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sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

A Narrativa do Oficial Moledo - A conclusão do relato sobre um estranho incidente


Continuação...

O boletim do Oficial Portuário Moledo atestava que em 15 de março de 1918, ele e mais três agentes bateram a porta do Templo dos Mistérios Verdadeiros, na Ponta do Felix querendo conversar com o Pastor Tapio. Estavam em busca também de um homem chamado Norberto um bandido conhecido na região portuária. Alguns insistiam ter visto o sujeito em mais de uma reunião do Templo, apontando-o até mesmo como uma espécie de braço direito do Pastor. Assumiram que, ou ele fazia parte da congregação ou tinha algum tipo de negócio com ele.

Os agentes portuários foram expulsos e quando disseram que voltariam com apoio policial, acabaram ameaçados por alguns fiéis. Um eles alegadamente chegou a lhes mostrar uma arma de fogo como forma de intimidação. Dois dias mais tarde, Moledo retornou ao local conforme prometido, dessa vez acompanhado de duas viaturas e 12 homens enviados de diferentes delegacias da região. Os homens estavam armados e prontos para qualquer eventualidade. Alguns moradores locais, quando viram a chegada e souberam que haveria uma batida no Templo dos Mistérios, se voluntariaram a acompanhar o grupo. Afirmavam que estavam fartos da presença do estranho culto em Antonina e queriam sua remoção imediata.

Ao chegar ao templo no começo da noite, a diligência foi recebida por uma turba armada com porretes, pedras, facas e ao menos duas armas de fogo. Os homens se puseram diante da entrada com a clara intenção de impedir a ação. A resistência ferrenha eventualmente descambou para violência e os policiais terminaram por revidar, o que resultou em seis feridos, ao menos dois, fatalmente. Com os tiros, o bando se dispersou, sendo que alguns correram para o interior do depósito que servia de templo. Os policiais então os seguiram, adentrando no salão onde encontraram um grupo formado principalmente por mulheres e crianças que os recebeu com indignação. O bando foi rendido e escoltado para fora. Lá dentro prosseguiram até o salão contíguo, onde souberam mais tarde ocorriam as cerimônias. Foi ali que os policiais se depararam com acontecimentos de difícil explicação.


Havia um bando de indivíduos no amplo salão, todos homens de aparência grosseira e disposição rude, verdadeira malta. Alguns deles gritavam impropérios e desferiam xingamentos aos policiais, rasgavam suas roupas e chegavam ao absurdo de rosnar e babar conforme descreveu Moledo. Os homens tinham um olhar selvagem e arreganhavam os dentes ameaçadoramente. O pior é que eles estavam acompanhados de três enormes cães negros que o agente descreveu como maiores e mais agressivos que os infames capa-pretas (como se referia ao pastor alemão). As feras investiram contra os membros da diligência que logo se viu acossada pelos enormes animais - dois policiais e um civil foram derrubados no chão em meio a um turbilhão de garras e presas que os rodeava. Enquanto os homens gritavam em pânico, outros cederam ao medo irracional e fugiram apavorados. Felizmente alguns mantiveram sua determinação e dispararam contra os cães demoníacos que segundo Moledo, não largavam suas presas mesmo depois de alvejados repetidas vezes. O agente nesse momento se permitiu um estranho comentário afirmando que quando os animais eram feridos, os homens em torno gritavam como se os feridos fossem eles próprios (!) 

A algazarra de gritos e latidos se espalhou pelo ambiente, até que os animais foram abatidos e os homens arrastados para um canto e colocados sob vigia dos policiais armados. Terminada a luta haviam três policiais mortos, vítimas dos cães. Uma das feras ainda gania baixo em seus estertores. Moledo questionou os prisioneiros sobre o Pastor Tapio, mas não obteve nenhuma resposta coerente; estava claro que aqueles homens eram loucos e não haveria diálogo com eles. Gritavam palavras estranhas e clamavam por nomes bizarros, a medida que babavam em um frenesi como se fossem possessos. 

Nesse momento, nova gritaria irrompeu dessa vez do lado de fora do templo. Os homens correram para saber do que se tratava já apavorados com tudo aquilo. Encontraram ali dois policiais que haviam sido incumbidos de guardar o depósito e impedir a saída de suspeitos. Um dos policiais, um sujeito muito querido entre os demais chamado Manuel do Carmo, estava caído numa poça de sangue, seu rosto e garganta dilacerados pelo ataque de um animal de grande porte. Uma fera parecia tê-lo agarrado pelo pescoço e depois de sacudi-lo de um lado para o outro, como fazem os animais com suas vítimas, simplesmente o jogou de lado tal qual um boneco de pano. O outro, um rapazote de nome Antonio Bispo, estava agachado num canto tampando os olhos. Foi difícil fazê-lo contar o que aconteceu. Questionado, gritava sem parar, ora gargalhando, ora chorando. Quando finalmente conseguiu parar de matraquear, disse coisas sem sentido que fizeram as pessoas que ouviram a narrativa se benzer.

Ele concedeu uma explicação esdrúxula sobre o que os atacou na entrada do Templo. Era, segundo o tal Antonio Bispo, um enorme cão preto que investiu contra eles como uma tempestade; derrubou Manuel em um átimo e o matou facilmente. A enorme fera, muito maior que qualquer cão que o rapaz pudesse imaginar existir, era magro e musculoso, patas poderosas e uma bocarra repleta de presas. Andava de quatro, mas por vezes parecia um homem se colocando nas patas de trás. Quando passou por Antonio rosnou e o encarou com olhos injetados de predador que fizeram as forças abandonar seu corpo. Ao contar isso, o rapaz voltou a chorar e segundo Moledo, o pobre coitado ficou tão abalado que teve de ser mandado para longe.

Os homens se entreolharam assustados. Imaginavam que seria uma simples batida para prender contrabandistas, mas aquilo era muito pior. Um deles sussurrou que o lugar era o covil do diabo e que só algo cuspido pelo inferno seria capaz daquela atrocidade. Diante de todo aquele sangue e espetáculo de morte, ninguém se sentia pronto para contradizer essa noção.

Moledo relatou que mais tarde procurou explicação para o que havia sucedido. Ainda que absurda, a descrição da criatura demoníaca, acabou sendo repetida por três testemunhas que juraram ter visto uma fera de corpo sinuoso e escuro correndo pelo porto, oculta pelas sombras. Ninguém se interpôs no caminho dela e todos sentiram que se o fizessem, a fera os liquidaria de pronto. Foram categóricos em dizer que ela parecia feita de escuridão, quase uma sombra viva. E na escuridão desapareceu sem deixar rastro e menos ainda paradeiro.

Os cultistas mais furiosos, capturados no interior da Igreja foram escoltados para fora e colocados em algemas e na falta destas, amarrados com cordames. Não reagiam, mas continuavam sussurrando aquelas palavras sem aparente significado. Posteriormente foram levados para uma delegacia e colocados atrás de grades. Moledo não deu detalhes, pois parecia incomodado sobre o assunto e vago ao relatar que fim levaram aqueles sujeitos rudes. Ele contou que não encontraram o Pastor Tapio ou Norberto em lugar algum e assumiram que os dois escaparam. Talvez tenham sabido da batida e nem estivessem no templo em primeiro lugar. Fato é que as pessoas não queriam conjecturar muito a respeito, principalmente depois que alguns sugeriram que o enorme cão negro parecia ter vindo justamente dos aposentos do Pastor Tapio. Superstição e tolice, salientou o Oficial Moledo na carta, como se tentasse ele próprio afastar conceitos sobre os quais é bom não elucubrar em demasia.

Os jornais nos dias seguintes deram amplo destaque ao ocorrido, jornalistas escreveram sobre os acontecimentos e explicitaram o caráter estranho do culto e de seus integrantes. Contudo, foram bastante econômicos nos detalhes mais escabrosos, possivelmente por conta de um pedido expresso de pessoas ilustres que não queriam manchetes mencionando fanatismo no estado. Considerando tudo que aconteceu, foi um verdadeiro milagre a história não ter sido contada na íntegra. Por outro lado, quem acreditaria no que foi relatado, quanto mais sabendo que haviam ainda mais detalhes perturbadores.

Estes detalhes adicionais constavam na carta enviada por Vitorino Moledo ao Reverendo Granberg.  Eram pormenores que deixaram o religioso particularmente incomodado. De fato, ele ficou tão consternado com a história que muitos afirmaram tê-lo afetado a ponto de perder parte de sua disposição e vigor. Até então, o Reverendo era um homem cheio de energia e alegria, tornara-se por conseguinte taciturno e introspectivo. Talvez tenha ponderado muito a respeito de queimar a narrativa nos anos seguintes, e provavelmente o teria feito, se imaginasse que isso pudesse fazê-lo esquecer do incidente. Mas é claro, não poderia! Sentia haver verdade naquelas palavras e não duvidou em momento algum que Moledo ofereceu um panorama fidedigno dos acontecimentos. Não exagerou em nada, talvez pelo contrário, tenha censurado algo que julgou inacreditável.

O primeiro elemento macabro que preocupou o religioso mencionava que após a batida na igreja, as vítimas  naturalmente haviam sido removidos do local. Os corpos acabaram sendo amontoados em duas carroças cedidas por um comerciante de peixe local que as cobriu com uma lona para o féretro. As duas seguiram para uma casa de saúde, onde os corpos seriam preparados para serem entregues às famílias ou sepultados. Por falta de outro método para transportar os cadáveres, a carcaça dos cães negros também foram colocadas numa carroça a fim de serem incineradas conforme ordenou o Oficial Moledo. Entretanto, quando o comboio chegou ao seu destino, houve uma grande surpresa. O enfermeiro incumbido de remover os restos se deparou com um mistério. Encontrou numa carroça mais corpos do que o esperado. De fato, haviam três homens com ferimentos de balas na carroça onde foram colocados os cães. Um destes não era outro além de Norberto, o braço direito do Pastor Tapio. Em contrapartida, dos cães demoníacos não havia sinal e deles nunca se soube.

Em uma cidade pequena é difícil manter tal incidente em segredo. Sempre há alguém que revela o ocorrido, confiando na discrição do interlocutor. Muito se comentou a respeito do sumiço dos cães demoníacos e do surgimento dos corpos nus crivados de balas dentro da carroça. Felizmente, nem todos acreditaram no ocorrido e muitos disseram que se tratava de exagero ou de uma mentira deslavada. Muitos optaram por assumir uma coisa ou outra. Na impossibilidade de se explicar aquilo que não ten explicação, melhor duvidar de tudo.

O corpo de Norberto e dos outros dois homens não identificados foram enterrados em um terreno colado ao cemitério, sem identificação ou lápide. Foram simplesmente jogados ali numa vala e cobertos de terra.

