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sábado, 25 de agosto de 2018

Vila das Brujas - A única cidade maldita da Espanha e sua incrível história


Aninhada no sopé da Serra de Moncayo, na província de Saragoça na Espanha, a pequena aldeia de Trasmoz parece não ter nada de diferente das demais. À primeira vista, é apenas mais uma inocente cidadezinha do interior. 

Mas Trasmoz tem uma longa e tumultuada história. Suas origens remontam ao século XII quando ela foi fundada por um importante Senhor de Terras e Cavaleiro. No passado, ela também presenciou  a conquista de Jaime I, Rei de Aragão, bem como uma quase Guerra Civil com a vizinha Abadia de Veruela. Ela também ficou conhecida como a residência temporária de Manuel Jalón Coróminas, o folclórico inventor espanhol do esfregão e do balde de limpeza. 

Ao longo dos anos, a população decaiu de aproximadamente 10.000 habitantes em seu apogeu para apenas 62 moradores permanentes nos dias atuais. Para todos os efeitos, Trasmoz parece uma pequena cidade fantasma. Há muitas habitações vazias e outras tantas abandonadas, as ruas vivem desertas e o lugar mais movimentado ao longo do ano é uma Taverna com o sugestivo nome de "Casa del Brujo" que segundo os habitantes foi aberta no século XV.

Mas a despeito da aparência decadente e da quietude impassível, este lugar é notável por ter um passado sinistro como um lugar de Bruxaria, Rituais Pagãos e Magia Negra.

O epicentro de inúmeros rumores a respeito de feitiçaria na região, os boatos podem ser rastreados até a construção do Castelo de Trasmoz no século XIII. A obra estranha e imponente da fortaleza possui uma estrutura única em formato hexagonal que muitos consideram um mal presságio já que os vértices dos muros parecem formar um símbolo pagão, o hexagrama. Soma-se a isso o fato do Castelo ter sido, supostamente construído sobre um cemitério em que pagãos eram sepultados em tempos idos. Finalmente, existem relatos de que o lugar, antes da chegada dos cristãos, era o palco de encontros entre feiticeiras que realizavam ali seus sabás. Não por acaso, a região da construção era chamada de Vale Negro pelos habitantes originais.


Desde o início, o Castelo atraiu a desconfiança dos aldeões. Uma das lendas é que o nobre incumbido da construção teria feito um acordo co um feiticeiro mouro chamado Mutamin que operou um milagre, erguendo a construção em apenas uma noite por intermédio de sua magia. Como pagamento pela empreitada, ele teria ficado com o filho mais velho do nobre que foi levado como seu escravo.

Uma vez pronto o Castelo, multiplicavam-se as histórias a respeito de ruídos estranhos na calada da noite, o clangor de metal e luzes iluminando o céu noturno. As masmorras formavam um complexo de túneis escavados na rocha que se estendiam por baixo do vilarejo, Elas eram a fonte da maioria dos rumores sussurrados pelos preocupados residentes. Diziam que o lugar era usado frequentemente pelo Castelão, o responsável pela fortaleza, para punir os aldeões que o desagradavam. Dizem que o homem era muitíssimo perverso e tinha prazer em torturar aqueles que o desafiavam. Os gritos das vítimas ecoavam pelas câmaras e todos podiam ouvir quando o homem estava "trabalhando" nas masmorras subterrâneas.

O Castelão era também um inimigo das bruxas que viviam nos arredores da Vila de Trasmoz. Ele ordenara que fossem capturadas mais de uma vez e levadas à sua presença para que ele as interrogasse. Quase sempre elas conseguiam escapar, supostamente alertadas pelos seus familiares que contavam quando os soldados se aproximavam de suas cabanas isoladas. Mas em uma ocasião, os homens conseguiu capturar uma velha bruxa que foi torturada na masmorra até a morte. A mulher teria espiado, esmagada sob uma madeira coberta de pesadas lajotas de ardósia.   

Esse ato, contudo, não passaria impune. O Castelão acabou enlouquecendo graças a um malefício dirigido contra ele pelo Cabal. As feiticeiras desejavam vingança pela afronta cometida contra uma delas. Em uma noite de lua cheia, o homem, perturbado das ideias, subiu até o alto da Torre Mor e saltou lá de cima, vindo a se esborrachar no pátio de pedra. Mas esse não foi o fim da história...

Após sua morte, o corpo foi enterrado em um cemitério próximo sem as bençãos dos sacerdotes uma vez que suicídio era pecado mortal. Para piorar, o corpo do homem desapareceu misteriosamente, ou assim diz a lenda. Alguns suspeitavam que as bruxas teriam exumado o cadáver para usá-lo em seus rituais negros. Na Idade Média, quando superstições ganhavam ares de certeza, diziam que o cruel Castelão havia sido trazido de volta como um horrendo morto vivo, compelido a vagar sem destino pelas catacumbas abaixo do castelo, incapaz de encontrar a saída. Gemia quando chegava a noite: faminto e solitário. Seu lamento ecoava pelos túneis e câmaras. E assim como os murmúrios de suas vítimas, também eram ouvidos os seus gemidos nos salões superiores e ruas do vilarejo.


Não é possível precisar se essa e outras histórias tem algum fundo de verdade, mas há rumores de que muitas dessas lendas horripilantes teriam sido intencionalmente espalhadas pelos próprios habitantes do Castelo.

Na época, o Castelo de Trasmoz seria o covil de um grupo de falsificadores que usavam as masmorras abaixo da construção para cunhar moedas falsas. As montanhas da região tinham minas de prata e segundo consta, o metal era usado para fazer moedas ilegalmente. Além disso, a prata era misturada a outras ligas para render em quantidade. 

Dizem que para manter os aldeões e as autoridades afastadas da operação, os falsários criavam todo tipo de história bizarra. O ruído de metal contra metal que era ouvido de madrugada seria o som dos martelos sendo batidos contra as bigornas. As luzes misteriosas eram meramente o reflexo dos fornos e das labaredas nas nuvens. O golpe teria funcionado, mantendo todos os curiosos afastados, mas isso criou uma reputação temível para a Vila de Tresmoz; ele se converteu num esconderijo para bruxas, fantasmas e adoradores do Demônio.

Infelizmente para os habitantes de Tresmoz, o rumor espalhado pelos falsários funcionou bem demais. Muito tempo depois da quadrilha ter encerrado suas atividades criminosas, as histórias continuaram a ser contadas. Todos os vilarejos vizinhos conheciam a fama de Tresmoz como verdadeira colmeia de feiticeiros, bruxas e todo tipo de maldição blasfema. 

Não ajudou em nada que um pároco local tenha sofrido um trágico acidente quando estava seguindo para o Vilarejo para oficializar um casamento por volta de 1360. Quando a notícia da morte inesperada do religioso chegou aos vilarejos vizinhos, todos tinham CERTEZA absoluta de que ele teria sido vítima das Bruxas de Trasmoz, furiosas com a visita de um Homem de Deus. 


A situação chegou a tal ponto que o Monastério vizinho de Veruela oficialmente pediu à Igreja que realizasse a excomunhão de todos os que viviam em Tresmoz. Historiadores afirmam que essa manobra visava simplesmente forçar o vilarejo a pagar mais impostos para os cofres públicos já que comunidades não-cristãs eram obrigadas a contribuir com uma taxa especial. Seja como for, a Igreja não chegou a acatar o pedido dos monges, mas ainda assim, a situação repercutiu muito mal. 

O boato de que os habitantes poderiam ser excomungados (algo extremamente grave para os padrões medievais), fez com que muitos simplesmente abandonassem a cidade. Para piorar, aqueles que ficaram para trás eram em sua maioria muçulmanos ou judeus, o que ajudou a reforçar o rumor de que a cidade era um antro de pagãos adoradores de Satã. Não obstante, aqueles que ficaram deram início a um período próspero em que o comércio deslanchou e trouxe riqueza para a cidade.

O atrito entre Trasmoz e a Abadia de Veruela continuaria por muitos anos, eventualmente quase levando a uma Guerra Civil. Isso ocorreu quando os monges represaram um rio que abastecia o vilarejo e exigiram que os habitantes pagassem uma taxa para retirar água diretamente com eles. Embora o Rei de Espanha, Fernando II, tenha dado ganho de causa a Trasmoz que levou o Caso até a Corte Real, a Igreja tomou a decisão como uma afronta. 

Acreditando que o Rei estava errado por ter dado razão a uma cidade infestada por bruxos e a beira de ser excomungada, ao invés de uma comunidade de monges, a Igreja Católica exigiu uma nova decisão. O caso ganhou tanta repercussão que chegou a mais alta autoridade católica, o Papa Julio II que pediu que a decisão fosse revista. Julio II, não por acaso é lembrado como o Papa Mercurial por seu gênio e decisões intempestivas. 


Quando nenhuma atitude foi tomada, o "Santo" Padre sinalizou com a poderosa e raramente usada Prerrogativa de Invocar o Salmo 108 do Livro dos Salmos, que segundo a tradição cristã era uma potente maldição guardada apenas para ser lançada sobre os piores hereges e diante dos mais graves crimes. A maldição foi invocada não apenas contra algumas pessoas, mas sobre todos os moradores e habitantes do Vilarejo de Trasmoz.

À saber, o Salmo 108, pede pela intercessão divina para destruir os inimigos de Deus e da Cristandade. Ele diz:
Meu coração está firme, ó Deus!
Cantarei e louvarei, ó Glória minha!

Acordem, harpa e lira!
Despertarei a alvorada.

Eu te darei graças, ó Senhor, entre os povos;
cantarei louvores entre as nações,

porque o teu amor leal
se eleva muito acima dos céus;
a tua fidelidade alcança as nuvens!

Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus;
estenda-se a tua glória sobre toda a terra!

Salva-nos com a tua mão direita
e responde-nos,
para que sejam libertos aqueles a quem amas.

Do seu santuário Deus falou:
"No meu triunfo dividirei Siquém
e repartirei o vale de Sucote.

Gileade me pertence e Manassés também;
Efraim é o meu capacete, Judá é o meu cetro.

Moabe é a pia em que me lavo,
em Edom atiro a minha sandália,
sobre a Filístia dou meu brado de vitória!"

Quem me levará à cidade fortificada?
Quem me guiará a Edom?

Não foste tu, ó Deus, que nos rejeitaste
e deixaste de sair com os nossos exércitos?

Dá-nos ajuda contra os adversários,
pois inútil é o socorro do homem.

Com Deus conquistaremos a vitória,
e ele pisará os nossos adversários.


Esse foi o começo do fim de Trasmoz, que havia se tornado uma vila próspera e movimentada. A força da decisão do Papa causou um acentuado declínio na região inteira. Comerciantes deixaram de negociar com os mercadores locais, os produtos estragavam sem encontrar interessados em adquiri-los e mesmo viajantes preferiam fazer um grande desvio ao invés de passar pelo ligar maldito. Sofrendo por uma misteriosa epidemia de doença a cidade ainda teve de lidar com um incêndio que fez o Castelo de Trasmoz arder em 1520.

Temendo que o lugar realmente estivesse amaldiçoado os habitantes começaram a deixar a área em massa. As ruas ficaram vazias, os negócios fecharam suas portas e casas foram simplesmente abandonadas. Isso fez com que Trasmoz se tornasse a única cidade na Espanha a ser excomungada pela Igreja de Roma. 

Nos séculos seguintes, Trasmoz simplesmente foi minguando até se tornar um ajuntamento de pequenas construções esparsar aninhadas próximas das muralhas do Castelo. Apenas no século XIX, quando a influência da Igreja como um todo falseava, que a Vila voltou a receber alguns habianes permanentes. A reputação do lugar, entretanto, continuava a afastar qualquer pessoa interessada em se estabelecer nos arredores. As histórias sobre Bruxas continuavam sendo disseminadas como um rumor preocupante em uma nação majoritariamente cristã.

Mas as coisas mudam...

O século XXI trouxe uma espécie de redenção para a Vila de Trasmoz. Se até então sua fama mantinha as pessoas longe, justo seu passado e reputação como lugar maldito começaram a atrair turistas interessados em conhecer a história local e conhecer esse "antro de feitiçaria". Hoje, Trasmoz faz pouco para atenuar as lendas, pelo contrário, seus habitantes se esforçam para parecer o mais sinistros possível e isso tem feito muito bem para a economia da pequena comunidade.


Anualmente a Câmara de Comércio promove a Feria de Brujeria, um festival que atrai um público cada vez maior de curiosos. Durante o festival, que ocorre em Agosto, as pensões e pousadas locais ficam lotadas, apresentações de rua contam a história bizarra do vilarejo, um comércio de amuletos, ervas e objetos ligados a bruxaria se abre para consumidores ávidos por um souvenir da cidade mais amaldiçoada da Espanha. Até mesmo o Castelo de Trasmoz, que foi reconstruído abre suas portas para visitantes e oferece a chance de conhecer as temidas masmorras. Há planos para a construção de um museu no local.

Trasmoz também sedia há cinco anos uma Convenção Anual de "Bruxas e Feiticeiras" que realiza rituais e homenageia a memória daqueles que foram perseguidos e mortos pela Igreja Católica durante o período medieval. O ponto alto dessa celebração é a escolha da Bruja del Año.

Com tudo isso acontecendo recentemente, não é de se estranhar que a Prefeitura de Trasmoz tenha declinado de aceitar um recente pedido de desculpas da Santa Sé que ofereceu um Perdão Oficial e a chance de remover a Excomunhão que ainda pesava sobre o vilarejo. O prefeito local causou sensação ao dizer que "Com todo o respeito, o Papa pode enfiar o Perdão onde bem entender".

Ao que tudo indica, o espírito desafiador das Bruxas de Tresmoz continua ardente e cheio de rebeldia.

(tenham elas existido, ou não)

sábado, 18 de agosto de 2018

TOP 5: Os Nomes mais impronunciáveis dos Mythos


Em geral as criaturas do Mythos de Cthulhu atendem por nomes que mais parecem uma miscelânea de letras misturadas.

Esses nomes incrivelmente estranhos e humanamente impronunciáveis foram criados propositalmente dessa forma. A idéia é que são nomes surgidos entre entidades alienígenas, portanto, nada mais natural que seres humanos tenham dificuldade em proncunciá-los corretamente.

Uma das piadas mais legais da sátira "Calls for Cthulhu" é quando alguém pergunta a ele qual a pronúncia correta do seu nome.

Cthulhu pára, pensa por um instante e responde: "Filho, sua boca tem pelo menos 1,80 de largura ou você possui 12 linguas bífidas?"

O sujeito é claro, responde "não".

"Então desista! Vocês humanos não são anatomicamente capazes de pronunciar meu nome corretamente".

Mas Cthulhu está longe de ser o nome mais complicado do Universo dos Mythos. Eis aqui uma coleção de cinco nomes de criaturas retiradas da Cthulhu Mythos Encyclopedia. Em ordem de complexidade (ou nó na língua) aqui vai:

Quinto Lugar:


A pronúncia deve ser algo como "KZA-zu-kluf".


Trata-se de uma cria andrógina de Azathoth que por sua vez é avô de Tsathoggua. Ele e seus filhos vagaram por Yuggoth, por milênios até que uma mudança no eixo planetário obrigou (lá vamos nós de novo) CXAXUKLUTH a canibalizar suas próprias crias. 

Posteriormente Ele abandnou Yuggoth permitindo assim o desenvolvimento da civilização dos Mi-Go. Essa criatura é temido e reverenciado pelos Fungos de Yuggoth que devem saber como pronunciar seu nome com propriedade.

Quarto Lugar:

Esse é difícil... um nome com não apenas um, mas dois apóstrofes e um hífem, nãopode ser boa coisa. Mas vou tentar uma pronunciação: "PTA-ti-ia-li"

A quem interessar possa, esse nome se refere a uma fêmea Deep One com trezentos mil anos de idade. Ela vivia na cidade submersa de Y'ha-nthlei na costa da Nova Inglaterra e foi consorte de Dagon, com quem gerou toda uma geração de Deep-Ones.

Onde andava Hydra (a esposa de Dagon) nessa época eu não sei...

Terceiro Lugar:

Acho que seria algo como "sis-til-ZEN-gui".

Conhecido como o senhor dos insetos e das pragas, esse Grande Antigo habita o planeta Urano onde permanece aprisionado. Felizmente trata-se de uma entidade obscura... talvez tenha a ver com o fato de que ninguém sabe pronunciar seu nome.

Segundo Lugar:

Vou chutar que deve ser algo como "Ic-nag-ni-ss"



Não, não foi erro de digitação. O nome é composto de três "S" seguidos. São 12 letras, sendo apenas duas vogais.

Essa criatura pertence a outro universo e surgiu em nossa realidade através de um buraco negro nas proximidades da estrela de Zoth. Pouco se sabe a respeito além do fato dele estar de alguma forma ligado a família de (adivinha quem?) Tsathoggua.

Primeiro Lugar:

Esse é o infeliz que vai para o trono! Eu só posso cogitar que o nome seja algo como "Hi-ziu-cuo-igman-za".

Se é isso mesmo não me pergunte,. Possivelmente nem o responsável pela criação desse nome sabe a pronúncia correta.

Esse Grande Antigo também habitou Yuggoth por algum tempo, até partir rumo ao planeta Yaksh onde se converteu na entidade reverenciada pelos nativos daquele mundo. Ele estaria dormindo em uma ilha sagrada num dos mares desse planeta.

Depois disso, Cthulhu parece um nome fácil, não?

sábado, 28 de julho de 2018

Algo Bizarro na Etiópia - Os Mortos (ainda) não estão voltando


Coisas esquisitas acontecem diariamente...

Basta dar uma olhada nas notícias e acabamos encontrando pequenas cenas dantescas, notícias perturbadoras e incidentes bizarros que terminam por corroborar aquela noção de que o mundo real é bem mais estranho do que a mais fantástica ficção. 

Tomemos por exemplo o pequeno drama que ocorreu na Etiópia semana passada e que foi noticiado em alguns veículos de informação sem receber muito destaque. É o tipo de coisa que muitas vezes passa desapercebido, mas que quando pensamos a respeito, acaba se convertendo em um daqueles instantes em que uma pequena janela de estranheza se abre e podemos contemplar o quão estranho é esse mundo.

A notícia em questão diz respeito a um alegado Necromante que foi preso depois de tentar reviver um cadáver usando seus "poderes mágicos" e uma alegada "influência sobre a vida e morte".

A bizarra história teve lugar na pequena cidade de Galilee na região de Oromia na Etiópia Ocidental. De acordo com um correspondente da BBC e um médico servindo ao Programa Médicos sem Fronteiras que testemunhou tudo, um alegado aspirante a Profeta chamado Getayawkal Ayele, popular na região foi o pivô dos acontecimentos. Ayele ganhou fama nos últimos anos realizando milagres e promovendo misteriosas curas através do uso de suas habilidades mágicas. O homem teria curado várias pessoas apenas pousando sobre elas suas mãos que segundo rumores produziam um calor e brilho capazes de aliviar aflições, mitigar dores e fazer doenças mortais reverterem e por vezes, desaparecerem por completo. Entre os milagres promovidos por Ayele estaria a cura total de homens e mulheres sofrendo de AIDS e até mesmo câncer terminal.

