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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Lugares Estranhos: O Círculo de Ossos de Baleia


Imagine se possível.

Você é apenas um novato à bordo de um navio baleeiro no final do século XIX. Você partiu para o Atlântico Norte em busca de aventura e riqueza, mas tudo que encontrou foi o frio, a fome e o esgotamento. Os dias no mar passam lentamente, sem nenhuma baleia à vista e com mares traiçoeiros repletos de icebergs que impedem o deslocamento da embarcação. Os homens olham pra você de uma maneira estranha. Eles sussurram quando você passa e secretamente o culpam por tudo de errado que está acontecendo na viagem. Você tem certeza de que eles estão planejando fazer algo terrível, talvez jogá-lo nas ondas ou devorá-lo já que a carne na despensa terminou há dias. Você está com muito, muito medo.

Então, certa noite, enquanto estava andando pelo deck, cuidando de seu trabalho, você percebe algo estranho na costa de uma pequena ilha pela qual estão passando. Você vê estranhas estruturas brancas, erguidas lado a lado como se fossem enormes dentes cravados no solo pedregoso. Você percebe o imenso crânio de baleias gigantes pontuando a paisagem, e para você, aquilo parece ser os restos de um cemitério ancestral, com os restos de criaturas das profundezas ali dispostas. 

Aquele aterrorizante lugar, com ossos gigantes, é exatamente o que você pensa... um cemitério de baleias. E é claro, não foram as baleias que planejaram ser enterradas daquela maneira. 


Essa cena foi descrita por Richard "Dick" Gates, um jovem marinheiro da Nova Inglaterra de apenas 16 anos de idade, durante sua primeira grande viagem em meados de 1868. O lugar descrito por ele era uma pequena ilhota chamada Yttygran próximo do Cabo de Chaplino no Mar de Bering entre o Alasca e a Rússia. Um dos lugares mais isolados e perigosos do mundo, onde cair na água pode matar  um homem em segundos. 

Com certeza, se você avistasse essa mesma ilha, sem conhecer nada a respeito dela, você teria reagido da mesma maneira que o jovem Dick Gates. Com um enorme pavor! 

O local hoje é bem conhecido, chamado de "O Círculo dos Ossos de Baleia", um dos lugares mais estranhos do mundo e que ao longo de séculos mudou muito pouco.

O Círculo se localiza em uma extensão de exatos 548 metros de comprimento e é pontilhado por uma linha de costelas e mandíbulas de baleias. Elas foram colocadas de pé no solo e depois cuidadosamente escoradas por blocos de gelo que se tornaram rígidos como pedra, mantendo-os de pé na permafrost. Há ossos de baleias de vários tipos ali: beluga, orca, narval, baleias brancas, cachalotes e imensas baleias azuis, cetáceos de todos os tipos que foram abatidos ao longo de séculos ou que vieram morrer nas praias. Também há ossos de morsas, focas, leões marinhos e animais há muito extintos.


Os registros dos povos Inuit são parcos, mas aqueles que habitam a Ilha mencionam que o Cemitério sempre esteve lá, ele foi entretanto expandido e preservado pelos povo esquimós há pelo menos 1000 anos. Os Inuit consideravam o lugar ao mesmo tempo sagrado e assombrado pelos espíritos das baleias do Mar de Bering. Contam que algumas baleias vinham até a costa durante as noites mais escuras, para cantar suas melodias tristes e agourentas para os ossos de seus ancestrais. Nessas noites, aqueles que ouviam tal canto sentiam uma profunda cólera e não raramente, acabavam se atirando ao mar e desaparecendo para sempre.

De acordo com o folclore local, o Círculo também era um lugar que atraia espíritos e fantasmas. O mundo dos vivos e dos mortos quase se tocava quando alguém andava pela funesta avenida de ossos. Cada passo revelava um mistério de um tempo ou de um lugar distante, e trilhar ali ensejava em revelações incríveis e em segredos inimagináveis. Os xamãs siberianos vinham de longe para ter ali a sua consagração. Tomavam poderosas misturas que lhes permitia comungar de visões e aqueles que experimentavam essas alucinações tinham suas consciências despertadas para o mundo sobrenatural.

Mais do que tudo isso, os Inuit acreditavam que as Baleias eram os Mensageiros dos Deuses e de um povo gigante que vivia nas profundezas. Esse Povo colossal do tamanho de montanhas havia partido há muito tempo para as profundezas insondáveis, habitando nos recessos profundos do oceano insondável, em cidades de gelo e marfim. Quando as ondas quebravam ferozmente no litoral, eles estavam descontentes com alguma coisa, quando os mares eram generosos com os pescadores, eles estavam satisfeitos.


De tempos em tempos, os Inuit ofereciam sacrifícios para esses Gigantes das Profundezas, Os entregavam na ponta da escura ilhota de Yttygran . Quando a maré baixava, uma jovem bonita ou uma criança saudável eram escolhidos entre os aldeões. Eles eram então presos a um daqueles ossos em formato de pináculo e a medida que a noite avançava, a maré subia lentamente. Antes do amanhecer a água gelada chegava até o sacrifício e a morte vinha rápido. Por vezes o corpo era devolvido, o que era visto como um mau presságio, mas na maioria das vezes, as ondas o carregavam para as profundezas.

Alguns dos ossos ali encravados foram datados e segundo arqueólogos tem mais de 2000 anos de idade. São ossos imensos, alguns com mais de cinco metros e 300 quilos. Enormes crânios de baleias se estendem de ponto em ponto, grandes como sinos de catedral, alguns deles eram usados pelos xamãs como casas de contemplação. Os feiticeiros sentavam no interior deles e acendiam fogueiras com óleo de baleia, e ali ficavam imersos em seus delírios, mastigando raízes alucinógenas.

Alguns arqueólogos especulam que o lugar pode ter servido como um território neutro onde xamãs e chefes de diferentes tribos Inuit se encontravam para discutir os mais importantes assuntos. Rituais de iniciação, de consagração de líderes e até mesmo combates de honra ocorriam ali. Chefes tribais lutavam com machadinhas afiadas para decidir disputas entre suas respectivas tribos, o vencedor tinha como obrigação casar com a viúva do inimigo e cuidar de seus filhos como se fossem seus. Há ossos humanos espalhados pelo local, alguns com evidentes sinais de violência, o que deixa claro que não apenas os rituais, mas as celebrações desses povos tinham um caráter brutal.

Para alguns, o sítio pode ter servido também como uma espécie de mercado. No Neolítico, vários povos construíam tais lugares para servir como centro de distribuição de alimentos que abasteciam os pequenos vilarejos. Há várias valas escavadas que provavelmente eram utilizadas como depósito de pescado que ficava protegido no gelo como se estivessem em congeladores modernos.


A descrição do jovem marinheiro Dick Gates foi transcrita anos mais tarde em um livro de sua autoria que narrava as suas memórias. Ele conseguiu obviamente sobreviver à sua árdua jornada pelos sete mares e voltou a singrá-lo pelo menos mais quatro vezes. Ele contudo jamais esqueceu de ter avistado aquele lugar incrível...

Gates relatou que depois de ter visto aquela ilhota foi tomado de um sentimento inenarrável. Ele apanhou instintivamente uma faca em sua cintura e cortou a palma da mão com a lâmina. Aproximando-se da balaustrada, ele se debruçou e cerimoniosamente apertou com força deixando cair na água escura algumas gotas de seu sangue como se fosse um sacrifício para alguma entidade marinha.

"Leve meu sangue e traga de volta a tranquilidade dessa viagem. É isso que eu lhes peço, seja lá quem estiver disposto a me ouvir..."

E algo parece ter ouvido, pois no dia seguinte, diante desse pedido desesperado, o baleeiro se soltou de sua prisão gelada e conseguiu deixar o mar de icebergs.


Por muito tempo, a Ilha Misteriosa descrita pelo jovem marinheiro foi considerada uma lenda já que poucas embarcações passavam por ali e os relatos dos Inuit não eram considerados como precisos já que incluíam muitas descrições fantásticas repletas de folclore e superstições. 

Apenas em 1976 a Ilha de Yttygran foi encontrada por exploradores russos. Os ossos de baleia estavam ocultos embaixo da neve e passaram décadas escondidos de todos até mesmo dos Inuit. Arqueólogos soviéticos começaram a explorar o local e desenterrar artefatos bastante importantes, mas praticamente tudo que se sabe a respeito dele permanecia como mera especulação. O sítio recebeu então o apelido de Stonehenge Siberiano.

Após a queda da URSS, o local passou a receber um tipo diferente de visitantes, turistas ocidentais interessados em conhecer um dos locais mais misteriosos e isolados do mundo, palco de muitos mistérios e histórias além de ser listado como patrimônio histórico mundial pela UNESCO. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A Besta de Gevaudan - A França aterrorizada por uma fera sanguinária


Entre os anos de 1764 e 1767 os habitantes da pequena província francesa de Gevaudan - atualmente parte de Lozere, próximo das Montanhas Margueride, foram aterrorizados por uma horrível criatura lupina que passou a  ser conhecida como La Bête du Gevaudan ou "A Besta de Gevaudan".