O segundo detalhe perturbador ocorreu no dia seguinte. Uma vez esvaziado, o Templo foi revistado e de dentro dele começaram a ser trazidos alguns objetos de natureza inquietante. O incansável Oficial Moledo tomou parte nessa ação, coordenando o esforço. Alguns civis se ofereceram para ajudar, mais por curiosidade a respeito do que existia ali dentro do que qualquer outra coisa. No entanto, bastava uma olhada nas salas para que o ânimo deles arrefecesse. Havia uma aura ruim ali dentro e mesmo sem ninguém que os ameaçasse, as pessoas ali se sentiam intimidadas.

Na lista de objetos apreendidos constavam estranhas estátuas de aparência bizarra, coisas esculpidas em madeira, pedra e bronze, com figuras estranhas que suscitaram dúvidas quanto ao que o escultor quis representar. Algumas delas eram estranhas além da conta e um dos homens ao vê-las correu para fora dizendo que não ficaria nem mais um minuto naquele antro.

No aposento que pertencia ao Pastor Tapio, encontraram bíblias que nas palavras do oficial "não eram exatamente bíblias". Ele as descreveu como tomos volumosos de páginas amareladas com capas emboloradas repletas de desenhos medonhos. Estavam escritos em latim e outros idiomas que o oficial não foi capaz de decifrar. Contudo, ele não precisava compreender o que diziam para saber que aquelas páginas malditas estavam cheias de maus agouros. De fato, meramente folhear o material fez-lho ordenar que alguém ateasse fogo àquilo. No Templo em si recuperaram um cálice, uma faca de lâmina recurva e uma bacia de cobre, tudo manchado de sangue seco. Moledo mandou que destruíssem e queimassem tudo aquilo e só fez ressalva para alguns itens que recolheu e mais tarde colocou em uma caixa para remeter ao Reverendo Grenberg. Estes, chegaram às mãos do religioso algumas semanas mais tarde. Na caixa junto com o relatório estava uma daquelas "bíblias", um crucifixo enrolado num pano vermelho e a mitra que o Pastor usava.

O livro sem título chamou a atenção de Grenberg que folheou o volume incapaz de disfarçar o desgosto que sentia. A coisa era medonha, escrita em vários idiomas - que iam do latim ao português, do alfabeto cirílico a outros que ele sequer foi capaz de compreender. Haviam ainda incontáveis caligrafias que denotavam que passara de mão em mão ao longo de gerações. O conteúdo era pavoroso pelo pouco que o Reverendo conseguiu entender, trazia uma versão ainda mais blasfema das crenças da Seita, com trechos que o fizeram sentir náuseas. As gravuras eram grosseiras, mas com um poder latente de causar choque e asco. As cenas remetiam a rituais, quase todos sanguinolentos e de uma natureza atroz. Cães e lobos figuravam em várias páginas, destacados como os Predadores à serviço de um Deus vingativo e intempestivo, dado a arroubos de cólera e fúria. 

Contudo, foi o crucifixo que fez o Reverendo Grenberg quase perder o rumo. A peça estava embalada em um pano vermelho com glifos bordados. Era um objeto pesado e grotesco feito de madeira talhada (na cruz) e bronze moldado (na imagem). Era muito antigo, disso tinha certeza, verdadeiro artefato digno de museu. Representava um Cristo crucificado como os que são vistos na parede de qualquer casa cristã. Contudo, havia uma diferença marcante absolutamente blasfema naquele item: a cabeça do Cristo havia sido substituída pela de um cão. Uma besta nefasta similar à descrição daquelas feras abatidas no templo.

O Reverendo levou o crucifixo até seu escritório onde a mantinha trancada numa gaveta. Sempre que o analisava, o fazia com a porta trancada, retornando acabrunhado da experiência. Não desejava que mais ninguém visse a coisa profana, pois temia pela sanidade dos que pousavam demasiadamente os olhos nela. Averiguou que haviam inscrições no verso da cruz, em algum idioma desconhecido, supostamente os mesmos símbolos desconhecidos contidos no tomo. Talvez não saber o que dizia fosse melhor para todos.

Uma das poucas pessoas que teve acesso ao objeto foi justamente o biólogo João Forlan que visitou o amigo no ano seguinte. Ouviu atentamente a narrativa, leu o relatório e manipulou os artefatos mesmo depois do Reverendo dizer que aquelas coisas tinham a capacidade de atrapalhar o sono e causar pesadelos. Forlan copiou os símbolos cabalísticos e se encarregou de pesquisar suas origens. Disse que os símbolos remetiam aos que ele havia visto nas paredes do templo quando esteve na Assembléia um ano antes.

Nas suas pesquisas ele encontrou indícios de que os glifos estavam associados a um culto obscuro da Europa Oriental, "O Culto do Cão" oriundo do Norte da África. Este se espalhara por outras partes do globo, levado por seus cultistas. A Seita era devotada a uma divindade do Submundo, associada ao Deus Egípcio Anúbis e com a divindade Suméria Bau, ambos deuses com cabeça canídea. Ambos estavam ligados a Sirius - não por acaso uma estrela azul importante em tradições místicas. O Deus, no entanto, era ainda mais antigo e seu nome jamais era revelado. Diziam que a divindade também era reverenciado pelos temidos ghûls, os escavadores das profundezas que se fartavam com a carne dos mortos. Seus seguidores humanos eram dados a rituais terríveis que incluíam necrofilia, canibalismo e outras perversões. Em tempos idos ficaram conhecidos por lançar bebês recém nascidos nas presas de cães ferozes. Seus mitos eram descritos em livros raros, guardados em bibliotecas restritas. Forlan vasculhou esses lugares em sua busca e apurou outros detalhes. Rumores dando conta de que o culto ainda existia e que fora carregado para o Novo Mundo, atingindo terras distantes onde se entranhou na sociedade assumindo certos elementos de sincretismo religioso.

No fim, João Forlan acabou perdendo o interesse no assunto e se radicou na América em meados de 1923. Deu-se por enojado a respeito do tema, incapaz de prosseguir nele sem arriscar sua saúde física e mental. Ele faleceu em 1928, na Epidemia de Gripe espanhola que assolou Boston.

Triste sina também acompanhou os demais envolvidos no incidente que jamais conseguiram se desvencilhar de sua participação no ocorrido. O Reverendo Grenberg viveu pouco mais de cinco anos, falecendo no início de 1924 depois que um derrame deixou o lado esquerdo de seu corpo paralisado. Era acometido por frequentes pesadelos nos quais se via perseguido por uma fera de aspecto sombrio. Acordava aos gritos com frequência. Um dos seus últimos atos foi enviar a carta, o livro e o Crucifixo para um dos seus superiores clericais. Seu intuito era de que este tomasse ciência do ocorrido e se manifestasse a respeito. Até onde se sabe, a carta chegou à pessoa escolhida, mas se ele esta a levou a sério ou não, quem pode saber? O material supostamente permanecem em poder da Diocese de São Paulo.

O último personagem envolvido no incidente, o Oficial Portuário Vitorino Moledo responsável pelo relato faleceu em 1919, pouco menos de um ano após os eventos no Porto de Antonina. As circunstâncias de sua morte foram consideradas trágicas, e embora incomuns, não ensejaram investigação oficial, embora muitos a tenham considerado estranha a ponto de demandar tal coisa. Não existem muitos detalhes, mas sabe-se que o oficial não retornou de uma diligência ocorrida em um porto de Santa Catarina. Os rumores dão conta de que em algum momento durante uma inspeção na área de Navegantes, ele foi vítima de pessoa, ou pessoas que o atacaram, possivelmente com o intuito de roubá-lo. Testemunhas afirmaram ter visto o oficial cercado de três ou quatro homens armados com facas e porretes. Após ser agredido ele teria sido colocado em um barco que deixou o porto às pressas. Algumas pessoas revelaram algo curioso, afirmando ter ouvido muitos latidos e uivos na noite em questão. Uma testemunha teria ido mais longe, afirmando ter visto uma Besta se esgueirando nas sombras naquela na data fatídica. Mas como diferenciar exageros de fatos?

Seja lá o que tenha acontecido, Moledo sumiu e não se soube mais dele. Alguns amigos e parentes próximos contaram que o Oficial Portuário vinha agindo de maneira preocupada, sempre olhando por cima do ombro, reparando em quem estivesse próximo. Carregava no bolso uma pistola a partir de então, afirmando que com ela se defenderia de agressores que um dia haveriam de procurá-lo. Quando perguntado a respeito de quem seriam, ele não respondeu às indagações. Aqueles que eram mais íntimos dele afirmaram que ele parecia esperar esse confronto, dando-o como certo. Apesar das testemunhas, a falta de suspeitos tornou o crime difícil de ser resolvido. No final das contas, assumiram que o gênio irascível do Oficial e sua famosa retidão moral acabaram incomodando algum criminoso mais ousado.

É claro, os jornais noticiaram o fato e lembraram de sua participação na Batida no Porto de Antonina, mas não houve muitos que fizessem a conexão necessária para presumir crime de vingança. Um repórter chegou a mencionar que um Culto semelhante àquele que se instalou em Antonina havia se fixado no Norte de Santa Catarina, novamente em um porto. Mas, o autor não confirmou a fonte da notícia, se limitando a citar pessoas que viviam na área, gente simples que reclamava de uivos e rosnados nas noites em que a tal congregação se reunia sempre à portas fechadas para realizar seus rituais. O que se passava naquele lugar permanece mistério que ninguém soube explicar.

Passado o terror que se instalou no Porto de Antonina, as coisas voltaram aos poucos à sua normalidade. A vida dura nas docas demandava que as pessoas deixassem de lado os boatos e se concentrassem no dia a dia. Logo, mesmo aqueles que testemunharam os fatos começaram a deixar de lado o assunto, tornando-o dentro de algum tempo um simples rumor e mais tarde uma história de pescadores na qual era difícil de acreditar. Talvez o fato do antigo depósito na Ponta do Felix ter se incendido poucos meses depois tenha contribuído para a história ser gradualmente esquecida. Houve suspeitas de que os próprios trabalhadores das docas atearam fogo ao lugar como se vê-lo arder em chamas fosse um remédio contra as más lembranças que a sua presença incômoda conjurava. Ninguém assumiu a façanha, mas com certeza ela serviu para fazer a pequena comunidade dormir melhor.

Contudo, mesmo hoje, quando o som de latidos e uivos se faz ouvir em Antonina, os mais velhos que lembram daqueles dias estranhos se voltam para a Ponta do Felix preocupados com o que ali existia.





quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A Narrativa do Oficial Moledo - Um estranho relato de profanação e horror


Nos primeiros meses de 1916, um estranho visitante chegou ao Porto de Antonina no litoral Leste do Paraná. Muito pouco se sabia a respeito dele, além de que havia viajado desde a Bacia do Rio da Prata e que havia chegado à bordo de um pequeno navio de passageiros. O sujeito era estranho, com um olhar nervoso que parecia sempre examinar atentamente os arredores. Sua barba escura crescia sem cuidado e suas roupas estavam amarrotadas. Ele falava com um sotaque estranho e embora dominasse o idioma local, pontuava suas frases com estranha reticência. 

