ele se juntaria aos seus personagens, nublando as linhas da realidade e da ficção para sempre.


Outros afirmavam que ele continuou a viver no México, país que o cativou. Ele teria assumido a identidade de um americano chamado Jack Robinson, indivíduo de quem se sabe muito pouco, mas que teria acompanhado os rebeldes de Pancho Villa por meses antes de também sumir. Robinson se tornou uma espécie de consultor e conselheiro dos rebeldes, afirmando que tinha farta experiência militar, sendo ele próprio um veterano. Aqueles que conheceram Robinson, afirmam que ele era um homem de idade extremamente articulado.

Finalmente ele poderia ter sido assassinado por bandidos de estrada ou capturado por tribos nativas e sacrificado por eles. Essa triste possibilidade contempla que ele simplesmente adoeceu ou foi ferido e terminou morrendo numa cama em algum lugarejo perdido. Posteriormente, ele foi enterrado numa cova sem nome e lá permanecem seus ossos pela eternidade.

No fim das contas, Weeks não conseguiu as provas que buscava, mas descobriu que em sua curta passagem pela Guerra Civil, o Gringo Velho colecionou amigos e histórias. É de se imaginar que narrativas ele teria para contar se tivesse retornado dessa viagem.

Mas existem ainda os que procuram uma explicação metafísica para o ocorrido. Estes defendem que Bierce foi vítima do fenômeno sobre o qual escreveu de maneira tão competente. Talvez ele tenha caído em um "espaço vazio" na realidade e desaparecido para sempre em um limbo do qual não existe retorno. Sobre esse ponto, existe uma narrativa (sem dúvida minha favorita!) sobre o que poderia ter acontecido com o inquieto autor.


Nesta, o Gringo Velho teria sido capturado por rebeldes e levado diante do próprio Pancho Villa. O Comandante rebelde o interrogou e acabou confundindo o homem com algum tipo de espião ou observador enviado pelos americanos para comunicar o curso da revolução. Alegando que havia sido um veterano da Guerra Civil, Villa ponderou que então o velho deveria ser executado como soldado, encarando um pelotão de fuzilamento. Ele concedeu inclusive a honra de ser o oficial presente na execução que daria a ordem de "preparar, apontar, fogo".

Bierce concordou e até teria sorrido diante da honra: "Melhor isso do que viver como prisioneiro".

O velho foi colocado diante de um paredão onde muitos outros haviam sido baleados. Antes entregou uma carta a um rapaz com instruções para faze-la chegar às mãos da sobrinha do Gringo, na Califórnia. Pancho Villa em pessoa contou até três e ordenou que disparassem. Mas então algo inesperado aconteceu! Antes que as balas o atingissem, o alvo simplesmente desapareceu no ar, como se outra realidade o tivesse engolido. Os soldados ficaram tão apavorados que fugiram e mesmo o lendário Pancho Villa não soube explicar o estranho acontecimento. Ele mandou que ninguém jamais mencionasse o incidente para não alimentar histórias de fantasmas. O rapaz incumbido de entregar a carta foi instruído a queimá-la e dessa forma, ninguém saberia o que havia acontecido com o Gringo Velho. Para todos os efeitos ele teria desaparecido durante a Guerra e o Caos que tanto desejava assistir.

O certo é que o desaparecimento de Ambrose Bierce continua sendo um enigma, e seu destino permanece em aberto. Como diziam muitos de seus amigos que o conheceram: "não iria me espantar se um belo dia Bierce aparecesse cheio de histórias e narrativas para contar".

No fim das contas, não importa o que realmente aconteceu com ele, mas que ele provavelmente ficaria satisfeito com o mistério de jamais sabermos ao certo.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Em nome do Progresso - O Massacre dos Búfalos no Oeste Selvagem



No ano de 1885 as majestosas manadas de Búfalos já não mais cruzavam as planícies da América do Norte.

Houve um tempo em que a paisagem ficava tomada desse magníficos animais até onde a vista alcançava. Segundo biólogos, a população de búfalos pode ter chegado perto de 30 milhões em seu auge. Nos anos que se seguiram à Marcha para o Oeste, seu número foi reduzido drasticamente. Os Búfalos para muitos, eram intermináveis, mas isso não era verdade. Os gigantescos rebanhos, com milhares de cabeças cruzavam as planícies fazendo o chão tremer. 

Infelizmente, os animais foram declarados como um recurso valioso a ser explorado.

Por gerações os nativos americanos caçaram os búfalos que forneciam pele, chifre, ossos, cascos e carne que eram aproveitados pelas tribos. Contudo, a chegada do homem branco transformou o abate sistemático de búfalos em uma Indústria em franco crescimento. Durante o século XIX eles foram caçados impiedosamente, quase até a sua extinção.


Além das indústrias de abate que os caçavam e exterminavam aos milhares, um dos passatempos mais comuns na expansão para o Oeste era a caça. Os animais eram abatidos indiscriminadamente! Caçadores se orgulhavam de abater 10-20 búfalos por dia, a maioria deles meramente pelo prazer de atirar numa grande besta. Os búfalos eram pacíficos, raramente reagiam, o que tornava fácil de serem baleados por rifles e pistolas. Além disso, viviam juntos, um tiro com uma arma potente podia matar ou ferir vários ao mesmo tempo. 

Uma vez abatidos aproveitava-se praticamente tudo do animal, contudo a caça por esporte se limitava a abatê-los e depois abandonar sua carcaça nos campos para apodrecer e alimentar as aves de rapina. Nesse caso, nada se aproveitava!

Para piorar a situação, em dado momento as companhias de estradas de ferro declararam os búfalos como Inimigos do Progresso. Era fato que as manadas, por vezes, bloqueavam a ferrovia, impediam a passagem dos trens e constituíam um risco de acidentes. Para lidar com o problema, os Barões das Estradas de Ferro decidiram que os búfalos deveriam deixar de existir. Para cumprir essa meta passaram a suprir os passageiros com rifles e convida-los a atirar nos animais. Aquele que abatia mais búfalos ganhava uma premiação e os elogios de seus colegas. Essas expedições ferroviárias de caça se tornaram muito populares e sozinhas foram responsáveis pelo extermínio de milhares de animais, por vezes manadas inteiras.


