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domingo, 12 de maio de 2019

La Lhorona - As origens da Lenda sobre a Mãe que Lamenta pelos seus filhos


"E onde quer que o povo mexicano vá, ele leva consigo a lenda, a Lenda da Llhorona, a mulher que lamenta. E para onde a lenda é carregada, ela segue. Mesmo hoje, ela está aqui. Nós ouvimos o seu choro à noite, perto do rio. Muitos a viram andando por estas mesmas ruas. E ela sempre chora, e nosso povo sofre. Talvez, quando o rio se encher de lágrimas ela vá embora. Mas é fato que ela só partirá quando estiver pronta. Até lá, não podemos fazer nada além de rezar. Rezar e evitar o rio depois do anoitecer" 

A Lenda da Llorona
- O Mito do México

Uma mexicana, Juana Léija, tentou matar seus sete filhos jogando-os nas águas da Baía de Buffalo, em Houston, Texas, em 1986. Vítima frequente de violência doméstica, ela aparentemente estava tentando acabar com o sofrimento dela e de seus filhos, dois dos quais não sobreviveram. Durante uma entrevista, Léija declarou que ela era La Llorona (A Chorona).

La Llorona é uma figura lendária com várias encarnações presente na mitologia Mexicana. Geralmente traduzida para o inglês como Weeping Lady ("a mulher que chora"), ela é frequentemente apresentada como um tipo de fantasma ou banshee: uma aparição de uma mulher vestida de branco, encontrada próxima de lagos ou rios, às vezes em encruzilhada, que chora durante a noite por seus filhos perdidos, a quem ela própria matou. O infanticídio às vezes é realizado com uma faca ou adaga, mas na maioria das vezes as crianças são vítimas de afogamento. Seu terrível crime geralmente é cometido em um ataque de loucura depois de ter descoberto sobre um amante infiel ou marido que a deixou para se casar com uma mulher de status mais elevado ou riqueza. Depois de perceber o que ela própria fez em um ato de desatino, ela geralmente comete suicídio. A Chorona é frequentemente descrita como uma alma perdida, condenada a vagar pela terra para sempre. Para alguns, ela é um bicho-papão, usado pelos pais para assustar as crianças que não se comportam.

Mas o que quer a Llhorona? Em geral, as histórias concordam que ela é um espírito vingativo e ensandecido. Seu pecado, motivado pela rejeição a levou ao desespero e ao ato de matar suas crianças - crime que as mães não podem suportar. Seu crime, a faz continuar existindo apesar de morta, vagando sem destino: louca e entristecida. Crianças são o seu alvo, ela não suporta ver crianças vivas enquanto as suas não mais estão. Ela as afoga como vingança, ou como marca de sua loucura.


Esta história folclórica tem sido representada artisticamente em várias formas: no cinema, na animação, na arte, na poesia, no teatro e na literatura, tanto para adultos como para crianças. A lenda está profundamente enraizada na cultura mexicana e entre a população mexicana residente nos Estados Unidos.

As origens da lenda são incertas, mas foi apresentada como tendo raízes pré-hispânicas. Acredita-se que La Llorona seja um dos dez presságios que predizem a Conquista do México e também esteja ligada à Deusas Astecas. No Códice Florentino, uma obra enciclopédica sobre os povos nahuas do México, concluída no século XVI pelo frade franciscano Bernardino de Sahagún, encontramos duas deusas astecas ligadas a La Llorona. A primeira é Ciuacoatl (mulher-cobra), descrita como "uma besta selvagem e um mau presságio" que "aparecia de branco" e que andava à noite "chorando e lamentando". Ela também é descrita como o "presságio de guerra". Essa Deusa também poderia estar ligada ao sexto de dez presságios que estão registrados no códice como tendo predito a Conquista: "a voz de uma mulher será ouvida lamentando à noite, chorando sobre o destino de seus filhos. E de todos que morreram e ainda irão morrer, vítimas da derrota".

Um códice posterior do frade dominicano, Diego Durán, detalha os mitos de origem dos deuses astecas e discute a deusa Coatlicue, que é frequentemente ligada a Ciuacoatl. Coatlicue era a mãe de Huitzilopochtli, o Deus Asteca da guerra. Durán a descreve como "a mulher mais feia e suja que se poderia imaginar". Seu rosto tão negro e coberto de sujeira que parecia algo saído do inferno”. Ela espera que seu filho volte para ela da guerra e chora e lamenta por ele enquanto ele está fora. Durán também fornece detalhes de algumas ocorrências estranhas antes da conquista que supostamente teriam perturbado o Rei Montezuma. Entre os presságios estaria o de uma "mulher que vagueia pelas ruas chorando e gemendo pelos filhos mortos".

Embora esses relatos preencham alguns elementos da lenda de La Llorona, há uma outra deusa ligada a água e infanticídio, elementos contidos na lenda. De acordo com o Códice Florentino, Chalchiuhtlicue era a deusa das águas e a irmã mais velha do deus da chuva, Tlaloc. Ela é descria como alguém a ser "temido" e que "causou grande terror". Dizia-se que ela afogava as pessoas e afundava barcos. Cerimônias em honra dos deuses da chuva, incluindo Chalchiuhtlicue, envolviam o sacrifício de crianças que eram mortas em piscinas, novamente, afogadas. Essas vítimas sacrificiais foram compradas de suas mães e quanto mais as crianças choravam, mais bem-sucedido era o sacrifício aos olhos dos sacerdotes.


La Llorona também foi confundida com La Malinche, tradutora e concubina do Conquistador Hernam Cortés. Como tal, ela é muitas vezes retratada como uma mulher indígena abandonada pelo amante espanhol. No entanto, há muitos temas europeus e do mundo antigo semelhantes aos quais ela também poderia estar ligada: a "Mulher Branca" da tradição germânica e eslava, a Lorelei e, é claro, a Banshee irlandesa. A lenda da mulher que mata seus filhos depois de ser traído por seu amante e descartada por uma mulher de maior status ou raça mais "apropriada" também tem raízes na tradição grega, na lenda de Medéia e Jasão.

É estranho que um mito tão difundido possa ter características tão diferentes, e ainda assim, ser conhecido pelo mesmo nome. De fato, as variações na história folclórica parecem ser geográficas, com diferentes regiões tendo suas próprias versões ligeiramente diferentes da mulher que lamentava. 

Além disso, a lenda mudou ao longo do tempo, aparentemente para refletir condições da sociedade mexicana. Há diferentes versões para a origem da lenda.

La Llorona, uma peça de 1917 de Francisco C. Neve é ​​ambientada durante o reinado de Filipe II (1556-98). A protagonista é Luisa. Ela tem um filho com seu amante, Ramiro, filho de Cortés, que tem um status social muito maior. Embora eles estejam juntos há seis anos, Ramiro deve se casar com a filha rica de um juiz. Luisa não tem conhecimento disso e Ramiro acredita que ele pode continuar seu relacionamento com ela, se ele se casar em segredo. Luisa é informada sobre o casamento de Ramiro e levada à loucura, não apenas pela infidelidade de Ramiro e sua decisão de se casar com alguém por honra e status, mas por seu desejo de levar seu filho para longe dela. Quando ele vem buscar seu filho, Luisa o mata com um punhal, oferecendo a Ramiro seu corpo em um delírio, dizendo que ela o matou depois que Ramiro matou sua alma. Luisa é enforcada por seu crime em uma execução pública durante a qual ela é tratada como bruxa. Ramiro morre de tristeza quando o fantasma de Luisa, transformado na Llorona, aparece para assombrá-lo.


A história parece refletir a vida no México colonial. Embora inicialmente houvesse uma escassez de mulheres espanholas na Nova Espanha, o que significava que a união entre mulheres indígenas e homens espanhóis eram bastante comuns, no final do século 16 a população de mulheres européias aumentou enquanto o status de mulheres locais caía. 

Os destinos dessas mulheres indígenas e mestiças variavam. Algumas desfrutavam de estabilidade e e, portanto, se beneficiavam dessas uniões, mas na maioria das vezes elas foram deixados de lado depois de alguns anos para mulheres mais jovens ou, mais freqüentemente, uma esposa espanhola. De forma mais alarmante, as crianças resultantes do enlace eram às vezes tiradas de suas mães indígenas ou mestiças em uma prática derivada de uma tradição espanhola de punir as chamadas mulheres "rebeldes" de seus filhos. Situação que resultava em mulheres levadas ao desespero em face da separação compulsória. Elas preferiam ver os filhos mortos a viver sem eles.

Em outra versão da lenda, datada de 1933 a história de La Llorona, enfatiza a diferença de classe. O roteiro é ambientado na década de 1930 e o foco é sobre os descendentes de Cortés, que se mostram amaldiçoados pela deusa da morte durante a Conquista. La Llorona manipula a protagonista principal, Margot, e a faz matar seu filho, quando ela descobre que seu amante, o pai do menino, deve se casar com uma mulher rica. Como a peça de 1917, a protagonista é levada a loucura pelo pensamento de que seu amante pode tentar levar seu filho. Após matar a criança afogada, Margot, ela própria acaba se tornando um fantasma similar a Lhorona. 


Versões posteriores da história da mulher chorosa apresentam o vilão como espanhol e criam heróis nas culturas mestiça e indígena. A peça de Carmen Toscano de 1959, La Llorona, por exemplo, apresenta uma dura crítica à Conquista e ao período colonial, com especial atenção para o tratamento dos povos indígenas pelos conquistadores espanhóis. A Conquista espiritual também é apresentada como bastante caótica e, no geral, a Nova Espanha é mostrada como um lugar de caos, morte e injustiça. A protagonista é Luisa, uma mestiça, e seu amante, Nuño, é um conquistador espanhol que se casa com Ana, uma rica dama espanhola em segredo, planejando então retornar à Espanha. Ele não parece se importar com Luisa e nem está particularmente interessado em seus filhos. Luisa os esfaqueia até a morte e joga seus corpos no canal. Depois disso, Luisa é julgada e enforcada na praça principal da cidade. Ela chora por seus filhos e acaba se erguendo dos mortos como um fantasma para se vingar de Nuño.

