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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A Narrativa do Oficial Moledo - Um estranho relato de profanação e horror


Nos primeiros meses de 1916, um estranho visitante chegou ao Porto de Antonina no litoral Leste do Paraná. Muito pouco se sabia a respeito dele, além de que havia viajado desde a Bacia do Rio da Prata e que havia chegado à bordo de um pequeno navio de passageiros. O sujeito era estranho, com um olhar nervoso que parecia sempre examinar atentamente os arredores. Sua barba escura crescia sem cuidado e suas roupas estavam amarrotadas. Ele falava com um sotaque estranho e embora dominasse o idioma local, pontuava suas frases com estranha reticência. 

O homem, como alguns logo ficaram sabendo, era uma espécie de pastor itinerante. Ele viajava de porto em porto pregando e fazendo discursos religiosos. Naquela época isso era bastante comum, embora a maioria das pessoas não se desse muito ao trabalho de ouvir as palavras desses pregadores sem um endereço fixo. Os rudes e atarefados trabalhadores das docas também davam pouca importância a eles. Contudo, aquele forasteiro tinha definitivamente algo de diferente. Já na embarcação em que havia chegado, reuniu um pequeno grupo de seguidores, consistindo em sua maioria de imigrantes e alguns calejados pescadores locais. O bando era visto frequentemente rezando e repetindo palavras em castelhano, no idioma açoriano, num português quebrado ou noutros tantos dialetos. A maioria dos que passavam, davam de ombros e continuavam com seus afazeres. Mas alguns paravam para ouvir, sobretudo os mais desesperados.

Semanas se passaram e quem prestava atenção percebia que o grupo composto à princípio de meia dúzia de pessoas havia crescido. Tinham se tornado pouco mais de uma dezena, depois duas dezenas e então uma pequena aglomeração formada por algo entre 30 e 40 indivíduos. O estranho pastor, que chefiava o grupo falava e falava, as pessoas que o seguiam repetiam, sorriam, choravam e davam socos no peito. Era estranho, mas não particularmente bizarro. Vestiam-se de forma austera sempre de preto, os homens na frente, as mulheres e algumas crianças mais atrás. 

Em tempo, a estranha congregação se transferiu para um depósito abandonado nas docas da Ponta do Felix, prédio que havia se incendiado fazia algum tempo e cujas ruínas enegrecidas não tinham serventia para ninguém. Os marinheiros e estivadores até ficaram satisfeitos ao ver o grupo saindo do caminho, os oficiais portuários deram graças pois era um incômodo ter de lidar com aquela gente mau encarada que olhavam com raiva quando advertidos a não atrapalhar o funcionamento do porto. Felizmente, os encontros da congregação passaram a ser realizados à noite, quando as docas ficavam quase desertas e ninguém se sentia incomodado por eles. De fato, o grupo reformou o depósito, limpou a fachada e começou a restaurar o lugar em ruínas. Havia menos mendigos nas ruas e mesmo nas docas as coisas pareciam mais organizadas. Certo dia, alguém percebeu que haviam colocado sobre o portão de entrada uma placa onde se lia: "Primeira Congregação dos Verdadeiros Mistérios".

Poucos anos mais tarde, um estudante chamado João Henrique Forlan viajava pela área com intuito de coletar animais, visto que era biólogo. Dava especial interesse ao ramo da entomologia, o estudo e catalogação de insetos. Além de seus estudos de entomologia, ele também escrevia extensivas narrativas a respeito de tradições locais e folclore. Suas observações detalhadas e repletas de colorido permitiram que colecionasse vários colegas com quem mantinha correspondência regular.

Ao retornar para casa, Forlan escreveu uma carta particular ao Reverendo Emanuel Granberg um amigo de longa data que residia em São Paulo onde prestava trabalho na Diocese da cidade. Na carta ele descrevia um estranho culto que havia conhecido em sua excursão a Antonina. Granberg havia nascido no Leste do Paraná e embora não residisse mais lá, continuava sendo um homem respeitado que mantinha contato com suas raízes. Curiosamente, ele nada sabia a respeito da Congregação descrita pelo colega.

Na carta Forlan manifestava uma profunda preocupação com suas descobertas e pedia conselho ao Reverendo sobre o que fazer. Ele descreveu um encontro com um velho marinheiro bêbado (ou talvez louco) que dizia fazer parte de uma congregação diferente. O homem, em troca de um prato de sopa, contou que a congregação se diferenciava de todas as outras uma vez que venerava a verdadeira forma de Deus. O chefe do Tabernáculo era um homem santo, um Pastor itinerante que chamava a si mesmo de Tapio e que revelava durante suas pregações os mistérios desse Deus. 

As palavras do marinheiro não eram muito coerentes, assegurava o estudante, mas a narrativa entusiasmada, pelo que ele conseguiu entender, envolvia uma Estrela Azul de onde Deus havia vindo na companhia de anjos, para lutar com uma raça de Gigantes na aurora dos tempos. Os tais Gigantes haviam escravizado e abusado dos homens por milênios e Deus prometeu interceder por eles. A batalha teria sido monumental, e os homens por pouco não foram extintos, visto que os Gigantes, cruéis e perversos, matavam os que se bandeavam para o lado de Deus. A tal batalha teria durado séculos e no fim os Gigantes foram derrotados. Contudo, Deus estava exausto e decidiu partir para dormir e se recuperar, deixando os anjos para zelar pelos homens. Infelizmente, nas palavras do marinheiro, os homens haviam se esquecido da luta e passaram a venerar falsos deuses, ignorando o Deus verdadeiro que quase foi esquecido. A Congregação era, segundo ele, uma Igreja criada para restaurar a crença no único e verdadeiro Deus, que estaria prestes a despertar.

Forlan achou a história curiosa, pediu mais detalhes e o homem, secando a sopa que escorria do queixo e da barba, forneceu a direção até o Templo dos Verdadeiros Mistérios. Ao chegar lá, o estudante foi recebido por um grupo de pessoas que o olharam com desconfiança, ele pensou consigo mesmo que mais pareciam mendigos, com roupas pretas remendadas. Quando disse que queria entrar para conhecer a paróquia lhe informaram que estava fechada para estranhos e que interessados em conhecer a igreja, só eram admitidos em uma noite específica. Como ele ficaria na cidade por mais uma semana poderia participar do encontro, já que este aconteceria dali poucas noites.

No dia combinado, Forlan compareceu e foi recebido por um grupo bem mais amistoso, ainda que igualmente mau encarado. Eles ficaram claramente surpresos em conhecer alguém que se dizia um acadêmico, visto que a maioria dos membros vinham de classe muito baixa. De fato, João Forlan percebeu que os outros que lá estavam pela primeira vez, pareciam vagabundos, mendigos e imigrantes. Ele e os demais visitantes tiveram o mesmo tratamento e foram convidados a depois da missa fazer uma ceia no refeitório do templo. Até então Forlan não havia percebido nada de anormal na congregação, apesar das pessoas parecerem estranhas, não havia nada que o incomodasse sobremaneira. O salão paroquial era amplo e com cadeiras dispostas aqui e ali, diante de uma espécie de palco de paquete. As paredes pintadas de roxo eram decoradas com estranhos símbolos geométricos amarelos que ele não conseguiu reconhecer. Não havia altar, mas um pequeno púlpito de onde o Pastor se dirigia aos fiéis. Parecia uma igreja humilde, como qualquer outra, mas sua opinião mudou quando o Reverendo Tapio lhe foi apresentado.

O homem usava uma túnica cerimonial preta com escapulário remendado, um tipo de estola roxa bordada com aqueles símbolos e um ridículo chapéu de tecido que lembrava uma mitra. Não era nativo dessas paragens, com toda certeza e Forlan assumiu que fosse provavelmente um imigrante ucraniano, polonês ou mesmo russo. A maioria esmagadora dessas pessoas, gente reservada e esforçada, veio parar por aquelas bandas por conta dos fluxos migratórios. Buscavam oportunidades de trabalho em terras distantes e tinham uma vida dura e honesta. Mas havia alguns entre eles com outros interesses, como constatou Forlan. Tapio tinha uma barba escura que crescia selvagem pelo rosto comprido e seus olhos azuis reluziam com incrível poder de persuasão. Era alto e seu traje austero lhe concedia uma aparência ainda mais esguia e autoritária. 

O biólogo não simpatizou com o homem, embora não fosse capaz de precisar o motivo. Ele foi cortês e apertou sua mão com firmeza, olhando-o olho no olho quando as apresentações foram feitas. O Pastor não sorriu ou manifestou satisfação em conhecê-lo em momento algum, manteve um frio distanciamento pouco condizente com um religioso. Não lhe faltava carisma, não era isso, ponderou, era mais, uma flagrante ausência de empatia. 

Foi quando o Pastor Tapio falou, que Forlan se sentiu mais perturbado. Não apenas pelo que ele disse (e o que ele disse foi suficientemente estranho), mas como ele escolheu dizer. Há palavras que carregam peso e batem fundo na alma produzindo resultados inesperados. Aquele homem sabia como se comunicar e como ser convincente, mesmo que falasse absurdos. Era positivamente um fanático e suas palavras estavam repletas de um zelo messiânico virulento - o tipo de coisa que fazia os de mente fraca se mutilar, sacrificar e pior, matar quem deles discordasse. Ao discursar e apresentar os dogmas de sua estranha crença, o Pastor Tapio jamais ergueu sua voz, mas tinha uma determinação e seriedade, que traduziam um tom implícito de grave ameaça. Aquilo incomodou tanto o biólogo que ele considerou deixar o recinto e só não o fez por temer que alguém se sentisse ofendido pela atitude. Decidiu que seria de bom tom ficar lá até o fim, mesmo que as palavras transbordassem com insânia.

O Pastor Tapio revelou sua versão apocalíptica da Guerra entre seu Deus e os anjos, travada contra os Gigantes. Mas revelou detalhes que o marinheiro bêbado havia deixado de fora. Forlan lamentou que o tivesse feito, do contrário ele teria simplesmente ignorado o convite para conhecer a Congregação. Ao ouvir o discurso, ele prestou atenção na expressão de quem estava em volta e percebeu faces transfiguradas pela cega devoção e inabalável crença naquela fábula bizarra.

