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domingo, 7 de abril de 2019

Uma Rajada de Balas - A vida sangrenta de Bonnie e Clyde


Foi durante a Grande Depressão, um período de caos na economia, que a atenção da América se viu direcionada para um casal de criminosos. Os dois eram jovens, eram impulsivos, nada parecia detê-los e as pessoas torciam por eles - a despeito deles matarem e roubarem.

Tratados como uma dupla de modernos Robin Hoods, "roubando dos bancos e nunca das pessoas", Bonnie Parker e Clyde Barrow protagonizaram uma onda de crimes que durou dois anos (de 1932 a 1934), na qual despistaram todas as tentativas de captura, dirigindo em alta velocidade e quando necessário, abrido caminho a bala. A atitude geral das pessoas no período era contrária ao governo. A vida era dura e as dificuldades se multiplicavam, nesse panorama, não era totalmente estranho que aqueles que desafiavam as autoridades fossem vistos como heróis populares. Se Bonnie  e Clyde estavam contra os bancos, eles deveriam estar à favor das pessoas mais simples. E os dois bandidos usaram isso à seu favor. Com a imagem de rebeldes, ao invés de assassinos, o casal capturou a imaginação da nação e tornou seus nomes conhecidos mundialmente.

 Mas quem foram Bonnie e Clyde?

Onde começa a história e onde termina a lenda? Como essa dupla de ladrões se tornou em um momento mais famosa do que astros de cinema, esportistas e políticos? E por que eles foram tão importantes para o período em que viveram?

De certa maneira, é fácil romantizar Bonnie e Clyde. Eles eram jovens apaixonados que ganharam as estradas americanas, fugindo dos homens da lei que haviam sido enviados para capturá-los "vivos ou mortos". A notável capacidade de Clyde de escapar de perseguições e emboscadas chegou a lhe valer o apelido de "super-homem", dotado de um sexto-sentido capaz de avisá-lo da presença de agentes da lei. Enquanto isso, Bonnie era retratada pela mídia como uma mulher moderna: inteligente, não se contentava em ficar no segundo plano. Ela decidia os alvos a serem atacados, planejava as ações e empunhava uma metralhadora tão bem quanto seu amante. Os dois eram uma novidade no marasmo de conformismo. Aos olhos do povo, constituíam uma força que se erguia contra a situação vigente. "Se a população tivesse a coragem de ser como Bonnie e Clyde, as coisas não chegariam ao ponto que chegaram", diziam alguns. Por tudo isso, a dupla não ganhou apenas a admiração, mas o coração das pessoas.

Os dois gostavam de tirar fotos com seu arsenal e ao lado dos carros.
Embora Bonnie e Clyde tivessem matado policiais, eles eram igualmente famosos por sequestrar homens da lei, mantê-los como reféns e depois, libertá-los sãos e salvos, centenas de milhas de distância. As declarações de policiais liberados dessa forma serviram para construir a imagem de que eles se divertiam à valer e que pareciam estar vivendo um tipo de aventura. Eram bandidos simpáticos.

Mas como acontece na maioria das vezes, a  verdade a respeito de Bonnie e Clyde era bem diferente da que as pessoas idealizaram e que os jornais ajudaram a perpetuar. O casal foi responsável por nada menos do que 13 assassinatos, algumas vezes de inocentes, alvejados durante os assaltos planejados por Clyde. A dupla também costumava roubar automóveis - Clyde amava carros velozes e chegou a enviar uma carta a Henry Ford elogiando seu modelo v8. Trocavam constantemente de veículo e roubavam de pessoas comuns que tinham o azar de cruzar com eles. Também atacaram muitas lojas de conveniência, armazéns e postos de gasolina, e não apenas bancos como muitos acreditavam.

Embora a história lembre deles como "ladrões de bancos", a dupla jamais conseguiu realizar um grande assalto. Os bancos sabiam do risco que corriam e por isso, evitavam deixar nas agências grande quantidade de dinheiro. Quando o faziam, costumavam usar cofres fortes e contratar seguranças armados. Em determinado momento, roubar bancos se tornou arriscado demais e a dupla abandonou esses planos, dedicando-se a atacar lugares menos protegidos. Além disso, os trabalhos em bancos obtinham dinheiro apenas suficiente para promover suas escapadas, mas nunca para garantir a eles um padrão de vida acima da média. A maioria das coisas que eles possuíam provinha de roubos menores ou da boa vontade de seus fãs que ofereciam presentes.

É fato que o casal despertava a curiosidade e atraia os olhares de todos.

Fotos como essa ajudaram a criar o mito do Casal apaixonado
Bonnie Parker nasceu em outubro de 1910, em Rowena, Texas. A família vivia confortavelmente com o salário de pedreiro do pai, até este morrer inesperadamente em 1914. A mãe de Bonnie, Emma teve então que se mudar com os filhos para uma pequena cidade nos arrebaldes do Texas, chamada Cement City (que agora faz parte de Dallas).

De acordo com a maioria das pessoas, Bonnie era uma jovem cativante. Apesar de pequena, medindo menos de um metro e meio e pesando 45 quilos, ela era esperta e atenta a tudo. Ela havia se saído bem na escola, escrevia poemas e ganhava prêmios. Todos a consideravam amável e gentil. Ela se casou aos 16 anos com Roy Thorton, um bandido de quinta categoria. A união não foi feliz, o casal vivia às turras e quando Roy foi preso em 1927, ela decidiu voltar para a casa da mãe.

Foi o tédio que a catapultou para a vida de crime. Bonnie trabalhou como garçonete e atendente de posto, a Grande Depressão em 1929 atingiu a todos e a família Parker não foi exceção. Bonnie sonhava em ser famosa, ter coisas bonitas e conhecer o mundo. Foi graças a Clyde Barrow que ela conseguiu cumprir, ao menos em parte, algumas dessas ambições.

Clyde nasceu em Telico, Texas em 1909, o sexto filho de uma família de oito. Seus pais eram fazendeiros que perderam suas terras e tinham de trabalhar como contratados na lavoura alheia. Bem jovem, Clyde teve que pegar na enxada e suar nos campos, lado a lado com seus irmãos. Sonhava em ser músico, mas não tinha tempo para praticar.

Quando tinha 12 anos, a família se mudou para o oeste de Dallas, onde o pai, Henry abriu um posto de gasolina. Lá Clyde aprendeu a respeito de automóveis e aos 15 já entendia de motores e reparos automotivos, conhecimento que seria muito útil nos anos por vir. Ele e seu irmão mais velho, Marvin "Buck" Barrow, estavam sempre metidos em confusão e haviam sido presos por roubar carros e por delitos menores. Assim como Bonnie, ele vivia em meio a poucas perspectivas e desejava mais para sua vida do que aquilo.

O Casal Bonnie & Clyde em um momento de tranquilidade
Em janeiro de 1930, Bonnie e Clyde se conheceram na casa de um amigo em comum. A atração entre os dois foi imediata e eles começaram a namorar. Poucas semanas depois, Clyde foi preso e sentenciado a dois anos de prisão por roubo. Bonnie ficou devastada. Em março do mesmo ano, Clyde conseguiu escapar da cadeia, usando um revólver entregue por sua namorada em uma visita. Uma semana depois, ele foi capturado novamente e sentenciado a mais 14 anos de cadeia na brutal Prisão Agrícola de Weldon, no Texas.

A vida em Weldon era difícil e o trabalho duro o mantinha ocupado. Desesperado, ele decidiu fingir um acidente no qual cortou dois dedos com uma machadinha para assim receber transferência. Ao invés disso, acabou recebendo um benefício inesperado e sendo liberado mais cedo, no início de 1932. Clyde disse que jamais voltaria à prisão e que preferia morrer a passar um dia que fosse naquele inferno.      

A maneira mais fácil de se manter fora da cadeia era procurar um emprego e se manter "honesto". Ele também descobriu que Bonnie havia esperado por ele, e que estava ansiosa para encontrá-lo. Infelizmente, a Grande Depressão, tornava quase impossível a tarefa de se manter na linha e Clyde não se contentava em lavar pratos ou limpar quintais, ele queria mais. Não demorou para que ele voltasse a roubar e furtar. 

Um de seus primeiros assaltos foi a um mercado local. Bonnie participou da ação, ela deveria dirigir o carro de fuga, mas acabou sendo capturada por um transeunte que percebeu o roubo. Ela foi mandada para a prisão de Kaufman de onde foi liberada mais tarde por não existir provas que comprovassem sua participação no assalto. Enquanto Bonnie estava na prisão, Clyde e Raymond Hamilton realizaram outro assalto em abril. Era para ser um ataque rápido a uma loja de conveniência, mas algo deu errado e eles acabaram baleando mortalmente o gerente.

Bonnie acabara de deixar a prisão quando Clyde a procurou em um automóvel que acabara de roubar. Ele a convidou para fugirem juntos e começar a vida em outro lugar, onde ele não era procurado por homicídio. Clyde não prometeu que abandonaria a vida de crimes, pelo contrário, disse que tinha grandes planos e que precisava dela ao seu lado para realizá-los. Ela não precisou pensar muito... Bonnie subiu no carro e Clyde acelerou estrada à fora.

O armamento de Clyde que gostava da BAR
Os dois anos que se seguiram foram de ação e excitação, e claro, crime. Bonnie e Clyde dirigiram seus carros pelas estradas e cometeram assaltos em cinco estados: Texas, Oklahoma, Missouri, Louisiana, e Novo Mexico. Eles costumavam ficar próximos das fronteiras estaduais para conseguir escapar de seus perseguidores, usando o fato de que a polícia não tinha jurisdição além de seus limites territoriais. Para ajudá-los a evitar a captura, Clyde trocava frequentemente de automóveis ou alterava as placas quase que diariamente. Clyde também estudava os mapas e conhecia com a palma da mão cada estrada, sabendo ainda a localização de atalhos e esconderijos onde poderiam ficar ocultos. Isso ajudou a quadrilha a se esvair rapidamente a maioria das vezes em que cruzavam com a lei. 