Anualmente peças de La Llorona são apresentadas no Lago Xochimilco, na Cidade do México, local de importância para a lenda que é parte da identidade mexicana. "Nossa nação nasceu das lágrimas de La Llorona." O calendário da peça persiste por duas semanas no final de outubro e início de novembro, sobrepondo-se ao Dia dos Mortos. A celebração tem sido realizada há mais de 20 anos.

Embora em essência o Dia dos Mortos do México seja uma versão das festas católicas romanas Dia de Todos os Santos, o festival, comemorado em 1 e 2 de novembro, tem origens contestadas. É considerado por alguns como uma tradição indígena apropriada pelos colonizadores e por outros como uma prática colonial". No entanto, as tradições familiares do Dia dos Mortos - decorar sepulturas e construir altares em casas dedicadas a membros falecidos da família - são bastante diferentes das exuberantes festividades exibidas nos centros das cidades para os turistas desfrutarem. Nos últimos anos, o Dia dos Mortos passou a ser visto pelos estrangeiros como o festival mexicano por excelência e se tornou uma atração turística famosa.

As evidências sugerem que La Llorona, como ela é agora conhecida, é um mito que evoluiu ao longo do tempo e tem sido usado desde o final do século XIX para refletir e comentar a sociedade do México e sua história.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Olhos Negros - Uma Lenda Urbana sobre Crianças Malditas


Elas podem bater na porta da sua casa no meio da madrugada. Podem também se aproximar de seu carro em uma estrada escura. Podem ainda o cercar em uma rua deserta.

Elas parecem perfeitamente inofensivas e muitas vezes alegam precisar de ajuda, não representam perigo, pois são meras crianças. Mas não se deixe enganar pelas aparências! Apesar de parecerem crianças de 8 a 14 anos, elas não o são... seriam algo muito mais estranho e perigoso. Seus olhos são completamente negros, refletindo a escuridão de suas almas.

Essas são as Crianças de Olhos Negros.

Rumores a respeito dessas crianças sinistras tem se multiplicado nos últimos anos. Em geral, elas são compartilhadas em páginas da internet e grupos de discussão que tratam de fenômenos inexplicáveis ou Lendas Urbanas. Não se sabe exatamente onde ou quando a lenda urbana surgiu, quem a inventou e por qual motivo, mas é fato que ela continua se espalhando. Não há qualquer comprovação da existência de fato dessas crianças amaldiçoadas, não existem vídeos, fotografias ou registro da captura de uma delas. Contudo, não faltam testemunhas e relatos a respeito de pessoas que tiveram um contato muito próximo (e apavorante) com elas.

Reais ou não, histórias a respeito delas tem sido compartilhadas na internet, como essa escrita por uma pessoa de Denver, Colorado:

"Eu estava em casa assistindo um filme, quando de repente ouvi o barulho de alguém batendo na porta. Eu levantei e fui devagar até a porta para abrir, mas então imaginei que já era tarde e como não estava esperando ninguém, resolvi perguntar quem era. Ninguém respondeu. Voltei para a sala e então, ouvi a batida novamente. Fui até lá e perguntei mais uma vez, e dessa vez ouvi uma voz abafada de criança. Não consegui entender o que ela dizia, mas como parecia se tratar de uma criança abri uma fresta pequena o bastante apenas para poder ver quem estava ali. Haviam três crianças paradas ali. Uma delas disse que elas estavam perdidas e que precisavam de ajuda para encontrar sua mãe. Elas pediram para usar o telefone, e esse foi o maior erro da minha vida, pois fiquei com pena e abri a porta. Eu as deixei entrar, uma de cada vez e foi então que percebi. Elas tinham os olhos escuros, muito assustadores. Eu fiquei paralisado por um instante, apenas o tempo suficiente para uma delas se aproximar. Felizmente eu tive um estalo e consegui correr para fora de casa. Olhei para trás e vi as três paradas na entrada da minha casa como se estivessem lamentando que eu havia escapado. Voltei apenas duas horas mais tarde, acompanhado de dois amigos. Não havia ninguém na casa, mas o lugar havia sido todo revirado - portas e gavetas abertas, armário revirado, roupas e objetos atirados no chão. As crianças no entanto, haviam sumido".


Outro relato feito pela internet vem de uma pessoa de Chicago, Illinois:

"Eu olhei pelo olho mágico... lá fora haviam duas crianças... eu tive uma sensação desagradável, pois embora fossem apenas crianças, havia algo nelas que me encheu de apreensão e medo. Eu pensei em fazer de conta que não havia ninguém em casa, mas então uma delas bateu a porta e eu acabei me assustando e perguntando "Quem está aí"? Uma das crianças, um menino perguntou então se poderia entrar para usar o telefone. A voz, embora fosse de uma criança me pareceu esquisita, soou oca. Eu disse que o telefone não estava funcionando e ela bateu a porta novamente e fez a mesma pergunta, no mesmo tom. "Posso usar seu telefone?" Ela então levantou a cabeça e pude ver que os olhos eram grandes e muito escuros, negros como tinta preta. Eu fiquei sem ação. Ela olhou na direção do olho mágico e bateu na porta mais uma vez. "Nossa mãe está preocupada", ele disse e continuou batendo. Eles ficaram lá batendo por pelo menos mais dez minutos até irem embora. Eu nunca soube o que era aquilo, mas fiquei apavorado".

As histórias a respeito de crianças de olhos negros abordando pessoas não se restringe a casas, mas inclui também automóveis:

"Eu vi algumas crianças andando de um lado para  outro da calçada em frente ao meu carro. Eu estava estacionado e elas se aproximaram, com a cabeça baixa... um dos meninos se aproximou da janela e espiou para dentro. Seus olhos eram enormes, e negros. Eu consegui dar uma boa olhada neles e fiquei apavorado. Se você jamais viu uma criança com os olhos daquele jeito, é difícil de explicar o que senti. As pupilas eram pretas como a noite. O menino sussurrou através da janela: "Me deixa entrar", e eu tranquei a porta instintivamente e passei para o assento do carona. Ele ficou na porta batendo e arranhando a janela, eu não conseguia me mover de tanto medo. Quando meu amigo, quem eu estava esperando, enfim chegou, me encontrou caído no banco de trás. Ele teve que gritar até eu perceber que era ele e abrir a porta. As crianças haviam desaparecido".

É curioso, mas histórias como essas tem se multiplicado mundo afora graças à internet. De modo geral, não há como provar essas narrativas, contudo a maioria das pessoas que afirmam ter tido uma experiência com crianças de olhos negros relatam um detalhe similar: o profundo medo!


Sempre que uma criança de olhos negros aparece e a pessoa tem a chance de olhá-las cara a cara, parece haver uma sensação sobrenatural de pavor. Há muitos relatos de pessoas afirmando que ficam paralisadas, como se os membros ficassem enrijecidos ou incapazes de reagir. A reação típica é querer fugir e correr. A maioria dos relatos é confuso nesse pormenor, mas todos afirmam categoricamente que o medo os deixa sem reação, virtualmente à mercê das crianças.

Uma testemunha tentou explicar a situação pela qual passou, afirmando que seus músculos ficaram sem força e que ele se viu de um momento para o outro incapaz de dar um passo sem cair. Isso também explicaria porque algumas pessoas afirmam não serem capazes de gritar ou pedir ajuda. Elas ficam totalmente sem ação!

Não há como dizer, mas tal coisa poderia acontecer em decorrência da natureza sobrenatural dessas crianças. Algo nelas seria tão estranho e perturbador, que causaria uma reação física, não apenas psicológica. Seria o que alguns psicólogos chamam de "pavor congelante", uma reação similar ao que descrevem aqueles que experimentam a paralisia do sono.  

À primeira vista, as crianças de olhos negros não parecem diferentes de crianças comuns e suas características bizarras podem passar desapercebidas. Apenas quando se está perto o bastante é possível perceber a estranheza delas - leia-se seus olhos negros. Segundo algumas descrições, as crianças parecem se mover de maneira incomum, quase como sonâmbulas. Também teriam a pele muito clara, em um tom de palidez quase mortiço. Suas vozes soam distantes e monótonas, pouco naturais. Em geral, as crianças vestem roupas simples, em várias narrativas elas usam casacos com capuz que ajudam a disfarçar seus olhos anormais. Para alguns seriam fantasmas, assombrações, ou até mesmo alienígenas. A interpretação de sua origem varia muito de pessoa para pessoa.

Outro ponto curioso é que ninguém sabe dizer ao certo o que querem essas crianças. Embora muitos comentem que elas desejam entrar em casas e automóveis, para se aproximar das pessoas, ninguém sabe explicar qual o seu objetivo e o que fariam se conseguissem se aproximar o bastante. Elas usam como pretexto estarem perdidas ou separadas de seus pais, assim buscam comover aqueles que abordam. Dada a reação aterrorizada das testemunhas, é de se supor que aqueles que não conseguem reagir à tempo acabam se tornando vítimas delas. Estes morreriam em decorrência do extremo terror causado.

Investigadores amadores e pesquisadores do sobrenatural tentaram desvendar esse mistério e oferecer explicações razoáveis para o fenômeno das Crianças de Olhos Negros. Uma explicação comum é que poderia ser uma condição chamada midríase (mydriasis), uma dilatação acentuada da pupila ocasionada por diferentes fatores que incluem uso de drogas ou trauma. Alguns sugerem que o comportamento das crianças, com movimentos erráticos e quase mecanizados, poderiam apontar na direção de drogas que produzem midríase. É difícil entretanto, acreditar que pudesse ser algo tão corriqueiro. A hipótese parece pouco provável, pois as testemunhas afirmam que os olhos são completamente negros, o que inclui a esclerótica e a iris. Pupilas dilatas não parecem nada com olhos completamente obscurecidos.