Para Derrotar os Gigantes, disse o Pregador Tapio, Deus havia ensinado a alguns homens seus mais profundos segredos, sendo o maior deles a transformação no que ele chamava de "feras". Essa habilidade havia sido transmitida apenas a alguns sacerdotes imbuídos de preservar esse conhecimento sagrado. Tapio alegava que aqueles com a habilidade de mudar sua forma tinham em suas veias correndo sangue divino. Para dividir com o restante da congregação esse sangue, o grupo realizava um tipo de Eucaristia na qual, ao invés de pão e vinho representado o corpo e sangue do salvador, os participantes bebiam o sangue do próprio Pastor. Forlan viu um cálice de metal baço e ensebado ser passado entre os membros mais importantes da congregação, que cerimoniosamente bebiam dele. Sorviam o que quer que estivesse ali dentro com respeito e reviravam os olhos até que só o branco deles ficasse à mostra. Com alívio ele soube que novos membros não tinham permissão de pousar os lábios no cálice.

O Pregador proclamou que o sangue servia para operar a mudança e fazer com que os escolhidos pudessem se tornar feras quando chegasse o momento. Ele disse ainda que o despertar de Deus estava próximo e que quando este acordasse apenas uns poucos, os que realmente acreditavam, estariam ao seu lado. Os demais, seriam punidos por serem ímpios, e caberia aos fiéis levar a esses inimigos a redenção. "Não somos as ovelhas do rebanho, somos as feras que caçam para o Deus Verdadeiro", proclamou em determinado momento, para júbilo geral.

Após o culto, o Pastor se retirou e a ceia foi servida conforme prometido. Membros da seita perguntaram a Forlan o que ele havia achado e o biólogo pensou que seria melhor manter sua opinião para si, se limitando a dizer que achara interessante. Os outros iniciados naquela noite, contudo pareciam convencidos das palavras do Pregador, mais ainda, estavam dispostos a retornar para assumir um lugar como parte do Culto.
    
Em sua carta ao Reverendo Emanuel Granberg, o biólogo João Forlan havia deixado claro a estranheza do culto, que ele acreditava contar com talvez uma centena de adeptos. Seu temor era que esses fanáticos pudessem mais cedo ou mais tarde cometer algum ato temerário. A região já havia sofrido com movimentos messiânicos que ensejaram levantes radicais e que descambaram para a violência. Bandos formados por fanáticos foram responsáveis por episódios traumáticos bastante recentes, em especial o Contestado, cujas cicatrizes ainda estavam abertas vertendo amargor.

O Reverendo agradeceu a Forlan pela carta e tratou de se informar sobre o que acontecia. Para tanto, entrou em contato com parentes que moravam nos arredores de Antonina e perguntou se sabiam algo a respeito da estranha congregação que se estabeleceu na Ponta do Felix. A resposta não tardou a chegar. Na carta uma parente distante, que tendia ao exagero (conforme reconhecia o próprio Reverendo), mencionava que as pessoas não sabiam exatamente do que tratava a Igreja surgida nas docas, mas que muitos desconfiavam do Chefe da Congregação, um sujeito taciturno que alguns tratavam como demente, mas que outros tinham como um homem santo. 

Diziam que ele comandava o lugar, frequentado por toda ordem de maltrapilhos e indigentes, alguns envolvidos com contrabando, jogo e prostituição, coisas infelizmente endêmicas em toda zona portuária. Havia no entanto, coisas ainda mais sérias que foram comunicadas como rumores, mas que faziam o povo de Antonina perder o sono e se preocupar. Primeiro eram os sons e ruídos misteriosos ouvidos na calada da noite - pareciam uivos, conforme mencionavam, lamentos longos que reverberavam pelo porto. Alguns se enervavam com aquela algazarra e já haviam reclamado, se perguntando se os fiéis mantinham animais no templo.  

Outro boato inquietante dava conta de estranhos desaparecimentos e de violência contra quem falava mal da Igreja. Alguns tinham medo e evitavam passar pela Ponta do Felix sobretudo à noite. A série de rumores atingiu o auge quando um fiscal das docas, que havia tido um entrevero com membros da congregação, sumiu. Seu corpo nu e mutilado foi içado das águas lamacentas menos de três semanas antes da Carta do Reverendo chegar e o incidente causou rebuliço. Embora muitos desconfiassem dos paroquianos, não havia provas que os ligassem ao ocorrido. Estranhamente, o corpo tinha ferimentos condizentes com mordidas de cachorro e uivos foram ouvidos na noite em que o fiscal sumira. As autoridades não sabiam o que pensar e os residentes estavam amedrontados. 

Mas além dos rumores, parecia haver algo mais... algo que os parentes do Reverendo alegaram não querer se aprofundar para que o parente da cosmopolita São Paulo não os tomasse como tolos supersticiosos de uma cidade provinciana. Se limitaram a afirmar que a seita estava metida com algo ruim e deveras reprovável. 

Granberg conversou com alguns conhecidos, gente importante de quem cobrou providências. Na época, o medo de levantes motivados por miseráveis com inclinação religiosa era palpável. Ninguém queria outro "monge" José Maria insuflando agitação popular. Prometeu-se investigar o caso, mas nada de concreto foi apurado. Sim, o culto era estranho e sim, a maioria das pessoas torcia o nariz para suas atividades, contudo não havia nada que corroborasse as suspeitas de algo mais sério. A solução para a angústia do Reverendo veio de um lugar improvável, através de um Agente Portuário da vizinha Paranaguá, um sujeito chamado Vitorino Moledo. 

Moledo tinha fama de incorruptível a ponto de não aceitar os agrados dados por contrabandistas que usavam o litoral sul para escoar suas mercadorias. Colecionava desafetos e efetuara uma quantidade impressionante de prisões e apreensões de carga ilegal. O Reverendo entrou em contato com Moledo por indicação de um amigo em comum. Na carta destacou habilmente que membros da Igreja estavam envolvidos em atividades ilícitas que justificavam uma investigação criteriosa. Ao que parece, já havia uma suspeita e a carta vinda de São Paulo, acrescida do nome de alguns políticos influentes, deu o empurrão necessário para colocar as autoridades em movimento. 

O Reverendo Granberg ficou sabendo da tragédia que transcorreu no Porto de Antonina alguns dias depois. Leu em jornais da capital pequenas notas de rodapé sobre uma confrontação ocorrida em sua cidade natal e buscou saber mais. Todas fontes diziam que policiais e membros de uma seita haviam se enfrentado e pessoas dos dois lados haviam morrido e se ferido. Contudo a ausência de detalhes, o deixava incomodado. Cogitou seguir para o Paraná assim que possível, para se inteirar em primeira mão sobre o que acontecera. Só não o fez pois chegou até seu endereço uma inesperada caixa de madeira, remetida pelo Oficial Portuário Vitorino Moledo. 

O pacote entregue às pressas continha objetos confiscados na Igreja e um relato detalhado dos acontecimentos sucedidos antes e depois da batida efetuada no lugar. Incapaz de interpretar o que eram aquelas coisas e ainda perturbado pela maneira como a ação transcorreu, o Oficial considerava ser melhor o Reverendo decidir o que fazer. Recomendava, no entanto, que ele destruísse aquilo tudo, o que ele, Moledo, só não fez por achar que cabia a um religioso interpretar o material. No relato transcrito por Moledo, composto de 20 páginas manuscritas, havia a menção de que os objetos foram confiscados na ação conduzida por ele no Templo, ocasião em que policiais e suspeitos acabaram mortos e outros tantos feridos. Policiais também acabaram afastados permanentemente de suas funções. O próprio Moledo afirmava que não fosse sua obrigação profissional, preferia não ter tomado parte na diligência. Ele mesmo reconhecia estar confuso com a situação que sobreveio à batida policial. 

"Se pudesse escolher, preferia jamais ter tomado parte naquilo, pois me sinto assombrado pelo que vi naquele antro" comentava na caligrafia impecável que introduzia o material despachado. "De toda forma, penso que lhe devo satisfação dos acontecimentos para sua ciência", ponderava antes de iniciar a transcrição dos eventos conforme segue.

(continua)

domingo, 17 de novembro de 2019

Reflexo do Mal - Histórias macabras a respeito de Espelhos Malditos


Espelhos possuem lendas, tradições, superstições e mitos ligados a eles desde o início dos tempos. 

Os antigos romanos acreditavam que espelhos eram capazes de refletir a alma de uma pessoa e poderiam causar grandes conflitos se fossem mal utilizados. Os gregos diziam que os espelhos provocavam uma espécie de loucura ligada a vaidade extrema. Os persas temiam que o reflexo mostrado em um espelho pudesse ser uma criatura espiritual com vontade e consciência próprias.

De fato, muitas culturas acreditam em qualidades sobrenaturais negativas atribuídas aos espelhos. Para alguns, eles seriam capaz de sugar a alma, oferecer portentos da morte ou vislumbres de alguma outra dimensão. Em certas culturas, os espelhos eram usados ​​como forma de comunicação com os espíritos, e acredita-se que servissem como portais de entrada para o mundo espiritual ou como uma janela entre o mundo dos vivos e o dos mortos, permitindo espiar o que existe sob o véu.

Talvez essa crença tenha levado ao fenômeno dos espelhos assombrados, tão comum em todo o mundo e que existem em diversas culturas díspares. Muitas pessoas adotam a superstição de cobrir espelhos em determinados momentos, em especial após uma morte, para impedir o que quer que esteja do outro lado de espreitar, espiar ou atravessar para nosso lado. Também vigora a crença de que para impedir que uma alma fique presa dentro do misterioso mundo dos espelhos, estes deveriam ser cobertos com um tecido preto. Nada poderia causar mais azar do que um espelho aparecer estilhaçado no dia de um funeral. 

Espelhos são estranhos, e tal estranheza se reflete em muitas lendas e mitos.