O que a polícia ainda não havia percebido é que Bonnie e Clyde costumavam fazer sempre o memso trajeto, o que os levava frequentemente de volta ao Texas, onde eles visitavam seus parentes. Bonnie tinha um relacionamento muito próximo com a mãe, que insistia que a filha passasse ao menos alguns meses na companhia dela, não importando o quanto isso poderia ser perigoso. Clyde também aproveitava para visitar a mãe e sua irmã favorita. Essas visitas por pouco não custarama  vida deles em mais de uma ocasião.

 Bonnie e Clyde já estavam na estrada há pelo menos um ano quando o irmão mais velho dele, Buck foi solto da prisão de Huntsville em março de 1933. Embora o casal estivesse sendo caçado por várias agências do governo (uma vez que seus crimes incluíam assassinatos, assalto a bancos, roubo de carros, lojas e postos de gasolina), eles decidiram alugar um apartamento em Joplin, Missouri para ter uma reunião com Buck e sua esposa, Blanche. Lá eles decidiram formar uma quadrilha, chamada Barrow Gang, na companhia de W.D. Jones, outro notório assaltante de bancos.

Após duas semanas tranquilas, Clyde percebeu carros de polícia vigiando a área. Ele foi investigar e acabou sendo reconhecido pelos patrulheiros que lhe deram voz de prisão. Um tiroteio então teve início. Tendo matado um policial e ferido outro, Clyde conseguiu chegar até a garagem onde subiu no carro. Ele resgatou os demais na casa e escapou para a estrada sendo perseguido, mas seu talento na direção continuava inigualável e ele se desgarrou dos policiais. 

Embora não tenham conseguido capturar Bonnie e Clyde naquele dia, a polícia encontrou vários objetos pessoais e informações a respeito da quadrilha. O mais notório dos prêmios foi um filme de fotografias não reveladas que mostravam o casal em várias poses portando suas armas. Também no apartamento encontraram um caderno de poesias escritas por Bonnie. Esses objetos acabaram sendo divulgados para jornalistas que publicaram o material nos principais jornais do país. Esse foi o passaporte para que o casal ganhasse fama e se tornasse extremamente popular.

Cartaz de "Procurados"
Bonnie e Clyde continuaram dirigindo, trocando de carros e tentando se manter um passo à frente da polícia que já os havia declarado procurados vivos ou mortos. A Gangue Barrow realizou um ousado assalto a um depósito do exército e conseguiu um verdadeiro arsenal na forma de metralhadoras Thompson e BAR (Browning Auto-Rifle), escopetas e pistolas, além de muita munição e explosivos. 

Mas nem tudo era festa e em junho de 1933, a quadrilha se envolveu em um acidente próximo de Wellington, Texas. Enquanto dirigiam do Texas para Oklahoma, Clyde percebeu que a ponte que eles estavam cruzando estava passando por reparos. Ele tentou frear, mas o automóvel despencou do alto da ponte e mergulhou no rio. Embora Clyde e W.D. Jones tenham conseguido saltar do automóvel, Bonnie acabou ficando presa no veículo. Os comparsas não conseguiram ajudar Bonnie, ela escapou graças à ajuda de dois fazendeiros que pararam para ajudá-la. Bonnie sofreu ferimentos em decorrência do acidente que machucou a sua perna e a fez mancar dali em diante.

Na estrada, Bonnie não podia se dar ao luxo de procurar um hospital, por isso Clyde fez o possível para tratar do machucado. Ele chegou a sequestrar uma enfermeira para que fizesse curativos e pagou a ela 100 dólares como recompensa. Embora Bonnie tenha melhorado do ferimento, ela era obrigada a ingerir Láudano e outras substâncias para diminuir o desconforto.

Cerca de um mês após o acidente, o casal, além de Buck, Blanche e W.D. Jones se hospedaram em duas cabanas no Hotel Red Crown Tavern em Platte City, Missouri. Na noite de 19 de julho, a polícia foi avisada por locais e cercou a área para tentar uma captura. Dessa vez as autoridades estavam melhor preparadas, contando com armas automáticas e agentes federais. Por volta das 23 horas, policiais bateram a porta de uma das cabanas, e Blanche pediu um instante para atender a porta. Isso deu tempo para Clyde apanhar seu rifle automático BAR e começar a atirar. O tiroteio que se seguiu foi feroz, com mais de 500 balas disparadas em um minuto. Buck foi atingido de raspão na cabeça, mas a gangue conseguiu abrir caminho com uma barragem de disparos de metralhadora que obrigou os policiais a se proteger. Com a cobertura, os bandidos chegaram ao automóvel, mas antes Bonnie tratou de descarregar um tambor inteiro de sua Thompson nos carros oficiais, furando pneus e destruindo o motor deles, impossibilitando assim a perseguição.

Clyde dirigiu até o amanhecer e o grupo conseguiu chegar a Dexter, Iowa em uma jornada longa e cansativa. Eles pararam para descansar em uma área de recreação do Parque Dexfield. Sem que eles soubessem, a polícia seguia seu rastro e foi novamente avisada da presença da gangue por um fazendeiro que encontrou ataduras ensanguentadas.

A última emboscada
A polícia local entrou em contato com a Guarda Nacional, patrulheiros e cidadãos, totalizando um contingente de mais de uma centena de pessoas para tentar capturar o bando. Na manhã de 24 de julho de 1933, Bonnie percebeu movimentação na estrada e alertou seus companheiros de uma emboscada. O grupo abriu fogo com as metralhadoras mais uma vez e seu poder de fogo conseguiu repelir os policiais. Buck acabou sendo atingido várias vezes e dessa vez não conseguiu acompanhar os membros da Quadrilha. Clyde bateu em uma árvore e o grupo escapou a nado depois de pular num rio. 

Com a captura de Blanche e Buck, que morreu alguns dias depois em decorrência dos ferimentos, a gangue se dividiu. Clyde também havia sido ferido por pelo menos dois disparos e Bonnie recebeu alguns ferimentos de fragmentos de espingarda. O ataque por pouco não custou a vida dos criminosos e depois dele, era preciso arranjar um esconderijo para que pudessem se recuperar.

Mas em novembro de 1933, após passar cinco meses escondidos, a dupla voltou a assaltar. Eles estavam mais cuidadosos e temiam ser reconhecidos, por isso Clyde começou a usar uma peruca e Bonnie pintava ou amarrava os cabelos. Eles também evitavam dirigir durante o dia, mas ainda assim, acabavam reconhecidos e atraiam uma multidão de admiradores. No mesmo mês, W.D. Jones foi capturado e revelou à polícia a localização de esconderijos da gangue. Ele contou ainda que o casal mantinha contato regular com suas famílias e que combinavam encontros. Os federais usaram uma nova tecnologia que permitia ouvir e gravar as ligações telefônicas. 

Quando uma nova emboscada colocou a vida da mãe de Bonnie em risco, Clyde ficou furioso e jurou retaliar contra os homens da lei. Em janeiro de 1934, o casal atacou a Prisão Agrícola de Eastham, onde Clyde havia sido preso. Eles coordenaram uma fuga na qual um guarda foi morto e vários prisioneiros escaparam pulando no automóvel dos dois. Um destes prisioneiros era Henry Methvin que se juntou ao bando. A notícia da fuga ganhou manchetes sensacionalistas, assim como o assassinato de dois patrulheiros rodoviários que foram alvejados depois de perseguir o carro dirigido pela gangue.

Os homens que mataram os criminosos
A situação chegou a um ponto em que as autoridades concordaram que o reinado de Bonnie e Clyde deveria chegar ao fim. A Governadora do Texas, reincorporou os Texas Rangers, grupo que havia sido aposentado, para rastrear e matar o casal à qualquer custo. A missão dada era simples: Encontrar e matar, a captura, não era mais uma prioridade.

Os Rangers, chefiados por Frank Hamer, um famoso oficial da lei, reintegrado ao serviço, começaram a perseguir a quadrilha e por pouco não os apanharam em duas ocasiões. Eventualmente os homens da lei ficaram sabendo que o pai de Methvin vivia perto de uma área onde o casal havia sido visto. Eles entraram em contato com o sujeito e confirmaram que Bonnie e Clyde estavam na região e planejavam se esconder com ele nos próximos dias. Com isso prepararam uma armadilha para quando eles passassem pela estrada 154 entre Sailes e Gibsland na Louisiana. Os policiais confiscaram o caminhão de Methvin e fingiram que ele estava com problemas no pneu. O caminhão foi estrategicamente posicionado na estrada na expectativa de que Clyde encostasse para prestar ajuda. Um grupo de seis policiais se colocou atrás de uma barreira de vegetação com armamento pesado aguardando a chegada do casal.

Aproximadamente às 9 da manhã de 23 de maio de 1934, um Ford V-8 bege surgiu na estrada e se aproximou. Quando ele diminuiu a velocidade para ver o que acontecia, os policiais baixaram a barreira e abriram fogo sem aviso. Bonnie e Clyde não tiveram tempo de reagir! A polícia disparou mais de 130 projéteis no casal, matando os dois imediatamente. Quando os policiais se aproximaram para verificar, descobriram os cadáveres massacrados, cada um crivado por mais de 50 disparos.