Buscando no folclore, é difícil encontrar menções a histórias sobre crianças de olhos escuros.

Pesquisadores tentaram achar alguma menção nesse sentido, mas retornaram de mãos vazias. Histórias sobre crianças de olhos negros estão presentes na internet e em livros sobre o mundo sobrenatural, mas apenas de 1998 em diante. Não há nada no folclore ou em tradições antigas, para todos os efeitos, parece ser algo bastante recente.

Tentar traçar as origens de uma Lenda Urbana é algo complicado, mas alguns apontam para uma antiga publicação do ano de 1997, escrita por Brian Bethel, um morador de Abilene, Texas. Ele escreveu a respeito de um encontro apavorante com o que ele descreveu serem crianças pálidas que tinham os olhos totalmente negros.

Bethel relatou o ocorrido em um fórum de troca de histórias aterrorizantes:

"Eu estava apanhando meu carro na garagem do prédio em que trabalho. O lugar estava deserto e normalmente é bem escuro, iluminado por lâmpadas esparsas. De repente, ouvi um barulho e quando olhei para trás percebi que uma criança, um menino de uns 12-13 anos estava ali comigo apoiado em um carro. Ele perguntou se eu sabia da sua mãe e se podia ajudá-lo, pois estava perdido. Eu me aproximei para ajudar, mas foi aí que percebi que os olhos dele eram pretos. Pretos como carvão. Eu levei um susto e corri o mais rápido que pude para meu automóvel que estava estacionado a uns 10 metros de distância. Abri a porta, entrei e fechei o mais rápido possível. O menino ficou na janela, diante da porta batendo no vidro, pedindo que eu abrisse. Eu não conseguia me mover de tanto medo. Ele ficou ali por um tempo até que sumiu, e só então eu consegui voltar para o banco do motorista e ir embora".

Bethel manteve a sua história, relatando cada detalhe de sua experiência aterrorizante. Entrevistado alguns anos depois, quando a lenda urbana já havia se espalhado, ele sustentou o que havia acontecido:

"Eu não sei o que era, eu não sei explicar... sei apenas que aconteceu e que fiquei realmente apavorado. Até hoje, quando entro em um lugar fechado e escuro, fico nervoso. Tenho medo de ver uma dessas crianças novamente e não sei como iria reagir se tal coisa acontecesse".


Alguns estudiosos de Lendas Urbanas cogitam que a história das crianças de olhos negros possa ser uma expressão espontânea de Alucinação Coletiva. O fenômeno à luz da parapsicologia envolve uma manifestação do inconsciente coletivo que se forma graças a uma forte sugestão, basicamente as pessoas passam a acreditar que algo existe e essa coisa acaba se manifestando fisicamente no mundo real. Seria algo similar ao tulpa do folclore tibetano, entidades que se materializam mediante um pensamento coletivo que lhes dá corpo.

Contudo, seriam as narrativas sobre crianças de olhos negros, suficientemente populares para manifestar uma criatura no mundo real?

Em um estudo realizado pelo Centro de Psicologia da Flórida em 2014, relatos sobre Crianças de Olhos Negros se converteram uma das Lendas Urbanas mais frequentemente lembradas e populares, ultrapassando avistamentos do Pé Grande e tomando o lugar até do famoso Slenderman. O número de pessoas relatando encontros com tais "criaturas" teve um aumento acentuado entre 2014 e 2015.

A "febre" das crianças de olhos negros atingiu seu ápice na internet em 2013, quando um vídeo de dois minutos foi ao ar no "Weekly Strange", um web site da MSN. Não é de se estranhar entretanto que o vídeo tenha sido lançado na mesma época de um filme de horror baseado na lenda urbana.

O jornal britânico Daily Star também fez um levantamento a respeito do avistamento de criaturas sobrenaturais ocorridos na Inglaterra e o resultado foi surpreendente. Crianças de Olhos Negros ficaram entre as cinco manifestações mais comuns no país, entre vampiros e extraterrestres. Segundo o escritor científico Sharon A.Hill, relatos sobre "Crianças de Olhos Negros" lembra as típicas histórias assustadoras do folclore, no mesmo nível dos cães negros, fantasmas, aparições e monstros misteriosos. "Não são sobrenaturais, é provável que nem sequer tenha havido algum encontro. Mas isso não impede as pessoas de continuarem a imaginar e temer sua existência. Alguns até acreditando ter experimentado tal coisa".


A Lenda Urbana parece ter gerado sua própria mitologia, disseminando-se em diferentes lugares com uma velocidade impressionante. Há relatos a respeito de Crianças de Olhos Negros na Europa, América do Norte e no extremo Oriente. Ao que tudo indica, é uma história moderna de "Bicho Papão" que acabou caindo nas graças das pessoas, como a "Loira do Banheiro" ou o "Maníaco com o Gancho".

Seja como for, quando você junta narrativas a respeito de crianças estranhas se comportando de forma sinistra, não é difícil que a coisa acabe crescendo, quase por conta própria. Nosso medo diante do desconhecido, do bizarro e do inexplicável se traduz na matéria prima para construir uma enorme e aterrorizante tapeçaria.

domingo, 18 de novembro de 2018

Nenhum tabu - Os Monges Canibais da India e seu bizarro estilo de vida


Através da história humana existiram cultos e sectos religiosos que causam sensações variadas a respeito de suas práticas. De curiosidade a surpresa, estupefação, ou mesmo medo e repulsa. Seja pelas suas práticas consideradas bizarras, pelos rituais perturbadores ou pelas crenças extremas beirando o fanatismo, alguns grupos causam verdadeiro choque em quem os observa pela primeira vez. Um grupo misterioso que causa reação dessa natureza é a bizarra tribo de místicos canibais da India conhecidos como Aghori, ou Aghori sadhus.

Os Aghori sadhus formam um culto ascético do hinduísmo que se consideram Shivistas, significando que são devotos do Deus Shiva, uma poderosa divindade hindu voltada para a morte e destruição, por vezes referida largamente como "Destruidor" e "Transformador". Os Aghori teriam surgido a partir de uma cisão de outro grupo de adoradores de Shiva, os Kapalika, em algum momento do século XIV. O atual secto entretanto incorporou os ensinamentos de um monge chamado Kina Ram, que viveu no século XVIII e é considerado pelos devotos como a encarnação de Shiva. Segundo a crença Kina Ram possuía poderes sobrenaturais, capacidade de vida e morte sobre as pessoas e teria vivido até os 150 anos de idade. 

Os Aghori são monistas que se desviaram dos ensinamentos e crenças tradicionais do hinduísmo. Eles não acreditam em alguns preceitos centrais da fé hindu, sobretudo o que diz respeito a distinção de pureza e impureza. Eles basicamente não acreditam na dualidade do universo, em uma divisão de certo e errado, defendem que não existe nada puro ou impuro, e que não deve haver nenhuma diferença. Para os Aghori, nada no universo é totalmente "bom" ou "mal", mas uma manifestação de seu Deus e portanto perfeito em suas falhas. Negar qualquer coisa, afastar ou ter preconceitos é negar a exist~encia de um Ser Supremo. Eles acreditam também que todos os seres humanos, incluindo outros hindus, vivem em um mundo de ilusões. Eles são incapazes de ver além de um véu de preconceitos que os obriga a separar tudo.


Os Aghori acreditam que Shiva está ao seu alcance e desejam transcender de seu corpo, ou shava, de maneira absoluta, para se tornarem uma parte do Deus. Para atingir esse estágio, eles precisam atingir um estado de indiferença total. Eles devem abraçar a morte, afastar tudo que poderia lhes causar preconceitos e repulsa, vencer os medos tradicionais e negar todos os prazeres físicos bem como as emoções de raiva, desejo ou vergonha. Da mesma forma, os monges abrem mão de qualquer sinal de sua passagem pelo mundo, portanto eles se afastam de suas famílias e bens. Através da negação total de sua identidade, da superação dos tabus e abraçando a igualdade, os Aghori acreditam que serão capazes de remover os laços que os mantém presos ao ciclo de reincarnação e que os impede de se tornar um com Shiva.

Membros da seita também acreditam que a maneira mais eficiente de atingir a luz do conhecimento é trilhar um caminho tortuoso através da mais profunda escuridão. Eles buscam a pureza na morte e em tudo aquilo que as demais pessoas consideram como maligno, sujo ou moralmente errado. Essa visão não ortodoxa, bem como seu desejo de abraçar todos os tabus, formam a base de complexos rituais que aos olhos de forasteiros são incompreensíveis, medonhos e aterrorizantes.


O atributo menos ofensivo dos Aghori reside em seu comportamento atípico. Eles usam um tipo de dialeto próprio repleto de palavrões e se dirigem às pessoas sempre gritando e xingando. Os monges acreditam que compartilhar blasfêmias é uma maneira de afastar tabus e portanto usam de irreverência e cinismo sempre que possível.

Os Aghori consomem drogas que alteram a sua percepção e servem para afastar qualquer timidez ou auto-censura. Eles fumam uma quantidade absurda de maconha, não para fins recreacionais, mas para aprofundar suas experiências espirituais e permitir uma maior percepção durante os rituais que exigem meditação. Os monges não cortam os cabelos ou aparam a barba, deixando que eles cresçam em longos dreadlocks emplastados com lama e urina para ficarem duros. Raramente se lavam ou tomam banho. Vestem-se com roupas simples, muitas vezes apenas o suficiente para poder transitar com mínimo decoro, mas alguns abrem mão de qualquer traje e andam nus, exceto por pesados colares de madeira em volta do pescoço. 

O fedor que os acompanha é ofensivo, quase insuportável. Em uma sociedade de castas como a da India, os Anghori sadhus seriam naturalmente considerados como párias e afastados do convívio das pessoas, contudo, eles também são monges e portanto respeitados pela sua devoção. Como resultado eles são tolerados ainda que vivam nas margens da sociedade, praticamente como mendigos que dependem da caridade alheia.