Ao longo da história, há casos de atividade paranormal envolvendo espelhos, que assumem várias formas. As experiências mais comuns incluem figuras, sombras, aparições e entidades que surgem na superfície cristalina ainda que rapidamente. Há muitos relatos disso acontecendo, como é o caso de um comentarista chamado Destiny Glaubitz que diz ser conselheiro espiritual e relata um caso inexplicável e perturbador no qual tomou parte:

"Uma jovem mulher adorava espelhos. Ela ia a vendas de garagem e leilões onde comprava principalmente espelhos. Certo dia ela encontrou um antigo espelho que havia pertencido a uma senhora recém falecida. Ela gostou tanto dele que decidiu colocá-lo em seu próprio quarto. Logo que trouxe o espelho para casa, ela começou a experimentar uma sensação estranha: Sentia como se alguém a estivesse observando constantemente. Intuitivamente ela tinha a sensação de que o problema residia no espelho e certa noite olhou para a superfície e disse "mostre-se para mim e diga o que você quer". Foi uma péssima ideia, para dizer o mínimo!

Nas semanas seguintes coisas muito estranhas começaram a acontecer desde discussões na família e objetos quebrando ou desaparecendo, até animais de estimação doentes e estranhos ruídos ecoando no meio da madrugada. Assustada, a mulher consultou uma amiga que dominava a técnica conhecida como Psicometria, uma forma de comunicação espiritual na qual objetos são "lidos". A médium descobriu que a pessoa que possuía o espelho havia tido uma existência muito negativa e vã. De alguma forma o espírito dessa pessoa ficou preso ao espelho. Quando a mulher levou o objeto para casa acabou carregando consigo muita energia negativa que fez surgir um poltergeist. A medium contratada realizou uma limpeza em toda casa e aconselhou a mulher a se livrar do espelho o quanto antes. O objeto foi limpo de sua carga negativa e destruído fazendo tudo voltar ao normal". 

Em outro incrível relato, nós temos o que parece ser algum tipo de entidade sobrenatural ou fantasma usando um espelho como um tipo de portão para adentrar no nosso mundo. A testemunha dos acontecimentos estaria em seu quarto onde ficava um espelho antigo. Em determinado momento, ela sentiu uma presença a observando e ao encarar o espelho percebeu algo ali. O relato, publicado em uma revista espiritualista, dizia o seguinte:

"Eu tinha medo de olhar para o espelho que ficava no meu quarto! Eu sentia como se existisse algo maligno ali, mas não conseguia aceitar essa possibilidade de uma maneira racional. De alguma forma, eu acreditava que a culpa era de um grande espelho com moldura que veio junto com o apartamento quando me mudei e que nunca soube a quem pertenceu. Eu o cobria com um lençol para não ter que olhá-lo. Eu já planejava me livrar dele, mas não o havia feito por falta de tempo. 

Certa noite acordei e me deparei com o espelho sem o pano que o cobria. Ele estava caído no chão... tive um arrepio e quando olhei para a superfície levei o maior susto da minha vida. Havia uma figura ali. Era um homem velho com uma roupa escura e austera e um chapéu alto antigo. Ele tinha os olhos vítreos e uma expressão maligna na face. Flutuava no ar, dentro do espelho e estava olhando diretamente para mim. Eu não via seus pés. Ainda assim, ele estava ali, bem diante de mim, como uma figura tridimensional. Eu sei que não foi um sonho, pois fiquei olhando para ele por longos minutos, tentando entender o que eu estava vendo. A coisa percebeu que eu estava desperta e se aproximou, e eu pude ver que ele movia os lábios tentando falar alguma coisa. Eu me levantei e corri para fora do quarto. Sequer voltei para minha casa. Não queria pisar lá enquanto o espelho estivesse no meu quarto. Contratei algumas pessoas para retirá-lo e mandei que o jogassem fora, bem longe da minha casa. Nunca me recuperei daquele susto... depois de pensar muito a respeito do que a figura dizia sem produzir qualquer som, eu entendi o que era, ele repetia sem parar: Deixe-me sair!"


A pessoa que relatou esse caso disse que depois do ocorrido entrou em contato com o dono do apartamento e soube que o espelho em questão havia sido comprado em um leilão. Ele supostamente era muito antigo, um objeto do século XVIII que pertenceu a uma família tradicional da Nova Inglaterra que o vendeu em um leilão. Seria possível que o espelho armazenasse em seu interior um espírito maligno que almejava a liberdade? Será que podemos acreditar em um relato tão fantástico?

Em outro relato, uma testemunha afirma ter experimentado terríveis pesadelos causados por algo que habitava um espelho na sua casa. Segundo a narrativa, os sonhos ruins começaram justamente quando três espelhos foram adquiridos e instalados no quarto de dormir. Os sonhos eram mórbidos, envolviam assassinatos, pessoas sendo torturadas, sofrimento e agonia sem fim. Algo tão assustador que ele sequer conseguia dormir, conforme relata:

"Os sonhos eram medonhos. Eu tinha a impressão de participar daquelas cenas, por vezes como quem sofria, por vezes como o causador daquele sofrimento. Eu via o lugar como uma espécie de porão escuro e sujo... havia uma lareira e uma cadeira de ferro na qual as vítimas eram amarradas para sofrer uma horrível tortura. Eu acordava aos gritos, suando e incapaz de me mover, mesmo depois de ser desperto pela minha esposa. 

Os sonhos só pioraram com o passar dos dias! Eu os experimentava toda noite e aquilo começou a me afetar. Eu sentia falta de ar, pavor e um medo insuportável. Eu comecei a ver algo mais nos sonhos... era uma figura estranha de um homem, muito magro e pálido, quase cadavérico. Era ele quem se debruçava sobre as vítimas para arrancar suas unhas, cortar seus tendões e queimá-las com um ferro em brasas. Eu chorava, incapaz de fazer qualquer coisa para me livrar daquilo. Sentia estar enlouquecendo!

Entrei em contato com uma pessoa por indicação de um conhecido e ela visitou meu quarto. Quando olhou para o espelho entendeu imediatamente que era dali que vinha a causa da minha aflição. Os espelhos, segundo ele, eram assombrados! Ele possivelmente havia pertencido a uma pessoa que causou muito mal em vida e cuja maldade ficou impregnada nele. Eu perguntei o que poderia ser feito e ele foi muito claro: era preciso me livrar dos espelhos. Eu não conseguia acreditar naquilo, mas estava disposto a qualquer coisa para superar aquilo.

A pessoa fez um tipo de ritual para descarregar a energia maligna que estava nos espelhos e eu juro que enquanto ele repetia algumas palavras percebi uma coisa escura aparecer de repente no vidro. Alguma coisa medonha que lançou um olhar maligno que me deixou aterrorizado. Depois que os espelhos se foram as coisas melhoraram e não tive mais os pesadelos, mas nunca vou esquecer daquilo."  


Outro relato assustador a respeito de Espelhos Malditos foi publicado nas páginas da Revista Pagans and Witches. A matéria foi escrita por pessoas que afirmam ter testemunhado uma assustadora atividade paranormal ao redor de um antigo espelho. Aparições sombrias, globos luminosos, objetos que estouravam ou se moviam sem ninguém por perto, além de odores, sons e sensações eram comuns noite após noite.  

"A casa parecia ser afetada por forças sobrenaturais muito poderosas. Móveis se moviam, garrafas estouravam, quadros não ficavam nas paredes e toda noite havia um fedor persistente de fumaça e de queimado. As pessoas que moravam na casa estavam apavoradas e sem saber mais o que fazer. 

Quando um grupo de parapsicólogos chegou à casa para verificar o fenômeno espalhou câmeras e microfones sensíveis para registrar o que acontecia no imóvel. Captaram estranhos movimentos e sons que se concentravam na sala da frente, local onde estava um grande espelho oval com moldura de madeira. O objeto havia pertencido aos inquilinos anteriores que habitavam a casa e que o deixaram para trás no sótão. O espelho, segundo os parapsicólogos era o ponto focal da atividade paranormal, quase como se ele fosse um tipo de porta ou janela através do qual tudo acontecia. Até mesmo a temperatura era sensivelmente mais baixa do que no restante da casa.

Os parapsicólogos gravaram horas de video e registraram sons muito baixos que pareciam emanar na sala em que estava o espelho. Eles concluíram que o objeto estava sendo usado como um tipo de canal entre a nossa realidade e outro lugar que parecia ganhar força e influência em nosso mundo. Como uma passagem dimensional ele funcionava como um túnel para o que existia dos dois lados adentrarem. O grupo realizou várias gravações, sendo que em uma delas captaram uma espécie de sombra escura de silhueta feminina entrando e saindo do espelho repetidas vezes.

Um medium especializado em limpeza de objetos malditos foi contatado e depois de dias conseguiu remover aquela influência maligna que residia no objeto. O portal foi lacrado e as pessoas da casa enfim puderam dormir tranquilas".


Todos esses relatos são bizarros, com certeza, e comprovam um dos conselhos dados por entusiastas do sobrenatural a respeito de jamais conservar um espelho que tenha pertencido a um inquilino anterior quando você se mudar. Ninguém sabe o que esse espelho misterioso pode ter testemunhado ou o que pode te-lo usado como uma janela panorâmica.

Outro estranho caso envolvendo espelhos malignos foi publicado na Supernatural Magazine. A matéria descreve uma pensão em Nova York que seria supostamente assombrada desde 1845, ano em que o prédio foi o palco de um violento crime. Um marido teria descoberto a traição de sua esposa e assassinado ela e o amante, terminando por se suicidar. Dizem as lendas que tudo teria acontecido diante de um grande espelho vitoriano que ficava no quarto de cobertura da pousada.

"O espelho em questão era um antigo objeto de adorno em estilo vitoriano, tão antigo quanto o hotel em que ele foi colocado. O espelho estivera ali no mesmo local, no quarto de cobertura e supostamente havia testemunhado o encontro furtivo de inúmeros casais. Mas foi depois do crime de paixão, no qual um marido executou a esposa e seu amante que as coisas começaram a ficar estranhas.

Os donos da pensão afirmavam que coisas estranhas aconteciam próximo dele depois do incidente. Sons indecorosos eram ouvidos; sussurros e gemidos, além de palavras abafadas. Também era perceptível um odor de perfume de lavanda. Mais estranho que esses detalhes eram os estranhos relexos que pareciam surgir de tempos em tempos na superfície cristalina, como se fossem imagens de pessoas executando algum tipo de encenação. Testemunhas que presenciaram as silhuetas afirmavam que sempre eram as mesmas figuras que apareciam ali, uma mulher jovem e dois homens, um jovem e outro bem mais velho.