O Ford V8 crivado de balas que pertenceu ao Casal de criminosos
O automóvel com os corpos de Bonnie Parker e Clyde Barrow foi rebocado de volta a Dallas onde ficou em exposição para o público. Os cadáveres foram levados para o necrotério local que atestou a identidade dos dois. Centenas de pessoas cercaram o carro, muitas delas incrédulas com a morte do casal que havia cativado a imaginação do público. Embora Bonnie tenha deixado uma carta pedindo para ser enterrada junto com seu amante, os dois acabaram sendo sepultados em cemitérios diferentes. Os enterros foram acompanhados por milhares de pessoas, em sua maioria fãs, que seguiram de perto a carreira dos bandidos do início ao fim. 

O fenômeno de Bonnie e Clyde foi um acontecimento curioso que viria a se repetir em outras ocasiões, com bandidos glamourizados e alçados a condição de celebridades pela mídia. Entretanto, nenhuma dupla de foras da lei conseguiu tanta repercussão e despertou tanto interesse do público. Ainda hoje, os dois inspiram filmes, séries de televisão e livros a respeito de suas façanhas.

"Clyde e Bonnie massacrados por balas de metralhadoras"

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Segredo nos Olhos do Morto - A Estranha Técnica da Optografia Forense


A última coisa que os olhos de um morto viram parece ser um segredo perpetuamente escondido dos vivos, um mistério indevassável que ninguém é capaz de penetrar.

Ou será que não?

Existe um ramo bizarro da ciência médica que acreditava ser possível captar a última imagem vista por uma pessoa morta recentemente. A imagem derradeira ficaria gravada na retina gelatinosa que envolve o globo ocular, a partir de sua recuperação, seria possível encontrar assassinos e resolver crimes. Parece ficção ou loucura, mas era nisso que se baseava a Optografia Forense.  

A noção foi proposta pela primeira vez por um monge jesuíta chamado Christopher Schier no século XVII, depois dele alegar ter sido capaz de preservar uma imagem colhida na retina de um sapo durante um processo de dissecação. Ele supôs que essa imagem apagada seria a última coisa que o pobre sapo viu antes de sua morte, embora ele não tivesse real compreensão de como tal coisa poderia acontecer. A despeito de suas conclusões superficiais, o monge escreveu seu trabalho, que foi publicado em um conceituado jornal de medicina britânico e debatido por médicos e profissionais da área. Ironicamente, o conceito acabou bastante difundido, mas foi apenas com o surgimento da fotografia que ele passou a ser considerado e estudado mais a fundo. 

Passados mais de 200 anos, ele continua despertando curiosidade.


Quando o processo de fotografia foi criado em 1840, começou-se a imaginar que o olho humano funcionaria de uma maneira bastante semelhante a uma câmera. Isso levou a crença de que similarmente a uma câmera, o olho humano seria capaz de capturar e conservar imagens. Partindo desse pressuposto, começaram a surgir vários experimentos para testar essa hipótese.

Em 1863 um fotógrafo britânico fez a fotografia do olho de um boi segundos depois dele morrer e usou um microscópio para procurar evidências de imagens que pudessem ter ficado gravadas na retina do animal. Ele alegava que depois de inspecionar as retinas, conseguiu discernir a imagem do curral em que o animal havia sido abatido. Com base nisso, ele proclamou que aquela era a última coisa que o boi havia registrado antes de receber o golpe fatal que o matou.

Em 1876 a ideia recebeu novo fôlego com a pesquisa do psicólogo Franz Christian Boll, que descobriu que havia um pigmento existente nos bastões de nossa retina que branqueavam quando expostos à luz mas que podiam ser restaurados na escuridão, mesmo depois da morte. Esse pigmento foi chamado de "púrpura visual", que é conhecido nos dias atuais como rodopsina. Essa descoberta foi estudada por outro psiquiatra e Professor da Universidade de Heidelberg chamado Wilhelm Friedrich Kühne, que se tornaria no futuro uma das figuras mais proeminentes no campo da optografia e que ajudaria a popularizar ainda mais esse estranho ramo.

Kühne acreditava que esse pigmento e as reações foto-químicas que Boll havia descoberto poderiam ser combinadas para preservar imagens retidas no olho no exato momento da morte, como as imagens em uma câmera poderiam ser reveladas quando expostas diretamente a componentes e luz. Ele acreditava que se uma maneira fosse encontrada para permanentemente realçar a imagem na retina, esta poderia ser revelada de modo semelhante ao que acontece em uma placa fotográfica. De fato, de acordo com Kühne o olho humano era exatamente igual a uma placa de fotografia e tinha o mesmo potencial para ser revelado. 

A ideia obviamente atraiu muitas pessoas no campo da investigação policial como uma possível ciência a ser utilizada para descobrir a identidade de assassinos. Kühne não perdeu tempo e começou a pesquisar um processo para impulsionar suas teorias, que ele registrou com o nome "Optografia" (Leitura Ótica).   


Como objetivo de refinar o processo e descobrir como fazer a revelação das imagens vestigiais, Kühne começou a fazer as pesquisas em animais de laboratório, em sua maioria sapos e coelhos. Os métodos adotados para suas experiências estavam longe de serem sofisticados, consistindo basicamente em amarrar os animais, forçá-los a olhar para uma pessoa que seria responsável por matá-los. Em seguida, a cabeça era removida, bem como os olhos para evitar qualquer tipo de deterioração capaz de arruinar o experimento. Os olhos eram então mergulhados em uma solução química em um quarto escuro, finalmente eles eram cortados ao meio e o pigmento adicionado com uma solução de alumínio. Posteriormente a retina era banhada em ácido sulfúrico com o intuito de cementar a imagem.

Em 1878 alguns desses experimentos resultaram em resultados dramáticos. Em um dos resultados mais impressionantes, Kühne conseguiu "revelar" o que parecia ser um vulto que teria sido preservado nas retinas de um coelho no momento de sua morte. O experimento foi visto com excitação e ele recebeu recursos para prosseguir em seus testes. Entretanto, a medida que os resultados se mostravam pouco promissores, o optógrafo começou a ficar frustrado, já que a maioria das revelações resultavam em imagens granuladas, desfocadas ou indistintas. Ele escreveu em seu diário:

"Não estou preparado para dizer que os olhos não são capazes de fornecer informações visuais. Tenho fé de que tal processo pode ser obtido, mas a forma correta de obtê-lo continua a me escapar".

Posteriormente Kühne teria determinado que a imagem poderia ficar gravada por um período de até duas horas na retina de coelhos e de pelo menos 3 horas na de um boi. Depois desse período, a imagem começaria a perder sua integridade na medida que a retina experimentasse um progressivo ressecamento.     


É claro, o objetivo real do experimento era conduzir testes em seres humanos, o que Kühne teve a chance de fazer em 16 de novembro de 1880. Em uma determinada manhã ele foi convidado a assistir a execução de Erhard Gustav-Reif, que havia sido sentenciado a morrer na guilhotina por ter afogado seus filhos. Tão logo a guilhotina caiu e separou a cabeça do homem, Kühne se colocou a trabalhar, removendo os olhos do cadáver para seu experimento. Trabalhando rápido, uma vez que o tempo era vital para o sucesso, ele cortou o olho esquerdo do condenado e o passou pelo processo de análise. Surpreendentemente, Kühne teria alardeado o sucesso do experimento. Ele teria sido capaz de ver uma imagem clara colhida na retina condizente com o momento final do detento.

Embora a imagem não exista mais, há uma ilustração dela publicada pelo Professor Kühne em seu trabalho intitulado "Observações da Anatomia Ocular e Fisiologia da Retina", publicado no ano de 1881 que é bastante ambígua mas mostra o que parece realmente ser uma lâmina. Alguns sugeriram que a imagem ao invés de ser a de uma lâmina, poderia ser dos degraus que conduziam até a plataforma onde ocorreu a execução, já que a cabeça teria rolado ao invés de cair na cesta onde estava destinada a ficar.

Ainda que esses resultados tenham deixado muito a desejar, os experimentos continuaram sendo muito populares e a optografia permaneceu sendo estudada ao longo do século XIX e XX. Ela era por vezes dramaticamente mencionada pela mídia sensacionalista, afirmando que incríveis imagens podiam ser observadas nos olhos de vítimas de crimes violentos. Alguns defensores do método acreditavam que misturas caseiras, que envolviam desde óleo de peixe até bálsamos e unguentos poderiam ser usados para revelar as imagens. 

Há rumores de que legistas que tomaram parte na investigação dos notórios crimes de Jack, o estripador, ocorridos em Londres em 1888, teriam recorrido a Optografia Forense. Segundo boatos, os olhos do cadáver de Mary Jane Kelly teriam sido removidos para que um especialista em optografia tentasse obter um vislumbre do misterioso matador. É claro, nenhuma imagem surgiu magicamente dos olhos da quarta vítima do matador de Whitechapel.

No reino da ficção, a ideia foi muito aproveitada por escritores que usaram a Optografia como base para suas histórias. Em 1902, Jules Verne escreveu um caso dos Irmãos Kip (Les Fréres Kip), em que os irmãos investigadores livravam um acusado de assassinato depois de obter dos olhos do cadáver uma imagem de um diferente assassino. Desde então, a optografia apareceu em programas de televisão como Doctor Who e Fringe.


O uso da optografia forense chegou ao ponto em que ele se tornou bastante aceito pela polícia, que contratava artistas para desenhar os olhos das vítimas. Em alguns casos, estes eram fotografados com lentes adaptadas para focar exatamente na retina. Na Alemanha, existe um famoso caso em que a optografia foi utilizada como evidência no julgamento de Fritz Heinrich Angerstein em 1924. Angerstein foi acusado de ter matado 8 pessoas, incluindo sua esposa. O legista do caso alegou ter encontrado na retina de duas das vítimas a imagem do acusado segurando uma machadinha. Angerstein seria condenado e executado pelos crimes, em parte porque as evidências optográficas, possuíam enorme credibilidade nos julgamentos. 