Em um esforço para quebrar todas as convenções e afastar emoções fracas e medos, os Aghori são infames por comer qualquer coisa. A dieta dos monges é suficiente para provocar náuseas e causar repulsa em pessoas sensíveis. Eles comem comida podre e lixo decomposto para horror de todos que assistem esse espetáculo escatológico. Por vezes, consomem tais substâncias revoltantes em bacias feitas de crânios humanos ou com talheres confeccionados com ossos. Enquanto a maioria das pessoas acha tal coisa revoltante, os Aghori acreditam que isso mata o ego e nega a percepção de beleza. Além disso, uma vez que eles não acreditam em "pureza" ou "impureza", não faz diferença se a comida consumida é asquerosa ou mesmo palatável. Para eles, se alimentar de lixo é o mesmo que consumir qualquer outra coisa.   

Os rituais de morte e o uso de restos humanos também são parte importante do dia a dia dos monges. Com o objetivo de confrontar a morte e a decadência, os Aghori costumam viver perto de cemitérios e locais de cremação, que são considerados como lugares sagrados por Shiva. Nos lugares de cremação, os Aghori coletam cinzas que usam para cobrir os seus corpos. Eles vestem ocasionalmente pequenas jóias e adereços feitos de osso e cabelo trançado, alguns também utilizam cajados cuja matéria prima são ossos humanos amarrados, em geral o fêmur. Uma sinistra bacia chamada kapala, é confeccionada com um crânio humano cujo topo é removido. Ela é levada em volta do pescoço com uma corda feita de cabelos humanos; usada para beber, como prato para a comida ou para receber esmolas.


A intimidade com os mortos não se limita a criar utensílios para o dia a dia. Os Aghori são conhecidos por usar cadáveres com uma espécie de altar no qual eles meditam, uma prática conhecida como shava samskara. Para isso, eles simplesmente dispõem um cadáver, na falta dele, restos humanos, sobre o qual sentam em posição de lótus. O contato, na crença dos monges ajuda a projetar seus pensamentos e limpa a mente.

O secto entretanto, talvez seja mais notório por suas práticas repulsivas de canibalismo. O ato de consumir restos humanos é parte de um ritual com o objetivo de absorver efeitos medicinais que reduz os sinais do envelhecimento, mas que também tem um simbolismo próprio. O de compartilhar de uma mente universal. A carne humana é cortada de cadáveres e então consumida crua ou cozida em uma fogueira. Por vezes, a fonte é uma sepultura da qual o cadáver putrefato foi removido. O pedaço desejado é cortado cuidadosamente, e o resto guardado de volta.  

Por mais macabro e revoltante que isso possa parecer, os Aghori não matam ou ferem as pessoas. Toda a sua relação com restos humanos, seja na construção de ferramentas ou na alimentação, advém de cadáveres. Em geral, esses cadáveres pertencem a pessoas que foram depositadas nas águas do Rio Ganges, considerado sagrado pela religião hindu. Na India, o costume de cremar os cadáveres é bastante difundido, mas algumas pessoas não devem ser cremadas de acordo com os preceitos religiosos. Estes incluem crianças, homens santos, mulheres grávidas, mulheres solteiras e aqueles que morreram de lepra, mordidas de cobra ou por suicídio. Ao invés de serem cremados, estes corpos são comumente descartados nas águas do Rio Ganges para serem carregados pela maré. O objetivo é simbólico, as águas do Rio sagrado lavam os pecados e deixam o corpo purificado. Por vezes, mesmo os corpos queimados acabam flutuando no rio, onde o fogo acaba se apagando, deixando os restos apenas parcialmente cremados. As pessoas tendem a não se importar com o destino desses restos, eles são considerados meramente como cascas vazias que não tem mais uma função.

Os Aghori costumam procurar por estes restos, muitas vezes lançados nas margens do rio. Eles são usados como altar de sua meditação, como recurso para a criação de objetos práticos ou então, para o consumo da carne.  


Apesar de toda a imagem sinistra que cerca os Aghori, a noção de morte e decadência associada a eles não os impede de serem respeitados. Muitas pessoas consideram que os monges possuem um talento para operar milagres de cura. Eles próprios, a despeito da maneira revoltante em que vivem, raramente sofrem com doenças. Existe a crença de que os Aghori dominam rituais e magias que lhes permite absorver todo tipo de moléstias e então curar a si próprios. Para absorver essas doenças, a magia Aghori exige contato físico, por vezes íntimo entre doente e mago. Alguns rituais exigem carícias, toques, lambidas e até mesmo um forte componente de cunho sexual. A ideia é que Shiva se deleita com os atos de cura realizados pelos seus monges.

Existem boatos de que xamãs Aghori sejam capazes de criar fórmulas mágicas, soluções, bálsamos e pomadas com ingredientes bizarros (que é melhor nem descrever aqui) capazes de curar uma infinidade de doenças que pela medicina tradicional estão além de qualquer socorro. Segundo rumores, até mesmo Câncer e AIDS poderiam ser curados pela intercessão dos poderes medicinais dos feiticeiros. 

É claro, os Aghori não são bem vindos em todos os lugares. Os indianos modernos não toleram a presença deles e em geral as autoridades são chamadas para interceder e remover os monges quando eles aparecem em lugares impróprios. Apesar das tradições serem largamente respeitadas, o comportamento dos monges é suficiente para causar comoção, sobretudo quando há turistas presentes. Eles são tolerados em áreas rurais e regiões afastadas nas quais prevalecem costumes antigos, enraizados no seio da sociedade. Os Aghori podem ser encontrados mais comumente no norte da India, seguindo o curso do Ganges, particularmente no Vale de Varanasi, onde os Templos mais importantes dedicados a Shiva foram erguidos. O mais sagrado dos templos Aghori supostamente guarda os restos de Kina Ram, o sacerdote que deu início ao secto.


Há muitas religiões, seitas e cultos mundo afora, crenças que são compartilhadas por pessoas de todas as raças e nacionalidades. Todas tentam oferecer aquilo que o ser humano, em geral, deseja: uma resposta para questões existenciais e quem sabe, a verdade cósmica. Quem somos? Para onde vamos? Qual o nosso propósito? Apesar de desconcertantes as práticas dos Aghori fornecem uma revelação mística aos seus seguidores e eles parecem felizes com ela. 


Mas será que eles deveriam ser permitidos a continuar trilhando esse caminho bizarro? 

Quem pode dizer ao certo? 

A despeito de nossa opinião ou preconceitos, os Aghori continuam existindo na India e não demonstram qualquer sinal de que vão um dia desaparecer. Quem sabe se eles, ao seu modo, não conseguiram atingir a tão desejada iluminação.

sábado, 29 de setembro de 2018

A Rocha no Precipício - A Lenda do Sepulcro do Gigante na Sibéria


Ela está lá desde o começo dos tempos.

Ou assim diz a lenda.

Uma impressionante rocha com centenas de toneladas, considerada uma das maravilhas da vastidão siberiana, pende na beirada de um precipício, parecendo perigosamente próxima de rolar ribanceira abaixo. Ela possui uma área de contato com o chão de apenas um metro quadrado, e isso é tudo que impede que esse pedregulho caia. Segundo análises de geólogos, ela foi depositada antes da Era Glacial e não se moveu um único centímetro desde esse período. Uma testemunha impassível do tempo, com 500 milhões de anos.

As tribos de nômades siberianos conhecem essa rocha há milênios.

Acreditavam que ela havia sido posta ali por uma raça de gigantes que a arrastaram pelo campo e a posicionaram como uma vigia do vale abaixo, considerado por eles, sagrado. Se qualquer pessoa tentasse colonizar o vale, erguendo construções ao longo dele, os gigantes fariam a pedra rolar, a empurrando e arrasando tudo em seu caminho, matando quem ousasse colonizar aquele território proibido.


Xamãs e Feiticeiros realizavam aos pés da enorme pedra rituais para apaziguar os gigantes e outras forças da natureza. Quando raios atingiam as montanhas e caiam próximo da pedra, era um sinal de que os deuses das estepes estavam insatisfeitos e demandavam alguma compensação dos mortais. Arqueólogos acreditam que sacrifícios animais (cabras, ovelhas e até renas) e possivelmente de seres humanos, aconteciam na base do pedregulho. Segundo alguns, ele era capaz de sorver o sangue derramado sobre ela, bebendo o precioso líquido, como se fosse uma enorme esponja.

Ossos de animais e pessoas encontrados nos arredores parecem corroborar essa teoria. O paredão rochoso onde pende a titânica pedra apresenta ainda vários pontos que foram escavados e onde povos antigos depositaram seus sacrifícios na forma de peles, chifres de renas e até presas de mamutes. Alguns chefes tribais e feiticeiros importantes também receberam a honra de serem enterrados nessas grutas.

Muitos povos supersticiosos temem que a rocha siberiana representa um alerta para o fim dos tempos. Ao longo de séculos se sedimentou a crença de que o dia em que a rocha rolar, o fim dos mundo estará próximo. Outros creem que de baixo da pedra reside um mal ancestral que foi aprisionado ali quando o mundo ainda era jovem. Se um dia a pedra for removida de sua posição, esse mal se verá livre de sua prisão disposto a condenar o homem a uma era de sofrimento e dor.

Outra lenda interessante afirma que a Pedra marca a Sepultura do Gigante Adormecido Sayan, o Mestre da Caçada da Taiga. Essa era uma figura dominante entre os povos nômades que jamais o veneraram como um Deus, vendo-o mais como um monstro aterrorizante. Ele vagava pela taiga com sua enorme lança, capaz de empalar cervos e com seu magnífico arco que lançava flechas do tamanho de um homem através de enormes distâncias. Diz o mito que os homens aprenderam a caçar e construir arcos assistindo o gigante em ação. Ao longo de milênios, Sayan teria dominado toda a vastidão da Sibéria, caçando e se alimentando dos animais locais e afligindo os povos nômades que eram obrigados a render a ele tributo na forma de sacrifícios e peles. Quando a caça se tornava escassa, o gigante demandava carne para saciar seu apetite e se não houvesse animais, mulheres e crianças eram oferecidas. 