O homem, como alguns logo ficaram sabendo, era uma espécie de pastor itinerante. Ele viajava de porto em porto pregando e fazendo discursos religiosos. Naquela época isso era bastante comum, embora a maioria das pessoas não se desse muito ao trabalho de ouvir as palavras desses pregadores sem um endereço fixo. Os rudes e atarefados trabalhadores das docas também davam pouca importância a eles. Contudo, aquele forasteiro tinha definitivamente algo de diferente. Já na embarcação em que havia chegado, reuniu um pequeno grupo de seguidores, consistindo em sua maioria de imigrantes e alguns calejados pescadores locais. O bando era visto frequentemente rezando e repetindo palavras em castelhano, no idioma açoriano, num português quebrado ou noutros tantos dialetos. A maioria dos que passavam, davam de ombros e continuavam com seus afazeres. Mas alguns paravam para ouvir, sobretudo os mais desesperados.

Semanas se passaram e quem prestava atenção percebia que o grupo composto à princípio de meia dúzia de pessoas havia crescido. Tinham se tornado pouco mais de uma dezena, depois duas dezenas e então uma pequena aglomeração formada por algo entre 30 e 40 indivíduos. O estranho pastor, que chefiava o grupo falava e falava, as pessoas que o seguiam repetiam, sorriam, choravam e davam socos no peito. Era estranho, mas não particularmente bizarro. Vestiam-se de forma austera sempre de preto, os homens na frente, as mulheres e algumas crianças mais atrás. 

Em tempo, a estranha congregação se transferiu para um depósito abandonado nas docas da Ponta do Felix, prédio que havia se incendiado fazia algum tempo e cujas ruínas enegrecidas não tinham serventia para ninguém. Os marinheiros e estivadores até ficaram satisfeitos ao ver o grupo saindo do caminho, os oficiais portuários deram graças pois era um incômodo ter de lidar com aquela gente mau encarada que olhavam com raiva quando advertidos a não atrapalhar o funcionamento do porto. Felizmente, os encontros da congregação passaram a ser realizados à noite, quando as docas ficavam quase desertas e ninguém se sentia incomodado por eles. De fato, o grupo reformou o depósito, limpou a fachada e começou a restaurar o lugar em ruínas. Havia menos mendigos nas ruas e mesmo nas docas as coisas pareciam mais organizadas. Certo dia, alguém percebeu que haviam colocado sobre o portão de entrada uma placa onde se lia: "Primeira Congregação dos Verdadeiros Mistérios".

Poucos anos mais tarde, um estudante chamado João Henrique Forlan viajava pela área com intuito de coletar animais, visto que era biólogo. Dava especial interesse ao ramo da entomologia, o estudo e catalogação de insetos. Além de seus estudos de entomologia, ele também escrevia extensivas narrativas a respeito de tradições locais e folclore. Suas observações detalhadas e repletas de colorido permitiram que colecionasse vários colegas com quem mantinha correspondência regular.

Ao retornar para casa, Forlan escreveu uma carta particular ao Reverendo Emanuel Granberg um amigo de longa data que residia em São Paulo onde prestava trabalho na Diocese da cidade. Na carta ele descrevia um estranho culto que havia conhecido em sua excursão a Antonina. Granberg havia nascido no Leste do Paraná e embora não residisse mais lá, continuava sendo um homem respeitado que mantinha contato com suas raízes. Curiosamente, ele nada sabia a respeito da Congregação descrita pelo colega.

Na carta Forlan manifestava uma profunda preocupação com suas descobertas e pedia conselho ao Reverendo sobre o que fazer. Ele descreveu um encontro com um velho marinheiro bêbado (ou talvez louco) que dizia fazer parte de uma congregação diferente. O homem, em troca de um prato de sopa, contou que a congregação se diferenciava de todas as outras uma vez que venerava a verdadeira forma de Deus. O chefe do Tabernáculo era um homem santo, um Pastor itinerante que chamava a si mesmo de Tapio e que revelava durante suas pregações os mistérios desse Deus. 

As palavras do marinheiro não eram muito coerentes, assegurava o estudante, mas a narrativa entusiasmada, pelo que ele conseguiu entender, envolvia uma Estrela Azul de onde Deus havia vindo na companhia de anjos, para lutar com uma raça de Gigantes na aurora dos tempos. Os tais Gigantes haviam escravizado e abusado dos homens por milênios e Deus prometeu interceder por eles. A batalha teria sido monumental, e os homens por pouco não foram extintos, visto que os Gigantes, cruéis e perversos, matavam os que se bandeavam para o lado de Deus. A tal batalha teria durado séculos e no fim os Gigantes foram derrotados. Contudo, Deus estava exausto e decidiu partir para dormir e se recuperar, deixando os anjos para zelar pelos homens. Infelizmente, nas palavras do marinheiro, os homens haviam se esquecido da luta e passaram a venerar falsos deuses, ignorando o Deus verdadeiro que quase foi esquecido. A Congregação era, segundo ele, uma Igreja criada para restaurar a crença no único e verdadeiro Deus, que estaria prestes a despertar.

Forlan achou a história curiosa, pediu mais detalhes e o homem, secando a sopa que escorria do queixo e da barba, forneceu a direção até o Templo dos Verdadeiros Mistérios. Ao chegar lá, o estudante foi recebido por um grupo de pessoas que o olharam com desconfiança, ele pensou consigo mesmo que mais pareciam mendigos, com roupas pretas remendadas. Quando disse que queria entrar para conhecer a paróquia lhe informaram que estava fechada para estranhos e que interessados em conhecer a igreja, só eram admitidos em uma noite específica. Como ele ficaria na cidade por mais uma semana poderia participar do encontro, já que este aconteceria dali poucas noites.

No dia combinado, Forlan compareceu e foi recebido por um grupo bem mais amistoso, ainda que igualmente mau encarado. Eles ficaram claramente surpresos em conhecer alguém que se dizia um acadêmico, visto que a maioria dos membros vinham de classe muito baixa. De fato, João Forlan percebeu que os outros que lá estavam pela primeira vez, pareciam vagabundos, mendigos e imigrantes. Ele e os demais visitantes tiveram o mesmo tratamento e foram convidados a depois da missa fazer uma ceia no refeitório do templo. Até então Forlan não havia percebido nada de anormal na congregação, apesar das pessoas parecerem estranhas, não havia nada que o incomodasse sobremaneira. O salão paroquial era amplo e com cadeiras dispostas aqui e ali, diante de uma espécie de palco de paquete. As paredes pintadas de roxo eram decoradas com estranhos símbolos geométricos amarelos que ele não conseguiu reconhecer. Não havia altar, mas um pequeno púlpito de onde o Pastor se dirigia aos fiéis. Parecia uma igreja humilde, como qualquer outra, mas sua opinião mudou quando o Reverendo Tapio lhe foi apresentado.

O homem usava uma túnica cerimonial preta com escapulário remendado, um tipo de estola roxa bordada com aqueles símbolos e um ridículo chapéu de tecido que lembrava uma mitra. Não era nativo dessas paragens, com toda certeza e Forlan assumiu que fosse provavelmente um imigrante ucraniano, polonês ou mesmo russo. A maioria esmagadora dessas pessoas, gente reservada e esforçada, veio parar por aquelas bandas por conta dos fluxos migratórios. Buscavam oportunidades de trabalho em terras distantes e tinham uma vida dura e honesta. Mas havia alguns entre eles com outros interesses, como constatou Forlan. Tapio tinha uma barba escura que crescia selvagem pelo rosto comprido e seus olhos azuis reluziam com incrível poder de persuasão. Era alto e seu traje austero lhe concedia uma aparência ainda mais esguia e autoritária. 

O biólogo não simpatizou com o homem, embora não fosse capaz de precisar o motivo. Ele foi cortês e apertou sua mão com firmeza, olhando-o olho no olho quando as apresentações foram feitas. O Pastor não sorriu ou manifestou satisfação em conhecê-lo em momento algum, manteve um frio distanciamento pouco condizente com um religioso. Não lhe faltava carisma, não era isso, ponderou, era mais, uma flagrante ausência de empatia. 

Foi quando o Pastor Tapio falou, que Forlan se sentiu mais perturbado. Não apenas pelo que ele disse (e o que ele disse foi suficientemente estranho), mas como ele escolheu dizer. Há palavras que carregam peso e batem fundo na alma produzindo resultados inesperados. Aquele homem sabia como se comunicar e como ser convincente, mesmo que falasse absurdos. Era positivamente um fanático e suas palavras estavam repletas de um zelo messiânico virulento - o tipo de coisa que fazia os de mente fraca se mutilar, sacrificar e pior, matar quem deles discordasse. Ao discursar e apresentar os dogmas de sua estranha crença, o Pastor Tapio jamais ergueu sua voz, mas tinha uma determinação e seriedade, que traduziam um tom implícito de grave ameaça. Aquilo incomodou tanto o biólogo que ele considerou deixar o recinto e só não o fez por temer que alguém se sentisse ofendido pela atitude. Decidiu que seria de bom tom ficar lá até o fim, mesmo que as palavras transbordassem com insânia.

O Pastor Tapio revelou sua versão apocalíptica da Guerra entre seu Deus e os anjos, travada contra os Gigantes. Mas revelou detalhes que o marinheiro bêbado havia deixado de fora. Forlan lamentou que o tivesse feito, do contrário ele teria simplesmente ignorado o convite para conhecer a Congregação. Ao ouvir o discurso, ele prestou atenção na expressão de quem estava em volta e percebeu faces transfiguradas pela cega devoção e inabalável crença naquela fábula bizarra.

Para Derrotar os Gigantes, disse o Pregador Tapio, Deus havia ensinado a alguns homens seus mais profundos segredos, sendo o maior deles a transformação no que ele chamava de "feras". Essa habilidade havia sido transmitida apenas a alguns sacerdotes imbuídos de preservar esse conhecimento sagrado. Tapio alegava que aqueles com a habilidade de mudar sua forma tinham em suas veias correndo sangue divino. Para dividir com o restante da congregação esse sangue, o grupo realizava um tipo de Eucaristia na qual, ao invés de pão e vinho representado o corpo e sangue do salvador, os participantes bebiam o sangue do próprio Pastor. Forlan viu um cálice de metal baço e ensebado ser passado entre os membros mais importantes da congregação, que cerimoniosamente bebiam dele. Sorviam o que quer que estivesse ali dentro com respeito e reviravam os olhos até que só o branco deles ficasse à mostra. Com alívio ele soube que novos membros não tinham permissão de pousar os lábios no cálice.