A criatura foi descrita como um monstro semelhante a um lobo, mas muito maior dos que qualquer lobo que já havia vagado pela região, sendo quase do tamanho de uma vaca ou de um burro. Suas patas eram dotadas de garras afiadas, a pelagem era escura como a noite, a cabeça maciça semelhante a um mastim com orelhas pequenas e retas, além de uma boca excepcionalmente grande, repleta de enormes presas. Mais do que uma aparência medonha, a criatura parecia dotada de uma maldade inerente que a impelia a matar pelo simples prazer de fazê-lo, não apenas para se alimentar ou defender.

Acredita-se que até seu reinado de terror se encerrar, a Besta de Gevaudan tenha matado algo entre 60 e 100 homens, mulheres e crianças, deixando ainda um saldo de mais de trinta feridos. Atestar a veracidade desses números, é claro, constitui uma tarefa impossível, mas ao certo se sabe que o caso realmente aconteceu e que o número de vítimas foi elevado uma vez que causou comoção em todo país, vindo a ser conhecido em outras partes da Europa.

O primeiro encontro relatado com a fera aconteceu em maio de 1764 na floresta de Mercoire próximo de Langogne na porção oriental de Gevaudan. Uma jovem que cuidava de seu rebanho de gado percebeu uma forma escura espreitando em meio aos arbustos. Ela contou que a fera saltou da mata investindo contra os animais, mas os touros conseguiram mantê-lo à distância com seus chifres. A criatura atacou por uma segunda vez lutando contra os touros, um comportamento incomum para um lobo, mas foi repelida novamente. Os animais conseguiram ganhar tempo suficiente para a mulher apavorada escapar e chegar até seu vilarejo, onde ela contou o que havia acontecido. Os homens da vila se armaram e foram até o local, encontrando alguns animais feridos, mas nenhum sinal do lobo.

Apenas um mês depois, o lobo apareceu novamente. Dessa vez o ataque terminou em tragédia, com a morte de uma menina que não conseguiu escapar da fera. O corpo da criança foi encontrado próximo a um córrego onde ela havia ido encher um cântaro de água. Ela havia sido horrivelmente mutilada e seu coração, segundo as estórias, fora devorado pela fera.  


Nos meses que se seguiram a região mergulhou em um clima de apreensão à medida que o enorme lobo negro prosseguia em sua matança, parecendo ter desenvolvido um gosto especial por mulheres, crianças e homens solitários que se embrenhavam na floresta para cuidar de seus animais pastoris. A forma como a fera atacava também era incomum para um predador, pois ele visava a cabeça se suas vítimas, ignorando os braços e pernas, áreas em que lobos tendem a se concentrar. As vítimas que não eram inteiramente devoradas ou desapareciam sem deixar vestígios, eram encontradas com suas cabeças despedaçadas ou completamente removidas de seus corpos, algo que nunca se tinha ouvido falar até então.

Em virtude do grande número de ataques e vítimas fatais, alguns começaram a suspeitar que haveria mais de uma fera, um par ou quem sabe até uma alcateia dos temíveis animais. De fato, algumas testemunhas relatavam ter avistado a fera no momentos em que ela era vista em outro lugar. Alguns também diziam ter visto o enorme lobo andando com outros animais menores que ele parecia liderar. Os relatos se multiplicavam e um estranho boato começou a se espalhar: o de que a fera seguia as ordens de um homem misterioso todo vestido de couro preto que apontava as pessoas que a fera deveria matar. Para alguns era um nobre decadente que tornava o assassinato seu esporte, para outros era o próprio diabo. 

A medida que a Besta de Gevaudan continuava a matar sistematicamente, as pessoas começaram a acreditar que por trás das suas ações havia algum componente sobrenatural. Caçadores perdiam o rastro da fera no meio da floresta, armadilhas eram ignoradas, armas pareciam negar fogo e os mateiros não entendiam como um lobo tão grande era capaz de se esquivar de todas as buscas. A habilidade da criatura em sobreviver a todas as tentativas de eliminá-la e o fato dela preferir matar mulheres parecia algo claramente sobrenatural. Os camponeses passaram a acreditar que não estavam enfrentando um simples lobo, mas um loup-garou, um lobisomenApesar de todas as providencias para aumentar a segurança erguendo cercas e acendendo tochas durante a noite, não havia sinal da fera diminuir a sua sede de sangue. 


Em outubro de 1764 dois caçadores encontraram a besta na floresta e atiraram contra ela a uma distância de apenas dez passos. Eles atingiram a criatura quase à queima roupa e conseguiram derrubá-la, mas antes que eles pudessem recarregar os mosquetes para uma segunda salva, ele se ergueu e correu para o bosque. Os caçadores juraram ter acertado a fera, mas contaram que as balas não foram capazes de matar a besta imbuída de uma resistência, obviamente diabólica. Uma vez tendo contado o que havia acontecido, organizou-se um grupo de caça que encontrou facilmente os rastros de sangue adentrando o bosque, exatamente no local em que os homens haviam alvejado a criatura. Diante da quantidade de rastros, todos acharam que seria questão de tempo até encontrarem a carcaça da fera em algum ponto da floresta. Os homens entraram na parte mais profunda da mata, onde descobriram vários corpos de vítimas até então desaparecidas, mas nenhum sinal da fera responsável por aquele massacre. Quando se preparavam para retornar, o lobo surgiu sorrateiramente, investindo contra os homens e fazendo mais quatro vítimas fatais. Os sobreviventes contaram que dispararam inúmeras vezes, acertando o alvo, mas cada vez que a besta era baleada, se levantava para atacar novamente. Aterrorizados, os homens fugiram sem olhar para traz.         

Depois disso, o pânico se instalou de vez na região. As estórias sobre as façanhas da fera se espalharam, carregadas por caçadores, mercadores e viajantes. Logo não havia um caçador na França que não tivesse ouvido falar da maligna Besta de Gevaudan. Várias beats se formaram, grupos de caçadores compostos de vários homens, a pé ou montados, armados com mosquetes potentes, longas lanças de caça e mastins farejadores. 

O chefe da milícia local, o Capitão Duhamel foi incumbido pelo próprio Rei Luis XV de encontrar e eliminar a ameaça responsável por deixar os camponeses em um estado de terror tamanho, que colocava em risco as colheitas. Duhamel organizou uma enorme grupo de voluntários formado por dezessete caçadores experientes montados à cavalo, um estoque de mais de 40 mosquetes previamente carregados e uma parelha de mais de trinta cães de caça. O grupo chacinou todos lobos que viviam na região. Segundo contas, mais de 200 animais foram mortos, mas nenhum deles se parecia com a elusiva Besta de Gevaudan.

Os caçadores espalharam armadilhas pela floresta, deixaram ovelhas em lugares acessíveis vigiados noite e dia, aguardaram e chegaram até a vestir alguns com roupas de mulher para tentar atrair a fera. Mas nenhuma dessas estratégias logrou êxito. 

Finalmente em novembro, o grupo de Duhamel avistou a  fera e a perseguiu pela floresta, mas a perdeu em uma área onde os cavalos não conseguiram adentrar. Seguindo à pé, os implacáveis caçadores não se renderam e depois de encontrar com o enorme lobo em uma clareira dispararam contra ele supostamente o alvejando repetidas vezes. Ainda assim, a fera conseguiu escapar para dentro do bosque. O grupo acreditando que o animal não poderia sobreviver a todos os ferimentos infligidos retornou a Gevaudan onde foram recebidos como heróis.    

Dias se passaram sem nenhuma notícia da fera, até que no final de dezembro, perto do Natal, mais uma mulher desapareceu. O grupo de busca localizou os seus restos terrivelmente mutilados em uma ravina: o pesadelo continuaria. A credibilidade do Capitão Duhamel caiu por terra e ele foi destituído depois que um dos seus homens de confiança quase foi linchado por uma multidão furiosa. 


Em Paris, as notícias foram recebidas com reprovação. Críticos da monarquia diziam que a fera estava fazendo o Rei de tolo e que o monarca não era capaz de cuidar da segurança de seus súditos e se livrar de um simples animal selvagem. Insuflando os rumores, alguns afirmavam que um nobre renegado estava por detrás das mortes, controlando um lobo selvagem. Para outros, o tal nobre seria o próprio lobo demoníaco, no qual se transformava nas noites de lua cheia.

Uma recompensa foi prometida para quem matasse a fera e apresentasse o seu corpo. Um emissário real viajou até a região de Gevaudan levando a notícia de que o caçador que eliminasse a fera receberia uma verdadeira fortuna. O Rei ordenou que a Fera de Gevaudan fosse morta e seus restos expostos em Paris como forma de acalmar a população.