Ela chegou ao ponto de que assassinos ocasionalmente destruíam os olhos de suas vítimas temendo que eles pudessem de alguma forma denunciar a identidade do perpetrador. Um caso ocorrido na Inglaterra chama a atenção exatamente nesse sentido, conforme descrito nesse trecho d eum jornal da época:

"Nas primeiras horas da manhã de 27 de setembro de 1927, ocorreu um crime chocante pela sua brutalidade... o Policial P.C. Gutteridge do Condado de Essex foi alvejado a tiros enquanto desempenhava seu trabalho. Ele foi encontrado na beira de uma estrada baleado com três tiros na cabeça. O primeiro disparo que provocou sua morte acertou em sua testa. Posteriormente os demais foram disparados exatamente nos olhos de uma distância curta, não maior do que 10 centímetros. As autoridades acreditam que tal coisa tenha sido feita pelo assassino, temeroso de que sua identidade pudesse ser descoberta por métodos de optografia".  


Outro caso de assassinato em que a optografia foresense foi empregada ocorreu em Fevereiro de 1914 envolvendo a morte de Theresa Hollander de 20 anos. O pai da vítima encontrou o cadáver da filha próximo de uma lápide no cemitério de St. Nicholas em Aurora, Illinois. A jovem havia sido violentamente agredida até a morte com um pedaço de madeira que foi achado posteriormente. Os olhos da vítima estavam abertos com uma expressão de absoluto terror! Um optografista forense foi convidado a realizar o exame da retina, uma vez que os policiais incumbidos da investigação haviam ouvido falar da técnica. O principal suspeito era seu antigo namorado, Anthony Petras, que negava qualquer participação no ocorrido. A polícia adiantou os trabalhos removendo cuidadosamente os olhos a Srta. Hollander e tirando fotografias de suas retinas. No dia seguinte, o jornal Washington Times escreveu:

"As fotografias dos olhos foram realizadas conforme o conselho de um oculista local, que disse à polícia que as retinas poderiam registrar a última visão da vítima, segundos antes dela expirar. A fotografia segundo fontes será usada como prova no processo contra o principal acusado Anthony Petras e mostrada ao Juri durante o julgamento no Sábado".   

Infelizmente,a despeito de todas as informações,a  técnica falhou em mostrar qualquer imagem suficientemente nítida. Petras foi julgado duas vezes pelo crime, e negou envolvimento no crime. Ele acabou sendo liberado por falta de provas. O assassinato de Theresa Hollander permanece um mistério até hoje.


Eventualmente a popularidade da Optografia Forense e seu uso como ferramenta de investigação começou a decair. Isso ocorreu principalmente pela dificuldade em obter imagens de boa qualidade das retinas dos mortos. Os olhos, segundo o consenso precisavam ser removidos poucas horas após a morte e preservados de maneira perfeita. Além do mais, muitos dos casos em que a técnica foi tentada se mostraram pouco confiáveis. O método era simplesmente muito complexo e pouco prático. Embora o método tivesse um mérito em potencial, seu resultado não era consistente o bastante para torná-lo aceito.

Não demorou para que ele acabasse caindo em desuso, mas esse não foi o fim da Optografia Forense.

Desde 1975 houve um renovado interesse no método através dos esforços do fisiologista  Evangelos Alexandridis que reavaliou alguns dos estudos feitos pelo Professor Kühne. Durante seus estudos, Alexandridis foi capaz de reproduzir alguns optogramas de coelhos que haviam sido anestesiados, amarrados e forçados a olhar para janelas e painéis, inclusive um quadro de Salvador Dali, antes de serem mortos e terem seus olhos removidos. Alguns dos espécimes forneceram imagens que se mostraram promissoras, mas o estudo não foi bom o bastante para validar a técnica. Essa foi uma das últimas vezes que a optografia foi testada de maneira científica. A prática gradualmente voltou a desaparecer, tornando-se uma curiosidade macabra do estudo médico-legal. 

Mas será possível que a Optografia tenha algum mérito científico? Será possível de alguma forma ter acesso a visão final de uma pessoa no exato momento em que ela morreu? Com o equipamento correto será que poderíamos ter acesso a essa derradeira visão? Mesmo que a ideia pareça ter sido definitivamente abandonada pela ciência médica, será que um dia teremos acesso aos segredos contidos nos olhos dos mortos?  

Por muito tempo, a expressão "Homens mortos, não contam histórias" foi aceita como uma verdade incontestável, mas através da estranha Ciência da Optografia isso poderia ser mudado.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A Besta (continua) entre nós - Mais histórias reais de Lobisomens


Leia aqui a primeira parte do artigo: A Besta entre Nós

Na história européia, há muitos casos documentados de pessoas que cometeram o crime de Licantropia e que foram condenados por serem Lobisomens. 

Em suas confissões, muitos acusados descreviam a transformação sendo causada por algum objeto mágico: um cinturão ou manto de pelo de lobo, um unguento mágico, uma poção encantada ou algum outro instrumento místico. Historiadores acreditam que tais objetos faziam parte da ilusão experimentada por mentirosos patológicos ou esquizofrênicos limítrofes que sofriam alucinações capazes de alterar a realidade. De certa forma eles falavam a verdade ao dizer que eram lobisomens, uma vez que acreditavam realmente serem lobos. Sua percepção assim interpretava e reconhecia os seus delírios. A psiquiatria compreende nos dias atuais que vários esquizofrênicos agudos realmente experimentam alucinações vívidas, sendo que a "transformação do homem em besta" é um dos relatos mais frequentes.

Mas o que dizer dos casos que possuem testemunhas que presenciaram homens se transformando em lobo? É preciso lembrar que a existência da licantropia e de lobisomens era um fato incontestável, mesmo para estudiosos e acadêmicos do período que davam por certa a possibilidade da transformação. É possível que os testemunhos decorressem de mera fabricação, de loucura ou mais provável da histeria em massa, motivada pelas muitas superstições.

Afinal, lobisomens não existem... ou será que existem?

Aqui estão mais alguns casos chocantes e verdadeiros envolvendo Lobisomens.

O Lobo Magistrado de Ansbach



A maioria dos casos envolvendo Lobisomens acabam sendo descobertos após uma pessoa cometer os crimes e confessá-los diante de um tribunal.

Mas nem sempre é assim... às vezes o Lobisomem veste a Toga de Magistrado.

Em 1685, um terrível lobo descrito como uma "besta feroz e incontrolável" aterrorizou a cidade de Neuses no Principado de Ansbach no que hoje e a Alemanha. A fera fazia vítimas e parecia determinada em caçar e matar suas presas com requintes de crueldade. O medo era tanto que as pessoas se trancavam em casa assim que escurecia e ninguém ousava sair. Havia o rumor de que a criatura não era um lobo comum, mas um lobisomem tamanha sua ousadia ao adentrar o vilarejo para aplacar sua sede de sangue.

Na época, o Chefe dos Magistrados de Neuss era um homem cruel e odiado por todos chamado Michale Leicht. Ocorre que esse sujeito acabou morrendo de repente - oficialmente de causas naturais, mas a família não permitiu que ninguém visse o cadáver que foi enterrado. Logo, um estranho boato se espalhou por Neuss, o de que o lobisomem havia sido visto nos arredores da casa do Juiz Leicht espreitando em mais de uma ocasião. Isso fez com que as pessoas passassem a acreditar que o espírito do juiz havia reclamado o corpo do lobo pelos seus muitos pecados.

Certo dia, um grupo de caçadores chegou a cidade e se comprometeu a caçar a fera. Eles conseguiram emboscar o lobo perto de um poço onde o mataram. Até aí, nada de mais, contudo, o que se seguiu a isso foi deveras macabro. O povo de Neuss levou a carcaça do enorme animal até a praça central da cidade onde o prepararam para ser apresentado. Eles colocaram no animal uma toga negra, chapéu e peruca semelhantes às usadas pelos magistrados e um óculos que lembrava o que o juiz usava. Então penduraram o corpo da fera antropomorfizada em uma forca para que toda cidade pudesse apreciar a visão. Dizem que ao longe, a criatura realmente parecia um homem animalesco. Gente de toda região viajava para ver a criatura que muitos acreditavam ter sido morta vestindo aquelas roubas em uma medonha paródia de homem e fera.

Depois de algum tempo, o lobo foi removido da trave de madeira e os restos cuidadosamente empalhados por um taxidermistas. Eles ficaram em exibição na prefeitura local até 1910. Eventualmente foram colocados no museu da cidade por serem considerados excessivamente bizarros.

O terrível caso de Jacques Roulet



Dentre todos os incidentes envolvendo licantropia na França, um se destaca pela natureza absurdamente bizarra e perturbadora dos detalhes. Trata-se do incidente de Jacques Roulet, um caso que nos faz pensar se realmente não haveria algo sobrenatural nos mitos do Homem Lobo.

O ano era 1598 e o lugar, os arredores da cidade de Angiers, na França.

Dois caçadores encontram os restos destroçados de um rapaz de 15 anos. Um enorme lobo está se alimentando do cadáver, arrancando a carne que ainda se agarra aos ossos. Um dos homens atira, mas o animal foge para a floresta. Um deles decide persegui-lo pela mata, lá acaba encontrando um homem semi-nu tentando se esconder atrás de uma moita. Ele está coberto de sangue, sua boca e barba cerrada estão manchados de vermelho com restos de pele, seus olhos são ferozes e animalescos... imediatamente os caçadores decidiram levá-lo até as autoridades.