O Pregador proclamou que o sangue servia para operar a mudança e fazer com que os escolhidos pudessem se tornar feras quando chegasse o momento. Ele disse ainda que o despertar de Deus estava próximo e que quando este acordasse apenas uns poucos, os que realmente acreditavam, estariam ao seu lado. Os demais, seriam punidos por serem ímpios, e caberia aos fiéis levar a esses inimigos a redenção. "Não somos as ovelhas do rebanho, somos as feras que caçam para o Deus Verdadeiro", proclamou em determinado momento, para júbilo geral.

Após o culto, o Pastor se retirou e a ceia foi servida conforme prometido. Membros da seita perguntaram a Forlan o que ele havia achado e o biólogo pensou que seria melhor manter sua opinião para si, se limitando a dizer que achara interessante. Os outros iniciados naquela noite, contudo pareciam convencidos das palavras do Pregador, mais ainda, estavam dispostos a retornar para assumir um lugar como parte do Culto.
    
Em sua carta ao Reverendo Emanuel Granberg, o biólogo João Forlan havia deixado claro a estranheza do culto, que ele acreditava contar com talvez uma centena de adeptos. Seu temor era que esses fanáticos pudessem mais cedo ou mais tarde cometer algum ato temerário. A região já havia sofrido com movimentos messiânicos que ensejaram levantes radicais e que descambaram para a violência. Bandos formados por fanáticos foram responsáveis por episódios traumáticos bastante recentes, em especial o Contestado, cujas cicatrizes ainda estavam abertas vertendo amargor.

O Reverendo agradeceu a Forlan pela carta e tratou de se informar sobre o que acontecia. Para tanto, entrou em contato com parentes que moravam nos arredores de Antonina e perguntou se sabiam algo a respeito da estranha congregação que se estabeleceu na Ponta do Felix. A resposta não tardou a chegar. Na carta uma parente distante, que tendia ao exagero (conforme reconhecia o próprio Reverendo), mencionava que as pessoas não sabiam exatamente do que tratava a Igreja surgida nas docas, mas que muitos desconfiavam do Chefe da Congregação, um sujeito taciturno que alguns tratavam como demente, mas que outros tinham como um homem santo. 

Diziam que ele comandava o lugar, frequentado por toda ordem de maltrapilhos e indigentes, alguns envolvidos com contrabando, jogo e prostituição, coisas infelizmente endêmicas em toda zona portuária. Havia no entanto, coisas ainda mais sérias que foram comunicadas como rumores, mas que faziam o povo de Antonina perder o sono e se preocupar. Primeiro eram os sons e ruídos misteriosos ouvidos na calada da noite - pareciam uivos, conforme mencionavam, lamentos longos que reverberavam pelo porto. Alguns se enervavam com aquela algazarra e já haviam reclamado, se perguntando se os fiéis mantinham animais no templo.  

Outro boato inquietante dava conta de estranhos desaparecimentos e de violência contra quem falava mal da Igreja. Alguns tinham medo e evitavam passar pela Ponta do Felix sobretudo à noite. A série de rumores atingiu o auge quando um fiscal das docas, que havia tido um entrevero com membros da congregação, sumiu. Seu corpo nu e mutilado foi içado das águas lamacentas menos de três semanas antes da Carta do Reverendo chegar e o incidente causou rebuliço. Embora muitos desconfiassem dos paroquianos, não havia provas que os ligassem ao ocorrido. Estranhamente, o corpo tinha ferimentos condizentes com mordidas de cachorro e uivos foram ouvidos na noite em que o fiscal sumira. As autoridades não sabiam o que pensar e os residentes estavam amedrontados. 

Mas além dos rumores, parecia haver algo mais... algo que os parentes do Reverendo alegaram não querer se aprofundar para que o parente da cosmopolita São Paulo não os tomasse como tolos supersticiosos de uma cidade provinciana. Se limitaram a afirmar que a seita estava metida com algo ruim e deveras reprovável. 

Granberg conversou com alguns conhecidos, gente importante de quem cobrou providências. Na época, o medo de levantes motivados por miseráveis com inclinação religiosa era palpável. Ninguém queria outro "monge" José Maria insuflando agitação popular. Prometeu-se investigar o caso, mas nada de concreto foi apurado. Sim, o culto era estranho e sim, a maioria das pessoas torcia o nariz para suas atividades, contudo não havia nada que corroborasse as suspeitas de algo mais sério. A solução para a angústia do Reverendo veio de um lugar improvável, através de um Agente Portuário da vizinha Paranaguá, um sujeito chamado Vitorino Moledo. 

Moledo tinha fama de incorruptível a ponto de não aceitar os agrados dados por contrabandistas que usavam o litoral sul para escoar suas mercadorias. Colecionava desafetos e efetuara uma quantidade impressionante de prisões e apreensões de carga ilegal. O Reverendo entrou em contato com Moledo por indicação de um amigo em comum. Na carta destacou habilmente que membros da Igreja estavam envolvidos em atividades ilícitas que justificavam uma investigação criteriosa. Ao que parece, já havia uma suspeita e a carta vinda de São Paulo, acrescida do nome de alguns políticos influentes, deu o empurrão necessário para colocar as autoridades em movimento. 

O Reverendo Granberg ficou sabendo da tragédia que transcorreu no Porto de Antonina alguns dias depois. Leu em jornais da capital pequenas notas de rodapé sobre uma confrontação ocorrida em sua cidade natal e buscou saber mais. Todas fontes diziam que policiais e membros de uma seita haviam se enfrentado e pessoas dos dois lados haviam morrido e se ferido. Contudo a ausência de detalhes, o deixava incomodado. Cogitou seguir para o Paraná assim que possível, para se inteirar em primeira mão sobre o que acontecera. Só não o fez pois chegou até seu endereço uma inesperada caixa de madeira, remetida pelo Oficial Portuário Vitorino Moledo. 

O pacote entregue às pressas continha objetos confiscados na Igreja e um relato detalhado dos acontecimentos sucedidos antes e depois da batida efetuada no lugar. Incapaz de interpretar o que eram aquelas coisas e ainda perturbado pela maneira como a ação transcorreu, o Oficial considerava ser melhor o Reverendo decidir o que fazer. Recomendava, no entanto, que ele destruísse aquilo tudo, o que ele, Moledo, só não fez por achar que cabia a um religioso interpretar o material. No relato transcrito por Moledo, composto de 20 páginas manuscritas, havia a menção de que os objetos foram confiscados na ação conduzida por ele no Templo, ocasião em que policiais e suspeitos acabaram mortos e outros tantos feridos. Policiais também acabaram afastados permanentemente de suas funções. O próprio Moledo afirmava que não fosse sua obrigação profissional, preferia não ter tomado parte na diligência. Ele mesmo reconhecia estar confuso com a situação que sobreveio à batida policial. 

"Se pudesse escolher, preferia jamais ter tomado parte naquilo, pois me sinto assombrado pelo que vi naquele antro" comentava na caligrafia impecável que introduzia o material despachado. "De toda forma, penso que lhe devo satisfação dos acontecimentos para sua ciência", ponderava antes de iniciar a transcrição dos eventos conforme segue.

(continua)

terça-feira, 5 de novembro de 2019

"A Coisa na minha cabeça" - Uma narrativa arrepiante de terror e agonia


Eu encontrei essa história por acaso na internet e quando comecei a ler lembrei imediatamente de onde já havia ouvido ela anteriormente. Nos anos 1970-80 havia uma antiga série de televisão chamada Galeria do Terror (Night Gallery). Essa série, apresentada por Rod Serling, o criador de Além da Imaginação (Twilight Zone) se dedicava mais ao horror e suspense, trazendo algumas histórias realmente aterrorizantes. Algumas delas se tornaram verdadeiros clássicos com excelentes roteiros além de elenco e direção afinados.

Um dos meus episódios favoritos era justamente a respeito dessa narrativa. O título original é "The Earwig" e o conto foi escrito por um autor britânico chamado Oskar Cook.

Trata-se de uma história especialmente perversa e engenhosa que me deixou apavorado quando eu era criança e que até hoje me dá calafrio.

*     *     *

Em meados de 1880, na Ilha de Bornéu, havia um inglês chamado Clifford Macy, jovem, bonito e muito vaidoso. Ele se imaginava como um presente de Deus para as mulheres e costumava se gabar do seu sucesso com o sexo oposto.

Macy era proprietário de uma plantação de tabaco, seu amigo e sócio de negócios era outro inglês chamado Leopold Warwick. Apesar de velho e gordo, Warwick tinha uma esposa chamada Kate, muito bonita e jovem que despertava o desejo de todo homem que a conhecia.

O Casal Warwick e o Sr. Macy dividia uma grande mansão próxima da plantação. Macy dormia no primeiro andar, enquanto Warwick e Kate usavam o andar de cima.

Era estação das chuvas e havia muito pouco o que fazer naquele canto isolado do mundo. Macy estava entediado e não conseguia encontrar nada que o entretece. Com o passar do tempo, ele acabou cada vez mais atraído pela esposa do amigo e começou a cortejá-la.

Macy até tentou se aproximar de Kate, mas a moça muito recatada não desejava ter nada com o sujeito. Ela chegou a lhe passar uma descompostura, mas o homem via conquistá-la como um tipo de desafio doentio. Kate preferiu não incomodar o marido, mantendo em segredo os avanços inapropriados do sócio. Certa noite, Warwick teve de se ausentar em uma visita num vilarejo e Macy tentou beija-la à força, mas ela deu-lhe um tapa na cara com força.

No entanto, Macy não era o tipo de homem que aceitava um não como resposta. Toda vez que ela o rejeitava, ele ficava mais obcecado por ela, até que decidiu tê-la não importando o custo. 

Embora seu coração estivesse ardendo por causa de uma paixão avassaladora, Macy tinha uma mente diabolicamente astuta. Ele concluiu que a única maneira de ter a mulher, seria tirar Warwick da jogada em definitivo e fazer tudo parecer um acidente. Se ela se tornasse viúva por circunstâncias naturais, ele poderia se aproximar e eventualmente ela acabaria por ceder aos seus avanços.

Macy pensou a respeito de como iria se livrar do sócio e traçou um plano medonho.

Vivendo em Bornéu já há alguns anos, ele ficara sabendo de um tipo de inseto, apelidado de Tesourinha, muito comum no interior da ilha. Era uma verdadeira praga entre os fazendeiros que plantam tabaco e chá. O inseto pequeno, tinha um corpo castanho segmentado e uma cauda em forma de tesoura de onde vinha seu nome. O bicho era conhecido por ter um gosto particular por secreções cerosas. Não é de se espantar portanto que ele procurasse se instalar no ouvido interno humano. Os nativos conheciam bem o inseto e quando acampavam na selva tratavam de tampar os ouvidos com um pedaço de pano para evitar esse visitante inoportuno.

