O sub-gênero "Horror-Folclórico" (Folk Horror) foi definido originalmente na consciência popular pelo cineasta Mark Gatiss no documentário da BBC "A History of Horror" (2010).
Segundo Gatiss, esses filmes compartilham de uma obsessão comum pelas paisagens, folclore e superstições antigas e bebem da fonte de tradições pagãs. São produções onde o sobrenatural está presente de forma muito discreta, manifestando-se através de acontecimentos aparentemente corriqueiros e de sensações que vão se intensificando até se tornarem inquestionáveis.
A seleção de filmes inclui títulos bastante populares nos anos 1960 e 1970, mais notavelmente Witchfinder General, The Blood on Satan’s Claw, The Witches e é claro, The Wicker Man que é o filme mais lembrado quando o sub-gênero é mencionado.
Estes e outros filmes particularmente os dos Estúdios Hammer, são memoráveis pela beleza rural das locações que se sobrepõe aos lugares escuros e ermos típicos do horror. As sombras tenebrosas dão lugar a paisagens deslumbrantes e ensolaradas com florestas e pedras sagradas onde rituais tem lugar. Tudo parece incrivelmente perfeito, mas é ali que a semente do horror germina.
Os rituais que aparecem nos filmes do sub-gênero são tipicamente cerimônias devotadas aos elementos da natureza e divindades da fertilidade. Envolvem adoração ao fogo, a chuva e terra, como as forças primais que garantem o sustento e a perpetuação. Os ritos envolvem ainda danças, decoração com flores e celebrações de cunho sexual - as famosas orgias pagãs.
O Horror-Folk geralmente tem como foco alguma comunidade isolada, ou um culto, no qual as tradições antigas são honradas em datas específicas. O sistema de moral e crença envolve rituais bem definidos, com sacrifícios e torturas devotadas a veneração. Em parte, o terror surge do choque entre pessoas que não compreendem (ou que entendem apenas em parte) esses rituais e os verdadeiros cultistas que desejam atender os requisitos de suas celebrações.
Outros filmes identificados como folk-horror incluem Wake Wood, The Borderlands, Kill List, A Field in England, Apóstolo e é claro, mais recentemente, a Bruxa.
Folk Horror, entretanto não é um gênero exclusivamente britânico ou europeu; nos Estados Unidos, bons exemplos de filmes desse gênero incluem Colheita Maldita, Wendigo e A Bruxa de Blair, entre vários outros.
A mais nova adição ao sub-gênero vem de ninguém menos que o elogiado diretor de Hereditário, Ari Aster.
No novo filme de Aster, Midsommar, um casal em férias (Florence Pugh e Jack Reynor) se encontram transportados para um idílico vilarejo rural na Suécia onde os habitantes parecem à primeira vista incrivelmente amigáveis e gentis. Contudo, nada é o que parece ser, quando surgem indícios de que um horror sem nome espreita, a medida que a data de um festival vai se aproximando.
O roteiro de Aster no IMDb tem a seguinte sinopse:
"Dani (a personagem de Pugh) em viagem pela Suécia, fica sabendo de uma pequena cidade no interior do país. Lá anualmente um ritual é realizado. Atraídos pela paisagem idílica, pelas belezas naturais e pela gentileza dos moradores locais, eles decidem fazer uma visita. Todos parecem felizes e satisfeitos com a chegada deles, talvez satisfeitos demais! Logo fica claro que algo sinistro está prestes à acontecer e que o ritual não é exatamente o que os forasteiros esperavam encontrar".
O trailer de Midsommer pode ser visto abaixo:
Midsommar marca o primeiro trabalho do diretor Ari Aster após o elogiado sucesso, Hereditário (2018) que se tornou um sucesso de público e crítica. Muitos cinéfilos já saúdam Aster e sua produtora a A24 como o celeiro das melhores ideias e produções de horror na última década.
Será que teremos um novo sucesso com Midsommar?
Saberemos em breve, o filme será lançado em 9 de agosto.
Dentre os filmes recentes de horror, um se destaca ao apresentar uma criatura especialmente assustadora e sinistra. A entidade conhecida como Valak aparece em Conjuração do Mal 2, Annabelle e mais recentemente A Freira, filmes de sucesso, com bilheterias consideráveis mundo à fora.
Com sua aparência ameaçadora e aura absurdamente macabra, escondendo sua face atrás do hábito de freira, Valak imediatamente se tornou popular entre os fãs do gênero. É uma presença demoníaca a ser lembrada (e temida). Parece bem provável que ele apareça em outras produções, consolidando sua presença como um dos novos monstros do terror.
Mas, será que existe alguma base de verdade nesse personagem? Será que Valak é citado em algum tomo de conhecimento místico ou não passa de uma construção inteiramente Hollywoodiana? A resposta para essa pergunta, pode surpreender os leitores.
Por estranho que possa parecer, a força maligna dos filmes conhecida como "Valak" é de fato baseado na mitologia demoníaca, embora os produtores tenham tomado uma série de liberdades com a fonte que decidiram adaptar. O ser demoníaco Valak, chamado em algumas versões de Valac, Ualac, Valu, Volac, Volach, e Coolor ou ainda Doolas, foi descrito em vários Grimórios de Magia através dos séculos.
Pesquisadores acreditam que ele foi mencionado pela primeira vez em um famoso manuscrito de magia chamado "The Clavicule of Solomon" ou A Chave Menor de Salomão. Esse texto se dedica quase que inteiramente a arte de invocar e controlar espíritos, tanto os benignos quanto os maldosos. Dentre as páginas desse grimório estão listados os nomes de 72 entidades malignas, ou demônios, que foram derrotados pelo lendário Rei Salomão do Antigo Testamento, bem como os rituais e feitiços que descrevem como conjurá-los e bani-los. Na lista, o demônio de número 62 é nenhum outro senão, Valak.
Ele é descrito como um dos grandes governantes do Inferno, líder de legiões e comandante de forças nefastas. Possuidor de enorme poder, astúcia e a capacidade de localizar tesouros ocultos. Em alguns textos mais contemporâneos, Valak possui a capacidade de controlar serpentes e animais peçonhentos de toda ordem, e segundo certos documentos, estende esse mesmo poder àqueles que invocam seu nome, fornecendo a eles imunidade a venenos mortais. A aparência física de Valak não é a de uma freira velha e aterrorizante, mas de um tipo de querubim - um anjo em forma de menino, com asinhas pequenas nas costas e uma aparência delicada, que é totalmente enganadora. Valak controla uma serpente ou dragão de duas cabeças que sempre surge ao seu lado, ou com ele a cavalgá-lo. Curiosamente, em nenhum livro ou manuscrito do mundo real, ele é descrito como uma freira vingativa.
A Chave Menor de Salomão diz a respeito de Valak:
"O sexagésimo segundo espírito é Volac, ou Valak, ou Valu. Ele é o poderoso governante de uma parte do inferno e possui a aparência de uma criança com asas de anjo, cavalgando um dragão de duas cabeças. Ele concede respostas verdadeiras sobre tesouros ocultos e avisa da presença de serpentes que se submetem à sua vontade. Ele governa a 38a Legião de Espíritos profanos".
O sinistro e diabólico Valak também é mencionado em vários outros tratados de magia medievais tais como o Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer, o Liber Officium Spirituum, o Manual de Magia Demoníaca de Munich e o Fasciculus Rerum Geomanticarum. Cada livro apresneta maneiras de negociar e barganhar com Valak, algo que francamente não parece uma boa ideia.
O já citado Chave de Salomão, contudo, sempre foi a fonte mais importante a respeito dele. O livro era considerado tão ofensivo e herético pela Igreja Medieval que até hoje figura no Índice dos títulos proibidos, desde 1599.
Um elemento curioso é que o livro apesar de proibido, tornou-se extremamente popular justamente entre sacerdotes no período medieval. Várias bibliotecas no mundo cristão medieval mantinham cópias de livros proibidos, à despeito das ordens do Vaticano de destruir os volumes que constavam no Índice. Para burlar os agentes da Inquisição, responsáveis por incinerar os livros perigosos, os bibliotecários geralmente encadernavam os tomos com uma capa falsa. Também inseriam páginas no meio de outro trabalho ou simplesmente disfarçavam as páginas com iluminuras inofensivas. Assim, uma consulta casual não revelaria o teor diabólico dos textos e eles poderiam sobreviver. Na melhor tradição de segredos e mistérios monásticos, alguns livros traziam códigos secretos e legendas para localizar os livros proibidos convenientemente escondidos.