O homem foi identificado como sendo um vagabundo chamado Jacques Roulet. A investigação a respeito do sangue concluiu que se tratava de sangue humano e depois de ser interrogado ele admitiu ter matado o rapaz de 15 anos. Jacques explicou então que era um lobisomem e que havia contraído licantropia através de uma bebida mágica dada pelos seus pais que eram feiticeiros. Jacques afirmava que seu irmão e primo também se tornaram licantropos da mesma maneira. A seguir, voluntariamente ele começou então a relatar os muitos crimes que o trio havia cometido sob influência da licantropia. 

Além do rapaz recém assassinado, Roulet confessou pelo menos mais uma dúzia de assassinatos brutais. As vítimas em geral eram crianças que andavam sozinhas pela floresta ou recolhidas em aldeias isoladas. O trio costumava capturar essas crianças, soltá-las na floresta e então "caçá-las" da mesma forma que fazia os predadores. Roulet afirmava que o trio assumia a forma de lobos e então perseguiam as vítimas até encontrá-las e matá-las. A excitação da caçada terminava com uma orgia de sangue, na qual a presa era morta e então devorada. O vagabundo contou que o grupo preferia jovens, pois estes tinham a carne mais tenra e saborosa. As descrições de Roulet eram tão minuciosas que as autoridades não tiveram dúvidas de que eram verdadeiras.

Roulet foi condenado por todos os crimes que admitiu ter cometido, a despeito de que apenas o corpo da vítima de 15 anos tenha sido comprovado. Ele foi condenado por assassinato, licantropia, bruxaria e canibalismo e a sentença foia  morte. Contudo um magistrado apelou à Corte de Justiça em Paris alegando que o homem era meramente insano. Ele foi então confinado em uma instituição mental.

O caso de Jacques Roulet é considerado o caso mais documentado a respeito de lobisomem na história da França. Existem dezenas de documentos e precedentes legais no arquivo de Paris à  respeito desse caso em especial. Historiadores acreditam que Roulet sofria de surtos condizentes com um quadro agudo de esquizofrenia e que teria cometido vários crimes nessas circunstâncias. Ele é considerado um precursor dos assassinos em série, e extremamente prolífico para sua época.

O Lobisomem de Allariz


Mas as histórias de Lobisomem não acontecem apenas na França e Alemanha e não estão confinadas apenas ao século XV e XVI.

Notório na Espanha como o primeiro assassino em série daquele país, Manuel Blanco Romasanta foi um lobisomem ativo durante a metade do século XIX. De fato, Romasanta é um caso extraordinário de muitas maneiras.

Nascido em 1809, ele foi criado como menina por uma mãe extremamente autoritária até completar aproximadamente seis anos de idade. Essa condição gerou nele um profundo ressentimento que seria carregado por toda a vida. A mãe havia ameaçado repetidas vezes cortar seu pênis com uma tesoura, o ridicularizava e diminuía. Quando um médico descobriu  que ela estava fazendo, a afastou e Manuel foi morar com tios. Ele cresceu e se casou, arranjando emprego como tecelão. Quando sua esposa faleceu em 1833, ele assumiu o trabalho de vendedor, fazendo frequentes viagens para Portugal e interior da Espanha.

As viagens ajudavam Romasanta a ocultar suas atividades criminosas. Ele era um assassino em série extremamente frio e calculista que usava de sua educação e aparência frágil para se aproximar e matar. Não bastasse as mortes, Romasanta também canibalizava as vítimas, cortava pedaços de pele e buscava órgãos internos que pudesse comer aos bocados. Acreditava ser um lobisomem, quando matava, sentia-se livre de culpa pois era um predador da natureza e como tal não tinha porque atender às leis. Seus crimes eram tenebrosos e entraram para o imaginário popular das nações Ibéricas.

Logo depois, descobriu que poderia remover a gordura dos cadáveres para com ela fabricar sabonetes. Um de seus clientes perguntou como o sabão de qualidade era feito e Romasanta contou em tom de brincadeira que aquela gordura havia vindo de uma menina de determinada cidade. Ocorre que o cliente havia ouvido falar desse crime e preocupado resolveu denunciar o sujeito.

Depois de 12 dias na masmorra ele pediu para ver o delegado responsável pela investigação e disse que queria fazer uma confissão. Manuel Romasanta contou que era culpado de 13 assassinatos. Ele descreveu cada um deles em detalhes, mas afirmou que não poderia ser considerado culpado pois não tinha controle sobre suas ações pois havia cometido os crimes usando a pele de um lobo. Disse também que a última morte havia terminado com sua maldição e que portanto não representava mais um perigo.

Romasanta foi julgado e considerado culpado de quatro mortes. As evidências forenses haviam determinado que os demais crimes que ele assumiu teriam sido cometidos por lobos de verdade, e para não aceitar a teoria de que ele era um Lobisomem, o juízo não admitiu que ele era o responsável. Um exame à luz da Frenologia (um tipo de exame criminalístico muito em voga no período) apontou que Romasanta era insano e não não podia ser culpado pelas suas ações.

Ele foi condenado a pena de morte com garrote, mas esta acabou sendo transformada em prisão perpétua a pedido de um famoso hipnólogo francês. A teoria colhida sob hipnose era de que ele sofria alucinações nas quais acreditava realmente ser um lobo. Em uma das sessões, Romasanta chegou a se comportar como uma fera, sendo inclusive acorrentado para não morder as pessoas que acompanhavam o experimento. Médicos franceses e espanhóis fizeram uma petição para estudar cientificamente o caso de Romasanta, considerado então um legítimo licantropo.

Anos depois de sua prisão, ele recebeu um indulto especial assinado pela própria Rainha  graças a médicos que acreditavam tê-lo curado. Ele passou os seus anos finais em um vilarejo sem que ninguém soubesse de sua verdadeira identidade e do que ele havia feito.

sábado, 1 de setembro de 2018

As Crianças da Família - Uma Seita bizarra que chocou a Austrália


"A Família" foi um culto bizarro que acreditava no Fim do Mundo e na divindade de sua líder.

Ele surgiu na Austrália em meados dos anos 1960, com uma estranha mistura de Cristianismo e Hinduísmo, proclamando que sua chefe espiritual, Anne Hamilton-Byrne, era uma Messias, ou a encarnação feminina de Jesus Cristo. 

É claro, cultos desse tipo sempre existiram e continuam existindo. Muitos líderes carismáticos conseguem convencer seus seguidores das mais estranhas noções, por mais estranhas que possam soar. Alguns desses líderes se dizem sobre-humanos, reencarnações, profetas anunciados, mensageiros de seres iluminados, de extraterrestres etc. O que tornava a Família diferente era algo especialmente desprezível. Além dos adultos que cegamente seguiam Hamilton-Byrne, a Seita alistava crianças, especialmente "adotadas" e criadas acreditando que sua líder, profeta e mestra, era sua mãe.

É possível que Anne Hamilton-Byrne tenha adotado mais de 30 crianças, sendo que ao menos 14 delas acreditavam ser ela sua mãe legítima. Elas teriam sido concebidas pelo poder sagrado de Deus. Anne adorava a ideia de ter crianças ao seu redor, mas não a de educá-las ou criá-las de uma forma convencional. Tudo o que elas precisavam saber é que em um futuro muito próximo aconteceria uma Guerra Devastadora, envolvendo armas de destruição em massa. Os que não acreditavam nos ensinamentos da Família estavam fadados a morrer e por isso elas precisavam ter fé.

A Messias falava constantemente desse Apocalipse, descrevendo como os ímpios seriam afogados em um mar de sangue, como a fome e a doença os destruiria lentamente, corrompendo e apodrecendo seus corpos de dentro para fora e como o sofrimento seria insuportável. Falava de corpos queimando até restarem apenas ossos enegrecidos. Mostrava então para as crianças fotografias de campos de concentração, de bombardeios da segunda guerra e de atrocidades inimagináveis. Tudo isso com o propósito de aterrorizar as crianças e realizar uma lavagem cerebral fazendo com que elas acreditassem naquela fábula perturbadora.

Uma vez extinta, a raça humana deveria começar do zero.


Segundo a Doutrina da Família, os espíritos dos milhões de mortos nessa guerra seriam reencarnados nas crianças escolhidas e caberia à elas reconstruir a humanidade. Sua mãe, a reencarnação de Jesus, seria a responsável por salvá-los das chamas e destruição e guiá-las em um futuro glorioso.   

A Seita ocupava uma imensa propriedade nas proximidades do Lago Eildon, arredores de Melborne. O lugar era afastado de tudo e todos, protegido com arame farpado e cercas eletrificadas que mantinham visitantes e curiosos afastados. Placas advertiam que invasores poderiam ser alvejados. Todo a fazenda era auto-suficiente, produzindo sua própria comida. O contato com o mundo exterior era proibido e ninguém deveria saber o que acontecia do lado de fora da sede da família. O mundo exterior, nas palavras de Anne, era tão venenoso que algumas poucas horas do lado de fora eram suficientes para aniquilar a alma.

Os membros do Culto realmente acreditavam em todas as histórias que a Messias contava.

As pessoas eram forçadas a jejuar por dias e dias, consumir doses maciças de LSD para ter visões e vestir apenas as roupas dadas pelo culto - de um branco imaculado. Por vezes, Anne impunha um regime de silêncio completo, no qual o menor sussurro era proibido. As pessoas passavam dias e dias em silêncio. Aqueles que desrespeitavam as regras eram mandadas para o "retiro", um poço, onde ficavam trancafiadas. 