Embora muitos nativos americanos também caçassem os búfalos, o extermínio sistemático era uma profanação absurda aos seus olhos. Incontáveis gerações haviam vivido com os búfalos e muitas tribos acreditavam que eles eram uma espécie de encarnação de espíritos da terra; seres nobres e poderosos. Animais majestosos que simbolizavam a liberdade. Outras baseavam seu calendário na observação das manadas que sinalizava a época de mudar de terras ou de plantar. A morte deles desestruturava seu modo de vida, além de causar um horror inenarrável. 

Em 1854, guerreiros da tribo Cherokee após se deparar um campo coberto de carcaças com centenas de búfalos abatidos decidiram ir à forra contra os caçadores. Atacaram uma expedição de caça e mataram todos os 16 homens que faziam parte dela. Os caçadores foram massacrados e para demonstrar sua fúria, cada um foi devidamente escalpelado e a pele arrancada de seus corpos - alguns enquanto ainda estavam vivos. Para finalizar, os cadáveres foram arrastados até o campo onde estavam os bisões mortos. Muitos deles foram colocados dentro das carcaças dos animais que depois foram costuradas com linha resistente.


O episódio ocorrido no Nebraska resultou em uma reação ainda mais violenta por parte do governo americano. Os responsáveis foram caçados e enforcados, mas a busca resultou na destruição de aldeias inteiras, e na morte de incontáveis mulheres, velhos e crianças, que foram massacradas com requintes de crueldade. A sede de vingança se espalhou pelos estados vizinhos e serviu de pretexto para ainda mais mortandade. 

Depois dessa tragédia, o exército americano se envolveu diretamente na caça aos búfalos.

Incentivados pelo General William Tecumseh Sherman, os militares chegaram a conclusão de que os búfalos estavam intimamente ligados aos índios e que o extermínio deles acabaria também com a estrutura das aldeias e tribos. "Mate um búfalo e afugente um índio" era uma frase comumente repetida pelos defensores desse plano. O objetivo era exterminar os búfalos e assim forçar os nativos a deixar as terras por eles ocupadas, já que não teriam sua principal fonte de caça.

Expedições fortemente amadas foram organizadas e  enviadas para os estados do Norte com ordens de matar o maior número possível de búfalos. Para cumprir a meta, os soldados que abatessem mais animais ganhavam comendas especiais. No sistemático extermínio dos animais, os soldados chegavam a usar rifles calibre 50 (os populares mata-búfalos), munição explosiva, dinamite e até canhões. 


Lendas do oeste como William "Búfalo Bill" Cody, foi contratado para liderar algumas dessas expedições e coordenar os esforços para a matança. "Cada bisão morto é um índio a menos na pradaria" dizia o sujeito que se tornaria mundialmente famoso pelo seu circo de variedades anos depois. Os homens tinham ordens de atirar sem parar e se eles acertassem algum índio durante o tiroteio, "bem essas coisas aconteciam, peles vermelhas e búfalos por vezes andam lado a lado", diziam. 

A medida que os grandes rebanhos começaram a diminuir de tamanho à olhos vistos, algumas pessoas alertaram que os búfalos poderiam ser extintos. A discussão dividiu a opinião pública, muitos militares diziam que a remoção dos búfalos seria essencial para conduzir os nativos para reservas, mas algumas pessoas se levantaram contra a matança. Em 1874, o Presidente Ulysses Grant, cedendo a pressão, ordenou a criação de reservas especiais onde a caça aos bisões era proibida. Isso, no entanto, não impediu que rebanhos ainda fossem caçados por esporte e para exploração econômica sobretudo depois que a indústria de fertilizante passou a usar os animais como matéria prima.

Mas uma tragédia mudaria as coisas.

Em Julho de 1884 uma expedição ferroviária de caça, saiu da Filadélfia levando ricos homens de negócios e empresários para conhecer o Oeste Selvagem. Deveria ser uma das últimas expedições de caça desse tipo e seu objetivo era proporcionar aos passageiros uma derradeira visão do oeste selvagem, com direito a champagne, charutos e muito luxo nos vagões, além da oportunidade para caça aos búfalos. Ao avistar um rebanho, o trem diminuía sua velocidade ou parava para que os caçadores subissem no teto de onde podiam atirar à vontade. Em uma dessas paradas abateram mais de 400 bisões como resultado de uma competição para saber quem acertava mais animais. A expedição seguiu até Omaha, onde fez a volta com destino a Filadélfia. 


Todos estavam felizes e satisfeitos esperando uma nova chance para disparar. Informes por telégrafo haviam chegado a respeito de uma grande manada que poderia ser interceptada pelo trem na manhã seguinte. O condutor recebeu ordens de correr o máximo possível! No meio da viagem noturna, o trem sofreu um acidente, ironicamente ao colidir com um bando de búfalos que estava na linha férrea. O trem descarrilhou e a locomotiva, que estava viajando a grande velocidade explodiu. O resultado foi a morte de 32 pessoas e quase uma centena de feridos. Essa tragédia colocou um fim às Expedições de Caça Férrea. 

O incidente foi explorado pela imprensa que ligou a história a maldições indígenas que teriam atingido aquelas pessoas e custado suas vidas. Nem todos acreditavam naquelas histórias, mas muitos passaram a questionar a moralidade de abater os animais daquela maneira.

De fato, muitas pessoas na Costa Leste já criticavam a matança de Búfalos e demandavam que essas ações tivessem fim antes que fosse tarde demais. Até mesmo Búfalo Bill, um dos maiores patrocinadores do extermínio dos animais se disse enojado pelo que havia feito no passado e passou a advogar pelo fim da caçada indiscriminada. As campanhas surtiram efeito e mais reservas foram criadas, além de órgãos para proteção dos animais.

Mas então as coisas já haviam quase levado os búfalos à extinção. Em 1880, deveriam existir pouco menos de 100 mil deles.


As consequências ecológicas do extermínio dos Búfalos foram significativas. Não apenas as tribos nativas foram afetadas, mas a ausência dos animais que tinham um papel importante no ecossistema ocasionou mudanças no curso de rios, surgimento de pragas, afetou a vegetação e por fim repercutiu na erosão do solo que contribuiu para o fenômeno dos Dust Bowls e Nevascas Negras que na década de 1930 se provaram uma calamidade. 

A partir de 1949, o número de búfalos voltou a crescer na América e eles passaram a ser protegidos por Leis Federais que restringiam a caça e abate. Hoje há reservas em Utah, Montana, Canadá e Alasca onde manadas marcham novamente, mas elas jamais serão iguais ao que um dia foram.

