Mostrando postagens com marcador Criptozoologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Criptozoologia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 11 de julho de 2017

"Grande como uma Ilha" - Monstros Marinhos da Mitologia Escandinava


"O maior e mais terrível monstro dos mares"

Era dessa forma que um documento náutico redigido no século XII tratava do avistamento de uma criatura lendária para os povos do norte da Europa.

A criatura presente no folclore da Escandinávia é conhecida como Kraken, uma besta que habita as profundezas insondáveis e gélidas do mar. Ele é definitivamente um monstro marinho, ainda que não uma serpente, uma baleia de proporções colossais ou um peixe gigantesco como a maioria dos monstros marinhos são descritos. O Kraken era um monstro diferente que tomava emprestado a forma de criaturas bizarras.

De muitas formas, o Kraken das lendas parecia o resultado da combinação de um polvo gigante e de uma lula de dimensões inacreditáveis. Certamente que ambos os animais são capazes de crescer até proporções assustadoras, atingindo comprimentos tentaculares que podem chegar a mais de 12 metros (40  pés). O Kraken das lendas, entretanto, era maior, muito maior. Ele superava as maiores lulas e octopus encontrados nos oceanos da Terra. Se levarmos em conta as narrativas épicas sobre avistamentos do monstro, estaríamos falando do maior animal do planeta. As lendas à respeito da criatura, dão conta de que seus tentáculos poderiam atingir incríveis 80 metros de comprimento total. Os olhos vítreos da besta teriam nada menos do que um metro de diâmetro e sua boca poderia engolir um homem adulto de uma única vez. 


O Kraken dos mitos seria capaz de puxar embarcações para as profundezas, afundar grandes barcos afogando as tripulações em acessos de fúria incontroláveis. Sim, o Kraken era descrito como algo a ser temido. Entre as muitas narrativas existentes algumas dão conta de incríveis façanhas que eles poderiam realizar com seu tamanho e força titânicas.

O mero rugido do Kraken seria capaz de estourar os tímpanos dos marinheiros se produzido a menos de 100 metros deles. Um agitar de seus tentáculos poderia criar ondas gigantes, com mais de 15 metros que viravam embarcações. O aperto dos pseudópodes, grossos como troncos de árvores, era capaz de despedaçar barcos à remo como se fossem gravetos. Suas ventosas quando se fixavam em uma pessoa jamais soltavam, e se elas se prendessem na face de um pobre coitado, arrancavam seu rosto por inteiro. Ainda segundo as narrativas, a carne da criatura era tão grossa que arpão algum a penetrava. E mesmo as maiores baleias fugiam da fera quando ela saia à caça. Faminto, o Kraken era uma verdadeira força da natureza. Nada podia pará-lo, nada poderia detê-lo.

Mas, se levarmos em conta todas as lendas da mitologia da Escandinávia, o Kraken pode não ser o maior monstro marinho.


Uma das narrativas náuticas mais famosas é creditada a Orvar-Oddr, um renomado herói Escandinavo, cujas aventuras fazem parte de um crônica redigida em 1200. Ela contém algumas das descrições mais fantásticas sobre criaturas marinhas. Muitos historiadores e especialistas em folclore nórdico acreditam que ele se refere ao mito do Kraken, mas elas abrem espaço para interpretações..

O texto, em um trecho, afirma o seguinte:

"Vou contar a vocês sobre dois tipos de monstros marinhos que habitam as águas gélidas. Um deles é chamado Hafgufa (névoa marinha) e outro é o Lyngbakr (costas de urze). Ele (o lyngbakr) é a maior baleia do mundo, já o hafgufa é o mais perigoso monstro do mar. É da natureza dessa criatura engolir barcos e homens, e até mesmo baleias por inteiro, se elas estiverem ao seu alcance. Ele fica submerso por dias, e quando vêm à superfície parte a água apenas o suficiente para que seu enorme nariz em forma de bico apareça do lado de fora. A criatura aguarda até a mudança das correntes e então mergulha uma vez mais. Se durante o tempo em que ele está respirando um barco o atrair, tudo estará perdido para esses marinheiros. O monstro capta o cheiro dos homens e dá início à sua caçada que termina geralmente em naufrágio"



Ele continua mais adiante:


"O Hafgufa possui enormes bracos (tentáculos) que são compridos como pontes e mais grossos do que qualquer corda jamais fiada. Ele agarra os membros dos homens e os puxa com força lançando-os ao mar. Quando surgem na superfície eles se agarram em qualquer coisa e as puxam para o fundo na expectativa de ser comida. Homem ou barco, pouco importa, o abraço da Hargufa é a perdição".

A descrição parece bastante adequada à lenda do Kraken se consideramos que os braços da Hafgufa seriam tentáculos, mas mesmo o Kraken com seu tamanho parece tímido diante dessas criaturas gigantescas. 

A respeito do lyngbakr, o marinheiro relata:

"Os lyngbakr são as ilhas que desaparecem misteriosamente afundando de uma hora para outra. Todo homem do mar já viu uma ilha desaparecer, mas a maioria não tem explicação para tal coisa. A explicação é uma só, o lyngbakr vem à superfície e dorme com parte de seu dorso para fora. Por muito tempo, a criatura fica imóvel e nesse tempo, a "ilha" é coberta de terra e até mesmo vegetação - as urzes nas costas do monstro que dão nome a ele são as plantas que se fixam com mais facilidade. Se tempo suficiente passar, até montes se erguem nas suas costas. Ignorando a origem da ilha, e até mesmo que se trata de um ser vivo, pessoas passam a habitar a superfície das costas da imensa baleia, sem saber do que se trata. Não há nada que um homem possa fazer para perturbar o sono de um lyngbakr e este pode dormir por séculos. Algumas vezes no entanto, aqueles que moram em tais ilhas sentem o chão estremecer e se mover sob seus pés como se o solo fosse acometido por tremores. Nada mais são do que os espasmos do monstro. E quando ele desperta, tudo aquilo que está sobre ele, sejam casas ou pessoas, acaba sendo arrastado para o fundo quando ele mergulha".


Um documento do século XVI, o lendário Konungs skuggsja, que pode ser traduzido como "O Espelho do Rei" (sobre o qual já falamos aqui no blog - Leia no Link) descreve a Hafgufa como algo muito grande: 

"Existe um monstro que permanece um mistério, e que só é mencionado quando se fala de seu tamanho que para a maioria das pessoas é inacreditável. Apenas alguns poucos podem falar a respeito dele com autoridade, pois são raros os indivíduos que o vêem e sobrevivem. Tal monstro não aparece perto da costa onde os pescadores lançam suas redes, mas em águas profundas. Não se sabe quantos deles existem, provavelmente não mais do que um ou dois em toda extensão marítima. O nome deles em nosso idioma é Hafgufa. A criatura vista da superfície mais parece uma ilha do que um animal. Dizem que é possível desembarcar e andar sobre ele por horas sem chegar ao outro lado. Quando ele está dormindo é inofensivo, permanece imóvel por dias, mas quando desperto é mortal pois se alimenta de tudo que consegue alcançar".

O mesmo livro descreve os horríveis hábitos alimentares da Hafgufa:

"É dito que faz parte da natureza desses monstros empregar estratégias para atrair presas. O Hafgufa costuma vir à superfície esticando sua bocarra para fora e soltando um sonoro arroto. Este libera na superfície uma quantidade de peixe semi-digerido que fica boiando acima dele, o que atrai cardumes inteiros, grandes e pequenos, interessados em se alimentar. Mesmo homens em barcos de pesca são atraídos pela fartura de pesca. Mas estes não sabem o perigo que correm. O monstro mantém sua bocarra aberta e quando sobre ela estão presas suficientes, ele simplesmente as puxa, engolindo tudo para seu interior. Assim que o estômago está cheio, a Hafgufa fecha suas presas e mergulha".


Além desses relatos, existe uma terceira fonte escrita pelo marinheiro sueco Jacob Wallenberg. Seu livro, Min son på galejan (que pode ser traduzido como "Meu filho nos baleeiros"), publicado em 1750, tenta diferenciar o Kraken e outros monstros marinhos:

"O Kraken das lendas é um animal mortal. Ele se mantém no fundo do oceano, cercado de cardumes que servem de comida e são alimentados pelo seu excremento em contrapartida. O Kraken não precisa respirar, vindo à superfície quando atraído pela presença de comida. Nesse caso, pode atacar embarcações e devorar homens depois que os barcos são feitos em pedaços pela sua investida. Seus tentáculos são letais, podendo agarra e puxar as presas para sua boca".

Contudo, Wallenberg deixa claro que existem "peixes maiores nesses mares":

"Há animais que superam o Kraken em tamanho atingindo as dimensões de pequenas ilhas, atóis e fjordes. São tão grandes que em suas costas cresce um ambiente propício a ser usado como moradia por seres humanos e toda sorte de animais terrestres. Árvores e terra seca pode surgir no dorso desses seres e até pequenos montes. Não há dúvidas de que esses são os Leviatãs".

Hoje em dia, avistamentos e histórias a respeito de Krakens e outros monstros marinhos gigantescos são bastante raras, quase inexistentes. Isso sugere duas possibilidades: Esses monstros imensos não existem e jamais existiram, ou eles se tornaram extintos séculos atrás. 

Seja qual for a verdade, a lenda persiste e continuará por muito tempo.

domingo, 18 de junho de 2017

A Noite do Cão Negro - Uma lenda aterrorizante das Ilhas Britânicas


Um vento forte soprava através do pântano e o ocasional ribombar dos trovões podia ser ouvido à distância. A tempestade não ia demorar a cair. 

Aquela não era uma boa noite para andar sozinho, mas Jack havia ficado tempo demais no pub e tinha que voltar para sua fazenda. Cedendo às suas superstições, ele decidiu tomar a estrada principal ignorando os atalhos que conhecia com a palma de sua mão. Melhor não arriscar cair em um charco ou afundar num lodaçal.

