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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Monstros de Ferro - Os projetos de Super-Tanques da Grande Guerra


Em uma época em que a Guerra Total parecia não ter fim e o horror das trincheiras rasgava a Europa de um extremo ao outro, quanto mais potentes e maiores as armas, melhor.

A Grande Guerra (1914-1918) foi um conflito extremamente sangrento, apenas o primeiro de um século marcado por violência, brutalidade e destruição em nível industrial. Armas letais, máquinas bizarras e dispositivos até então impensáveis, jamais testados em campo de batalha, surgiam de ambos os lados e eram imediatamente colocados em uso na ânsia de provocar mais danos no lado inimigo.

Foi nessa época que um termo não oficial surgiu para descrever uma categoria que ia além dos veículos militares que haviam surgido poucos anos antes. Máquinas ferozes, verdadeiros monstros de ferro, com blindagem de aço e aspecto aterrorizante. Mas do que tanques de guerra pesados, esses eram Super-Tanques.

É curioso, mas praticamente todas as grandes potências europeias envolvidas no conflito realizaram testes para desenvolver Super-Tanques. A Alemanha, o Reino Unido, a França e a Rússia, chegaram a criar projetos em segredo para a construção dessas terríveis máquinas de destruição. Contudo, nenhum desses projetos chegou a ser utilizado ativamente antes do final da guerra, em parte pelo custo, mas principalmente pelas dificuldades técnicas na construção de tais armas. Ainda assim, parecia haver uma espécie de corrida armamentista para desenvolvimento dessas máquinas.


De fato, muitas nações consideravam que era questão de honra triunfar sobre seus oponentes no campo das inovações tecnológicas com novos implementos bélicos. A Guerra que começou com armas de fogo simples, cavalos e canhões havia progredido em uma velocidade incrível, permitindo o surgimento de metralhadoras, aviões, submarinos e tanques blindados. Os Comandantes esperavam ansiosos pela próxima criação que viria a reforçar seus exércitos, mudando o panorama da guerra.   

O Char 2C, idealizado pelo Exército francês talvez tenha sido o único Super-Tanque construído no período, mas haviam planos para muitos outros. Os franceses o incorporaram às Forças Armadas, contudo ele jamais foi testado em combate. Os Super-Tanques britânicos e russos, por sua vez, permanecem no reino da fantasia, em desenhos de seus idealizadores, jamais indo além da fase conceitual. Os alemães desenvolveram o conceito de Super-Tanques realmente monstruosos. Dentre todos, possivelmente foram eles que chegaram mais perto da criação de tanques de guerra que mereciam a alcunha de "Super-Tanques". O Alto Comando Alemão chegou a considerar que a grande virada no curso da guerra poderia ser alcançada com o uso dessas máquinas. Mas dada a falta de recursos nos dias finais da Grande Guerra, o custo se tornou alto demais. Sem os recursos necessários, os alemães jamais levaram adiante seus planos que pararam na fase de protótipos. 


O que mais impressiona a respeito dos Super-Tanques é a ambição de seus engenheiros e criadores.  No papel, eram armas imensas, capazes de causar destruição em larga escala e levar a ruína a cidades inteiras com seu alto poder de fogo e as barragens contínuas que despejariam sobre elas. Eles seriam resistentes a bombardeios, granadas e às armas mais potentes; virtualmente nada conseguiria romper sua blindagem reforçada por camadas de ferro. Eles se moveriam lentamente, mas seriam perfeitamente móveis, atrelados a trens e composições para que pudesse atingir os alvos desejados. 

Talvez uma das maiores bençãos para a humanidade tenha sido o fato desses monstros não terem sido construídos, mas suas marcas permanecem, como uma peça peculiar da história militar.

Vejamos alguns Super-Tanques:

1. K-Wagen, Alemanha



Os alemães são conhecidos pela sua capacidade técnica e pelas proezas de engenharia. Durante a Segunda Guerra, os blindados nazistas eram considerados tão superiores perante os tanques aliados que todo o programa americano e soviético foi refeito após a guerra para adotar os princípios alemães. Tanques como o Tiger II e o Leopard eram tão avançados que serviram de base para a criação de todos os tanques modernos.

O início da indústria militar de tanques na Alemanha, contudo, foi pouco impressionante. Apenas em 1917, no final da guerra, o Império alemão deu início a construção de Tanques de Guerra através do A7V, o primeiro veículo de combate blindado da história alemã. 

O A7V tinha muitos defeitos, entre os quais o motor de baixo rendimento. Contudo, seu potencial era evidente, como ficou claro logo no início de sua utilização em territórios irregulares cheios de trincheiras. O A7V conseguia percorrer o caminho da Terra de Ninguém, repleto de crateras e detritos. Era preciso um obstáculo realmente desafiador para segurar seu progresso, tanto que ele ganhou o apelido desagradável de "esmagador de ossos" pela sua capacidade de atropelar quem ficasse na frente. 

Os alemães não ficaram parados e continuaram a melhorar seu tanque esperando que ele pudesse mudar o curso da guerra. Muitos Generais achavam que a solução para terminar com o impasse nas trincheiras era produzir tanques que simplesmente avançariam pela terra de ninguém e sobre quem quer que ousasse se manter diante dele.

Por volta de meados de 1917, a K-Wagen, uma empresa que investia em motores de tratores recebeu o sinal verde para sua produção. O pioneiro da engenharia de tanques na Alemanha Joseph Vollmer, foi instruído a criar um tanque que deveria aprimorar ainda mais as características do A7V. Ele deveria ser capaz de irromper através de qualquer terreno, sob quaisquer situação. E nada poderia pará-lo!


Apenas um dos protótipos do K-Wagen foi concluído pouco antes do término da guerra. Entretanto, ele foi destruído após os acordos do Tratado de Versalhes, que proibia a Alemanha de produzir e possuir tanques em seu arsenal militar. Dizem que os britânicos tentaram alistar Vollmer no Corpo Real de Engenharia Militar, mas ele se negou a fazê-lo, sendo então preso. Vollmer temia que sua arma mais letal pudesse ser usada contra seu próprio povo em uma futura guerra. E ele tinha muitas razões para temer essa tecnologia nas mãos de qualquer inimigo em potencial.

O K-Wagen seria um verdadeiro monstro em seu tempo. Ele era armado com quatro canhões fixos de 77 mm, dois na dianteira e dois na parte traseira. Ao redor da torre de comando, ele possuía nada menos do que sete Metralhadoras Maxim rotativas, sendo que essas armas podiam ser movidas para atingir alvos em qualquer posição. Com poder de fogo pleno, as sete metralhadoras poderiam produzir uma barragem com mais de 10 mil disparos por minuto, o bastante para devastar uma posição inimiga. Os planos do K-Wagen supunham que ele transportasse uma tripulação de 27 homens, entre pilotos, artilheiros e municiadores. 

O Super-Tanque pesava incríveis 120 toneladas e tinha uma espécie de pá de trator na parte da frente que era usada para atropelar e destruir bunkers inimigos. Uma corda de aço podia ser presa em dois tanques simultâneamente e usada para destruir árvores, cortando-as ao meio, essa corda também podia ser empregada na destruição de prédios e edificações.

A despeito de seu armamento pesado e poder de destruição, a proteção do K-Wagen era "fina" com apenas 30 mm. Comparado com tanques da Segunda Guerra ele estava na categoria de blindagem média. É provável que os engenheiros pretendessem conceder ao Super-Tanque uma blindagem superior, mas a falta de recursos nos dias finais da Guerra os levaram a assumir um projeto mais realista. Em parte, a blindagem pouco eficaz foi um dos motivos para que o tanque jamais fosse uma prioridade para as Forças Armadas que consideravam o veículo pouco resistente.