Se no século XIX havia dúvidas a respeito da extensão do impacto que o homem poderia causar na natureza, o quase extermínio dos búfalos provou que nossa influência pode ser um fator determinante. Algo que se mostraria ainda mais verdadeiro ao longo do século seguinte.

domingo, 2 de junho de 2019

Armas dos Antigos I - A Arca da Aliança e o poder de Deus na Terra


A humanidade como um todo, sempre tentou arranjar maneiras melhores de matar mais eficientemente os seus inimigos. Está em nossa própria natureza buscar uma forma de destruir nossos adversários antes que eles nos destruam. Encontrar uma maneira de aniquilá-los antes que eles nos aniquilem. Estamos em uma contínua corrida armamentista desde o início dos tempos, quando o primeiro homem macaco ergueu uma pedra contra seu semelhante, este já planejava usar uma clava. É provável que um dos nossos primeiros momentos de genialidade tenha sido quando um de nossos ancestrais mais antigos, usou um pedaço de pau contra um inimigo ao invés das mãos. Daí, fomos para metal, dando origem a espadas, lanças, flechas e armas de fogo. E quando iremos parar?

Em inúmeras histórias ao longo da história humana povos poderosos acreditavam ter desenvolvido a arma final, na forma de invenções impressionantes. No século V, na China, um poderoso Imperador acreditava ter descoberto a arma definitiva quando um inventor demonstrou a ele o funcionamento de uma besta de repetição que permitiria armas qualquer pessoa comm treinamento mínimo tornando-a tão letal quanto um guerreiro com anos de treinamento. O mesmo pensamento passou pela cabeça de um sheik quando este conheceu o poder devastador do tufenk, um tipo de lança chamas medieval.

Isso sem mencionar as armas mágicas e artefatos imbuídos de incríveis poderes sobrenaturais, capazes de dizimar as tropas inimigas fulminando-as com o poder que vinha dos próprios deuses. Estas armas legendárias, talvez sejam as mais poderosas e muitas delas são conhecidas até os dias atuais através de histórias perdidas nas areias do tempo. Aqui estão algumas das mais fantásticas armas da antiguidade, artefatos criados ou ofertados pelos deuses para povos escolhidos, que com eles galgariam os degraus do inquestionável poder.


Algumas das mais poderosas e misteriosas armas místicas do mundo antigo são descritas na Bíblia, e talvez, nenhuma seja mais famosa do que a fabulosa Arca Perdida da Aliança, mais conhecida por ser a arma que derrete a face de nazistas no popular filme Caçadores da Arca Perdida. Mas muito antes de figurar nas aventuras de Indiana Jones, a Arca já era um artefato cercado de tradição e mistério.

A arca em si é supostamente um baú ornamentado com ouro e pedras preciosas que teria sido criado para guardar as tábuas nas quais os Dez Mandamentos foram escritos e dados a Moisés pelas mãos do próprio Deus. As lendas dizem que a Arca teria sido construída por volta de três mil anos atrás, baseada nos planos e visões enviadas  por Deus para Moisés, enquanto este estava acampado aos pés do Monte Sinai. O Livro do Exodus diz que após a migração do povo de Israel do Egito em direção à Terra Prometida, Moisés foi convocado para o topo do Monte Sinai para receber as tábuas da aliança. Na mesma ocasião, ele teria recebido as instruções para projetar a Arca onde deveria armazenar e transportar as tábuas conforme uma visão.  

A Arca seria coberta por placas de ouro cobrindo madeira de acácia (conhecida pela sua resistência), e adornada com uma coroa de ouro puro derretido na forma de dois anjos. A Bíblia vai além, descreve as suas dimensões em detalhes, afirmando que ele teria aproximadamente 131 centímetros de comprimento, por 79 de largura e 79 de altura. A Arca era carregada com a ajuda de dois mastros de madeira que eram passados através de anéis presos na lateral. Longe de ser uma simples caixa para guardar ou transportar as tábuas, a Arca era supostamente um símbolo de Deus na Terra, e onde quer que Ela estivesse, a presença de Deus deveria ser sentida (e temida). A Arca deveria ficar sempre sob a responsabilidade de poderosos sacerdotes , e ficaria coberta por tecido azul e peles de cordeiro. Nem mesmo os sacerdotes tinham permissão para abrir sua tampa ou mesmo tocá-la. Segundo a tradição, os israelitas carregaram o artefato durante sua longa peregrinação pelo deserto, que durou 40 anos. Supostamente a Arca seria levada à frente dos soldados hebreus para que seu poder pudesse ser apresentado a inimigos sempre que necessário.


Há numerosas descrições da Arca da Aliança sendo utilizada como uma arma poderosa, capaz de invocar os poderes de Deus. Em 1400 a.C quando Josué liderava os israelitas através do Rio Jordão no caminho para a Terra Prometida, a Arca teria feito as águas retrocederem permitindo que o povo passasse sem o risco de afogamento. Em outra ocasião, os israelitas cercaram a cidade de Jericó, com Deus comandando os sacerdotes para que Arca fosse carregada pelo perímetro da cidade ao longo de sete dias enquanto trompetes e cornetas sopravam. No sétimo dia, os israelitas sopraram seus instrumentos e provocaram uma onda trovejante de som que rompeu as muralhas da fortaleza até então impenetrável. Com o ruído, as paredes desmoronaram permitindo que o exército entrasse na cidade e a conquistasse

A Arca também seria usada contra os Filisteus em batalha, com o propósito de ajudar os israelitas a conquistarem uma vitória definitiva. Entretanto, Deus não havia ordenado que os israelitas fossem à guerra contra a armada dos filisteus, e ficou furioso quando a Arca foi usada sem o seu consentimento. Com efeito, eles perderam a guerra e a arca acabou sendo capturada pelos inimigos, que acreditavam ser então capazes de utilizar os poderes contidos nela em seu benefício próprio. . Infelizmente para eles, ao invés de um grande aliado, a Arca se mostrou uma maldição que caiu sobre eles, causando tragédia, doença e até uma praga de ratos. Após vários meses da Arca trazendo nada além de miséria para is Filisteus, eles decidiram devolvê-la para os Israelitas. Ela foi levada para o vilarejo de Beth-Shemesh onde ela demonstraria seus grandes poderes uma vez mais, quando um grupo de aldeões curiosos decidiram abrir a tampa e olhar em seu interior e foram imediatamente fulminados pela ira do Senhor.