Sendo pequeno e leve, o inseto conseguia rastejar sobre o rosto de uma pessoa dormindo sem esta perceber. Naturalmente, ele procurava o ouvido e ia bem fundo através do canal  interno. Eis então sua característica mais temida: A criatura uma vez enfiada no canal auditivo se via incapaz de virar para sair. Sem poder avançar, se instalava lá dentro e então começa a se alimentar da carne macia e tenra do ouvido interno. Isso causava um tormento infernal e em geral resultava na morte do pobre diabo.

Macy pagou a dois nativos uma soma considerável em dinheiro e os instruiu a entrar no quarto de Warwick no meio da noite e colocar um tesourinha no travesseiro do homem. Macy foi dormir aquela noite com pensamentos perversos e imaginou o destino horrível que esperava seu sócio. Sentiu uma ponta de remorso, mas logo o pior dentro dele falou mais alto... lembrou de Kate e sorriu.

Na manhã seguinte, quando desceu para tomar café da manhã, encontrou Warwick que parecia radiante e alegre. Ele observou o velho de perto, procurando sinais de desconforto, mas não percebeu nada!

Nesse momento, Macy sentiu uma estranha sensação de coceira em seu próprio ouvido. Quando enfiou o dedo no ouvido, descobriu que estava sangrando. Saltando da mesa com um olhar de horror, ele gritou:

— A coisa maldita está no meu ouvido!

Ao que parece, os nativos que ele pagou, se confundiram e cometeram um erro terrível e, durante a noite, entraram no quarto do primeiro andar e colocaram a tesourinha no travesseiro do homem errado.

Esse foi o começo de semanas de dor e agonia excruciantes. Não havia nada que o médico pudesse fazer por ele. Macy ficava em seu quarto, amarrado à própria cama para que não acabasse ferindo a si mesmo. Os gritos preencheram a mansão, por dias e noites sem parar.

A tesourinha se arrastava, rastejava e girava dentro da sua cabeça, lentamente levando-o à loucura. Ocasionalmente, quando parava de se mover, Macy conseguia descansar um pouco, mas quando o inseto se movia e devorava seu ouvido interno, mordendo com suas poderosas quelíceras, ele se contorcia em espasmos sofridos.

A dor era tão insuportável que, ser esfolado vivo, queimado na fogueira ou enforcado pelo pescoço teria sido um ato de misericórdia. Macy chegou a implorar para que o médico que vinha vê-lo todo dia a pedido de Warwick, o liberasse de sua miséria.

— De-me algo para morrer... não suporto mais essa tortura! gritava.

Foi então que algo muito inesperado aconteceu. Milagrosamente, a tesourinha rastejou para fora, emergindo pela outra orelha do homem. Aquilo era extremamente raro e todos ficaram aliviados pelo milagre. Macy chegou bem perto da morte, mas conseguiu sobreviver ao tormento. Surdo e meio louco, é bem verdade, mas ainda assim poderia se recuperar.

Assim que ficou bem o suficiente para conversar, o médico entrou no quarto para vê-lo:


— Creio que tive muita sorte.disse Macy, ao médico que permanecia taciturno na porta.


— Temos de conversar Sr. Macy... disse o homem reticente, como se estivesse inseguro.


— Pode falar, Doutor, estou pronto para aceitar o fato de que ficarei surdo já que a criatura comeu meus tímpanos.disse enojado.

Não é isso... há algo mais, algo que você precisa saber.

Como assim!? O que você quer dizer com isso!?


— Veja bem, eu analisei o inseto que rastejou para fora do seu ouvido e o coloquei no microscópio... bem, a tesourinha era uma fêmea… disse o médico pesarosoe ela botou ovos dentro de seu ouvido!

E nesse momento, algo dentro da cabeça do Sr. Macy eclodiu, e ele sentiu uma coceira que seria incapaz de coçar e um terror do qual jamais iria se recuperar. 


quarta-feira, 30 de outubro de 2019

O Clã dos Whateleys - Notas sobre a Família mais estranha de Dunwich


Dentre os personagens mais estranhos criados por H.P. Lovecraft sem dúvida o Clã dos Whateley merece destaque.

Essa família de degenerados que habitava os arredores do decrépito povoado de Dunwich em uma das partes mais remotas do interior da Nova Inglaterra, ousou realizar um experimento blasfemo. Desta experiência resultou o nascimento de não apenas uma, mas duas aberrações inomináveis cujo parentesco direto estava ligado a um Deus Exterior - Yog-Sothoth. Este artigo examina esse estranho parentesco e tenta compreender o que aconteceu quando um Deus fertilizou o útero de uma mulher humana gerando nela suas crias.    

O Clã dos Whateley era originalmente formado por Noah Whateley, também conhecido como Velho Bruxo Whateley e sua filha albina Lavínia que segundo alguns era "lenta" ou seguindo o jargão da época "retardada". Os dois viviam em uma pequena propriedade formada por um casebre de alvenaria que mudou pouco ao longo de décadas de ocupação, mas que recebeu grandes acréscimos quando os planos de Noah começaram a frutificar e ele viu a necessidade de expandir o segundo pavimento afim de fornecer uma habitação adequada aos seus "netos".

Todas as menções até então aos Whateley são reticentes já que o "bom povo da Nova Inglaterra" tem uma tendência a se manter distante dos assuntos familiares alheios. Contudo, parece que no caso do estranho clã, foi impossível o povo de Dunwich manter silencio diante do que viam. Em um primeiro momento não se sabia quem era a mãe biológica de Lavínia, assim como, num segundo era ignorada a identidade do pai da criança que ela esperava.

Existe uma considerável discussão a respeito do papel do incesto em "O Horror de Dunwich". Lovecraft jamais citou explicitamente se a prática incestuosa existia ou não, deixando essa hipótese em aberto para os leitores concluírem e se chocarem com o mero vislumbre do que poderia estar acontecendo entre quatro paredes na casa dos Whateley. Isso talvez se deva ao fato de Lovecraft ser bastante pudico quanto a assuntos de natureza sexual, ainda que suas histórias busquem na relação sexual matéria prima para situações de horror (a concepção dos abissais, por exemplo).

Parece bastante razoável que o incesto seja um elemento presente na história. É sabido que em regiões isoladas, sobretudo no interior, laços familiares acabam se dissolvendo e relações espúrias acabam se formando com maior frequência do que em comunidades onde os olhos de estranhos, passíveis de crítica, estão à toda volta.

Para suportar essa hipótese há alguns indícios contidos nas entrelinhas do próprio conto. 

Primeiro o fato de Lavínia ser albina e ter deformidades levanta um questionamento a respeito de sua origem já que albinismo no início do século XX estava intimamente associado a incesto. Contudo, hoje sabemos que essa característica não indica necessariamente um elemento consanguíneo. É verdade que incesto de qualquer espécie aumenta a probabilidade de manifestação de genes recessivos, como os que caracterizam o albinismo, porém o albinismo pode se manifestar em outras circunstâncias que não necessariamente incesto. A condição de albinismo está associada a duas características distintas: na produção do pigmento melanina e no tipo sanguíneo. Portanto, embora a manifestação de características recessivas possa ser um indicativo, não é uma certeza de incesto.      

Existem entretanto outros indícios. Quando Curtis Whateley, um membro não degenerado da família vê a criatura ele comenta haver uma semelhança macabra entre ela e o Bruxo Whateley. Ele é muito específico nessa descrição, afirmando categoricamente que a criatura não "parece com Wilbur ou com os Whateley em geral, mas que se assemelha ao velho Noah. Isso pode ser um indicativo de que Noah seria mais do que o avô dos gêmeos.

Existe a hipótese sugerida por estudiosos como Robert M. Price de que para impregnar Lavínia, Yog-Sothoth recorreu a Noah Whateley, habitando temporariamente o seu corpo e fazendo com que ele fertilizasse a própria filha. Essa possibilidade é bastante factível já que seria difícil assumir como se daria o contato íntimo necessário para a transferência de material genético de um Deus para uma mortal. Nessa hipótese, Yog-Sothoth faria de Noah seu depositário genético usando-o como um canal para fecundar Lavínia, algo que seria inviável dele realizar por conta própria sem destruir a mulher. Essa explicação parece em concordância com o assumido na história Providence de Alan Moore, no qual vemos Noah tomado pelo Deus tendo sexo com Lavínia.

Nesse contexto, Yog-Sothoth usaria o corpo de Noah para habitar e uma vez dentro dele, manipularia sua genética misturando elementos Seus aos do homem, para gerar assim uma combinação capaz de fertilizar Lavínia. O resultado seria portanto um amálgama do material de Noah e do Deus. Se assim for, pode-se intuir ter havido incesto, ainda que de modo indireto.

Mas vejamos o que sabemos a respeito de Noah Whateley antes de seguir em frente.

O pouco que é sabido a respeito de Noah vem de fofocas e boatos disseminados pelo povo de Dunwich que via de regra preferia manter distância do homem. A razão para isso está ligada diretamente a reputação dele e de seus parentes mexerem com magia negra. O apelido "bruxo" não é um exagero, já que Noah tinha a fama de conhecer encantamentos e conduzir rituais na calada da noite no topo dos montes que circundam o povoado. O "Bruxo" Whateley poderia segundo alguns conjurar as forças do inferno, fazer chover, atuar sobre o clima, encantar, curar ou matar animais e lançar maus olhados fulminantes. Sabendo de sua reputação, não é de se estranhar que muitos preferissem evitar o contato com Whateley e suas práticas excêntricas.

Nas poucas vezes que descia na direção do povoado, as pessoas atravessavam a rua para não encontrá-lo diretamente. Ainda assim, a maioria dos moradores não o discriminava ou atentava contra ele, talvez por medo, mas mais provavelmente por um senso estranho de familiaridade. 

A outra razão para temor dizia respeito a morte da esposa de Noah que permanecia sem uma explicação cabível já que a única testemunha do passamento teria sido o próprio marido. A mulher, cujo nome sequer é mencionado, teria falecido quado Lavínia completou 12 anos de idade, e as circunstâncias permaneceram desconhecidas. De fato, o povo do vilarejo sabia pouco a respeito dela, visto que jamais visitou o povoado e raramente era vista quando alguém passava pela casa. Comentava-se que Noah a mantinha sempre na casa e a proibia de se afastar. Quando muito raramente alguém os visitava, dava desculpas de que ela não estava se sentindo bem e a mantinha longe dos olhos. Por muito tempo houve a suspeita de que a misteriosa esposa de Noah poderia ser uma prima, irmã ou quem sabe até uma filha já que a diferença de idade, segundo alguns, era considerável. Fato é que só se soube da sua morte quando Noah comunicou meses depois em uma de suas raras visitas à Dunwich.