É claro, logo começaram a surgir rumores a respeito de assombrações que teriam ficado presas dentro do espelho e que eram obrigadas a repetir as circunstâncias de suas violentas mortes para quem estivesse perto. Algumas pessoas afirmaram serem tomadas por um sentimento avassalador de paranoia, desespero e frustração, depois de assistir o trágico espetáculo. Segundo os rumores que cercavam o espelho, mais de um hóspede teria sido dominado por ciúmes e desconfiança depois de assistir a cena. Parapsicólogos conjecturaram se esse sentimento não seria algum tipo de projeção dos sentimentos do marido traído, absorvido por quem estava próximo.


O espelho continuou no mesmo local até o fechamento da Pousada em 1912, quando ele foi destruído durante o transporte para outro local. Por algum tempo comentou-se que quando o espelho enfim se partiu, o som que foi ouvido não foi o de vidro se quebrando, mas o de um grito feminino estridente. O prédio continuou sendo assombrado por muitos anos, sempre com os três personagens realizando o mesmo papel dos instantes finais de sua existência".

Histórias e relatos sinistros como esses são muito numerosos, e existem incontáveis fenômenos sobrenaturais bizarros atribuídos a espelhos. Tanto que muitos investigadores paranormais procuram imediatamente por espelhos quando chegam a um local supostamente assombrado. Eles são muitas vezes pontos focais de atividade paranormal. 

Considerando a plenitude de histórias e os vários fragmentos de mito e conhecimento à cerca de espelhos, parece justo considerá-los como objetos especiais. Seriam espíritos, fantasmas e demônios realmente atraídos por tais objetos?  Seriam eles portas para lugares distantes? Ou tudo isso não passaria de truques de nossa imaginação? De onde vem tantas lendas a respeito de espelhos, se é que são apenas lendas? 

Não importa quais sejam as respostas para essas perguntas, espelhos provavelmente continuarão a conjurar histórias estranhas nos reinos do sobrenatural, e dar algo para que você pense na próxima vez que olhar para um deles. Você nunca saberá ao certo o que está olhando de volta.

domingo, 7 de julho de 2019

O Monge Negro - Uma das mais terríveis assombrações na Inglaterra


Fantasmas e atividade poltergeist não são algo novo, e os estudiosos do paranormal catalogaram incontáveis exemplos desse fenômeno perturbador. Ainda assim, de tempos em tempos, algum caso inexplicável parece vir à superfície apresentando algo novo e aterrorizante que merece destaque. Localizada no centro da Inglaterra, em uma vizinhança aparentemente convencional, existe uma antiga casa de aparência simples que a despeito de tudo isso, desponta como um dos endereços mais assombrados da nação. Nesse domicílio habita uma força antiga, violenta e aterrorizante conhecida como o Monge Negro. 

O ano era 1966 e uma família formada por Jean e Joe Pritchard se mudara para a propriedade com seus dois filhos Phillip de 15 e Diane de 12. Eles haviam escolhido a casa de tijolos vermelhos no número 30 da East Drive, em Pontefract, Yorkshire. Tudo parecia bem e eles estavam felizes. Mas não demorou muito para que eles percebessem que coisas estranhas aconteciam na casa. O que eles não sabiam é que aqueles incidentes, à princípio inocentes, dariam origem a uma das mais apavorantes narrativas de assombração de que se tem notícia.

O primeiro incidente inexplicável ocorreu em primeiro de setembro de 1966, quando o filho mais velho do casal, Phillip, estava na companhia de sua avó Sarah Scholes, enquanto o restante da família havia viajado para Devon. Certa noite, os dois únicos ocupantes da casa sentiram uma estranha sensação de frio, a despeito de ser verão. Estranhando aquela situação atípica, os dois investigaram a casa e descobriram que o frio emanava da sala da frente. Enquanto estavam lá ouviram o que parecia ser passos ecoando no telhado. Quando correram para ver do que se tratava, não encontraram nada, embora ao voltar para casa tenham visto estranhas poças de água que surgiram misteriosamente. As tais poças pareciam ter sido deixadas por uma pessoa entrando no aposento, o que era inexplicável já que não havia ninguém.   


Na ocasião eles pensaram que aquilo não era nada além de algum vazamento ou cano quebrado e resolveram chamar um técnico para fazer os reparos necessários. Entretanto, após uma inspeção cuidadosa, este não conseguiu encontrar qualquer problema na instalação. Estranhamente, apesar do diagnóstico, as poças de água continuaram aparecendo quase todos os dias, desafiando uma explicação razoável.

Dias mais tarde, o estranho fenômeno foi acrescido de outro estranho incidente. A cozinha foi totalmente destruída quando os moradores da casa não estavam. Estranhamente, a porta estava trancada e até onde se sabe ninguém invadiu a propriedade. Não obstante, o lugar parecia ter sido varrido por uma tempestade, como se alguém tivesse furiosamente lançado cada prato e utensílio no chão, quebrado copos, louça e arrancado as portas dos armários e virado mesas e cadeiras. Tamanha era a violência que garfos foram entortados e lâminas quebradas. A geladeira foi arrastada e os alimentos em seu interior espalhados pelo chão. A comida havia se deteriorado rapidamente e nuvens de moscas zumbiam sobre os alimentos estragados. Não havia uma explicação razoável: nada foi roubado e a tranca da porta estava em perfeito estado. 

Enquanto limpavam a bagunça provocada, a família foi interrompida por batidas secas na porta e nas paredes. Ao correr para ver o que provocava aquele estrondo, não havia ninguém à vista. Jean Pritchard percebeu ainda que as plantas que era colocadas no pátio da casa haviam sido viradas e a terra dos vasos espalhada em questão de segundos. 


Esse foi apenas o início de uma longa escalada de atividade sobrenatural na casa. Nos dias seguintes  os objetos na cozinha pareciam vibrar e balançar como se uma força invisível incidisse sobre eles. Gavetas e portas de armários se abriam. Por vezes, os pratos e copos simplesmente rolavam de seu lugar e se despedaçavam no chão, quadros e fotografias não paravam nas paredes. Além disso, as lâmpadas piscavam sem parar, acendiam do nada ou se apagavam sem que ninguém mexesse. Uma cafeteira elétrica esquentou e se incendiou misteriosamente e por pouco a casa não pegou fogo. O ataque mais forte aconteceu quando um pesado armário que ficava no quarto se moveu sozinho e rolou escadaria abaixo causando um grande estrondo. 

A família decidiu deixar a casa temendo pela segurança das crianças. Eles procuraram abrigo na casa de um vizinho e alarmados ouviram o som de objetos quebrando a noite inteira, pancadas na parede e passos pesados. Na manhã seguinte retornaram e encontraram muitos objetos quebrados, mas nenhum outro sinal de atividade paranormal. De fato, tudo parecia estranhamente quieto. Os Pritchard acreditavam que seja lá o que havia atacado seu lar, havia se dissipado tão rápido quanto havia aparecido e que eles estavam livres daquilo.

Demorou mais dois anos para que algo fora do ordinário voltasse a se manifestar na Casa, mas quando aconteceu, foi como se o pior estivesse sendo guardado.  


O longo período de calmaria fez com que o choque fosse ainda mais profundo. As estranhas poças de água voltaram a aparecer na cozinha, móveis se moviam de lugar, uma espuma esverdeada de odor nauseante se formava nas pias, batidas secas e pancadas violentas podiam ser ouvidas a qualquer hora do dia e da noite. As portas não ficavam abertas e o conteúdo de armários eram encontrados espalhados pelo chão. Certa noite, a família encontrou fotografias destruídas como se o papel tivesse queimado. Havia ainda um fedor emanando de todo canto, um cheiro de putrefação que atraia insetos e era absurdamente repulsivo. Diane, então com 14 anos contou ter ouvido um som assustador como se alguém respirasse em seu ouvido e sussurrasse palavras de baixo calão. em outra ocasião, membros da família ouviram o ruído de animais de fazenda. As manifestações se tornaram tão comuns que a família apelidou a força de Fred, para colocar uma face no invasor que os importunava sem parar.

A situação continuou em uma escalada de intensidade, com objetos sendo destruídos por mãos invisíveis e outros flutuando no ar. Testemunhas que visitaram a casa afirmaram ter visto cenas inacreditáveis envolvendo entre outras coisas, um vaso flutuando e uma cadeira sendo atirada repetidas vezes contra a parede até se despedaçar por completo. Eles perceberam que quando pessoas de fora visitavam a casa, os fenômenos se tonavam mais violentos como se fosse uma reação à presença de estranhos. A polícia foi chamada repetidas vezes, assim como o vigário local: todos ficaram impressionados pela atividade poltergeist que se manifestava no lugar. Diane se tornou um alvo recorrente da atividade que parecia se divertir em assustá-la. Ela ouvia vozes, coisas voavam na sua direção e em mais de uma oportunidade ela descreveu algo semelhante a mãos tocando seu corpo enquanto dormia. A entidade parecia interessada em atormentar cada membro da família por vezes empurrando, batendo e socando os moradores que sentiam a presença se tornar cada vez mais agressiva.

O fenômeno parecia agir em círculos, com períodos de grande atividade e depois certa calmaria. Por vezes, a tranquilidade era quebrada por algum incidente menor, mas então os fenômenos voltavam com força. Diante de todos acontecimentos, a Família Pritchard decidiu buscar ajuda na Igreja. Diversos exorcismos foram realizados na casa, mas eles apenas pareciam tornar  espírito mais furioso. Durante um dos exorcismos, um crucifixo foi arrancado da mão de um padre e torcido. Em certa oportunidade uma cama foi arrastada quase dois metros e erguida para então se quebrar no meio. Em outra vez uma cadeira foi lançada contra o padre que estava conduzindo a oração e o homem sofreu um corte no supercílio. Nada parecia deter o fenômeno e parecia ser questão de tempo até alguém ser ferido com gravidade. 