Estima-se que mais de uma dúzia de monastérios medievais franceses possuíssem em seus acervos uma cópia desse livro profano, o que é suficiente para apontá-lo como um livro muito popular em termos medievais. Estar de posse de um livro como esse podia ser perigoso, não apenas para o bibliotecário mas para a ordem inteira. Em 1546, agentes da inquisição descobriram em um Monastério nos arredores de Turim uma vasta coleção de livros proibidos, entre os quais a Chave Menor de Salomão. O bibliotecário e três de seus assistentes foram presos e julgados por heresia, os livros recolhidos e enviados para Roma.
Mas voltemos a Valak.
Na vida real, Ed e Lorraine Warren, o celebrado casal de os investigadores do paranormal retratados nos filmes da franquia Conjuração do Mal, jamais mencionaram o nome de Valak. Em momento algum de suas investigações transcorridas em Amityville e Enfield, eles apontam Valak como causador dos incidentes paranormais. Tudo isso é uma criação dos roteiristas.
Outro detalhe curioso abordado no filme "A Freira" diz respeito a sinistra abadia localizada na Romênia. Na produção, ela é assombrada por uma presença demoníaca que elimina os monges um a um e pretende escapar de seu confinamento. Por bizarro que possa parecer, essa história parece inspirada em um incidente real, embora Valak não seja citado em momento algum.
A Abadia em questão chamava-se Cârța ou Monastério de Cârța, e se localiza no Sul da Romênia, na região mundialmente conhecida como Transylvania. O lugar era tão isolado, sombrio e assustador quanto o prédio em estilo gótico que aparece no filme. O monastério pertencia a Ordem Beneditina, mas ele foi originalmente construído por monges cistercienses por volta de 1200 como uma igreja. Em algum momento do século XIII, o prédio se incendiou misteriosamente, várias pessoas ficaram presas no seu interior e morreram queimadas. Isso é claro, contribuiu para que alguns passassem a considerar o lugar assombrado.
Os monges decidiram transferir o que havia restado e que foi reduzido a ruínas para os beneditinos. Estes reconstruíram a estrutura e erigiram ali o seu Monastério. Dizia-se que os monges viviam em total isolamento e jejuavam ao longo de todo ano. O abade era um homem severo que obrigava a todos seguirem suas ordens sob pena de serem duramente disciplinados. Havia rumores que os irmãos dormiam sobre palha seca, eram proibidos de falar e que tinham permissão de trocar seus hábitos apenas uma vez a cada 3 meses. Os dias transcorriam em orações e trabalho pesado, o único alimento vinha de uma pequena horta e não era suficiente para todos. A vida deles era de extrema austeridade, em completa observância às regras de São Benedito que previa uma existência frugal, trabalho constante e humildade.
Segundo as lendas, em algum momento os monges se rebelaram contra a tirania do abade. O sujeito teria sido assassinado e seu corpo colocado nas fundações do prédio principal, escondido atrás de uma parede erguida rapidamente para sepultá-lo. Acontece que o abade era parente do Rei da Hungria Matthias Corvinus que não ficou nada satisfeito com o acontecido. Em 1474 Corvinus mandou prender e torturar os monges até que revelassem quem havia participado da conspiração. Doze monges foram julgados, oito acabaram condenados e executados. O complexo foi então abandonado, ainda mais depois que muitos acreditavam que o lugar era assombrado pelo espectro do abade. Apenas no século XVII, o lugar foi renovado e transformado em uma igreja pela paróquia local.
Os monges enterravam seus mortos em um pátio na frente do monastério que recebeu o nome de Jardim dos Sepulcros, onde supostamente a vegetação não crescia uma vez que a única coisa plantada ali eram cadáveres. Posteriormente o lugar recebeu os cadáveres de soldados mortos na Grande Guerra. Estranhamente uma escavação realizada em 1920 para remover os restos de militares e transferi-los para Bucareste, revelou duas ossadas de homens medindo dois metros de altura, uma estatura incomum tanto para a época quanto para os habitantes da região. Alguns passaram a acreditar que os dois eram vampiros ou homens vindos de terras distantes, ninguém jamais soube.
O estilo gótico da construção e as muitas histórias contadas ajudaram a construir uma reputação sinistra do local. O que não faltava eram incidentes inexplicáveis reportados pelos religiosos que habitavam as instalações. Tremores misteriosos, sombras espectrais que atravessam paredes e vozes gritando eram os fenômenos mais frequentes. Contudo havia ainda lamentos, cheiro de queimado e uma estranha presença fantasmagórica; um homem de aspecto maligno que teria sufocado mais de um sacerdote que se aventurava sozinho pelos corredores à noite. O rumor mais persistente é que esse seria o fantasma do abade, mas ninguém sabe ao certo.
Em meados de 2000, parte do monastério foi desativado e acabou se deteriorando rapidamente. Já em 2008 um campanário ruiu e o sino colocado ali em 1495 veio ao chão. Posteriormente a igreja foi restaurada e se tornou um destino procurado por turistas. É claro, o demônio Valak não parece ter qualquer relação com a história local, mas isso não impediu os roteiristas de criar uma conexão para escrever um filme.
Embora filmes assumam uma espécie de licença poética e criativa para mudar certos elementos da história e mitologia, alguns deles ainda possuem raízes no mundo real, com lugares que de fato existem e que são tão assustadores no mundo real, quanto no mundo de faz de contas. É curioso como alguns elementos aterrorizantes acabam se tornado material para entretenimento, como é o caso de Valak e do monastério romeno.
Na próxima vez que você assistir um filme de horror, talvez caiba se perguntar o quanto de sua história é baseada em lendas e quanto é focado no mundo real.
Entrevista com o cineasta argentino Demian Rugna, por M.R.Terci
Sem dúvida nenhuma, o ano de 2019 será um ano muito especial para os cinéfilos, especialmente para os fãs de filmes de terror. A lista de filmes do gênero é bem longa: muita coisa está prestes a ser lançada e a expectativa só aumenta. Nesse ponto, destaque para o filme Terrified, produzido por Guillermo Del Toro, remake do filme argentino Aterrados (2017), escrito e dirigido pelo premiado cineasta Demian Rugna.
O cinema de horror sul americano cresce em qualidade e quantidade. Nos últimos anos, trabalhos notáveis ganham projeção internacional com promessas de revolucionar o gênero. Pois bem, Demian é um desses visionários que tocam o terror e conquistam cada vez mais espaço no cenário do Horror Internacional. Neste mês, M. R. Terci, autor de Imperiais de Gran Abuelo, poeta, roteirista e fã incondicional do gênero horror fez uma entrevista com o cineasta, confira!
M. R. Terci:Todos nós, fãs brasileiros, estamos ansiosos para conhecer um pouco mais de seu trabalho e quais as próximas novidades.
Demian: Certamente eles verão o Remake de Aterrorizados nos cinemas, suponho que será uma estréia importante, já que a Fox Searchlight está por trás. Depois do remake eu não sei, é muito provável que eu comece a trabalhar na 2ª parte de Aterrorizados ou talvez eu retome meu novo projeto de terror chamado "Quando o mal espreita". Mesmo assim tenho um filme inédito que fiz antes de Aterrorizados e espero lançar em breve, se chama: "Você não sabe com quem está falando", é humor negro que parodia um pouco os filmes de gênero, acho que os fãs de horror (como eu) vão gostar. Mas não se preocupem: meus próximos 2 ou 3 projetos serão puramente terror.
M. R. Terci: Literatura, quadrinhos e cinema. Quais as referências para o trabalho de Demian Rugna? Quais as suas influências dentro do gênero do horror fantástico?
Demian: Eu cresci lendo Stephen King, Poe e Lovecraft. Então cheguei ao meu Clive Barker e Cortazar. Eu acho que (especialmente nos meus primeiros filmes) a influência dos dois últimos é perceptível. No nível comic, eu venho da história em quadrinhos, quero dizer, toda a minha vida, minha abordagem para o cinema foi desenho em quadrinhos, estudei 3 anos para me profissionalizar. Eu não sou dos super-heróis, esse ramo não me pega, eu sou mais o comic europeu que foi bem desenvolvido na Argentina, o quadrinho mais autoral. Mas eu deixei minhas ambições de desenhista para ser diretor de cinema. E baseado no cinema, minha escola foi o cinema fantástico dos anos 80, acompanhei fervorosamente os filmes com seus diretores clássicos de gênero. Raimi, Craven, Carpenter, Spielberg, Cronenberg, Argento, Verhoeven e mais nos anos 90, Peter Jackson e Guillermo del Toro. Essa é a minha escola.