Não é de se estranhar que o fato tenha atraído muita suspeita e desconfiança entre a população. Noah jamais contou onde ela foi enterrada e quais foram as circunstâncias da morte. Mas até onde se sabe nunca houve questionamento formal ou inquérito por parte das autoridades policiais. Vivendo em um arrebalde tão distante e isolado, o que acontece naquela região, não dizia respeito a mais ninguém.

Havia alguma especulação sobre a idade de Noah quando da concepção de Lavínia. Alguns davam a ele 50 anos, mas outros afirmavam que ele já teria passado dos 70. A aparência do homem era de um velho, com barba cerrada e grisalha, ainda que tivesse energia e inquestionável saúde. Era forte e não dava mostras de qualquer limitação imposta pela idade. Alguns diziam que não era exatamente coerente, falava sozinho e murmurava coisas sem sentido.

Curiosamente, apenas após o nascimento de Wilbur, seu neto, é que a saúde até então perfeita começou a degenerar. Talvez isso esteja ligado a hipótese dele ter servido como receptáculo do poder de Yog-Sothoth na ocasião da geração de Wilbur, mas não há como saber ao certo. Noah morreu em 1 de agosto de 1924, 11 anos depois do nascimento de Wilbur e embora a causa da morte tenha sido definida como "natural", é possível que ela tenha sido decorrente de um câncer. Talvez a doença tenha se desenvolvido pela exposição ao poder de Yog-Sothoth, ainda que essa seja apenas uma suposição.
   
Lavinia Whateley pode ou não ter sido resultado de incesto, mas muitas pessoas contavam tal coisa como uma certeza. Assumiam que a esposa de Noah tinha algum grau de parentesco com o marido. Lavínia era descrita como uma menina tímida e arredia que raramente se aventurava além da propriedade do clã. Outros a tinham como "lenta das ideias" e "estranha". 

É provável que o que mais contribuía para essa presunção fosse justamente sua aparência física. Definiam a pobre simplória como extremamente feia. Lavínia era uma moça pequena, frágil e de olhar nervoso, sempre sobressaltada como se tivesse uma visão do mundo particular. Ela falava com uma morosidade característica e não parecia letrada, ainda que tenha sido vista folheando os estranhos livros do pai.

Ela era albina, sua pele e os cabelos desgrenhados eram alvos como a neve, enquanto seus olhos tinham uma coloração pálida cor de rosa. Lavínia era magra, vestia-se de maneira modesta com vestidos simples de juta, remendados e por vezes era vista com os delicados pés sem calçados. Com certeza, embora parecesse frágil, tinha uma boa saúde. Os serviços de casa eram de sua responsabilidade, mas o estado geral da habitação denotava que não era muito esmerada na função.

Ela tinha 35 anos quando Wilbur nasceu e até onde se sabe, assumiu por completo o papel de mãe, ainda que sem demonstrar muito entusiasmo. A identidade do pai foi um mistério escandaloso para o povo de Dunwich por muitos anos, alguns conjecturavam que pudesse ter sido um andarilho ou vagabundo que viu algum encanto na moça atarracada ou então a tomou pela força. Outros sussurravam que Noah teria se aproveitado do isolamento em que viviam para compelir sobre ela suas vontades animalescas. Não se sabia ao certo e ela nunca comentou o assunto.


Tema de muitas discussões e polêmica era o fato de que mais de uma testemunha teria visto Lavínia e seu filho vagando nus pelos campos à noite. A moça se destacava pela brancura de seu corpo que a tornava inconfundível mesmo que à distância. A razão para esses passeios e em que circunstâncias se davam, desafiava uma explicação cabível mas pareciam coincidir com datas místicas. Depois de alguns flagrantes, ela passou a ser mais cuidadosa, ainda que alguns afirmassem tê-la visto próximo de Sentinel Hill, dançando e rodopiando nua no topo do Monte ou levando a criança pela mão. Esses estranhos passeios aconteceriam até Wilbur completar 10 anos.

Lavínia desapareceu da face da Terra em 31 de outubro de 1927. Não se sabe o que aconteceu com ela e Wilbur, última pessoa que a viu, nunca explicou exatamente em que circunstâncias teria ocorrido seu falecimento. Ele também não informou onde enterrou a mãe. A morte de Lavínia foi assunto entre o povo de Dunwich, mas o consenso foi que ela teria morrido de gripe ou outra doença comum. É claro, pesaram suspeitas sobre Wilbur, mas o rapaz tinha apenas 14 anos (embora parecesse ter mais) e ninguém quis tomar a frente para fazer uma acusação formal. Lavínia não era querida, não tinha amigos e quanto menos as pessoas se envolvessem nos negócios dos Whateley, melhor.

A única pessoa que talvez soubesse detalhes sobre o que se passava na casa era uma vizinha de nome Mamie Bishop que visitou a casa em meados 1926. Na ocasião, Lavínia manifestou preocupação a respeito de Wilbur e temor sobre sua segurança, sem no entanto, entrar em detalhes.

De acordo com "O Horror de Dunwich", Lavínia deu a luz a gêmeos como resultado direto de uma estranha e única união sexual com o Deus Exterior Yog-Sothoth. A família teria tentado criar "uma raça à parte", misturando o gene humano e o alienígena.  


Baseado na aparência física e desenvolvimento metabólico de Wilbur Whateley, o gêmeo que veio a ser conhecido elo povo de Dunwich, a presunção não parece muito longe da verdade. Ainda que Wilbur fosse para os padrões gerais "mais humano", algumas de suas características mais aberrantes precisavam ser mantidas ocultas para não chocar as pessoas. Ainda assim, em grande parte sua aparência, mesmo quando criança chamava a atenção.

Desde o nascimento, Wilbur tinha um físico peculiar. Primeiro seu desenvolvimento físico era fenomenal quando comparado a um ser humano normal. Segundo rumores ele já era capaz de andar sozinho aos sete meses e aos onze era capaz de falar, ainda que, com um estranho sotaque. Sua voz e os sons que produzia tinham um timbre incomum que foi se acentuando. Eram sons que pareciam vocalizados por órgãos não naturais.

Testemunhas que afirmaram tê-lo visto na companhia da mãe, Lavínia, nas ocasiões em que os dois foram flagrados dançando nus no topo dos montes afirmaram ter visto algo inexplicável. Na falta de explicação concluíram que ele vestia o que parecia ser uma estranha calça, dotada de drapeados franjados que pareciam farfalhar enquanto ele dançava e saltava. Mas essas testemunhas viram a cena por apenas um momento, tendo como iluminação apenas a luz da lua e de fogueiras, quanto mais à uma distância considerável.

A medida que Wilbur continuou crescendo, sua aparência foi se tornando cada vez mais anormal para uma criança: cabelos castanhos grossos se espalhavam pelo seu corpo, suas feições eram angulares e com uma distinta característica caprina, reminiscente dos míticos faunos ou sátiros da mitologia. Seus lábios eram grossos e carnudos, a pele apresentava marcas amareladas que aos poucos foram escurecendo, as orelhas se tornaram cada vez mais pontudas, assim como o queixo. Seus olhos eram grandes e arredondados, com um brilho estranho que deixava as pessoas que os encaravam incomodadas.

Aos 10 anos, Wilbur tinha a mente, a voz e o corpo de um homem adulto. Ele era alto e corpulento, movia-se com um gingado estranho e parecia pouco à vontade nas roupas apertadas que se obrigava a vestir. As pessoas de Dunwich comentavam que ele sempre aparecia de chapéu, isso porque certa vez o removeu em público e alguns curiosos afirmaram ter visto crescer em sua cabeça o que parecia ser um chifre. As pessoas que se aproximavam o bastante detectavam um odor rançoso e suarento que lembrava o cheiro de animais da fazenda. Não é à toa que animais sensíveis a odores o farejavam de longe. Digno de nota é o fato de que cães o detestavam e latiam sem parar quando ele estava próximo. Nessa idade, Wilbur passou a carregar consigo um revólver que usava para espantar os cães que se aproximassem. Ele detestava os cães tanto quanto eles o odiavam, e reagia com um silvo furioso quando passava por um destes animais.

Aos doze anos, Wilbur já atingia dois metros e seu corpo tinha uma constituição sólida. Ele continuava andando com aquele balanço estranho, mas agora parecia mais centrado e à vontade com sua estatura avantajada. Olhava as pessoas do alto e não desviava mais os olhos; lançava sobre aqueles com quem falava, um tipo de encarada penetrante. Sua voz se tornou mais gutural, cavernosa e retumbante. Sua face apresentava uma barba rala castanha que parecia sujar seu queixo pontudo. As unhas eram sempre bem cortadas, mas os dedos eram curtos e com pontas quadradas.

Em 1928, quando tinha 15 anos, Wilbur Whateley fez uma tentativa fracassada de roubar a tradução latina de Olaus Wormius do livro conhecido como Necronomicon. O volume estava na Biblioteca da Universidade Miskatonic. O cão de guarda da biblioteca o atacou furiosamente, rasgando a sua roupa e deixando aparente sua pele. Com isso, foi possível ver pela primeira vez a anatomia alienígena do rapaz.

A primeira coisa percebido no cadáver sem vida foi a poça de bile verde-amarelada que se formou ao seu redor. O odor dessa substância era nauseante. Esse "sangue" em uma análise científica era similar a "hemolinfa", um fluido que circula pelo corpo de artrópodes. Essa classe de animais invertebrados possuem exoesqueleto, corpos segmentados e apêndices. Diferente de vertebrados, que possuem um sistema circulatório interno que impulsiona o sangue rico em hemoglobina, artrópodes possuem um equivalente chamado hemolinfa que circula por seu interior, nutrindo os órgãos em um sistema aberto. O sistema de Wilbur possivelmente era dessa modalidade.

Também é frustrante reconhecer que seu corpo não deixou ossos ou mesmo crânio e que todos estes se desmancharam como se fossem feitos de uma substância passível de derretimento após o cessamento das funções.

Embora a porção superior de seu torso fosse suficientemente humana em aparência, a parte inferior de Wilbur lembrava pouco a de um ser humano comum. Acima da cintura a pele era rígida e escamosa, com uma coloração amarela nas extremidades, tornando-se mais escura até um preto manchado no centro. Abaixo da cintura, as diferenças se acentuavam com uma concentração de pelos grossos no abdomen, genitália e nas pernas. Ao redor da cintura destacavam-se protuberâncias longas e cinzentas semelhantes a tentáculos com bocas ciliadas avermelhadas. Ao longo dos anos, o povo de Dunwich percebeu estranhas marcas no corpo do Bruxo Whateley e em Lavínia. Aparentemente essas marcas eram similares em tamanho e forma às bocas capazes de sugar na ponta dos tentáculos. Isso pode significar que Wilbur usava os tentáculos para sugar sangue de seu avô e mãe.

Sabemos que a criatura enorme batizada de Horror, se alimentava de sangue fresco. É justo assumir que Wilbur se alimentava de maneira similar drenando porções de sangue que permitiriam a ele tirar sustento.   