A primeira vista, Ayele é apenas mais um curandeiro itinerante, como muitos em países africanos, que perambulam entre as cidades e vilas, oferecendo seus serviços. Muitos povos na África ainda se apegam às crenças antigas de que doenças e males são causados por espíritos malignos e forças negativas que se instalam no corpo das pessoas. Esses curandeiros tribais são portanto uma mistura de médicos e exorcistas, que se especializam em afastar essas forças e assim salvar a vida dos que são afligidos por eles.

Passando pela região de Oronia, Ayele ficou sabendo que na pequena Galilee uma família importante havia perdido seu patriarca algumas semanas atrás, Belay Biftu, que era muito admirado por todos e que havia sido governador daquela província.


O Curandeiro seguiu para Galilee depois de supostamente experimentar uma visão na qual compreendeu que a morte de Biftu havia ocorrido antes do tempo e que ele ainda tinha uma importante missão a ser realizada em vida. A visão era bastante clara e algo precisava ser feito para que ela fosse cumprida. Ayele seria o agente de um novo e incrível milagre: A Ressurreição de Belay Biftu.

A caminho de Galilee, muitas pessoas ouviram falar a respeito do que o Curandeiro tentaria realizar e imediatamente se tornaram Seguidores de Ayele. Acreditavam que testemunhariam um incrível milagre largaram tudo: família, trabalho, obrigações para segui-lo.

A história ganhou força, sendo noticiada em jornais, rádio e televisão, logo uma multidão seguia Getayawkal Ayele em uma verdadeira peregrinação até o vilarejo de Galilee.

Ao chegar lá, a família de Belay Biftu pediu que a polícia intercedesse e dissipasse a multidão que acampou em frente a casa onde viviam. Queriam permissão para exumar o cadáver de Biftu, enterrado em um túmulo no cemitério local. A família, é claro, não estava tão confiante quanto a multidão de que o milagre era possível e a princípio não deu autorização para que os restos de seu parente fossem perturbados.

Mas de nada adiantou!



A multidão estava convicta de que aquilo era algo que precisava ser feito e não havia como dialogar com a massa de pessoas. O grupo seguiu para o cemitério de Galilee onde começou a escavar a sepultura usando pás, ferramentas e as próprias mãos. O caixão contendo os restos do morto ilustre foi retirado da cova e aberto para que todos pudessem constatar que ele realmente estava morto. Três semanas sob a terra haviam deixado o cadáver em estado lastimável. O cheiro de decomposição era terrível e parte de sua face havia revertido a uma caveira. Mesmo assim o Curandeiro parecia confiante. Aplaudido, encorajado e incentivado pela multidão ele se aproximou do cadáver putrefato e pousou sobre ele as mãos como sempre fazia. 

"Belay Biftu, eu estou aqui para trazê-lo de volta à vida! Retorne!" Disse, primeiro em um tom baixo como se estivesse sussurrando para o defunto. 

As pessoas se acotovelavam e observavam curiosas ao redor. Muitos choravam e se postavam de joelhos. 

"Belay Biftu! Volte a viver!" ele insistiu novamente.

As pessoas continuavam convictas em sua crença, afinal, o Profeta havia prometido ser capaz de operar o definitivo milagre - o Retorno dos Mortos! Mas logo ficou claro que Biftu não era Lázaro, e menos ainda Ayele, era Jesus.


O curandeiro então saltou sobre o cadáver, se colocou sobre ele gritando em sua face de caveira. Abriu sua boca e soprou no interior dela, ergueu suas mãos para tentar reanimá-lo, enfurecido levantou os braços para o céu como se estivesse conjurando as forças do Céu e da Terra... mas nada aconteceu!

Um vídeo do incidente foi feito, nele Ayele aparece deitado sobre o cadáver exumado enquanto ordena a ele que "Acorde e viva novamente" várias e várias vezes. Na filmagem, é possível ver parte da multidão com pás e picaretas nas mãos aguardando nervosamente. De acordo com testemunhas que estiveram presentes durante o ritual muitas pessoas desmaiaram e começaram a se sentir mal. Outras, no entanto, simplesmente começaram a ficar furiosas com o espetáculo, em especial os parentes do falecido. 

Quando ficou claro que o milagre não aconteceria, a população se voltou contra o curandeiro e nesse momento a polícia teve de interceder para que ele não fosse atacado pela multidão. Ayele escapou por pouco, se não fosse a polícia que o levou sob custódia, ele teria sido linchado.

Embora a história possa parecer absurda e bizarra, ela é um bom exemplo de até onde indivíduos que se auto proclamam Profetas ou líderes religiosos estão dispostos a ir para atrair seguidores. Ela também mostra que as pessoas estão dispostas a tudo para acreditar que forças superiores podem derrotar a morte de uma vez por todas. Ao longo da história, diferentes culturas e povos foram fascinados pela ideia de reviver os mortos seja por intermédio de forças sobrenaturais, rituais de magia, necromancia ou por intermédio da ciência e tecnologia. Enquanto cientistas acreditam que em breve seremos capazes de digitalizar a consciência humana e isso permitirá transplantar a mente para outros corpos mais resistentes (e imortais), será que isso realmente poderá ser chamado de vida? Verdadeira imortalidade, a habilidade de enganar a morte enquanto ainda estamos habitando o corpo, permanece como um truque que ainda não conseguimos realizar.

Será que ainda conseguiremos superar a maior e mais antiga das barreiras da natureza? Aquela que nos dita que tudo que nasce, um dia morre? Se isso for possível, provavelmente não será alcançado simplesmente gritando na face de um cadáver putrefato.

Esse é um mundo estranho, meus amigos, mas cadáveres (ainda) não despertaram.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

O Suor Maligno - A estranha epidemia que devastou a Inglaterra


A "Doença do Suor Maligno" ou "Mal do Suor Inglês" tem sido descrita como um dos buracos negros na história da epidemiologia. Ela surgiu pela primeira vez no início do reinado de Henrique VII e fez sua aparição final em 1578. Em duas ocasiões ela devastou a Inglaterra como um todo, mas estranhamente jamais avançou além da fronteira com a Escócia. Ela emergiu tanto em Dublin quanto em Calais mas curiosamente permaneceu como uma doença que vitimava majoritariamente apenas os ingleses. Similarmente, não existe nenhum registro de estrangeiros na Inglaterra que tenham sido afetados por ela. Seu repentino contágio e a incrivelmente rápida propagação aterrorizou a Inglaterra do século XVI.

Em 22 de agosto de 1485, a Batalha de Bosworth Field trouxe um fim para a sangrenta Guerra das Rosas e colocou Henrique VII no trono da Inglaterra. Dentro de semanas, uma nova e estranha doença apareceria entre os combatentes que sobreviveram à Batalha e que haviam retornado a Londres na companhia do novo monarca. 

Francis Bacon a descreveu da seguinte maneira:


"Nessa época do outono, em meados de setembro, começou a reinar na cidade, e em outras partes do Reino, uma nova doença: que pela sua maneira atípica de se manifestar passou a ser chamada de Doença do Suor Maligno. A doença tinha um contágio acelerado, ardia no corpo das pessoas afligidas, e passava para os saudáveis. Em apenas um dia a doença se instalava e contaminava, fazendo um homem que estava são pela manhã, manifestar seus efeitos danosos à noite. Se não bastasse a facilidade do contágio, havia algo de maligno no reinado dessa doença. Ela surgiu duas semanas antes da coroação real, no final de outubro, e rapidamente tornou-se uma epidemia mortal. Muitos acreditavam se tratar de um retorno da Peste Negra, mas ela não escurecia as veias e os humores, não fazia surgir sob a pele furúnculos, nem manchas púrpuras ou outros sintomas daquela febril pestilência. Médicos falavam de vapores que sequestravam os espíritos vitais: agitavam a vítima e causavam um suador não-natural. Não haviam remédios que diminuíssem sua incidência e uma vez instalado o contágio, a morte era o destino mais provável. Inúmeras pessoas morriam de maneira repentina, e não havia como cavar sepulturas a tempo para as vítimas que se empilhavam nas ruas".

Essa estranha doença fez mais cinco aparições na Inglaterra em 1506, 1517, 1528, 1551 e 1578. 

Ela ficou restrita a Inglaterra, exceto em 1528-1529, quando atingiu também o continente europeu, aparecendo em Hamburgo, atravessando a Escandinávia, o leste da Lituânia, Polônia e Rússia. A Holanda e Dinamarca também foram afetadas, mas França, Espanha e Itália passaram intocadas. Ela jamais foi além das fronteiras ao norte e a Escócia foi poupada em todas as ocasiões.


A Doença do Suor Maligno atingiu a Irlanda em 1528. Ela atingiu as maiores cidade irlandesas com grande violência matando em uma semana o Chanceler, o Arcebispo, dois lordes, quatro ministros e um número indeterminado de cidadãos. Uma vez que ela surgiu e se espalhou a partir da Inglaterra tendo entre suas vítimas quase que exclusivamente ingleses, estudiosos a chamaram de Sudor Anglicus (o Suor da Anglia).

Pesquisadores no século XVI debatiam sobre como ela teria surgido e se ela poderia ser, como muitos suspeitavam, uma maldição impingida contra o povo inglês. Religiosos acreditavam que a doença podia ser uma Provação Divina, um desafio proposto pelo Todo Poderoso para testar, tal qual Jó, a fé e devoção dos ingleses diante das adversidades.

Em Londres, ela causou um pânico sem precedentes, maior até que a Peste Negra.