Uma ventania especialmente forte soprou e quase o derrubou no chão. Lá no céu, o som dos trovões ecoou, revelando as montanhas e os cumes envolvidos por nuvens carregadas. Jack pensou consigo mesmo que aquela era uma noite dos diabos e que talvez fosse melhor retornar para o vilarejo. Ninguém iria rir dele ou chamá-lo de covarde por isso. A tempestade seria forte e ser pego no meio dela poderia ser perigoso. Pensou consigo mesmo onde poderia passar a noite, mas então, ouviu um som estranho, um ruído longo como um rosnado gorgolejante. Não vinha do alto, mas de trás dele.

Jack se voltou na direção de uma trilha de terra e percebeu uma sombra se movendo com o canto dos olhos. Seu coração bateu com força, descompassado. O medo primitivo o paralisou por um instante. Era o maior cão que ele já havia visto!

Ele sabia que não haviam cães selvagens naquela região. Ele havia vivido toda sua vida ali e nunca ouviu falar de um animal daquele porte. A coisa era enorme! De onde ele havia saído? A trilha de terra batida era estreita demais para comportar aquele bicho imenso. Adiante, não havia nada a não ser algumas fazendas abandonadas e velhos moinhos em ruínas. Ninguém para ajudá-lo.  

Jack pensou que um cachorro teria medo de sair em uma noite de tempestade como aquela. Cães podem ficar raivosos quando se sentem ameaçados, por isso ele resolveu observar o animal com cuidado. Mas a fera não parecia assustada. Ele era grande como um cavalo. Preto como a noite, com uma pelagem selvagem e desgrenhada. Os olhos da besta refletiram a luz da lua, como os de qualquer cachorro, mas havia algo de perturbador naquele animal em particular. Seus olhos eram inteligentes e injetados com fúria.

O homem deu um passo vacilante para trás, os olhos fixos na besta. O animal rosnou mostrando as presas mas não se moveu um centímetro. Ele parecia uma gárgula de pedra, concentrada em sua presa e prestes a adquirir vida à qualquer momento, correr até ele, fazê-lo em pedaços. 

Para chegar à sua fazenda, Jack teria de passar pelo animal monstruoso. Ele deu um passo e a criatura rosnou novamente, retorcendo os lábios e arreganhando os dentes como se ponderasse a respeito de avançar e acabar com aquilo de uma vez por todas. Os olhos faiscavam, como se ele estivesse saboreando o momento. Jack deu mais um passo e se encolheu pela lateral da trilha. Evitou movimentos bruscos entrando no meio de arbustos e espinheiros que cutucaram suas costas. Jack sabia que qualquer movimento incerto poderia ser o seu último.

Felizmente ele conseguiu contornar o monstro e continuou andando lentamente sem tirar os olhos do animal que às vezes deixava escapar um rosnado ameaçador. Depois de alguns passos vacilantes, ele começou a correr sem olhar para trás. Ele sabia que era o Cão Negro das lendas.

É claro, ele já tinha ouvido falar do Cão Negro. Todos já tinham ouvido falar da fera mortífera que assombrava o sul das ilhas britânicas. Ele lembrava de ter ouvido a lenda quando era criança, contada pelo seu avô. Recordou as recomendações feitas pelos mais velhos para aqueles que tivessem o infortúnio de cruzar o caminho da besta.

Corra e não olhe para trás. 

Não diminua sua corrida.

Aconteça o que acontecer, continue correndo.

Jack já havia ouvido essa história muitas vezes. O Cão Negro vagava pelos pântanos nas noites sem lua. Ele era o responsável pelo sumiço de pessoas que andavam sozinhas através das charnecas lamacentas e pântanos de água estagnada. Suas vítimas jamais chegavam ao seu destino. Sumiam sem deixar vestígio e nunca eram encontrados. Mortas pelo Cão Negro!   

A ponte que cruzava o riacho demarcando os limites da cidade estava logo adiante. Jack lembrou de um detalhe a respeito da lenda: se ele conseguisse atravessar água corrente, estaria à salvo. O Cão Negro não podia segui-lo além daquele ponto. Seu coração martelava. Ele continuou correndo. Mais. Rápido. Mais. Rápido.

Ele viu a ponte logo adiante. Os pés de Jack logo estariam sobre as pranchas de madeira da ponte e ele se sentiu um tanto idiota. Correndo como uma criança noite adentro, tudo por causa de uma tempestade. Deve ter sido sua imaginação! Um cão não poderia ser tão grande. Estava imaginando coisas! Havia bebido demais. Tinha de haver uma explicação razoável. Jack sorriu confiante. Ele estava quase salvo, teria uma bela história para contar amanhã no pub. Os outros ficariam impressionados. Ele havia vencido o Cão Negro na corrida.

Então um trovão ainda mais estrondoso transformou a noite em dia. Por um momento o trecho da estrada apareceu claro diante dos seus olhos e em seguida, um trovão aterrorizante foi ouvido anunciando a tempestade que começou a cair.

Jack teve uma sensação ruim. A boca ficou seca. Suas pernas pareciam de borracha. Um arrepio correu pelas costas como uma corrente elétrica. A sensação da presa descobrindo a presença ameaçadora do predador em seu encalço.

E tão certo quanto a noite é escura. Tão óbvio quanto o medo que o dominava. Tão claro quanto aquela tempestade cairia. A fera negra surgia diante dele, saltando para matá-lo.

Uma noite dos diabos. 

"A Noite do Cão Negro"
Folclore das Ilhas Britânicas

*     *     *


Humanos e cães tem uma relação muito longa e íntima. Desde tempos pré-históricos, as duas espécies vivem juntas e caçam juntas. Cães foram uma das primeiras espécies de animais a serem domesticados pelos humanos: embora o termo "domesticar" não parece adequado para encompassar a incrível ligação que se estabeleceu entre homens e cães ao longo de milhares de anos.

De alguma forma, em face de nosso grande amor pelos cães - ou talvez por conta disso, a visão de um cão furioso e agressivo causa um tipo de medo primitivo. Ser confrontado com um cão feroz ou mesmo por um cão de grande porte com o qual não estamos familiarizados, causa inegável temor. Aquele que deve ser o amigo, o guardião, o companheiro se torna uma ameaça.

Dado esse sentimento a respeito de cães, não é de se surpreender que o folclore de vários povos do mundo possua histórias sobrenaturais a respeito de tais animais. Um dos mais duradores e disseminados exemplos de folclore nesse sentido se refere a lenda do Cão Negro (Black Dog), também chamado de Cão do Inferno (Hell Hound).   

Sob vários disfarces, essa criatura sobrenatural espreita em cemitérios, estradas, ruínas e pântanos pela Grã-Bretanha e pela Europa ocidental. Imagens do Cão Negro estão muito presentes no folclore e na literatura britânica. Sir Arthur Conan Doyle tomou emprestada a lenda em 1902 para uma das aventuras mais conhecidas de Sherlock Holmes, O Cão dos Baskervilles ("The Hound of the Baskervilles"). Em Dover o mítico "Cão Feroz das Estradas" aterrorizava os viajantes que insistiam em pegar os caminhos tortuosos do sul da Inglaterra. Na Espanha existem lendas sobre grandes cães demoníacos que atacam peregrinos que seguem pelas rotas conduzindo a Santiago de Compostela. Na França, o uivo de um cão negro simbolizava má sorte, já a visão do cão negro representava morte iminente. Agatha Christie escreveu um conto sobrenatural a respeito de um enorme Cão Fantasmagórico que matava em Cornwall ("The Hound of Death", 1912). Do outro lado do Atlântico, o guitarrista de blues Robert Johnson contava ter feito um pacto com o diabo numa encruzilhada. O demônio havia surgido para ele na forma de um Cão Negro. 


A lenda do Cão Negro encontra similaridade com as histórias de lobisomens e aparece em contos de fada. Hans Christian Anderson escreveu a respeito deles em "The Tinderbox". Em vários contos, o Cão Negro era o monstro original, que gradualmente foi sendo substituído pelo lobo mal. 

Mais do que uma fera, o Cão Negro passou a representar também um estado de ânimo. Winston Churchill costumava se referir à sua depressão crônica como "o Cão Negro sobre o meu ombro", e qualquer um padecendo do mesmo mal se referia a melancolia como resultado da presença de um Cão Negro. O termo "Noite do Diabo" também ficou intimamente associado a tempestades fortes e trovoadas. No sul da Inglaterra o termo Noite do Cão Negro ("Night of the Black Dog") se refere a uma noite chuvosa e trevosa, escura e assustadora. Uma daquelas noites em que é melhor nem sair de casa. Considerando que era em noites de tempestade e escuridão que tradicionalmente o Cão Negro vagava pelas estradas, faz muito sentido! 

A base de todas essas histórias e mitos é sempre a mesma. A existência de um imenso Cão Negro de origem sobrenatural que aparece e desaparece misteriosamente trazendo medo, caos e muitas vezes a morte. Em algumas variantes da lenda, o animal é a encarnação de um assassino, executado pelos seus crimes cometidos em vida - Stephen King usou esse conceito ao escrever seu clássico "Cujo". Em outras versões, o Cão Negro é um ser feérico ou uma força elemental.    

Os nomes variam muito: Barghest, Galleytrot, Hell Hound, Padfoot, Shuck, Snarleyow, Striker, Trash, Wish ou Whist Hound, Yell ou ainda Yelp Hound – para mencionar apenas alguns. Eles tem muitos objetivos: profecia, vingança, carnificina, caçar ou meramente alertar; mas eles tem sempre em comum o fato de serem ameaçadores, perigosos e sempre foram levados muito a sério. 