O montante oferecido atraiu não apenas caçadores da França, como homens de todas as partes da Europa que convergiram para Gevaudan ávidos pela glória e pela riqueza. A caçada durou meses, e mais de cem lobos foram abatidos, mas nenhum deles foi reconhecido como sendo a fera responsável por aquela situação. Os habitantes locais estavam cansados da presença de tantos estrangeiros comendo a sua comida, remexendo os campos e invadindo suas propriedades. Alguns caçadores agiam de má fé tentando ludibriar as autoridades reais. Um homem chegou a apresentar a carcaça de um animal estranho e incomum, alegando que havia abatido a criatura após uma épica caçada. O mestre de caça, reconheceu os restos pelo que eles de fato eram, uma hiena, que aparentemente havia sido trazida do norte da África.     

Após a morte de duas crianças em tenra idade, o Rei comovido pela situação, contatou um normando chamado Denneval, que fora Guarda Caça de um marquês e que tinha a reputação de ser o maior caçador da França. O monarca depositou no sujeito suas últimas esperanças e prometeu a ele um título de nobreza caso fosse bem sucedido na perigosa empreitada.

Em fevereiro de 1765. Denneval chegou a região de Gevaudan acompanhado de cinco ajudantes de sua inteira confiança, sendo um deles um nativo americano que ele havia encontrado em uma expedição a colônia de Manitoba e que era famoso pelas suas qualidades como rastreador. A entourage contava ainda com um verdadeiro arsenal de 50 mosquetes militares pesados, lanças com mais de dois metros de comprimento, bestas que disparavam setas de ferro, bombas explosivas de pólvora negra, armadilhas e correntes para capturar ursos e outros equipamentos modernos. Os homens do Guarda Caça, usavam armaduras negras de couro batido e eram uma visão aterrorizante, em especial o selvagem do Novo Mundo com o cabelo moicano e pintura de guerra. Denneval vestia uma armadura de couro e metal cheia de espinhos e dizem havia matado uma loba no cio e espalhado seu sangue em todo traje. O fedor que exalava era nauseante, mas ele estava confiante de que isso atrairia a presa.

O grupo de Denneval logo ganhou a companhia do jovem Jacques Denis, um rapaz de dezesseis anos que conhecia como ninguém a floresta e que provou não estar intimidado pela tarefa e nem pela aparência do bando. Jacques explicou que desejava se vingar da fera uma vez que ela havia matado sua irmã mais velha meses antes. O rapaz havia testemunhado o horrível ataque e visto o corpo sem vida da irmã ser arrastado como um boneco para a floresta de onde jamais foi recuperado. O rapaz foi aceito na companhia dos caçadores que vasculharam cada canto da floresta. O plano de Denneval era forçar a fera para cada vez mais perto de Gevaudan a fim de fazer o abate.

Em meados de maio, o plano do Guarda Caças teve êxito, mas não da maneira que ele esperava. A fera foi atraída para a cidade, durante as comemorações da Feira da Primavera. Durante seu ousado ataque, a besta matou várias pessoas incluindo uma jovem de nome Marguerite, que estava enamorada de Jacques Denis. Furiosos, aldeões se armaram com ferramentas, paus, pedras e qualquer coisa que pudessem usar como arma para matar o monstro. Jacques e um grupo penetrou na floresta seguindo o rastro do lobo, mas acabou caindo em uma armadilha. Os homens acabaram morrendo e se não fosse a chegada providencial de Denneval e seus homens, Jacques também teria sido morto pela fera. Apesar de sobreviver, diz a lenda que os cabelos do rapaz ficaram totalmente rancos e que ele pareceu envelhecer décadas com a experiência. Pouco depois desse ataque, que teria deixado mais de doze mortos, Denneval desistiu da perseguição.

"Não há o que fazer" teria escrito ao Rei se desculpando. Ele continuou: "A fera nos iludiu a entrar na floresta a fim de atacar impunemente o vilarejo. Claramente estamos diante de algo que desafia a razão e que age impelida pelo desejo de matar. Temo que nossa presença aqui apenas a torna mais selvagem e vingativa".


Perturbados pela desistência do Guarda Caça, a maioria dos caçadores também partiram. Livre para agir impunemente, a fera prosseguiu impiedosa. Ele matou um rapaz de quatorze anos e uma mulher que carregava um recém nascido. Furioso com a carta do Guarda Caça, o Rei ordenou que Denneval fosse trazido à sua presença, mas ele escapou para outro país desaparecendo da história. Um dos conselheiros de Luis XV indicou um homem para assumir o lugar do Guarda Caça, seu nome era Antoine de Beauterne, um renomado taxidermista parisiense que havia caçado todo tipo de presa na Europa e na África.

Beauterne chegou sem estardalhaço e fez aparentemente pouco no início. Explorou a floresta, desenhou mapas e assinalou neles onde a besta havia sido vista. Em uma de suas expedições encontrou com o nativo de Manitoba que ficou para traz após a desistência de Denneval. O homem, que passou a ser chamado de Mani, ofereceu suas habilidades como rastreador.

Em 21 de setembro, Beauterne organizou um grupo de caça formado por quarenta caçadores locais especialmente escolhidos para a tarefa, e uma dúzia dos melhores cães farejadores. Unindo o seu conhecimento do terreno aos valiosos conselhos de Mani, os homens se concentraram em uma área rochosa isolada, repleta de ravinas próxima ao vilarejo de Pommier. Parecia lógico para o taxidermista que o lobo usasse esse lugar, cheio de cavernas como covil por ele proporcionar um bom esconderijo e dispor de água potável. O plano era levar a caçada até um lugar em que a fera se sentisse segura, e onde ela não esperava ser confrontada.

Logo que chegaram ao local os cães captaram um cheiro e começaram a latir como loucos. Não demorou para a besta emergir de uma caverna para investigar. Um dos homens deu alerta e Beauterne disparou seu mosquete acertando em cheio o dorso da fera. Ela ainda saltou derrubando um dos homens, mas imediatamente os outros abriram fogo crivando o lobo com tiros certeiros. Um deles teria arrancado seu olho esquerdo e se alojado no crânio. A criatura ganiu e caiu morta, mas enquanto os homens comemoravam, ela de repente se ergueu e investiu novamente com uma ferocidade sobrenatural. Uma segunda saraivada de balas foi disparada e finalmente a fera acabou tomando. O golpe final foi desferido por Mani. Armado com uma afiada machadinha o nativo saltou sobre a fera, sua arma descreveu um giro no ar e caiu pesadamente despedaçando o crânio da besta. Aproximando-se cautelosamente os homens se colocaram a golpear a carcaça com baionetas e lanças compridas até reduzi-lo a uma coisa grotesca e sanguinolenta.

Os caçadores amarraram o que havia restado da fera em um estrado e o arrastaram até Pommier. Beauterne examinou cuidadosamente os restos da fera e concluiu que se tratava de um magnífico lobo medindo um pouco mais do que 1,80 m e pesando algo em torno de 90 quilos, com uma boca cheia de presas com mais de uma polegada de comprimento. Beauterne tentou preservar a criatura a fim de levá-la até o Rei, mas apesar de seus esforços, a carcaça havia recebido muitos danos durante a caçada. Tudo o que ele conseguiu salvar foram as orelhas, os dentes e o rabo, todo o resto foi queimado e enterrado nos arredores do vilarejo.


Por mais de um ano, as coisas ficaram tranquilas em Gevaudan e a vida foi voltando ao normal. Então, na primavera de 1767 as mortes reiniciaram. Duas crianças haviam desaparecido e o corpo de uma mulher sem a cabeça foi achado em um descampado. Beauterne foi chamado para retornar a Gevaudan, mas ele afirmou que aquelas mortes não eram o trabalho de um lobo, e sim de um maníaco.

Em 19 de junho do mesmo ano, um nobre local, o Marques d'Apcher organizou a maior beate já vista para encontrar o rastro do animal. Mais de trezentos homens a pé e montados vasculharam cada centímetro do bosque. Nada foi encontrado.
   
Na época, um homem misterioso chamado Jean Chastel passava pela região. Ele era um conhecido de Jacques Denis e se ofereceu para exterminar a fera. Ao contrário dos outros ele não era um caçador experiente, mas um especialista em folclore e superstições. Chastel afirmava que o responsável pela nova onda de mortes não era um simples lobo, mas uma besta sanguinária aprisionada no corpo de um homem. A luz fazia com que a fera no interior do culpado viesse à tona com um incontrolável desejo de matar. O espírito do lobo de Gevaudan havia contaminado esse homem o transformando em um assassino. Ele era um loup-garou.

O especialista conseguiu convencer as pessoas de Gevaudan a doar objetos de prata e quando tinha o suficiente mandou derreter tudo a fim de produzir projéteis que foram abençoadas pelo pároco local. O plano de Chastel era atrair o lobisomen para os limites do bosque. Ele preparou o lugar cuidadosamente e acompanhado de Denis recitou uma série de orações. Na alta madrugada, os dois perceberam movimento na mata e ficaram alerta. De repente uma besta em forma de lobo irrompeu da floresta e avançou na direção dos dois. Chastel disparou com suas pistolas e os projéteis de prata pura vararam o corpo da besta que caiu fulminada.