Os primeiros doentes sentiam arrepios, dores no corpo e tremores que não eram condizentes com o frio. Instalava-se então uma febre alta, fraqueza, indisposição e incapacidade de se manter desperto. Contudo, o sintoma mais estranho era sem dúvida a transpiração excessiva que em muitos casos assustava as pessoas. Um suor acompanhado por cheiro fétido, recobria a pele e escorria sem parar. "Os doentes se desfaziam em um suor amarelado e nauseante, como uma bile que brotava espontâneamente nos poros" descreveu um médico aterrorizado com o mal. Após suar em profusão, surgiam feridas avermelhadas na pele que coçavam e depois descascavam. Em alguns casos se transformavam em bolhas dolorosas que coçavam e causavam enorme desconforto.

Aqueles contaminados podiam morrer em poucas horas, e estes sofriam menos. A maioria durava entre 14 e 24 horas, sendo que os estágios finais eram particularmente dolorosos já que a pele começava a se desfazer, "liquefazer" segundo alguns, "deixando carne e músculos expostos". Aqueles que sobreviviam ao estágio do suador sem desenvolver as bolhas e feridas geralmente sobreviviam. Alguns sofriam de um abundante fluxo de urina ao invés de suor e perdiam tanto líquido que morriam desidratados.


A desidratação ocasionava uma sede insuportável, intensa dor de cabeça, incoerência, convulsões e coma. Para piorar, os médicos ingleses acreditavam que ingerir água nesse estado poderia ser fatal e se negavam a dar aos pacientes o que beber. Como resultado, estes sofriam horrivelmente e morriam em decorrência dos tratamentos absurdos.

Diferente de muitas epidemias medievais, o Suor Maligno parecia se espalhar mais facilmente nas camadas elevadas e entre os mais abastados da sociedade. Para alguns isso provava que a doença tinha origem sobrenatural, pois os ricos eram testados com maior convicção. Os pobres e miseráveis de Londres apelidaram a doença com o nome "Mata Ricos". Em sua primeira aparição ela matou prefeitos, comerciantes, mercadores e lordes. É claro, morreram também pessoas mais pobres, mas era perceptível que o Suor Maligno tinha predileção pelos mais ricos. 

Em seu tratado sobre a doença, Johannes Caius escreveu:

"Aqueles que sofrem com esses suores e correm risco de morte em geral são homens com boa situação que se alimentam bem e bebem melhor do que os mais pobres. As razões para esse fenômeno são desconhecidas, já que, em geral, os mais bem alimentados tem mais propensão a uma vida saudável e longa".

Sobreviver a doença em uma epidemia não se traduzia em imunidade. O Cardial Wolsey sobreviveu a três surtos, sempre sendo contaminado e escapando mesmo depois de ser desenganado. Outra pessoa ilustre que sofreu com a doença foi Ana Bolena que se tornaria esposa de Henrique VIII.


Em contraste com outras epidemias como a de cólera e varíola, que não distinguiam a população, a Doença do Suor agia de forma completamente atípica. Isso apenas servia para aumentar o terror e causar pânico. Havia aqueles que acreditavam em curas alternativas que por vezes apenas levavam à morte mais rápida e dolorosa. Alguns acreditavam que uma cura poderia ser alcançada submergindo os doentes em água, óleo, cerveja ou outros líquidos que serviriam para limpar o suor maligno. Muitas pessoas eram submersas em banheiras, valas ou lagoas e debilitadas acabavam se afogando. Outra cura popular envolvia cobrir os doentes com gordura de porco e raspar a pele com uma espátula, tampando os poros e diminuindo a transpiração. Ervas como a cânfora também seriam um potente aliado no combate a doença, a queima dessas plantas, em um ambiente fechado, defumando o doente por completo servia para limpar o organismo da doença.

Mas haviam métodos ainda mais estranhos. Diziam que jumentos e burros poderiam extrair a doença do corpo, desde que os animais lambessem as feridas e os suores. Alguns cobriam as feridas com sal grosso - o que provocava uma agonia quase insuportável nos doentes que tinham de ser amarrados para suportar o tratamento. Purgantes e salmouras também eram prescritas por curandeiros. Para ingerir os chamados cordiais, enfiavam um tubo garganta abaixo do doente e faziam descer por ele soluções salinas, óleo de peixe, leite azedo, serragem diluída e quaisquer substâncias que acreditavam ser benéficas. Um dos tratamentos mais bizarros de que se tem notícia envolvia desfiar os restos puídos de um manto que pertencera a um santo, fervê-lo em um caldeirão, produzindo uma espécie de sopa imunda de aspecto repugnante que era bebida pelo doente. 

Nem é preciso dizer que esses métodos se mostravam ineficazes, dolorosos e muitas vezes letais.

Embora a doença fosse devastadora em populações locais, ela não tinha grande impacto demográfico no país. O pânico de 1485 resultou em um êxodo das populações das cidades, como ocorreu em Oxford que foi literalmente abandonada pelos seus habitantes. A primeira epidemia teve cinco semanas de duração e se encerrou a tempo de Henrique VII ser coroado na Abadia de Westminster em 31 d e outubro de 1485. Para as mentes supersticiosas do período, o surgimento súbito da doença e o início de um novo reinado pareciam estar em sintonia e representavam um péssimo presságio. Alguns começaram a culpar o Rei pelo ocorrido, questionando se a doença não teria ligação com a maneira como o Rei subiu ao trono (matando e exterminando seus opositores). Os rumores chegaram a tal ponto que Henrique VII recorreu ao Papa Inocêncio III para que ameaçasse excomungar qualquer um que desafiasse seu direito legítimo como monarca.

O segundo surto em massa ocorreu em 1508, quando por coincidência, o reinado de Henrique VII estava chegando ao fim. Novamente ela apareceu em Londres e chegou rapidamente a Oxford e Cambridge matando muitos senhores de terras e estudiosos das Universidades. Entretanto, sua duração foi ainda mais curta do que o surto anterior e poucos registros a respeito dela foram feitos. 


O terceiro surto em 1517, foi muito mais sério. Henrique VIII e sua corte tiveram de abandonar Londres e seguir para Windsor onde a doença ainda não havia aparecido. Londres se tornou perigosa demais e as vítimas fatais se multiplicavam entre os cortesãos que decidiram ficar. Em seis meses de duração ela matou cerca de um quarto da população da capital. Em outras cidades duramente atingidas, a população foi reduzida a metade. Mais uma vez, alunos e professores de Oxford e Cambridge estavam entre as vítimas. E mais uma vez ela parou de se espalhar quando chegou na fronteira com a Escócia. Durante esse surto, a morte podia chegar aos doentes em meras duas ou três horas depois dos primeiros sintomas, por isso alguns diziam "feliz no almoço, morto no jantar". A quantidade de mortos era tamanha que os religiosos deram permissão para que os cadáveres das vítimas fossem queimados, uma prática considerada anti-cristã, mas necessária já que os mortos se empilhavam e cadáveres apodreciam em todas as partes.

O primeiro surto que afetou pessoas que não eram inglesas ocorreu em 1528. Uma vez mais a epidemia surgiu em Londres, espalhou-se rapidamente pelas maiores cidades da Inglaterra parando na Escócia e em Gales. Mas ela então aflorou em Dublin onde as vítimas eram tanto ingleses quanto irlandeses. Navios mercantes levaram a doença através do Mar Báltico e Mar do Norte onde ela começou a fazer vítimas na Alemanha, Holanda, Dinamarca, Escandinávia, Polônia e Rússia. Dessa vez, a doença se combinou com o tifo que vinha devastando a Alemanha e se converteu em uma praga de grandes proporções.

Historiadores da Medicina se perguntam se a Doença do Suor Maligno foi uma das causadoras da redução da população na Europa Ocidental em 1528-1529. Na Inglaterra, o ressurgimento da doença foi considerado como um verdadeiro apocalipse e pessoas preferiam se matar, a esperar o contágio dado como certo. Muitas saltavam de penhascos ou ingeriam veneno para não ter de enfrentar o horror dos sintomas dolorosos. O Reino inteiro estava aterrorizado e agricultores simplesmente pararam de plantar - a fome atingiu a Inglaterra com força e matou ainda mais pessoas.

O último grande surto ocorreu em 1551 e dessa vez teve como foco inicial Schrewsbury ao invés de Londres. Nessa cidade, mais de 900 pessoas morreram nos primeiros dias. Para tentar conter a doença, a cidade foi incendiada e tentou-se criar acampamentos para os doentes. Nada disso surtiu efeito e a doença se espalhou pelo interior atingindo as maiores cidades da Inglaterra. Mais uma vez ela começou vitimando apenas ingleses no país e nas nações continentais. Estrangeiros não eram afetados e pareciam ser imunes. O surto atingiu as classes mais favorecidas vitimando Charles Brandon, Duque de Suffolk e Lady Mary, irmã de Henrique VIII. O Rei mais uma vez abandonou Londres e seguiu para o Sul exilando-se em Gales onde conseguiu escapar mais uma vez da epidemia que matou seu povo.

Desde seu surgimento, houve muitas especulações a respeito da origem da doença. Alguns atribuíam seu surgimento ao clima britânico, a umidade, os nevoeiros, os hábitos do povo inglês e outras condições específicas. Ironicamente ela também foi atribuída a uma mudança na atitude das pessoas, que buscavam limpar suas casas por recomendação de médicos. Esse comportamento atípico poderia, na concepção de alguns minar as defesas do corpo.