M. R. Terci: O que é o sobrenatural para Demian Rugna?
Demian: Eu prefiro que não tenha forma definitiva, me refiro com isso (pelo menos em Aterrorizados) a não facilitar a atribuição de forma a "um fantasma" ou "uma maldição", acredito que o sobrenatural não pode ser definido facilmente em sua origem. Sinto que é falta de respeito com o espectador quando se contrói uma história e então se diz simplesmente: tudo é causado por um fantasma. Eu sinto que o sobrenatural não pode ser explicado tão facilmente. Porque nós nem sequer sabemos (como seres humanos) de onde realmente viemos e por que estamos neste planeta. Pelo menos em Aterrorizados, tento não tomar o espectador como estúpido com uma explicação categórica e instantânea de algo inexplicável.
M. R. Terci: O horror é um gênero cinematográfico e literário muito ligado à fantasia e à ficção especulativa. No filme Aterrorizados, você aborda a questão de outros planos interdimensionais e as terríveis consequências de contata-lo. Nessa linha de raciocínio, você expõe crenças próprias?
Demian: Não. Mas devo admitir que pouco tempo depois do lançamento, um jornalista me transmitiu a informação de que meu filme tinha muitos elementos de um fenômeno, muito comum e que ocorre com muitas pessoas, chamado: "paralisia do sono". Eu não sabia nada sobre isso, mas através dessa pessoa aprendi que se tratava de um fenômeno que acontece quando você acorda no meio da noite, incapaz de mover seu corpo, mas podendo abrir os olhos, vê uma figura alta, careca e desajeitada, às vezes usando um chapéu, te observando. Então você realmente acorda e está na mesma posição. O incrível de tudo isso é que passei por um episódio assim, muito tempo depois de escrever o roteiro, sofri a paralisia do sono uma noite, vi aquela figura me observando. Mas eu sempre relaciono isso com um pesadelo. Até que eu descobri que isso é algo muito comum, comecei a pesquisar e me pareceu incrível.
No caso de Aterrorizados, tentei criar minha própria mitologia, longe do simbolismo religioso e das teorias fantasmagóricas. É por isso que não há nenhuma ouija no meu filme. Isso é simples: dimensões que se filtram entre si e esses seres estão conhecendo nosso ambiente, são eles que estão experimentando e tentando descobrir o que é o nosso mundo. O problema é que esses seres não têm a nossa moral, para nós, eles são selvagens, porque se precisarem abrir uma pessoa em dois para ver o que tem dentro, eles farão. Assim como fazemos com um inseto, sem ser mal, mas curioso.
M. R. Terci: A Fox Searchlight colocou Sacha Gervasi para escrever Terrified, um remake de Aterrados.O filme será produzido por Guillermo Del Toro. Você escreveu e dirigiu o original, e agora irá liderar o remake. Como foi esse contato, como está sendo essa experiência e o que pode nos adiantar a respeito do remake?
Demian: Ainda estamos trabalhando no roteiro, posso dizer-lhe que cada uma das cenas do terror está sendo projetada para ser muito mais espetacular. Queremos respeitar a versão original, já que é um filme que funciona e não vamos desperdiçar isso. O interessante é que eu serei o diretor do remake, então não vou deixar que machuquem meu bebê. Me dou muito bem com Sasha, ele é muito engraçado e isso é algo que eu pedi a Del Toro, alguém com humor, já que acho que um pouco de humor nos piores momentos faz o espectador relaxar um pouco para que, em seguida, possa atacá-lo com um choque de terror. A experiência está sendo muito boa. Imagine só, sou fã do gênero desde menino, aos 16 anos eu fiz uma tatuagem de Jason Voorhes, e desde criança eu sonhava em filmar em Hollywood. Então, hoje eu me deparo com meu ídolo produzindo um filme para mim. É muito louco poder discutir ideias com pessoas que admiro como verdadeiras ídolos e achar que não concordo em tudo também é muito estranho. Às vezes eu pergunto a mim mesmo "como posso contradizer as idéias de Guillermo Del Toro?", mas ele deixou muito claro, desde o começo, quando me disse: "Eu confio plenamente em seu instinto" e isso dá forças para acreditar em mim mesmo.
M. R. Terci: Após a conclusão do remake, quais os próximos projetos?
Demian: Parte 2 de Aterrorizados (eu ainda não sei qual versão, se espanhol ou inglês), "Quando o mal espreita" e libero o filme de humor negro, já filmado, chamado "Você não sabe com quem está falando".
M. R. Terci: Como você interpreta o atual momento do cinema do horror?
Demian: Uma maravilha! Eu acho que o avanço das redes sociais fez com que os fãs do gênero parassem de se sentir marginalizados, percebemos que existem muitos mais doentes mentais como nós que querem ver todos os filmes de terror do planeta, comprar o Blu-ray e colecionar as bonecas. Eu acho que isso fez o gênero fantástico se consolidar muito mais. O púbico foi fortalecido e até as críticas pararam de desrespeitar os filmes do gênero. Nesse sentido, crescemos em audiência. Então, com relação ao conteúdo, é eclético, como todos os filmes, há bons e ruins em todos os gêneros. Eu acho que o autor no gênero está ganhando espaço e isso é ótimo.
M. R. Terci: Para Demian Rugna qual foi a era de ouro dos filmes de terror?
Demian: É uma boa pergunta, mas minha resposta não é objetiva, eu amo o gênero nos anos 80, mas talvez seja porque eu cresci lá, porque foi o começo de uma revolução nos FX (efeitos especiais). Também temos de observar tudo o que exalava o horror até ali e, então, após essa parte, o que James Wan alcançou com SAW. Mas talvez venham os fãs da Hammer e queiram me linchar pelo que disse! Eu não sei, é muito pessoal, mas eu fico nos anos 80.
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M. R. Terci é escritor, roteirista e poeta. Antes de se dedicar exclusivamente a escrita, foi advogado com especialização em Direito Militar e mestrado em Direito Internacional, Ciência Política, Economia e Relações Internacionais. Autor de Imperiais de Gran Abuelo, publicada pela Pandorga, e o criador da série O Bairro da Cripta, lançada anteriormente pela LP-Books, obras que reforçaram seu nome como um dos principais autores brasileiros de horror da atualidade. Com base em fatos históricos, Terci substitui os castelos medievais pelos casarões coloniais, as aldeias de camponeses pelas cidadezinhas do interior, os condes pelos coronéis e as superstições por elementos de nosso folclore e crendices populares, numa verdadeira transposição do gótico para a realidade brasileira. Seus livros não são apenas para os fãs do gênero horror. Seu penejar é para quem aprecia uma narrativa envolvente, centrada na experiência subjetiva dos personagens mediante as possibilidades que o contexto sobrenatural de suas estórias permite.
Aterrorizados de Demián Rugna – uma das mais violentas e assustadoras violações da ordem natural do nosso universo por M.R. Terci
Apita o árbitro! Final do primeiro tempo!
Bem amigos do Mundo Tentacular, em matéria de cinema, estamos levando de goleada dos Argentinos. Mas isso não é novidade. Historicamente, o cinema argentino é o mais desenvolvido da América Latina. Desde a década de 1970, a produção cinematográfica argentina, apoiada pelo Estado e executada através de trabalho sério, converteu-se em uma das principais do idioma castelhano. Em conjunto eles – roteiristas, diretores, compositores, atores, entre outros trabalhadores do segmento –, têm colhido frutos. Não é por menos que os hermanos já foram indicados 19 vezes ao Oscar; 07 como Melhor Filme Estrangeiro, 11 vezes com filmes icônicos que tinham diretores, compositores e roteiristas argentinos e 01 como melhor roteiro original com Birdman (2014) escrito por Nicolás Giacobone. Gustavo Santaolalla, musico e compositor argentino, ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora por Brokeback Mountain (2005) e Babel (2006). Lalo Schifrin compositor e pianista argentino, entre outros sucessos, teve indicado ao Oscar a trilha sonora de Voyage of the Damned (1977) e The Amytiville Horror (1980). Assim, o cinema argentino já nos brindou com grande diversidade de filmes e temáticas. São muitos os exemplos de boas ideias argentinas utilizadas em prol da sétima arte, excelentes produções, frutos de seu tempo, filmes que sempre dialogam com o contexto em que foram realizados.