O horror no seio da Família era algo comum. Sempre houve rumores a respeito de abusos no lugar: agressões físicas, morais e punições severas eram algo corriqueiro para os membros. Ninguém estava seguro, dependendo do humor de Anne, uma pessoa podia ser ridicularizada, agredida e aprisionada.

Mas como a situação chegou a esse ponto?

Anne Hamilton-Byrne nasceu com o nome Evelyn Edwards em 1921. Ela não conheceu seu pai e sua mãe passou a maior parte de sua vida em um Hospital para Mentalmente Perturbados, diagnosticada como Esquizofrênica Paranoide. Por muito tempo havia o rumor de que sua mãe teria sido estuprada por um funcionário do Manicômio. A menina foi criada em meio aos internos, sendo posteriormente considerada como uma deles apesar de jamais ter passado por uma análise psiquiátrica. Eventualmente ela começou a trabalhar como faxineira no manicômio e depois foi aceita como enfermeira.


Quando completou 25 anos, a Instituição foi fechada e ela perdeu o único lar que conhecia até então. Jovem e bonita, Evelyn seguiu para Melborne onde morou na rua por meses. Apresentando-se como enfermeira, ela adotou o nome Anne Hamilton-Byrne.

Aos 30 anos de idade, Anne tinha uma vida no mínimo peculiar. Ela dizia ser viúva, seu marido teria morrido em um acidente de automóvel. Ela também dizia ser uma cantora de ópera, tocar harpa, cantar em um coral e dançar em uma companhia de balé. Para alguns dizia ter sobrevivido ao holocausto nazista, tendo passado por Auchwitz e imigrado para a Austrália em busca de um novo começo. A verdade é que Anne era uma mentirosa compulsiva. Para cada pessoa que conhecia, inventava uma história diferente. Em algum momento, aprendeu noções básicas de ioga e se sentiu à vontade para ensinar outras pessoas a respeito de meditação e religiões orientais. No início dos anos 60, quando o Espiritualismo se espalhou na Austrália, Anne se apresentou como uma espécie de autoridade no assunto e fez muitos amigos influentes. Abraçava várias bandeiras e se tornou uma líder do movimento feminista na Austrália, participando de programas de televisão e debates.    

Como uma professora de ioga, ela se estabeleceu em Melborne convencendo algumas pessoas a investir em suas técnicas de meditação. Anne se aproximava de mulheres de meia idade, a maioria delas infeliz em seus casamentos e com filhos já adultos. As convencia a pedir o divórcio, um tabu na época,  e seguir os seus conselhos cegamente. Ela também recrutava homossexuais e pessoas desajustadas na sociedade para aprender suas técnicas de cura interna. Anne dizia oferecer amor e compreensão a todas as pessoas que precisavam.

Ela era extremamente carismática e irresistível, persuadindo as pessoas a se juntar ao seu grupo que crescia a cada dia. Em 1961, ela conheceu Raynor Johnson, um conceituado médico formado em Oxford e professor no Colégio Metodista em Melbourne há mais de 30 anos. Johnson tinha enorme interesse em misticismo e espiritualidade e havia publicado vários livros a respeito desses temas.

O médico estava prestes a se aposentar e em busca de alguma coisa para dedicar seu tempo livre. Ele viu em Anne algo diferente e decidiu ensinar a ela noções de teologia, filosofia e psicologia. Pouco depois, Johnson ofereceu a Anne uma propriedade nos arredores de Melborne onde ela poderia construir uma escola de ioga. O lugar recebeu o nome de "Santiniketan", mas seus membros cada vez mais numerosos passaram a chamá-la de "O Lar da Família".


A Escola de Ioga logo se tornou bastante famosa e caiu nas graças de círculos da elite de Melbourne. A nata da sociedade vinha até Anne para aprender suas técnicas de meditação que prometiam revitalizar os alunos física e espiritualmente. Mais ou menos nessa época, ela passou a fazer experiências com LSD, uma droga considerada recreativa e que teve grande aceitação na Austrália na primeira metade dos anos 60. Durante as suas viagens alucinantes induzidas pelo LSD, Anne se convenceu de que era a reencarnação de Jesus Cristo. As noções estranhas e de fundo religioso afastaram parte dos seus alunos, mas outros acabaram se entregando de corpo e alma aos ensinamentos da mulher que se dizia uma Messias. 

Nascia assim o Culto da Família.

A Escola de Ioga foi fechada e em seu lugar surgiu um templo dedicado a ensinamentos de filosofia oriental, meditação, idiomas e filosofia. O lugar era, no entanto, uma fachada para as estranhas celebrações comandadas pela Messias que oferecia aos seus seguidores uma espécie de comunhão com hóstias cobertas de LSD. 

Em 1968, Hamilton-Byrne teve uma nova visão: Ela deveria começar a adotar crianças que se tornariam a base de seu Tabernáculo. Quatorze dessas crianças eram bem jovens ou simples bebês, algumas delas filhas de membros da seita que renunciaram a paternidade em favor de sua líder.  Outras foram legalmente adotadas através de procedimentos apoiados por médicos, assistentes sociais e advogados que trabalhavam para a Família. As leis australianas eram bastante flexíveis e existiam poucos entraves para quem quisesse adotar no país.  

 "O culto escolhia as crianças que desejava em orfanatos e hospitais. Eles contavam com uma rede de informações entre parteiras e assistentes sociais. Eles davam preferência a crianças com o mesmo perfil, loiras e altas" conta Lex de Man, um dos detetives que ajudaram a montar um caso para a Promotoria contra a Família. Membros do Culto também aliciavam mães solteiras e mulheres grávidas para que cedessem suas crianças para adoção. Algumas chegaram a ser pagas para abdicar da maternidade e simplesmente entregar as crianças à estranhos que prometiam "tomar conta" dos recém nascidos.

Anne passou a chamar a si mesma de "Grande Mãe" e "Provedora" e as crianças foram sendo levadas até a propriedade às margens do Lago Eildon. Lá funcionava uma espécie de abrigo, internato e creche.


A relação estabelecida entre Anne e as crianças era absurdamente bizarra. Embora construísse uma espécie de identidade afetiva, moldando a personalidade das crianças para que elas tivessem total dependência, ela própria afirmava ser preciso manter um distanciamento para não se apegar a nenhuma. Assim, a Messias jamais retribuía as demonstrações de afeto e devoção dos pequenos. A parte mais triste é que as crianças eram forçadas a amar incondicionalmente Anne e implorar a ela por atenção. As babás que cuidavam das crianças eram proibidas de falar com elas, demonstrar qualquer emoção e mais bizarro, usavam máscaras o tempo todo para que nenhuma criança pudesse estabelecer com elas um vínculo afetivo.

Quando completavam sete anos as crianças passavam a viver em um alojamento comunitário. Lá o tratamento dispensado era ainda mais brutal, marcado por severas punições que incluíam surras e humilhação. As crianças eram mantidas com fome e vigiadas constantemente por câmeras. Aquela que esquecesse de rezar para sua Messias ou não pedisse permissão para ir ao banheiro, por exemplo, era mandada para uma cela onde recebia doses maciças de Mogadon e Valium para se tornar obediente.

Para piorar, ao chegar aos 14 anos, as crianças passavam por uma espécie de ritual de iniciação que envolvia receber LSD pela primeira vez. Nessas celebrações ocorridas no templo, ocorriam orgias e algumas crianças supostamente acabavam sofrendo abuso sexual. Após a traumática iniciação, meninos e meninas eram transferidos para os alojamentos dos adultos onde passavam a ser vistos como membros da Família. Lá recebiam doses de LSD e aprendiam os fundamentos da caótica doutrina idealizada pela Grande Mãe.  

O número oficial de crianças adotadas legalmente chegou a 30, mas acredita-se que muitas outras tenham sido levadas clandestinamente ao Templo. Não há como saber ao certo quantas delas teriam sucumbido ao regime de fome e maus tratos da Família. Embora os rumores a respeito de mortes tenham sido sugeridos, não há como saber ao certo o que ocorreu ao longo dos anos. Sabe-se entretanto, que a Família possuía um crematório particular e que esse pode ter sido o destino de inocentes.



Durante seu funcionamento entre 1968 e 1987, a Família prosperou como Instituição Religiosa. A Seita adquiriu milhões de dólares em dinheiro e propriedades doados por seguidores em toda Austrália, Europa e América. Membros da Família transmitiam todos os seus bens sem hesitação, acreditando nas palavras da Profeta que afinal de contas, era sua Deusa e Guia.

Em 1986, uma das crianças adotadas pela Família, Sarah Hamilton-Byrne, conseguiu escapar da Sede da Família e buscou socorro. Os sinais inequívocos de maus tratos na garota de 17 anos acendeu um sinal de alerta nas autoridades australianas. Psicólogos e assistentes sociais ajudaram a menina a revelar o que acontecia secretamente na Sede da Família, apesar dela estar temerosa de trair sua "mãe" contando a estranhos sua rotina de vida.

O depoimento da menina foi crucial para o início de uma investigação em larga escala a respeito da Família e sua consequente destruição. Com base no testemunho a polícia conseguiu um mandato de busca e apreensão que permitia entrar na Sede do Templo no Lago Eildon. Na propriedade as autoridades encontraram pelo menos 20 crianças que foram recolhidas e levadas a abrigos.

Anne Hamilton-Byrne conseguiu escapar para os Estados Unidos em 1987, ela tinha uma propriedade em seu nome e conseguiu um visto de permanência. Depois que o escândalo veio à tona, o governo americano começou a negociar sua extradição. Ela finalmente foi enviada de volta para a Austrália em 1993, escoltada pelo FBI. Infelizmente as únicas acusações levantadas contra a Messias envolviam fraude fiscal e conspiração para forjar documentos de adoção.