A Doença do Suor Maligno foi, de fato, uma epidemia infeciosa, semelhante a praga, tifo, escarlatina e malária. Assim como elas matava (e matava muito!), mas sua origem nunca foi compreendida. Por algum tempo, acreditou-se que ela seria uma variação do tifo, mas essa abordagem foi abandonada em decorrência dos sintomas e pela rapidez do contágio. Influenza também foi candidata a culpada, mas a ausência de sintomas respiratórios ou pneumonia contrariava essa suposição. Também se sugeriu que os métodos de tratamento comuns no século XV e XVI podem ter contribuído para a elevada taxa de mortes - o que pode explicar a grande quantidade de pessoas bem de vida (capazes de pagar por um tratamento) entre as vítimas. 

Recentemente epidemiologistas voltaram sua atenção para os arbovirus que eram transmitidos por insetos, como os mosquitos. De fato, a doença era mais comum em períodos em que os pântanos britânicos se enxiam por decorrência da estação das chuvas e que causavam uma proliferação de mosquitos. As montanhas na Escócia e Gales teriam impedido a migração desses insetos que também evitavam os climas mais frios do norte. Entretanto, o arbovirus é típico dos trópicos e apenas uma variação mutante poderia explicar seu surgimento na Inglaterra.

Em tempos modernos, a única doença que se assemelha aos efeitos do Suor Maligno é conhecida como Febre Militar (Síndrome de Schweiss-friesel ou Febre de Piccadily), uma doença que já apareceu na França, Itália, Norte da Alemanha, mas nunca na Inglaterra. Ela se caracteriza por um suor intenso, e se espalha como uma epidemia de curta duração desaparecendo em poucos dias. A doença é rara e pode ser tratada com o uso de antibióticos e drogas modernas. Um surto registrado em 1861 matou cerca de 170 pessoas apenas na França.

A grande verdade é que ninguém sabe exatamente o que causou as terríveis epidemias da Doença do Suor Maligno. Também não se sabe os motivos pelos quais os ingleses foram as vítimas preferenciais desse vírus. Por anos a crença de que algo sobrenatural estaria acontecendo foi muito difundida.

Na ausência de uma explicação científica, é da natureza humana perguntar a si mesmo, se os incidentes ao seu redor não são causados por fatores anormais. Até a Era Vitoriana, o temor de que a Doença do Suor Maligno retornasse, aterrorizava os ingleses de tal forma que qualquer surto era visto com pavor. Até bem recentemente, havia pessoas que acreditavam que a Inglaterra seria destruída por essa terrível doença que afetaria apenas aos habitantes das Ilhas e mais ninguém.

E considerando o histórico dessa estranha doença, os ingleses tem motivos para temer.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Triskaidekophobia - A Fobia do número 13 e seus significados ocultos


Para celebrar a data...

Desconfiança e medo sempre cercaram o número 13. O “azarado” número 13 ainda é temido nos dias atuais e a profundidade da fobia ultrapassa e muito a mera superstição. Existe até um nome clínico, ela é chamada de Triskaidekaphobia, o medo patológico do número 13 e de tudo o que ele representa.

Parece bobagem? Mas não é.

A fobia do número 13 é estudada pela psiquiatria moderna e mereceu reconhecimento em publicações importantes como a Revista de Psiquiatria Americana.

Uma pessoa que demonstra problemas com o número 13, em geral é apenas supersticiosa. No entanto, verdadeiras fobias se desenvolvem como resultado de fortes superstições ou crenças enraizadas no subconsciente coletivo, dentre elas o do número 13, frequentemente associado a azar.

Temer ou ter receio do número 13 não chega a ser algo fora do comum para a maioria das pessoas. Muitos tendem a achar perfeitamente normal desconfiar das implicações do número 13, por mais ilógico que seja temer um simples número. Na sociedade, evidência da fobia que cerca o número 13 está em todo lugar. Pode ser chocante contemplar o quanto um simples número é evitado mesmo na sociedade moderna.

O Número 13 raramente aparece em prédios marcando aquele que seria o Décimo-Terceiro Andar. Nos Estados Unidos 87% dos prédios que tem mais de 13 andares, pulam do andar 12 direto para o 14. Da mesma forma alguns restaurantes possuem como regra não aceitar mesas com 13 indivíduos. Na contingência de uma reserva dessa natureza, o restaurante aceita receber um décimo quarto cliente gratuitamente. Para alguns esse costume remete a Última Ceia, quando 12 apóstolos sentaram a mesa na companhia de Cristo (ou seja 13 indivíduos). O resultado todos nós sabemos!

O número 13 é comumente evitado como data para cirurgias e intervenções médicas. Segundo uma pesquisa nos dias 13 de cada mês o índice de internações diminui em 60%, sendo que em sexta feira 13, ele sofre uma redução vertiginosa, caindo em 80%. E isso não afeta apenas aos pacientes; cerca de 50% dos médicos relatou que evitam realizar cirurgias nessa data. Algo semelhante acontece em viagens. O dia 13 é no calendário um dos dias com menos pessoas viajando. As companhias aéreas registram uma sensível mudança nas reservas de passageiros nessas datas.

Da mesma maneira, assentos marcados com o número 13 são preteridos. Em vôos a poltrona 13 muitas vezes fica vazia e comumente os agentes de viagem deixam ela por último, designando passageiros para elas somente em caso de lotação. Mesmo em cinemas ou teatros, os assentos com número 13 ficam vazios.

Botes salva vidas, prefixos de voo e veículos de socorro também muitas vezes não possuem o número 13 que é convenientemente ignorado.

As raízes do significado do número 13 podem ser traçadas até as religiões pagãs da Europa. O número 13, segundo algumas tradições, possuía uma conotação mística e auspiciosa. Um número de sorte para muitos povos da antiguidade eles estava associado a transformações, mudanças drásticas e alterações profundas. Alguns povos, como os celtas viam o 13 como um número mágico.

Quando o cristianismo se tornou dominante na Europa, o número 13 passou a ser associado a datas de infortúnio como uma espécie de propaganda negativa que visava nublar o significado original do número. O 13 também passou a representar o número cabalístico das feiticeiras, que se associavam em grupos de 12 membros, sendo o décimo-terceiro seu patrono: o Diabo.

O medo do número 13, no entanto, se torna ainda mais forte quando agregado a uma data em especial, a sexta-feira.

A sexta feira para os cristãos sempre foi uma data de azar, supostamente parte da mesma propaganda negativa contra as religiões pagãs, que festejavam esse dia. Jesus expirou na cruz em uma sexta feira, esse portanto não deveria ser um dia de festejos ou de sorte. Além disso, segundo a tradição judaica, incorporada ao cristianismo, foi em uma sexta feira que o Dilúvio contemplado na Bíblia teve início. Chuvas que não pararam por 40 dias e 40 noites e que cobriram o mundo com água trazendo destruição sem precedente. Ainda segunda a Bíblia, teria sido em uma sexta feira que Eva ofereceu a Adão a infame maçã que decretou sua expulsão do Paraíso.

O folclore e as tradições orais se espalharam pelo mundo e a origem do temor da sexta-feira 13, hoje constitui um mistério perdido no tempo. 

Há, no entanto, teorias:

Segundo o Mito Nórdico, Frigga, a deusa devotada ao amor e fertilidade era reverenciada pelos povos nórdicos e germânicos. Quando eles se converteram ao cristianismo, Frigga teria se exilado em desgosto nas montanhas e passou a ser vista como uma Bruxa. Segundo o mito, toda a sexta-feira ela se reunia com 12 outras feiticeiras para operar malefícios. Na Escandinávia a sexta feira é considerada dia de bruxas, um dia para tomar cuidado com o que acontece e postegar decisões importantes.

Os Nórdicos por sinal, possuíam outra história a respeito da simbologia do 13. Segundo eles em uma importante ceia, haviam 12 guerreiros sentados à mesa. Com a chegada de Loki, eles se tornaram 13, e justamente o décimo terceiro teria causado uma discussão que terminou com a morte de Balder, um dos presentes. Daí decorria a crendice de que 13 pessoas à mesa é um convite ao infortúnio.

Outra teoria famosa se refere a lendária queda dos Cavaleiros Templários, cuja ordem foi proscrita pelo Rei Felipe de França em 13 de Outubro de 1307, uma sexta feira 13. Para recordar essa data, os Templários sobreviventes teriam consagrado o costume de reconhecê-la como uma data de profundo azar.

Uma teoria difundida na Inglaterra, dá conta de que a sexta feira 13 se tornou uma data de profecia ligada a má sorte quando o Rei Harold II decidiu liderar seu exército na Batalha de Hastings no ano de 1066. Na ocasião o monarca não ouviu seus conselheiros que lhe advertiram para descansar com a tropa após uma árdua jornada antes de empreender o ataque. O Rei sem se importar com o conselho ordenou o avanço das tropas e como resultado sofreu uma amarga derrota. Harold acabou morto, seu exército desmantelado e os sobreviventes acabaram amaldiçoando a data.

Seja qual for a origem, a Sexta Feira 13 sempre será lembrada como a data do azar e do mau agouro. Portanto não faz mal evitar hoje os gatos pretos, passar por baixo de escadas e não mexer em espelhos.

Se eu tivesse de apostar em uma data para o retorno dos Antigos, provavelmente essa data seria uma Sexta Feira 13.

Como curiosidade, eis aqui a Triskaidekophobia - Uma fobia para Chamado e Rastro de Cthulhu.

Um personagem sofrendo dessa fobia pode tê-la desenvolvido a partir de uma forte superstição. É possível que o número remeta a um acontecimento traumático ou a uma data que causou o choque original.

O personagem vítima de Triskaidekophobia teme o número e tudo o que ele representa. Ele não sai de casa nos dias 13 de cada mês e sente-se apavorado nos dias que antecipam essa data. Ele teme falar a respeito e se comporta demonstrando ansiedade e certo grau de paranóia.