Enormes olhos podiam ser encontrados em seus quadris, cada qual circulado por uma série de cílios rosáceos. Esses olhos eram leitosos e gotejantes, de uma coloração preponderante azulada, ainda que, tudo indica, não tivessem utilidade sensorial. Wilbur tinha ainda um rabo longo terminando em uma boca de formação rudimentar. Suas pernas musculosas terminavam em patas sulcadas e repletas de nervuras similar a que poderia ser encontrada em dinossauros herbívoros. Esses estranhos "pés" destituídos de dedos separados poderiam ser a causa de seu gingado característico. A medida que Wilbur lutava para respirar a medida que morria, seus tentáculos e cauda mudavam de cor similar ao que ocorre com lulas e polvos. Embora certas estruturas no corpo de Wilbur parecessem morfologicamente com espécimes terrestres, a aparência geral coletiva era diversa de qualquer coisa que se encontre no planeta.


No momento da morte de Wilbur, seu corpo começou a encolher e desmanchar em um tipo de acelerada decomposição hiper-dimensional. Como muitas "coisas de fora do espaço e tempo", a matéria que compunha o corpo físico de Wilbur não pertencia a essa realidade e necessitava de uma grande quantidade de energia para seu sustento e manutenção. Logo que o organismo se viu a beira da ruína a energia dispendida para essa função foi reduzida e o material hiper-dimensional começou a se dissipar. Outras entidades lovecraftianas, como os Mi-Go e Shoggoth, exibem reações similares quando cessam as funções biológicas deixando poucos traços de sua matéria constitutiva. O mais provável é que essa matéria alienígena se desintegra quando não é suprida de energia.

O nascimento de Wilbur decorre de uma tentativa de Yog-Sothoth de criar uma forma de vida estável constituída de sua própria energia e matéria, o equivalente a nossa "carne e sangue". A criação de um ser vivo como Wilbur que conjugava elementos de duas realidades com propriedades e constantes únicas seria uma anátema para nossa ciência biológica, impossível de compreender e conjecturar do ponto de vista das ciências médicas.

O verdadeiro "Horror de Dunwich" talvez não fosse o monstro imenso e invisível que vagava faminto pelo Vale de Miskatonic, mas a coisa semi-humana que desenvolveu inteligência e persuasão humana. 

Wilbur talvez fosse a real ameaça para a espécie humana. Seu propósito parecia ser abrir o caminho para a criação de uma nova e abominável raça de seres semelhantes a ele próprio. E se os seus planos não frutificaram, foi graças ao acaso e a intervenção de um animal feroz, capaz de captar o mal que ali se ocultava.   

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

A Verdadeira Fera - A incrível vida de Petrus Gonsalvus nas Cortes da Europa


Uma das imagens do artigo a respeito da "verdadeira" fábula da Bela e a Fera sempre me intrigou.

Trata-se da imagem, de uma pintura à óleo renascentista que mostra um homem bem vestido à moda da época, mas com a face completamente tomada de cabelos (é essa encabeçando esse artigo). Não por acaso, a imagem é frequentemente relacionada com o conto de fadas, mais especificamente com a personagem da Fera. Eu já havia visto essa imagem, mas nunca busquei sua origem.

Fiz uma pesquisa e acabei encontrando alguns detalhes a respeito dela. Quem é a pessoa retratada?Qual a sua origem? Como veio a ser retratada já que é algo que demandava muito dinheiro?

A história é mais incrível do que se poderia imaginar. começa na metade do século XVI na França, justamente na coroação de Henrique II. De acordo com registros de época, o jovem Rei recebeu um presente incrivelmente exótico de um dos seus nobres convidados, um "homem selvagem" aprisionado em uma jaula dourada.

"Homens Selvagens", ou woodwose, eram criaturas fabulosas meio-humanas e meio-animais parte da mitologia da Europa medieval. Eles eram retratados como seres cobertos de pelos que se tornavam furiosos à noite. Algumas histórias davam conta que eles eram responsáveis por roubar e devorar crianças. A presença de um alegado homem-selvagem capturado na corte de Rei Henrique causou sensação e foi fonte de enorme excitação entre os cortesões. Todos ficaram impressionados com a descoberta e pediam para vê-lo.

Temendo que tal coisa pudesse constituir um perigo para a criatura e obviamente para o público, os conselheiros do Rei enviaram o espécime para as masmorras afim de estudá-lo. 

Uma ilustração medieval que mostra um Woodwose - Hopmem Selvagem
Após uma investigação cuidadosa, os médicos da corte e acadêmicos reais determinaram que a estranha criatura não era realmente um homem-selvagem ou mesmo um homem, mas uma criança. Sua face e membros eram estranhamente cobertos de um cabelo grosso de cor castanha, mas fora isso, ele era uma criança normal.

O menino havia sido capturado nas Ilhas Canárias - um território da Espanha na costa do Marrocos.  Ele foi pego por marinheiros portugueses e levado para a embarcação como curiosidade, posteriormente foi enviado para a Europa e vendido a um nobre que então o presenteou ao Monarca francês acreditando se tratar de um ente mágico. A criança de aproximadamente dez anos, sabia falar e disse que seu nome era Pedro Gonzalez. Os médicos observaram o comportamento do menino e concluíram que ele não era tomado da selvageria que caracterizava os homens-selvagens das histórias. Pelo contrário, ele se comportava como uma típica criança de 10 anos. 

Hoje, acredita-se que Pedro sofria de uma doença congênita chamada Hipertricose (Latim para "Muito cabelo"), uma condição genética extremamente rara. Embora a Hipertricose seja melhor compreendida hoje em dia do que nos tempos de Pedro, ela ainda constitui um desafio para os pesquisadores. De acordo com dermatologistas os casos confirmados são raríssimos, limitando-se a menos de 100 indivíduos adequadamente identificados na literatura médica desde 1600. Com isso, é realmente difícil analisar a doença.

No século XVI, as pessoas ainda acreditavam na existência de seres fantásticos como gigantes, anões, fadas entre outros. Algumas pessoas que fugissem do padrão de normalidade, que fossem muito altas, muito baixas ou com aparência diferente, podiam ser vistos como descendentes ou parentes dessas criaturas mágicas. Era exatamente o caso do menino das canárias: sua aparência lhe valeu o apelido de "fera", "besta" e "lobisomem". Alguns não tão fascinados pela sua aparência clamavam para que ele fosse executado ou ao menos mantido preso na masmorra.

Contudo, a rara condição de Pedro fez com que ele passasse a ser visto com enorme curiosidade. Ele foi apelidado de "Barbet", uma raça de cão belga de pelagem comprida. Tendo concluído que o menino não era perigoso, o Rei da França ordenou que ele fosse tratado com respeito e que recebesse educação digna de um nobre. Recebeu ainda um fundo para se sustentar, além de um nome latino - Petrus Gonsalvus. Em determinado momento de sua vida, Gonsalvus chegou a ocupar uma posição relativamente importante na corte.

Catarina de Medici ao lado de Pedro Gonzales, chamado de Barbet.
Henrique II morreu em 1559 após receber um ferimento fatal em uma justa. Sua viúva, Catarina de Medici, eventualmente se tornou a regente do trono. Caterina decidiu que Petrus poderia continuar na corte e mais, ordenou que ele deveria se casar e ter herdeiros. Um dos objetivos da Rainha ao invetivar isso era saber se os filhos de Petrus nasceriam com a mesma condição do pai.

Petrus desposou uma mulher que também se chamava Catherine de sobrenome desconhecido. Acredita-se que a mulher escolhida não sabia da aparência de seu futuro noivo até o dia que foi apresentada a ele, justamente no dia da cerimônia. Petrus deveria ter 25 anos na época, a noiva 17.

Um ano após o matrimônio, Catherine deu a luz a seu primeiro filho - um menino que nasceu sem a condição do pai. O segundo filho também nasceu imune a hipertricose. Catherine deu a luz a pelo menos mais quatro crianças, em um total de seis. Destes três nasceram com hipertricose, condição que foi transmitida hereditariamente a pelo menos 3 netos.

Catherine e Petrus viajaram através da Europa com suas crianças e foram fonte de enorme curiosidade e fascínio onde quer que chegassem. Até onde se sabe, a família sempre foi tratada com gentileza. O Imperador Rodolfo II dos Habsburgos, considerado um intelectual esclarecido e excêntrico, convidou a família a visitar a Corte em Viena. Lá ele comissionou artistas a fazer um retrato da Família Gonsalvus - trajando roupas formais. Acredita-se que posteriormente a família tenha se fixado em Parma, na Itália, onde foram empregados pelo Duque Ranuccio Farnese.

Esse seria o fim da história, mas indo além descobri mais um pouco.

Entre os tesouros que um dia pertenceram a poderosa Dinastia dos Habsburgos encontra-se uma curiosa coleção de quadros executados no final do século XVI. 

A jovem Antonietta
Um desses quadros é de uma menina chamada Antonietta. A menina tinha entre 8 e 9 anos quando foi retratada, ela veste um traje amarelo fino, uma grande joia em forma de cruz e tem uma expressão plácida bastante singela. Ela poderia ser facilmente confundida com uma jovem aristocrata qualquer, não fosse um pequeno detalhe: seu rosto estar coberto de cabelo.

Antonietta é a filha mais jovem de Pedro Gonzales, tratada assim como seu pai como uma curiosidade em toda Europa. Os Habsburgos criaram um Gabinete de Curiosidades, um tipo de Biblioteca e Coleção de objetos estranhos trazidos de várias partes do mundo no Castelo de Ambras, na cidade de Innsbruck. O retrato da menina costumava ficar na parede do Gabinete. Ela teve direito a estudo e educação patrocinados pela poderosa família.

Os Habsburgos também encomendaram a criação de um tomo científico com o título "Animalia Rationalia et Insecta" que dedica um capítulo inteiro aos Gonsalvus. 

Não se sabe muitos detalhes a respeito do que aconteceu com a Família depois disso. Acredita-se que alguns deles tenham sido entregues para outras famílias aristocratas apresentar como curiosidades aos seus amigos, um costume comum na época.

A Coleção encomendada pelos Habsburgos
Ironicamente, a linhagem dos Habsburgos, enfraquecida por sucessivos casamentos consanguíneos, acabou chegando ao fim - ao menos na Espanha, onde se extinguiu por completo. Já a Família Gonsalvus, os primeiros indivíduos documentados com hipertricose na história, continuaram gerando herdeiros. Um dos filhos de Antonietta teria trabalhado para um Cardeal em Capodimente e outro se tornou um poderoso mercador. Eles se espalharam pela Europa e pelo Novo Mundo gerando inúmeros descendentes, alguns com a condição, mas a maioria sem ela.