Extremamente temido pelas tribos, Sayan acabou sendo ludibriado por xamãs que lhe ofereceram uma bebida mágica fermentada que o deixou zonzo. Apesar de confuso, o monstro ainda era um oponente terrível e foi preciso um grupo de guerreiros para derrotá-lo. Após ser morto, os ossos do gigante foram depositados sob a pedra que marcava o local de seu sepulcro. Segundo a lenda, se a pedra fosse removida, os ossos se regenerariam e ele voltaria à vida para uma vez mais caçar pelas florestas e aterrorizar os homens. 

Uma variação desse mito afirma que a rocha em si é o coração do Gigante Sayan, arrancado do peito dele ainda pulsando. Ele teria se transformado numa gigantesca rocha de granito. Segundo essa crença, no dia em que ele rolar, o imenso órgão voltará a bater, tornando-se carne uma vez mais. Se ele chegar ao lago Voromyn que fica no vale abaixo e onde supostamente os ossos do gigante repousam, ele voltará à vida.

Talvez seja por tudo isso que muitas pessoas se preocuparam quando pequenas rachaduras começaram a ser percebidas na face da rocha. Especialistas locais dizem que a fissura que apareceu na última década poderá causar a queda da titânica rocha que iria rolar de uma altura de aproximadamente 70 metros. Alguns mais dramáticos, atentam para o fato de que isso pode acontecer "a qualquer momento!"


A rachadura que preocupa os geólogos já é conhecida desde os anos 1980, mas ela demonstrou sinais de crescimento a partir de 2012. Turistas e visitantes inoportunos tem o costume de escalar a pedra, saltar sobre ela e arranhar sua superfície desafiando as profecias e maus agouros. Embora a presença humana não tenha incomodado a rocha por séculos, agora ela parece contribuir lentamente para seu desgaste.

"A fissura se espalhou de maneira dramática", disse Leonizid Fiorov, um dos guardas florestais que zela pelo Parque onde se localiza a Rocha do Precipício, "nós tememos que isso poderá causar a queda de toda estrutura, o que seria aterrorizante".

Os guardas florestais tem vigiado constantemente o local, tentando impedir que turistas perturbem o descanso da rocha, mas nem sempre é possível conter esses visitantes. Alguns parecem determinados a se arriscar, pendurando-se na borda. Fiorov conta que alguns anos atrás surpreendeu um grupo de mais de 30 pessoas que estavam ao mesmo tempo saltando em cima da pedra com o intuito de provocar a sua queda.

"É uma lástima! Alguns parecem interessados em arruinar essa bela paisagem e causar um acidente apenas pela brincadeira", concluiu o guarda.

A despeito das muitas superstições e mitos, a Rocha pendendo no Precipício é considerada um patrimônio mundial. Sua queda pode não ser um fator determinante para o fim do mundo ou despertar gigantes adormecidos, mas seria lamentável.


quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Monstros no Armário - Histórias de criaturas medonhas escondidas na escuridão


Um medo recorrente para muitas crianças envolve o clássico monstro escondido no armário e a coisa embaixo da cama. Que criança jamais imaginou que o "bicho papão" estaria espiando de dentro do armário, esperando o momento das luzes se apagarem para assustar e atormentar? Embora esse conceito pareça existir apenas no reinos da imaginação hiper ativa e nas fantasias infantis, será que há mais além disso.

E se os monstros que vivem no armário forem de alguma forma reais? A metáfora para um medo que existe e que se manifesta, enraizado em nossos temores primordiais? Há histórias que sugerem existir algo realmente aterrorizante nos relatos de crianças que temem, com razão, aquilo que divide com elas o quarto de dormir. 

Histórias a respeito de monstros que habitam o armário ou vivem embaixo da cama aparecem em todos os cantos do mundo e assumem várias formas. 

Um dos relatos mais antigos data de 1852 e foi colhido na Alemanha por um médico que estudava pesadelos infantis. Ele cita um tipo de goblin ou kobold medonho chamado Galgenmännlein que vivia nos armários e só saia dele quando a casa se encontra em silêncio e na completa escuridão. Esta criatura diminuta se enfiava por qualquer fresta e ocupava os menores espaços. Ele era conhecido por sorrir e piscar para as crianças que olhassem na direção do armário sumindo logo em seguida. Não parece muito assustador, contudo, esse duende podia ser bastante perverso. Com um fraco por brincadeiras de péssimo gosto, a criatura gostava de tampar o nariz e a boca das crianças para sufocá-las, de se pendurar na guarda da cama, colocar insetos e ratos no travesseiro, urinar no colchão e cometer outras travessuras. 

O relato vai além, diz que esse monstrinho tinha por hábito morder e produzir uma ferida através da qual sorvia o sangue, deixando uma marca que ficava para sempre. Uma vez tendo experimentado esse contato, ele sempre poderia encontrar a criança, não importa para onde ela fosse, não importa que ela crescesse.

Não por acaso, o assassino em série alemão Peter Künt (conhecido como Vampiro de Dusseldorf) acreditava ter sido marcado por um desses kobolds, e ele próprio ter se tornado uma criatura que se alimentava do medo e sofrimento das crianças. Preso e executado em 1931 após ter cometido pelo menos nove assassinatos (e supostamente mais de 30 tentativas) ele foi posteriormente considerado insano.


Não fica claro se o kobold no folclore alemão estaria apenas se escondendo no armário ou se o estaria usando como um tipo de ligação para seu mundo original, seja lá de onde ele vem. O armário de qualquer maneira parece ser de extrema importância. Segundo a crença, para eliminar a presença da criatura, o armário precisava ser iluminado e quando a luz estivesse acesa, uma peça de roupa deveria ser virada do avesso e jogada dentro dele como uma espécie de oferenda. Se o Galgenmännlein ficasse satisfeito, iria embora carregando o presente em busca de outra criança para importunar.

Essa lenda é bastante difundida, mas o que seria essa criatura? Uma entidade estranha que desafia categorização ou uma simples fábula criada para assustar os pequenos? Seja qual for a resposta, ela não é a única...

Outra narrativa sobre monstro do armário diz respeito a uma criatura que desafia uma classificação convencional. Segundo a história registrada em 1910, uma menina estava com seu irmão mais velho ajudando a arrumar as coisas para se mudar. De repente ambos ouviram o pai gritar pedindo ajuda em algum outro cômodo da casa. Os irmãos descobriram que os gritos vinham do armário do seu quarto, onde eles suspeitavam vivia uma espécie de monstro. A porta se encontrava trancada, o que era bastante estranho já que ela originalmente não possuía tranca. Os dois decidiram forçar o armário e tiveram de puxar com toda sua força já que a tranca não parecia ceder um mínimo centímetro. Finalmente, quando a porta se abriu eles se depararam com algo inexplicável.

O pai estava dentro do armário, que por sua vez, era muito maior e vazio do que elas lembravam. Estava muito escuro e ele flutuava no ar como se alguma coisa invisível estivesse segurando-o. Seus gritos pareciam cada vez mais distantes e abafados a medida que ele ia se afastando, mais e mais para o fundo. Ele parecia tão aterrorizado que era impossível deixá-lo daquele jeito. A menina tentou entrar para segurar sua mão que estava estendida em uma súplica desesperada, mas seu irmão conseguiu contê-la. Os gritos continuavam, cada vez mais desesperados e a menina tentava se desvencilhar do abraço do irmão que a impedia de entrar. "Por que está me impedindo? Não vê que ele precisa de ajuda?" perguntou furiosa.


Então o irmão disse que aquele não podia ser o pai deles, pois este acabara de chegar. O irmão havia ouvido o barulho da porta da casa batendo e passos apressados subindo a escada. Alguém no andar de baixo perguntava o que estava acontecendo e que gritaria era aquela. Nesse momento, a coisa que estava no armário tentou agarrar o braço da menina e puxá-la para dentro. Seu rosto se deformou em uma carranca medonha, seus olhos ficaram brancos, sua boca se abriu mostrando horríveis dentes afiados e seus braços se estenderam a uma distância absurda. A coisa segurou a menina, mas seu irmão foi mais forte e lutou para não deixá-la ser levada.

Nisso a porta do quarto se abriu, mas antes que o pai pudesse ver com o que seus filhos lutavam, a coisa deu-se por vencida e desistiu daquele cabo de guerra. A porta do armário bateu com força e as crianças caíram no chão. O pai jamais viu aquela coisa horrível que tentou se fazer passar por ele, mas o relato das crianças aterrorizadas o convenceram de que algo muito ruim havia acontecido. O relato termina com o pai lacrando a porta do armário com pregos e a família deixando a casa para nunca mais voltar.

O que poderia ser essa coisa? Seria ele um vampiro, um demônio, um fantasma ou algo diferente de tudo? Parece interessante o fato de que toda a família testemunhou o acontecimento, portanto a possibilidade de se tratar de uma alucinação ou imaginação é improvável. 