O indivíduo não aceita se hospedar em quartos de hotéis com esse número, não apanha taxis com a placa terminando em 13, não apanha trens que saem da estação às 13 horas, não visita amigos ou faz compras em casas de número 13. Ele jamais sentará em uma mesa com treze indivíduos.

Em casos graves, o indivíduo se torna compelido a fazer contas e negar tudo aquilo cujo resultado remete ao número 13.

Se forçado a fazer qualquer uma dessas coisas o indivíduo reage como se estivesse diante de um objeto de temor, em certos casos ele pode reagir violentamente, ter uma crise nervosa ou até ficar catatônico.

Eu vi apenas uma vez um personagem ser acometido dessa fobia. O personagem havia desenvolvido um medo patológico de que o relógio desse 13 badaladas, o que acabaria por condená-lo a ficar para sempre na terra dos Sonhos. Foi bem divertido (sobretudo porque não era com meu personagem!).

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Il Trillo del Diavolo - A lenda de uma composição inspirada pelo Diabo em pessoa


Diz o famoso ditado que a Música é o alimento da alma.

Ela é uma das expressões artísticas mais sublimes da humanidade, uma forma de elevação do espírito e da alma. Para alguns artistas, a música é divina e proporciona um vislumbre do paraíso. Antonio Salieri, que ficou famoso por invejar a obra de Wolfgang Amadeus Mozart, costumava implorar a Deus por inspiração e depois de cada sonata que compunha se colocava de joelhos como agradecimento. Outros compositores se consideravam inspirados por Deus que lhes proporcionava aquela fagulha determinante para seus melhores trabalhos.

Mas e se o outro lado, também tiver interesse na arte musical e de alguma maneira patrocinasse suas próprias composições, valendo-se de métodos especiais. O Diabo, dizem, é o pai do Rock n' Roll, mas muito antes do surgimento desse tipo de música, ele já trabalhava nos bastidores criando histórias incríveis.

A música está cheia de lendas e rumores a respeito de músicos famosos e compositores envolvidos com o sobrenatural. De Fausto e Mefistófoles até o Fantasma da Ópera, dos guitarristas de blues esperando em encruzilhadas para vender sua alma ao estrelato, das travessuras pagãs de Jim Morrison, até os rituais de Telema tentados pelo membros do Led Zeppelin, a música e o ocultismo caminham de braços dados desde que ambos surgiram.

Uma das histórias mais fascinantes sobre o assunto envolve o compositor barroco italiano Giuseppe Tartini (1692-1770) e sua associação com ninguém menos do que o Diabo em pessoa.


Diz a lenda que em certa noite do ano de 1713, Tartini, um jovem e promissor musicista sonhou que havia encontrado o Diabo cara a cara. O demônio ofereceu a ele uma barganha: transformá-lo no melhor violinista do mundo e assim lhe garantir enorme sucesso. O acordo foi firmado, o Diabo concordou com a proposta e disse que o rapaz seria famoso e que iria compor uma música inesquecível. Em determinado momento do sonho, Tartini ficou curioso e perguntou ao Diabo se ele era um conhecedor de música, afinal, quais eram seus conhecimentos para determinar o que é verdadeiro talento?

O diabo se sentiu ofendido com a desconfiança e pediu que Tartini emprestasse a ele o violino que tinha em mãos - no sonho ele estava com o instrumento. Em seguida, ele não se fez de rogado, habilmente posicionou o violino no queixo, testou duas vezes e começou a tocar de maneira sublime.

O som que o Diabo produziu com o violino mudou a vida de Tartini.

Quando despertou do sonho, com a música fresca na cabeça, ele correu para escrever a melodia. A peça era tão complexa, tão bem executada que o rapaz ficou estarrecido. Tartini tentou inúmeras vezes recriar o som e a melodia ouvida, mas alguns trechos acabaram se perdendo e ele não conseguia lembrar dos detalhes bem o suficiente para colocar em uma partitura.

O jovem experimentou desapontamento após desapontamento já que era incapaz de atingir o grau de complexidade e de delicada precisão que a composição exigia. Após meses trabalhando na obra, Tartini se sentiu tão perdido que tentou o suicídio usando as cordas de seu violino para cortar os pulsos.

Felizmente ele sobreviveu!


Nos seus devaneios às portas da morte, o diabo fez mais uma visita ao rapaz. Escorregando para a morte, Tartini implorou ao tinhoso para ele tocasse a sonata uma vez mais. No sonho, ele ouviu com atenção e fez um esforço sobre-humano para memorizar cada movimento e os trechos mais intrincados. Ao despertar pediu por uma pena e papel para que pudesse anotar cada detalhe.

Quando finalmente saiu do hospital onde estava internado, Tartini contou o que havia acontecido. Os padres católicos que administravam o lugar disseram que o rapaz havia enlouquecido depois que relatou sua blasfêmia. Giuseppe tornou o objetivo de sua vida replicar aquela melodia ouvido apenas em seus sonhos. 

Ele demorou sete longos anos para finalizar sua Sonata Diabólica, como ela foi apelidada. A música ganhou o nome de "Il Trillo del Diavolo" (O Trinado do Diabo) e nos tempos modernos se tornou uma peça bastante conhecida e admirada. Considerada uma das composições mais difíceis de serem executadas. Curiosamente o compositor lamentava jamais ter conseguido reproduzir com exatidão a música que continuava assombrando sua mente febril. Aqueles mais próximos contavam que o rapaz sofria de uma enorme depressão por não ser capaz de atingir o tom desejado. Tartini tornou-se temperamental, chegou a destruir inúmeros instrumentos em acessos de fúria, encerrava apresentações furiosamente e dizem, pensou em suicídio outras vezes.

É provável que a "culpa" não fosse de Tartini, uma vez que os violinos da época não possuíam cordas resistentes o bastante para suportar a pressão das mudanças de tons e acabavam arrebentando. Apenas com a modernização dos instrumentos é que musicistas conseguiram atingiram a plenitude do que Tartini havia concebido.

A famosa mística e medium, Madame Helena Blavatsky escreveu um conto curto em sua coleção de Histórias de Terror com o título "A Alma no Violino". Na sua versão fictícia, Tartini obtém seu talento graças ao pacto diabólico e se arrepende no final de sua vida.


Vários compositores dos séculos XVIII e XIX consideravam o tritono - o  intervalo entre alturas de duas notas musicais que criam três tons inteiros, uma inspiração e construíram adaptações em cima dele. Não por acaso, o tritono, a invenção de Tartini, é considerado uma das dissonâncias mais complexas na música ocidental, realizado apenas por músicos extremamente talentosos. O musicista francês Camille Saint-Saëns em sua Danse Macabre conseguiu criar um tritono claramente inspirado por Tartini.

Extremamente polêmica, a história acabou repercutindo na Igreja Católica que condenou o uso do tritono como uma construção maligna. Um dos argumentos dos religiosos era de que a música derivava de Deus e portanto exigia harmonia. Um som dissonante seria algo a ser evitado. A campanha da igreja para desqualificar o tritono fez com que muitas partituras e compositores fossem perseguidos. O tritono hoje em dia é usado em vários estilos. 

Estudiosos de música e pesquisadores tentaram explicar até hoje como Tartini teve a inspiração para compor sua obra prima, alguns chegaram a sugerir que ele teria nascido com polidactilia, ou seja, seis dedos funcionais em cada mão. Talvez isso explicasse sua genialidade, mas talvez, ele fosse realmente inspirado pelo Diabo... quem pode saber ao certo?

Para tirar suas dúvidas, aqui está a Sonata para violino em sol menor de Giuseppe Tartini, o Trinado do Diabo. 

Ah sim, a coisa fica animada aos 4 minutos, dá para perceber que em certos momentos parecem dois violinos sendo tocados simultaneamente, mas na verdade é apenas uma pessoa alterando o tom.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Morte Silenciosa - Os Venenos e Toxinas mais famosas da história


Uma vez que as pessoas descobriram que era possível matar umas às outras discretamente usando substâncias tóxicas ao invés da violência, o proverbial ovo da serpente foi chocado. Venenos se tornaram uma arma letal usada com astúcia por assassinos com o intuito de eliminar desafetos, para cumprir contratos de morte e garantir o desaparecimento de oponentes. 

Para o bem ou para o mal, os venenos fazem parte da história humana e nos acompanham literalmente desde que nasceram as intrigas. Em tempos bíblicos, venenos já eram usados para matar reis. Provadores de comida e de vinho tinham um trabalho bastante perigoso. Na Roma e na Grécia, o veneno era empregado tanto por senadores e nobres quanto por concubinas e escravos. Na Idade Média, os venenos se tornaram uma maneira rápida de se livrar de oponentes políticos sem levantar suspeitas. Lucrécia Bórgia se tornou notável pelo seu uso. Em meio a intrigas palacianas, o veneno foi proeminente entre nobres e plebeus que mataram e morreram na Revolução Francesa. Venenos e toxinas se tornaram a arma preferida dos espiões, dos dissimulados e dos covardes que não se importavam com honra ou bravura.   

Em tempos mais recentes as pessoas começaram a compreender como funcionavam os venenos e passaram a desconfiar de seu uso sempre que certas circunstâncias surgiam. Alguns venenos se tornaram pouco práticos e acabaram saindo de moda, mas eles ainda são usados e despertam um misto de medo e horror. 