Assim como a fera morta por Antoine de Beauterne essa criatura era um enorme lobo, consideravelmente maior do que os outros que habitavam a floresta. O monstro foi estripado e dentro dele encontrou-se os restos de uma criança que havia desaparecido na véspera. A besta foi embalsamada e levada de cidade em cidade para que as pessoas pudessem vê-la, em troca de uma pequena contribuição, é claro. Infelizmente para a ciência moderna, os métodos de preservação da época não eram bons o bastante e o que restou da fera acabou chegando até Paris em um estado deplorável. O fedor incomodou o Rei de tal forma que ele ordenou que os restos fossem levados de sua presença imediatamente. Há informações contraditórias a respeito do que aconteceu com a Besta então. Para alguns ela foi queimada e suas cinzas espalhadas ao vento, apesar dos protestos de Chastel. Outros dizem que a carcaça chegou a ser levada até o genial taxidermista Beauterne que restaurou a fera e a vendeu para um nobre colecionador.

Seja como for, os restos da lendária Besta de Gevaudan jamais foram recuperados, causando mais de dois séculos de controvérsia a respeito de sua real identidade. Em 1960, após estudar a transcrição de Antoine de Beauterne a respeito do processo de dissecção da fera por ele abatida, uma comissão de zoólogos concluiu que o animal descrito era realmente um lobo. Franz Jullien, taxidermista do Museu Nacional de História Natural de Paris, encontrou amostras dos dentes da Besta de Gevaudan guardadas no arquivo do Museu e as submeteu a testes, concluindo que se tratavam realmente de presas de um lobo de grande porte. Em 1979, restos de um animal empalhado foram encontrados guardados no depósito do museu em uma caixa. Segundo boatos, seriam os restos do espécime que Jean Chastel abateu com suas balas de prata. O animal foi aparentemente identificado como uma hiena nativa do Norte da África, Oriente Médio, Paquistão e Oeste da India.  

Seria a Besta de Gevaudan uma enorme hiena e não um lobo? A ideia foi contemplada entre outros pelo novelista Henri Pourrat e pelo naturalista Gerard Menatorv que propuseram a hipótese de uma hiena ter sido trazida por negociantes de naimais e uma vez recusada em um zoológico, libertada na floresta. Há ainda outra hipótese que coloca em xeque a credibilidade de Jean Chastel. Segundo rumores, o pai de Chastel possuía uma hiena em sua menageria (um termo do século XVII usadopara coleções de animais mantidos em cativeiro). Alguns pesquisadores acreditam na possibiliadde de Jean Chastel ter inventado a estória a respeito do loup-garou e usado a hiena que pertencia a menagerie de seu pai para se auto-promover.

Isso levanta a questão a respeito de quem seria então o responsável pelas mortes após Beauterne ter eliminado o grande lobo. Para alguns, Chastel ou alguém muito próximo a ele teria deliberadamente assassinato inocentes para criar a impressão de que a Besta ainda vagava por Gevaudan fazendo vítimas. Para muitos, o misterioso Chastel era um homem de moral dúbia, ganancioso e ávido por riquezas. Uma das razões pelas quais o Rei Luis XV se negou a recebê-lo foi justamente por ele ter tentado vender ao monarca, por um preço exorbitante, os restos da fera abatida. Chastel morreu em relativa obscuridade, mas não é totalmente surpreendente que alguns afirmem que ele teria se tornado um algoz da nobreza e que desempenhou o papel de perseguir nobres após a Revolução.

É claro, tudo isso é mera especulação uma vez que não há como determinar historicamente se houve mais de uma Besta de Gevaudan. O que se sabe é que o sentimento de terror que tomou conta da região entre 1764 e 1767 foi muito bem documentado na época. A população de lobos também foi drasticamente reduzida chegando praticamente a extinção por conta das caçadas empreendidas naqueles três anos.

O que levou um lobo a emergir das floresta para matar indiscriminadamente os habitantes de uma pequena província na França continua sendo um mistério. Mas um marco de pedra foi construído no local, lembrando a todos daqueles dias de medo.

  

terça-feira, 31 de julho de 2018

Leviatã devorador de mundos desperta de seu sono de 500 milhões de anos no subsolo de Marte depois de perturbação de Sonar - Ah sim, achamos água em Marte


Como não amar o site "The Onion"?

Sempre com suas notícias importantes que contemplam uma visão interessante e uma interpretação dos acontecimentos mais recentes, ele publicou semana passada esse artigo, que reproduzi aqui abaixo.

A notícia é sobre a fantástica descoberta de água em Marte e das curiosas repercussões que isso trará para a humanidade.

Por sinal, parabéns a quem escreveu e que caprichou no tom absurdamente lovecraftiano e nos termos aterrorizantemente cthulhianos.

PARIS - Pouco depois da transmissão enviada pela nave sonda Marte Express, verificando positivamente através de instrumentos a descoberta de um lago subglacial, cerca de uma milha abaixo da superfície, a Agência Espacial Europeia (AEE) confirmou também, nesta quinta, que o radar de penetração teria acidentalmente perturbado a eterna hibernação de uma indescritível criatura com eras de idade e devastadora malevolência. A entidade foi despertada de seu sono de 500 milhões de anos no reservatório subterrâneo do Planeta Vermelho.

A abominável besta trans-dimensional então se ergueu das profundezas estígias de seu covil subaquático, liberando um medonho urro ululante que causou a imediata fissura e explosão do planeta em bilhões de fragmentos. O evento registrou magnitude equivalente a 18,5 na escala Richter, segundo cientistas do ESA. Os astronautas à bordo da Estação Espacial Internacional que acompanhavam o trabalho evidentemente perderam sua sanidade diante da visão da maldita abominação gerada pelas estrelas. Antes porém eles conseguiram enviar para o Controle da Missão através de transmissões cada vez menos coerente um alerta de que a criatura se dirige agora para a Terra, devendo chegar até a próxima semana. Poucos instantes depois o sinal foi abruptamente cortado pela tripulação, seguindo-se gritos histéricos.

Administradores da ESA, inicialmente otimistas com a descoberta de água em estado líquido em Marte e com as implicações positivas para uma futura colonização, mudaram sua mensagem para um alerta hoje pela manhã. Gritando e xingando em mensagem apenas parcialmente compreensível, a medida que arrancavam os próprios olhos de suas órbitas no esforço vão de apagar a imagem daquele horror vasto avançando contra nosso pequeno mundo. Acreditam agora que ele está prestes a devorar nossas vidas insignificantes da mesma maneira que um dia ele irá devorar a luz das estrelas.

Aguardem para novas informações em breve. 

Para quem não conhece, o "The Onion" pega notícias recém publicadas e cria em cima delas algum acontecimento sensacional.

Dessa vez, contudo, eles podem ter exagerado... um pouquinho! 

quarta-feira, 18 de abril de 2018

A Expedição Shäfer ao Tibet - A Caçada dos Nazistas ao lendário Yeti


Nazistas parecem ter um lugar de destaque em qualquer grande conspiração que seja estranha, bizarra ou simplesmente esquisita. De experiências com ocultismo, passando por bases de discos voadores, exploração do sobrenatural como armamento de guerra até o desenvolvimento de tecnologias avançadas, nazistas fizeram por merecer o status de grandes vilões.

Enterrado em meio a uma infinidade de conspirações e esquisitices históricas associadas aos nazistas é possível encontrar coisas realmente peculiares. Uma delas atraiu o interesse pesquisadores interessados em criptozoologia. Trata-se de um caso muito estranho combinando expedições secretas, exploração e monstros enigmáticos.      

Existem tantas lendas fantásticas a respeito de expedições nazistas ao redor do mundo que em alguns momentos é difícil determinar se elas possuem algum fundo de verdade. Parece ser verdade que Hitler tinha um intenso interesse em temas sobrenaturais, no desconhecido e no estranho, tanto que ele promoveu a criação de uma organização devotada a sua exploração. A Ahnenerbe, presidida pelo segundo em comando na estrutura nazista, Heinrich Himmler, tinha como um de seus principais objetivos investigar as raízes da raça ariana. Contudo, existiam muitos subdivisões dentro da Ahnenerbe, algumas devotadas ao estudo do misticismo e do mundo sobrenatural, temas que agradavam a Himmler. Entre os projetos da Ahnenerbe estavam o estudo da feitiçaria, de poderes psíquicos, magia negra e outras ciências ocultas. Na sua busca incessante por artefatos e fontes de poder ancestral, os agentes nazistas se lançaram em expedições que os levaram a várias partes do planeta: do Egito, aos desertos da Arábia, da Amazônia ao Coração da Asia.