Não há como saber quando Pedro Gonzales passou a ser associado com a fábula da Bela e da Fera, ou mesmo se tal coisa aconteceu durante sua vida, ou apenas depois de sua morte. O quadro em poder dos Habsburgos, entretanto, foi muitas vezes associado ao conto de fadas elaborado por Madame Villeneuve. Para todos os efeitos ele se tornou a imagem da Fera.

Como dizem, as fábulas, mesmo as mais fantásticas, tendem a refletir o mundo real e ao que parece "A Bela e a Fera" tem bases bastante sólidas, plantadas na história...

E numa imagem.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Histórias Proibidas - A verdadeira (e por vezes escandalosa) história da Bela e da Fera


Conhecedores de literatura sabem que a primeira versão do clássico conto de fadas "A Bela e a Fera" foi escrita por Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve. A autora francesa publicou a história no ano de 1740, e sua fábula cativante tinha de tudo: Tramas elaboradas que permitiam uma análise profunda dos personagens, objetos mágicos como um anel capaz de teleportar quem o usasse; personagens como os irmãos ambiciosos, temas societários e denúncias a respeito de como as mulheres tinham casamentos arranjados no passado.

Enquanto contos de fadas como A Bela e a Fera podem ter sua origem traçada até milhares de anos no passado, foram autores como Madame Villeneuve que criaram as versões que se tornaram mais famosas. Elas foram adaptadas, trabalhadas, contadas e recontadas tantas vezes que se converteram em clássicos inesquecíveis. As narrativas ganharam tanta fama que poderiam ser contada por qualquer um.   

A última versão da história, foi o filme da Disney com Emma Watson e Dan Stevens, um sucesso de público e crítica lançado em 2017. Mas essa história não é nem de longe similar a versão original e tantas outras que se seguiram ao longo de décadas.

Na narração da história escrita em 1740, a Bela tinha cinco irmãos, três meninos e duas meninas, filhos de um bem sucedido mercador. Bela era a mais jovem de todos. Como em todas as versões, a personagem fazia jus ao seu nome, era atraente e com uma beleza cativante. Ela era humilde e pura de coração, além de muito inteligente. Suas irmãs igualmente bonitas, eram perversas, mimadas e capazes de qualquer coisa para ferir Bela, de quem tinham inveja.

As coisas pioram quando o pai acaba perdendo toda a sua fortuna. Sua frota de navios mercantes é atingida por uma forte tempestade e de um momento para o outro, a família afunda nas dívidas. Perdem a casa, as roupas, as joias e tudo de valor que um dia possuíam. Certo dia, entretanto, descobrem que ainda tinham uma última fonte de riqueza, um navio que havia aportado em uma terra distante com a sua carga intacta. O pai, confiante de que isso poderia salvá-los, viaja para essa terra com o objetivo de reaver a embarcação e sua preciosa carga.


O pai fica feliz e pergunta aos filhos o que desejam como presente dessa terra distante. Dentre eles, apenas Bela age de maneira modesta. Ela não quer nada de valor ou caro, como suas irmãs e irmãos. Tudo que ela deseja é uma rosa, uma flor de que ela ouviu falar, mas que não existe no lugar em que vivem.

O pai viaja e chega a essa Terra estranha, governada por um Monarca que ninguém vê e que reside em um castelo encantador. O pai fica impressionado com todo aquele luxo e riqueza. Ele fica sabendo que o navio restante foi salvo da tempestade por esse governante e que ele mantém o barco em seu porto em segurança. Os conselheiros do governante oferecem ao mercador um aposento no castelo e agendam uma audiência. Mas o senhor do Castelo não aparece! Ele comunica através dos Conselheiros que a embarcação e sua carga não serão devolvidas e que passaram a ser de propriedade do Governador.

Arrasado, o Mercador decide então partir da propriedade no meio da noite, mas enquanto sai percebe que o Castelo possui um belíssimo jardim com as mais belas flores. Ele entra no jardim e apanha uma rosa para levar de presente, e é então que ouve um rugido furioso. O Senhor do Castelo, a Fera em pessoa aparece irada com a ousadia do convidado que apanhou a mais bela flor do seu jardim.

A Besta avisa que o Mercador precisa ser punido com a própria vida, mas faz uma proposta. O monstro fica sabendo que o Mercador tem uma filha de rara beleza, aquela que receberia a rosa removida do Jardim. Pois bem, diz ele, "Uma beleza em troca de outra. A sua bela filha em troca da rosa que você tentou roubar". O pai fica mortificado, mas acaba aceitando um Acordo de Casamento imposto pela Fera. A menina terá de ser entregue no máximo em um mês e como dote, a embarcação e sua preciosa carga, será devolvida.  


Ao contar o que se passou, os irmãos mal podem acreditar, eles ficam felizes em ouvir que parte de sua riqueza seria restituída. Mesmo sabendo do triste destino da irmã mais nova, continuavam alegres se abraçando e confraternizando. Bela, por sua vez, ouve a história sem dizer nada, e quando esta termina, apenas abraça o pai e diz que irá fazer o necessário. Para muitos, essa é uma denúncia clara contra os casamentos arranjados e como as mulheres do período se tornavam uma espécie de comodidade para ser negociada e trocada.   

Bela vai para o Castelo, cumprindo sua parte no trato. Lá ela é tratada como uma verdadeira princesa, recebendo vestidos, jóias e luxo das mãos dos conselheiros. Mas quando finalmente é apresentada à Besta, sua aparência grotesca a deixa aterrorizada. O monstro por sua vez age de forma perversa, autoritária e ordena que Bela diga que o ama. Mas ela não pode fingir estar satisfeita e se nega a obedecer essa última ordem. Enquanto fica no Castelo, Bela sonha com um Príncipe noite após noite, e imagina que este virá resgatá-la das garras do Monstro. 

Na parte final da trama, Bela negocia com a Besta uma visita ao seu pai de quem sentia muita saudade. A Besta concorda desde que Bela retorne ao palácio logo em seguida para o casamento. Para facilitar, ele entrega à menina dois objetos mágicos: um espelho que permitia ver o que se passava no castelo e um anel que magicamente transportava quem o vestisse de volta. Sem que a Fera desconfie, Bela planeja fugir com a ajuda do pai, desaparecer no mundo e adotar outro nome.


Ao chegar em casa, os irmãos de Bela revelam um plano para assassinar a Fera e fazer com que a irmã se torne herdeira de tudo que pertence a ela. De fato, eles já enviaram um assassino para colocar na bebida do monstro um veneno mortal. Bela fica dividida entre concordar com o plano ou alertar o futuro marido. Ela acaba observando o espelho e vê a Fera andando pelo jardim de rosas e bebendo um gole do vinho envenenado. Logo em seguida, ele cai e começa a sofrer os efeitos da substância. Bela continua dividida até que a imagem no espelho mostra a fera expirando. Ela então usa o anel e retorna ao palácio para tomar a Fera em seus braços enquanto ela morre. Magicamente após a sua morte, seu corpo sofre uma transformação e se torna o príncipe com quem Bela sonhava. Fica sabendo então, através de um conselheiro, que a Fera era um príncipe amaldiçoado que havia se tornado um monstro. E assim continuaria até que uma mulher demonstrasse compaixão por ele.

A história, com um final agridoce termina com Bela ordenando que o príncipe seja sepultado no Jardim de Rosas e que os irmãos e irmãs sejam banidos para sempre pelos seus atos maldosos. Seu pai é chamado para viver no Castelo e se torna o seu Conselheiro. Mas a tristeza de Bela é demasiada e ela morre, sendo enterrada ao lado do Senhor do Castelo. No exato local crescem duas flores entrelaçadas. 

Versões posteriores dessa trama familiar foram resumidas, e algumas acabaram se tornando ainda mais populares do que a original de Madame Villeneneuve. Esse é o caso da versão de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, cuja versão datada de 1756 ganhou ainda mais drama e emoção.


Por exemplo, a versão de Beaumont relata um diferente ângulo de como Bela se torna a filha favorita do mercador. Inicialmente, ela seria  afilha de um Rei e de uma fada, e a menina sofre por ser o resultado de um amor proibido. Para que a criança não fosse ameaçada por humanos e fadas, sua descendência é escondida, ainda que sua beleza fosse de alguma forma sobrenatural, temperada pela humildade humana. 

O protagonista masculino principal, um jovem príncipe, é também vítima de magia negra. Ele é transformado na Besta, aós desafiar as mesmas fadas que ameaçavam Bela. Pelas condições da maldição, ele  só poderá retornar a sua forma normal quando uma jovem, que nada sabe a respeito de sua origem, se apaixonar por ele e aceitar se casar.

Novamente o fim da história é trágico, já que as fadas acabam por fazer Bela abandonar a Fera, e deixá-lo sozinho para morrer. Ela só descobre tarde demais que ele é o príncipe pelo qual nutria uma paixão secreta, e então acaba se unindo ao seu amado na morte. Mais uma vez, o tom de tragédia governa a história que francamente nada tem de infantil.

É nessa polêmica versão que a Fera, tomada de luxúria tenta tomar Bela à força, fazendo com que ela corra para uma floresta e seja encontrada pelas fadas. Em seguida, ela é convencida de que só a morte da Fera poderá libertá-la. Em outra cena bastante inadequada para crianças, sabemos que o pai adotivo da Bela também nutria pela menina desejos irrefreáveis. Em determinado momento ele planeja casar com Bela (que tem apenas 11 anos!), mas sabendo que um casamento de conveniência poderia ser melhor para seus negócios prefere se conter para que a menina seja negociada ainda imaculada.

Ironicamente podem ter sido justamente esses elementos chocantes que garantiram a longevidade da história. Até mesmo o infame Marquês de Sade se debruçou sobre o conto da Bela e da Fera para usar os personagens de maneira bastante inadequada relatando em detalhes a relação de alcova estabelecida entre a Bela (linda e virginal) e a Fera (degenerada e pervertida). Na versão de Sade, a bestialidade da Fera não reside apenas em sua aparência grotesca, mas em seus atos libidinosos e no desejo de torturar e submeter Bela aos seus desejos mais bizarros. Em uma legítima trama de Sade, a mocinha em determinado momento não sabe se deve ceder ou não a vontade da Fera e aos seus próprios desejos ocultos.

A transição da história original de conto dramático e indecoroso, para um conto de fadas se deu gradualmente, com adaptações que suavizavam os aspectos mais grotescos da trama e se concentravam no verdadeiro amor que no fim libertava a Fera de sua aparência bestial.

Com o tempo, a história passou a se dirigir às crianças convertidas no público alvo, mas como acontece frequentemente nos Contos de Fada, as coisas não são o que aparentam.

ADENDO:

E para quem achou interessante, talvez queira saber as versões que nossas avós não contaram de Chapeuzinho Vermelho e Flautista de Hamelin. Basta clicar nos links abaixo:

O Horror Oculto em Chapeuzinho Vermelho

A Terrível Verdade sobre a História do Flautista de Hamelin