Substâncias Clássicas: Cicuta e Acônito

Vamos começar pelos Clássicos. Quando as pessoas não sabiam a quem recorrer para se livrar de um problema, a cicuta oferecia uma opção mortal. Ela é famosa por ter sido o veneno usado pelo Filósofo Sócrates que bebeu uma dose letal para cometer suicídio. A morte provocada por cicuta não era uma particularmente agradável. Cronistas do período afirmavam que se tratava de uma morte tranquila, apenas uma leve sensação de sonolência, um leve torpor e tudo estava acabado. Infelizmente não é bem assim! Cicuta age como uma substância paralisante que preserva a mente desperta. Ele atinge os músculos e então começa a atingir o sistema respiratório. A morte vem através de asfixia, e o indivíduo permanece consciente até o fim. Sua respiração vai diminuindo até a falência completa.

Acônitos é um veneno natural extraído de uma planta conhecida como capuz de monge. Ele também é conhecido por ter feito uma vítima famosa: o Imperador Claudius teria sido envenenado por sua esposa que colocou acônito em um prato de cogumelos. Acônito também se tornou conhecido como o "veneno das sogras", talvez por que na Roma antiga ele tenha sido usado mais de uma vez para eliminar genros ou noras problemáticos.

A planta do Acônito
As vítimas de acônito também não partem de maneira silenciosa. Os primeiros efeitos da toxina incluem ânsia de vômito e diarreia severa. O organismo da vítima tenta a todo custo expelir a substância que o arruína por dentro. Mas não há como sobreviver a essa exposição. O veneno causa uma arritmia na função cardíaca que vai se intensificando até o coração literalmente não suportar o esforço. O resultado é um ataque cardíaco fulminante. 
     
Cicuta e acônito eram os venenos favoritos dos gregos e romanos. Contudo, eles raramente usavam esses venenos em sua forma natural, ao invés disso, procuravam mascará-lo na carne de cotovias, que segundo alguns disfarçava o gosto. Vinhos fortes também podiam receber uma pequena quantidade de cicuta que os envenenadores dosavam lentamente para que os efeitos fossem disfarçados. Um assassino talentoso podia matar sua vítima sem que essa sentisse nada além de um mal estar confundido com indigestão. Pequenas doses também podias ser colocadas em poços ou cisternas, matando além da vítima desejada todos os habitantes de uma casa. Manipulado cuidadosamente, esses venenos podiam ser indetectáveis. 

Por que esses povos gostavam tanto de usar essas plantas? Bem, primeiro porque era fácil ter acesso a elas. Os médicos da época utilizavam e prescreviam as duas substâncias para uma série de tratamentos comuns, sempre com o alerta de que uma grande quantidade podia ser letal. Cicuta era administrado para espasmos musculares e como um calmante eficiente. Acônito servia para o tratamento de dores de cabeça e para febres. Eles também eram bastante baratos e fáceis de encontrar em boticários do período. De fato, mesmo que a pessoa vivesse no campo, não era difícil encontrar as plantas na natureza e prepará-las para serem usadas como veneno.

Cicuta em espécie
Meticulosos como podem parecer, envenenadores por vezes usam aquilo que está mais à mão quando precisam matar alguém. Um método muito usado por assassinos era fazer com que as pessoas acreditassem que uma morte havia sido acidental. Uma vez que ambas as substâncias estavam na despensa de qualquer pessoa, era perfeitamente natural que acidentes acontecessem. Um descuido numa medida podia levar à morte. E de fato, mortes acidentais por dosagens erradas aconteciam. Um truque usado por envenenadores era substituir uma dosagem prescrita por um boticário por uma mais forte que levava invariavelmente à morte. Por essa razão, venenos eram sempre mantidos em compartimentos trancados. Nobres e pessoas importantes contavam com seu próprio boticário que preparava as dosagens adequadas no momento de usar.  

Os venenos clássicos começaram a ser preteridos quando os efeitos deles se tornaram muito conhecidos. Logo, médicos eram capazes de diagnosticar o que acometia uma pessoa envenenada apenas observando os efeitos. É claro, com a prática vieram aos métodos de tratar e evitar a morte. Além disso, antídotos começaram a se tornar difundidos e indivíduos que se preocupavam com sua própria segurança, passaram a ter ao seu alcance contra-medidas para uma emergência. É claro, o fato dessas civilizações serem tão cosmopolitas, permitiu a introdução de toxinas trazidas de terras distantes que gradualmente substituíram os venenos clássicos.

Por vezes, cicuta e acônito aparecem como opções para envenenadores, mas como muitos deles descobriram os médicos passaram a identificar e tratar essas substâncias com grande nível de sucesso. Ao que parece, ser um envenenador demanda estar em sintonia com as novidades.  

Venefício Medieval: Beladona e Mandrágora


Belladonna
Beladona ganhou seu nome por ser uma substância utilizada por mulheres que a passavam sob os olhos. Tanto as camponesas quanto as nobres se impressionavam com o fato daquela substância deixar as pupilas dilatadas e os olhos brilhantes, por isso seu nome sugestivo. Ela tembém podia ser usada para passar nas bochechas fazendo com que os vasos sanguíneos se dilatassem criando um rubor desejável. Homens e mulheres adoravam aquilo e logo beladona se tornou uma febre na Europa Medieval.

Mercadores italianos foram os primeiros a descobrir o atrativo da substância para o público feminino, embora aquelas que abusavam do cosmético ganhavam mais do que uma aparência angelical. Beladona foi proibida em várias partes da Europa, considerada perigosa e vã, mas coo sempre, a proibição apenas a tornou mais desejada. Algumas mulheres pagavam verdadeiras fortunas por um pouco de beladona e a raridade da substância acabava tornando-a ainda mais perigosa.

Alguns acreditam que a Beladona foi usada para matar ao menos um papa. Outros dizemq ue Macbeth usou Beladona para assassinar um exército inimigo. Ela se notabilizou como o veneno ideal para assassinas que a utilizavam da maneira mais dissimulada: tornavam-se imunes - ou ao menos resistentes aos seus efeitos pelo uso prolongado, e passavam uma quantidade na face ou nos lábios para que esta fosse transferida para seus amantes. Algumas assassinas especialmente criativas podiam aspergir uma pequena quantidade em partes estratégicas de seu corpo, sobretudo aquelas que teriam contato íntimo com a vítima.

Um de seus usos mais frequentes era como alucinógeno. Segundo o folclore ocidental, as bruxas utilizavam pequenas quantidades em seus sabás e tinham uma sensação de flutuar ou mesmo voar. Em outras ocasiões, sob influência de beladona as mulheres viam figuras sinistras, demônios e diabretes saindo de fogueiras ou do interior de caldeirões. Sob a ação dessas alucinações afirmavam ouvir vozes, falar com seres sobrenaturais e se sentiam imunes ao fogo. Não é de se estranhar que muitas que confessavam essas alucinações, acabavam sendo chamadas de bruxas.

Infelizmente a beladona era uma substância extremamente perigosa. Quando uma dose muito grande é consumida - e uma dose grande demais podia ser apenas uma folha, as pessoas sentiam sua ação quase imediatamente. Efeitos comuns incluem náusea, alucinações sensoriais, suor, salivação, pulsação descompassada e arrepios. Por fim, ela provoca hemorragias, cegueira e taquicardia, a morte vinha logo em seguida.

Mandrágora
Já o uso de Mandrágora se tornou difundido na Europa a partir do século XIII, até então ela estava confinada na região onde o tipo mais potente crescia, Espanha e Portugal. Por muito tempo, Mandrágora foi conhecida como um veneno ibérico e seus utilizadores quase todos vinham dessa parte do continente. 

A Mandrágora Ibérica produz um tipo de fruto comestível muito apreciado para produzir licor, já a raiz, não deve ser consumida. Em estado natural ela já é suficientemente perigosa. Por muito tempo a raiz devidamente tratada foi usada para se livrar de verrugas ou para induzir o vômito quando diluída em água. 

Envenenadores ferviam a raiz produzindo uma bebida perigosa, mas o verdadeiro especialista sabia como tratar o resíduo, secar e produzir uma poeira que potencializava a toxidade da substância. Com isso, a Mandrágora podia ser usada para batizar bebidas, em especial alcoólicas já que ela tinha um sabor agradável ou para dispor sobre alimentos. Nobres podiam ser mortos por uma pequena quantidade de poeira misturada com açúcar, por exemplo. Já camponeses podiam ser envenenados com uma pequena quantidade misturada em seu mingau. 

Quando envenenadores da Europa souberam dos efeitos da Mandrágora a planta foi levada para outras paragens e se tornou bastante difundida na Inglaterra, França e Itália. A raiz foi responsável por renovar toda uma cultura de venefício na Europa. O efeito mais danoso da Mandrágora atua sobre os rins, produzindo uma falência múltipla. A vítima sofre uma morte lenta e dolorosa.   

Mandrágora e Beladona foram usados amplamente até que seus efeitos se tornaram bastante conhecidos entre médicos que podiam identificar facilmente seus efeitos nos pacientes. Com o devido tempo de resposta e o antídoto adequado, a vítima podia ser poupada do pior. A medida que as populações começaram a se deslocar para cidades, tornou-se mais difícil colocar as mãos em Mandrágora da espécie correta ou manter um arbusto de beladona em segredo.

Lucrécia Bórgia que ganhou fama como a maior envenenadora de sua época.
Para aqueles que estão sentindo falta de Digitális, um dos venenos mais conhecidos da literatura medieval, aqui vai uma revelação. Nem de longe ele era tão difundido quanto se imagina, em parte por não ser também muito letal. Envenenadores recorrendo a essa planta tinham que saber como destilar a substância o que demorava e precisavam balancear a fórmula para que ela adquirisse a toxidade desejada. 