No site Phantons & Monsters há outra narrativa de um encontro aterrorizante com uma criatura habitando os recessos de um armário. A narrativa teria sido coletada em 1950 e se tornou uma das mais conhecidas a respeito de monstros do armário. A narrador, um menino de 10 anos conta que acordou certa noite, por volta das 3 da manhã e descobriu estar coberto de suor e com um frio inexplicável. Ao lado, seu irmão dormia tranquilamente na cama. Ele tinha uma forte sensação de estar sendo observado por alguma coisa que permanecia oculta no armário. Ele relatou em suas próprias palavras o que aconteceu a seguir:


"Eu olhei em volta do quarto esperando encontrar a minha mãe parada na porta, mas não havia ninguém ali. A luz do corredor permanecia acesa durante a noite, de modo que era possível ver perfeitamente na penumbra. Foi então que senti uma forte sensação de ameaça, e lentamente comecei a virar para olhar na direção do armário. Eu sabia que era dali que vinha meu medo. E lá estava ele: era algo estranho com uma cabeça branca e ovalada como uma lua cheia. Não tinha cabelos e seus olhos eram estranhamente grandes e arredondados com uma coloração esbranquiçada como se fossem cobertos de cataratas. Mas ele podia enxergar, disso eu sabia, pois sua cabeça virava para mim e depois para meu irmão. Ele percebeu então que eu o havia visto e arqueou os lábios, arreganhando os dentes para fora como se fosse um roedor. Em um primeiro momento, eu pensei que aquilo era um sonho, uma vez que eu sempre fui uma criança cheia de imaginação. A coisa então escorreu para fora do armário. Eu digo escorreu, pois foi essa a sensação que aquele movimento me passou, ele era fluido como se ele estivesse deslizando até o chão e se arrastando como uma serpente. Eu não conseguia vê-lo, fiquei imediatamente paralisado de terror. Tudo o que conseguia fazer era observar. Ouvi então ele farejando o ar e se aproximando da minha cama. Sua cabeça apareceu na cabeceira e ele estendeu uma mão com dedos compridos. Eu senti suas unhas ásperas tocarem a planta do meu pé como se estivesse fazendo cócegas. Foi então que ouvi um grito que não era meu. Meu irmão havia acordado e se deparou com aquela coisa horrível inclinada sobre a minha cama. Com o grito, o monstro voltou para o armário, escorrendo pelo chão daquela maneira medonha. Eu e meu irmão jamais falamos a respeito daquilo, mas nunca mais conseguimos dormir com a luz apagada".

Novamente, nós ficamos com uma descrição medonha e sem qualquer explicação. O que seria essa coisa e porque ela estava escondida no armário?  

No reino das narrativas bizarras a respeito de monstros do armário existem histórias realmente escabrosas. Uma delas data de meados dos anos 1980 e foi publicada em uma Revista de Psicologia que analisava casos de crianças amedrontadas por supostos monstros. A testemunha dos fatos, que hoje em dia alega ser uma espécie de pesquisador de casos sobrenaturais, relata que quando tinha 7 anos experimentou um contato com uma coisa habitando o armário de seu quarto. Ele contou a seguinte história:

"Eu percebi que a porta do armário do quarto estava abrindo devagar, até que ela ficou totalmente escancarada. Eu sei que isso pode soar absurdo, mas comecei a ouvir sons malucos, como se um pássaro estivesse dentro do armário. Eu fiquei assustado, mas não conseguia me mover ou pedir ajuda. A coisa então saiu de dentro do armário: era muito alta e coberta de penas e com um bico laranja. Ele andava como um homem, mas tinha braços extremamente compridos e garras afiadas. Ele granou e avançou contra mim, fazendo um barulho esquisito e tentando me bicar no rosto. Meu terror foi tão grande que desmaiei. Eu levei anos para lembrar todos os detalhes e desenvolvi depois disso um medo absurdo do escuro que me segue até hoje. O mais estranho na história é que quando meus pais vieram, avisados pelo meu irmão que acordou com meus gritos, eu não estava na minha cama, mas caído dentro do armário. Eu sei que aquela coisa me colocou lá e me levaria embora se tivesse tempo". 


Mas o que diabo seria isso? Um pesadelo com Garibaldo da Vila Sésamo? A testemunha desse acontecimento foi submetida a tratamento psicológico que incluía hipnotismo, e sob efeito de transe hipnótico reviveu o acontecimento em circunstâncias controladas. A reação dele fez com que o psicólogo concluísse que o indivíduo realmente acreditava que o incidente havia ocorrido. Era como se sua mente racionalizava aquela experiência como um fato.

Outros relatos parecem seguir um padrão mais próximo das tradicionais assombrações embora sempre focados em armários. Vem da conceituada publicação médica American Psychology Journal um artigo a respeito de pesadelos infantis. É um relato impressionante a respeito de uma experiência que teria ocorrido no estado norte-americano da Pennsylvania nos anos 1990. A testemunha, um menino de 6 anos de idade, alegava que assim que a família se mudou para a casa de sua avó, onde eles residiram por algum tempo, começou a sofrer com pesadelos extremamente vívidos. Nestes sonhos, ele via o que chamava de "espírito diabólico" que habitava o armário do quarto em que dormia. Segundo a família contou, a criança jamais havia sofrido com terrores noturnos, mas logo na primeira semana residindo na casa estes começaram, acrescidos de um medo irracional do armário do quarto, enurese e crise aguda de nervos. Em uma entrevista conduzida anos mais tarde por um profissional, a testemunha contou o seguinte:

"Nós havíamos nos mudado para  acasa em outubro. Eu sempre achei que o lugar era estranho e de alguma forma opressivo, mas não me recordo de achar que a casa fosse assombrada. Minha família estava se ajeitando em nosso novo lar e tudo parecia normal. Lembro que o assoalho rangia e eu comecei a ouvir aquele som de madrugada e parecia que cada rangido repetia o meu nome. Depois veio a sensação desagradável de estar sendo constantemente observado. Para uma criança de seis anos, aquilo era angustiante... eu sentia como se algo estivesse sempre olhando por cima do meu ombro. Vivia tendo arrepios, como se estivesse sempre em perigo. Eu corria entre um cômodo e outro, sem olhar para as salas temendo que lá pudesse haver uma sombra ou um vulto. Toda vez que eu entrava no meu quarto a porta do armário estava aberta... eu não conseguia explicar aquilo, mesmo que eu a fechasse segundos depois ela aparecia aberta.

Nós tínhamos um gato, Felix que de vez em quando dormia no meu quarto. Certa vez, de madrugada, acordei com um barulho vindo do armário. A porta, como era de costume havia aberto por conta própria. Mesmo em meio a escuridão do quarto eu conseguia perceber que havia um vulto na frente da entrada: era escuro e grande. Felix estava perto dele, olhava apreensivo, da forma que os gatos costumam fazer quando são acuados. A coisa então se moveu e agarrou Felix pelo pescoço. Ele soltou um chiado alto e a coisa começou a voltar para o armário carregando o pobre bichinho... eu ouvi então uns ruídos medonhos, como de nozes sendo abertas ou de gravetos quebrando. Eu achei que tivesse tido um pesadelo... vivia dizendo para mim mesmo que monstros não existiam, mas o fato é que nunca mais vimos Felix... ele sumiu depois daquela noite.

Outro caso, estudado pela mesma publicação ocorreu no estado da Virgínia. A testemunha no caso tinha 11 anos de idade e acreditava que um tipo de demônio habitava o armário do quarto principal. Ele alegava ouvir estranhos ruídos, murmúrios e pancadas secas que pareciam sempre vir de dentro do armário. Um incidente aterrorizante teria acontecido quando uma entidade tentou puxar a irmã caçula para dentro do armário.     

Segundo ele a criatura em questão parecia uma pessoa, mas era extremamente magra, ao ponto de ser quase esquelética, sua pele pálida parecia esticada sobre os ossos e a face era vazia, ausente de emoções. Essa criatura, segundo as crianças, habitava o armário que se localizava em um vão, entre o quarto dos pais e o banheiro. O lugar ficava sempre escuro, fosse dia ou noite e as crianças temiam ter de passar por ele sempre que precisavam ir ao banheiro.


Certa noite, a menina saia do banheiro, quando percebeu que a porta do armário estava aberta. Ela ficou temerosa de sair e ter de passar diante dele, por isso achou melhor chamar seu irmão. Quando o menino apareceu no corredor se deparou com uma cena bizarra: a porta estava aberta, e em meio às roupas penduradas em cabides era possível ver aquela coisa cadavérica agachada no canto, como se estivesse esperando que a menina deixasse o banheiro, prestes a agarrá-la. Ele contou:

"Era uma coisa horrível, com olhos fundos e uma boca enorme. Estava agachada, mas mesmo assim, era da minha altura. Quando ela percebeu que eu estava ali e podia vê-la, ela abriu a boca e se projetou para fora do armário esticando os braços para tentar me agarrar. Os braços eram longos e ossudos e por pouco não conseguiram me alcançar. Eu gritei para minha irmã voltar para o banheiro e ela apavorada ao ver aquele vulto se trancou no banheiro. A coisa então voltou para o armário e bateu a porta tão forte que a madeira chegou a rachar".

Mais tarde, quando os pais chegaram, constataram que as roupas dentro do armário haviam sido arrancadas e atiradas no chão, enquanto outras estavam rasgadas. Tiveram de arrombar a porta do banheiro uma vez que a menina que se trancou nele, estava em estado de choque deitada na banheira. Ela teve de se submeter a tratamento psicológico por anos para superar seu medo de ficar sozinha.

Seria isso um demônio, um espírito maligno ou algo completamente diferente? Seria apenas a imaginação de crianças criando monstros assustadores?

Especialistas em fobias juvenis defendem que durante os anos de formação de sua personalidade, crianças são propensas a desenvolver uma imaginação fértil e uma criatividade para elementos surreais. Elas percebem o mundo à sua volta de uma maneira muito particular, por vezes absorvendo as coisas que lhes causam insegurança e dando a elas forma através de sua imaginação. É um princípio semelhante às crianças que criam amigos imaginários. A grande diferença é que aqui elas criam coisas medonhas que são a cristalização de seus medos e anseios mais profundos. 


Existe muita controvérsia a respeito, mas alguns pesquisadores acreditam que em certos casos extremos, os medos podem ser tão reais que se equiparam de muitas maneiras a alucinações. As crianças de fato acreditam estar vendo a razão de seus temores assumindo uma forma física. E essa crença é tão forte que pode ser até mesmo compartilhada com outras crianças (em geral irmãos) que passam a ter a mesma aflição. O temor parece se combinar, criando as condições ideais para se alastrar como uma alucinação compartilhada.