2. Mendeleev Rybinsk Tank, Império da Rússia



O Mendeleev Rybinsk recebeu o nome de seu criador, Vasily Mendeleev, e pela cidade em que os primeiros desenhos do veículo foram apresentados para os oficiais do Exército Imperial Russo

Os russos tinham interesse em tanques de guerra, em parte por que as suas forças armadas eram consideradas incrivelmente atrasadas em questões de tecnologia e desenvolvimento bélico. Além disso, tinham um parque industrial consideravelmente menos desenvolvido que as demais potências e viam nos complexos militares uma forma de desenvolver mais tarde sua industria pesada. Seria uma maneira de modernizar o país e fazer com que ele entrasse, mesmo que atrasado na Revolução Industrial.

Os Tanques Russos, no entanto, eram bem pouco eficazes. A tecnologia de motores era rudimentar e seus veículos lentos e pesados não tinham muito uso nos campos de batalha cobertos de neve e gelo. Alguns dos tanques usados pelos russos, cedidos pelos britânicos, haviam sido um verdadeiro fiasco quando empregados no front e os próprios generais, arraigados a tradições de cavalaria, acreditavam que o Tanque jamais teria uso prático como apoio da infantaria. Preferiam recorrer aos destacamentos montados pela sua velocidade e agilidade.


Ainda assim, Mendeleev recebeu ordens para trabalhar na criação de um Super-Tanque que poderia ser utilizado com o objetivo de levar artilharia e disparar atrás das posições inimigas ou em cidades. O veículo idealizado por Mendeleev e que jamais avançou além de um conceito teria dois imensos canhões de 127 mm, instalados sobre um grande corpo semelhante a um vagão de trem pesando 173 toneladas. Ele seria operado por 13 homens e poderia disparar, em condições ideais até 2 vezes a cada cinco minutos, criando assim uma barragem contínua de fogo. O plano é que o Mendeleev Rybinsk pudesse ser posicionado até 8 quilômetros de um alvo e de lá disparasse continuamente até reduzi-lo a ruínas. Muito mais blindado que o Super-Tanque alemão, ele teria placas de aço reforçado com 70 mm de espessura. Ele contava ainda com um sistema revolucionário de suspensão à gás e um motor de alta performance que rodaria com combustível especial.

Um dispositivo único, inventado por Mendeleev permitiria que o Super-Tanque pudesse ser atrelado a trilhos ferroviários, funcionando como um tipo de Trem. O objetivo era aproveitar a grande malha ferroviária do país e assim garantir um deslocamento muito mais eficiente. O projeto recebeu pouco apoio e Mendeleev tentou construir o veículo por conta própria. A falta de interesse pelo governo evitou que ele pudesse dar vida ao projeto e fazendo isso, impediu que o mundo conhecesse seu monstro de ferro. Após a guerra, os soviéticos até chegaram a contemplar a possibilidade de recriar o Mendeleev e usá-lo para bombardear cidades ainda controladas pelos contra-revolucionários, mas o alto custo do projeto freou qualquer avanço nesse sentido.

3. O Elefante Voador, Grã-Bretanha



William Tritton, um especialista na construção de tratores e máquinas agrícolas, tornou-se o pioneiro britânico na criação de tanques e veículos blindados durante a guerra. Tritton foi chamado para consertar as falhas no Mark I, o primeiro tanque britânico a ver os campos de batalha lamacentos da França. O grande problema do Mark I era justamente o terreno irregular onde ele deveria operar.

Para lidar com os problemas impostos pelo terreno irregular, os veículos na concepção de Tritton deveriam ser leves e ágeis. Os tanques deveriam permitir uma progressão do veículo até o alvo pretendido. Esse então era fulminado com metralhadoras pesadas Vickers instaladas em bases rotativas. As plataformas móveis dos veículos de Tritton foram um enorme avanço e permitiam aos artilheiros desferir rajadas sobre a posição inimiga em diferentes ângulos. Infelizmente, esses tanques leves não forneciam muita defesa contra artilharia. Tanques leves conseguiam se deslocar com grande mobilidade, mas quando apanhados em fogo cruzado ficavam muito vulneráveis.

Quando vários tanques idealizados por Tritton, entre os quais o AFV se mostraram pouco efetivos no front, o Alto Comando quase terminou com a Divisão de Veículos Motorizados. A Grande Guerra era travada com armas e explosivos muito potentes e um veículo leve, embora conseguisse atingir seus alvos, raramente retornava inteiro das suas missões. A tripulação desses veículos era frequentemente eliminada pelo fogo inimigo. Os veículos se tornavam uma armadilha mortal já que a blindagem dos carros era ineficaz e não era nada fácil escapar de seu interior quando enfrentando fogo pesado.

Pensando em uma solução viável para a questão, Tritton partiu em uma busca por um tanque que pudesse combinar velocidade e blindagem. O projeto concebido em 1916 foi batizado Flying Elephant (Elefante Voador) e contemplava um veículo pesado de aproximadamente 100 toneladas com blindagem de chapas de aço de 3 polegadas na frente e 2 pelegadas nas laterais. Apesar de seu peso exagerado e blindagem pesada, o Elefante era rápido com um motor extremamente potente e esteiras que giravam com enorme velocidade.


O Super-Tanque contava com um canhão de 57 mm, mas algumas fontes afirmam que essa arma poderia ser trocada por um canhão mais eficiente de 75 mm. Nas laterais, o Super-Tanque possuía 2 metralhadoras giratórias Vickers de cada lado. Na parte posterior havia uma plataforma de artilharia giratória com quatro outras metralhadoras móveis que podiam disparar simultâneamente. O poder de fogo do Elefante Voador era considerável e podia acabar com qualquer resistência pulverizando-a em poucos minutos com uma barragem de disparos. Para torná-lo ainda mais letal, essa plataforma giratória elevada poderia receber dois lança-chamas que disparavam ao mesmo tempo a uma distância de até 15 metros. O objetivo era empregar esse lança-chamas para atingir posições subterrâneas e transformar túneis e passagens em um verdadeiro inferno. Tritton usava uma analogia interessante, afirmando que os soldados presos nas trincheiras teriam de fugir como ratos para não serem assados vivos. E que mesmo estes não iriam longe, pois seriam alvejados pelas potentes metralhadoras laterais.

O Elefante Voador além disso tinha outra característica aterrorizante, ele podia ser usado para derrubar instalações e bunkers. Para tanto, o canhão podia ser modificado para disparar um aríete com ponta de ferro para penetrar em paredes. Este aríete era conectado a correntes de ferro que seriam então puxadas até que a edificação cedesse.

No final de 1916, o Super-Tanque recebeu o aval para entrar na fase de protótipos, mas a Grande Guerra terminou antes. O conceito foi abandonado posteriormente quando as forças armadas consideraram que o custo do projeto seria exorbitante e que ele poderia ser detido por condições adversas de terreno. Por muitos anos, a Grã-Bretanha continuou produzindo tanques leves e velozes, até que estes se mostraram completamente ineficientes na Segunda Guerra Mundial. 

4. Char 2C, França



O único Super-Tanque operacional nessa lista foi o Char 2C.

Em dimensões físicas ele foi o maior tanque da história militar a entrar em serviço em tempos de guerra. Seu desenvolvimento se iniciou em 1916, pouco depois da introdução do Modelo Mark I pelos britânicos e os desenhos para a construção de outros veículos blindados no ano seguinte.

Os franceses tinham grande apresso pela ideia de tanques de guerra como uma forma de proteger seus soldados e atingir os inimigos, resguardando os atacantes atrás de uma proteção eficiente. Muitos engenheiros militares acreditavam que no futuro, guerras seriam travadas e vencidas por gigantes de aço que se deslocariam lentamente, deixando uma trilha de escombros após a sua passagem. Com um conceito que parecia ter saído das Novelas fictícias de Jules Verne, os Generais franceses estavam convencidos de que a Guerra seria vencida pela nação que conseguisse construir as armas mais potentes e mobilizá-las com maior velocidade.