Digitalis também era bastante rara de obter e exalava um cheiro característico desagradável que a denunciava. Outro problema é que ela era pouco eficiente, muitas vezes, a vítima sentia os efeitos mas se recuperava após vomitar eliminando assim o perigo. Isso não impediu que digitalis ganhasse uma sinistra fama de ser um veneno empregado para matar crianças, bem mais suscetíveis aos seus efeitos danosos. 

Toxinas Industriais: Cianeto, Estricnina e Arsênico   



Pode parecer absurdo, mas cianeto está em todo canto. Ele é usado como conservante na maioria das comidas que ingerimos. Ele está presente também em muitos produtos químicos que utilizamos no dia a dia. Embora substâncias contendo traços de cianeto possam ser traçadas ao longo da história, não foi antes de 1782, quando um químico sueco chamado Scheele destilou hidrogênio cianídrico, que seu potencial tóxico foi compreendido. Ele foi usado primeiro em tinturas e pigmentos muito apreciados pela sua coloração azulada (daí o nome "ciano"). Infelizmente logo descobriu-se que pessoas que usavam essa substância terminavam envenenadas e muitas morriam - geralmente de forma rápida.

Militares começaram a fazer uso de cianeto ainda nas Guerras Napoleônicas quando a substância era usada em prisioneiros de guerra. Espiões famosos carregavam capsulas de cianeto para serem usadas em caso de captura. Os oficiais nazistas possuíam pílulas semelhantes e muitos dos figurões do alto escalão do Terceiro Reich morreram consumindo uma dose fatal de cianeto. Gangsters em Chicago mergulhavam suas balas em cianeto para torná-las ainda mais mortais. 

Este foi o veneno usado para matar o Monge louco Rasputin - embora ele tenha sobrevivido ao envenenamento e morto de outras formas. A famosa assassina Lizzie Borden poderia te sido condenada se o juri recebesse a informação de que ela estava perguntando à farmacêuticos sobre "Ácido da Prússia" (um dos nomes do veneno). Isso pouco antes da suspeita morte de seu pai e madrasta à machadadas. Há um persistente rumor de que os primeiros astronautas da NASA carregavam duas cápsulas em suas viagens espaciais, para o caso de necessidade.

O cianeto causa inconsciência quase imediata, seguido de convulsões e da impossibilidade da absorção de oxigênio pelas células, o que leva à morte. Uma das características que tornam o cianeto um veneno muito popular entre suicidas é a noção de que ele é relativamente indolor. A inconsciência faz com que os efeitos sejam pouco sentidos e mesmo durante os espasmos finais, a vítima permanece desacordada. Por isso ele tinha o apelido de "sono azulado". 

Cianeto era usado amplamente na medicina até o início do século XX, para dores de cabeça, insônia e distúrbios nervosos. Farmácias vendiam a substância no balcão e raramente se preocupavam em fazer perguntas a respeito de seu uso. Era também um veneno presente em fazendas e áreas rurais, para lidar com pestes típicas do campo. Frascos de Cianeto, na forma de um pó refinado de cor azulada, estavam presentes na maioria dos armários de banheiro, e por algum tempo ele foi uma droga muito popular. 


Estricnina levou algum tempo para chegar ao ocidente. Antes disso, ela era bastante conhecida e usada como veneno (e possivelmente remédio) na China e na India. Por séculos foi utilizada por médicos, farmacêuticos e, é claro, assassinos que se valiam de suas propriedades tóxicas. A substância foi apresentada aos europeus no final de 1700 e estes levaram para o continente mudas da árvore Strychnos nux-vomica de onde ela é extraída.

O preparo do veneno exige uma procedimento bastante complicado de isolamento, destilação e coagem. Mesmo químicos experientes consideram a produção dele - sem equipamento próprio, um grande risco já que sua toxidade é alta. Uma vez pronto ela se tornava um veneno que nas plantações afastava pássaros e nas cidades matava os ratos. Os chineses lançavam a substância nos esgotos para eliminar milhões de ratos o que ajudou a conter pestes e epidemias. 

Estricnina, no entanto, é um veneno potente e bastante cruel. Ele causa espasmos musculares incontroláveis, espuma na boca e severas câimbras, eventualmente vem a asfixia quando os músculos tensionam e se tornam incapazes de permitir a respiração. Não por acaso, estricnina era reservada na India aos traidores, prisioneiros condenados por crimes graves e desertores. Era a morte ideal para dar exemplo e "fazer justiça", tanto que haviam execuções públicas através de envenenamento.

O primeiro caso de envenenamento por estricnina registrado na Inglaterra envolveu o Dr. William Palmer, que assassinou seus credores de jogo em 1856. Mas foi o infame caso de Thomas Neil Cream que tornou o veneno famoso. Cream foi condenado por envenenar várias prostitutas, e se gabava de ter matado mais mulheres do que Jack, o estripador, ao menos até ser capturado e enforcado. Agatha Christie ajudou a popularizar esse veneno em suas histórias, como no famoso mistério "The Mysterious Affair at Styles". Ainda que a morte por estricnina seja rápida e dramática, é difícil os efeitos do veneno não serem identificados por um médico. Isso torna a substância um recurso utilizado por indivíduos que querem vingança e pretendem fazer sua vítima sofrer. Atualmente pequenas quantidades de estricnina são usadas na produção industrial, para tingimento e até para realçar sabores de alimentos. 


E chegamos ao topo de nossa lista com aquele que provavelmente é o veneno mais usado de todos os tempos, o Arsênico. Sem dúvida ele é o que está há mais tempo em atividade. Tecnicamente seu uso pode ser traçado até o tempo dos romanos, tendo sido usado fartamente na antiguidade clássica. Encontrado na natureza na forma de metal, ele é bastante similar ao mercúrio. Nãopor acaso, ele já foi chamado de Rei dos Venenos, e caiu nas graças dos Bórgias, que o tinham como seu instrumento favorito para remover oponentes de seu caminho. Há rumores de que Napoleão, George III e Simon Bolivar teriam sido envenenados com arsênico, bem como um bom número de Prelados, Bispos, Cardeais e, é claro, Pontífices. Arsênico era líquido e certo, uma dose bem calculada matava sem risco e deixando relativamente poucos indícios de sua ação letal. 

Mas foi apenas na Era Victoriana que ele ganhou popularidade. Essa perigosa toxina foi descoberta e usada primeiro como um cosmético que tinha o efeito inverso da beladona, comprimindo as veias e concedendo uma face pálida, branca como a neve. As mulheres aprendiam a respeito das propriedades e perigos do arsênico e carregavam o veneno em pequenos frascos cujo conteúdo era diluído em água quente antes do banho. A substância não deixava gosto, cheiro ou alterava a cor da água. Entretanto, era preciso ter cuidado, alguns poucos grãos poderiam matar e de fato, muitas moças da época morriam para ter a palidez que tanto desejavam.

Não demorou para que muitas mulheres vitorianas descobrissem que a substância poderia ser muito útil. O arsênico se tornou um veneno feminino: as mulheres matavam usando arsênico! Algumas poucos grãos eram o bastante para se livrar de um marido tirânico, de um amante indesejado ou de um déspota cruel. 

O caso mais infame de envenenamento por arsênico aconteceu em 1857 e envolveu Madeleine Smith. Ela era uma dama da sociedade que escolheu o amante errado, um homem que começou a fazer chantagem e exigir uma fortuna para não divulgar cartas comprometedoras. Quando ele ameaçou entregar a correspondência indiscreta ao pai de Madeleine, ela decidiu agir. Convidou o sujeito para um chocolate quente e sem perceber, ele bebeu 17 grãos de arsênico. O único azar de Madeleine é que a polícia realizou uma autópsia e encontrou no estômago do casanova o veneno e em seu bolso uma das cartas indecorosas. Juntando as pistas foi fácil apontar o culpado. Mas surpreendentemente Madeleine acabou inocentada das acusações por uma série de tecnicalidades bem exploradas pelos seus advogados. Depois do julgamento ela imigrou para os Estados Unidos levando consigo a fama de ser uma mulher perigosa - apelidada de Lady Arsenic.

"Arsênico Seguro" para senhoras que querem uma compleição pálida. 
Para ser honesto, não só mulheres faziam uso dele. O explorador britânico Charles Francis Hall, famoso pelo tratamento severo - quase desumano, que reservava aos seus subordinados foi morto por uma dose de 40 grãos colocados em seu café. Os responsáveis? Seus próprios homens irritados com a rotina desumana. Na América ele ganhou fama entre golpistas que atraíam mulheres mais velhas e as eliminavam depois destas os incluírem em testamentos.

O caso Smith e o fato da ciência médica ter avançado a ponto de ser possível contar quantos grãos de arsênico uma vítima havia consumido, um exame chamado Teste Marsh, marcaram o fim de uma era. Ainda assim, o arsênico continuou sendo utilizado, mesmo depois da Era Vitoriana. Até o início do século XX ele era fácil de ser comprado em qualquer farmácia ou boticário, bastava pedir. Seus usos justificavam o fácil comércio, médicos prescreviam para uma infinidade de tratamentos que iam de cólicas, dores crônicas até enjoo matutino causado pela gravidez (!). Os farmacêuticos prescreviam a quantidade mais adequada para cada caso e as pessoas tinham de tomar muito cuidado para não exceder. 

Os efeitos diretos do arsênico incluem suor, confusão mental, severas câimbras musculares e dores de estômago que muitas vezes podiam ser confundidos com indigestão. A medida que o arsênico começou a se popularizar em todos os continentes, nenhum médico, por mais inexperiente seria capaz de deixar de perceber os efeitos e atestar seu uso. 

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Quando o objetivo é matar, a história humana atesta que existe muita criatividade nos métodos e meios empregados pelos envenenadores de plantão.