Em geral, o medo de monstros do armário ou da coisa embaixo da cama tende a ser superado a medida que as crianças crescem e ganham um maior discernimento a respeito das coisas que as cercam. Compreendendo o funcionamento das coisas, e do próprio mundo, as crianças passam a descartar certos elementos como fruto de sua imaginação, o que ajuda a diminuir os seus temores.

Mas a coisa muda de figura quando examinada por indivíduos que colecionam histórias sobre o bicho papão e vêem essas manifestações como um tipo de atividade sobrenatural. Existem muitas teorias a respeito de tais criaturas poderem ser fantasmas, demônios e até alienígenas. Alguns estudiosos contextualizam que certos casos são simplesmente inexplicáveis. Apontam que crianças sofrendo com terrores noturnos, ao passar por mapeamento de atividade cerebral, não demonstram qualquer sinal de estímulo nas regiões ligadas a alucinação. E se nada do que ela descrevem de fato aconteceu, teríamos que acreditar que elas simplesmente estariam mentindo. Entretanto, como podemos afirmar que casos como os relatados acima, são mera invenção?

O que pensar de casos extremos de fobia crônica e PTSD (Post-traumatic Shock Disorder) que algumas crianças desenvolvem em face de experiências após alegados encontros com Monstros do armário? Tudo isso nos faz pensar: poderia a mente infantil criar uma armadilha como essa? Será que mão existe nada além, escondido nos recessos de armários esperando o momento de sair e agarrar os inocentes.

É difícil dizer... nosso senso comum nos impede de acreditar em tal coisa e nossa razão nos impele a buscar explicações razoáveis e científicas. Talvez esse seja um assunto que você deva pensar na próxima vez em que estiver sozinho em seu quarto escuro e a porta do armário estiver parcialmente aberta.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

A Família de Lobisomens - A Dinastia partida dos Gandillon


Um lobisomem já é difícil de acreditar, mas o que dizer de uma família inteira de lobisomens? 

Tal história aconteceu na região de Jura no oeste da França em 1598. No verão dquele ano, um garoto chamado Benoit Bidel e sua irmã estavam colhendo morangos próximo da vila de St. Claude. Enquanto o menino estava escalando uma árvore, um lobo com mãos humanas surgiu do meio da floresta e agarrou sua irmãzinha. Benoit pulou da árvore e tentou esfaquear o lobo, mas o monstro arrancou a arma de sua mão e desferiu uma mordida em seu pescoço antes de correr para o interior da floresta.

Alguns camponeses que estavam passando ouviram os sons de gritos e correram para ver o que era. Eles encontraram Benoit sangrando em profusão, sua irmã estava caída ao lado em choque. Antes de morrer pelo ferimento, Benoit fez uma descrição da criatura que o atacou. Os camponeses furiosos com oq ue havia acontecido entraram na floresta para procurar a besta responsável pela tragédia. Ao invés disso descobriram uma menina chamada Pernette Gandillon vagando sem rumo por uma trilha. Os aldeões perceberam que o vestido de Pernette estava coberto de sangue, então concluíramq ue ela deveria estar ligada ao ataque. Quando se aproximaram, ela rosnou com um animal selvagem e atacou o bando. Eles reagiram e em maioria a mataram.


A despeito de Pernette ter confessado ou não que era um lobisomem, ainda que algumas testemunhas tivessem certeza disso, havia uma razão a mais para toda aquela violência contra uma moça de pouco mais de 17 anos. A família dela, os Gandillon eram bastante impopulares. Pernette e os demais membros da família viviam na floresta, em uma cabana isolada do restante de St. Clause. 

Havia muitos rumores a respeito do estranho clã. As más línguas sugeriam que eles guardavam algum segredo terrível e que por essa razão preferiam se manter afastados para que ninguém descobrisse. Outros afirmavam categoricamente que o patriarca mantinha relações pouco naturais com as filhas e que pelo pecado cometido, as meninas haviam desenvolvido estranhas características: seis dedos em cada mão, orelhas pontudas e rabos de lobo. Outros diziam que todos os Gandillon eram satanistas que veneravam Lúcifer e sacrificavam crianças na floresta. Havia ainda a suspeita de que eles seriam lobisomens e que como tal matavam quando tomados pela licantropia.

O corpo de Pernette foi arrastado até St. Claude e colocado na frente da prefeitura com umaplaca onde se lia "Filha de Lobisomens" em volta do pescoço. Após esse assassinato, seus irmãos Pierre e Antoinette foram também acusados de serem lobisomens. Uma família de vizinhos dos Gandillon relataram uma história medonha de que os irmãos haviam sido vistos participando de uma missa negra e de uma orgia. Em uma das versões, Antoinette que tinha apenas 13 anos teria sido visto fazendo sexo com um bode preto, um dos mais conhecidos disfarces do demônio. 

A loucura se apossou do povo de St. Claude e uma turba seguiu para a casa dos Gandillon exigindo que os irmãos se entregassem. Quando se negaram, simplesmente entraram na casa e os levaram amarrados para a praça da cidade. Após serem torturados, Pierre acabou confessando que as acusações eram verdadeiras. 

 Ele admitiu que o Demônio havia oferecido à família peles de lobos que tinham o poder de transformar os Gandillon em lobisomens. Jogando as peles sobre a cabeça, os Gandillon eram capazes de se transformar em lobos e correr pelos campos com as quatro patas, devorando animais e humanos. O Patriarca da Família, Georges e sua esposa também foram acusados de participar das barganhas demoníacas, ainda que a confissão de Pierre eximisse seu pai e mãe de qualquer envolvimento. As coisas não pararam por aí, primos próximos e distantes, dois tios e mais um avô que vivia no vilarejo vizinho também foram acusados. Segundo rumores, até mesmo uma família de uma aldeia longe de St. Claude, que tinham por sobrenome Gaudilion acabaram arrastados para a teia de acusações e boatos. Por pouco não acabaram sofrendo represálias.

Para azar dos Gandillons, o infame Juiz Henri Boguet, um homem severo e temido foi colocado à frente dos trabalhos legais. Embora muitas pessoas acreditassem em lobisomens, a maioria se mostrava cética que tal coisa poderia existir. Existia a crença de que o demônio podia corromper as pessoas e fazer com que elas acreditassem que haviam se transformado em lobos.

Boguet, levava muito à sério as histórias sobre lobisomens. Ele era autor de "Examen de Sorcieres" (Exame das Feiticeiras), um livro popular, publicado em 1590 que detalhava as confissões de mais de 40 bruxas versando a respeito de adoração, missas negras, conjunção carnal com demônios e claro, licantropia. De fato, um dos capítulos, era justamente a respeito de homens que se transformavam em lobos e como tal coisa se espalhava pela França como uma epidemia profana. O Juiz afirmava que em sua carreira havia sentenciado mais de 600 lobisomens e que seu trabalho era essencial para manter a paz.

Enquanto visitava os Gandillon na cadeia, o Juiz percebeu que Georges, Antoinette e Pierre manifestavam claros indícios de terem licantropia. Por exemplo, quando Bouguet espetou Pierre com um alfinete de prata ele imediatamente gritou e se atirou no chão como se estivesse sofrendo convulsões. Além disso, a face e as mãos da família apresentavam o que o Juiz chamava de sinais inequívocos da Licantropia, na forma de arranhões, unhas em determinado formato e o sinal de um sexto dedo amputado. A respeito de Pierre, que estava muito ferido pela tortura sofrida, o Juiz disse: "Esse monstro sequer parece com um ser humano e não há como olhar para seu semblante bestial sem sentir horror".

O juiz afirmou que a família deveria ser mantida presa na masmorra até que se transformassem em lobisomens provando assim que as acusações eram verdadeiras. É claro, os Gandillon jamais se transformaram em lobos e isso começou a chamar a atenção da população que passou a levantar dúvidas sobre as histórias cada vez mais exageradas. Para muitos, o Juiz estava meramente se promovendo às custas da desgraça alheia ou sendo um completo idiota. Percebendo que as coisas poderiam virar contra ele, o Juiz atribuiu a falta de transformação a falta das capas encantadas e de unguentos sabidamente usados pelos licantropos para iniciar a transformação.


Os irmãos Gandillon foram sentenciados a morrer na fogueira, mas no último momento a pena de Antoinette foi comutada para que ela pudesse viver em um convento até o fim de seus dias. Pierre foi executado, seguido de seu pai e de dois tios. 

Após os trabalhos, Henry Boguet conquistou enorme fama em toda França sendo conhecido como um dos mais importantes Demonologistas e Caçadores de Bruxas de sua época. Em 1602 ele publicou Discours exécrable des Sorciers (Discursos Execráveis sobre a Feitiçaria) um Manual que tratava de bruxaria que teve doze reedições em doze anos. O Magistrado teria morrido na pobreza extrema e louco em 1619, ele acreditava ter sido vítima dos malefícios de bruxas que o amaldiçoaram.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A Besta (continua) entre nós - Mais histórias reais de Lobisomens


Leia aqui a primeira parte do artigo: A Besta entre Nós

Na história européia, há muitos casos documentados de pessoas que cometeram o crime de Licantropia e que foram condenados por serem Lobisomens. 

Em suas confissões, muitos acusados descreviam a transformação sendo causada por algum objeto mágico: um cinturão ou manto de pelo de lobo, um unguento mágico, uma poção encantada ou algum outro instrumento místico. Historiadores acreditam que tais objetos faziam parte da ilusão experimentada por mentirosos patológicos ou esquizofrênicos limítrofes que sofriam alucinações capazes de alterar a realidade. De certa forma eles falavam a verdade ao dizer que eram lobisomens, uma vez que acreditavam realmente serem lobos. Sua percepção assim interpretava e reconhecia os seus delírios. A psiquiatria compreende nos dias atuais que vários esquizofrênicos agudos realmente experimentam alucinações vívidas, sendo que a "transformação do homem em besta" é um dos relatos mais frequentes.