No cinema do horror não poderia ser diferente, os argentinos já mostraram que têm grandes talentos para trabalhar e, por que não dizer, revolucionar o gênero. Mas faltava aquele longa metragem que arrebatasse a arquibancada.
Bem amigos do Mundo Tentacular, fim do intervalo.
O árbitro autorizou o início da partida e tem jogador novo em campo.
Demián Rugna está com a bola. O camisa 10 tem no currículo vários curtas e dois longas, "Maldito Sean!" e "No Sabés con Quién Estás Hablando". Em seu novo trabalho, além de dirigir, ele também assina o roteiro. Sua direção em Aterrorizados é segura, sem exageros, e isso contribuiu para um filme convincente e maduro.
E, no melhor espírito esportivo, na linha fair play, NO SPOILERS.
Com uma narrativa não linear, dividida em três momentos ocorridos no subúrbio de Buenos Aires, o filme conta a história de uma vizinhança assombrada por seres de outra dimensão. Na primeira cena – em minha opinião, muito bem escolhida para abrir o longa –, uma mulher morre no banheiro diante de seu marido; na segunda tomada, um paranoico com mania de perseguição desaparece sem deixar vestígios. Na terceira cena, um garotinho retorna da sepultura após ter sido atropelado por um ônibus.
Da beirada do campo, fala o nosso comentarista: Com pouco mais de dez minutos em cena, o cadáver – imóvel – do menininho, colocou no chinelo os 103 minutos do garoto – que ri, faz gracinha, corre pela casa toda e mata o povo – na adaptação de Cemitério Maldito de Stephen King (produção de 11.5 milhões de dólares).
Se até essa marca, o diretor e roteirista, Demián Rugna, tivesse se dado por satisfeito e encerrado, o filme já seria destaque em qualquer revista especializada do gênero. Mas, em busca de mais alguns pontos na tabela, o argentino partiu para o ataque.
Conectados pelos estranhos eventos, um investigador veterano da polícia e três pesquisadores de assuntos paranormais se incumbem de desvendar os segredos desse insólito rincão. Para conduzirem seus estudos e coligir dados que os ajudem a entender o fenômeno, decidem dividir a equipe em grupos que passarão a noite nas casas onde os incidentes violentos e misteriosos se sucederam.
A partir desse ponto, o filme entra numa sequência de cenas que farão até os mais céticos pularem da cadeira. A mitologia criada por Rugna é, sem dúvida, uma das mais violentas e assustadoras violações da ordem natural do nosso universo.
Além de ser considerado por muitos críticos mundiais como um dos melhores expoentes do cinema de horror da América Latina dos últimos anos, Aterrorizados chamou a atenção do diretor Guillermo Del Toro, vencedor do Oscar 2018 de Melhor Filme por A Forma da Água, e, esse ano, vai ganhar um remake hollywoodiano produzido por ele.
"Vino con ustedes. Si. Vino con ustedes." Nunca pensei que diria isso, mas os argentinos foram fantásticos nessa película. E mais, revolucionaram. Porque cinema do horror revoluciona, não copia, não fica pulando de um pé para outro em cima de metáfora. Aterrorizados foi bem recebido porque, do começo ao fim, respeita o espectador.
Apita o árbitro! Final de jogo no estádio. Saldo extremamente positivo no placar dos argentinos. Da arquibancada, aplaudo e recomendo com força o filme de Demián Rugna.
O filme muito aguardado vem cercado de expectativa a respeito de como o roteiro conseguiria traduzir o livro de Josh Malerman em que os personagens passam a maior parte do tempo com os olhos vendados. Além do desafio de colocar isso na tela, havia ainda o de contar uma história de apocalipse de modo original, sem cair nas armadilhas típicas do gênero.
A favor da produção está a presença de peso de Sandra Bullock, estrela que dispensa apresentações e atrai fãs a despeito do tipo de filme em que dá o ar da graça. A Netflix não poupou esforços não apenas na promoção de Bird Box, mas na qualidade da produção. Tudo ali é de primeira e a produção, feita para o canal de streaming é extremamente caprichada, não fica devendo nada a super-produções dos grandes estúdios.
O resultado?
Bem, digamos que Bird Box promete muito. Ele começa bem demais, e imediatamente prende nossa atenção ao narrar sem rodeios uma história sobre a queda da civilização - que ocorre de forma repentina e assustadoramente rápida. Na trama, de um dia para o outro, pessoas comuns tem suas vidas destruídas e são apresentadas a uma nova realidade de medo, terror e paranoia. Se essa premissa é suficiente para manter as coisas interessantes até o fim, é justamente o final que perigosamente quase coloca tudo à perder.
Dirigido por Susanne Bier e adaptado diretamente da novela de Malerman, um best seller lançado em 2014, Bird Box se divide em duas linhas narrativas: na primeira Malorie (Sandra Bullock) tenta guiar um casal de crianças chamados apenas de Menina (Vivien Lyra Blair) e Menino (Julian Edwards) através de uma paisagem apocalíptica - enquanto vendados navegam por um rio à caminho de algum tipo de refúgio para os sobreviventes. A outra conta como tudo começou e como Malorie experimentou os acontecimentos que devastaram a civilização e a obrigaram a se esconder em uma casa de subúrbio com um grupo de estranhos na mesma situação.
Um dos méritos do filme é que o roteiro não tenta explicar o que está acontecendo. Ele não busca contar o que aconteceu ou o que está provocando a crise que parece estar se alastrando pelo mundo inteiro. Há teorias, algumas muito bizarras, de que poderiam ser espíritos, criaturas, doença que estão causando o horror... mas o fato é que ninguém sabe e o surto crescente de suicídios e violência mundo à fora continua em ritmo alarmante. A única certeza é que essa loucura é algo contagioso e se espalha através da visão. Um mero vislumbre, de seja lá o que for, é suficiente para despertar a loucura. Não existe cura! Não existe maneira de evitar!
A única solução imediata é fechar os olhos, de preferência com vendas, e não sair de casa.
Não há como evitar algumas situações típicas de filmes a respeito do apocalipse que já vimos um milhão de vezes. Como sempre temos as misteriosas transmissões de rádio, pessoas diferentes confinadas no mesmo ambiente, ansiedade com a segurança de amigos e parentes, paranoia a respeito de suprimentos e um medo crescente de que a relativa segurança do refúgio possa ser quebrada a qualquer momento. Tudo isso está lá. Embora Bird Box trabalhe esses elementos de forma muito eficiente é impossível afastar a sensação de deja vu.
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Os monstros são no entanto uma novidade. Uma vez que eles matam através da visão, as criaturas não precisam caçar ou atacar as pessoas. Seu poder está em forçar suas vítimas a remover as vendas e encará-los. O fato de não se poder ver as criaturas remete à máxima de que "não há nada mais assustador do que o desconhecido". As tais criaturas estão presentes ao longo do filme inteiro, mas elas não são vistas, a não ser através de sua interação com o ambiente (movendo objetos e plantas) ou através de sombras espreitando. Comparações com o filme "A Quiet Place" são inevitáveis já que a premissa dos filmes é bastante semelhante. Mas lá as criaturas podiam ser vistas claramente e eram uma ameaça física se você fizesse qualquer ruído que as atraísse. Em Bird Box os monstros permanecem como um mistério indecifrável, o que contribui para construir uma aura de incerteza.
Uma diferença do livro para o filme envolve a presença de pessoas que acabam se entregando à loucura. No livro essas pessoas são citadas, mas no filme, esses maníacos que resolvem se bandear para o lado das criaturas recebem maior destaque. O que ajuda a criar um panorama de desconfiança e paranoia que justifica o medo de seus vizinhos. Novamente, o roteiro não explica porque algumas pessoas são imunes a loucura suicida (supostamente por já serem loucos), mas a noção de que alguns abraçam de coração a loucura, achando as criaturas "lindas" e uma forma de "purificação" é inquietante.