Logo após a realização do quinto exorcismo mal sucedido, algo aconteceu na casa. Uma forma sombria se manifestou de maneira visível diante de Jean e Joe. Era uma forma etérea suspensa a quase dois metros de altura, flutuando próximo do teto. Ela vestia um tipo de manto religioso de cor escura, marrom ou preto, preso com uma corda em volta da cintura. Sua face estava oculta por um capuz pontudo, bem como os braços. Ele parecia um monge medieval, o que lhe valeu o apelido de "Monge Negro".

Depois disso, o Monge passou a ser visto frequentemente pelos membros da família Pritchard. Até mesmo alguns vizinhos afirmavam sentir a presença e em mais de uma ocasião ver o fantasma vagando pelo pátio e pela frente da casa. Para tornar tudo ainda mais sinistro, o fantasma começou a falar com as pessoas e sua voz gutural parecia ecoar elos aposentos vazios. Diane passou a apresentar ferimentos no corpo, arranhões nas cosatas, braços e pernas que pareciam ter sido produzidos por unhas afiadas. Em duas ocasiões ela sentiu o equivalente a uma mordida que deixou marcas claras de dentes na sua pele. Algo também puxava seu cabelo, a empurrava e a chamava de "vadia". 

O desespero da família fez com que eles recorressem a especialistas no sobrenatural. O famoso investigador paranormal Tom Cuniff, começou a fazer pesquisas a respeito da história da área e descobriu que o local havia sido usado no século XVI como prisão para conter religiosos. De fato, uma pesquisa revelou que no exato lugar onde a casa havia sido erguida haviam transcorrido execuções públicas, em especial a de Monges que foram aprisionados pelos homens do Rei Henrique VIII durante a Reforma Protestante. Segundo o levantamento realizado, pelo menos sete monges haviam sido enforcados no local. Cuniff acreditava que o espírito que atormentava a casa pertencia a um monge que havia sido prisioneiro na casa e que posteriormente havia sido executado. 


Estranhamente, a despeito da intensa atividade paranormal que permeava na residência, ela parou por completo certo dia. Os moradores da casa estavam desconfiados de que uma vez mais essa pausa seria temporária, e esperavam que mais cedo ou mais arde o pesadelo se reiniciasse. Mas estranhamente tudo ficou quieto. Os Pritchard eventualmente conseguiram comprar outra casa e se mudaram, enquanto a propriedade se tornou um endereço popular entre investigadores do paranormal interessados em desvendar o mistério do Monge Negro. 

Um casal muito popular de investigadores do sobrenatural, Nick Groff e Katrina Weidman, conduziu um estudo detalhado do local. Eles comandavam um programa de TV chamado Paranormal Lockdown, que decidiu fazer um episódio especial na casa. A proposta era passar um final de semana inteiro na residência e determinar se as histórias sobre ela eram verdadeiras. Tão logo as portas se fecharam, os fenômenos inexplicáveis começaram a se manifestar. Tudo começou com uma sensação sinistra que contagiou a todos. Groff explicou que eles podiam sentir que não estavam sozinhos e que algo ali parecia emanar uma aura de ódio perceptível. Logo portas começaram a bater, sons de passos foram ouvidos e um cheiro de podridão pode ser sentido. Katrina mais tarde contou qual foi a sua impressão a respeito desse trabalho: 

"Tão logo cruzamos a porta de entrada senti que essa seria uma experiência diferente. Havia uma energia negativa na propriedade e era possível sentir que aquela presença, fosse ela o que fosse, não estava satisfeita. Quando você encontra um lugar realmente assombrado, é possível sentir que existe alguma coisa errada. Há um senso de estranheza no ar, você sente arrepios e percebe que alguma coisa está contaminando o ambiente com uma presença que não é natural. Quando entramos na casa do Monge Negro, minha primeira reação foi sair dali e correr sem olhar para trás. Ás vezes, queria ter feito isso..."  

A equipe do programa se recorda de ter ouvido batidas, portas batendo e móveis se mexendo. O fedor onipresente se espalhava por todo ambiente e se tornou tão forte que em determinado momento, um dos cameras começou a passar mal. Contudo, um dos grandes momentos foi quando Nick Groff propôs ao espectro do Monge Negro que movesse um objeto, no caso uma bola de tênis colocada sobre uma mesa. A bola se moveu sozinha, caiu no chão e continuou se movendo como se empurrada por uma força invisível. Em seguida objetos foram arrancados das paredes e lançados no ar violentamente. Um relógio de parede caiu e se despedaçou no chão. 

Outra cena bizarra ocorreu quando Groff perguntou ao espírito: "Você precisa de muita energia para mover objetos"? Por instantes nada foi ouvido, mas então, um dos técnicos de som disse ter captado algo nos microfones que estavam sendo usados para gravar a cena. Ele voltou a fita e o grupo pode ouvir claramente uma voz sussurrar a palavra "Desperata", que significa "Desespero" em Latim.

No auge disso, a temperatura do aposento caiu drasticamente, quase 7 graus segundo os termômetros instalados na sala. De repente uma figura sombria apareceu em um canto do aposento, sendo captada brevemente pelas câmaras. A figura parecia uma sombra amorfa que aparecia em cinco quadros e depois desaparecia como se jamais tivesse estado ali. Para tornar udo ainda mais ameaçador, uma faca caiu na escada e rolou pelos degraus. A equipe também começou a reclamar de sofrer empurrões e arranhões. Finalmente, Katrina soltou um grito. Ela expôs então a barriga afirmou ter sentido uma mordida. E lá estava uma marca perfeita deixada por dentes. 

"Nós podíamos sentir essa presença se movendo entre nós. Ea era invisível, mas sentíamos quando ela encostava ou esbarrava. A temperatura caiu bastante e sentíamos um frio horrível, muito embora do lado de fora a temperatura fosse de 21 graus, lá dentro podíamos ver a nossa respiração criar nuvens de condensação. Eu me considero um veterano nesse tipo de reportagem, já vi coisas realmente estranhas, mas nunca em minha carreira senti tanto medo. Aquilo era assustador, não apenas pela situação que estávamos experimentando, mas por que estava claro que aquela presença era agressiva. Ela queri nos ferir e o faria sem hesitar se pudesse".

Após um final de semana inteiro, a equipe deixou a Casa acreditando que tinham reunido provas suficientes de que a presença na Casa continuava ativa e que era um dos casos mais emblemáticos de poltergeist na história. Infelizmente, muitas pessoas levantaram questionamentos sobre as filmagens alegando que a equipe simulou a maioria (ou todos) os eventos.

Outros pesquisadores tentaram sua sorte na Casa e na maioria das vezes a assombração se manifestou provocando uma sensação palpável de terror. Alguns parapsicólogos expressaram choque com a magnitude da atividade paranormal que habitava a residência, com muitos afirmando que as energias presentes eram tão fortes que conseguiam provocar reações físicas nos visitantes. Isso significa dizer que a assombração era tão forte que conseguia mexer com as emoções das pessoas.


Não por acaso, estudiosos apontaram o Monge Negro como uma das mais violentas e poderosas manifestações sobrenaturais registradas. Outra dupla de investigadores do paranormal, que apresentavam o programa Ghost Dimension disseram:

"Quando cheguei na casa, eu estava animado em conhecê-lo, mas pensava que as histórias deviam ser um exagero. Minhas pesquisas levantaram tantos relatos absurdos que eu pensei comigo mesmo: "Não é possível!" Mas ao entrar pude sentir aquela presença maligna. Eu jamais experimentei um fenômeno sobrenatural tão forte e contínuo".

A causa foi comprada por um homem chamado Phillip Painter e mais tarde vendida para um produtor de cinema chamado Bil Bungay, que pensava em transformá-la em um tipo de atração macabra para turistas. Ele alugou a propriedade para vários programas de televisão a respeito de investigações sobrenaturais e eventualmente permitiu que o filme When The Lights Go Out (2012), dirigido por Pat Holden, fosse filmado na casa. A equipe de produção do filme afirmou que tiveram várias experiências sobrenaturais e que chegaram a filmar algumas cenas em que uma presença fantasmagórica podia ser vista. É claro, como quase sempre acontece, há muitas alegações de que as imagens foram manipuladas para criar um burburinho que ajudasse na divulgação do filme. E de fato, esse pode ser o caso. 

Ainda hoje, a casa continua existindo e de tempos em tempos ela volta a ser objeto de debate e discussão acalorada atraindo curiosos. Muitos que a exploram acreditam que ela é um dos endereços mais assombrados da Inglaterra. O marco zero de incontáveis fenômenos inexplicáveis e ocorrências bizarras.  O Monge Negro é tratado quase como uma celebridade entre estudiosos do paranormal que tentam desvendar seus mistérios. 

Seja lá o que acontece nesse endereço amaldiçoado, uma coisa é certa: a presença continua se manifestando e aparentemente continuará se fazendo sentir, por muito tempo. 

segunda-feira, 1 de julho de 2019

A Lei do Contágio - Um fungo capaz de contaminar, controlar e matar


"A natureza é sábia".

Eu não consigo colocar em palavras o quanto essa frase me incomoda. Não por ser uma inverdade, mas por que a natureza é muitas outras coisas antes de sábia, sendo que IMPLACÁVEL me parece ser a mais flagrante.

Nos implacáveis jogos da evolução e sobrevivência, não há espaço para os fracos. Aqueles que não são capazes de se adaptar ou se valer de suas vantagens acabam sendo removidos do tabuleiro evolutivo. Como resultado: morte, extinção e esquecimento.

Em uma notícia especialmente medonha do mundo natural, cientistas descobriram detalhes a respeito de um fungo que afeta cigarras de uma maneira até então desconhecida. Ele compele seus hospedeiros a acasalar muito depois de seus genitais se desfazerem e transforma seus corpos em simulacros para uma doença mortal que se espalha, domina e mata todos que toca.

O fungo em questão é chamado Massopora cicadina, e seus efeitos quando compreendidos na sua extensão são nada menos do que perturbadores. Na pratica, os pobres insetos são dominados e compelidos a procriar desesperadamente, se tornam incapazes de evitar esse impeto e assumem um comportamento simplesmente bizarro. Que os perverte e vai contra sua natureza. 

Uma equipe de pesquisadores norte-americanos que analisaram uma população de cigarras infectadas pelo fungo patogênico, encontraram efeitos similares a anfetaminas e outros compostos químicos psicoativos.