A Arca teria sido levada a seguir para Jerusalém, onde ela foi guardada em um templo construído pelo Rei Salomão. Em 587 a.C, os Babilônicos atacaram a cidade, destruindo tudo em seu caminho, incluindo o Templo de Salomão, onde a Arca era mantida. Não se sabe ao certo o que teria acontecido com a Arca da Aliança depois disso, e nos anos que se seguiram tal mistério se converteu em um dos maiores enigmas da humanidade. A Arca se transformou em uma das relíquias mais conhecidas, com incontáveis expedições e buscas para encontrá-la ao longo dos anos. Apenas o Cálice Sagrado talvez esteja em igual patamar à Arca quando se trata de artefatos religiosos capazes de despertar o fascínio das pessoas e o desejo de possuí-la. 


Teria sido a Arca destruída? Ou ela poderia ter sobrevivido ao saque de Jerusalém? Alguém a teria roubado? Será que ela realmente existiu em algum momento para começo de conversa? Essas são questões que intrigam estudiosos, pesquisadores e arqueólogos há séculos e talvez jamais saibamos a resposta para estas perguntas.

Desde que a Arca desapareceu dos anais da história, surgiram inúmeras teorias a respeito de seu paradeiro, com a sua localização sendo estimada em diferentes lugares, da África até mesmo ao Japão, e ocasionalmente alguém alega ter finalmente encontrado sua localização exata ou uma pista de onde ela possa estar. Uma das teorias mais populares é que a Arca teria sido encontrada pelos Cavaleiros Templários e que eles teriam levado o artefato para um lugar secreto no interior das criptas da Catedral de Chartres, na região de Languedoc na França. Outro local popular é a Capela de Rosslyn, na Escócia. Outras teorias curiosas envolvem a remoção da Arca durante a destruição de Jerusalém, quando ela teria sido transportada para um compartimento secreto abaixo do Templo onde ela ficou em segurança. Uma vez que o local hoje em dia faz parte da capela do Domo da Rocha, que é sagrada para o Islã, seria virtualmente impossível realizar qualquer tipo de escavação para descobrir se a história tem ao menos um fundo de verdade.

Outra teoria que se tornou bastante difundida a respeito da Arca é que ela teria sido levada para longe de Jerusalém, no caso, para a Etiópia. O país da África oriental possui um lugar chamado de Igreja de Santa Maria do Sião, onde segundo rumores perpetuados ao longo dos séculos, a Arca teria sido enterrada. Um monge solitário receberia a cada geração a tarefa de guardar a Sagrada Relíquia, jamais deixando a Igreja e vigiando o artefato com devoção inquebrantável. É dito que esses monges devotam sua existência a proteger a Arca, e que seu dever só termina quando um monge morre, sendo ele imediatamente substituído por outro. É impossível determinar o quão genuína pode ser essa história. uma vez que ninguém jamais conheceu esses monges ou teve permissão para entrar nas alas restritas da Igreja onde apenas os monges membros da Ordem são aceitos. A Igreja poderia estar guardando qualquer coisa ou nada.

Ninguém sabe ao certo a localização da Arca da Aliança e de fato sua própria existência é motivo de dúvida.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

A Espada Perdida - Descoberta de uma arma que revela uma sangrenta história


Parecia um final de semana como qualquer outro, mas nele se revelou um incrível achado arqueológico.

O Comerciante Weverton Martson, estava tomando banho no Rio Cricaré, na localidade de Meleiras, no estado do Espírito Santo quando sentiu ter pisado em algo que ficou enroscado em seus pés. Ele imediatamente mergulhou para ver de que se tratava, acreditando ser um galho ou raiz, mas era outra coisa. O objeto estava enterrado na areia e era pesado, ao apanhá-lo demorou para soltar do leito. Quando voltou à superfície foi impossível conter a surpresa: era uma espada!

A arma tinha a lâmina envergada, mas parecia óbvio para qualquer observador que se tratava de uma peça autêntica, não uma mera imitação. Apesar da longa exposição a água e elementos, a arma se encontrava em condições satisfatórias, considerando sua idade. Tudo indicava se tratar de uma peça pertencente a algum nobre, o único que poderia possuir uma arma de acabamento superior. Ademais, ela tinha detalhes na empunhadura na forma de uma águia de duas cabeças (bicéfala), um indicativo que pode remeter a uma família importante.

O local onde a espada foi recuperada, o Rio Cricaré, foi o palco de um dos capítulos mais sangrentos do período histórico colonial do Espírito Santo. Como boa parte de nossa história colonial, está envolto por uma cortina de desconhecimento. Foi ali, naquele mesmo local que ocorreu a célebre Batalha de Cricaré, um dos primeiros enfrentamentos em larga escala ocorridos entre portugueses e índios que resultou em uma mortandade até então jamais vista entre os dois povos.

Especialistas há anos tentam precisar a exata localização do enfrentamento. Sempre existiu a suposição de que a batalha tivesse ocorrido no Rio São Mateus, mas não havia certeza a respeito. A descoberta da espada pode provar de uma vez por todas que a Batalha teve lugar naquelas margens no distante ano de 1558. Faz algumas décadas, uma machadinha também havia sido encontrada nas proximidades, contudo uma análise demonstrou que ela era mais recente do que a Batalha e que provavelmente era uma peça do século XIX. A espada, por outro lado, parece remeter a um estilo de metalurgia empregado tipicamente na Europa do século XVI. A forja de tais armas de qualidade era realizada na Península Ibérica, em especial na Cidade de Toledo, na Espanha, centro exportador de armas de qualidade, muito apreciadas por famílias nobres. 

Ainda é cedo para dizer se a espada em questão pertenceu a algum nobre do período, mas os detalhes na empunhadura e algumas decorações no cabo podem fornecer pistas a respeito de quem foi seu dono.

A Batalha de Cricaré foi travada em 1558 e ficou conhecida como uma das mais sangrentas do período. Segundo observadores do período e historiadores que se debruçam sobre o acontecimento, mais de 5 mil nativos podem ter morrido nessa batalha, um número extremamente elevado e que teria marcado o primeiro conflito em larga escala colônia recém descoberta. Historiadores acreditavam que a Batalha tivesse ocorrido na confluência do Rio Cricaré e Mariricu, atualmente município de São Mateus, mas nunca houve comprovação.