Entre as mais inusitadas expedições sancionadas por Himmler estava uma viagem aos Picos do Himalaia com o objetivo de encontrar o lendário Yeti, criatura também conhecida como o "Abominável Homem das Neves"

     
O ano era 1938 e os alemães já haviam realizado outras expedições às geladas Montanhas do Himalaia, no Reino do Tibet, uma das regiões mais misteriosas e desconhecidas do planeta. Os nazistas tinham enorme interesse no Tibet, uma vez que acreditavam que a raça ariana teria se originado naquela parte do mundo. Liderada pelo zoólogo alemão e oficial da SS Ernst Schäfer, os nazistas também desejavam explorar as montanhas para determinar se as lendas tibetanas a respeito do Yeti tinham algum fundo de verdade. A expedição contava com vários cientistas respeitados, como o antropólogo Bruno Beger, que acreditava não apenas na existência do Yeti, mas também em espíritos como o Tulpa, em feitiçaria e poderes psíquicos. Beger defendia que os antigos arianos haviam em algum momento da história conquistado uma boa parte da Ásia e que desenvolveram um vasto império que detinha ao mesmo tempo conhecimento místico e tecnológico. Fragmentos desse saber ancestral ainda poderiam ser encontrados entre a população.

O propósito oficial da Expedição Shäfer, a terceira na região, era pesquisar as origens dos povos arianos e determinar suas raízes culturais. Além disso, eles também buscavam catalogar a exótica fauna e flora do Himalaia, traçar a etnografia dos povos locais, examinar a geologia e desenhar mapas detalhados.

Entretanto, é claro, haviam planos mantidos em segredo pelos membros da Expedição. O Ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebels se valia dessas expedições para promover o partido e demonstrar a alegada superioridade da Alemanha diante das outras nações. Conquistar montanhas e chegar antes ao topo de cordilheiras era uma questão de honra e prestígio. Os nazistas também usavam suas expedições de caráter científico como pretexto para sondar esses territórios sob o controle de inimigos em potencial, estabelecer bases para futuras incursões militares e fazer contato com rebeldes. Quando a guerra teve início em 1939, os nazistas usaram as informações de campo colhidas pelos seus exploradores.


Beger acreditava que o Yeti, um dos alvos da terceira expedição, poderia ser uma espécie humana primitiva não evoluída. Suas teorias pseudocientíficas contemplavam a possibilidade dos Yeti terem surgido na mesma época dos arianos originais. Provar a existência dessas criaturas seria uma maneira de validar as teorias a respeito de raças humanas ancestrais habitando essa mesma região inóspita. 

A expedição reuniu inúmeras lendas e narrativas do folclore tibetano envolvendo o Yeti. Guias e tradutores contratados pelos nazistas viajaram de aldeia em aldeia para reunir a maior quantidade possível de informações sobre o assunto. Nenhum rumor, era deixado de lado, todos os avistamentos eram checados e as testemunhas entrevistadas pelos cientistas.

A despeito de todos esforços, a Expedição Shäfer, obviamente, não encontrou nenhum espécime do Yeti. Oficialmente eles coletaram centenas de amostras de plantas e animais, também fizeram numerosas fotografias e filmagens, além de terem adquirido artefatos dos povos nativos, como uma cópia do Kangyur, o livro sagrado dos tibetanos. A expedição também recebeu um importante presente dos nativos do Tibet, uma estatueta de metal do Deus Vaisravana esculpida com um pedaço de um raro meteorito. Shäfer detalhou vários aspectos da expedição em um diário particular no qual descreveu costumes e a cultura do Himalaia. As anotações meticulosas de Beger serviram como material para um importante livro intitulado "Mit der deutschen Tibetexpedition Ernst Schäfer 1938/39 nach Lhasa" considerado um dos mais fiéis relatos das tradições tibetanas, sob uma ótica ocidental.

Shäfer e Beger escreveram relativamente pouco a respeito do Yeti em seus diários, mas descreveram que pelo menos duas incursões tiveram como alvo averiguar lugares onde a criatura havia sido avistada. Shäfer escreveu que do seu ponto de vista o legendário animal, não deveria ser mais do que um tipo de urso de grande porte habitando uma área montanhosa de difícil acesso. Embora Begen deixasse clara sua crença na existência da criatura, seu interesse nela parece ter gradualmente diminuído a medida que sua atenção foi se voltando para outros temas mais concretos.

Isso não os impediu de tentar encontrar sua presa. Em um dos relatos mais significativos, o líder da expedição escreveu que a expedição tentou atingir um platô onde uma caravana havia avistado um animal de grande porte, coberto de pelos brancos no ano anterior. A narrativa de guias que mencionaram já ter visto a criatura animou os membros da expedição, mas uma forte nevasca os impediu de chegar ao local exato.


As filmagens feitas pela expedição foram reunidas e editadas na forma de um filme com o título Geheimnis Tibet ( Tibet Secreto). Schäfer obteve enormes elogios entre os nazistas, recebendo uma comenda pelos valiosos serviços prestados para a Ahnenerbe. Shäfer pretendia retornar ao Tibet para prosseguir nas suas explorações, mas a intensificação da guerra impediu seus planos e ele se viu impedido de deixar a Europa. Após o conflito, ele foi interrogado pelos aliados a respeito de sua relação com os altos círculos do partido e se disse enojado quando as atrocidades nazistas vieram à tona.

Muitos anos depois da guerra, um diário escrito por Shäfer revelava que ele tinha interesse de viajar para o Tibet com o propósito de organizar guerrilhas tibetanas, contudo ele jamais voltou ao Himalaia. Depois da Guerra, ele ficou preso por quatro anos pelo seu envolvimento com a SS. Shäfer casou-se em 1949 e se mudou para a Venezuela onde se tornou professor na Universidade de Maracaibo. Posteriormente ele retornou a Europa e se converteu em um conselheiro do Rei Leopoldo III da Bélgica. Ele morreu em 1992.

Bruno Bager também sobreviveu à Guerra apesar de uma vergonhosa participação como antropólogo nazista trabalhando como consultor para a Ahnenerbe. Ele foi acusado de ter tomado parte em um projeto que visava a criação de uma coleção de esqueletos de judeus. Segundo rumores, 100 judeus foram escolhidos em Auschwitz e executados para que seus ossos fossem coletados e futuramente expostos em um museu que seria criado. Bager negou até o final da vida que tivesse participado desse episódio. Ele morreu em 2009 com quase 100 anos de idade. O antropólogo evitava falar a respeito da Expedições ao Tibet e segundo sua família desejava esquecer sua participação nelas. Ele destruiu todos os itens que o ligavam a expedição de 1938-39 e não autorizou novas edições do seu livro. Hoje, existem menos de 50 cópias dele.  

Apesar da história oficial se limitar a isso, teóricos da conspiração acreditam que algo mais sinistro ocorreu na Expedição Nazista ao Tibet. Há registros de que a expedição teria trazido um grande número de caixas e containers em segredo ao retornar e que dentro deles teriam sido contrabandeados para a Alemanha espécimes de animais desconhecidos. Os membros das expedições faziam parte da Ahnenerbe e muitos deles eram filiados a SS, obrigados a manter segredo sobre seus objetivos e os resultados obtidos. Um manifesto dos itens trazidos pela expedição explicita terem sido trazidos 47 espécimes animais, mas apenas 25 foram descritos.


Alguns acreditam que Shäfer e Beger podem ter descoberto muito mais do que revelaram em seus diários. Sabe-se que a Ahnenere era criteriosa em seus registros e que exigia detalhes de todas as descobertas realizadas. O diário oficial da expedição concluída em 1939 e arquivado pelos nazistas, era bastante sucinto e alguns acreditam que essa versão havia sido pesadamente censurada para que informações chave não vazassem. Da mesma maneira, alguns pesquisadores estranham que boa quantidade dos itens trazidos pela expedição simplesmente desapareceram ou não foram incluídos no acervo da organização. Qual teria sido o destino desses itens que incluíam objetos, animais empalhados e outras amostras?

Finalmente, existe a questão das honrarias dispensadas a Shäfer após seu retorno. Ele recebeu uma das mais importantes condecorações da época, o tipo de reconhecimento concedido a indivíduos que fizeram alguma descoberta científica significativa. Analisando friamente os resultados da Terceira Expedição, ela não foi mais notável que as outras duas.

Pesquisadores de Criptozoologia defendem que ainda que a Expedição não tenha encontrado o Yeti, é provável que eles tenham coletado informações valiosas a respeito da criatura. Mas no diário oficial, há muito pouco a respeito do assunto, quase como se ele tivesse sido propositalmente ignorado. Teriam os nazistas encontrado algo que preferiram manter em segredo? E se esse for o caso, será que ainda existem documentos secretos que sobreviveram?

As questões permanecem sem resposta, e é bem provável que jamais saibamos ao certo o que os nazistas encontraram na sua viagem pelas Montanhas do Himalaia.

terça-feira, 3 de abril de 2018

A Volta do Mapinguari - Relatos de encontro com a fera de Mato Grosso



Uma besta aterrorizante assombra o estado de Mato Grosso e a região do Pantanal. Dominado por grandes planaltos, charcos e floresta fechada, a região oferece o ambiente ideal para animais lendários e feras que para muitos existem apenas no folclore dos povos nativos. 

O zoólogo americano Randy Merril, tem estudado consistentemente o mito do Mapinguari há anos. Ele escreveu vários trabalhos a respeito e dois livros a respeito de mitos e lendas amazônicas sob uma visão da criptozoologia. Merril entrevistou representantes de vários povos nativos que disseram ser a besta, muito mais do que uma lenda. Para essas tribos, que inclui os Bakairi, Bororo, Cinta Larga, Kayapó e Nambikiwara, a criatura é bastante real e representa um perigo que espreita as selvas, ocultando-se dos homens e atacando quando lhe convém.