O filme possui bom ritmo e a direção trabalha a a sensação de tensão reinante com eficiência. Existem boas cenas em que os personagens exploram as ruínas do mundo devastado e nestas paira sempre uma dúvida de quantos irão sobreviver à experiência. Boa parte da tensão do filme reside na interação dos personagens confinados e obrigados a conviver sob um mesmo teto.
Bird Box conta com um elenco cheio de rostos familiares, mas infelizmente a maioria deles não tem a oportunidade (ou tempo) de aparecer suficiente para nos importarmos com eles. A maioria dos personagens não passam de estereótipos que aos poucos vão sendo eliminados. Em um grupo que inclui Sarah Paulson, Tom Hollander e BD Wong, apenas John Malkovich realmente se destaca. Porém, mesmo o personagem dele, um viúvo, duas vezes divorciado e que não está nem aí para seus vizinhos, soa meio lugar comum. Se não John Malkovich não fosse um ator tão bom, com certeza o personagem seria apenas um babaca genérico.
O fato de Malorie ser a única personagem presente em ambas linhas indica que algo muito ruim aconteceu com todos os outros em algum momento da história. Bird Box, se sustenta quase que inteiramente na visão de Malorie e Sandra Bullock se mostra à altura da tarefa de carregar o filme inteiro nas costas. Ela faz bonito nas cenas de tensão em que é mais exigida e é fácil simpatizar com ela.
De um modo geral, Bird Box é um filme recomendável, ainda que ameace perder o pique em determinados momentos. Os monstros são assustadores, mas seu poder de incomodar vai sendo anulado aos poucos, quando entendemos como eles funcionam. Os coadjuvantes são interessantes, mas acabam morrendo antes que possamos conhecê-los melhor. O filme tem tensão, mas mesmo ela acaba sendo neutralizada pela alternância das duas linhas narrativas. E o final... bom o final, por um triz não estraga todo o filme em uma conclusão "sessão da tarde" que destoa do que havia sido mostrado até então.
Está longe de ser um suspense memorável, menos ainda um horror que vai marcar época, mesmo assim é uma produção divertida. Ideal para colocar na sua lista, assistir quando tiver um tempo e depois remover sem remorso.
O que Aquaman e H.P. Lovecraft podem ter em comum?
Tem se falado muito a respeito de uma conexão entre o filme da DC (talvez o melhor dos últimos tempos, inspirado por personagem da editora) e o Horror Cósmico.
Antes de seguir adiante já deixo avisado que o texto a seguir contém SPOILERS a respeito do filme Aquaman, portanto se você quiser ler, tenha em mente que partes do roteiro e da trama serão mencionadas.
Todos avisados? Então vamos em frente.
Será que estamos vendo coisas, ou ainda, querendo ver coisas, ou realmente há algo dos Mythos de Cthulhu no filme do herói submarino?
Quem melhor do que o talentoso diretor James Wan para dizer. Quando perguntado a respeito dessa influência em seu filme ele não pestanejou:
"Eu percebi que não poderia fazer um filme de Aquaman sem perceber as influências dele (Lovecraft) em mim. Então eu decidi, ‘f**-se, eu vou assumir." explicou.
A influência de Lovecraft em um filme como Aquaman pode ser explicada através da carreira do próprio diretor e roteirista. James Wan ganhou fama nos últimos anos com produções de terror que emplacaram franquias extremamente lucrativas - são criações dele Jogos Mortais, Sobrenatural e Conjuração do Mal.
Wan está, portanto, mais do que acostumado a lidar com o horror e transitar entre as diferentes variações inseridas no gênero, o que inclui obviamente o Horror Cósmico.
A inserção de acenos para a obra de Lovecraft, no entanto foi aparecendo na produção de Aquaman aos poucos. A princípio, Wan reconhece que não buscou propositalmente que houvesse algo dos Mythos no filme, mas que esses elementos foram entrando no roteiro de forma orgânica.
Como não poderia deixar de ser, Aquaman tem lugar nas profundezas insondáveis. Um mundo praticamente desconhecido, repleto de mistérios e coisas que nós, da superfície sequer podemos imaginar. Em determinado momento do filme, comenta-se que sabemos mais a respeito do que existe fora da Terra, em outros planetas, do que aquilo que existe nas profundezas abissais. A Terra é quase toda água e não saber exatamente o que existe lá embaixo, permitiu que muitas ideias para o filme fossem adotadas com total liberdade.
"O filme mostra uma parte da Terra que nós nunca vimos antes", disse Wan. "Isso foi uma das coisas que mais me atraiu, a oportunidade de brincar com uma tela vasta"
Mas antes de falar de Aquaman, é interessante falar a respeito de como Lovecraft usou os mares como catalizador para suas neuroses. A conexão mais direta da obra de Lovecraft com o mar, diz respeito aos horrores das profundezas. No cânon Lovecraftiano, criaturas e entidades alienígenas habitam os oceanos; ocultos é bem verdade, mas sempre observando o que vive na superfície.
Os gregos já diziam que não há nada no mundo mais misterioso do que o Mar e Lovecraft parece endossar essa noção. Em sua obra, os oceanos são o esconderijo de coisas realmente aterrorizantes. A cidade sepulcral de R'Lyeh, o lar do tenebroso Cthulhu submergiu sob as ondas e afundou em um local isolado do Pacífico Sul. Mas a cidadela de tempos em tempos, obedecendo a alinhamentos estelares, vem à superfície, trazendo consigo a Cripta do Grande Cthulhu.
A mais conhecida das entidades de Lovecraft habita os mares e tem uma forma bizarra que remete a seres das fossas oceânicas. Dizem que o autor detestava tudo o que vinha do mar e que sentia uma náusea insuportável quando sentia o cheiro das feiras que expunham frutos do mar frescos. O Cavalheiro de Providence tomou emprestado dos polvos e lulas, que tanto o horrorizavam, a imagem para Cthulhu.
Mas dificilmente Cthulhu é o único monstro marinho na obra de Lovecraft.
"Dagon" fala de terrores submarinos habitando os recessos oceânicos, vindo à superfície, arrastando consigo parte dos mistérios das profundezas. O monstro do título é uma abominação venerada por civilizações ancestrais, um típico monstro marinho que governava os mares, tido como um Deus.
"O Templo", é outra obra de Lovecraft que menciona criaturas do abismo. No caso, um cidade em ruínas nas profundezas, cujo mero vislumbre em uma exploração com batisfera provoca loucura e terror.
Já em "O Horror de Martins Beach", escrita em parceria com Sonia Green (sua esposa), ele explora novamente o tema dos Monstros Marinhos, dessa vez uma versão colossal das lendárias Serpentes Marinhas. Uma monstruosidade tão grande que apenas os mares poderiam comportar.
Talvez seja "A Sombra de Innsmouth" a obra mais lembrada de Lovecraft envolvendo o horror que vem do mar. O conto apresenta não apenas uma criatura, um monstro ou uma lenda, mas uma espécie inteira de horripilantes criaturas marinhas, os Abissais (Deep Ones). Esses seres meio homem e meio peixe por vezes vem à superfície com o intuito de cruzar com a raça humana, gerando híbridos. São esses seres os deformados habitantes da Vila Pesqueira de Innsmouth. Eles estabelecem conluio com a raça submarina e planejam o retorno dos antigos tratados como deuses. A ameaça é tamanha que demanda a intervenção do governo americano que realiza uma operação militar secreta no lugarejo. Enquanto isso, submarinos torpedeiam uma cidade submersa e supostamente acabam com a sombra do título, ou será que não?
James Wan, como fã de horror, certamente conhece todos esses contos e bebeu da fonte deles para compor o seu mundo submerso. Há beleza e magia sob as águas, mas há espaço para muita coisa esquisita, bizarra e certamente assustadora.
Os acenos de Wan a Lovecraft começam logo no prólogo que conta a origem do herói submarino. A narrativa de Arthur Curry (pai de Aquaman) na qual ele descreve como conheceu sua esposa começa com a imagem de um globo de vidro contendo um farol, colocado sobre um exemplar de "O Horror de Dunwich", história de ninguém menos que Lovecraft.