Os franceses, aliados dos britânicos, receberam planos para a construção de seus próprios tanques de guerra com base no Mark I e se saíram muito bem. Contudo, eles contemplavam a construção de algo muito mais ambicioso. Um enorme esforço foi feito pelas Forças Armadas para reunir engenheiros e inventores com o propósito de construir um tanque que cumprisse as metas estabelecidas. O primeiro protótipo do Char 2C foi terminado em 1917, mas ele não ficou pronto à tempo de ser usado no conflito. Um modelo chegou a ser enviado para o fronte, mas problemas nas linhas férreas atrasaram que ele chegasse à tempo de ser utilizado. A Guerra terminou uma semana antes dele chegar ao seu destino para frustração dos generais que esperavam testar seu desempenho.

O Char 2C tinha notáveis 10,27 metros de comprimento e pesava pouco mais de 70 toneladas, consideravelmente menos do que os Super-Tanques das demais nações. Contudo, ele tinha uma vantagem sobre todos os outros: o projeto foi completado! 


Apelidado de "Encouraçado de Terra" (em analogia aos navios mais resistentes do período) ele possuía uma blindagem de aço reforçado com 60 mm de espessura na frente e 30 mm nas laterais, o bastante para suportar disparos diretos, granadas e até peças de artilharia. O Super-Tanque era lento e tinha um desempenho ruim no terreno coberto de sulcos e lama. As esteiras acabavam deslizando e era um verdadeiro desafio mantê-lo em movimento em linha reta sem que ele rateasse para fora do curso. Ainda assim, seu motor suportava bem o esforço.

As armas do Char 2C eram potentes: ele contava com um canhão de 75 mm, modelo Canon modèle 1897, a peça de artilharia mais usada pelo exército francês. Em adição a isso, possuía quatro metralhadoras de 8 mm Hotchkiss Mle 1914. Duas eram instaladas numa plataforma móvel no topo, permitindo disparos para frente e para trás, e uma em cada lateral. Em testes, o Super-Tanque teve um desempenho satisfatório, chegando a disparar todas as armas simultâneamente em uma demonstração de seu poder de destruição.

Um dos planos para uso do Char 2C era utilizá-lo no front do sul da França, para empurrar o exército alemão para o norte onde o maior contingente francês aguardava. Para isso, uma coluna de pelo menos 50 tanques deveria ser construída.

Quando a Grande Guerra terminou, os franceses continuaram trabalhando nele, produzindo 10 unidade até 1921. Os Char 2C, porém se tornaram obsoletos à medida que novas armas mais potentes e móveis foram sendo incorporadas a infantaria. Bazucas e lança granadas se mostravam perfeitamente capazes de romper a blindagem dos tanques. Em 1930, os Char 2C eram considerados alvos fáceis para bombardeiros táticos e divisões equipadas com armas anti-tanque.

No início da Segunda Guerra Mundial os poucos tanques Char 2C que ainda faziam parte das Forças Armadas foram mantidos na retaguarda, onde eram usados como peças de propaganda. O público via esses tanques como máquinas invencíveis que desempenhariam um papel central na iminente invasão nazista. Quando a França foi derrotada rapidamente em 1940, eles se tornaram um símbolo da tecnologia ultrapassada do Exército francês diante dos alemães.

sábado, 19 de agosto de 2017

Cosmonauta Perdida - Um capítulo oculto da Conquista Espacial


A antiga União Soviética foi pioneira em enviar para o espaço as primeiras naves tripuladas. 

Em 12 de abril de 1961, os soviéticos mandaram para a órbita terrestre, Yuri Gagarin, o primeiro ser humano à deixar o planeta. Ele conduziu a Vostok I em um voo orbital e exclamou ao vislumbrar o planeta pela escotilha de sua pequena nave: "A Terra é Azul". Ali o mundo foi apresentado a um novo termo, usado para designar aqueles poucos eleitos para ir onde ninguém até então havia chegado: Cosmonautas. 

Um mês depois, os EUA igualaram a proeza com seu astronauta - perceba a sutil mudança do nome. Alan Shepard dentro do programa espacial Mercury girou em torno da Terra. 

Esses voos inaugurais marcaram o início da Corrida Espacial na qual as duas super potências buscavam atingir o objetivo máximo de sua disputa, chegar à Lua na frente de seu oponente. 

No decorrer da corrida, ambos quebraram recordes, os soviéticos realizaram 17 circuitos em torno da Terra, os americanos mandaram um trio ao mesmo tempo. O passo seguinte dos soviéticos era estabelecer um novo marco, enviar a primeira mulher ao espaço. Hoje, a história relata que Valentina Tereshkova foi a primeira a viajar para o espaço na Vostok VI e escrever seu nome entre os exploradores espaciais.

Mas será que é essa a verdade?


Valentina chegou ao espaço em junho de 1963, sendo celebrada e honrada com Títulos e condecorações, mas em janeiro daquele mesmo ano, algo incomum parece ter acontecido. Segundo rumores jamais confirmados pela Agência Espacial Soviética, e mesmo hoje, descreditados pelos russos, uma missão teria tentado levar ao espaço uma mulher meses antes de Tereshkova.

Segundo pesquisadores a missão original seguia de forma esperada até que, repentinamente, quando a nave se preparava para retornar à atmosfera, algo deu errado.

O que realmente aconteceu permanece inexplicável até hoje, o Kremlin não confirmou o desastre para não reconhecer uma falha na disputa com os americanos. Entretanto, especula-se que a nave sofreu uma pane ao tentar atingir sua janela de retorno estipulada. Isso obrigou o comando da missão a refazer todo seu planejamento para reentrada e traçar um novo plano. O problema é que o estoque de oxigênio à bordo da pequena nave não previa esse tempo extra no espaço. As tentativas seguintes de retornar foram dificultadas pela falta de ar que causava uma confusão mental na piloto a medida que o oxigênio se esvaia. Sem perspectiva de sobrevivência, a piloto tentou uma reentrada dramática.

O trágico resultado é que a tripulante solitária morreu no espaço. Entretanto, o mais triste é que, com a negação do ocorrido, o nome da cosmonauta jamais foi publicamente divulgado. Ela se tornou um fantasma que para todos os efeitos nunca existiu e que desapareceu queimando na reentrada da atmosfera. 

Três dias após o ocorrido, a Agência Espacial Soviética, a TASS, anunciou que um satélite havia sofrido uma pane e que havia caído. O nome do satélite, quando ele foi lançado e que tipo de pane ele sofreu, jamais foram revelados levando a crer que a história tenha sido fabricada para esconder a verdade.


Mas onde estão as provas de que foi uma nave com uma cosmonauta e não um satélite que se desintegrou na atmosfera?

A prova desses acontecimentos residem em uma gravação interceptada entre a tripulante da nave, uma mulher, que estabeleceu comunicação com a Terra antes de morrer. A comunicação foi interceptada por rádio amadores italianos em Turim em uma frequência que captou a transmissão da nave para a Base de Baikonur que comandava a missão.

As palavras da cosmonauta desconhecida, em russo, mostram o desespero que ia tomando conta dela e a certeza no final iminente em uma reentrada na atmosfera que seria letal. Um destino do qual não havia como escapar. A descrição dos momentos finais nas palavras de uma heroína sem face e cujo nome provavelmente jamais venhamos a saber.

Essas são as suas palavras finais:

“5, 4, 3, 2, 1, 1… 2, 3, 4, 5, entrando, entrando, entrando... escutem, escutem, entrando, entrando, Falem comigo! Falem comigo! 

Tenho calor! 

Quê? 45? Quê? 45? 50? 

Sim, sim, sim, respirando, respirando, oxigênio, oxigênio. 

Tenho calor! Isso é perigoso? 

Está tudo… Isso é perigoso? Está tudo… sim, sim, sim, como é isso?

Quê? Falem comigo! Como faço para transmitir? 