Merril acredita que o Mapinguari é um criptid pré-histórico, um animal que viveu há milhões de anos e que de alguma forma sobreviveu nas profundezas mais remotas das selvas, aprendendo a se esconder e evitar o contato com o homem. Descrito como uma fera de grande porte, coberta de pelos castanhos avermelhados, com braços longos e garras afiadas, ele seria forte o bastante para arrancar palmeiras inteiras do chão. A combinação do couro e pelagem emaranhada concederia ao animal uma proteção efetiva contra flechas, lanças e até mesmo armas de fogo. Para os nativos, o Mapinguari não é afetado por armas alguma a não ser que esta atinja sua enorme boca, que se abre em sentido vertical, e é a única parte sensível a ferimentos.


O zoólogo francês Bernard Heuvelmans, considerado o pai do estudo de criptids, foi um dos primeiro pesquisadores a mencionar esta lenda sul-americana. Muitos estudiosos consideram que o Mapinguari pode ser o equivalente ao pé-grande ou sasquatch da América do Norte. Desde meados da década de 1970, relatos a respeito de avistamentos do Mapinguari tem sido estudados por criptologistas.

Em 1937 um espécime teria espalhado o pânico no Mato Grosso depois de atacar e matar mais de uma centena de cabeças de gado. A criatura supostamente arrancava a língua dos animais e as devorava, o que lhe valeu o apelido de "come língua". Já em 1967, outra narrativa mencionava o ataque de um casal de Mapunguari a um grupo de caçadores nos arredores de Codajás. 

Entretanto, a história mais detalhada e fascinante a respeito de um contato com a criatura data de 1983 e envolve um homem identificado como Inocêncio, que trabalhava como guia de expedições internacionais no Rio Urubu. O trabalho de Inocêncio era capturar espécimes de macacos que seriam levados por pesquisadores norte-americanos. Enquanto explorava uma região isolada da selva, Inocêncio e sua equipe encontraram pegadas de um animal de grande porte que eles acreditavam se tratar de um primata. O grupo se embrenhou na mata em busca do animal, acreditando que a descoberta poderia lhes render uma boa recompensa. No terceiro dia de uma perseguição que os levou a uma área inexplorada, a equipe decidiu acampar em uma clareira. Durante uma noite particularmente escura, uma coisa vil e assustadora começou a espreitar os limites do acampamento produzindo um ruído que deixou os homens nervosos. Não era nada que mesmo eles, mateiros experientes e conhecedores da floresta, já haviam ouvido. O som, segundo as testemunhas se assemelhava a um grito gutural de homem, acompanhado de um rosnado de gelar o sangue. 

Inocêncio ordenou que os homens atiçassem a fogueira já que ela parecia manter a coisa, seja o que fosse, afastada. Os homens se armaram e dispararam seus rifles para o alto na esperança que o som afastasse o bicho. Mas o ruído teve o efeito contrário e o animal parecia cada vez mais próximo. Um dos guias nativos então cedeu a superstição e começou a gritar que se tratava de um mapinguari e que a fera mataria a todos.


Foi então que algo muito pior aconteceu. Os homens escutaram o som de algo grande e pesado se movimentando na mata, amassando as plantas e agitando a vegetação enquanto avançava. A respiração da fera era poderosa, como a de um touro furioso. Os homens se posicionaram perto da fogueira e se puseram a observar aflitos. De repente, uma silhueta enorme surgiu nos limites da luz produzida pela fogueira, uma coisa selvagem, equilibrando-se em duas pernas, agitando seus braços longos e gritando furiosamente. O guia nativo, um índio bororo chamado Jurandir caiu de joelhos gritando enlouquecido ao se deparar com o monstro do folclore do seu povo: o Mapinguari.

Inocêncio congelou por um segundo, incapaz de entender o que estava vendo bem diante de seus olhos. A coisa soltou um brado de desafio, o sinal de que pretendia investir contra o grupo aterrorizado. Agindo por instinto, os outros membros da expedição apontaram seus rifles e dispararam na direção da criatura. Embora tenha sido baleada por vários disparos, a coisa parecia apenas mais enfurecida pelo estrondo das armas de fogo. Ele avançou alguns metros, impelindo seu corpo com os braços no chão, como um gorila. Felizmente a barragem de disparos de espingarda e rifle surtiu algum efeito. A coisa se deteve, rosnou novamente, um brado alto que chegou a atordoar os homens, e então, rápido como quando apareceu, ela mergulhou na floresta, em fuga desabalada.

Os homens ficaram paralisados, incapazes de perseguir a coisa. Estavam aterrorizados demais para ir atrás daquela fera que por um instante pareceu muito perto de fazer a expedição em pedaços. Os homens se sentiam drenados de seu ímpeto, enfraquecidos e confusos. Alguns choravam ou tinham reações emocionais conflituosas: chorando ou gargalhando sem parar. Inocêncio mandou que detivessem Jurandir, que parecia ter sido o mais afetado pela visão. O índio babava, virava os olhos e comia terra. O desacordaram com um coronhada na cabeça para que não continuasse fazendo sandices. Em seguida decidiram procurar algumas árvores altas e passar o resto da noite em cima dela. Alternando turnos de guarda, os homens ainda conseguiam ouvir a coisa à distância com seus urros bestiais.  


Quando finalmente amanheceu e os homens tomaram coragem de descer das árvores e encontraram na clareira as marcas de sangue e pegadas da coisa. Sentiam ainda no ar um fedor azedo de animal selvagem que sem dúvida emanava da criatura. O grupo desfez o acampamento e começou a retornar imediatamente para a civilização sem descansar e sem olhar para trás. Eles tinham uma história inacreditável para relatar quando atingissem o povoado mais próximo.

Jurandir, o nativo que perdeu a razão diante da criatura, mais calmo, explicou aos outros o que era aquela fera. Ele contou que se tratava de um monstro das tradições orais dos Bororo, uma besta que habitava os recônditos mais ermos da selva: o Mapinguari. Encontrar aquele bicho na mata era o mesmo que topar com a morte. Eles haviam tido muita sorte de afugentá-lo pois quando o Mapinguari sente o cheiro de sangue fica enlouquecido. Se um deles tivesse sido ferido, nada poderia deter o monstro.

Jurandir completou a narrativa sugerindo que o urro do Mapinguari fazia as pessoas ficarem desorientadas. O berro do animal causava náusea e tontura, alguns até caíam inconscientes dominados pelo terror que ele provocava nas suas presas. 

O visitante misterioso jamais foi identificado.

A história de Inocêncio, um homem respeitado na região e tido como um mateiro experiente se espalhou. Ninguém duvidava que os homens tinham visto alguma coisa na mata, a expressão deles e a maneira como relataram a história, deixava claro que eles não estavam inventando aquilo. Na floresta acontece muitas coisas estranhas e homens como Inocêncio não precisavam fabricar histórias como aquela. 


A história ganhou notoriedade como uma das primeiras narrativas a respeito do Mapinguari. 

Embora muitos pesquisadores mundo a fora considerem que a misteriosa criatura seja um tipo de primata desconhecido, ou mesmo um "homem-macaco", existe outra teoria popular que explicaria a existência e a presença desse animal no Mato Grosso. Lançada pelo paleontólogo argentino Florentino Ameghino, a teoria é que os mapinguari seriam descendentes de enormes mamíferos pré-históricos extintos há milhares de anos: os Milodontes, também conhecidos como preguiças gigantes.

Fósseis desses enormes animais, que atingiam quase três metros de altura e pesavam mais de 250 quilos, foram encontrados em várias partes da América do Sul da Patagônia até a Bacia Amazônica. Os Milodontes desapareceram há mais de 10 mil anos, provavelmente extintos pela ação do homem que constituía seu único inimigo natural. Com uma pele grossa e grande ferocidade quando encurralado, um Milodonte podia ser um inimigo bastante perigoso. Sua pele densa e a pelagem forneciam uma boa armadura natural, enquanto que, garras longas poderiam facilmente matar um homem.

Seria possível que as tradições orais de povos nativos, passadas através das gerações, se conectem a narrativas tão antigas remontando até a época em que esses animais conviviam com antepassados primitivos? Uma vez que os Milodontes eram inimigos poderosos, talvez isso tenha dado ensejo para a criação da maioria das lendas, afinal a maioria destas se baseia em algum fundo de realidade.


A maior expedição organizada com o intuito de encontrar o Mapinguari e comprovar sua existência foi chefiada pelo ornitólogo norte-americano David Orne na década de 90. A expedição se concentrou na cabeceira do Rio Urubu, onde ocorreu o encontro com a criatura em 83. Durante a expedição a equipe de Oren recolheu tufos de pelo castanho escuro, fezes e pegadas, mas uma análise desses indícios demonstrou que respectivamente o pelo pertencia a cotia, enquanto as fezes eram de tamanduá. As pegadas, não foram identificadas, mas uma vez que os moldes não foram bem feitos, nada pode ser apurado.