A agressividade e a forma como esse fungo atua sobre seus hospedeiros surpreendeu até mesmo pesquisadores como Norman Keyser, um dos maiores especialistas em fungos no mundo e que já viu praticamente de tudo.

"Esses compostos psicoativos afetam as cigarras como se fossem drogas que causam mudanças comportamentais acentuadas. Imagine a pior viagem induzida por drogas potentes, multiplicada por 1000. Ainda assim não será perto do que elas experimentam.".  

A forma como este patógeno fungal produz moléculas e enzimas pode abrir caminho para a industria farmacêutica desenvolver drogas e substancias únicas. Entretanto, quando analisamos os detalhes a respeito do M. cicada, nossa primeira reação é querer manter distancia dele e de tudo que ele representa.

O fungo parece se desenvolver em lugares onde a população de cigarras se concentra, infectando arvores e o solo onde as larvas se desenvolvem. Muitas vezes, estas acabam nascendo já infectadas, prontas para espalhar a doença para os outros membros de sua especie. As cigarras contaminadas produzem os esporos em seus próprios corpos, liberando-os a medida que voam e se aproximam de outros membros da especie. Um espécime contaminado desenvolve bolsas tumorosas, grandes e repletas de esporos. Estas crescem no corpo inteiro quase dobrando o peso do inseto. Essas bolsas estouram quando próximas de outros espécimes e os esporos são responsáveis pela transmissão. Um  breve contato já é suficiente para dispersar o fungo que em pouco tempo pode afetar toda população.

Para aumentar as chances de contagio, o fungo ainda tem alguns truques na manga.

Um deles é fazer com que os portadores do sexo masculino voem de uma maneira que remete as fêmeas da especie, atraindo assim outros machos em uma dança confundida com a do acasalamento. O fungo também compele os machos a mutilar a si mesmos, produzindo ferimentos com suas mandíbulas para que eles se tornem semelhantes as fêmeas. Basicamente, eles arrancam os próprios órgãos genitais, preenchendo as cavidades abertas com esporos prontos para espalhar a infecção.


As fêmeas da especie são igualmente afetadas nessa guerra biológica. Seu sistema reprodutor se transforma em uma fabrica de esporos que são produzidos ate que seus corpos se tornem grotescos, deformados e inchados. Em seguida, elas voam na direção do solo e morrem. Seus corpos literalmente explodem de dentro para fora, espalhando os esporos no solo onde se encontram as larvas e os ovos, contaminando tudo.

Se isso não fosse o bastante, o fungo age diretamente no comportamento das cigarras infectadas. Elas se transformam em zumbis com um único propósito: acasalar. Mesmo debilitadas pela falta de comida ou feridas pelo contato sexual repetido, as cigarras continuam buscando parceiros, muitas vezes morrendo na ânsia de cumprir a programação estabelecida pelo fungo.

"Adultos infectados mantém uma atividade sexual frenética na qual trocam de parceiros repetidamente. Comparativamente, seria como um humano adulto ter 20 ou 30 relações sexuais em um único dia, incapaz de conter seu impeto. O método hostil de contágio adotado por esse fungo é tão engenhoso quanto aterrorizanteSe tal coisa acontecesse com seres humanos, nossa sobrevivência enquanto especie estaria ameaçada".

Transferindo os elementos dessa infecção fúngica das cigarras para a raça humana, temos o enredo de um filme de horror absurdamente medonho. 


Imagine centenas de homens e mulheres infectados por esse fungo atroz, seus corpos deformados pela infecção de esporos. Eles se sentiriam compelidos a atacar sexualmente outras pessoas, de ambos os sexos, para transmitir sua doença letal. Sem se importar com a moral ou ética, esses portadores simplesmente iriam se atirar sobre as suas presas com o intuito de transmitir a moléstia fervilhando em seus corpos. Fariam sexo dezenas de vezes por dia, para garantir a dispersão dos esporos. Sem se preocupar com necessidades básicas como comer ou dormir, agiriam como zumbis.

Ao mesmo tempo, as fêmeas se tornariam viveiros vivos. Seu organismo se devotaria exclusivamente à produção de esporos. Seu ventre e útero, infestado por patógenos, desenvolveria massas tumorosas de esporos que fariam seus ventres se distender grotescamente. Assim uma quantidade absurda de esporos seriam estocados em seus corpos. E quando estivessem no limite, elas simplesmente explodiriam com uma violenta liberação de gases, espalhando a doença no ar, para infectar novos hospedeiros. 

Terror! 

Terror completo e sem precedente dentro de nossa própria natureza.

Claro, estamos extrapolando os conceitos com objetivo de ser o mais aterrorizante possível em nossas descrições. Não se sabe de fungos na natureza capazes de afetar sistemas nervosos complexos como o do ser humano, mas os fungos estão sempre se adaptando. E é com frequência que descobrimos algo novo (e aterrorizante) a respeito deles.


As cigarras conseguem evitar sua extinção uma vez que também se adaptam ao efeito dos esporos e desenvolvem resistência, mas a cada geração, os fungos também sofrem mudanças para afetar uma nova geração até então, imune. Se um dia uma geração de cigarras não conseguir se adaptar a tempo, é possível que todas acabem sendo infectadas, desaparecendo para sempre. Nesse caso, talvez o fungo busque outro tipo de hospedeiro e quem pode imaginar que especie ele irá escolher.

Dizem que a natureza é sábia.

Eu fico com implacável!

Pergunte às pobres cigarras.

*     *     *

E para quem quer se assustar um pouco mais com a interação de fungos e insetos, recomendo esse artigo AQUI.

E esse outro, a respeito de mais uma demonstração adorável de parasitas agindo na natureza: AQUI AGORA.

domingo, 12 de maio de 2019

La Lhorona - As origens da Lenda sobre a Mãe que Lamenta pelos seus filhos


"E onde quer que o povo mexicano vá, ele leva consigo a lenda, a Lenda da Llhorona, a mulher que lamenta. E para onde a lenda é carregada, ela segue. Mesmo hoje, ela está aqui. Nós ouvimos o seu choro à noite, perto do rio. Muitos a viram andando por estas mesmas ruas. E ela sempre chora, e nosso povo sofre. Talvez, quando o rio se encher de lágrimas ela vá embora. Mas é fato que ela só partirá quando estiver pronta. Até lá, não podemos fazer nada além de rezar. Rezar e evitar o rio depois do anoitecer" 

A Lenda da Llorona
- O Mito do México

Uma mexicana, Juana Léija, tentou matar seus sete filhos jogando-os nas águas da Baía de Buffalo, em Houston, Texas, em 1986. Vítima frequente de violência doméstica, ela aparentemente estava tentando acabar com o sofrimento dela e de seus filhos, dois dos quais não sobreviveram. Durante uma entrevista, Léija declarou que ela era La Llorona (A Chorona).

La Llorona é uma figura lendária com várias encarnações presente na mitologia Mexicana. Geralmente traduzida para o inglês como Weeping Lady ("a mulher que chora"), ela é frequentemente apresentada como um tipo de fantasma ou banshee: uma aparição de uma mulher vestida de branco, encontrada próxima de lagos ou rios, às vezes em encruzilhada, que chora durante a noite por seus filhos perdidos, a quem ela própria matou. O infanticídio às vezes é realizado com uma faca ou adaga, mas na maioria das vezes as crianças são vítimas de afogamento. Seu terrível crime geralmente é cometido em um ataque de loucura depois de ter descoberto sobre um amante infiel ou marido que a deixou para se casar com uma mulher de status mais elevado ou riqueza. Depois de perceber o que ela própria fez em um ato de desatino, ela geralmente comete suicídio. A Chorona é frequentemente descrita como uma alma perdida, condenada a vagar pela terra para sempre. Para alguns, ela é um bicho-papão, usado pelos pais para assustar as crianças que não se comportam.

Mas o que quer a Llhorona? Em geral, as histórias concordam que ela é um espírito vingativo e ensandecido. Seu pecado, motivado pela rejeição a levou ao desespero e ao ato de matar suas crianças - crime que as mães não podem suportar. Seu crime, a faz continuar existindo apesar de morta, vagando sem destino: louca e entristecida. Crianças são o seu alvo, ela não suporta ver crianças vivas enquanto as suas não mais estão. Ela as afoga como vingança, ou como marca de sua loucura.


Esta história folclórica tem sido representada artisticamente em várias formas: no cinema, na animação, na arte, na poesia, no teatro e na literatura, tanto para adultos como para crianças. A lenda está profundamente enraizada na cultura mexicana e entre a população mexicana residente nos Estados Unidos.

As origens da lenda são incertas, mas foi apresentada como tendo raízes pré-hispânicas. Acredita-se que La Llorona seja um dos dez presságios que predizem a Conquista do México e também esteja ligada à Deusas Astecas. No Códice Florentino, uma obra enciclopédica sobre os povos nahuas do México, concluída no século XVI pelo frade franciscano Bernardino de Sahagún, encontramos duas deusas astecas ligadas a La Llorona. A primeira é Ciuacoatl (mulher-cobra), descrita como "uma besta selvagem e um mau presságio" que "aparecia de branco" e que andava à noite "chorando e lamentando". Ela também é descrita como o "presságio de guerra". Essa Deusa também poderia estar ligada ao sexto de dez presságios que estão registrados no códice como tendo predito a Conquista: "a voz de uma mulher será ouvida lamentando à noite, chorando sobre o destino de seus filhos. E de todos que morreram e ainda irão morrer, vítimas da derrota".

Um códice posterior do frade dominicano, Diego Durán, detalha os mitos de origem dos deuses astecas e discute a deusa Coatlicue, que é frequentemente ligada a Ciuacoatl. Coatlicue era a mãe de Huitzilopochtli, o Deus Asteca da guerra. Durán a descreve como "a mulher mais feia e suja que se poderia imaginar". Seu rosto tão negro e coberto de sujeira que parecia algo saído do inferno”. Ela espera que seu filho volte para ela da guerra e chora e lamenta por ele enquanto ele está fora. Durán também fornece detalhes de algumas ocorrências estranhas antes da conquista que supostamente teriam perturbado o Rei Montezuma. Entre os presságios estaria o de uma "mulher que vagueia pelas ruas chorando e gemendo pelos filhos mortos".