Atualmente Anne vive em um lar para idosos em Melbourne. Ela tem 97 anos de idade e sofre de um quadro avançado de Demência e Alzheimer, agravado pelo uso contínuo de LSD ao longo de boa parte de sua vida. Hoje, ela não é capaz de reconhecer todo o mal que causou.

Após a revelação do que acontecia na Família, a Seita foi extinta e seus membros presos acusados de vários crimes. A população da Austrália se mostrou chocada pelas revelações feitas e o escândalo foi manchete em jornais de todo o mundo. A liberação das crianças e jovens mantidos pelo Culto, deu ensejo a livros e depois documentários a respeito da Família. Muitos dos sobreviventes passaram a sofrer com o trauma, desenvolvendo depressão, ansiedade e afastamento social.

Ainda hoje, o caso envolvendo a Família é considerado como o mais chocante e perturbador da história da Austrália. Longe de ser o único exemplo de Seita com ideais estranhos e práticas moralmente reprováveis, ele se sobressai por envolver crianças, o que torna tudo ainda pior.  

domingo, 8 de julho de 2018

Demônio no Campanário - Os crimes e a maldição de Theo Durrant


Embora William Henry Theodore Durrant fosse chamado de Theo pelos seus amigos, o sujeito bem apessoado e simpático, que era ajudante da Escola dominical acabou ficando conhecido por um apelido bem menos agradável: "O Demônio do Campanário".

Theo Durrant trabalhava para a Igreja Batista Emmanuel na cidade de San Francisco. Era um sujeito de fala mansa, bem vestido e educado. Costumava parar tudo o que estava fazendo para dar atenção às senhoras que apareciam na porta da Igreja. Em mais de uma ocasião havia corrido para socorrer velhinhas que atravessavam a rua. Ele também ajudava a organizar doações para obras assistenciais e arrecadava o que podia em nome da caridade. As boas moças o viam como um bom partido, um sujeito sempre interessado em ajudar seu semelhante.

Em 13 de abril de 1895, membros da Igreja estavam preparando o serviço religioso que aconteceria no domingo de Páscoa quando alguém abriu um armário na biblioteca da Igreja. Um cheiro medonho escapou do interior e os paroquianos acharam que podia haver algum animal preso ali dentro. Não tinham nem ideia que acabavam de encontrar o cadáver mutilado de uma jovem mulher. Ela havia sido estrangulada até a morte e então esfaqueada repetidas vezes. Os ferimentos de faca eram tantos e tão profundos que à princípio não era possível sequer reconhecê-la. Os cortes se concentravam no rosto, no peito e nos genitais, feridas profundas que evidenciavam uma fúria animalesca. Os pulsos por fim haviam sido cortados - como uma maneira de garantir a sua morte. Os cortes haviam sido feitos com tanta violência que as mãos quase foram decepadas; pendiam por nervos e pedaços de pele lacerada.

Um pano, que pertencia a sua anágua havia sido colocado na sua boca. Em meio ao ataque feroz sofrido, ela acabou engolindo a peça e sufocou quando esta desceu pela sua garganta. Exames posteriores apontaram para uma horrível brutalidade usada para dominá-la: socos e provavelmente pontapés. Ela teria sido estuprada, mas dadas as condições de seus genitais, não havia como dizer ao certo.


Ao ver o corpo, duas mulheres desmaiaram e tiveram de ser ajudadas. O sangue acumulado no interior do pequeno compartimento escorreu em profusão, manchando o piso de madeira da biblioteca. Imediatamente a polícia foi chamada.

De início, os investigadores acreditaram que o corpo pertencia a Blanche Lamont, uma moça de 20 anos que estava sumida fazia dez dias, e que havia sido vista pela última vez na Igreja na companhia de um rapaz que trabalhava por lá, Theo Durrant. Entretanto, o corpo era de outra moça, Minnie Williams de 21 anos, também membro da congregação e antigo par romântico de Durrant. Dias antes de desaparecer, ela foi vista discutindo com o rapaz. Uma testemunha que teria assistido a discussão disse que estranhou a maneira como Durrant estava se comportando, normalmente um rapaz sempre simpático e solícito, ele estava claramente alterado: "Não parecia o cavalheiro que todos sabíamos que ele era", concluiu em retrospecto.

Depois da descoberta do cadáver de Minnie Williams, uma busca cuidadosa foi realizada na Igreja e finalmente o corpo de Blanche Lamont foi encontrado no alto da Torre do Campanário. 

Enquanto o corpo de Williams foi achado mutilado e vestido, Lamont estava completamente nua e aparentava até um ar de serenidade. As mãos haviam sido cuidadosamente posicionadas sobre o peito, como se ela estivesse apenas dormindo. Ela tinha sido estrangulada com as mãos e havia sinais claros de estupro.

Theo Durrant havia cortejado as duas moças recentemente, segundo alguns, ao mesmo tempo. Amigos contaram que ele havia pedido Minnie em namoro, mas que ela o dispensou. Aparentemente Minnie ficou assustada quando Theo se tornou muito audacioso e fez avanços de natureza sexual que a deixaram escandalizada. Poucos dias depois, ele conheceu Blanche e aparentemente esqueceu Minnie. Theo propôs casamento com Blanche poucas semanas depois deles começarem a namorar. Ela teria achado que ele estava brincando - Theo era conhecido por ter um senso de humor estranho. Blanche disse que não poderia aceitar o pedido e que achava melhor os dois se afastarem. Para amigas ela confidenciou que Theo agia de maneira estranha que a deixava pouco confortável. Em uma ocasião ele teria feito avanços pouco condizentes com o comportamento de um cavalheiro.

Logo que os corpos apareceram e a conexão com ele foi feita, Theo Durrant se tornou o principal suspeito dos assassinatos, e a polícia o procurou. O rapaz havia sumido e passou a ser procurado.

Poucos dias depois, uma tia de Blanche Lamont recebeu um pacote pelo correio contendo duas alianças. O pacote tinha o nome de George King, o diretor do coral da Igreja, que também havia cortejado a garota um ano antes. A polícia fez perguntas a respeito e King parecia confuso. As alianças foram levadas até casas de penhores, e um vendedor as reconheceu, a seguir reconheceu o desenho de Durrant como o homem que as comprou alguns dias antes. Theo estava tentando incriminar um inocente para escapar limpo.


Os cartazes com o rosto de Theo Durrant, já apelidado pelos jornais de "O Demônio do Campanário" começaram a ser espalhados pelo estado e pelas cidades vizinhas. Finalmente ele acabou sendo reconhecido e preso em uma pensão onde estava morando desde então.

O julgamento de Theo Durrant foi extraordinariamente rápido. Durante todo o processo ele jurou inocência e disse estar sendo vítima d eum tipo de conspiração absurda. Entretanto, as muitas testemunhas que surgiram alegando tê-lo visto na companhia das duas moças pouco antes de suas mortes e o acesso dele ao local onde elas foram encontradas ajudaram no veredito.

Além disso, durante o julgamento, jornalistas começaram a buscar informações sobre a vida pregressa do acusado. O que descobriram foi muito mais chocante do que eles poderiam imaginar.

Os jornais passaram a comparar Durrant com uma versão real do Dr. Jeckyl e Mr. Hyde, personagens do romance "O Médico e o Monstro". Descobriram que o ajudante da Igreja tinha um lado obscuro até então desconhecido e que ele era perfeitamente capaz de ocultar. 

"É como se ele fosse duas pessoas ao mesmo tempo", disse um promotor, depois de ler as matérias sensacionalistas nos principais jornais da época. Durante o dia, Theo era adorado por todos, um cidadão perfeito, educado e bem quisto. Para todos os efeitos ninguém imaginava que ele poderia ferir uma mosca. Mas quando assumia sua outra personalidade, ele se tornava um verdadeiro monstro, comparado pelos jornalistas a uma versão norte-americana de Jack, o Estripador.


Para começar, Theo Durrant era um frequentador assíduo de vários bordéis da Commercial Street, uma das áreas mais decadentes de San Francisco. A fotografia dele foi reconhecida por prostitutas, vagabundos e cafetões da área. Ele se identificava para essas pessoas sob nomes falsos e apelidos, inventava histórias e se dizia um estrangeiro, um marinheiro vindo da Inglaterra ou da França. Ele aprendeu a falar algumas frases e disfarçava um sotaque carregado. Muitas vezes também vestia roupas diferentes das que usava no trabalho, penteava os cabelos de maneira diferente e segundo alguns até usava um bigode falso.

O cuidado de Durrant para manter separadas as suas duas identidades beirava a paranoia. Ele tinha um pequeno quarto alugado sob um bordel e lá passava alguns finais de semana disfarçado, imerso em decadência, sexo e perversões.

Várias mulheres que o reconheceram contaram que Theo Durrant costumava usar alcunhas. Ele também tinha gostos... peculiares.

De acordo com algumas mulheres ele gostava de controle e violência. Costumava instruir as moças a gritar e implorar por socorro, gostava de amarrá-las e machucá-las. Dizia no entanto que estava apenas brincando e acabava pagando um pouco mais como desculpas por "perder a linha". Cera vez ele teria ido longe demais em suas "brincadeiras", amarrando uma moça e quebrando seu braço. Theo pediu desculpas e segundo o cafetão da prostituta enviou a ela flores e bombons como pedido de desculpas. Ele também pagou ao cafetão uma compensação.