Os Cães Negros eram vistos como guardiões de cemitérios ou de campos de batalha, onde muitos cadáveres repousavam. Durante a sangrenta Guerras das Rosas e no decorrer da Guerra dos 100 anos, os Cães Negros eram vistos como Guardiões de valas e trincheiras em que cadáveres de soldados eram sepultados sem identificação ou lembrança. Para evitar que tais animais surgissem, soldados colocavam sobre as sepulturas, lápides improvisadas identificando quantas pessoas eram sepultadas num determinado local, como morreram e quando. Essa prática se estendeu ao longo dos séculos, sendo praticada nas Guerras Napoleônicas, chegando até a Grande Guerra. Ironicamente, não há nenhum grande conflito tendo como palco a Europa, em que a sombra do Cão Negro não tenha sido lembrada. 

A Lenda do Cão Negro chegou aos Estados Unidos na forma do "Grim", um cão de origem sobrenatural que protegia cemitérios, em particular aqueles usados para sepultar os escravos no Sul. O Cão Negro se erguia para guardar as lápides e evitar que os ossos dos escravos fossem perturbados. Em uma lenda popular, um regimento de soldados negros que lutou pela União, era enterrado num cemitério do sul e exumado por soldados confederados. Pouco depois de perturbar o descanso dos soldados, um enorme Cão Negro surge para vingar a afronta matando os responsáveis um por um. Ainda segundo a lenda, pessoas que exploravam esses cemitérios, após o cair da noite se arriscavam a despertar a fúria do Cão Negro. É evidente que nesse caso os cães eram vistos como guardiões  espirituais, protegendo os mortos da maldade dos vivos.  

No folclore de vários povos, o Cão Negro cumpre a função de Sentinela dos Mortos, mas ele acumula também a função de Mensageiro de Portentos Sobrenaturais. Em algumas crenças do sul dos Estados Unidos, encontrar um Cão Negro num cemitério durante a madrugada garante um canal de comunicação com o Mundo Espiritual. Na Península Ibérica, existe a crença de que dar três voltas ao redor de um cemitério numa noite sem lua invoca um Cão Negro e este age como uma espécie de mensageiro carregando avisos para os espíritos. Há ainda a lenda de que um Cão Negro assim invocado pode ser compelido por um feiticeiro a assassinar seus desafetos. Essa lenda, muito difundida em Portugal foi trazida para o Brasil colonial e está descrita até no Livro de São Cipriano.


A lenda do Cão Negro é amplamente conhecida e presente no folclore mundo à fora. Pessoas que vivem em áreas rurais ouvem tais histórias desde a infância e se encarregam de levá-las para as próximas gerações. Longe de ser uma lenda obscura de tempos antigos, as narrativas sobre o Cão Negro continuam vivas no imaginário popular. Na Grã-Bretanha, berço de muitas delas, continuam sendo muito populares, sobretudo em Cornwall, Devon e Dartmoor, regiões repletas de charcos e pântanos que mudaram pouco nos últimos séculos. Avistamentos de Cães Negros não são incomuns, mesmo nos dias atuais, o que faz a alegria de jornais sensacionalistas.

Se os avistamentos dessas criaturas são genuínos encontros com o sobrenatural ou simples engano, confusão e invenção por parte de testemunhas, parece claro que a lenda persiste, muito longe de ser esquecida. Não há como negar que as histórias a respeito de feras assustadoras, negras como a noite, continuam sendo contadas, ganhando notoriedade. 

Enquanto existir o medo do desconhecido, o Cão Negro continuará à espreita.

sábado, 11 de março de 2017

O Espelho do Rei - Um Livro Medieval de Lendas, Horrores e Maravilhas inacreditáveis


Ao pesquisar a história de acontecimentos estranhos, Charles Fort é um nome frequentemente lembrado. Sua contínua pesquisa a respeito de tudo que é incomum e inexplicável na primeira metade do século XX tornou-se um marco para uma comunidade crescente de seguidores que iriam posteriormente promover seu trabalho e seu nome. Hoje, incidentes de natureza peculiar muitas vezes são categorizados com o nome "Forteano", um termo reconhecido por estudiosos do assunto. 

A crônica do inexplicável de Fort inclui informações datando de muito antes da sua época, algumas vezes, documentando incidentes fantásticos como o aparecimento de veículos voadores, misteriosas "chuvas" de animais ou outros elementos incomuns caindo do céu, luzes no céu e nas profundezas do mar, e todo tipo de coisa esquisita que permanecem como um enigma indevassável. 

Entretanto, as pessoas podem se questionar, desde quando tais acontecimentos "Fortianos" tem ocorrido. A resposta mais razoável para essa pergunta pode ser: "Desde sempre"!


Ao tomar como exemplo alguns velhos arquivos e documentos ancestrais, é possível supor que acontecimentos extraordinários ocorriam no passado tanto quanto ocorrem nos dias atuais, deixando as pessoas sem palavras e incapazes de explicar de maneira razoável o que estavam vendo.

Um documento especialmente curioso data do ano de 1250. Ele oferece o que parece ser, um dos mais surpreendentes exemplos de "Fortiana" da Idade Média.

Conhecido como Konungs skuggsjá, que pode ser traduzido do Antigo Norueguês como "O Espelho do Rei" (Spekulun Regale em latim), ele é uma peça de literatura especulativa de primeira grandeza. 

O documento oferece fatos e descrições de maneira tão clara e detalhada a respeito de seus assuntos que pesquisadores por décadas acreditaram ser ele uma fraude. Escrito na forma de um diálogo entre um pai e filho, o "Espelho do Rei" trata de política, moralidade, a formação de estados, embora como mencionado anteriormente, exista espaço para vários temas fascinantes que vão muito além do convencional.

Embora atribuído a um norueguês, o autor desconhecido do "Espelho do Rei" discorre a respeito de outras nações, incluindo Islândia e Irlanda. Nele, vários "horrores e maravilhas" são apresentadas, coisas que o autor considera acontecimentos milagrosos. A descrição de estranhas criaturas e sua captura estão em um capítulo com o título "As Maravilhas da Natureza", que documentam o avistamento e a captura de animais fantásticos que guardam enorme similaridade com os relatos modernos do Pé Grande ou Sasquatch:

"Certa vez ocorreu nessa nação (no caso, o autor se refere a Irlanda) que uma criatura estranha foi capturada viva na floresta. Ninguém era capaz de dizer ao certo se ela era um homem ou algum tipo de animal até então desconhecido: Ela tinha a forma de um homem, em cada detalhe, as mãos, os pés e a face eram perfeitamente condizentes com um homem, mas seu corpo era coberto por pelos espessos como as bestas, e nas suas costas, havia uma longa crina de cabelos grossos como de um cavalo. A criatura produzia sons estranhos e parecia entender aquilo que seus captores diziam, como se fosse capaz de compreender o idioma, mas não era capaz de se expressar por conta própria. Ela andava ereta, caminhava como um homem e apanhava objetos que lhe eram entregues. Ninguém foi capaz de determinar a sua origem, e ela permaneceu em uma jaula até morrer depois de uma semana de cativeiro".

Em um trecho, o autor deixa claro que nem tudo no mundo ainda é compreendido, mas dá uma inequívoca demonstração de um espirito Fortiano: 

"Há coisas nesse mundo cuja explicação nos escapa, coisas que ainda esperamos encontrar novamente e que talvez então, possam oferecer uma explicação razoável".


Mais adiante, o autor se dedica a descrever vários avistamentos de coisas que flutuavam no ar. O primeiro trecho descreve algo que circulou a torre de uma Igreja também na Irlanda deixando as testemunhas estupefatas:

"Em Cork, havia uma Igreja dedicada a memória de um homem santo chamado Kiranus. Em um domingo enquanto a população do vilarejo estava reunida para a missa, algo estranho surgiu no céu. Não era uma nuvem, nem um pássaro e menos ainda a lua. As pessoas correram para ver e se maravilharam com a estranha coisa que flutuava. Era arredondada e feita de metal, lustrosa e brilhante, emanando uma luminosidade branca. De repente uma comporta se abriu em sua superfície e de dentro dela saiu um homem que também flutuava no ar, como se este fosse feito de água, e o estranho nadasse. As pessoas o chamaram e tentaram atirar pedras para derrubá-lo, mas ele estava muito alto para ouvir ou ser atingido. O Bispo que estava presente nessa ocasião, disse que aquele poderia ser um milagre divino, embora nem todos tivessem certeza do que estavam vendo. Assim que o homem completou meia dúzia de voltas em torno do objeto, retornou para o interior da comporta que se abriu uma vez mais. O objeto então voltou a se mover lentamente desaparecendo atrás das nuvens".

Enquanto obviamente fantástico em seus detalhes, é válido perceber que o testemunho guarda incríveis similaridades com as narrativas de fantásticos veículos aéreos, de tecnologia desconhecida que hoje em dia convencionamos chamar de Discos Voadores

Em outro trecho, o autor menciona um objeto similar, dessa vez sobrevoando os céus da Noruega:

"Tinha a forma de um escudo metálico arredondado. Luzes piscavam de seus lados como se fossem velas. Emitia um som contínuo, um rosnado baixo que chamava a atenção e obrigava as pessoas a sair de suas casas para ver sua passagem. Todos olhavam e apontavam surpresos. Movia-se devagar e por vezes parecia simplesmente parar. Então, luzes brilharam com mais força e de repente ele começou a se mover velozmente, deixando um rastro de fumaça branca que rasgou os céus".


Finalmente, um terceiro trecho é ainda mais evocativo a respeito da frequência com que tais objetos eram vistos nos céus da Noruega:

"As pessoas que viviam em Dermond sequer se importavam mais com a passagem daquelas esferas luminosas. Por vezes seis, sete delas surgiam ao mesmo tempo, voando em forma de cunha pelo céu, muito alto. A noite, quando surgiam, eram como estrelas cadentes que se moviam com velocidade, mas que ao contrário destas, evoluíam pelo céu e dançavam como vaga-lumes. Nessas ocasiões, era como se as estrelas estivessem se movendo no firmamento. Certa vez, algumas sobrevoaram o vale mais baixo lançando fachos de luz que iluminaram a escuridão como se o sol tivesse despontado no meio da madrugada".