Embora esses relatos preencham alguns elementos da lenda de La Llorona, há uma outra deusa ligada a água e infanticídio, elementos contidos na lenda. De acordo com o Códice Florentino, Chalchiuhtlicue era a deusa das águas e a irmã mais velha do deus da chuva, Tlaloc. Ela é descria como alguém a ser "temido" e que "causou grande terror". Dizia-se que ela afogava as pessoas e afundava barcos. Cerimônias em honra dos deuses da chuva, incluindo Chalchiuhtlicue, envolviam o sacrifício de crianças que eram mortas em piscinas, novamente, afogadas. Essas vítimas sacrificiais foram compradas de suas mães e quanto mais as crianças choravam, mais bem-sucedido era o sacrifício aos olhos dos sacerdotes.


La Llorona também foi confundida com La Malinche, tradutora e concubina do Conquistador Hernam Cortés. Como tal, ela é muitas vezes retratada como uma mulher indígena abandonada pelo amante espanhol. No entanto, há muitos temas europeus e do mundo antigo semelhantes aos quais ela também poderia estar ligada: a "Mulher Branca" da tradição germânica e eslava, a Lorelei e, é claro, a Banshee irlandesa. A lenda da mulher que mata seus filhos depois de ser traído por seu amante e descartada por uma mulher de maior status ou raça mais "apropriada" também tem raízes na tradição grega, na lenda de Medéia e Jasão.

É estranho que um mito tão difundido possa ter características tão diferentes, e ainda assim, ser conhecido pelo mesmo nome. De fato, as variações na história folclórica parecem ser geográficas, com diferentes regiões tendo suas próprias versões ligeiramente diferentes da mulher que lamentava. 

Além disso, a lenda mudou ao longo do tempo, aparentemente para refletir condições da sociedade mexicana. Há diferentes versões para a origem da lenda.

La Llorona, uma peça de 1917 de Francisco C. Neve é ​​ambientada durante o reinado de Filipe II (1556-98). A protagonista é Luisa. Ela tem um filho com seu amante, Ramiro, filho de Cortés, que tem um status social muito maior. Embora eles estejam juntos há seis anos, Ramiro deve se casar com a filha rica de um juiz. Luisa não tem conhecimento disso e Ramiro acredita que ele pode continuar seu relacionamento com ela, se ele se casar em segredo. Luisa é informada sobre o casamento de Ramiro e levada à loucura, não apenas pela infidelidade de Ramiro e sua decisão de se casar com alguém por honra e status, mas por seu desejo de levar seu filho para longe dela. Quando ele vem buscar seu filho, Luisa o mata com um punhal, oferecendo a Ramiro seu corpo em um delírio, dizendo que ela o matou depois que Ramiro matou sua alma. Luisa é enforcada por seu crime em uma execução pública durante a qual ela é tratada como bruxa. Ramiro morre de tristeza quando o fantasma de Luisa, transformado na Llorona, aparece para assombrá-lo.


A história parece refletir a vida no México colonial. Embora inicialmente houvesse uma escassez de mulheres espanholas na Nova Espanha, o que significava que a união entre mulheres indígenas e homens espanhóis eram bastante comuns, no final do século 16 a população de mulheres européias aumentou enquanto o status de mulheres locais caía. 

Os destinos dessas mulheres indígenas e mestiças variavam. Algumas desfrutavam de estabilidade e e, portanto, se beneficiavam dessas uniões, mas na maioria das vezes elas foram deixados de lado depois de alguns anos para mulheres mais jovens ou, mais freqüentemente, uma esposa espanhola. De forma mais alarmante, as crianças resultantes do enlace eram às vezes tiradas de suas mães indígenas ou mestiças em uma prática derivada de uma tradição espanhola de punir as chamadas mulheres "rebeldes" de seus filhos. Situação que resultava em mulheres levadas ao desespero em face da separação compulsória. Elas preferiam ver os filhos mortos a viver sem eles.

Em outra versão da lenda, datada de 1933 a história de La Llorona, enfatiza a diferença de classe. O roteiro é ambientado na década de 1930 e o foco é sobre os descendentes de Cortés, que se mostram amaldiçoados pela deusa da morte durante a Conquista. La Llorona manipula a protagonista principal, Margot, e a faz matar seu filho, quando ela descobre que seu amante, o pai do menino, deve se casar com uma mulher rica. Como a peça de 1917, a protagonista é levada a loucura pelo pensamento de que seu amante pode tentar levar seu filho. Após matar a criança afogada, Margot, ela própria acaba se tornando um fantasma similar a Lhorona. 


Versões posteriores da história da mulher chorosa apresentam o vilão como espanhol e criam heróis nas culturas mestiça e indígena. A peça de Carmen Toscano de 1959, La Llorona, por exemplo, apresenta uma dura crítica à Conquista e ao período colonial, com especial atenção para o tratamento dos povos indígenas pelos conquistadores espanhóis. A Conquista espiritual também é apresentada como bastante caótica e, no geral, a Nova Espanha é mostrada como um lugar de caos, morte e injustiça. A protagonista é Luisa, uma mestiça, e seu amante, Nuño, é um conquistador espanhol que se casa com Ana, uma rica dama espanhola em segredo, planejando então retornar à Espanha. Ele não parece se importar com Luisa e nem está particularmente interessado em seus filhos. Luisa os esfaqueia até a morte e joga seus corpos no canal. Depois disso, Luisa é julgada e enforcada na praça principal da cidade. Ela chora por seus filhos e acaba se erguendo dos mortos como um fantasma para se vingar de Nuño.

Anualmente peças de La Llorona são apresentadas no Lago Xochimilco, na Cidade do México, local de importância para a lenda que é parte da identidade mexicana. "Nossa nação nasceu das lágrimas de La Llorona." O calendário da peça persiste por duas semanas no final de outubro e início de novembro, sobrepondo-se ao Dia dos Mortos. A celebração tem sido realizada há mais de 20 anos.

Embora em essência o Dia dos Mortos do México seja uma versão das festas católicas romanas Dia de Todos os Santos, o festival, comemorado em 1 e 2 de novembro, tem origens contestadas. É considerado por alguns como uma tradição indígena apropriada pelos colonizadores e por outros como uma prática colonial". No entanto, as tradições familiares do Dia dos Mortos - decorar sepulturas e construir altares em casas dedicadas a membros falecidos da família - são bastante diferentes das exuberantes festividades exibidas nos centros das cidades para os turistas desfrutarem. Nos últimos anos, o Dia dos Mortos passou a ser visto pelos estrangeiros como o festival mexicano por excelência e se tornou uma atração turística famosa.

As evidências sugerem que La Llorona, como ela é agora conhecida, é um mito que evoluiu ao longo do tempo e tem sido usado desde o final do século XIX para refletir e comentar a sociedade do México e sua história.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Olhos Negros - Uma Lenda Urbana sobre Crianças Malditas


Elas podem bater na porta da sua casa no meio da madrugada. Podem também se aproximar de seu carro em uma estrada escura. Podem ainda o cercar em uma rua deserta.

Elas parecem perfeitamente inofensivas e muitas vezes alegam precisar de ajuda, não representam perigo, pois são meras crianças. Mas não se deixe enganar pelas aparências! Apesar de parecerem crianças de 8 a 14 anos, elas não o são... seriam algo muito mais estranho e perigoso. Seus olhos são completamente negros, refletindo a escuridão de suas almas.

Essas são as Crianças de Olhos Negros.

Rumores a respeito dessas crianças sinistras tem se multiplicado nos últimos anos. Em geral, elas são compartilhadas em páginas da internet e grupos de discussão que tratam de fenômenos inexplicáveis ou Lendas Urbanas. Não se sabe exatamente onde ou quando a lenda urbana surgiu, quem a inventou e por qual motivo, mas é fato que ela continua se espalhando. Não há qualquer comprovação da existência de fato dessas crianças amaldiçoadas, não existem vídeos, fotografias ou registro da captura de uma delas. Contudo, não faltam testemunhas e relatos a respeito de pessoas que tiveram um contato muito próximo (e apavorante) com elas.

Reais ou não, histórias a respeito delas tem sido compartilhadas na internet, como essa escrita por uma pessoa de Denver, Colorado:

"Eu estava em casa assistindo um filme, quando de repente ouvi o barulho de alguém batendo na porta. Eu levantei e fui devagar até a porta para abrir, mas então imaginei que já era tarde e como não estava esperando ninguém, resolvi perguntar quem era. Ninguém respondeu. Voltei para a sala e então, ouvi a batida novamente. Fui até lá e perguntei mais uma vez, e dessa vez ouvi uma voz abafada de criança. Não consegui entender o que ela dizia, mas como parecia se tratar de uma criança abri uma fresta pequena o bastante apenas para poder ver quem estava ali. Haviam três crianças paradas ali. Uma delas disse que elas estavam perdidas e que precisavam de ajuda para encontrar sua mãe. Elas pediram para usar o telefone, e esse foi o maior erro da minha vida, pois fiquei com pena e abri a porta. Eu as deixei entrar, uma de cada vez e foi então que percebi. Elas tinham os olhos escuros, muito assustadores. Eu fiquei paralisado por um instante, apenas o tempo suficiente para uma delas se aproximar. Felizmente eu tive um estalo e consegui correr para fora de casa. Olhei para trás e vi as três paradas na entrada da minha casa como se estivessem lamentando que eu havia escapado. Voltei apenas duas horas mais tarde, acompanhado de dois amigos. Não havia ninguém na casa, mas o lugar havia sido todo revirado - portas e gavetas abertas, armário revirado, roupas e objetos atirados no chão. As crianças no entanto, haviam sumido".