Nossa transmissão começa agora 41… dessa forma… sim, sinto calor, sinto calor, sinto calor, é tudo… 

Posso ver uma chama! Quê? Posso ver uma chama! Posso ver uma chama! Posso ver uma chama! 

Sinto calor… sinto calor… 32, 32, 32, 41, 41… 

Vou colidir? Sim, sim, sim sinto calor… Vou regressar… Estou ouvindo!… Sinto calor!”.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

O Último Covil - A Base Secreta do Reich na Antártida


Muitas pessoas sustentam que, perto do final da Segunda Guerra Mundial, os nazistas estavam trabalhando com armas avançadas experimentais. Sussurros a respeito de tecnologias estranhas, com um alcance e poder inacreditável, engenhos que poderiam reverter o futuro do conflito que já pendia para o lado dos Aliados. Era a Wunderwaffen, as Armas Secretas de Hitler, que segundo alguns incluíam um arsenal nuclear, armas de energia destruidoras baseadas em projetos de Nikola Tesla, aviões super-sônicos e até mesmo misteriosos discos voadores conhecidos pelo nome código "Die Glocke" (O Sino).

[Nós já falamos a respeito disso em artigos anteriores, se não leu, dê uma olhada ao longo desse mês dedicado ao lado mais estranho da Segunda Guerra Mundial]

Mas ainda que haja muita literatura a respeito, muitas dessas coisas não passam de lendas e projetos que beiravam a ficção científica. Ou será que não?

O que sabemos ao certo, é que os Nazistas realmente produziram uma grande variedade de projetos com tecnologia inovadora, que incluíam foguetes orbitais, mísseis balísticos, os primeiros dispositivos de visão noturna, e muitas outras invenções incríveis para a época. Mas em algum lugar entre os fatos históricos e a ficção especulativa a respeito das conquistas nazistas, existe uma conspiração que de tempos em tempos insiste em vir a superfície e ganhar fôlego: os nazistas construíram ou não uma Base Secreta no Polo Sul.


De fato, é verdade que os Nazistas realizaram expedições de cunho científico à Antártida, que combinavam o interesse de se estabelecer em lugares de importância estratégica, com a busca por relíquias, que guiavam as crenças esotéricas de membros chave do Reich. Para alguns, Ultima Thule, o centro de uma Civilização de origem ariana estaria oculta em algum recesso isolado do globo. Sua descoberta era uma das ambições nazistas, a prova definitiva de que eles seriam os herdeiros de um povo superior, cujo legado era a dominação sobre os inferiores. 

A Antártida, uma fronteira praticamente desconhecida, quase intocada pelo homem poderia sinalizar com segredos até então insondáveis e dar a eles um trunfo inesperado.

Os teóricos sugerem que os alemães estavam muito interessados em estabelecer sua presença no Continente Gelado. Para alguns, os planos contemplavam criar uma cabeça de ponte onde eles poderiam construir suas armas e se refugir no caso de uma derrota na Europa. Lá eles poderiam erguer um complexo bélico que lhes permitiria continuar lutando indefinidamente. Também seria o refúgio final para os Herdeiros Arianos, o lugar escolhido para plantar as sementes da "Raça Mestre" e de um novo e duradouro Reich.

E assim, surgiu o longevo Mito de uma Base Secreta construída na Antártida. 


A natureza prolífica de teorias a respeito dessa "base secreta" se tornou matéria de um trabalho apresentado recentemente por Colin Summerhayes, um pesquisador da Universidade de Cambridge e membro do Instituto de Pesquisa Polar Scott. O título da monografia era bombástico: "A Base Antártida de Hitler: Os Mitos e a Realidade". A monografia foi debatida pelo autor Daniel Oberhaus, que ao longo dos anos se converteu em uma espécie de especialista a respeito da existência factual de da base montada nos dias finais da Guerra.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, tanto Summerhayes quanto Oberhaus são historiadores respeitados e não meros "teóricos da conspiração", teimosos e incapazes de sustentar suas ideias. De fato, os dois realizaram uma extensa pesquisa a respeito dos planos do alto comando alemão e sua ideia de expandir o Reich para o Continente Gelado. Surpreendentemente, a dupla conseguiu desencavar documentos que mostram a existência de planos nesse sentido, ainda que nenhum deles prove a existência de alguma base perdida.

Examinando o que Summerhayes tem a dizer a respeito do assunto, encontramos documentos tratando da aparição de submarinos (U-boats) na costa da Argentina pouco antes do fim da guerra, e alguns após a rendição alemã. Segundo o autor, vários desses submarinos teriam seguido para o sul, estabelecendo-se em lugar ignorado. É conhecida a teoria de que os alemães destruíram alguns de seus U-boats para que eles não caíssem nas mãos dos aliados, contudo vários pesquisadores duvidam que as tripulações tenham cometido suicídio após destruir suas embarcações. A possibilidade dos submarinos terem sido levados para uma base secreta sempre foi controversa.


A teoria da Base Secreta encontra paralelo em outro incidente altamente debatido e controverso. A "Operação Highjump", uma missão conduzida pela Marinha Norte-Americana após a rendição dos Nazistas na Europa e o término oficial do Conflito. A Operação teria como objetivo caçar os últimos nazistas remanescentes que teriam se refugiado no Continente Gelado em uma base secreta de super-tecnologia. 

A Base teria sido construída antes do início da guerra e expandida ao longo dela. Em dezembro de 1938, um cargueiro alemão sob o comando do Capitão Alfred Ritscher teria deixado o Porto de Hamburgo seguindo para a Antártida em uma missão secreta. Equipado com dois hidroaviões Dornier Wal, a Expedição Alemã explorou mais de 200,000 milhas quadradas do território congelado, mapeando e demarcando a região em um esforço para tomar posse das terras batizadas com o nome Neuschwabenland. Especialistas da Ahnenerbe nessa viagem capturaram pinguins, plantaram sementes experimentais, procuraram Reservas de Vril e Linhas de Ley. Após o retorno de Ritscher em abril de 1939, os alemães planejavam criar um refúgio inexpugnável com instalaçõe spara construção de armas avançadas.

Durante a Guerra, tanto a Ahnenerbe quanto a MFA devotaram recursos para que o Ponto 211, o nome código do refúgio, fosse desenvolvido. Na primavera de 1945, a base já possuía um aeroporto e estações para submarinos, além de bunkers com estoques de suprimentos, munições e combustível, além de uma população de quase mil pessoas. 

Ou ao menos, é nisso que alguns acreditam.  


Não existe qualquer prova da construção dessa base. Também não há nenhuma prova a respeito da Operação que a destruiu. Nenhum documento ou indícios factuais corroborando os incidentes, embora testemunhas que teoricamente participaram da missão tenham revelado dados curiosos. Summerhayes e outros pesquisadores acreditam que a operação inteira tenha sido acobertada em face das descobertas feitas pelos oficiais americanos na tal base secreta. Segundo o estudo de Summerhayes, apenas a intromissão da Operação Highjump em 1946 conseguiu frustrar os planos nazistas de retomar a Guerra.    

Segundo os boatos, Highjump teria sido um sucesso graças a mobilização de navios e aviões que destruíram a base em um bombardeio maciço que se seguiu a um embate aéreo. Uma invasão posterior revelou que o complexo nazista estava prestes a se tornar operacional e que em seu interior estavam as plantas e os protótipos de centenas de armas e tecnologia ultra-secreta, contrabandeadas por submarino até a Base Secreta. 

Os americanos teriam mantido todos os acontecimentos relacionados a Highjump em segredo com o intuito de conservar as descobertas apenas para si mesmos. Tamanha tecnologia não deveria, no entender dos militares, ser compartilhada, nem mesmo com seus aliados, quanto mais num momento delicado em que os soviéticos sinalizavam como a próxima grande ameaça a ser confrontada.

Dada a ausência de provas e informações sobre a existência da Base Secreta Nazista desmantelada por Highjump, não é de se surpreender que a maioria dos historiadores duvidem que a Operação tenha sequer ocorrido.