Há muito debate entre estudiosos a respeito das narrativas descritas no "Espelho do Rei". Alguns suspeitam que o texto seja uma compilação de vários documentos, ou mais provável, de testemunhos e lendas do período, preservadas no formato de histórias orais. Há indícios de poemas e documentos até mais antigos que o "Espelho do Rei"  que tratam de temas similares, especialmente aqueles discutidos no capítulo "Maravilhas da Natureza". Os galeses documentaram uma série de encontros com animais estranhos em um documento medieval chamado "Topographia Hibernica" que pode ser uma das fontes do Espelho.

Laurence Larson do Departamento de História da Universidade de Illinois fez o seguinte comentário na introdução de uma monografia a respeito do Espelho do Rei:

"Por tudo que consta no tratado a respeito da Irlanda, pode-se afirmar com certeza que o autor tinha um grande conhecimento da geografia e topografia da região sobre a qual escreve. As histórias são suficientemente detalhadas para que se assuma que elas foram escritas (ou narradas)  por alguém que realmente conhecia a região por experiência própria. É perfeitamente possível que as descrições tenham sido oferecidas por viajantes que exploraram o interior da Irlanda, que navegaram pelos mares e usaram o sistema de rios. É provável que os noruegueses ainda tivessem colônias na Irlanda nesse período, ainda que a maioria da ilha estivesse sob controle dos ingleses o que explica a escolha do idioma".


É possível que o texto tenha sido coletado por exploradores ou membros de Expedições de noruegueses a Irlanda. Hakron II, um famoso explorador norueguês liderou uma expedição a Irlanda em 1239 na qual descreveu como encontrou ainda nos vilarejos algumas pessoas que falavam seu idioma.

O Espelho do Rei também descreve lendas e incidentes envolvendo o avistamento de estranhos animais marinhos: Sereias, Tritãos (homens peixe) e Krakens estão relacionados entre as "coisas que vivem nos mares e abaixo das ondas". Especificamente, a porção do documento que trata dos Kraken, que são discutidos em conjunto com outros animais de grande porte como baleias (tratados como "peixes grandes"), é interessante:

"Existe um animal, mencionado por marinheiros que viajam pelas águas a leste da Islândia que é tão grande que muitos homens o consideram uma lenda. Mas o Kraken de fato existe nessas águas geladas e profundas, ainda que seja muitíssimo raro. Ele é visto apenas por alguns poucos indivíduos que se afastam o suficiente da costa. É possível que exista apenas um ou dois deles hoje em dia. O Kraken vive em mar aberto e dado seu tamanho colossal, pode ser confundido com uma ilha ao invés de um animal. Eles precisam de muita comida para sobreviver, e talvez por isso sejam tão raros. Alimentam-se de cardumes e de baleias inteiras que são atraídas para seus tentáculos que as agarram e não permitem que escapem. Quando estão famintos, produzem um arroto altíssimo de baixo da água e liberam comida semi-digerida que atrai peixes de todos os tipos, grandes e pequenos, que surgem de lugares recônditos para se fartar com os restos. O monstro mantém a sua enorme bocarra aberta, com uma abertura tão vasta quanto um fjord e quando a fecha, devora tudo ao seu alcance que é empurrado goela abaixo. Por vezes, um kraken pode atacar uma embarcação. Ele lança seus tentáculos e agarra os barcos que se partem como gravetos lançando os tripulantes ao mar. O monstro então os engole inteiros. Ninguém que tenha sido jogado na água em que nada um Kraken, viveu para andar novamente em terra firme". 


Há trechos similares tratando de sereias e tribos inteiras de lendários homens peixe:

"As fêmeas dessa espécie marinha, muito mais antiga do que a dos homens, vive sob as ondas e respiram água. Elas tem a pele lisa e azulada e parecem mulheres, mas a parte inferior de seus corpos é escamosa. Não possuem pernas, e sim rabos dotados de barbatanas que as impulsionam na água. Nadam velozmente e são conhecidas por acompanhar embarcações tanto perto quanto em mar aberto. A noite, produzem um canto estranho, parecido com o lamento das baleias. Muitos homens que ouvem esse canto se sentem compelidos a saltar na água e nadar a luz das estrelas. Esses não voltam nunca mais, pois as sereias coletam escravos para servi-las".

Igualmente impressionante é a descrição feita das tribos de Homens-Peixe que habitam os despenhadeiros rochosos no litoral da Irlanda e a costa recortada da Islândia:

"São homens com escamas, olhos grandes de peixe e boca com dentes afiados. Nadam com grande velocidade e caçam com lanças e facas de pedra afiada. Eles não falam ou cantam como as sereias, as fêmeas da espécie e nem podem ser confundidos com homens comuns, pois suas feições são medonhas. No passado, dizem, eles atacavam vilarejos, apanhavam presas que eram arrastadas para de baixo d'água, mas com o tempo pararam de vir à terra, preferindo atacar as embarcações pesqueiras que se aventuram além da arrebentação. Em noites de lua eles são mais comuns, mas estão sempre nadando próximo dos barcos esperando a chance de puxar alguém para a água. Dizem que comem suas vítimas, mas também as escravizam".  


As mitologias da antiga Europa, consideradas da perspectiva forteana, sugerem uma longa e profunda relação entre a humanidade e certas criaturas lendárias. Nós somos pressionados pela razão a desconsiderar narrativas de nossos antepassados a respeito de humanos peludos, de objetos voadores tripulados cruzando os céus medievais, de luzes pulsantes, lulas gigantescas e tribos de humanoides marinhos. Talvez eles não sejam nada além do que narrativas bizarras cujas fontes são no mínimo questionáveis, relatos e superstições coletadas em uma mesma compilação de incidentes no distante ano de 1250.

Desde então, a percepção das coisas que nos cercam e do mundo em que vivemos mudou incrivelmente. 

Ainda assim, é surpreendente se deparar com descrições tão vívidas de seres tão curiosos que talvez jamais tenham existido, mas que ainda assim, se mostram um fascinante testemunho de crenças ancestrais que mesmo hoje ainda se encontram entre nós, na forma de criptídeos e ovnis.

domingo, 14 de agosto de 2016

Pesadelo de Oito Patas - As Lendárias Aranhas Gigantes do Congo


Muitas pessoas sentem uma aversão natural por aranhas. Existe algo nelas que parece incomodar e acionar algum mecanismo de defesa primitivo nos recessos de nossos cérebros, enviando um sentimento de medo e repulsa. A mera visão de uma aranha pode levar muitas pessoas a se encolher, saltar, correr ou enrolar um jornal para golpeá-las. Dificilmente alguém simplesmente ignora a presença dessas criaturas. 

Agora uma pergunta complicada. Qual o tamanho que uma aranha deveria ter para que você simplesmente saísse correndo aos gritos? O quão grande deveria ser uma aranha para que você se sentisse apavorado? O tamanho de seu dedo? De sua mão? De um prato? Esse último já é grande o bastante para fazer muitas pessoas terem arrepios, mas há rumores a respeito de aranhas ainda maiores habitando selvas escuras e isoladas do mundo. 

De fato, na África Equatorial, existem boatos sobre aranhas maiores do que um macaco ou do tamanho de um cachorro, que espreitam na vegetação à noite, levando horror ao coração dos homens. Essas são as aranhas que fariam os mais valentes exploradores fugirem aterrorizados, e para a qual você precisaria mais do que um jornal para esmagar.

Oculta na densa e quase impenetrável selva das regiões mais remotas da República Democrática do Congo, mas também no Camarões, Uganda e República Centro Africana, dizem que existem aracnídeos que os nativos chamam de J’ba Fofi (pronuncia-se ch-bah foo fee), nome que pode ser traduzido literalmente como "aranha gigante". As J’ba Fofi seriam aranhas parentes das tarantulas tanto na forma, quanto na coloração, com espécimes adultos exibindo uma coloração marrom escura e espessos pelos ao longo das pernas e abdômen. Mas o grande diferencial desses animais seria o tamanho, uma vez que a Aranha Gigante Congolesa poderia atingir uma envergadura total de perna com algo entre 120 e 180 centímetros. Esse chocante tamanho permite a elas buscar presas de grande porte incluindo pássaros, pequenos antílopes, macacos, répteis e anfíbios, que elas capturam em elaboradas teias armadas entre as árvores. As presas capturadas nessa terrível armadilha são devoradas de uma maneria similar ao método usado pelas aranhas caseiras, com a inserção de enzimas digestivas que liquefazem os órgãos internos da vítima, posteriormente sugados.  

Missionários religiosos enviados para essa região da África, foram os primeiros a ouvir relatos sobre a existência dessas imensas aranhas. Os nativos contavam histórias absurdas sobre enormes aranhas que chegavam a capturar homens adultos após paralisá-los com seu potente veneno. Contavam sobre ninhos de aranhas subterrâneas que se escondiam durante o dia, mas saíam à noite para caçar. As estórias eram ilustradas por casos que os nativos juravam, serem verdadeiros e que envolviam incidentes aterrorizantes nos quais pessoas sucumbiam às picadas fatais e terminavam arrastadas para as tocas ou presas em teias inquebráveis.

Embora exploradores, missionários e nativos contassem estórias a respeito do avistamento de imensas aranhas nas profundezas da Selva Africana, talvez, o mais confiável relato seja baseado num registro feito por Reginald e Margurite Lloyd em 1938. De acordo com seu testemunho, os Lloyd estavam explorando uma região remota do território então conhecido como Congo Belga, quando eles viram uma forma escura espreitando na vegetação fechada bem na sua frente. À princípio, eles acreditaram que se tratava de um porco do mato, macaco, ou outro animal típico da selva. Eles pararam para observar. Foi então que viram se tratar de uma enorme criatura que os deixou aterrorizados, uma gigantesca aranha com pernas medindo 120 ou 150 centímetros de envergadura. 