Aquaman é o resultado da união entre dois mundos, o da superfície e o submarino, como é enfatizado várias vezes ao longo do filme. Na prática, ele possui uma origem mista, nascido de um pai humano e uma mãe parte de uma espécie marinha. E por ter nascido com traços de duas espécies ele é considerado diferente por ambas. Grosso modo, Aquaman, é um híbrido! Talvez ele não seja um ser meio homem, meio peixe, como eram os habitantes de Insmouth, mas ele é basicamente uma mistura de duas espécies.
Quando o filme mostra o jovem Aquaman sendo tratado como um "esquisito" pelos inevitáveis bullies do colégio ou quando seu meio-irmão, um atlanteano "puro" o chama de "mestiço" temos a sensação de que miscigenação, algo presente na obra de Lovecraft continua sendo um tema muito atual. Contudo, diferente do que acontecia nos contos, onde a miscigenação era motivo de horror, aqui ela representa uma conjunção de fatores, nos quais o herói herda os melhores traços de cada espécie.
Mas há elementos de contato bem mais óbvios!
Os povos submarinos são divididos na mitologia do filme em sete grandes reinos que se localizam nas profundezas.
Atlântida é apenas um desses setes reinos, cujos habitantes variam dramaticamente em forma e aparência. Enquanto os atlanteanos são uma raça quase idêntica aos humanos - com a diferença de respirar água, há outros povos bem diferentes. Alguns deles são criaturas com placas crustáceos e garras de caranguejo, enquanto outros possuem escamas e a anatomia dos lendários tritões e sereias.
Uma das espécies submarinas, que habita o que é chamado de "O Reino da Trincheira", no entanto, se destaca. Esses seres são idênticos aos Deep Ones descritos por Lovecraft. São eles uma raça de homens-peixe que teriam se degenerado e abraçado a barbárie. Essa raça hostil e perigosa habita as regiões mais profundas e ataca sem provocação com uma fúria cega.
Em uma das cenas mais excitantes do filme, um pequeno barco conduzido por Aquaman e Mera é abordado por dezenas desses monstros. A cena parece saída de uma produção de horror, com monstros escamosos cercando os heróis por todos os lados que tem que abrir caminho afastando uma horda deles. Impossível não sonhar com uma produção de "A Sombra sobre Innsmouth" depois de ver isso!
Mas isso não é tudo.
Em determinado momento do filme, sabemos que a mãe do herói foi executada no tal Reino da Trincheira como punição por ter tido um filho na superfície. E a execução teria seguido uma espécie de Ritual de Sacrifício no qual a vítima é entregue para o Karathen, um lendário monstro submarino, verdadeiro Leviatã temido por todos os habitantes das profundezas e cuja existência é tida como mítica.
Essa abominação colossal dorme a maior parte do tempo, mas acorda de quando em quando para enfrentar aqueles que tentam derrotá-la com o intuito de reaver um poderoso artefato que está sob o seu poder. Não há nenhuma indicação de que o monstro tenha sido concebido tendo como base o Grande Cthulhu, contudo é possível arriscar que ele pode ter servido de inspiração.
O monstro é algo titânico, monstruoso e dotado de inúmeros tentáculos. Ok, ele não tem a icônica cabeça de cefalópode que é marca registrada de Cthulhu, mas é medonho o bastante e imponente para nos fazer lembrar dele. No final do filme, quando o Karathen se une ao ataque de Aquaman a gente tem uma ideia do quão grande é o bicharoco.
A grande sacada do monstro é que ele permite que um famoso meme no qual Aquaman literalmente cavalga o Grande Cthulhu (usando seu poder de "falar com animais marinhos") aconteça. A cena é nada menos do que espetacular!
De forma geral, Aquaman é um belo filme de super-herói com doses de aventura e ação, conforme esperado. As conexões com o horror lovecraftiano sem dúvida existem e são muito bem vindas. Não sei dizer quando teremos a chance de ver Deep Ones tão bacanas e monstros marinhos tão incríveis.
É difícil falar de Mandy (Mandy/2018), ainda mais, logo depois de terminar de assisti-lo.
Não por falta de assunto, mas porque ao terminar o filme, e subirem os créditos finais, você ainda está sujeito aquela sensação de ter levado um soco na boca do estômago.
Fazia tempo que eu não era acometido dessa sensação transcendental de não saber por onde começar uma resenha sobre um filme, e mesmo assim estar ansioso para escrevê-la. Mas acho que faz sentido... Mandy não é um filme convencional. Ponto!
Para começar, não espere nada fácil desse filme. Embora o roteiro seja simples e conte uma história direta ao ponto, você vai se pegar muitas vezes pensando a respeito do que acabou de assistir e das implicações da história. Isso porque Mandy parece uma mistura de filmes estranhos, uma espécie de filho bastardo de Hellraiser e do primeiro Mad Max, com um roteiro onírico de David Lynch. O resultado é algo arrebatador, incômodo e impressionante.
Pra começar a estética da filmagem.
Mandy é todo filmado de uma maneira incomum com filtros de cores vibrantes que salientam o vermelho nas cenas de violência extrema e o azul nas de suspense e introspecção. Entre uma e outra, as imagens são granuladas ou absurdamente escuras, um tanto desfocadas, como se para reforçar que tudo aquilo que está acontecendo é um tipo de pesadelo psicodélico do qual não se consegue despertar ou uma bad trip muito louca.
Como Grindhouse, Mandy é um achado.
Não falta violência, gore e brutalidade. Um corte ou um ferimento sangram em profusão, os personagens, sempre envolvidos em brigas furiosas, batem com vontade e diferente de filmes de ação, cada golpe, cada corte ou soco parecem realmente doer. As lutas não são coreografadas, tudo é sujo e improvisado, como uma luta entre pessoas que se odeiam tende a ser. O banho de sangue chega a ser revigorante.
Como terror, o filme também funciona bem, embora ele não seja uma produção de horror.
Há cenas viscerais e assustadoras. Temos uma gangue de motoqueiros infernais, uma gangue de verdadeiros demônios que cavalgam motos possantes pelas estradas e cometem as mais horrendas atrocidades. Parecem cenobitas saídos de um filme de Clive Barker. Convocados por um misterioso artefato, o "Chifre de Abraxas", eles vem para coletar sangue e deixam um rastro de cadáveres mutilados e violados. Atenção nos detalhes medonhos na cena no esconderijo deles.
A quadrilha/culto de maníacos lembra demais uma Família Manson abastecida de LSD até a tampa, com figuras detestáveis que disputam centímetro a centímetro uma corrida pelo pódio como coadjuvante mais aterrorizante. Sem falar no líder da turba, um sociopata megalomaníaco que acredita ser o próprio filho de Deus encarnado e que domina os demais com um carisma absolutamente maligno.
Mandy tem referências pop em todo canto, remetendo a quadrinhos, filmes e séries, rendendo cenas com homenagem rasgadas a revista Heavy Metal e produções meia boca dos anos 80. O roteiro parece se espelhar nos filmes de violência e vingança cega no qual o herói que sofre uma indignidade assume uma missão implacável na qual nada pode ficar em seu caminho (e ai de quem ousa ficar!)
O filme conta a história de um casal apaixonado, Red Miller (Nicholas "Fucking" Cage) e Mandy Bloom (Andrea Riseborough). Os dois vivem em uma área isolada nos limites de uma floresta no ano de 1983. Red é lenhador e Mandy uma artista que trabalha numa lojinha de conveniência num fim de mundo qualquer da Califórnia. A vida simples e idílica dos pombinhos, no entanto está com os dias contados. Mandy acaba atraindo a atenção de Jeremiah Sands (Linus Roache) líder de um culto religioso apocalíptico, um sujeito meio hippie que se acha um messias e que controla seus seguidores com mão de ferro. Ele convoca uma gangue de motoqueiros infernais para sequestrar Mandy e eliminar Red, mas as coisas não saem como esperado e tudo descamba para um inferno alucinante de morte, sangue e horror.
Esse é o prelúdio para que Red vista o manto da vingança encarnada e parta em uma jornada alucinante para caçar o bando e matá-los de maneiras dolorosas, usando o que estiver ao alcance de suas mãos, desde machados e facas, até bestas e serras elétricas.
Que tal tirar o elefante da sala e falar de Nicholas Cage?
Muita gente imediatamente torce o nariz quando descobre que Nic Cage está nesse filme, pois nos últimos tempos, ele virou sinônimo de produções ruins e filmes dos quais a gente se arrepende de ter perdido tempo assistindo. O ex-astro e ganhador de Oscar da Academia, não é de hoje, topa qualquer papel em troca de um cachê e parece ter adotado as filosofias "se paga bem, que mal tem"? ou "Foda-se, cadê meu dinheiro"!