Alguns elementos criados pelo mito da Base Secreta, no entanto, permanecem. Segundo Summerhayes, "atividades desse tipo eram tratadas como ultra-secretas e compartilhadas apenas com o alto-escalão do Comando militar nazista". Contudo, os poucos documentos que mencionam planos para a construção de uma base dessa natureza, parecem sugerir que não havia nada concreto e que os planos jamais saíram da prancheta.

Outras especulações apontavam para rumores a respeito da construção de um complexo subterrâneo onde o Projeto Glock teria sido continuado. Para alguns teóricos os cientistas e engenheiros desse projeto teriam sido mobilizados para a Antártida por um motivo muito particular: as expedições científicas teriam encontrado enterrado no gelo eterno construções ancestrais pertencentes a civilizações desconhecidas, povos que teriam desenvolvido uma tecnologia muito avançada, que estava abastecendo a indústria militar dos nazistas.

Existe ainda a teoria de que os nazistas teriam encontrado veículos voadores alienígenas no gelo e que, ao desmontar esse equipamento tenham dado início ao Projeto Sino. Toda essa especulação contribuiu para que as pessoas desacreditassem as suposições. Ainda que, após sua aposentadoria, um oficial da marinha, o Almirante Richard Byrd, tenha afirmado na década de 1960, que a Operação Highjump de fato aconteceu, e que graças a ela, os americanos tiveram um salto tecnológico sem precedente.   

Colocando todas essas especulações fantásticas de lado, o que temos são poucas provas para sustentar muitas teorias. Realmente, as teorias parecem não resistir a uma análise criteriosa e razoável... quer dizer, francamente: Nazistas construindo uma base secreta na Antártida?


Mas quando as coisas pareciam resolvidas, a realidade dá um jeito de colocar aquela pequena dúvida na história apresentando uma nova evidência.

Em Outubro do ano passado, o Jornal britânico "The Independent" publicou uma matéria sensacional a respeito de uma descoberta feita por cientistas russos. Ao explorar uma região isolada, eles encontraram algo inesperado; uma Base Secreta Nazista estabelecida no Ártico.

Antes que alguém possa começar a traçar conjecturas, é preciso dizer claramente que a "base secreta" está bem longe de ser o complexo tecnológico previsto pelos teóricos da conspiração. Para começar, a Base revelada pelos russos se encontra no extremo oposto do Globo, localizada na Terra de Alexandra, a cerca de 1,000 quilômetros do Polo Norte. Ela teria sido construída pelos alemães em 1942, ano em que Adolf Hitler invadiu a União Soviética

Com o nome de código "Schatzgraber" ou "Caçador de Tesouros", a base era na realidade uma estação de monitoramento de temperatura e clima. Os alemães estabelecidos no local pareciam interessados em verificar os melhores dias para incursões e quando era desaconselhável realizar vôos ou avanços pelo território soviético. Atendendo a esse propósito estratégico, a Base teria operado com uma equipe pequena, mas bem equipada, suprida por uma linha de submarinos que levava até os indivíduos instalados suprimentos, equipamento e informações. Havia um bunker enterrado na neve, um pier e um ancoradouro para submarinos.


Segundo os diários coletados no que restou da Base, ela teria sido abandonada depois que os cientistas residentes contraíram uma doença após se alimentarem da carne de um urso polar em 1944. O grupo teria pedido socorro e um U-Boat foi enviado para fazer a evacuação.

A despeito de seu propósito, a base secreta foi descoberta 72 anos depois de ter sido abandonada e permaneceu em condições perfeitas, preservando em seu interior cerca de 500 objetos que foram coletados pelos exploradores russos: documentos e pastas, caixas com suprimentos, munições, rádios e equipamento científico.

É claro, a descoberta da Base no Ártico, não prova a existência de uma instalação similar na Antártida. Entretanto, ela sem dúvida levanta suposições e acende a curiosidade de todos. Afinal, se essa base permaneceu oculta por tanto tempo, seria realmente impossível que outra instalação existisse em algum recôndito do planeta - talvez até na Antártida, esperando ser encontrada?

domingo, 16 de abril de 2017

Wunderwaffen - As Super Armas Secretas dos Nazistas


Pouca coisa desperta mais polêmica do que o tema Alemanha Nazista.

Ele atrai a atenção e especulação de todos há mais de 70 anos. Desde a Segunda Guerra Mundial, as pessoas se perguntam como um Regime de Horror como esse se formou justo em uma nação avançada, moderna e progressista. A despeito do horror desencadeado, há algo estranhamente fascinante a respeito da mitologia oculta do nazismo, seus significados, segredos e mistérios. A combinação de poderio militar e misticismo gerou toda uma subcultura de estudo sobre o assunto.

Um dos aspectos mais curiosos sobre o Nazismo diz respeito a algo que se convencionou chamar Wunderwaffen, armamentos de tecnologia avançada até para os padrões atuais. Essas armas vão de miras laser até motores de jatos supersônicos, coisas que não existiam na década de 1940, exceto na ficção, mas que já eram contempladas pelos cientistas alemães como possíveis e que em alguns casos chegara a ser fabricadas. Outras armas nunca saíram do papel, mas nem por isso deixam de ser fantásticas.  

Mas quanto dessas histórias são verdadeiras, e quanto não passa de invenção?

Como todos complexos militares industriais, a Alemanha Nazista possuía programas de pesquisas e desenvolvimento, bem como engenheiros e operários à seu serviço. Dentro dessas indústrias bélicas, programas e planos para o desenvolvimento de armas avançadas de fato existiram. A medida que os recursos e mão de obra diminuíram ao longo da guerra, menos projetos foram levados adiante, mas alguns dos que seguiram adiante até o final do conflito eram simplesmente incríveis.


Hoje em dia, sabemos a respeito de praticamente todos os programas militares em desenvolvimento durante o governo nazista. No final da Guerra, os Aliados conseguiram capturar várias instalações relativamente intactas e delas confiscaram tecnologia, planos e documentos. Obtiveram ainda protótipos e maquinário. Muito desse material deveria ter sido destruído pelos próprios nazistas, mas quando a guerra já estava perdida, a prioridade era ocultar crimes ocorridos nos Campos de Extermínio.  

Os planos confiscados pelos Aliados mostravam que os nazistas estavam de fato comprometidos com a construção de Caças à Jato, como os modernos Messerschmitt Me-262 e o Heinkel He-162, ambos muito superiores a qualquer avião do período. Perto do fim da guerra, algumas tropas já estavam sendo equipadas com o Zielgerät ZG-1229 Vampir, miras infravermelhas, que forneciam visão noturna, bem antes dos americanos conceberem a ideia. Talvez o auge do poderio militar nazista tenha sido o Programa de desenvolvimento do míssil de cruzeiro V-1 e do projétil balístico suborbital de longa distância, o V-2. Três mil protótipos foram testados e mais da metade deles conseguiu atingir o espaço, quinze anos antes do Sputnik 1.

Outros planos, ainda mais fantásticos de fato existiram, ao menos em plantas. Entre os veículos aéreos, existia o Horten Ho-229 um avião propelido à jato, o Mach 2.2 Lippisch P13a um caça com asas em formato delta, um avião espião de altitude similar ao U-2 americano chamado DFS-228, e até um avião com asas em rotação, o Messerschmitt P.1101, que se tornou o precursor do Bell X-5. Haviam ainda planos para o desenvolvimento de aviões capazes de realizar decolagem e pouso vertical.

Os nazistas também tentaram desenvolver agressivamente o projeto para seu Amerika Bomber, um avião bombardeiro com capacidade de voo para realizar ataques nos Estados Unidos. Os nazistas acreditavam que fazendo bombardeios sobre as cidades americanas, poderiam mudar o curso da guerra. Esses aviões incluíam variantes do jato Arado E 555 e até mesmo um veículo suborbital chamado Silbervogel que chegou a ser testado. Com esses aviões, os nazistas conseguiriam lançar bombas sobre Nova York e Boston, por exemplo, ferindo duas das principais cidades da América.