Outro relato feito pela internet vem de uma pessoa de Chicago, Illinois:

"Eu olhei pelo olho mágico... lá fora haviam duas crianças... eu tive uma sensação desagradável, pois embora fossem apenas crianças, havia algo nelas que me encheu de apreensão e medo. Eu pensei em fazer de conta que não havia ninguém em casa, mas então uma delas bateu a porta e eu acabei me assustando e perguntando "Quem está aí"? Uma das crianças, um menino perguntou então se poderia entrar para usar o telefone. A voz, embora fosse de uma criança me pareceu esquisita, soou oca. Eu disse que o telefone não estava funcionando e ela bateu a porta novamente e fez a mesma pergunta, no mesmo tom. "Posso usar seu telefone?" Ela então levantou a cabeça e pude ver que os olhos eram grandes e muito escuros, negros como tinta preta. Eu fiquei sem ação. Ela olhou na direção do olho mágico e bateu na porta mais uma vez. "Nossa mãe está preocupada", ele disse e continuou batendo. Eles ficaram lá batendo por pelo menos mais dez minutos até irem embora. Eu nunca soube o que era aquilo, mas fiquei apavorado".

As histórias a respeito de crianças de olhos negros abordando pessoas não se restringe a casas, mas inclui também automóveis:

"Eu vi algumas crianças andando de um lado para  outro da calçada em frente ao meu carro. Eu estava estacionado e elas se aproximaram, com a cabeça baixa... um dos meninos se aproximou da janela e espiou para dentro. Seus olhos eram enormes, e negros. Eu consegui dar uma boa olhada neles e fiquei apavorado. Se você jamais viu uma criança com os olhos daquele jeito, é difícil de explicar o que senti. As pupilas eram pretas como a noite. O menino sussurrou através da janela: "Me deixa entrar", e eu tranquei a porta instintivamente e passei para o assento do carona. Ele ficou na porta batendo e arranhando a janela, eu não conseguia me mover de tanto medo. Quando meu amigo, quem eu estava esperando, enfim chegou, me encontrou caído no banco de trás. Ele teve que gritar até eu perceber que era ele e abrir a porta. As crianças haviam desaparecido".

É curioso, mas histórias como essas tem se multiplicado mundo afora graças à internet. De modo geral, não há como provar essas narrativas, contudo a maioria das pessoas que afirmam ter tido uma experiência com crianças de olhos negros relatam um detalhe similar: o profundo medo!


Sempre que uma criança de olhos negros aparece e a pessoa tem a chance de olhá-las cara a cara, parece haver uma sensação sobrenatural de pavor. Há muitos relatos de pessoas afirmando que ficam paralisadas, como se os membros ficassem enrijecidos ou incapazes de reagir. A reação típica é querer fugir e correr. A maioria dos relatos é confuso nesse pormenor, mas todos afirmam categoricamente que o medo os deixa sem reação, virtualmente à mercê das crianças.

Uma testemunha tentou explicar a situação pela qual passou, afirmando que seus músculos ficaram sem força e que ele se viu de um momento para o outro incapaz de dar um passo sem cair. Isso também explicaria porque algumas pessoas afirmam não serem capazes de gritar ou pedir ajuda. Elas ficam totalmente sem ação!

Não há como dizer, mas tal coisa poderia acontecer em decorrência da natureza sobrenatural dessas crianças. Algo nelas seria tão estranho e perturbador, que causaria uma reação física, não apenas psicológica. Seria o que alguns psicólogos chamam de "pavor congelante", uma reação similar ao que descrevem aqueles que experimentam a paralisia do sono.  

À primeira vista, as crianças de olhos negros não parecem diferentes de crianças comuns e suas características bizarras podem passar desapercebidas. Apenas quando se está perto o bastante é possível perceber a estranheza delas - leia-se seus olhos negros. Segundo algumas descrições, as crianças parecem se mover de maneira incomum, quase como sonâmbulas. Também teriam a pele muito clara, em um tom de palidez quase mortiço. Suas vozes soam distantes e monótonas, pouco naturais. Em geral, as crianças vestem roupas simples, em várias narrativas elas usam casacos com capuz que ajudam a disfarçar seus olhos anormais. Para alguns seriam fantasmas, assombrações, ou até mesmo alienígenas. A interpretação de sua origem varia muito de pessoa para pessoa.

Outro ponto curioso é que ninguém sabe dizer ao certo o que querem essas crianças. Embora muitos comentem que elas desejam entrar em casas e automóveis, para se aproximar das pessoas, ninguém sabe explicar qual o seu objetivo e o que fariam se conseguissem se aproximar o bastante. Elas usam como pretexto estarem perdidas ou separadas de seus pais, assim buscam comover aqueles que abordam. Dada a reação aterrorizada das testemunhas, é de se supor que aqueles que não conseguem reagir à tempo acabam se tornando vítimas delas. Estes morreriam em decorrência do extremo terror causado.

Investigadores amadores e pesquisadores do sobrenatural tentaram desvendar esse mistério e oferecer explicações razoáveis para o fenômeno das Crianças de Olhos Negros. Uma explicação comum é que poderia ser uma condição chamada midríase (mydriasis), uma dilatação acentuada da pupila ocasionada por diferentes fatores que incluem uso de drogas ou trauma. Alguns sugerem que o comportamento das crianças, com movimentos erráticos e quase mecanizados, poderiam apontar na direção de drogas que produzem midríase. É difícil entretanto, acreditar que pudesse ser algo tão corriqueiro. A hipótese parece pouco provável, pois as testemunhas afirmam que os olhos são completamente negros, o que inclui a esclerótica e a iris. Pupilas dilatas não parecem nada com olhos completamente obscurecidos.


Buscando no folclore, é difícil encontrar menções a histórias sobre crianças de olhos escuros.

Pesquisadores tentaram achar alguma menção nesse sentido, mas retornaram de mãos vazias. Histórias sobre crianças de olhos negros estão presentes na internet e em livros sobre o mundo sobrenatural, mas apenas de 1998 em diante. Não há nada no folclore ou em tradições antigas, para todos os efeitos, parece ser algo bastante recente.

Tentar traçar as origens de uma Lenda Urbana é algo complicado, mas alguns apontam para uma antiga publicação do ano de 1997, escrita por Brian Bethel, um morador de Abilene, Texas. Ele escreveu a respeito de um encontro apavorante com o que ele descreveu serem crianças pálidas que tinham os olhos totalmente negros.

Bethel relatou o ocorrido em um fórum de troca de histórias aterrorizantes:

"Eu estava apanhando meu carro na garagem do prédio em que trabalho. O lugar estava deserto e normalmente é bem escuro, iluminado por lâmpadas esparsas. De repente, ouvi um barulho e quando olhei para trás percebi que uma criança, um menino de uns 12-13 anos estava ali comigo apoiado em um carro. Ele perguntou se eu sabia da sua mãe e se podia ajudá-lo, pois estava perdido. Eu me aproximei para ajudar, mas foi aí que percebi que os olhos dele eram pretos. Pretos como carvão. Eu levei um susto e corri o mais rápido que pude para meu automóvel que estava estacionado a uns 10 metros de distância. Abri a porta, entrei e fechei o mais rápido possível. O menino ficou na janela, diante da porta batendo no vidro, pedindo que eu abrisse. Eu não conseguia me mover de tanto medo. Ele ficou ali por um tempo até que sumiu, e só então eu consegui voltar para o banco do motorista e ir embora".

Bethel manteve a sua história, relatando cada detalhe de sua experiência aterrorizante. Entrevistado alguns anos depois, quando a lenda urbana já havia se espalhado, ele sustentou o que havia acontecido:

"Eu não sei o que era, eu não sei explicar... sei apenas que aconteceu e que fiquei realmente apavorado. Até hoje, quando entro em um lugar fechado e escuro, fico nervoso. Tenho medo de ver uma dessas crianças novamente e não sei como iria reagir se tal coisa acontecesse".


Alguns estudiosos de Lendas Urbanas cogitam que a história das crianças de olhos negros possa ser uma expressão espontânea de Alucinação Coletiva. O fenômeno à luz da parapsicologia envolve uma manifestação do inconsciente coletivo que se forma graças a uma forte sugestão, basicamente as pessoas passam a acreditar que algo existe e essa coisa acaba se manifestando fisicamente no mundo real. Seria algo similar ao tulpa do folclore tibetano, entidades que se materializam mediante um pensamento coletivo que lhes dá corpo.

Contudo, seriam as narrativas sobre crianças de olhos negros, suficientemente populares para manifestar uma criatura no mundo real?

Em um estudo realizado pelo Centro de Psicologia da Flórida em 2014, relatos sobre Crianças de Olhos Negros se converteram uma das Lendas Urbanas mais frequentemente lembradas e populares, ultrapassando avistamentos do Pé Grande e tomando o lugar até do famoso Slenderman. O número de pessoas relatando encontros com tais "criaturas" teve um aumento acentuado entre 2014 e 2015.

A "febre" das crianças de olhos negros atingiu seu ápice na internet em 2013, quando um vídeo de dois minutos foi ao ar no "Weekly Strange", um web site da MSN. Não é de se estranhar entretanto que o vídeo tenha sido lançado na mesma época de um filme de horror baseado na lenda urbana.

O jornal britânico Daily Star também fez um levantamento a respeito do avistamento de criaturas sobrenaturais ocorridos na Inglaterra e o resultado foi surpreendente. Crianças de Olhos Negros ficaram entre as cinco manifestações mais comuns no país, entre vampiros e extraterrestres. Segundo o escritor científico Sharon A.Hill, relatos sobre "Crianças de Olhos Negros" lembra as típicas histórias assustadoras do folclore, no mesmo nível dos cães negros, fantasmas, aparições e monstros misteriosos. "Não são sobrenaturais, é provável que nem sequer tenha havido algum encontro. Mas isso não impede as pessoas de continuarem a imaginar e temer sua existência. Alguns até acreditando ter experimentado tal coisa".


A Lenda Urbana parece ter gerado sua própria mitologia, disseminando-se em diferentes lugares com uma velocidade impressionante. Há relatos a respeito de Crianças de Olhos Negros na Europa, América do Norte e no extremo Oriente. Ao que tudo indica, é uma história moderna de "Bicho Papão" que acabou caindo nas graças das pessoas, como a "Loira do Banheiro" ou o "Maníaco com o Gancho".

Seja como for, quando você junta narrativas a respeito de crianças estranhas se comportando de forma sinistra, não é difícil que a coisa acabe crescendo, quase por conta própria. Nosso medo diante do desconhecido, do bizarro e do inexplicável se traduz na matéria prima para construir uma enorme e aterrorizante tapeçaria.