Mas aqui, em Mandy ele está tão à vontade e natural que a gente chega a imaginar se ele não está totalmente alucinado como o personagem. Tem uma cena, logo depois do ataque dos cultistas em que Red entra no quarto e entorna uma garrafa de vodka no gargalo, enquanto grita colocando para fora toda a dor e frustração do mundo. A coisa chega a assustar! Ela marca o início dos preparativos do herói para o inferno e carnificina que estão por vir. Red se encontra com um tipo de mentor/sensei/cosultor de vinganças (Bill Duke) que dá a ele as coordenadas para iniciar sua tarefa! A partir daí, sai da frente que a chapa é quente!
O papel é mais do que perfeito para Nic Cage! O personagem dele é exagerado, monossilábico e perturbador na medida certa. Sem medo de errar, eu acho que essa foi uma das melhores interpretações da carreira dele. E venhamos e convenhamos, Nicholas Cage quando motivado a encarnar um maluco perigosamente emputecido, não faz feio!
É preciso citar a atuação de Linus Roach como o maluco nada beleza Jeremiah Sands, o líder do culto apocalíptico. Embora nenhuma filosofia ou mensagem possa ser detectada em seus devaneios pseudo religiosos, ele se sai bem demais como o pastor de um rebanho de maníacos desvairados. O personagem parece calcado em cima de Charles Manson, também é um músico frustrado, egomaníaco, perigoso e abusivo. Em determinado momento ele demonstra seu poder de sedução, convencendo um de seus seguidores a brincar de roleta russa. O tom estéril de sua voz e a expressão plácida, com olhos que nunca piscam, são suficientes para nos convencer do grau de loucura e perigo que ele representa. Se Cage não estivesse sobrenatural na sua atuação, Roach roubaria o filme fácil.
Esse é apenas o segundo filme do diretor Panos Cosmatos (filho do também diretor George Pan Cosmatos, que nos anos 80 dirigiu filmes violentos e imbecis como Rambo e Cobra). Ele definitivamente parece à vontade explorando o gênero no qual seu pai ganhou fama e certo grau de infâmia (afinal, Cobra é um dos maiores lixos dos anos 80). Mandy, no entanto, é um filme que surpreende por não ser apenas aquilo que se espera e por ousar colocar estilo sobre substância.
Trata-se de um filme absurdamente estiloso e que rende cenas memoráveis - o duelo de serras elétricas é algo de cair o queixo. Nas mãos de um diretor menos ousado, Mandy seria uma bobagem para ser esquecida, nas mãos de Cosmatos o resultado é realmente memorável.
A minha cara depois de ver esse filme!
Mandy é glorioso, sujo, difícil, bizarro, perturbador, louco, violento e surreal. E quando ele termina, além de sentir como se tivesse levado um soco na boca do estômago, você quer mais, mais, mais!
Vá assistir, deixe ele fluir através de você e aproveite a viagem.
Todo fã de filmes de terror e de H.P. Lovecraft espera ansiosamente por um filme de qualidade inspirado na obra do distinto Cavalheiro de Providence.
Infelizmente a carreira de Lovecraft no cinema rendeu uma safra variada de filmes no que diz respeito a qualidade. Eu costumo dividir os filmes baseados na obra de Lovecraft em três tipos:
1) Aqueles bastante fiéis, sobretudo por serem feitos por fãs, como "The Call of Cthulhu" e "The Whisperer in Darkness" ambos produzidos pela HPLHS (HP Lovecraft Historical Society). "The Mountains of Madness" que seria dirigido por Guilhermo del Toro prometia ser absolutamente fiel ao conto, e sem dúvida tinha chances de vir a se tornar o expoente máximo desse exemplo, mas Prometheus acabou com esses planos (maldito seja Ridley Scott!!!!)
2) Os que ganharam o status de cult conquistando uma legião de fãs ainda que deixem a desejar no quesito fidelidade a fonte original, como "Re-Animator", "From Beyond" e "Dagon". Esses estão longe de serem ruins (bem, boa parte ao menos) ainda que eu imagine que Lovecraft ficaria corado como uma beterraba diante das cenas de indisfarçável saliência e enjoado com o festival de sangue e tripas de algumas produções.
3) E finalmente há aqueles que são simplesmente medonhos. Filmes ruins demais que tentam ganhar um pouco de reconhecimento ou granjear fãs chapinhando elementos típicos do universo lovecraftiano. São em geral produções rasteiras que pinçam nomes de criaturas ou referências menores. Alguns até podem ser divertidos, mas a grande maioria é de lascar.
Mas há ainda uma quarta vertente. São aqueles filmes levemente inspirados no Universo de Horror Cósmico do Mythos, sem contudo assumir isso em momento algum. Exemplos clássicos são "O Enigma do Outro Mundo", "O Nevoeiro", o primeiro "Hellboy" e até mesmo "Alien, o oitavo passageiro". Eu costumo chamar esses filmes de "Lovecraftianos sem ser Lovecraftianos".
São filmes onde as "digitais incriminatórias" que apontam para um roteiro inspirado por Lovecraft estão em toda parte. Filmes em que os fãs conseguem encontrar os indícios claros, mas que não possuem uma ligação assumida com a mitologia Cthulhiana.
Aqui está uma pequena lista de filmes tipicamente lovecraftianos, mas onde você não ouvirá uma vez sequer os nomes Cthulhu, Dagon, Necronomicom etc... alguns deles são bastante obscuros, mas é possível encontrá-los com algum esforço na internet. Nem todos são "bons", alguns são meio "estranhos", mas no geral são filmes com uma pitada de tentáculo, aqui e uma blasfêmia ali.
Ok, eu confesso que tomei emprestado o mesmo texto que escrevi anos atrás quando escrevi um artigo exatamente sobre o mesmo tema. Incrível que de lá para cá, pouca coisa mudou e as referências continuam rigorosamente as mesmas. Continuo esperando "aquele filme" lovecraftiano que vai definir o gênero e fazer jus à literatura de Lovecraft. Enquanto isso, vamos nos agarrando ao que temos.
Sem mais delongas, a lista:
1) O Culto (The Endless, 2017)
Dois irmãos recebem um vídeo enviado por um culto do qual eles fugiram anos atrás, quando ainda eram crianças. A seita os convida a retornar e desfazer más impressões deixadas... O irmão mais velho, Justin desconfia dos motivos do grupo que na sua opinião era uma espécie de seita suicida que venerava discos voadores. Aaron, o mais jovem, no entanto, tem ótimas lembranças do tempo que passou na companhia do grupo. Justin não sabe se os seus temores são justificáveis ou não. Ele não testemunhou nenhuma morte e sua desconfiança parece ser mero preconceito. Depois de muito ponderar os dois acabam retornando para reavaliar suas experiências. Aaron acaba se apaixonando por uma colega. Justin sente que há algo estranho no ar. E realmente algum estranho fenômeno parece prestes a acontecer a medida que um dia especial para o culto se aproxima.
Ok, a premissa é interessante! Quando eu assisti o trailer fiquei ansioso para encontrar o filme e procurei por ele por semanas... período em que criei uma grande hype a respeito da produção. Grande erro! Nada prejudica mais um filme do que construir a respeito dele uma grande expectativa.
Não que "O Culto" seja ruim. Não é...
O filme tem excelentes momentos e boas ideias. Há algumas coisas surreais na trama e ela tem alguns momentos interessantes que acenam com um mistério realmente intrigante. Mas no fim, fica devendo. As respostas não são suficientes e as coisas no final ficam um tanto sem explicação... Talvez o maior pecado do filme seja sinalizar com uma história que à primeira vista é de horror, mas que no fim das contas, não passa de uma ficção científica light.
Endless é diferente, um filme bem feito e bastante inovador, mas ainda assim, falta alguma coisa que o impede de ser o que poderia ser. Ainda assim, vale a pena arriscar!
2) Primavera (The Spring, 2014)
Do mesmo diretor e roteirista de "O Culto", Primavera é outro filme estranho e difícil de encaixar em um único gênero. Ele começa como um drama, se transforma em um romance, passa para o reino da Ficção Científica e consegue causar alguns arrepios com pitadas de horror.