Em terra, os alemães tinham planos para a construção de enormes tanques blindados. A tecnologia de tanques nazistas durante a Guerra era muito superior a dos aliados. O Tanque Tiger II possuía uma capacidade de mobilidade, velocidade e blindagem notável, quase comparável a dos Tanques atuais. Mas os planos eram construir armas ainda maiores e mortais. O Landkreuzer P.1000 Ratte e o P.1500 Monster, comportavam uma tripulação de 40 a 100 homens respectivamente. Eram máquinas gigantescas, equipadas com canhões de longo alcance e que mais lembravam trens do que tanques. Eles podiam disparar as maiores peças de artilharia desenhadas até então, projéteis de 800 mm com poder de destruição devastador. Esses tanques poderiam reduzir cidades inteiras a ruínas se tivessem sido produzidos. 

No mar, os nazistas planejavam a construção de um novo modelo de submarino capaz de disparar seus mísseis V-2 do alto mar nas cidades norte-americanas. O plano era construir esses barcos como plataformas móveis de lançamento, transportando até 100 mísseis de longo alcance. Três chegaram a ser desenvolvidos, um até ficou pronto antes do fim da guerra, mas os testes do V-2 atrasaram em relação ao submarino. O projeto da plataforma posteriormente foi usado pelos americanos e soviéticos, mas apenas nos anos 50.

Os Nazistas também estavam próximos de desenvolver armas atômicas para equipar nos seus mísseis V-2. Documentos secretos obtidos do alto comando alemão, atestam que o projeto para a construção de complexos de enriquecimento de urânio estavam em progresso. Com esse material, não demoraria até que eles conseguissem fabricar armas de destruição em massa. 

Enquanto o Projeto Manhattan estava ocorrendo nos Estados Unidos, ele tinha um irmão gêmeo na Alemanha: o Uranverein, ou Clube do Urânio. O Uranverein teve um início tão promissor quanto o Projeto Manhattan, talvez até mais eficiente; contudo, os nazistas não dispunham de recursos para as pesquisas e o curso da guerra freou seu progresso. A operação com os reatores alemães para a criação de plutônio requeria Água Pesada, que vinha quase que inteiramente da Estação Hidroelétrica de Vemork na Noruega, um lugar que produzia nitrogênio para fins agrícolas. O Clube do Urânio foi desmantelado por aquela que talvez tenha sido uma das operações de sabotagem mais importantes da história: Operação Gunnerside, na qual uma pequena equipe de comandos noruegueses foi lançada de paraquedas atrás das linhas inimigas e esquiaram até Vemork. A seguir, escalaram os rochedos ao redor da usina, invadiram o complexo através de um duto de ventilação e plantaram explosivos. A explosão resultante destruiu todo o suprimento alemão de água pesada e a maior parte do equipamento necessário para sua produção. 3,000 soldados foram enviados atrás dos sabotadores, mas os noruegueses conseguiram escapar.


Meses mais tarde, a indústria voltou a operar, mas bombardeios aliados conseguiram atingir as instalações mais uma vez. Os alemães fizeram uma última tentativa de enviar um carregamento de água pesada através de cargueiros no Mar do Norte . Uma heroica equipe de comandos noruegueses, incluindo o lendário guerrilheiro Knut Haukelid, conseguiu plantar explosivos à bordo. Com o navio danificado, submarinos terminaram o serviço e mandaram embarcação e carga para as profundezas do mar. Isso abalou o programa nazista de armas atômicas de tal forma que ele foi cancelado. 

Vários especialistas em tecnologia acreditam que os cientistas do Clube do Urânio chegaram a realizar testes simulando explosões atômicas. As armas, no entanto, tinham o "interior oco", ou seja, embora contassem com a tecnologia para implosão do material radioativo, não foram abastecidas com plutônio. Historiadores defendem que seria questão de tempo até os nazistas desenvolverem por completo seu programa nuclear e estarem aptos a criar bombas atômicas. Se o Clube do Urânio tivesse prosseguido em suas pesquisas a Guerra poderia ter acabado de forma muito diferente. Em 2006, cientistas encontraram traços de radiação em estações de pesquisa usadas nos tempos da guerra, assinaturas de energia que comprovam manipulação de compostos radioativos. Isso mostra que os alemães, possuíam a tecnologia, anda que seu suprimento de plutônio fosse escasso. 

Isso tudo nos leva ao derradeiro e mais inacreditável projeto da Wunderwaffen nazista, um projeto ultra-secreto batizado Die Glocke, que significa "O Sino". O Sino seria um veículo aéreo em formato de disco, em geral descrito como um Disco Voador. Quando se fala na Wunderwaffen nazista, muitos pesquisadores imediatamente pensam a respeito desses misteriosos discos, seus apelidos e denominações. Em nenhuma base ou complexo industrial capturado pelas forças aliadas, algo remotamente semelhante ao Sino foi encontrado, ao menos nenhum que se saiba.


Há, no entanto, muitos papéis, documentos e mesmo plantas aludindo para a construção de tais máquinas aéreas de design absurdo. 

A origem dos Discos Voadores nazistas é discutida em detalhes em um livro escrito em meados de 1990 por um historiador militar polonês chamado Igor Witkowski chamado "A Verdade a respeito da Wunderwaffe". Em seu livro, Witkowski conta uma história sensacional: Ele teria obtido acesso (mas não a liberdade para fazer cópias) a documentos secretos redigidos nos dias finais da Guerra com um oficial nazista chamado Jakob Sporrenberg. Através das transcrições, o autor relata como tomou conhecimento a respeito do Projeto Sino que envolvia o desenvolvimento de um veículo aéreo com motores gravitacionais de flutuação.

Não se sabe, entretanto, se o livro de Witkowski tem algo de verdadeiro ou é mera ficção especulativa. Ele não oferece evidências da existência e ninguém parece apoiar as suas ideias e conclusões. O personagem principal do livro, o Oficial SS Sporrenberg também não pode corroborar as alegações. Ele foi executado por crimes de guerra em 1952. Em vida, sabemos que Sporrenberg foi um Oficial severo que enfrentou os partisans na Polônia e que teve pouca conexão com ciência aérea e os grupos de desenvolvimento de armas do exército.

Mas embora existam poucas provas para sustentar as lendas do Disco Voador Alemão, a mitologia que cerca o regime ajuda a propagar esse tipo de crença. Misticismo e o Mundo Oculto, afinal, fazem parte do Legado Nazista (se é que podemos chamar assim).

O Regime sempre foi um imã de teorias bizarras e controversas. A origem dessas histórias, parece ser o trabalho de dois autores franceses que nos anos 1960 lançaram um trabalho chamado "O Amanhecer dos Feiticeiros" (The Morning of the Magicians), no qual especulavam a respeito das muitas tradições místicas e sociedades secretas ativas na Alemanha. Entre essas obscuras Sociedades influentes nos anos que antecederam a Guerra, uma em especial chamava a atenção, seu nome era Sociedade Vril (sobre a qual teremos um artigo).


A misteriosa Sociedade Vril congregava um grupo de ocultistas, alegados feiticeiros, supostos satanistas e pessoas muito importantes no meio político que daria origem ao Partido Nazista. Segundo o Livro, a Sociedade Vril se ofereceu para aparelhar o exército alemão e torná-lo em uma Máquina de Guerra eficiente, virtualmente imbatível, cujo poder seria abastecido por conhecimento místico e tecnologia até então desconhecidas. 

A base de tudo seria o Vril. A Sociedade acreditava na existência dessa misteriosa substância que forneceria uma fonte de energia inesgotável. Utilizando o Vril, cuja origem para a Ordem é mística, as máquinas de guerra do Exército Nazista rodariam sem parar e sem a necessidade de renovação. O fluido mágico ainda ajudaria a criar soldados invencíveis uma vez que ele era também uma espécie de fórmula para a saúde e longevidade. 