Depois desse incidente, Theo ficou afastado por alguns meses do seu esconderijo. Mas isso não significa que ele encerrou a sua busca por prazeres violentos. Nesse período ele esteve ativo em Chinatown, o Bairro chinês de San Francisco, frequentando bordéis ainda mais decadentes, satisfazendo suas perversões com moças chinesas que não entendiam inglês e que estavam acostumadas com a brutalidade de sua clientela.


Muito se comentou a respeito dos desejos ainda mais estranhos do acusado em suas visitas ao lado mais obscuro de Chinatown. Algumas vezes ele ia até as vendas do bairro chinês onde comprava gaiolas com pombos brancos, galinhas e coelhos vivos. Segundo testemunhas, Durrant gostava de arrancar a cabeça dos animais com mordidas enquanto fazia sexo. A seguir apertava seus corpos deixando o sangue viscoso escorrer sobre seu corpo e o de suas parceiras. Em pelo menos uma ocasião ele chocou uma das jovens prostitutas chinesas despedaçando um pombo e arrancando seus órgãos internos em um frenesi de sangue e loucura. A seguir ele não apenas comeu o coração do animal, como obrigou a mulher aterrorizada a fazer o mesmo.

Na mesma época em que Durrant frequentou as ruas sórdidas de Chinatown várias moças chinesas que trabalhavam nos prostíbulos locais começaram a desaparecer. Por algum tempo cogitou-se que o sumiço delas estivesse ligado a Durrant, sobretudo depois da chocante descoberta dos restos de três  mulheres encontradas em um abatedouro de porcos nas proximidades. A polícia investigou o caso, mas uma vez que as vítimas eram anônimas e orientais, não houve muito interesse em descobrir o que havia acontecido. Além disso, uma investigação quebrava a ordem estabelecida entre policiais desonestos e as pessoas que conduziam o lucrativo negócio de exploração de mulheres. 

Nunca se soube quem foi o responsável pelas mortes daquelas três mulheres, suas identidades jamais foram descobertas. O assassino provavelmente usou o abatedouro para convenientemente descartar os corpos, dando-os para os porcos famintos que lá eram criados. Os animais consumiram quase tudo, deixando muito pouco para um reconhecimento.

Algumas pessoas acusaram Durrant a respeito desses crimes medonhos, mas uma vez que não havia provas contundentes, a promotoria achou melhor abandonar essa linha de ação. O caso principal já estava bem encaminhado no que dizia respeito ao duplo homicídio de Williams e Lamont.

Mas nem todas as pessoas estavam dispostas a acreditar naquelas histórias sórdidas de perversão e sadismo. Alguns dos amigos próximos e conhecidos de Theo Durrant iam diariamente a Corte de Justiça prestar a ele solidariedade. Em um momento que beirava o absurdo, um grupo de órfãos interrompeu o julgamento implorando para que as acusações fossem retiradas já que era impossível ele ser o culpado daqueles ator medonhos. De fato, mesmo quando a situação do acusado parecia pior, ele ainda inspirava simpatia: os jornais noticiaram que pelo menos três moças da congregação batista compareciam todos os dias ao julgamento, sendo que uma delas oferecia a Durrant um buquê de flores. Em algumas ocasiões ele usou um botão na lapela de seu terno. No último dia, antes de ser condenado, ele se aproximou da moça e se ajoelhando em pleno tribunal a pediu em casamento.

Apesar de tudo, as provas serviram para convencer o juri, que deliberou por apenas cinco minutos e decidiram pela pena de morte.


Em 7 de janeiro de 1898, Theodore Durrant foi levado até o pátio da prisão de San Quentin onde um patíbulo havia sido construído. Um pequeno grupo de convidados e a família de Durrant, sua mãe e pai inclusive, esperavam ali.

"Eu sou inocente", disse o condenado como últimas palavras, "Eu perdoo as pessoas que me condenaram, não vou deixar que o erro deles obscureça o bom nome da Califórnia". Em seguida, uma corda foi colocada em volta de seu pescoço e ele saltou no alçapão morrendo imediatamente.

A estranheza não pararia por aí. A mãe e pai de Durrant que juravam que o filho era inocente, quando testemunharam a execução tiveram reações emocionais bizarras. O pai começou a gargalhar e gritar que o filho estava com Deus e não podia mais ser atingido pelas leis falhas do homem. Enquanto isso, a mãe que ficara quieta o tempo todo, aparentemente em choque, quebrou seu transe quando ele foi removido da corda. Ela se atirou sobre o corpo sem vida beijando seu rosto e lábios d euma maneira que as testemunhas que viram a cena julgaram inapropriado.

Algumas pessoas afirmavam que a família tinha um comportamento estranho e que a loucura corria em suas veias.

Após a execução, os pais e amigos próximos receberam o corpo de Durrant e o levaram para casa. Eles tiveram dificuldades em encontrar um crematório que aceitasse reduzir à cinzas o corpo do homem considerado como um demônio. Demorou seis dias até que eles encontrassem uma funerária disposta a fazê-lo. Repórteres e curiosos se debruçavam para espiar pela janela da casa para observar a macabra família. Nesse meio tempo viram a mãe conversar com o cadáver como seele estivesse vivo. O pescoço quebrado em um ângulo bizarro...

Um crematório de Pasadena finalmente levou o corpo de Theodore, que já começava a se deteriorar. "O homem era extraordinariamente grande e forte" disse um funcionário do crematório, "ele levou um bom tempo até queimar por inteiro".


Acrescentando mais um detalhe sinistro à história, a Senhora Durrant supostamente levou a urna com as cinzas do filho até a Igreja Batista Emmanuel e pediu permissão para colocá-las no púlpito. Quando o sacerdote negou o pedido ela foi até o jardim aos pés do campanário e lá despejou as cinzas.

Se alguma pessoa procurar o Campanário e a Igreja Emmanuel hoje em dia, não irá encontrá-los. Após a descoberta dos corpos de Blanche e Minnie, os vizinhos que residiam na Rua Bartlet, onde ficava a congregação, pediram que a prefeitura removesse a igreja, considerado como um lugar de más lembranças e tragédias. Mas as autoridades acharam que não havia razões para isso.

Nos anos que se seguiram, a Igreja Emmanuel continuou a ser o centro de acontecimentos estranhos que chamavam a atenção de curiosos e supersticiosos.

Muitas pessoas acreditavam que o fantasma das duas moças assassinadas nas dependências da Igreja continuavam presentes, assombrando a sacristia e principalmente o campanário. Várias pessoas alegavam ter visto o fantasma de Blanche Lamont no topo do campanário, quando os sinos batiam as 23 horas, quando supostamente ela teria sido morta. O corpo nu e espectral então voava do alto da torre e desaparecia antes de cair no chão. Já o fantasma de Minnie Williams, massacrado pelo ataque furioso, havia sido visto no interior da igreja, próximo do púlpito e na biblioteca onde ele foi achado. De modo sinistro, o teto do aposento logo abaixo da biblioteca teimava em ficar avermelhado, como se o sangue da mulher tivesse se impregnado, aparecendo de tempos em tempos e obrigando o zelador a pintar. Também diziam que sangue escorria das paredes e que estranhas manchas de cor escarlate teimavam em surgir e sumir com alarmante frequência.

Enquanto isso, em Chinatown, boatos a respeito de assombrações pertencentes a jovens mulheres chinesas começaram a ser compartilhados. Diziam que os fantasmas pertenciam às prostitutas massacradas por um misterioso assassino que as lançaram aos porcos e que jamais foi reconhecido pelos seus atos. Rumores de que o matador seria um homem branco, muito bem apessoado e com estranhos gostos continuaram circulando. Vale recordar que após a prisão e execução de Theo Durrant não se ouviu mais falar de desaparecimentos sequenciais de jovens prostitutas na área de Chinatown.


Para muitas pessoas, essas histórias não passavam de superstições, mas outras tantas, levavam em consideração os rumores, sobretudo com o que veio a acontecer em seguida.

Em 1903, um pastor que vivia na casa paroquial da Igreja Emmanuel cometeu suicídio, cortando os próprios pulsos. Algumas pessoas se recordaram que o Demônio do Campanário havia feito o mesmo com uma de suas vítimas o que chamou muita atenção. Alguns afirmavam que o clérigo tomou a própria vida depois de ver um espectro masculino, com as feições de Durrant vagando repetidas vezes pela Igreja. Ninguém acreditou...

O pastor seguinte que assumiu a Igreja se envolveu em um escândalo de natureza sexual. Os detalhes jamais foram revelados, mas supostamente o caso tinha ligação com prostitutas e sadismo.  O homem, devidamente afastado de suas funções, teria trazido mulheres para o campanário da Igreja para que conhecessem o local onde o Demônio fez as suas vítimas.

Em 1910, outro sacerdote responsável pela Igreja Emmanuel participou de um crime que vitimou Charles de Young, fundador do Jornal Chronicle de San Francisco. O crime escandalizou a cidade e repercutiu negativamente em toda vizinhança.

Pessoas acreditavam que a Igreja tinha uma aura negativa e que reverberava com os antigos horrores cometidos ali dentro, influenciando e corrompendo quem vivia nos arredores. Depois de tantas tragédias e ocorrências desagradáveis, a Igreja foi fechada e as portas lacradas com tábuas. Em 1914 um incêndio consumiu todo o prédio principal. As suspeitas recaíram sobre vizinhos que desejavam desde o início do século se livrar da sinistra presença da Igreja. Sem provas que pudessem apontar para um responsável, o incêndio foi considerado acidental.

No ano seguinte a Igreja foi finalmente demolida pela prefeitura. O lugar hoje em dia é ocupado por um parque cercado de casas de aparência agradável. Nada resta da Igreja Emmanuel, de seu passado sinistro ou da história de Theo Durrant. 

Nada a não ser lembranças amargas.