A região já havia sido parcialmente explorada, mas a colonização se iniciou a partir de 1555, comandada pelo Donatário de Terra, Vasco Fernades Coutinho que se estabeleceu na Capitania do Espírito Santo acompanhado no início por cerca de 60 homens. A pequena Vila de São Mateus se fixou no litoral, mas seus habitantes planejavam adentrar a porção interior das terras. Desde o início, eles encontraram forte resistência das tribos que já habitavam a região. Os Aimorés eram conhecidos como uma tribo agressiva, composta de bravos guerreiros que dominavam o uso mortal do arco e flecha e da zarabatana, embebendo suas setas com veneno de sapo e outras toxinas extraídas da natureza. Além disso, conheciam bem o território e manejavam com habilidade lanças e bordunas. Mais de uma expedição ao interior havia terminado em morte, com os colonos atacados, escapando por pouco, isso quando não caíam diante dos atacantes em maior número. Um dos grandes temores dos colonos era justamente a fama de que os aimorés eram antropófagos e que os cadáveres de seus companheiros quando não eram recuperados, acabavam servindo de refeição para os nativos. A colônia apenas não havia sido conquistada pelos nativos por conta de canhões que faziam a proteção do pequeno assentamento, que contava ainda com uma paliçada. Contudo, os nativos estavam chegando cada vez mais perto e seria questão de tempo até perderem seu receio diante da artilharia portuguesa.


Com as terras capixabas sendo sabidamente férteis e a fixação de engenhos se mostrando uma perspectiva rentável para a Coroa, Vasco Fernandes Coutinho escreveu ao Governador Geral Mem de Sá em Salvador, pedindo ajuda. A produção de Cana de Açúcar estava ameaçada já que os nativos haviam arruinado vários engenhos construídos com enorme dificuldade. É claro, o donatário deixava de citar que os ataques eram uma reação à captura de índios que serviam de escravos, roubos, ataques a aldeias, estupro e rapto de índias que passaram a servir de companheiras para os colonos.

Mem de Sá, que havia acabado de ser empossado, desejava mostrar força e despachou para a Capitania do Espírito Santo uma guarnição de homens liderados pelo seu filho Fernão de Sá. A tropa viajou à bordo da Galé São Simão, um dos melhores barcos da frota colonial, munido com canhões de calibre 3 (chamados falcões). A expedição aportou primeiro em Porto Seguro onde recebeu reforço de capitães veteranos no enfrentamento de indígenas. Juntaram-se seis outros navios que levavam um contingente de 200 homens, além de armas de fogo, pólvora, espadas, lanças e armaduras.

Os portugueses suspeitavam que os nativos tivessem aldeias no interior (as mereriques que eram defendidas mutuamente) e que as tribos estavam se unindo para enfrenar os colonos, uma suspeita que se mostrou verdadeira. Expedições anteriores haviam mapeado vias fluviais que podiam ser usadas para desembarcar as embarcações, diminuindo o tempo do deslocamento terrestre. O grupo avançou pela Barra de São Mateus, seguindo por quatro dias contra a correnteza impulsionada pela força dos remos. No quarto dia rio acima, uma fortificação indígena foi avistada pelos observadores à bordo. Decidiram aguardar o amanhecer em uma posição privilegiada para então promover o ataque.

Quando o sol despontou, quatro galeras avançaram transportando a primeira força de ataque, contudo, os nativos perceberam sua presença e se organizaram para esperá-los. Assim que os primeiros homens pisaram na praia enlameada foram saudados por uma chuva de flechas que os atingiu com precisão letal. Nenhum conseguiu avançar mais do que alguns metros e os feridos acabaram crivados de flechas. O desembarque não foi uma perda total apenas porque de dentro dos navios a artilharia começou a disparar com canhões dando cobertura aos homens que desesperados se refugiavam atrás de troncos. Reagrupando para o segundo desembarque, os portugueses trouxeram escudos e grandes pedaços de madeira para se proteger da chuva mortal. Na praia, os corpos de seus companheiros já se encontravam inchados pelo veneno das setas e muitos agonizavam.


Quando um número suficiente de homens se concentrou na praia, receberam ordens de avançar e convergiram para a aldeia que se encontrava logo adiante. Com disparos de arcabuzes e cobertura de canhões, os nativos retrocederam, mas ainda assim receberam os invasores com nova saraivada de setas. Contudo, os tiros afastaram os guerreiros e estes não conseguiram conter o avanço que era reforçado por novas levas de homens desembarcando na praia. O combate se tornou corpo-a-corpo, com os soldados levando vantagem graças às armaduras e ao uso de machados e espadas de excelente qualidade.

Os nativos percebendo que não conseguiriam conter a invasão, trataram de fugir levando mulheres e crianças para uma aldeia não muito distante. Lá planejavam recompor a defesa para conter os atacantes. Contudo, os portugueses foram rápidos em seguir os rastros deixados na floresta e empreenderam perseguição imediatamente. Os nativos não tiveram tempo de se reagrupar, e acabaram pegos de surpresa. Essa segunda aldeia era grande e próspera, com várias habitações e uma população maior, contudo, surpreendidos, os guerreiros tiveram pouco tempo de montar uma defesa.

Os padres que faziam o registro da ação militar não pouparam elogios à "presteza" e "galhardia" com que os soldados lutaram. Os tiros provocaram pânico entre os nativos e muitos com famílias ali vivendo se colocaram em fuga. Os que resistiram não conseguiram fazer frente a investida. Para piorar as coisas, várias ocas de palha foram incendiadas causando uma debandada em massa. Aos invasores cabia apenas ceifar o maior número de vidas com suas armas superiores, derrubando tantos inimigos quanto era possível. De uma distância segura, onde se estabeleceram, os portugueses se contentavam em disparar nos nativos em fuga, sem se importar que fizessem alvo contra mulheres, velhos e crianças. A aldeia enquanto isso já queimava e os últimos homens escapavam para a mata carregando o que podiam, atrás deles, apenas o rumor dos moribundos.

Entretanto, a facilidade com que encontraram a vitória nesse primeiro momento, custaria caro aos portugueses. Os homens, inebriados pelo sangue e pelo calor da batalha continuaram ali atirando e matando. Alguns se aproximaram da aldeia para capturar prisioneiros, recolher tesouros ou estuprar mulheres que tiveram o azar de ficar para trás. O número de mortos é difícil de ser estimado, mas é provável que tenha chegado à casa dos milhares. Os invasores não se aperceberam de que haviam entrado muito no território inimigo e que poderiam haver outras aldeias próximas, os homens se entregaram a sanha assassina e desejo de vingança sem pensar no que poderia acontecer.