É bizarro imaginar que os Nazistas realmente acreditassem nesses conceitos que parecem ser retirados de histórias pulp e de ficção científica, mas ao que parece, pessoas muito importantes na alta cúpula do Partido Nazista acreditavam na existência do Vril e nas suas incríveis capacidades. Tanto é verdade que investiram milhões de marcos antes da guerra em expedições e buscas infrutíferas pela Civilização Ancestral que ocultava o Segredo do Vril.

Mas qual a relação entre o Vril e o Projeto Die Glocke? 

Os teóricos acreditam que o Disco Voador Nazista seria uma máquina abastecida pelo combustível místico e que ele era a base para o funcionamento dos seus motores anti-gravitacionais. A grande vantagem do Vril sobre os demais combustíveis era o fato do fluído garantir uma autonomia de voo indefinida. Uma vez acionados, os motores permitiriam vôos longos e estáveis, distâncias simplesmente não importariam.

Mas existiam outros Projetos de Discos Voadores em desenvolvimento pelo Exército Alemão.


O mais conhecido talvez seja o aparelho aéreo idealizado por Victor Schauberger, um cientista austríaco que chefiou um Projeto que visava construir um veículo aéreo de formato e modelo inovador. As plantas desses projetos secretos, deixam bem claro que Schauberger estava em busca de uma espécie de Disco Voador. O cientista concebeu um sistema de propulsão chamado "Vórtex Líquido" que para alguns, ao menos na teoria, poderia funcionar.

Schauberger trabalhou em um complexo militar ligado a Lufftwaffe em Leonstein entre 1938 e 1945. Lá ele tinha autoridade para construir protótipos e realizar testes. Seu maior sucesso teria sido um protótipo de um metro e meio, pesando 135 quilos que através de um motor elétrico gerava um campo antigravidade que permitia ao aparelho capacidade de flutuação. 

Segundo Schauberger: "Se água ou ar rotacionasse em uma força giratória de oscilação chamada "coloidal", energia suficiente poderia ser gerada permitindo capacidade de levitação".

Em outro teste, ocorrido em 1942, um outro protótipo teria levitado a dois metros de altura e se movido mediante a ajuda de jatos horizontais. O aparelho teria carregado dois passageiros, mas ele não funcionou por muito tempo. Para alguns, o programa visava a construção de um hovercraft primitivo e não de um veículo de altitude.

No final da Guerra, o complexo de pesquisas de Schauberger foi destruído pelas bombas soviéticas. O cientista e sua equipe receberam ordens de explodir os protótipos e queimar as plantas e documentos para que nada caísse nas mãos dos inimigos. O cientista alegou até o final de sua vida que ele cumpriu a ordem apenas em parte. Para escapar de uma condenação, ele aceitou destruir os protótipos, mas manteve as plantas de sua pesquisa no intuito de negociar  com os americanos a tecnologia na qual vinha trabalhando. Não se sabe se essa história é verdadeira, mas Schauberger imigrou para a América em 1945 e se estabeleceu em Houston onde alegava ter trabalhado em uma divisão secreta ligada a Força Aérea Americana.


Schauberger, no entanto, não viveu muito para compartilhar de sua visão, ele logo adoeceu e contraiu uma doença degenerativa. Em seu leito de morte ele teria dito: "Eles tomaram tudo de mim. Eu não tenho mais nada! Não possuo mais, nem a mim mesmo!"

O Cientista morreu em 1947.

Durante os anos 1950, os norte-americanos tentaram desenvolver aparelhos aéreos com aerodinâmica arrojada como o Avro-Car e o Neg-G que pareciam muito com os Discos Voadores idealizados pelos cientistas do Projeto Glock. Infelizmente, os projetos acabaram sendo abandonados no início dos anos 1960 quando aviões à jato ganharam primazia e se tornaram as armas mais eficazes do arsenal aéreo. 

Seria possível que os nazistas tivessem não apenas desenhado armamentos e veículos aéreos fantásticos, mas construído tais aparelhos? Será que se eles tivessem tempo para desenvolver essas armas, elas realmente seriam usadas nos campos de batalha? E se esse fosse o caso, será que eles fariam diferença no rumo do conflito que definiu o mundo para as gerações futuras?

As super-armas de Hitler podem jamais ter saído da prancheta dos projetistas, mas elas continuam nos fascinando e aterrorizando, assim como quase tudo a respeito do Regime Nazista. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Cidade das Névoas - o Grande Fog de Londres em 1952


Postagem original de 17/01/2013

Moradores que vivem atualmente em
 Londres podem atestar que a cidade não é tão enevoada quanto se pensa. Essa melhoria tem um bom motivo, já que o n
evoeiro da capital inglesa, o tradicional fog, é resultado direto da poluição do ar. Menos poluição no ar, menos nevoeiro... 

É claro, o fog, pode se formar por causas naturais, mas a frequência com que ele surgia na cidade (a ponto de se tornar uma "marca registrada") se devia a fatores externos, leia-se as chaminés fumegantes das indústrias que despejavam fumaça nos céus da cidade.

Em 1952, a situação descambou para algo impensável. Algo que ficou conhecido como "The Great Smog" ("A Grande Fumaceira" em uma tradução livre). Um nevoeiro como nunca antes visto desceu sobre Londres e quando se foi, havia deixado um saldo de milhares de mortos.

Ninguém gosta de fumaça, mas os londrinos consideravam a sua presença algo inevitável, ela fazia parte inerente de viver na capital do império. Um fruto amargo do progresso e modernidade. É preciso lembrar que Londres foi o berço da Revolução Industrial e que chaminés de indústrias, localizadas bem próximas às cidades, lançavam diariamente toneladas de fumaça no ar. Se isso já não fosse ruim, na Era Vitoriana, quase todos os habitantes da cidade tinham um braseiro de carvão dentro de casa. Os braseiros crepitavam dia e noite, sobretudo durante o inverno. O resultado? Céus acinzentados, partículas de carvão no ar e fuligem que caía do céu como flocos de neve. Outra consequência direta? Nevoeiro diariamente.

No início da década de 1950 a qualidade do ar estava comprometida por décadas de saturação e partículas de carbono liberadas na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis. Em dezembro de 1952, a situação se tornou crítica. Um fenômeno conhecido como anticiclone se formou acima de Londres. O anticiclone é uma área de alta pressão que conserva o ar em seu interior e não permite o deslocamento ou renovação dele. Com o anticiclone, o ar vindo de cima se aquece e desce, suprimindo a formação de nuvens e chuva. Quando o anticiclone começou a fluir em forma de espiral, houve uma inversão térmica e a formação de um nevoeiro cada vez mais denso, agravado pelas partículas da atmosfera.

O fog resultante, para algumas pessoas, parecia algo vivo. Uma força consciente e maligna. 

Em 5 de dezembro o dia havia sido claro e seco, sem nuvens no céu azulado, mas no início da tarde as coisas começaram a mudar rapidamente. A temperatura baixou abruptamente e o nevoeiro começou a se formar de forma compacta, como uma cortina de fumaça cinzenta que filtrava os raios de sol criando uma coloração fosforescente. O nevoeiro era tão denso que a visibilidade foi reduzida para alguns poucos metros. Nas ruas, avenidas e praças, a iluminação pública de postes se acendeu automaticamente. Carros  transitavam lentamente. O Aeroporto de Heathrow foi fechado para pousos e decolagens. As pessoas saíam de casa ou de seus trabalhos e não conseguiam ver além de alguns poucos metros. Muitos tossiam ou engasgavam, a maioria começou a tapar a boca e o nariz com lenços e pedaços de pano.