É um fato que muitas partes do Brasil permanecem inexploradas e animais ainda desconhecidos podem habitar essas áreas intocadas pelo homem. Se o mapinguari de fato existe, seja ele uma espécie de primata desconhecido de grande porte ou uma preguiça gigante que sobreviveu, a descoberta seria notável.

Para aqueles que duvidam dessa possibilidade, vale a pena lembrar que até alguns anos atrás, Lulas Gigantes eram consideradas como uma lenda. Ao menos até que exploradores conseguiram encontrar, fotografar e capturar um espécime vivendo em altas profundezas.

Talvez, assim como a Lula Gigante, alguma coisa estranha habite as profundezas da floresta iludindo e despistando seus perseguidores.

Para mais a respeito do Mapinguari:

quinta-feira, 1 de março de 2018

Plantas Carnívoras - Quando a natureza se alimenta de carne humana


Nós vivemos em um mundo cheio de plantas. Este é um planeta verdejante, com incontáveis espécies de flora que se estabelecem em praticamente todos os cantos do mundo. Nas mais quentes florestas e selvas tropicais, até os desertos inóspitos e secos, passando por alguns dos lugares mais insalubres da Terra, plantas conseguem se adaptar e perseverar onde quer que seja. Mesmo na inabitável tundra do Ártico, é possível encontrar traços de líquens desafiando condições adversas. De fato, vegetais são uma das formas de vida mais adaptáveis em nosso planeta.

Cercados por uma flora tão diversa, a maioria de nós provavelmente tem uma boa ideia do que torna uma planta, uma planta. Elas absorvem água e luz do sol, elas utilizam um processo chamado fotossíntese para viver, elas criam sementes para se reproduzir, fazem a polinização e crescem. Elas certamente não se movem, atacam ou se alimentam de outros seres vivos. Ou será que fazem isso?

Sabemos que algumas formas de vida desafiam as expectativas. Será que existem plantas que se alimentam de outros animais, que ingerem carne da mesma maneira que um predador faria? Muitas pessoas já devem ter ouvido falar da Venus flytrap, a célebre Planta Carnívora que se alimenta de moscas ou da pitcher plant, uma folhagem que cria uma seiva adocicada e extremamente adesiva para capturar insetos e até pequenos mamíferos. Esses são exemplos reais, mas o que dizer de plantas maiores, capazes de devorar animais de maior porte ou até seres humanos?

Em alguns cantos escuros do mundo existem lendas a respeito de tais plantas devoradoras de homens. Nos cantões mais distantes do planeta vêm relatos de árvores que se alimentam de cães, porcos, macacos e até pessoas. Essas são as plantas que assombram as florestas isoladas da Terra e os lugares mais distantes da civilização. Elas existem apenas em nossos pesadelos e nos nossos medos mais primitivos.

Vamos conhecer alguns destes enigmas carnívoros da natureza extrema que habitam as florestas e selvas mais escuras.

As Árvores Devoradoras de Homens do Madagascar


A Ilha de Madagascar na costa da África Oriental é famosa por possuir lendas a respeito de pelo menos duas espécies de plantas carnívoras. Talvez os relatos sobre a mais conhecida planta carnívora do mundo, venha das anotações de um explorador alemão chamado Carl Lieche que em 1878 vagou pelas selvas africanas, catalogando sua curiosa flora local. As anotações de Lieche descrevem em detalhes o sacrifício de uma mulher da tribo Mkodo para uma árvore devoradora de gente. Em uma carta publicada no Registro Australiano em 1881, o explorador descreve a perturbadora cena que ocorreu diante dele e de um companheiro de viagem, um homem conhecido apenas como Heinrich. 

Liche escreveu:

"A árvore de tronco sinuoso, com a fúria de uma serpente carnívora, se arquejou sobre o corpo da mulher e a capturou com galhos e gavilhas flexíveis que a agarraram. Seus braços, pernas e pescoço foram envolvidos por completo, deixando-a imobilizada. Pude ouvir os gritos desesperados enquanto a árvore apertava cada vez mais forte fazendo com que a pobre mulher soltasse um gorgolejo amedrontador. Mais galhos se aproximaram como serpentes, arrastando-se pelo chão, enrodilhando seu corpo como se fossem imensas cobras detendo uma presa. Quando ela já estava suficientemente envolvida a planta começou a exercer sua força brutal, apertando cada vez mais com a tenacidade de uma anaconda, até que a vítima tivesse todos os seus ossos partidos". 

A árvore era descrita como tendo pelo menos dois metros e meio de altura, e sendo semelhante a um abacaxi, com oito grandes ramos de folhas fibrosas e espinhentas que se moviam sem parar pelo chão, sondando e agarrando. O topo do caule possuía um tipo de fenda onde era produzida uma substância soporífera que servia para paralisar as vítimas que entravam em contato através do simples toque. Ao redor dessa fenda, semelhante a uma boca, haviam vários filamentos brancos semelhantes a tentáculos que ajudavam a espalhar a substância venenosa e também conduzir presas para seu interior. As folhas dessa árvore diabólica eram brancas e Liche as descreveu como similares à asas quitinosas de insetos. 

Essa descrição gráfica inspirou várias expedições ao Madagascar em busca da tal árvore. Uma dessas expedições de caráter exploratório foi liderada por Chase Salmon Osborne, ex-governador do estado de Michigan de 1911 a 1913, que entrou nas selvas de Madagascar para encontrar a árvore devoradora de homens. Embora tenha falhado em seu esforço de localizá-la, ele entrevistou nativos e missionários ocidentais, que reconheceram a existência de tal árvore. 

Outra expedição foi lançada em 1998, desta vez pelo explorador tcheco Ivan Mackerle. Esta não localizou a famosa árvore, mas durante as viagens Mackerle tomou conhecimento de outras plantas carnívoras da ilha, entre as quais uma espécie chamada Kumanga. Nativos afirmavam que essa árvore em particular podia ser encontrada apenas em uma parte isolada da ilha. Eles contaram também que as flores dessa árvore criavam um gás extremamente venenoso que matava suas vítimas. Os nativos disseram saber onde tais árvores estavam e guiaram Mackerle e seu grupo até a localização exata. 

Durante a jornada, os membros da expedição estavam tão preocupados com a natureza tóxica da planta que chegaram a levar máscaras de gás por precaução. Quando eles chegaram ao local onde cresciam as árvores Kumanga, eles não encontraram nenhum gás venenoso sendo lançado pelas flores, mas acharam vários ossos de animais caídos junto do tronco. A falta de folhas, os nativos explicaram, residia no fato da árvore não estar na estação de florescimento.

Mackerle também descobriu a história de um antigo oficial do exército britânico que alegadamente tirou fotos da árvore que havia devorado vários animais e deixado para trás seus esqueletos. Se essa árvore em particular era ou não uma das plantas carnívoras gigantes mencionadas nas histórias, ninguém soube ao certo. Um exame de toxidade da madeira apurou que, de fato, a árvore era rica em uma seiva alcaloide venenosa que poderia ser responsável pela morte de animais que se alimentavam de sua folhagem, o que explicava as ossadas. 

Infelizmente não se sabe o que aconteceu com as tais fotografias, ou se elas realmente existiram algum dia.

A Vinha Vampirica da Nicarágua 

Dos pântanos indevassáveis da Nicaragua vem um outro bizarro relato de uma aterrorizante planta. A vinha é conhecida pelos nativos como nome de "corda demoníaca" e é descrita como uma planta cheia de tentáculos semelhantes aos de um enorme polvo. A planta foi descrita pelo pioneiro naturalista e botânico francês Jacques Dunstan, que a encontrou face a face enquanto estudava a vida natural de um território nos confins selvagens da América Central.

No relato feito por Dunstan a planta crescia onde existiam grandes brejos e charcos, nos arredores do Lago Nicarágua, o maior do país. Dunstan, que estava em uma expedição para coletar plantas e espécimes de insetos, contou ter ouvido os latidos e ganidos de um cachorro aterrorizado. Ele correu para a área a tempo de encontrar um cachorro completamente envolvido por filamentos de raízes e fibras semelhantes a um cordame. Essas fibras tinham uma cor escura e estavam recobertas por um tipo de goma adesiva e espinhos. Ela também exalava um fedor animal desagradável. O cão lutava em desespero tentando se livrar das fibras que se enrolavam ao seu redor.  

Assim que Dunstan se recuperou do choque inicial ele tentou desesperadamente livrar o animal usando para isso uma faca. Infelizmente descobriu que as vinhas eram extremamente resistentes e difíceis de serem rompidas mesmo por sua lâmina recém afiada. Dunstan contou que apenas depois de muito esforço conseguiu salvar o animal. Ao fim da tarefa, suas mãos estavam cobertas de manchas vermelhas que ardiam intensamente. Ele também percebeu que o cachorro apresentava algumas marcas pelo corpo condizentes com os espinhos que haviam fincado em seu corpo. Estes espinhos eram ocos e pareciam ser usados para drenar o sangue. O cachorro, embora tenha sobrevivido, estava extremamente desorientado.  