Mas o que dizer dos casos que possuem testemunhas que presenciaram homens se transformando em lobo? É preciso lembrar que a existência da licantropia e de lobisomens era um fato incontestável, mesmo para estudiosos e acadêmicos do período que davam por certa a possibilidade da transformação. É possível que os testemunhos decorressem de mera fabricação, de loucura ou mais provável da histeria em massa, motivada pelas muitas superstições.

Afinal, lobisomens não existem... ou será que existem?

Aqui estão mais alguns casos chocantes e verdadeiros envolvendo Lobisomens.

O Lobo Magistrado de Ansbach



A maioria dos casos envolvendo Lobisomens acabam sendo descobertos após uma pessoa cometer os crimes e confessá-los diante de um tribunal.

Mas nem sempre é assim... às vezes o Lobisomem veste a Toga de Magistrado.

Em 1685, um terrível lobo descrito como uma "besta feroz e incontrolável" aterrorizou a cidade de Neuses no Principado de Ansbach no que hoje e a Alemanha. A fera fazia vítimas e parecia determinada em caçar e matar suas presas com requintes de crueldade. O medo era tanto que as pessoas se trancavam em casa assim que escurecia e ninguém ousava sair. Havia o rumor de que a criatura não era um lobo comum, mas um lobisomem tamanha sua ousadia ao adentrar o vilarejo para aplacar sua sede de sangue.

Na época, o Chefe dos Magistrados de Neuss era um homem cruel e odiado por todos chamado Michale Leicht. Ocorre que esse sujeito acabou morrendo de repente - oficialmente de causas naturais, mas a família não permitiu que ninguém visse o cadáver que foi enterrado. Logo, um estranho boato se espalhou por Neuss, o de que o lobisomem havia sido visto nos arredores da casa do Juiz Leicht espreitando em mais de uma ocasião. Isso fez com que as pessoas passassem a acreditar que o espírito do juiz havia reclamado o corpo do lobo pelos seus muitos pecados.

Certo dia, um grupo de caçadores chegou a cidade e se comprometeu a caçar a fera. Eles conseguiram emboscar o lobo perto de um poço onde o mataram. Até aí, nada de mais, contudo, o que se seguiu a isso foi deveras macabro. O povo de Neuss levou a carcaça do enorme animal até a praça central da cidade onde o prepararam para ser apresentado. Eles colocaram no animal uma toga negra, chapéu e peruca semelhantes às usadas pelos magistrados e um óculos que lembrava o que o juiz usava. Então penduraram o corpo da fera antropomorfizada em uma forca para que toda cidade pudesse apreciar a visão. Dizem que ao longe, a criatura realmente parecia um homem animalesco. Gente de toda região viajava para ver a criatura que muitos acreditavam ter sido morta vestindo aquelas roubas em uma medonha paródia de homem e fera.

Depois de algum tempo, o lobo foi removido da trave de madeira e os restos cuidadosamente empalhados por um taxidermistas. Eles ficaram em exibição na prefeitura local até 1910. Eventualmente foram colocados no museu da cidade por serem considerados excessivamente bizarros.

O terrível caso de Jacques Roulet



Dentre todos os incidentes envolvendo licantropia na França, um se destaca pela natureza absurdamente bizarra e perturbadora dos detalhes. Trata-se do incidente de Jacques Roulet, um caso que nos faz pensar se realmente não haveria algo sobrenatural nos mitos do Homem Lobo.

O ano era 1598 e o lugar, os arredores da cidade de Angiers, na França.

Dois caçadores encontram os restos destroçados de um rapaz de 15 anos. Um enorme lobo está se alimentando do cadáver, arrancando a carne que ainda se agarra aos ossos. Um dos homens atira, mas o animal foge para a floresta. Um deles decide persegui-lo pela mata, lá acaba encontrando um homem semi-nu tentando se esconder atrás de uma moita. Ele está coberto de sangue, sua boca e barba cerrada estão manchados de vermelho com restos de pele, seus olhos são ferozes e animalescos... imediatamente os caçadores decidiram levá-lo até as autoridades.

O homem foi identificado como sendo um vagabundo chamado Jacques Roulet. A investigação a respeito do sangue concluiu que se tratava de sangue humano e depois de ser interrogado ele admitiu ter matado o rapaz de 15 anos. Jacques explicou então que era um lobisomem e que havia contraído licantropia através de uma bebida mágica dada pelos seus pais que eram feiticeiros. Jacques afirmava que seu irmão e primo também se tornaram licantropos da mesma maneira. A seguir, voluntariamente ele começou então a relatar os muitos crimes que o trio havia cometido sob influência da licantropia. 

Além do rapaz recém assassinado, Roulet confessou pelo menos mais uma dúzia de assassinatos brutais. As vítimas em geral eram crianças que andavam sozinhas pela floresta ou recolhidas em aldeias isoladas. O trio costumava capturar essas crianças, soltá-las na floresta e então "caçá-las" da mesma forma que fazia os predadores. Roulet afirmava que o trio assumia a forma de lobos e então perseguiam as vítimas até encontrá-las e matá-las. A excitação da caçada terminava com uma orgia de sangue, na qual a presa era morta e então devorada. O vagabundo contou que o grupo preferia jovens, pois estes tinham a carne mais tenra e saborosa. As descrições de Roulet eram tão minuciosas que as autoridades não tiveram dúvidas de que eram verdadeiras.

Roulet foi condenado por todos os crimes que admitiu ter cometido, a despeito de que apenas o corpo da vítima de 15 anos tenha sido comprovado. Ele foi condenado por assassinato, licantropia, bruxaria e canibalismo e a sentença foia  morte. Contudo um magistrado apelou à Corte de Justiça em Paris alegando que o homem era meramente insano. Ele foi então confinado em uma instituição mental.

O caso de Jacques Roulet é considerado o caso mais documentado a respeito de lobisomem na história da França. Existem dezenas de documentos e precedentes legais no arquivo de Paris à  respeito desse caso em especial. Historiadores acreditam que Roulet sofria de surtos condizentes com um quadro agudo de esquizofrenia e que teria cometido vários crimes nessas circunstâncias. Ele é considerado um precursor dos assassinos em série, e extremamente prolífico para sua época.

O Lobisomem de Allariz


Mas as histórias de Lobisomem não acontecem apenas na França e Alemanha e não estão confinadas apenas ao século XV e XVI.

Notório na Espanha como o primeiro assassino em série daquele país, Manuel Blanco Romasanta foi um lobisomem ativo durante a metade do século XIX. De fato, Romasanta é um caso extraordinário de muitas maneiras.

Nascido em 1809, ele foi criado como menina por uma mãe extremamente autoritária até completar aproximadamente seis anos de idade. Essa condição gerou nele um profundo ressentimento que seria carregado por toda a vida. A mãe havia ameaçado repetidas vezes cortar seu pênis com uma tesoura, o ridicularizava e diminuía. Quando um médico descobriu  que ela estava fazendo, a afastou e Manuel foi morar com tios. Ele cresceu e se casou, arranjando emprego como tecelão. Quando sua esposa faleceu em 1833, ele assumiu o trabalho de vendedor, fazendo frequentes viagens para Portugal e interior da Espanha.

As viagens ajudavam Romasanta a ocultar suas atividades criminosas. Ele era um assassino em série extremamente frio e calculista que usava de sua educação e aparência frágil para se aproximar e matar. Não bastasse as mortes, Romasanta também canibalizava as vítimas, cortava pedaços de pele e buscava órgãos internos que pudesse comer aos bocados. Acreditava ser um lobisomem, quando matava, sentia-se livre de culpa pois era um predador da natureza e como tal não tinha porque atender às leis. Seus crimes eram tenebrosos e entraram para o imaginário popular das nações Ibéricas.

Logo depois, descobriu que poderia remover a gordura dos cadáveres para com ela fabricar sabonetes. Um de seus clientes perguntou como o sabão de qualidade era feito e Romasanta contou em tom de brincadeira que aquela gordura havia vindo de uma menina de determinada cidade. Ocorre que o cliente havia ouvido falar desse crime e preocupado resolveu denunciar o sujeito.

Depois de 12 dias na masmorra ele pediu para ver o delegado responsável pela investigação e disse que queria fazer uma confissão. Manuel Romasanta contou que era culpado de 13 assassinatos. Ele descreveu cada um deles em detalhes, mas afirmou que não poderia ser considerado culpado pois não tinha controle sobre suas ações pois havia cometido os crimes usando a pele de um lobo. Disse também que a última morte havia terminado com sua maldição e que portanto não representava mais um perigo.

Romasanta foi julgado e considerado culpado de quatro mortes. As evidências forenses haviam determinado que os demais crimes que ele assumiu teriam sido cometidos por lobos de verdade, e para não aceitar a teoria de que ele era um Lobisomem, o juízo não admitiu que ele era o responsável. Um exame à luz da Frenologia (um tipo de exame criminalístico muito em voga no período) apontou que Romasanta era insano e não não podia ser culpado pelas suas ações.

Ele foi condenado a pena de morte com garrote, mas esta acabou sendo transformada em prisão perpétua a pedido de um famoso hipnólogo francês. A teoria colhida sob hipnose era de que ele sofria alucinações nas quais acreditava realmente ser um lobo. Em uma das sessões, Romasanta chegou a se comportar como uma fera, sendo inclusive acorrentado para não morder as pessoas que acompanhavam o experimento. Médicos franceses e espanhóis fizeram uma petição para estudar cientificamente o caso de Romasanta, considerado então um legítimo licantropo.

Anos depois de sua prisão, ele recebeu um indulto especial assinado pela própria Rainha  graças a médicos que acreditavam tê-lo curado. Ele passou os seus anos finais em um vilarejo sem que ninguém soubesse de sua verdadeira identidade e do que ele havia feito.