Antes que eles pudessem pegar uma câmera para registrar a presença da criatura ou mesmo apanhassem uma arma para abatê-la, a enorme aranha saiu em correria pelo matagal desaparecendo em poucos segundos. A senhora Lloyd ficou profundamente abalada pelo incidente e implorou ao marido que os dois retornassem o quanto antes para sua casa na Rodésia. 

Outro relato de aranhas gigantes veio de Uganda em meados de 1890, quando um missionário britânico chamado Arthur Simes estava explorando a ribanceira do Lago Nyasa. A medida que Simes e seus companheiros estavam caminhando pela margem, vários de seus carregadores acabaram ficando presos em um emaranhado de teias que estava espalhado pelo caminho. Eles tentaram se livrar dos fios, mas mesmo suas facas e machados encontravam dificuldades em romper a estranha tecitura acinzentada. Logo em seguida, ao menos duas aranhas gigantes com pernas com mais de 1,20, desceram da copa das árvores se lançando sobre os homens. Simes conseguiu sacar sua pistola e desferiu vários tiros espantando as criaturas. Momentos depois de terem sido mordidos, os carregadores começaram a delirar e sofrer espasmos; suas extremidades muito inchadas e a pele ao redor dos ferimentos escurecida pululando com o veneno. Todos aqueles que foram mordidos acabaram sucumbindo, conforme registrou Simes em seu diário.


Mas nem todos os relatos são de exploradores do início do século passado. Existem também muitos relatos sobre Aranhas Gigantes coletados por expedições na região em busca de outro criptídeo, o legendário descendente dos sáurios, Mokele-mbembe. Estas expedições ouviram frequentes estórias a respeito das temidas J’ba Fofi. O famoso naturalista e criptozoólogo, William J. Gibbons, conseguiu coletar testemunhos muito detalhados a respeito das J’ba Fofi durante suas muitas incursões no Congo em busca do Mokele-mbembe. 

Através de entrevistas com nativos de tribos locais, logo ficou claro que estes não apenas sabiam da existência das aranhas gigantes como as encontravam, tendo conhecimento de seu comportamento e de seu ciclo natural. Os nativos contaram que os ovos das aranhas gigantes eram brancos ou de um amarelo pálido do tamanho de uma amora grande, e que eram deixados em aglomerados embrulhados em teias na vegetação selvagem. Os ovos eram evitados a todo custo pois a mãe sempre estava próxima de sua ninhada, protegendo-a contra qualquer perturbação. As jovens aranhas, ainda segundo os nativos, nasciam com uma coloração amarelada e o abdômen arroxeado, tornando-se gradualmente mais escuras a medida que cresciam até chegar à idade adulta, quando o corpo assumia uma cor marrom escura.

Seu método preferido de caçar consistia em deixar armadilhas para suas presas em passagens ou entre o vão de árvores. As teias além, de resistentes seriam extremamente grudentas, capazes de restringir os movimentos daqueles que ficavam grudados nelas. Muitos animais acabavam presos, incapazes de escapar dos filamentos e se esgotavam fisicamente, facilitando o trabalho das aranhas. De hábitos noturnos, as aranhas gigantes deixavam suas tocas no alto das copas ou no interior de tocas rochosas apenas depois que o sol se punha. Elas deslizavam silenciosamente pela selva sombria, verificando suas armadilhas em busca de presas capturadas ao longo do dia. Após remover seus troféus, elas remontavam as teias rompidas e voltavam para suas tocas para sua ceia.  


Os nativos contaram que o veneno das aranhas gigantes era poderoso o bastante para derrubar um homem adulto em poucos segundos. Eles não coletavam o veneno, pois depois de ser extraído das aranhas, este perdia sua potência rapidamente. Os nativos contaram a Gibbons que no passado as J’ba Fofi eram muito mais comuns nas selvas e que elas se tornaram mais raras a medida que caçadores começaram a repelir sua presença e caçá-las. O fogo e as tochas são a principal arma para expulsá-las. Seu número diminuiu muito e elas se tornaram cada vez mais raras, muito embora os nativos garantissem que elas ainda eram vistas nas partes mais profundas da selva. Segundo um caçador, as aranhas gigantes apareciam a cada 5-7 anos, especialmente nas épocas de maior calor. 

O naturalista conseguiu rastrear relatos a respeito da atividade de aranhas gigantes nas tórridas selvas africanas até meados do ano 2000, quando ele ouviu de um chefe da Tribo Baka, no interior do Camarões, que as J'Ba Fofi haviam construído um ninho nas proximidades da aldeia um ano antes. O chefe Baka contou que uma aranha de 1,20 havia sido abatida pelos caçadores.  

As informações obtidas por Gibbons eram intrigantes, não apenas pelo grau de detalhamento, mas por que elas demonstravam que as tribos da área realmente tinham conhecimento sobre a J’ba Fofi. Mais do que isso, eles afirmavam ter visto as criaturas repetidas vezes. As descrições detalhadas do ciclo de vida das J’ba Fofi, com menção aos seus ovos e a mudança da coloração, eram condizentes com o comportamento de várias aranhas ao redor do mundo, sugerindo que os nativos sabiam do que estavam falando. Além disso, a maneira como eles se referiam aos animais era bastante  direta, eles não os encaravam como animais espirituais ou mitológicos. Tratavam delas como qualquer outro animal selvagem perigoso, como leões e crocodilos com o qual se devia tomar cuidado. Além disso, a descrição era muito clara e variava pouco de tribo para tribo. 

Apesar do fato de que nenhuma aranha gigante tenha sido encontrada pela ciência não há motivos para acreditar que os animais não existam ou que os nativos estariam mentindo para os pesquisadores. O código de várias tribos de caçadores exige que eles sempre contem a verdade sobre os animais encontrados e não inventem a existência desses animais. Em algumas tribos, mentir sobre o avistamento ou inventar sobre um determinado animal é uma espécie de tabu, algo evitado, pois a transgressão pode resultar no banimento do caçador. 


É importante ter em mente que espécies de animais são descobertas até hoje, incluindo em alguns casos criaturas que se julgava fantásticas e/ou absurdas. O gorila, o okapi e o panda, até alguns séculos faziam parte da lista de animais cuja existência era muito questionada e cuja confirmação só foi comprovada cientificamente no último século. Antes porém, testemunhos de nativos davam como certa a existência de tais animais. Quem pode dizer o que existe no interior de uma selva escura e isolada em um dos últimos lugares inexplorados pelos humanos? 

O problema com as estórias a respeito de aranhas gigantescas vagando pelas selvas da África não é a falta de avistamentos já que muitos nativos mencionam a existência desses animais, não é também a ausência de evidências físicas a respeito delas. O maior problema com a confirmação da existência das J’ba Fofi, ou de qualquer tipo de aranha gigantesca ao redor do mundo, está mais ligado a fisiologia. 

Há dois grandes obstáculos para aceitar a existência de aranhas gigantes, sendo que o primeiro diz respeito a respiração. Aranhas possuem pulmões em forma de livros, seu sistema respiratório alterna camadas de pele e bolsões de ar responsáveis por levar o ar para todas as partes do corpo em um mecanismo semelhante ao de vários insetos. O problema é que com esse método de respiração, muito eficiente em animais de pequeno porte, seria bastante falho em animais de grande porte. De fato, o que impede as aranhas de crescer além do tamanho que temos conhecimento é justamente esse limitador envolvendo a respiração.

É certo entretanto, que no passado existiam na natureza vários insetos enormes vagando pela Terra primitiva, milhões de anos atrás. Contudo, naquela época havia uma saturação muito maior de oxigênio na atmosfera, o que compensava a insuficiência respiratória desses animais e permitiam que insetos, inclusive aranhas, crescessem a proporções notáveis. Essa limitação do sistema respiratório dos aracnídeos parece limitar o crescimento das aranhas ao tamanho da Aranha Golias (Theraphosa blondi), que tem a maior envergadura de pernas entre as aranhas rasteiras, com 28 centímetros e um peso de 170 gramas. A enorme aranha caçadora Heteropoda maxima, não é tão pesada, mas pode atingir uma envergadura de pernas de até 30 centímetros. Esta espécie curiosamente foi descoberta apenas em 2001 nas selvas do Laos, a despeito de sua existência ser reportada há décadas por nativos. Essas duas espécies são enormes e assustadoras, mas não são nada quando comparadas aos testemunhos a respeito da J’ba Fofi.


Mas ok, digamos que as aranhas gigantes da África de alguma forma evoluíram para um radical novo tipo de sistema respiratório que permite a elas crescer além das limitações impostas a outros aracnídeos. Mesmo que esse seja o caso, há outro problema, talvez até mais complexo para transpor: seu exo-esqueleto. O problema com o exoesqueleto é que este é muito pesado, o que para animais menores não chega a ser um problema pois eles são comparativamente mais fortes. Entretanto em animais maiores não é possível que um animal dotado de exoesqueleto consiga tolerar seu peso a medida que se desenvolve. Um animal de grande porte não seria capaz de carregar uma casca tão pesada e acabaria eventualmente esmagado pelo próprio peso. 

É um desafio formidável para qualquer artrópode superar a desvantagem de ser muito grande e isso só é conseguido por força bruta e uma distribuição de peso pelos ossos. É importante comentar que na natureza até existem casos de artrópodes imensos dotados de exoesqueleto, o caranguejo aranha japonês, por exemplo pode atingir até três metros, contudo tal animal tem o benefício de viver de baixo da água a uma profundidade que lhe permite suportar seu peso. Isso não significa que não existam artrópodes terrestres como o caranguejo do coqueiro que pode crescer até um metro de comprimento e pesar mais de 4 quilos. Mas este é possivelmente o maior tamanho que uma criatura dotada de exoesqueleto pode atingir fora da água. Além disso, qualquer pessoa que observe tal animal perceberá como ele se move lentamente. Considerando isso, é realmente difícil imaginar uma aranha tão grande correndo ou mesmo deslizando graciosamente pela selva, parece simplesmente inconcebível tal animal conseguir perseguir suas presas e mais ainda capturá-las em fuga.