Enquanto a maioria do contingente se satisfazia com pilhagem e destruição desenfreada, Fernão de Sá e mais alguns homens, continuaram seguindo a trilha, atrás dos fugitivos. Avistaram poucas léguas adiante uma terceira aldeia não tão grande e nem tão protegida quanto a anterior. Essa poderia ser facilmente conquistada pela guarnição, mas com número reduzido de homens, Fernão não podia fazer muito. Ele ordenou que disparassem contra a aldeia e então bateu em retirada para se reagrupar.

Contudo, sem que os invasores soubesse, havia ainda uma quarta aldeia, onde os guerreiros já haviam sido alertados do ataque pelo som dos canhões. Lá eles se preparavam para o contra-ataque. Ao mesmo tempo, as naus que aguardavam no local de desembarque perceberam que a maré estava baixando rapidamente. Se permanecessem ali acabariam encalhando no leito lamacento. Com o temor de ficarem presos naquela posição, os comandantes decidiram se afastar em busca de águas mais profundas.

Quando Fernão enfim retornou a segunda aldeia encontrou uma paisagem infernal. Havia corpos para todos os lados, as habitações de palha ardiam e o fedor de corpos queimados, fumaça e pólvora empesteava o ar. O massacre já estava consumado! Apesar da vitória esmagadora e da comemoração dos homens, o comandante da campanha imediatamente ficou preocupado - e com razão! Os soldados haviam reduzido perigosamente seu estoque de munição e pólvora, portanto era preciso retornar o quanto antes para a praia.

Mas antes que pudessem iniciar o recuo, flechas voaram da floresta atingindo em cheio os soldados. Eram os Aimorés que haviam se organizado e vinham em grande número!


A fuga pela mata foi desesperada e atrapalhada pela densa fumaça que se formou. Alguns homens se perderam e acabaram indo na direção errada, que os levou justamente para seus perseguidores. Sem a vantagem de armas de fogo para manter os inimigos à distância, os portugueses foram presas fáceis para os guerreiros em número muito maior. Os nativos caíram sobre a tropa com uma fúria avassaladora, armados com porretes e bordunas seguiram o percurso inteiro apanhando e massacrando aqueles em quem conseguiam por as mãos.

Mas o pior esperava os portugueses na praia. Ao chegar na foz do Rio Cricaré, não encontraram as embarcações que deveriam estar lá. As naus haviam se retirado cerca de 400 metros mar adentro. Desesperados, os sobreviventes se puseram a gritar e pedir socorro, mas os índios estavam bem mais próximos. Ali, na areia lamacenta se deu o final da batalha, que estava mais para um massacre de vingança! Os portugueses foram chacinados por incontáveis flechas e os poucos que ainda se arrastavam na areia foram degolados e massacrados. Os gritos podiam ser ouvidos à distância, pelos marinheiros nas embarcações, mas estes nada podiam fazer visto que não havia alcance para os canhões.

Fernão de Sá e seus capitães foram mortos nessa batalha e os rumores davam conta de que ele teria sido o último a tombar, defendendo-se com espada em riste apesar de flechas estarem fincadas em seu corpo. Provavelmente uma liberdade poética dos cronistas. Os únicos sobreviventes foram três homens que se despiram das armaduras, jogaram armas de lado e nadaram até as embarcações. E ao chegar caíram extenuados no tombadilho, agradecendo a sorte que tiveram.

Os capitães da frota comandada por Diogo Amorim discutiram se deveriam voltar para a Praia em busca de sobreviventes que ainda pudessem estar lá. Concluíram que as fogueiras vistas no horizonte deveriam pertencer aos nativos saciando seus apetites canibais e se resignaram. Melhor seria voltar para Vitória com as notícias do enfrentamento. 


Em Vitória a notícia do revés foi levada para os demais assentamentos da colônia. Na Europa a notícia foi recebida com consternação - que "terra impiedosa era aquela onde cristãos eram massacrados e devorados por selvagens?" 

Mem de Sá, o Governador Geral lamentou não apenas a derrota da maior armada reunida até então na colônia e que para muitos era imbatível, seu pesar incluía a morte do filho, Fernão. Nos anos que se seguiram, os portugueses planejaram cuidadosamente novas expedições que promoveram ataques na região e por fim terminaram por vencer a resistência dos Aimorés. Um dos planos de Mem de Sá era fundar uma cidade de proteção e defesa no litoral, e salvaguardar o território conquistado à duras penas. Entretanto a fundação da Cidade do Rio de Janeiro drenou os recursos da colônia e impediu que a Capitania do Espírito Santo ganhasse uma cidade maior.


É provável que a espada encontrada no fundo do Rio Cricaré tenha pertencido a um dos portugueses, talvez até mesmo a um dos comandantes da expedição. Talvez seu aço tenha sido usado para cortar e estocar guerreiros Aimorés ou então para matar inocentes. É possível que ela estivesse nas mãos de um soldado que pereceu com bravura, ou ainda que ela tenha sido simplesmente descartada no rio, quando seu dono correu para o mar fugindo em desespero. Bravura e covardia, honra e abuso são faces de uma mesma moeda sangrenta trocada nos campos de batalha. Não há como saber quem foi que brandiu essa arma e o que produziu com ela - se sangue ou glória, se triunfo ou vergonha.

A história pode determinar se a espada realmente esteve ou não na Batalha de Cricaré, mas a verdade sobre quem a manejava, esta se perdeu em meio ao caos e horror de um campo de batalha e nas páginas da história.

terça-feira, 5 de março de 2019

Lugares Estranhos: A Montanha Faminta da India - Terra de beleza, mortes e mistérios


Em todos os cantos do mundo existem lugares estranhos que podem ser descritos como "famintos".

Seja lá por qual razão, eles possuem a estranha tendência de fazer as pessoas desaparecerem, como se as devorassem e absorvessem, digerindo os corpos até não restar nenhum traço ou evidência para ser encontrada. Um desses lugares sinistros, fica nas Montanhas do Himalaia, um local ao mesmo tempo deslumbrante e mortal, e que há anos tem sido o destino final de pessoas que sumiram sem deixar vestígios.

Esparramado entre as majestosas montanhas ocidentais do Himalaia na porção mais ao norte da India encontramos uma vasta cadeia montanhosa chamada Himachal Pradesh, literalmente "A Província da Neve Eterna". Seu nome parece muito adequado, uma vez que esse é um domínio remoto de paisagens de tirar o fôlego, com picos nevados, florestas de pinheiros intocados, vales isolados além de, é claro, fissuras, cânions e gargantas rochosas com quedas vertiginosas. Nesse ambiente selvagem, as montanhas preenchem o horizonte até onde a vista alcança criando uma terra de gelo e neve absolutamente inóspita.