Talvez a melhor definição desse filme seja uma história de amor mitológica, com algumas reviravoltas imprevisíveis. Uma história de como o verdadeiro amor pode superar obstáculos aparentemente intransponíveis e achar o seu caminho. E entre uma e outra cena de romance há espaço para sequências sangrentas, bizarras e estranhas. O ritmo é dolorosamente lento e você fica se perguntando o que diabo vai acontecer, e torcendo para que aconteça de uma vez. Ao contrário do outro filme, aqui as coisas são explicadas, mas quando vem a explicação é impossível deixar de pensar: "Caraca, que diabo foi isso que eu acabei de assistir"?
Primavera é um filme que tem o mérito de ser despretensioso e justamente por isso, te pega de surpresa e consegue envolver.
A história é simples. Evan cuida de sua mãe desenganada no leito de morte. Quando finalmente ela sucumbe, o rapaz acaba se envolvendo em uma briga estúpida, motivada pelo seu luto. Para evitar problemas com a polícia, ele decide se afastar e passar algum tempo na Itália, ao menos, até a poeira baixar. Uma vez lá, Evan conhece outros mochileiros e começa a explorar a cidade, tentando aproveitar suas férias. Eventualmente ele cruza o caminho de uma bela mulher chamada Louise e se sente atraído por ela. Por sua vez, ela retribui, e os dois começam a namorar. O que emerge disso, entretanto, não é uma relação óbvia como se poderia imaginar... a misteriosa e impulsiva Louise não é exatamente o que Evan imaginava e tudo indica que ela está escondendo algum tipo de terrível segredo.
Há algo claramente lovecraftiano na trama, que remete a uma das histórias clássicas do mestre do horror. Primavera é um filme discreto, sensível e inovador, características que nem sempre casam bem com o gênero horror. Mas aqui, a mistura resulta em algo, no mínimo, interessante.
3) A Dark Song (2016)
Rapaz, eu gostei muito desse aqui e acho que ele até merece uma resenha maior.
A Dark Song é um filme sério, dark e com um ritmo lento, mas que consegue manter o interesse ao longo de toda a sua duração. Ele não mostra praticamente nada, não há gore ou criaturas, não há sangue em excesso ou efeitos especiais, mas mesmo assim, ele consegue entrar na sua pele e perturbar. Bons filmes de horror, causam esse efeito, graças a atmosfera e clima que vão construído cena a cena. E a atmosfera aqui é pesada, o clima de trevas!
A Dark Song pode ser sutil, mas é uma bela história de horror.
Com grandes atuações, roteiro muito bem escrito e uma direção eficiente, os dois personagens principais disputam a atenção do espectador que fica em dúvidas a respeito de quem ali está planejando enfiar a faca nas costas do outro. Não há sustos baratos ou tentativas bobas de assustar, tudo é milimetricamente calculado. O roteiro vai se abrindo como um pesadelo claustrofóbico e o ambiente confinado de uma casa isolada na região rural da Inglaterra, usada como base para um ritual de invocação, funciona perfeitamente. A medida que a história progride, os personagens vão mergulhando em uma espiral de tensão cada vez mais sinistra e mórbida que vai acabar por sobrepujá-los.
O enredo é simples, mas muito bem amarrado.
Uma mulher obcecada pela morte de seu filho, vítima de um grupo de adolescentes que realizaram um ritual de magia negra, aluga uma casa isolada no interior da Inglaterra. Ela contrata um ocultista veterano e calejado, assombrado pelos seus próprios fantasmas, para conduzir um intrincado ritual. Seu plano é contatar o filho e saber o que aconteceu, no entanto ela esconde suas verdadeiras intenções.
Grande parte do filme se desenrola enquanto a dupla cumpre os extensos rituais de purificação e os preparativos para a cerimônia. Não me lembro de um filme ter conseguido capturar com tantos detalhes elementos do mundo oculto e da feitiçaria de uma maneira tão convincente. O resultado é um suspense muito bem feito e um final bastante inteligente.
4) Ghost Stories (2017)
É difícil falar desse filme sem recair em algum spoiler, portanto, vou tentar ser especialmente cuidadoso ao falar dele.
Ghost Stories é daqueles filmes de horror que contam uma história central, que por sua vez se desenvolve a partir de histórias secundárias. De fato, há três histórias acessórias, cada qual com seus pontos fortes e fracos, mas de um modo geral, agradáveis de assistir. Há alguns sustos aqui e ali, suspense considerável e algumas cenas de humor negro que vão desenhar um sorriso nervoso na sua face.
A trama tem uma excelente premissa: Phillip Goodman é um cético investigador do sobrenatural, um homem de ciência que ganha a vida expondo farsas e provando fraudes alegadamente sobrenaturais. Ele é procurado por um de seus ídolos, um velho estudioso que realizava o mesmo tipo de pesquisa que ele, desmascarando charlatãos. No fim da vida, o velho propõe que Phillip investigue três casos sobrenaturais que ele não conseguiu desvendar e sugere que estes podem realmente conter elementos sobrenaturais. A cada caso investigado, Phillip mergulha em uma situação diferente que vai mudando sua percepção e acaba tendo um efeito dramático em suas crenças.
A produção é muito caprichada e o elenco excelente, contando com a ilustre presença de Martin Freeman, o rosto mais conhecido presente. Não consigo falar muito mais a respeito desse filme sem entregar alguma coisa, então é melhor nem tentar ir além.
Infelizmente, justo no clímax o filme se perde um pouco e acaba saindo dos trilhos. Eu fiquei um pouco desapontado com a conclusão, mas ainda assim, é um filme interessante que vale a pena ser assistido. Há algo de mórbido e sinistro, principalmente na segunda e terceira histórias que remetem a algo decididamente lovecraftiano.
Assista e tire suas próprias conclusões...
5) A Casa do Medo - Incidente em Ghostland (Incident in a Ghostland, 2018)
Eu estava esperando esse aqui desde que vi o trailer e tentei a todo custo conter a hype ao redor dele.
O filme é de Pascal Laugier diretor e roterista de Martyrs, filme que me deixou de cabelo em pé e sem palavras anos atrás. Eu estava aguardando ansiosamente, mas os primeiros comentários muito polarizados me deixaram com um pé atrás... algumas pessoas falavam que era uma verdadeira obra prima e um clássico imediato, outros que o filme era risível, fraco e sem substância. Realmente, se você pegar as críticas, vai encontrar notas extremas para cima e para baixo, gente atribuindo a ele a nota máxima de cinco estrelas e outros uma única estrela, pois é a nota mínima.
Eu vou no caminho inverso. Vou dizer que achei ele mediano e que duas estrelas e meia estaria de bom tamanho.
O filme começa bem, segue em um caminho que te deixa intrigado a respeito do que vai acontecer, mas na metade pega um atalho totalmente diferente, enveredando por uma trama meio confusa e esquisita. É uma pena, pois tinha tudo para ser um filme de terror bem acima da média. O diretor consegue construir um clima angustiante e cenas altamente impactantes sobretudo no primeiro ato que conta a história da invasão da casa. Dali em diante a coisa perde o rumo, levando a um final meio sem graça.
Na trama uma família composta pela mãe e duas garotas adolescentes de temperamento totalmente oposto, seguem para seu novo lar, A casa é parte de uma herança, recebida após a morte de uma tia distante. Na estrada, as três acabam cruzando o caminho de uma dupla de maníacos realmente perigosos. Eles invadem a casa no meio da madrugada, dispostos a fazer as maiores barbaridades. As três precisam lutar com unhas e dentes pelas suas vidas. Dezesseis anos mais tarde, quando se reúnem novamente, na mesma casa, as coisas se tornam realmente estranhas.
O filme faz um aceno para o velho Lovecraft logo na abertura. Uma das meninas é fã de Lovecraft e aspira ser uma escritora de horror que tem no cavalheiro de Providence sua maior inspiração. Mas não há praticamente nada de Horror Cósmico no roteiro. O terror aqui é basicamente psicológico, dramático e carregado de melancolia e amargura. Apesar do título remeter a "Fantasmas", o filme não tem nada de assombrações ou sobrenatural... isso no entanto, não impede de ser bastante assustador.
Assista por sua conta e risco.
Por enquanto são esses... mas tem outros filmes para incluir nessa lista.