    
Com isso qual a nossa conclusão a respeito do Pesadelo de Oito Pernas?

Ainda que as selvas inóspitas e pouco exploradas do Continente Negro certamente possam ocultar enormes animais ainda desconhecidos, as restrições físicas da J’ba Fofi parecem difíceis de serem superadas, e nos deixam céticos sobre sua existência. Mas se esse é o caso, o que então, tantos nativos teriam visto, em regiões tão diferentes e distantes da África? Mais ainda, por que essas estórias continuariam a ser contadas? É possível que as testemunhas tenham encontrado aranhas de tamanho surpreendente e mesmo assim, tenham exagerado na descrição? Seriam essas informações desencontradas a descrição de algum outro animal que não uma aranha? Os nativos parecem acreditar na existência de tais animais, será que nenhum desses testemunhos podem ser levados à sério? 

As respostas para essas questões repousam no coração das selvas intransponíveis, onde segundo as estórias as  J’ba Fofi reinam. Até que alguém explore essa fronteira selvagem por inteiro, talvez seja melhor respeitar os mistérios e os relatos contados pelos nativos. Apenas no caso desses relatos terem um fundo de verdade.

domingo, 29 de maio de 2016

Centopeias - O Mundo assustador de lendárias criaturas rastejantes


Existem poucas coisas que pessoas com medo de insetos temem mais do que Centopeias.

Os exoesqueletos brilhantes, o movimento serpenteante, os corpos segmentados longos e as dezenas de pernas são o bastante para fazer indivíduos adultos se encolherem no canto, gritar ou desmaiar como crianças. Mas, além das já assustadoras espécies conhecidas, existem outras, que são ainda maiores e ainda mais horrendas, espreitando no fundo de cavernas, no coração de pântanos e princialmente no terreno fértil da nossa imaginação. 

Verdadeiros monstros peçonhentos integram os relatos a respeito de criptoides: animais cuja existência não foi comprovada, mas que alguns juram ter encontrado e que outros prometeram revelar ao mundo. Essas criaturas elevam o terror para fora da escala: são insetos medonhos, com inúmeras pernas e assustadores além de qualquer classificação. Nessa série de artigos, que eu ousei chamar de "Semana da Centopeia", nós iremos explorar as estórias e mistérios que cercam estes animais. E quando terminar, se vocês olharem aflitos em baixo do cobertor antes de deitar na cama ou no ralo de seu pátio, significa que essa série atingiu seu propósito - mesmo por que, eu, vou ter que fazer isso.

Um dos mais bizarros e de fato, assustadores exemplos de criptídeo gigante, espreita não na terra, mas nos mares quentes que banham o Sudeste asiático, particularmente na Costa do Vietnã. Este seria o território de caça de um animal comumente chamado de Con Rit, uma enorme criatura que alguns acreditam pode atingir até 15 metros de comprimento. Com um corpo segmentado, protegido por placas de quitina e centenas de membros ao longo de sua lateral, o Con Rir é muito semelhante a um milípede ou centopeia. A principal diferença é que o Con Rit, uma vez adaptado a vida marinha teria nadadeiras ao invés de pernas. Para ser totalmente justo, o termo Con Rit significa "mil patas" no idioma vietnamita. As testemunhas descrevem esse animal como tendo um corpo de cor bronze-marrom e uma barriga amarela de onde surgem os filamentos semelhantes a pernas. Relatos também mencionam a existência de uma cauda similar a das lagostas, responsável por impulsionar o animal enquanto nada. 

O Con Rit e suas patas em forma de nadadeiras.
Os vietnamitas falam a respeito do Con Rit há séculos, ele aparece em várias lendas, sendo tratado como uma espécie menor de Dragão da Água. Ele é citado no famoso Chich-Quai, um importante tratado sobre animais fantásticos e seres mitológicos que fazem parte do folclore do Vietnã. No entanto, esta bizarra criatura ganhou notoriedade durante o século XIX, quando avistamentos se tornaram muito frequentes nas praias da Região de Hongay. Vários espécimes teriam aparecido na costa, depositados pelas ondas na areia. 

Em 1883, pescadores teriam encontrado a carcaça em decomposição de um Con Rit numa praia. O animal teria 13 metros de comprimento e 90 centímetros de largura. Sua descoberta causou enorme estranheza, alguns imaginaram que pudesse ser uma cobra, mas ele era muito diferente de qualquer réptil que já havia sido encontrado na região. Para começar, ele tinha uma série de nadadeiras dorsais, além de possuir placas no corpo, similares ao exoesqueleto de insetos. De cada segmento brotava um par de nadadeiras (como as de peixes) com extensão de 30 centímetros. A carcaça foi examinada antes de ser rebocada para o mar e descartada assim que começou a apodrecer exalando um fedor nauseante.

Depois desse acontecimento, avistamentos de Con Rit se tornaram cada vez mais frequentes na região. Até a primeira metade do século XX, mais de 100 avistamentos foram registrados. Em 1920, o médico francês Armand Krempf, que também foi o fundador e diretor do Serviço Oceanográfico da Indochina, conduziu uma investigação para provar a existência ou não do animal. Durante sua investigação, Krempf entrevistou pessoalmente o homem que encontrou a carcaça em 1883, um pescador chamado Tran Van Con, que ainda se recordava do incidente apesar dele ter ocorrido décadas antes. O pesquisador escreveu um longo artigo a respeito desse evento, publicado em várias revistas científicas da época. Em face das evidências obtidas, ele considerava a criatura como um genuíno mistério zoológico e sua existência ainda que não comprovada constituía uma possibilidade dada a quantidade de detalhes recolhida.

Bizarro como pode parecer, o Con Rit não está sozinho no mundo dos criptóides similares a centopeias ao redor do mundo.

Con Rit em um desenho aterrorizante
Há relatos de animais semelhantes encontrados desde o século XVI, inclusive por Guilhaume Rondelet, que é chamado de "Pai da Ictiologia" (o estudo dos peixes). Em seu pioneiro tratado "L`Histoire entiere des poisons" (A História Completa dos Peixes), Rondelet revela inúmeros avistamentos feitos em ilhas na Costa da India do que chamou "cetáceo-centopeia", descritos como bestas com corpo segmentado dotadas de centenas de pernas, ou nadadeiras, usadas como remos para impulsionar seu corpo na água. Rondelet também escreveu que tais criaturas eram encontradas no litoral carregadas pelas ondas e depositadas nas praias há séculos. O naturalista grego Aelian, em 200 d.C chamava essa espécie de "Grande Centopeia Marinha" na sua obra "A Natureza dos Animais". Ele afirmava ter examinado tais animais trazidos do Norte da África.

Tais relatos ao longo dos séculos se espalharam de tal maneira que o cripto-zoólogo Bernard Heuvelmans criou uma classificação para esse tipo de serpente marinha, em sua obra mais importante "In the Wake of the Sea-Serpents" (O Despertar da Serpente Marinha - 1968). Ele categoriza tais seres como "multi natatórios", animais dotados de pares de nadadeiras, semelhantes às centopeias de terra firme. Heuvelmans acredita que animais como o Con Rit pertencem a esse gênero pré-histórico, no qual os animais desenvolvem placas ósseas. Ele também aponta que tal gênero possa ter incluído os lendários "escorpiões marinhos", artrópodes aquáticos medindo quase 2 metros de comprimento que teriam existido em torno de 500–250 milhões de anos atrás.



Deixando o mar e mergulhando nas profundezas das selvas tropicais, nós encontramos outra criatura semelhante a centopeias. Na Floresta Amazônica, viajantes relataram ter encontrado enormes animais de corpo segmentado com mais de um metro e meio de comprimento. Chamadas de Centopeias Colossais esses animais são matéria de discussão e terror. Segundo as lendas indígenas, a Centopeia Colossal possui um veneno fatal que pode matar um homem adulto em poucos minutos. Tão poderosa seria essa toxina que pele e carne simplesmente dissolvem em contato com ela. Alguns relatos afirmam que além de transmitir o veneno pela mordida, tais animais podem projetar um jato de veneno a uma distância considerável. Embora nenhuma evidência desses animais tenha sido encontrada na América do Sul, muitas tribos possuem estórias a respeito de centopeias aterrorizantes.

O mais próximo desse monstro, é a Centopeia Gigante da Amazônia (Scolopendra gigantean) que atinge em média 28-33 centímetros de comprimento, sendo que o maior espécime encontrado media surpreendentes 48 centímetros (!!!). Essas enormes centopeias com hábitos noturnos são hábeis predadores, alimentando-se de qualquer animal menor do que elas: pássaros, sapos, lagartos e roedores. Essa espécie em particular possui a habilidade de se pendurar em árvores ou no teto de cavernas para capturar pássaros e morcegos em pleno voo. Sua mordida é tão dolorida que muitas vítimas comparam a dor de sua picada a um tiro à queima roupa. Poderia a misteriosa Centopeia Colossal ser um primo distante da Centopeia Gigante da Amazônia? É possível que seja uma espécie rara que habita áreas isoladas ou ainda, uma espécie extinta? Nesse último quesito, temos a Euphoberia, uma centopeia extinta que existiu há 35 milhões de anos e que media incríveis 110 centímetros. Seriam as Centopeias Colossais um grupo sobrevivente da Euphoberia?

Centopeia Gigante da Amazônia com uma presa.
Outra narrativa a respeito de criptídeo de centopeia ganhou publicidade em um artigo científico publicado na Revista BBC Wildlife em 2009. Assinada pelo respeitado naturalista Jeremy Holden o trabalho descreve uma criatura estranha e assustadora. Enquanto explorava as remotas selvas da Ilha de Sumatra, Holden visitou um vilarejo isolado na porção ocidental do país, onde os nativos revelaram a existência de uma espécie de centopeia com 35 centímetros de comprimento e um corpo segmentado nas cores verde e negro. A mordida dessa centopeia seria tão poderosa que as pessoas feridas por ela, por vezes, morriam em decorrência da dor insuportável. Este misterioso animal, que eles chamavam de Upah, habitava o topo das árvores. A característica mais incrível desse animal é que ele poderia produzir um ruído agudo, semelhante a um grito ou trinado para atrair suas presas.