No começo da noite, a surpresa inicial já se tornara uma real preocupação. A polícia ordenou que carros fossem abandonados no local onde estivessem, tinha havido inúmeros atropelamentos, batidas e confusão nas estradas. Os rádios advertiam as pessoas para evitar sair de casa, manter janelas fechadas e espalhar bacias de água pela casa para combater a secura no ar. Uma visão que trazia arrepios aos mais velhos, começou a se tornar cada vez mais frequente: pessoas usando antigas máscaras de gás dos tempos da Grande Guerra, quando o terror das armas químicas era uma realidade. Os trens e ônibus pararam de transitar, o metrô estava super-lotado e para conter o risco de acidentes as estações também foram fechadas. Cinemas, teatros e parques fecharam suas portas. Não havia segurança: lojas e apartamentos foram saqueados. Lojistas montavam barricadas para evitar a ação de ladrões.

Londres teve uma noite agitada e perigosa. Mas em algum momento, o nevoeiro deveria cessar.

A noite se foi e na manhã seguinte o fog continuava pesado. Pessoas que haviam deixado roupas no varal podiam verificar o efeito da fumaça no tecido - havia fuligem em toda parte, as janelas estavam escuras. Para piorar, a noite havia sido fria e boa parte da população ainda utilizava braseiros de carvão em suas casas. Havia mais uma grave preocupação, o nevoeiro durante o dia havia adquirido um odor característico, resultante da formação de dióxido de enxofre manifestada pela coloração verde escura (daí o apelido "peasouper" ou sopa de ervilha). As pessoas que se aventuravam fora de casa ou à caminho do trabalho levavam lanternas. Elas começavam a sentir o incômodo logo depois de algumas quadras: fraqueza, tontura, náusea, dormência... havia gente literalmente envenenada após adentrar no nevoeiro.

Os hospitais começaram a ficar lotados. Pessoas eram carregadas às pressas com falta de ar, desmaiadas ou sufocando. Balões de oxigênio eram muito necessários, mas logo ficaram escassos. As ambulâncias não davam conta das chamadas, carroças começaram a transitar em caráter emergencial, os cavalos sangrando pelo nariz, pela boca e pelos olhos em meio a nuvem tóxica. No dia 6, havia mais de 500 mortos por decorrência direta do nevoeiro. Os animais também sofriam: Pássaros caíam do céu, cães uivavam e os animais do zoológico municipal estavam acuados.  

Por volta de meio-dia era noite em Londres.

O cenário era de catástrofe, semelhante ao imaginado por H.G. Wells em seu clássico "A Guerra dos Mundos". A neve sobre o gramado do Hyde Park estava coberta de fuligem que a tornava suja, escura, horrível. Carros haviam sido abandonados nas ruas de qualquer maneira. As pessoas haviam recebido ordem de ficar em casa, ninguém deveria sair, exceto em caso de extrema necessidade. A Família Real foi evacuada e passou a acompanhar os acontecimentos de fora da cidade. As estradas que levavam para fora estavam congestionadas e muitos desistiram e retornaram para suas casas. O número de crianças e velhos que haviam se perdido era estarrecedor: pessoas que sequer conseguiam achar o caminho de volta para casa. Era uma crise sem precedentes e não havia previsão de melhoria.

O governo agiu rapidamente. Um grande contingente de soldados foi enviado para Londres a fim de  patrulhar as ruas e combater distúrbios. Os soldados portavam rifles com lanternas amarradas no cano, vestiam máscaras de gás e trajes pesados de lona e borracha. A ordem era clara: em caso de distúrbio os militares tinham permissão de atirar para matar. Carros de som circulavam com as lanternas ligadas avisando a todos para manter a calma. Para limpar o caminho e permitir a passagem de veículos de emergência, os militares operavam tratores que retiravam os automóveis.


Boatos se espalhavam rapidamente: para alguns era o fim do mundo. Rumores davam conta de que toda Inglaterra era vítima do maldito nevoeiro, toda a Europa, o mundo. Ele teria se originado das profundezas da terra, as emanações do próprio inferno, alardeavam os mais extremos. Rádio e televisão tentavam manter as pessoas informadas, mas o que se sabia era muito pouco. Ninguém sabia de onde havia vindo aquela fumaceira ou quando ela iria embora. Como consequência, houve uma quantidade alarmante de suicídios.

Na manhã do dia 7, a visibilidade era de apenas 30 centímetros. O dióxido de enxofre havia se misturado a outros poluentes para formar nuvens de ácido sulfúrico e hidrocloreto que queimava os olhos e pulmões. Pessoas chegavam aos hospitais com os lábios arroxeados, o nariz sangrando e em severa crise respiratória. O hidrocloreto quando inalado danificava as pleuras do pulmão que reagia produzindo líquido, causando um efeito semelhante ao afogamento. Além disso, muitas pessoas que não protegeram os olhos adequadamente descobriram que a longo prazo, a exposição ao nevoeiro as deixaria cegas.

A população não saia mais. Simplesmente não era seguro! Nas ruas desertas era possível ver os sinais medonhos da tragédia. Havia cadáveres largados, pessoas que tentavam chegar em casa ou aos hospitais e que não avançaram muito além de algumas quadras.

No dia 9 de dezembro, dia em que mais de 400 vítimas fatais haviam sido contabilizadas nos hospitais montados pela cidade, um vento súbito se iniciou e o fog começou, enfim, a se dissipar. Era um alívio em meio ao sofrimento pelo qual a população passou. Mesmo assim, as autoridades advertiram todos a ficar mais um dia em casa: suprimentos foram distribuídos de porta em porta junto com máscaras confeccionadas às pressas fora da cidade. Costureiras trabalhavam dia e noite na criação de máscaras anti-fog. Em algumas moradias, ninguém respondia às batidas. Nelas, a fumaça havia se insinuado e as pessoas haviam morrido durante o sono. Algumas delas com a pele recoberta por um filme de fuligem preta.

No dia 10, os habitantes de Londres deixavam seu confinamento e se aventuravam nas ruas, encontrando uma cidade escurecida pelas partículas de carvão.  

O Grande Smog de 1952 foi a maior tragédia ambiental da história da Inglaterra. Oficialmente, o número de mortos foi estimado em 4.000 pessoas. A causa mais comum foi asfixia e infecção pulmonar aguda. Nos anos seguintes ao evento, uma enorme quantidade de pessoas expostas ao nevoeiro reportaram doenças respiratórias contraídas em decorrência da exposição: broncopneumonia, bronquite purulenta ou bronquite crônica se tornaram endêmicas. Cerca de 12.000 indivíduos teriam morrido nos cinco anos seguintes em função daqueles cinco dias que Londres foi coberta pelo terrível nevoeiro. Um número igual a 1/3 dos mortos durante quatro anos de bombardeios na Segunda Guerra Mundial.  

Após a tragédia, as autoridades inglesas mudaram radicalmente a sua atitude a respeito da qualidade do ar no país. Regulamentos e duras multas passaram a ser aplicadas a indústrias que ainda despejavam fumaça no ar. Muitas delas foram relocadas para fora da zona metropolitana. Veículos que rodavam com óleo-diesel foram adaptados para combustíveis menos agressivos. Londres baniu os braseiros que queimavam carvão mineral das casas. Como efeito direto das medidas, a qualidade do ar melhorou progressivamente, embora apenas no final da década de 1960 os efeitos tenham sido suficientes para eliminar definitivamente o risco de uma nova tragédia.

É curioso, como os erros do passado retornam para nos assombrar.

Essa semana, observadores manifestaram uma séria preocupação a respeito da qualidade do ar na China. Várias províncias amanheceram cobertas por uma densa cortina de fumaça escura. Pequim registrou ao longo de três dias os piores índices de poluição da história da capital, registrando a taxa de 886 microgramas de poluentes por metro cúbico. Para se ter uma idéia, a qualidade do ar é considerada comprometida a partir de 150 microgramas.

Medidas já estão sendo tomadas para evitar que uma catástrofe venha a acontecer num futuro bem próximo.

Londres 1952
Pequim 2013
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