Ele é ao mesmo tempo um lugar de beleza notável, mas extremamente traiçoeiro em que o menor descuido pode se provar fatal. Mesmo os guias mais experientes temem essa região, com suas trilhas acidentadas, montanhas escarpadas e terreno rugoso. A temperatura pode variar mais de 20 graus entre o dia e a noite e ventos furiosos formam-se repentinamente derrubando as pessoas. Além disso, há trechos em que a pedra congela tornando a face da montanha escorregadia. Por esses motivos, a região é associada a um apelido histórico Kulanthapitha, que significa "O Fim do Mundo Habitável".


Para completar o panorama, essa é uma terra repleta de mistérios, conhecida como "Vale dos Deuses" pelos nativos, habitada por espíritos e entidades sobrenaturais e onde segundo a lenda, o Deus Hindu Shiva teria parado para meditar por 1,100 anos. A mistura natural de esplendor, beleza e aventura concede uma aura quase mística que atrai viajantes e aventureiros de todas as partes do planeta. 

Algumas das pessoas que visitaram o local ao longo de séculos pareciam estar à procura de algum tipo de Shangri-La, outros buscavam por paz ou iluminação, enquanto outros ainda ansiavam por emoção e aventura. E haviam aqueles que buscavam uma combinação disso tudo. A região contudo, desenvolveu uma reputação duradoura como um lugar de onde alguns jamais retornam.  Himachal Pradesh se tornou um lugar conhecido pelas misteriosas mortes e desaparecimentos, a ponto de que a área inteira recebesse apelidos pouco convidativos como "O Vale do Esquecimento"  e "O Recanto da Morte".

Embora dúzias de visitantes estrangeiros tenham desaparecido sem deixar vestígio ou morrido de forma misteriosa ao longo dos anos, apenas recentemente um caso ganhou ampla publicidade. Em agosto de 1996, um estudante britânico de 21 anos da Universidade de Bristol chamado Ian Mogford desapareceu nas montanhas sem deixar pistas após visitar um templo. Estranhamente, até mesmo os registros de sua passagem por um hotel na região se perderam. No mesmo ano, outra turista estrangeira, a italiana Alessandra Verdi de 32 anos, que alugava uma casa no vale adjacente também sumiu sem deixar qualquer indício. Manchas de sangue foram encontradas em sua casa que estava trancada. Seu corpo foi localizado semanas mais tarde nos bancos do Rio Beas, a quilômetros de distância sem nenhuma evidência do que poderia ter acontecido - autópsias posteriores apuraram que ela havia morrido aparentemente de causas naturais, mas como seu corpo chegou até o lugar onde foi achado é um mistério.  


Depois disso, vários outros casos de desaparecimento ocorreram em uma rápida sucessão o que levou as autoridades a se perguntar se um assassino ou uma gangue, estaria atacando estrangeiros. O estudante canadense Ardavan Taherzadeh desapareceu em 1997, Maarten de Bruijn, de 21 anos, filho de um proeminente banqueiro holandês sumiu em 1999, e um famoso repórter russo, Alexei Ivanov, desapareceu da face da Terra em 2000, pouco depois de sair para fazer uma trilha nas montanhas. Estranhamente, ninguém soube o que aconteceu com Ivanov, mas alguns objetos pertencentes a ele, como uma garrafa de oxigênio e uma mochila, foram achadas após uma intensa busca nas montanhas em uma área muito distante de onde ele pretendia explorar. Mais estranho ainda, durante as buscas, um time de resgate localizou outros três cadáveres nas perigosas montanhas, mas o corpo de Ivanov jamais foi encontrado.

No mesmo ano de 2000 dois turistas alemães foram brutalmente atacados enquanto dormiam em seu acampamento na mesma região. Um deles Jorge Weihrauch morreu em decorrência de mais de 30 ferimentos de faca, mas seu companheiro, Adrian Mayer-Tasch, consegui escapar e sobreviver, rastejando através de um terreno escarpado e extremamente perigoso apesar de sustentar severos ferimentos. Mayer-Tasch contou que não conseguiu ver quem (ou o que) os atacou, mas se recordava de acordar em meio a uma sucessão de apunhaladas desferidas por uma sombra empunhando uma arma longa e afiada. Apesar de sobreviver ao ataque, o turista ficou com sequelas e traumas profundos o resto da vida. 

Não demorou muito a surgir mais um caso chocante, dessa vez envolvendo o turista inglês Martin Young, sua esposa, e seu filho de 14 anos. A família foi atacada por um ou mais agressores no meio da madrugada enquanto dormiam em sua tenda. A esposa e o adolescente morreram, vítimas de repetidas facadas, Martin sobreviveu saltando de uma ravina e mergulhando na escuridão. Por milagre ele foi encontrado na manhã seguinte por um grupo de buscas, com uma perna quebrada e vários ferimentos. Uma vez mais, nenhum sinal do assassino foi encontrado, e não existiam suspeitos ou pistas para levar a uma captura.

Por algum tempo, as chocantes notícias afugentaram turistas que passaram a evitar as trilhas e a região, mas em 2013, um explorador americano de 35 anos, chamado Justin Shetler foi vítima de seja lá quem vaga por essas montanhas. Shetler mantinha um blog atualizado com suas aventuras e seu último comentário poderia lançar uma luz sobre o que teria acontecido com ele: 


"Um Sadhu (o povo local que habita as montanhas) me convidou para um tipo de peregrinação religiosa nas montanhas. É um tipo curioso, mas me pareceu confiável. Ele alertou de que seria um percurso duro através de uma zona de altitude, mas que valeria a pena. Lá no alto, segundo ele, existe uma caverna remota ideal para a prática da ioga. Ele assegurou que a meditação lá o coloca em contato com entidades superiores. Uma experiência transcendental! Eu decidi acompanhá-lo, pois isso deve render uma boa história. Devo retornar ao mundo da Internet apenas na metade de setembro se tudo correr bem. A trilha é famosa por ser traiçoeira, portanto, todo cuidado é pouco! Se estiverem lendo isso, torçam para tudo dar certo".