As estórias sobre centopeias produzindo sons estranhos não foram levadas muito à sério por Holden, afinal, na natureza não há nada parecido. Mas dias depois ele teria um suposto encontro com o animal descrito pelos nativos. Holden estava na selva, quando do nada um ruído bizarro irrompeu da mata assustando toda expedição. Os guias nativos confirmaram que era o grito de uma Upah, mas mesmo depois de escalar as árvores em busca do animal nada foi achado.

Semanas depois, Holden estava atravessando uma área de floresta fechada quando ouviu novamente o estranho grito, similar ao que havia escutado antes. Um grupo se encarregou de vascular as árvores e folhagem, mas uma vez mais, não encontraram nada que pudesse comprovar a existência dessa estranha espécie. Um dos guias, no entanto, encontrou os restos de uma centopeia de espécie desconhecida, medindo 25 centímetros de comprimento. Embora os nativos tivessem identificado a casca como pertencente a uma Upah "pequena", Holden não descobriu nada que pudesse confirmar que esse animal era responsável pelos ruídos bizarros.

Centopeia das Montanhas Ozark
Seguindo para a América do Norte, nós acrescentamos outra espécie à nossa lista de centopeias lendárias. As Montanhas Ozark, em particular a região nas redondezas de Gainesville, no estado do Missouri, seria o lar de uma misteriosa criatura avistada repetidas vezes. Descrita como uma centopeia de cor vermelha-ferrugem medindo mais de 50 centímetros, a Centopeia Gigante das Ozarks aterroriza viajantes e exploradores desde o século XIX. Em 1860 um espécime com 51 centímetros foi capturada em Jimmie´s Creek no Condado de Marion, e seu corpo preservado em um vidro com álcool em exposição na farmácia local. Segundo a lenda, o vidro teria sido confiscado por um General Confederado durante a Guerra Civil e nunca mais foi visto.

Há muitos relatos sobre centopeias misteriosas rastejando nessas montanhas escuras. Em um relato de 1903 um caçador contou uma estória perturbadora sobre seu encontro com um animal aterrorizante. Enquanto caçava em uma região próxima a Sebastian County, no Arkansas, o sujeito entrou em uma clareira seguindo a trilha de um cervo. Ele teria ouvido um som estranho e ao se voltar, deparou-se com uma cena que gelou seu sangue. O animal parecia estar sendo atacado por uma cobra, mas ao observar por alguns instantes ele percebeu que se tratava de uma imensa centopeia que estava fixada ao corpo do animal, contorcendo-se em volta dele a medida que mordia e tentava paralisá-lo.


O caçador decidiu disparar com seu rifle contra o pobre animal que estava sendo atacado e depois de feri-lo mortalmente fugiu em disparada temendo que a centopeia pudesse se voltar contra ele. Ao chegar no povoado mais próximo ele contou a estória e aceitou voltar ao lugar acompanhado de alguns amigos. Lá encontraram o gamo alvejado pelo disparo, conforme havia descrito, mas nenhum sinal da centopeia gigante. O animal apresentava estranhos ferimentos, mas não era possível atestar se eles haviam sido produzidos por uma centopeia ou não. A testemunha descreveu o animal como uma enorme centopeia de corpo escuro com quase dois metros de comprimento e com centenas de pernas amareladas ladeando seu exoesqueleto brilhante.

É difícil acreditar que centopeias tão grandes possam habitar as Montanhas Ozark. Os maiores espécimes recolhidos na região medem aproximadamente 20 centímetros, tem o corpo vermelho e alaranjado, semelhante à Centopeia do Deserto (Scolopendra heros), espécie encontrada no México e no Extremo sul dos Estados Unidos. Com certeza, há centopeias verdadeiramente gigantescas no mundo, como a Milípede de Galápagos ou a Centopeia Golias de Darwin (Scolopendra galapagoensis) que frequentemente atingem 30 centímetros. Mas na América do Norte espécies maiores que 20 centímetros são extremamente raros.

A narrativa de uma centopeia com 2 metros, dominando um gamo parece absurda. O único artrópode conhecido capaz de atingir essas dimensões na América do Norte é o Arthropleura, que viveu há 340 milhões de anos e cujos fósseis coincidentemente podem ser achados ao longo das Ozarks. Não obstante, relatos de enormes centopeias na região, com um, dois até cinco metros, são recorrentes. Como tais animais poderiam se manter ocultos e sobreviver sob os nossos narizes é um enigma. É muito pouco provável que um animal dessas dimensões possa realmente habitar as montanhas, ainda que vivendo nas vastas cavernas que pontilham as Ozark. Há teorias, no entanto, de que na parte mais profunda dessas mesmas cavernas existam habitats totalmente alienígenas onde animais únicos poderiam ser encontrados.

A Centopeia Gigante da Amazônia
Centopeias estão, sem dúvida, entre as criaturas mais aterrorizantes do mundo, capazes de causar arrepios na maioria das pessoas. Elas combinam alguns dos nossos temores mais profundos no Mundo Natural, o medo de insetos e de serpentes. São criaturas rastejantes, com múltiplos membros e segmentos. Há espécimes conhecidos realmente gigantescos, mas, e se existir algo mais por aí? Centopeias podem surgir em praticamente qualquer ambiente, habitar qualquer recesso desde que haja umidade e presas. Elas se adaptam facilmente e não temem a presença humana. Não é raro que animais apavorantes registrem uma grande quantidade de lendas a seu respeito, e nesse quesito, as centopeias são quase imbatíveis. 

São criaturas que a maioria das pessoas prefere jamais encontrar; mas lá fora, nas selvas e florestas, nos desertos e pradarias, em túneis e galerias de esgoto de nossas cidades, pode ter certeza que elas espreitam, alimentando os nossos pesadelos com o som inconfundível de centenas de pernas.

Bons sonhos!   

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Mares Misteriosos - Sobre Enguias Gigantescas e Serpentes Marinhas


Em 1930, a Expedição Marítima de Investigação, um enorme projeto, ainda mais considerando a época em que teve início, viajou o mundo em busca de descobertas científicas nos mares. Liderada pelo Professor Johannes Schmidt, a expedição se iniciou na Costa da Inglaterra e rodou o mundo atravessando o Atlântico de Norte a Sul, adentrando o Indico e depois seguindo pelo Pacífico até terminar na Costa Oeste dos Estados Unidos, na cidade de San Francisco. A bordo do Dana, a embarcação que funcionava como nau capitânia, a Expedição de Schmidt foi um dos mais ambiciosos projetos de exploração e pesquisa de seu tempo.

Durante os cinco anos em que esteve no mar, a equipe à bordo do Dana registrou incríveis descobertas e conduziu extensivas pesquisas que resultaram em um enorme progresso no que se sabia a respeito do mar e seus muitos mistérios. Apesar do seu pioneirismo, a Expedição Marítima de Investigação concluiu que ainda havia muito que precisava ser compreendido sobre os oceanos. Humildemente Schmidt escreveu em suas memórias: "É provável que jamais venhamos a compreender todos os mistérios ocultos nos mares desse planeta que em nossa tola concepção chamamos de Terra. Se nós compreendêssemos a importância dos mares, teríamos chamado essa esfera azul de Oceano".  

Uma das estórias mais fantásticas apuradas pela Expedição Schmidt ocorreu em 1931, quando ela passava pelo litoral da África do Sul. Durante sua passagem pelo Cabo da Boa Esperança, o ponto mais meridional do Continente africano, o Dana lançou redes para captura de espécimes em alta profundidade. Esse era um procedimento comum que visava estabelecer uma noção de quais animais habitavam aqueles abismos insondáveis. Foi daquela maneira que o Dana já havia descoberto pelo menos 16 espécies até então desconhecidas da vida marinha. A rede podia descer a enormes profundidades, operada por guindastes automatizados, uma das inovações utilizadas pela Expedição.

Quando a rede foi içada até a superfície, ela havia capturado algo notável, até então desconhecido e que permanece até os dias atuais como o único exemplar da lendária Super Enguia. Em virtude da profundida extrema, o animal estava morto ao ser levado para o navio, mas a despeito disso, deixou todos que o analisaram, absolutamente chocados.


 A criatura tinha todas as características de uma enguia no estágio de larva, o que não era em absoluto estranho, contudo suas dimensões eram incríveis. Em geral, larvas de enguia atingem o comprimento máximo de 2 a 4 polegadas, podendo chegar no estágio adulto, com um metro e vinte de comprimento. A larva resgatada pelo Dana tinha nada menos do que 184 centímetros (6 pés)! 

Quando extrapolamos a taxa de crescimento das enguias, calcula-se que uma larva de enguia medindo 6 pés de comprimento, teoricamente, ao chegar ao estágio adulto atingiria algo entre 80 e 100 pés de comprimento (de 24 e 33 metros). Em água doce, as enguias da Europa e da América do Norte, tem uma taxa de crescimento ainda maior, experimentando um aumento de 500 vezes ao longo de seu desenvolvimento de larva para adulto. Em uma estimativa absurda, o adulto dessa espécie poderia atingir colossais 920 metros.

A suposta comparação entre a Super Enguia e outros animais marinhos.
De acordo com um artigo do Evening Post, publicado em 24 de fevereiro de 1934, o espécime encontrado na África do Sul foi preservado e enviado para o Laboratório de Vida Marinha em Copenhaguen, na Dinamarca para a realização de estudos por especialistas em Biologia Marinha.