O naturalista contou aos nativos o que havia encontrado e eles explicaram que se tratava de uma vinha muito conhecida e temida por todos que viviam na área. Dias depois, Dunstan tentou coletar mais informações a respeito da vinha mortal, mas encontrou grande dificuldade em fazer os nativos compartilhar suas histórias. Um nativo no entanto concordou em falar a respeito da vinha que segundo ele era conhecida por se alimentar de sangue de suas presas:

"O nativo contou que a planta era conhecida entre os membros de sua tribo. Ela costumava drenar o sangue de suas vítimas através dos filamentos que usava para agarrar e imobilizar. No tronco da árvore, um espécime pequeno, haviam aberturas usadas para estocar o sangue. Um pedaço de carne atirado dentro dessas "bocas" podia sumir em apenas cinco minutos, sendo digerido e expelido em seguida. A voracidade dessa planta era inacreditável".

Dunstan retornou para a Europa onde apresentou sua descoberta e tentou organizar uma nova expedição para a Nicarágua com o objetivo de estudar a vinha vampírica. Eventualmente ele desistiu de seus planos e não se soube mais a respeito da lendária planta hematófaga. 

As Árvores Assassinas da América Central

A América Central é o lar de algumas das plantas carnívoras mais aterradoras e dentre elas, a mais terrível seria a yate-veo. Essa árvore segundo a narrativa de nativos possui longos galhos rígidos parecidos com lanças usadas para empalar suas vítimas, das quais posteriormente drenam o sangue.

Esses galhos são resistentes e afiados, com espinhos e gavilhas que não se quebram facilmente. Quando alguém se aproxima o bastante, a árvore lança esse galho tentando trespassar a vítima e assim matá-la de imediato. Os galhos então são lentamente recolhidos junto com o corpo que é arrastado para perto das raízes, responsáveis por envolver e drenar o sangue fresco.

Outras plantas carnívoras fazem parte das lendas contadas no sul do México. Na área da Sierra Madre, uma árvore supostamente usava seus galhos com uma aparência de serpente para capturar presas. No século XIX, uma testemunha descreveu ter visto um pássaro pousar perto de um galho e ser imediatamente envolvido por vários filamentos que o agarraram e puxaram para perto do tronco principal. Quando esses galhos eram tocados, eles se esticavam tentando agarrar com uma força considerável.

Outra narrativa do México descreve um encontro do explorador Byron Khun de Prorok na região de Chiapas no extremo sul do México. Enquanto cruzava uma selva em meados de 1905, ele se deparou com uma planta de enormes proporções que empalou uma ave bem diante dos seus olhos. Guias nativos se referiam a árvore como "planta comedora de pássaros" e diziam que aquela espécie costumava caçar também pequenos animais.

Plantas devoradoras da América do Sul


As selvas da América do Sul escondem vários tipos de plantas misteriosas e ainda desconhecidas pela ciência. No Brasil, existem lendas de uma alegada "Árvore Demoníaca", que seria natural do estado de Mato Grosso. A árvore permanece oculta na parte mais profunda do Pantanal com alguns galhos e folhas na superfície, enquanto a maior parte da planta permanece enterrada, na maioria das vezes abaixo de um tapete de folhas. Quando uma vítima se aproxima, as raízes saem do solo e agarram a presa, puxando-a para baixo como se fosse uma armadilha letal. A vítima então é imobilizada e esmagada lentamente. 

Outra planta presente no mesmo ecossistema é conhecida pelos seus frutos adocicados que utiliza como isca para capturar suas presas desavisadas. As vítimas são geralmente pássaros ou pequenos roedores que vivem nos manguezais. Quando o animal tenta agarrar um fruto, um galho estala ao redor dele como se fosse um chicote e o envolve. O aperto é suficiente para capturar e esmagar a presa lentamente. A planta então suga o sangue da vítima e usa o cadáver como fertilizante para o solo de onde extrai também seus nutrientes. Há lendas de que essa planta poderia atingir um tamanho considerável e usar o mesmo artifício para capturar seres humanos.

Também do Brasil, próximo da fronteira com a Guiana, vem uma história a respeito de uma traiçoeira "Planta armadeira" conhecida também como "Pega Macaco" que foi descrita pela primeira vez pelo explorador Mariano da Silva. Esta planta possui flores de odor agradável e frutos de aspecto delicioso que atraem presas, em geral, macacos. Quando o animal se aproxima o suficiente a árvore lança uma gavilha fina porém muito resistente que agarra a presa e a puxa. O corpo do animal é então empurrado para o interior da planta e devorado ao longo de vários dias. No final desse processo, os ossos não digeridos são expelidos e descartados no solo da selva.

Na Argentina e Bolívia temos a lenda de uma árvore encontrada na região florestal do Chako. A planta cria várias flores que possuem um odor de alfazema que atrai as presas. O pólen das flores possuem uma substância que age como um tranquilizante e um agente sonífero. Presas são então paralisadas e dormem enquanto ramos se aproximam e começam a envolvê-la. A planta é vampira e se alimenta de sangue fresco drenado ao longo de várias horas. Quando a vítima acorda, ela se sente extremamente fraca. Aqueles que não fogem enquanto podem acabam sendo mortos pela planta que os drena por inteiro.

As Árvores Mortais das Filipinas

Enquanto explorava a região de Mindanao nas Filipinas, um dono de terras do Mississippi se deparou com uma árvore de 18 metros de altura com u tronco cinza escuro, folhas verdes brilhantes e irradiando um odor forte de carne podre. A árvore estranha estava cercada por ossadas empolhadas ao redor de seu caule. Ele percebeu um crânio humano colocado sobre as raízes da grande árvore e se aproximou cuidadosamente para examinar. Foi então que um nativo surgiu e gritou em seu idioma local apontando para a árvore em pânico. Foi então que o homem percebeu que a planta estava esticando uma de suas vinhas na sua direção. 

Essa curiosa narrativa foi publicada na Revista American weekly em 1925 com o título "Como escapei do abraço de uma Árvore Devoradora de homens",  texto relatava a experiência:

"Aquela planta horrenda estava viva e alerta da minha presença. Os galhos cobertos de folhagem se separaram da copa frondosa e se esticaram na minha direção como se fossem os tentáculos de uma criatura marinha gigantesca. Eles se lançaram na minha direção com grande agilidade e rapidez. Não tive tempo de reagir e logo fui atingido pelos ramos que se enrolaram ao redor de minhas pernas e de minha cintura, agarrando e me puxando na direção da árvore cujo fedor se tornava cada vez mais intenso e insuportável. O próprio tronco da árvore se curvava a medida que eu tentava evitar de ser puxado. Consegui segurar em algumas raízes no chão, mas a medida que a coisa me puxava eu sentia que era questão de tempo até ela vencer o cabo de guerra em face de sua força colossal. Felizmente o nativo que tentara me alertar do perigo que eu corria correu para buscar ajuda e logo retornou acompanhado de mais quatro homens fortes, armados com machetes. Eles se aproximaram com cautela e começaram a talhar os galhos grossos que foram perdendo a força a medida que eram atingidos repetidas vezes pelas lâminas. Apesar de desferir vários golpes nesses cipós espasmódicos, nenhum deles chegou a ser cortado, de tão resistentes que eram. Finalmente um deles me puxou com força e conseguiu me libertar dos galhos que deixaram vergões vermelhos na minha cintura e nos calcanhares. Nem quero imaginar o que teria acontecido se a árvore tivesse me puxado".

A árvore era conhecida como Duñak, uma planta carnívora descrita em histórias tribais nas Filipinas e em outros lugares no sudeste asiático. Diz-se que se parece com uma árvore tropical, com folhagem muito espessa e galhos finos porém muito resistentes. Não seria incomum um animal passa sob os ramos, quando tentáculos espinhosos se estenderiam por baixo dele e o levariam às ramas, onde seria esmagado e consumido. Suas presas normais seriam cervos e veados, mas de quando em quando seres humanos, seriam capturados.
A ideia de que plantas carnívoras como essas possam existir sempre encontram uma grande resistência por parte dos céticos e da comunidade científica. Essas narrativas descrevem um comportamento que planta nenhuma no mundo deveria ser capaz de exibir e a credibilidade da maioria dos relatos é questionável.

Ainda assim, a ideia de plantas devoradoras de homens, agindo de maneira agressiva nas profundezas escuras das selvas do mundo sem dúvida é fascinante.

Nós sabemos da existência de plantas carnívoras que são predadoras naturais de moscas e insetos que são atraídos por armadilhas criadas pela própria planta. Espécies como a Nepenthe conseguem ir além disso, elas caçam anfíbios e répteis, ocasionalmente atraindo um roedor para seu interior, de onde não há escapatória. Poderia existir na natureza algo maior e mais ameaçador oculto numa região afastada do mundo? Talvez o tempo possa dizer. Até lá, nós só podemos imaginar quais os mistérios que esse planeta verde esconde nas suas selvas e florestas.