A postagem foi feita pelo próprio Shetler, terminando com um emoji de piscadela, como ele costumava fazer. Aqueles que seguiam o blog relatando as intrépidas expedições do aventureiro, asseguraram que a entrada havia sido escrita por ele. Infelizmente, a mensagem curta foi a última coisa que ele escreveria. 

Em 3 de setembro, um grupo de montanhistas franceses cruzaram com Shetler próximo de uma encosta no Lago Mantalai. Ele estava acompanhado de um taciturno Sadlu que se manteve calado durante todo encontro e que os turistas assumiram não falar inglês. Eles contaram que Shetler parecia exausto, e que em alguns momentos durante a conversa perdia o foco e dizia algo sem sentido, como por exemplo repetir que tinha um encontro marcado com o "Deus da Montanha".

Os franceses ficaram preocupados com as condições gerais do americano, mas ele garantiu que estava bem e que podia prosseguir em sua jornada. Chegando em uma estação nas montanhas, relataram a história e as autoridades decidiram não correr riscos e enviar um grupo de resgate por precaução. Após uma busca cuidadosa, a equipe de socorro avistou um suspeito vagando pelas montanhas, um "baba" ou homem santo chamado Satyanarayan Rawat. Ele foi levado para a estação para questionamento depois de tentar se esconder e fugir. Infelizmente nada foi apurado, já que Rawat cometeu suicídio enquanto estava sob custódia numa cela. O homem ingeriu raízes venenosas e levou consigo quaisquer segredos que conhecia sobre o destino de Shetler. As investigações apuraram que Rawat provavelmente era o "Sadlu taciturno" visto na companhia do americano, mas os franceses não estavam certos a respeito. 


A investigação policial conduzida foi muito criticada pela conclusão oficial de que Shetler teria simplesmente sofrido um acidente e caído em uma ravina onde veio a falecer. Seu corpo jamais foi encontrado! Investigadores contratados pela família de Shetler e enviados para fazer questionamentos sobre o caso apuraram que a polícia não quis se aprofundar no envolvimento de Rawat por considerá-lo um "homem santo". Posteriormente apurou-se que Rawat era tido como uma pessoa instável, com um passado de violência e agressão. 

Não muito tempo depois, outro turista desapareceu misteriosamente, o polonês Bruno Muschalik, que estava hospedado na casa de um amigo até agosto de 2015. Muschalik planejava fazer uma trilha nas montanhas e uma excursão ao Vale de Parvati. Ele preparou todo seu equipamento, apanhou um ônibus que o levou até a área e lá sumiu sem deixar traço. 

Ele se juntou a longa lista de estrangeiros que desapareceram ao visitar a região de Himachal Pradesh. Segundo fontes não oficiais, mais de 20 casos envolvendo estrangeiros desaparecidos ou mortos ocorreram por lá nos últimos 10 anos, sendo que a maioria dos casos não foi solucionado. Por vezes, objetos pessoais pertencentes aos desparecidos são achados, roupas ou calçados, mas os corpos simplesmente somem. Como se eles tivessem sido devorados pela montanha. 

A explicação mais óbvia para o grande número de desaparecimentos é que essas pessoas devem ter morrido em decorrência do terreno perigoso. A região é habitada apenas esparsamente, preenchida por verdadeiras armadilhas naturais que resultam em incontáveis perigos. Por detrás da bela paisagem escondem-se abismos, trilhas escorregadias, avalanches e um clima adverso que parece conspirar contra os ousados (ou tolos) que escolhem enfrentá-lo. Mesmo exploradores veteranos afirmam que as montanhas constituem um desafio formidável.

Não é difícil imaginar que estrangeiros possam ser ludibriados pelas belezas naturais e inadvertidamente atraídos para perigos invisíveis. Ainda assim, é difícil imaginar que tantas pessoas tenham simplesmente desaparecido na região.

Outro fator agravante é que muitos turistas visitam a montanha em busca do potente hashish que cresce por lá e que é comercializado abertamente por tribos locais. Sob o efeito de drogas poderosas eles podem se perder na vastidão gelada mergulhando em fissuras e gargantas, morrendo sem que seus corpos sejam localizados. Teria sido esse  destino de tantas pessoas? Ou algo mais sinistro habita essas montanhas?  


Além dos perigos naturais, existe a ameaça das pessoas que vivem na região. Há muitas histórias e rumores sobre moradores nessa montanha que consideram a presença de turistas uma ofensa e que se ressentem de sua visita. Para alguns, as montanhas são sagradas e a presença de forasteiros constitui uma invasão e uma quebra de seu modo de vida. Embora, em geral, a reação dessas pessoas raramente envolva violência, quem pode saber como elas se comportam quando estão longe da civilização?

Os investigadores contratados para visitar Himachal Pradesh em busca de pistas, mencionaram ter encontrado resistência quando perguntaram a respeito do sentimento quanto a estrangeiros. Ainda que a região tenha um dos índices de crime mais baixos em toda Asia, ela ganhou notoriedade nas últimas décadas por se tornar o refúgio de bandidos, traficantes de drogas e falsos faquires dispostos a enganar turistas e roubar seu dinheiro. Há boatos de quadrilhas especializadas em contrabando de entorpecentes agindo impunemente, gozando da conivência da polícia  para não serem incomodados. Junte a isso o esmagador silêncio da população que prefere se abster de fazer comentários, e temos um cenário de conspiração e suspeita. As investigações concluíram que vigora uma lei de silêncio imposto por grupos interessados em manter as coisas como estão. Há um temor muito forte de que pessoas envolvidas com o contrabando de drogas intimidam a população usando histórias sobre cultos e criaturas sobrenaturais. 

As montanhas, segundo alguns, são o habitat de entidades malignas que servem a pessoas inescrupulosas e extremamente perigosas que as controlam. Fala-se sobre Yeti, tulpa, espíritos demoníacos, fantasmas e outras coisas assustadoras que integram a rica mitologia local. Alguns creem que deuses e entidades de tempos imemoriais habitam o interior das cavernas no topo da montanha, fazem destes lugares seus templos que escondem segredos que não deveriam ser vistos por olhos humanos. E todos que encaram a face desses deuses são arrebatados dessa existência.   

A verdade possivelmente envolve um pouco de cada teoria, mesmo as mais fantásticas, mas isso não torna menos frustrante e angustiante para as famílias de pessoas desaparecidas não saber. No final das contas, tudo o que resta é uma paisagem intocada e selvagem, quase um reino místico que parece faminto por devorar aqueles que ousam invadir sua santidade.