Os resultados das pesquisas foram surpreendentes: a maioria dos especialistas concordaram que apesar de suas dimensões exageradas, o espécime tinha todas as características de uma enguia em estágio larval semelhante a espécie categorizada como leptocephalus. Concordavam ainda que o animal por se tratar de uma larva, deveria experimentar um crescimento a medida que avançasse para a idade adulta. Que tamanho ele seria capaz de atingir, contudo, era uma questão aberta a questionamento e certo grau de interpretação por parte dos especialistas.

Todos, no entanto, concordavam em um ponto, aquela larva tinha o potencial para se converter em um animal de proporções extraordinárias. Em vista disso, ela foi chamada de Super Enguia.


Nas décadas seguintes, diferentes expedições tentaram obter um segundo espécime de Super Enguia na região do Cabo da Boa Esperança. Nenhuma delas foi bem sucedida!

Apenas em 1959, uma descoberta similar foi feita, dessa vez na Nova Zelândia. Uma Expedição australiana retirou das profundezas um espécime de leptocephalus que media incríveis três pés de comprimento. Uma análise cuidadosa atestou que novamente se tratava de uma larva. O animal recebeu o nome científico de Leptocephalus giganteus, e uma análise comparativa com o espécime sul africano concluiu que se tratava da mesma espécie. 

Uma vez que mais nenhum espécime de Leptocephalus giganteus foi obtido, e compreensivamente existem informações escassas sobre a espécie. Entretanto, a julgar pela taxa de cresciemnto de animais similares, tudo leva a crer que as profundezas são o lar de enguias realmente monstruosas.

Essas larvas de Super Enguias se encaixam perfeitamente na teoria postulada pelo criptozoólogo Bernard Heuvelmans de que animais de grande porte, semelhantes a enguias, seriam a causa dos avistamentos das serpentes marinhas das lendas.


Serpentes Marinhas estão presentes nas narrativas supersticiosas de marinheiros em todo o mundo. No Mediterrâneo e no Oriente Médio, elas aparecem tanto na mitologia, quanto em testemunhos de observadores, como o filósofo grego Aristóteles, que descreve tal animal em seu tratado Historia Animallium. Na Ilíada, um par de serpentes marinhas matam Laocon e seus filhos quando eles se dirigem para Tróia. A Bíblia, no livro do Gênesis, se refere ao Leviatan ou Rahab (palavra que deriva do hebraico Tanakh - "sinuoso") como uma "imensa criatura marinha com corpo de uma serpente gigantesca". O Livro de Amos menciona uma serpente gigante que habita os mares e engole os homens que tentam escapar do castigo divino se lançando ao mar.

Na Mitologia nórdica, Jörmungadr era uma serpente marinha tão grande e longa que podia circundar o mundo inteiro, Midgard. Isso lhe valia o nome "Midgarösormr", a lendária Serpente de Midgard. No folclore da Escandinávia não faltam lendas sobre marinheiros que se deparam com enormes serpentes marinhas que rompem a superfície para destruir embarcações e se alimentar dos marinheiros. 

Em 1028, Santo Olaf, o primeiro Santo da Noruega teria matado uma serpente marinha na costa de Valldal que lhe valeu o título de Santo Matador de Monstros. O mito se confunde com a lenda sueca de Olaus Magnus um santo eclesiástico que escreveu a Carta Marina, um tratado no qual descrevia inúmeros monstros que habitavam os mares, incluindo imensas serpentes marinhas - "crias demoníacas que escapavam dos recessos infernais e habitavam os mares profundos para desespero e horror dos homens".

A idade de ouro das Serpentes Marinhas, entretanto, foi o século XIX, quando os avistamentos de tais seres se multiplicavam, sem dúvida em virtude do grande número de embarcações singrando os mares de todo o mundo, carregando milhares de passageiros. Comparativamente as estórias sobre serpentes marinhas encontravam paralelo nos avistamentos de discos voadores no século XX. Existem inúmeros casos de Serpentes Marinhas que teriam sido avistadas, sendo que alguns casos ganharam enorme repercussão mundo afora.



Um incidente especialmente famoso ocorreu em 1848 quando oficiais e marinheiros do HMS Daedalus que viajavam no Sul do Atlântico avistaram uma criatura medindo pelo menos 18 metros de comprimento, com corpo em forma de serpente e dotada de uma espécie de crina feita de algas semelhante a de cavalos em terra. A descrição foi feita pelo Capitão Peter McQuehe um respeitado comandante britânico que muitos atestaram, jamais inventaria tal estória se de fato não tivesse ocorrido. A descrição causou alvoroço nos jornais de Londres, e Sir Richard Owen, famoso biólogo inglês proclamou que a criatura seria uma enguia gigante. Hoje, muitos consideram a decsriçao como um possível avistamento de uma lula gigante, se é que de fato ele aconteceu.

Outra serpente marinha famosa teria sido avistada na costa da Irlanda em 1850, próxima a cidade portuária de Kilkee. O animal supostamente foi visto repetidas vezes ao longo das décadas seguintes, sendo que, o mais extraordinário avistamento ocorreu em 1871, quando "um imenso e aterrorizante monstro marinho" investiu contra uma embarcação que passou a pouco menos de 20 metros da criatura. Pessoas no porto de Kilkee também teriam testemunhado a horrenda aparição e temido pela vida das pessoas no barco. O incidente, fartamente documentado por jornais em toda a Europa teria servido de inspiração para Jules Verne escrever o capítulo de Vinte mil Leguas Submarinas em que o Náutilos, o submarino do intrépido Capitão Nemo, abalroa uma série de embarcações em sua Guerra declarada contra a superfície. 

Finalmente, notícias a respeito de uma notável serpente marinha se tornaram frequentes na costa do estado da Paraíba, no ano de 1905. A tripulação do Valhalla, um barco de pesquisas que levava naturalistas para uma viagem de volta ao mundo, avistou uma imensa criatura com corpo alongado, equipado por uma barbatana dorsal e cabeça em um formato que sugeria poder se tratar de um grande mamífero marinho. A notícia causou sensação nos jornais locais e nos meses seguintes, muitas tripulações anunciaram ter encontrado o mesmo animal enquanto navegavam pela mesma área. Em 1907, o naturalista Meade-Waldo, atraído pelas estórias afirmou ter visto o mesmo animal durante uma expedição em que ele categorizou a criatura como sendo uma espécie de Enguia Gigante ou tartaruga colossal.


Os avistamentos de Serpentes Marinhas diminuíram de maneira sensível na segunda metade do século XX até se tornarem esparsos e cada vez mais raros das décadas seguintes. Isso, no entanto, não significa que eles desapareceram completamente. Relatos surgem de tempos em tempos incendiando a imaginação daqueles que viajam pelos mares e se perguntam o que pode existir nas profundezas.

*     *     *

Enquanto pesquisava sobre Enguias Gigantes e Serpentes Marinhas, foi impossível não pensar em uma pequena e pouco conhecida estória escrita por H.P. Lovecraft em parceria com Sonia Greene - sua esposa. O título desse pequeno conto é "The Horror of Martins Beach".


Considerado como um de seus contos menos atraentes, a ideia central para "Martins Beach" foi concebida não por Lovecraft mas pela própria Sonia que segundo suas memórias "sentia que escrevendo um conto em parceria com o marido, poderia compartilhar com ele de algo em comum, algo que fosse interessante para ambos". Me parece sinceramente que essa colaboração tinha como propósito aproximar os dois, já que, na época, o matrimônio estava abalado, uma vez que o casal discordava em muitas coisas e não tinha muito em comum...

Embora o conto seja bem simples, eu sempre achei a concepção da criatura muito atraente: um legítimo "monstro marinho" como os que povoavam os jornais e artigos sensacionalistas da época. Lovecraft devia detestar todas essas notícias, Sonia, no entanto, parecia ser atraída por elas. É possível que os dois tenham debatido o teor da estória, é possível que Lovecraft tenha cedido e aberto algumas concessões para auxiliar a esposa no trabalho de escrita. Podemos apenas supor como teria sido essa parceria. Uma vez que ela é praticamente a única colaboração estabelecida entre os dois, podemos supor que, ou o trabalho não foi muito agradável ou Sonia concluiu que uma tentativa era o suficiente para atestar que escrever contos de literatura fantástica não era a sua praia.

Seja como for, "O Horror de Martins Beach" tem lá os seus méritos. Para quem não conhece a trama, aqui vaia  sinopse extraída da wikipedia

"Marinheiros matam uma criatura marinha gigantesca, com mais de 50 pés, em uma verdadeira batalha em alto mar. O monstro, um ser desconhecido pela ciência, possui estranhas irregularidades anatômicas como um único e enorme olho, braços rudimentares e curiosas nadadeiras semelhantes a pés. Após uma inspeção realizada por biólogos marinhos, descobre-se que se trata de um mero filhote. O capitão que matou o monstro revindica sua carcaça e manda empalhá-la para que assim possa expor os restos nas pequenas cidades portuárias da Nova Inglaterra. Meses depois, um grupo de banhistas é atacado nos arredores de Martins Beach, próximo do local onde a criatura foi abatida. Em seguida, um barco de pesca não retorna após sair para o mar e o Capitão se voluntaria para liderar uma equipe de resgate. Os bons samaritanos acabam sendo vítimas de uma criatura gigantesca que os atrai com um canto hipnótico para o alto mar. A criatura, supostamente a mãe vingativa, veio em busca daqueles que mataram seu filhote".

Enquanto lia sobre a larva da Super Enguia encontrada em 1934, foi impossível afastar a suspeita que Lovecraft e Sonia tivessem se inspirado nessa notícia para escrever seu conto. Infelizmente, "The Horror at Martins Beach" é anterior, datado de 1922. Ao que parece, a ideia de criar um monstro marinho que era um mero filhote (ou uma larva) de algo muito maior e terrível foi apenas uma coincidência em relação a descoberta da super enguia mais de uma década depois.

Para quem não leu esse conto, domina o idioma inglês e tem curiosidade de conhecer essa pequena estória, aqui está um audio book com a narração: