Mostrando postagens com marcador Gaslight. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gaslight. Mostrar todas as postagens

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Cidade Oculta - Os túneis e câmaras por baixo de Edimburgo


Abaixo das ruas da Capital da Escócia, Edimburgo existe um assustador mundo subterrâneo que era considerado assombrado para os supersticiosos na virada do século XVIII.

 As câmaras de Edimburgo, também conhecidas como South Bridge Vaults são únicas por oferecerem ao visitante um ambiente preservado de com era a cidade séculos atrás. Infelizmente a história de South Bridge é tão tumultuada que muitos acreditam que uma maldição pesa sobre esse subterrâneo intocado. Mesmo hoje, muitos dos moradores mais antigos de Edimburgo acreditam que esse não é um lugar para ser visitado. De fato, existe até mesmo a crença de que uma coisa medonhas e maligna habita esses túneis, uma presença conhecida como "A Entidade de South Bridge".

Em um país com tantas lendas e assombrações célebres, os subterrâneos talvez sejam um dos lugares mais temidos, o que em se tratando de Escócia, não é pouca coisa. A despeito de acreditar ou não nas lendas, o subterrâneo é um lugar que suscita pensamentos desagradáveis e atiça a imaginação a conjurar figuras sombrias.

Ao adentrar essas câmaras você se vê em um ambiente absolutamente escuro e estranhamente frio. A luz parece simplesmente incapaz de iluminar esses recessos cavernosos de pedra, concreto e tijolo. Qualquer luminosidade é engolida pelas trevas, provocando uma sensação de isolamento inenarrável. Além disso, o subterrâneo se estende como um labirinto de túneis e conexões tortuosas, algumas em franco processo de desgaste e prestes a desabar. Há ruelas e becos estreitos que forçam o explorador a andar agachado, tateando as pedras frias e cobertas de limo, em um contato físico claustrofóbico. 

As ruas que um dia estiveram na superfície são tortuosas, com pavimentação irregular de paralelepípedos. Um descuido e você acaba tropeçando em uma pedra solta, ganhando um joelho ralado. Na escuridão perpétua, enxergar o caminho só não é mais complicado do que se guiar. Não são poucas as pessoas que resolvem entrar nos subterrâneos e acabam se perdendo, vagando à esmo pelas estruturas em busca da saída.


A História desses subterrâneos é igualmente obscura e se todos os detalhes a respeito dela fossem conhecidos, é bem provável que até os mais destemidos as evitassem.

A estrutura da South Bridge (Ponte Sul), formada por dezenove arcos foi erguida sobre essa porção da cidade em 1788. A monumental obra de arquitetura e engenharia recobriu a parte antiga da cidade sob um domo de concreto armado, colocando nas sombras tudo o que existia lá embaixo como um caixote. Com efeito, as pessoas que moravam naquela área resolveram abandonar a vizinhança insalubre e escura, deixando tudo para trás.

Os primeiros anos da nova ponte foram marcados por um fato inusitado.

Quando a obra estava próxima de ficar pronta, a moradora mais antiga da região, a viúva de um Juiz conhecido pela austeridade foi convidada pela prefeitura de Edimburgo para ser a primeira a cruzar a ponte. Até aí, tudo bem, mas infelizmente, dias antes da inauguração a mulher adoeceu e as festividades tiveram de ser canceladas. Pouco depois, a idosa acabou falecendo, mas o prefeito decidiu que a promessa feita tinha de ser cumprida. Dessa forma, a primeira pessoa a "atravessar" a extensão da ponte foi o "corpo" da mulher em um caixão colocado numa carruagem fúnebre. No meio do caminho, o féretro foi interrompido e os cavalos se assustaram, os animais dispararam e atropelaram pessoas que estavam nas laterais da ponte, derrubando alguns lá do alto.  

Os moradores mais antigos ficaram horrorizados! A ponte estava amaldiçoada! A maioria dos moradores da região simplesmente se negavam a atravessar a ponte, preferindo ao invés disso adotar um caminho muito mais longo e complicado, através do Vale de Cowgate.


Para piorar as coisas, meses depois do acidente com a carruagem fúnebre, um dos engenheiros responsáveis pela obra quis mostrar que não havia nenhum perigo na travessia. Na metade do caminho, dizem, no exato local em que ocorreu a tragédia, ele sentiu um mau súbito e caiu fulminado vítima de um ataque cardíaco. Para alguns a causa mortis era muito mais séria: uma maldição.

Hoje em dia, é fácil culpar a falta de informação e ignorância das pessoas da época que eram realmente supersticiosas, mas ao longo dos séculos ficou claro que a ponte colecionava acontecimentos estranhos, nem todos passíveis de uma explicação razoável.

Por exemplo, dizem que o som de cavalos galopando velozmente pode ser ouvido de tempos em tempos no alto da ponte. Também se comenta muito a respeito de uma carruagem fúnebre, com plumas negras sendo puxada por cavalos de olhos vermelhos e cascos de fogo. A crença de que fantasmas das pessoas mortas na tragédia assombram o local é corroborada, segundo alguns, pelos lamentos e gritos que podem ser ouvidos na madrugada quando um nevoeiro denso cobre a ponte.

Também não ajuda em nada o fato da South Bridge ter se tornado um popular ponto de suicídio. A desconcertante quantidade de pessoas que escolhem esse lugar para se lançar do alto rumo a escuridão, motivou a construção de um posto de guarda para prevenir suicidas e posteriormente de uma cerca de ferro. Ainda assim, muitos saltam do alto da ponte, sendo que alguns infelizes, calcularam mal a trajetória e acabam empalados na cerca de ferro que deveria prevenir sua queda.

Mas voltemos a falar do subterrâneo que existe abaixo de Edimburgo.


Por cerca de 30 anos, as câmaras ficaram vazias, mas aos poucos elas foram sendo redescobertas por pessoas mais pobres e comerciantes que não tinham recursos para montar seus negócios em áreas mais nobres. Pequenas tavernas, bordéis de má fama e casas de ópio, além de ocasionais negócios legítimos ocupavam as casas decrépitas da Velha Edimburgo. O lugar era o paraíso de contrabandistas que encontravam espaço de sobra para esconder suas mercadorias roubadas. Também era um lugar para se esconder das autoridades, ao menos até elas pararem de procurá-los. Não é por acaso que no início do século XVIII o crime nessa região de Edimburgo atingiu um índice preocupante. Os subterrâneos eram o covil de bandidos, de assassinos e ladrões da pior estirpe que tinham ali uma espécie de refúgio regido pelas suas próprias leis. Até mesmo um tribunal improvisado e clandestino julgava as transgressões e punia aqueles considerados culpados - criminosos entre criminosos. 

Nesse submundo sórdido, negócios de toda natureza aconteciam sem a preocupação de que a polícia pudesse perturbá-los. Dizem que assassinos podiam ser contratados por algumas moedas, mercadores de escravos agiam livremente, prostituição e casas de jogo abundavam. Vício era algo corriqueiro e as casas de tolerância eram as mais decadentes da Escócia, aceitando sadismo, tortura e pedofilia atrás das cortinas de veludo escuro. A violência ocorria na frente de todos sem que ninguém se importasse. Corpos eram jogados nas calhas de água que levavam para fora.

A razão para toda essa ousadia era simples, a parte baixa de Edimburgo era uma verdadeira fortaleza onde a polícia não ousava interferir. Era virtualmente impossível entrar sem ser percebido. Ao primeiro sinal de encrenca, haviam incontáveis túneis para onde era possível escapar, inclusive sistemas de esgoto que conduziam para o outro extremo da cidade. Além disso, havia um acordo entre policiais e criminosos: desde que a sujeira ficasse restrita ao Subterrâneo, eles não seriam incomodados.   

Segundo rumores, os assassinos em série Burke e Hare, famosos por suprir as Escolas de Medicina (você leu o artigo a respeito?) com "material fresco" usavam um depósito no submundo para esconder suas vítimas. Dizem que os cadáveres ficavam ocultos no porão de um velho depósito em meio a uma pilha de palha seca. A temida quadrilha dos Degoladores também agiam no subterrâneo, apelidado de Hades (o místico inferno clássico). Os degoladores não usavam meramente esse nome, eles eram conhecidos por matar seus inimigos e arrancar suas cabeças com um garrote especial produzido com fios resistentes cobertos de cola e vidro moído.

Mas o Reino de Criminosos que proliferou nos subterrâneos de Edimburgo estava com os dias contados. Não seria a polícia a por um fim a suas atividades, embora a sociedade pedisse medidas imediatas. Foram as próprias condições de flagrante deterioração que contribuíram para sua ruína tornando o ambiente tão insalubre que nem mesmo os criminosos queriam ficar lá embaixo. A fumaça de fogareiros alimentados com carvão queimando dia e noite não tinha para onde ir e começou a se acumular nas câmaras tornando o ar irrespirável. As pessoas adoeciam e precisavam de máscaras para suportar o cheiro de fumaça misturado com o fedor de comida, lixo e esgoto.


As casas de comércio clandestinas fecharam suas portas e já em meados de 1850 apenas os mais pobres entre os mais pobres de Edimburgo aceitavam morar em habitações tão precárias.

Não se sabe ao certo quando o complexo de túneis foi fechado por completo e bloqueado pelos homens da prefeitura. Alguns acreditam que o fechamento se deu em 1855, mas outros creem que o subterrâneo continuou sendo habitado até meados de 1875. Não há documentos falando a respeito desse período, sobretudo porque essa verdadeira favela subterrânea era considerada uma vergonha para a população de Edimburgo. Tudo o que se sabe é que em 1890 toneladas de lixo foram descarregados dentro dos túneis tornando o acesso impossível.  

As câmaras sob South Bridge foram redescobertas por Norrie Rowan, um ex-jogador de Rugby e historiador amador que descobriu um túnel de acesso não obstruído no início dos anos 1980. Cerca de cinco anos mais tarde Norrie e seu filho escavaram uma das câmaras passando por toneladas de detritos até chegar a uma das ruas subterrâneas perfeitamente conservadas.

No anos seguintes, as câmaras que compreendem a South Bridge e o Arco Cowgate se tornaram parte do roteiro de passeios guiados da cidade. Os turistas tinham a chance de ver como eram as ruas e os prédios construídos há 300 anos. Um pedaço da história perfeitamente preservado surgia diante deles. No entanto, apenas uma pequena parte do subterrâneo era acessível aos visitantes. Limpa e iluminada ela era uma atração para os entusiastas de história, contudo a maior parte das câmaras se encontrava fechada e raramente via algum movimento. Pesquisadores e historiadores tinham permissão para explorar os túneis e frequentemente retornavam de seu interior escuro com algum artefato de eras passadas.

Sabe-se também que desabrigados e mendigos viviam nesses túneis que também eram usados por criminosos e drogados. Com essa população marginal, não era de se estranhar que fosse um lugar perigoso, altamente desaconselhável para curiosos. Mesmo assim, todo ano alguém se perdia nesse labirinto. As pessoas simplesmente eram atraídas pela aura de mistério e decadência do lugar e quando se davam conta, estavam perdidas.


Como não poderia deixar de ser, o que não faltam são lendas e rumores sobre fantasmas na parte mais escura de Edimburgo.

"É um lugar muito sinistro. Há muitos, muitos espíritos lá embaixo", conta Nicola Wright, um dos guias que tinham autorização para descer na Cidade Subterrânea. Wright trabalhou por 15 anos levando turistas ao local e disse ter visto muitas coisas estranhas.

"Uma aparição recorrente era a de um homem de meia idade que corria pelos corredores com a garganta cortada. Seus passos podiam ser ouvidos ecoando pelas câmaras baixas. Dizem que ele foi vítima da gangue dos Degoladores. Também existia o fantasma de uma mulher, possivelmente uma prostituta que trabalhou em um dos bordéis que existiam na cidade baixa, a figura já foi vista várias vezes espiando do alto de uma janela, fazendo sinais e insinuações para quem passa".

Há ainda a famosa Entidade de South Bridge, um monstro envolto num manto de névoas esvoaçantes. Ele se aproxima das pessoas e as envolve com uma fumaça congelante as deixando aterrorizadas. Essa famosa "entidade" seria o terror de vários investigadores psíquicos que se disseram profundamente perturbados por uma presença maligna espreitando nos túneis. Um famoso médium aceitou acompanhar uma equipe de televisão até os subterrâneos onde entrou em contato com a entidade. Segundo ele, o contato foi tudo menos amistoso, o medium mostrou duas marcas de mordida que apareceram em seu ombro logo que ele tentou estabelecer um transe.

A entidade seria responsável por causar crises de pânico e surtos de desespero em indivíduos sensitivos. Também são reportadas súbitas mudanças de temperatura, com bolsões congelantes, ruídos estranhos e atividade psicocinética com direito a objetos voando. Em pelo menos três oportunidades objetos de madeira se incendiaram espontaneamente e em outras tantas ocasiões pessoas sentiram empurrões e mordidas.

Em 2001 o Professor Richard Wiseman da Universidade de Hertfordshire conduziu um estudo psicológico com pessoas que foram convidadas a passar várias horas no interior das câmaras. Seu objetivo era determinar se pessoas que acreditavam no sobrenatural eram mais propensas a presenciar ocorrências sobrenaturais do que as que não acreditavam. Segundo a teoria de Wiseman pessoas que acreditavam no paranormal criariam em sua mente situações ou eventos sobrenaturais espontaneamente. O resultado foi surpreendente: não apenas as pessoas suscetíveis, mas aqueles que se disseram céticos relataram ter visto ou sentido coisas estranhas durante sua permanência na cidade subterrânea. Muitos dos céticos estavam mais assustados do que os crentes a ponto de um dos ditos céticos implorar para retornar depois de um encontro com a "Entidade de South Bridge".


Com tudo isso o que podemos concluir a respeito desse lugar? Sem dúvida, os subterrâneos de Edimburgo são um lugar escuro e triste, com uma longa e macabra história de crime, violência e desespero. Para os parapsicólogos, emoções fortes e situações traumáticas deixam um rastro no tecido psíquico mesmo que tenham ocorrido há muito tempo. É como riscar um fósforo em uma sala lacrada e ainda poder sentir o seu cheiro horas depois. Episódios traumáticos e ocorrências violentas deixam o mesmo resquício que ainda podem ser captados. Se isso for verdade, os fantasmas de Edimburgo parecem ter um lugar de encontros muito propício.

Em 2015, a prefeitura da Cidade de Edimburgo decidiu proibir as Visitas Guiadas e fecharam os túneis ao público. 

Atualmente as visitas são estritamente monitoradas por motivos de segurança... ou assim dizem.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Lugares Estranhos: Glamis, Segredos do mais assombrado Castelo da Escócia

"Se soubesse dos segredos desse castelo, você se colocaria de 
joelhos e agradeceria a Deus por ele não ser seu".

Conde de Strathmore, 
Lorde de Glamis

O terrível Segredo do Castelo de Glamis (pronuncia-se "Glarms") foi um dia um dos assuntos mais comentados nas cortes da Europa no século XIX ao início do Século XX. Entre 1840 e 1910, o Castelo, localizado, nas Terras Baixas da Escócia, foi o centro do "mistério dos mistérios", um enigma que envolvia entre outras coisas câmaras ocultas, passagens secretas, adoração diabólica, escândalos profanos e figuras sombrias espreitando atrás das muralhas do castelo.

O tal mistério envolveu gerações de nobres até que, em meados de 1910, o segredo em si se perdeu. Uma das versões da história afirmava que o segredo era tão tenebroso que um dos herdeiros do Conde ao tomar conhecimento dele, trancou-se em um dos aposentos no alto de uma torre, cogitando se lançar lá de cima. Ao invés disso ele partiu jurando que nunca mais colocaria seus pés em Glamis, promessa solenemente cumprida. Ainda assim, o Mistério de Glamis  permanece. Ele seria protegido por um grupo ligado a nobreza britânica (contando com pessoas da própria família real) e por indivíduos fiéis a um juramento.

Mas até que ponto a lenda substituiu a verdade?

O soturno Castelo de Glamis é mencionado por Shakespeare, em sua obra prima Macbeth, descrito como "um lugar ermo e assombrado". Em 1034 o Rei da Escócia, Malcolm II morreu atrás de suas paredes, ou mais provavelmente, foi assassinado em um dos seus muitos aposentos. Criados que trabalharam lá, falavam de fantasmas e sombras que se moviam pelos corredores e escalavam os muros, misturando-se à escuridão das ameias. 

Não faltam lendas a respeito desse lugar amaldiçoado, e após conhecê-lo, tais rumores, por mais bizarros que sejam, soam estranhamente razoáveis. O Castelo em sua forma atual foi concluído no século XV, tendo como base uma torre retangular cujas paredes chegam a quase cinco metros de espessura. Uma construção quase inexpugnável, erguida para proteger quem está dentro, ou talvez para impedir que algo lá dentro saísse.


Glamis foi o berço de poder da Família Strathmore desde o término de sua construção, mas no fim do século XVIII a propriedade já estava deserta; seus donos preferiram viver em um lugar não tão isolado, sem tantas correntes de vento e menos melancólico. Culpavam o clima e as agruras do isolamento, mas à boca miúda circulavam outro rumores. Estes davam conta de que uma miasma nauseante brotava do solo, que uma névoa maligna perpétua pairava sobre o lugar, que coisas ruins aconteciam com alarmante frequência: Mulheres grávidas abortavam, homens saudáveis adoeciam, acidentes fatais ocorriam nas escadas, sacadas e diante de janelas, suicidas encontravam o motivo final para dar aquele passo derradeiro rumo a tragédia. Havia claramente algo ruim naquele lugar, algo que compelia as pessoas a abraçar o esquecimento. Alguns diziam que era uma presença, uma forma invisível, que embora imaterial, ainda podia ser percebida. Algo essencialmente ruim e imensamente destrutivo com forma de pesadelo e essência de horror.

Na ausência de habitantes (ao menos vivos), Glamis foi deixada aos cuidados de um Administrador de Terras, e foi a esse sujeito que o jovem escritor Walter Scott escreveu em 1790 pedindo permissão para passar um final de semana no local. Scott foi o primeiro de muitos autores que perceberam a atmosfera opressiva do castelo e desejaram investigar por conta própria seu passado. Ele escreveu em um artigo publicado em 1830: 

"Uma vez sozinho, não demorou para que eu sentisse que era a única coisa viva no Castelo e mesmo assim,que não estava inteiramente só. Enquanto permaneci lá dentro, senti que havia outra presença; algo muito próximo da morte e que não encontrava descanso".


Dizem que o grande novelista vagou sozinho pelos corredores, salões e câmaras desertas de Glamis durante o tempo que foi seu hóspede solitário. Na exploração, auxiliado apenas por um castiçal de luz tênue, afirmou ter descoberto um aposento oculto - um lugar lacrado há muito tempo, onde violência e morte ainda impregnavam a pedra nua. Conta-se que naquele aposento nefasto haviam ocorrido missas negras e o Sabbath de feiticeiros que invocaram demônios. A existência de tal lugar, segundo Scott, era conhecida apenas pelo Conde, pelo administrador e pelo herdeiro. O aposento havia sido isolado com uma parede falsa e lá dentro ainda se encontrava um altar consagrado ao serviço de Lúcifer sobre o qual pendia suspensa uma cruz invertida. Segundo os rumores, vários outros aposentos que serviam ao mesmo fim foram igualmente selados para que ninguém jamais soubesse dos horrores que ali dentro haviam transcorrido.

Apesar da descrição minuciosa e das implicações sobre o passado de Glamis, seria outra lenda igualmente chocante que ganharia a atenção do mundo nos séculos seguintes. Ela também consolidaria o Castelo como um dos lugares mais malditos do mundo. Segunda essa lenda, Glamis, não estaria totalmente vazio, haveria um prisioneiro misterioso residindo em um aposento secreto por toda sua vida.


Um correspondente do jornal Notes and Queries, escreveu em 1908 a respeito da lenda:

O segredo foi revelado por um criado que serviu a casa por mais de 60 anos, uma indiscrição considerável e um segredo escandaloso. Segundo a informação, o Castelo de Glamis possuía várias câmaras secretas: e nelas estaria confinado um monstro, que seria o verdadeiro herdeiro do título e da propriedade. Ele foi aprisionado desde seu nascimento, escondido dos olhos curiosos e acusadores, como se jamais tivesse existido, visto que a sua aparência era abominável e causaria constrangimento à família.

A identidade desse misterioso prisioneiro se tornou motivo de considerável especulação entre famílias nobres na Inglaterra e no resto da Europa. 

As pessoas acreditam que ele pudesse ser um membro da Família Strathmore, possivelmente o primogênito do Décimo Primeiro Conde, portanto, herdeiro legítimo do Título e Senhor de Glamis por direito sucessório. Defensores da teoria apontavam para uma anotação em um Livro Nobiliárquico, o Douglas’s Scots Peerage, no qual consta que o primeiro filho do Lorde de Glamis, casado com Charlotte Grimstead, havia nascido em 21 de outubro de 1821 e morrido apenas três dias depois. Acredita-se que a criança tenha nascido com uma grotesca deformidade e que sua morte tenha sido forjada. Não existe contudo nenhuma sepultura pertencente a essa criança e não se sabe onde ela foi enterrada. A criança teria sido levada a uma das câmaras lacradas do Castelo, as mesmas câmaras malditas usadas em celebrações profanas transformadas dali em diante no seu lar. Ali era cresceu e se converteu em algo aterrorizante, desejando vingança por tudo que sofreu e pelas privações que lhe foram impostas.


Muitos se perguntavam o que poderia ter acontecido com o herdeiro caso a história fosse verdadeira. Aos poucos, a lenda começou a ganhar contornos especulativos que incluíam até mesmo o fato do herdeiro ter se envolvido com as forças diabólicas que um dia haviam sido invocadas. Alimentado por aquele mal diabólico, o herdeiro teria se tornado algo bem pouco humano.

Vários convidados de Glamis durante a Era Victoriana tentaram descobrir a verdade sobre o segredo do Castelo. Acreditavam que localizando as passagens secretas e portanto as câmaras ocultas, poderiam solucionar o destino do herdeiro desconhecido. Alguns cogitavam que ao encontrar esses acessos poderiam talvez descobrir os ossos deformados e cobertos de poeira do herdeiro. Outros supunham que os anos de isolamento haviam deixado o pobre diabo completamente louco e que por isso, seu fantasma ainda estaria assombrando o local. 

Pode soar como o roteiro de uma novela de Horror Gótico, mas muitas pessoas na época realmente acreditavam nessas teorias. Apontavam a maneira como os membros da Família Strathmore tratavam aqueles dentre eles considerados como "ovelhas negras". Havia rumores de incesto, violência, sadismo entre outras coisas. Após a Grande Guerra, Katherine e Nerissa Bowes-Lyon, primas em segundo grau da Rainha Elizabeth II, e parte dos Strathmore, foram consideradas mentalmente instáveis - em parte por terem ideias modernas demais. Ambas foram interditadas e trancafiadas em asilos onde terminaram seus dias esquecidas pelos demais.  

A Família Strathmore sempre foi alvo de muitas suspeitas quanto a casamentos celebrados entre primos muito próximos o que teria resultado em nascimentos problemáticos. O grande número de crianças abortadas causava estranheza, era como se uma maldição pairasse sobre suas cabeças.


Outro tema sujeito a debate dizia respeito a aparência grotesca do "Monstro de Glamis". Há histórias de grandes sombras, mais escuras do que o normal e de horríveis deformações.

Um dos lugares mais assombrados do Castelo tem um nome sugestivo, é uma passagem chamada "Mad Earl Walk" (A Passagem do Conde Louco). Uma narrativa datando de 1865 diz que um criado recém contratado para cuidar da propriedade se perdeu no interior do Castelo e quando vagava por um corredor percebeu uma porta aberta. Entrando para explorar o aposento, o homem viu "alguma coisa" no final da câmara que começou a se arrastar pelo chão na sua direção como se fosse uma "poça de tinta viva". O sujeito fugiu em disparada aos gritos e foi encontrado em choque. Quando contou o que havia visto, os colegas se puseram a procurar o aposento, mas não o localizaram aquilo que seria uma das câmaras secretas. A experiência foi tão traumática que o criado pediu suas contas e imigrou para a Austrália, com a passagem paga pelo próprio Conde de Strathmore.

Uma outra narrativa, afirmava que o monstro seria parecido com um sapo-humano.

A única descrição detalhada surgiu em meados de 1960, quando o escritor James Wentworth-Day ficou algum tempo em Glamis enquanto escrevia a biografia da Família Strathmore. De alguns criados de confiança, Day ouviu o relato de que "um monstro havia nascido na propriedade". Ele seria o herdeiro do título, mas ao mesmo tempo, uma criatura apavorante de contemplar. Era impossível permitir que aquela "caricatura deformada de ser humano" fosse vista - mesmo pelos amigos mais próximos. Seu peito era como um enorme barril, sua face coberta de verrugas, a cabeça desproporcional e inchada, braços e pernas curtos e finos pendendo como galhos. De sua boca escorria um fio perpétuo de saliva grossa. Ele não falava de maneira compreensível, mas gemia e murmurava para si próprio. Apesar de todas as suposições de que ela não sobreviveria, a criança se fortaleceu e atingiu a maioridade.

Dizem que pior que a sua aparência bestial era a disposição para fazer coisas perversas. Costumava assustar os poucos criados de confiança que o serviam, os empurrava das escadas e não perdia a chance de atear fogo em qualquer coisa se tivesse a oportunidade. Também havia desenvolvido uma paixão por torturar pequenos animais como pássaros e ratos que conseguia agarrar no forro nos corredores. Dizem que chegou a atacar mais de uma criada, sempre as mordendo na face, oq ue produzia cicatrizes horríveis. O herdeiro parecia se deliciar com o sofrimento alheio e estava desenvolvendo um gosto peculiar por causar dor.


Algumas narrativas nesse ponto se tornam ainda mais macabras relatando que ao atingir 19 anos, os demais irmãos teriam decidido dar cabo do inconveniente. Dois homens de confiança do Conde foram chamados para eliminar o rapaz colocando veneno em sua refeição. Em seguida carregaram o corpo desacordado para uma das câmaras secretas e ergueram uma parede de tijolos para que ninguém o encontrasse. Uma das lendas mais medonhas afirma que o veneno não foi suficiente para matar o herdeiro e que ele ainda conseguiu se recuperar acordando na escuridão, em um cômodo de onde não havia escapatória. Lá ele agonizou por dias até morrer de inanição, aos gritos e prantos.  

Há outras histórias misteriosas a respeito de Glamis, muitas delas envolvendo as câmaras secretas cuja localização continuam desconhecidas. Plantas oficiais relatam a construção de ao menos uma câmara oculta na base da torre, mas muitas outras provavelmente existiam já que construir acessos secretos em propriedades nobres era algo corriqueiro. Passagens secretas em castelos eram usadas não apenas para escapadas noturnas de seus senhores, mas para que, na iminência de um cerco os nobres pudessem fugir de invasores.

Um convidado aristocrático, Lorde Ernest Hamilton, escreveu em seu diário a respeito da descoberta de uma passagem escondida sob um alçapão no chão do Quarto de Vestir do Aposento Azul. Uma passagem que ligava o aposento a um corredor e então a outro cômodo contíguo. O New York Sun publicou um artigo em 1904 a respeito de outro hóspede que encontrou uma passagem secreta em Glamis:

Em certa ocasião, um jovem médico que estava passando alguns dias na propriedade por razões profissionais, encontrou ao retornar para seu quarto um alçapão escondido em baixo do carpete. Ele percebeu que havia uma marca distinta naquele ponto e removendo o carpete encontrou um alçapão, que forçou, revelando a existência de uma passagem. O corredor terminava em uma parede de tijolos. O cimento ainda estava molhado como se tivesse sido erguido recentemente. Ele retornou ao quarto, e na manhã seguinte foi chamado pelo Chefe dos Criados, que lhe entregou um cheque e o avisou que uma carruagem o esperava. Seus serviços não eram mais necessários e sua passagem havia sido agendada no primeiro trem para o Sul.


Nem todos os relatos envolvendo o Mistério de Glamis são anônimos. Sir Horace Rumbold, um diplomata britânico relatou uma história que teria ocorrido em 1875, quando a esposa do Conde pediu a um grupo de amigos pessoais que a ajudassem a organizar uma busca pelos aposentos secretos enquanto o marido estava viajando.

Os convidados buscaram pelas passagens secretas que permitiriam acesso aos cômodos ocultos e por acaso um dos convidados localizou um mecanismo engenhoso que abria uma porta até então desconhecida. Infelizmente antes que pudessem explorar o aposento o Conde retornou e furioso ordenou que os convidados fossem expulsos. Segundo os relatos da época, o Conde era um homem irascível, sem paciência para esse tipo de brincadeira, ainda mais dentro de sua propriedade. Antes de expulsar os convidados, alertou a todos que não iria tolerar mais nenhuma fofoca a respeito de Glamis e que estava cheio de tantas lendas.

O Conde teria relatado ao seu filho mais velho, já no leito de morte, que a "influência sinistra do Castelo era uma espécie de maldição passada para todos na família. E que a despeito dessa maldição era responsabilidade de cada Conde preservar Glamis". Uma das primeiras medidas do 13o. Conde foi restaurar a Capela do castelo que estava em estado de abandono. As obras de restauração foram concluídas em 1889, e de acordo com o Penny Illustrated Paper, "um convidado que estava desfrutando de um fim de semana no castelo, passou diante da capela. Lá ele conseguiu ver uma figura ajoelhada em oração diante do altar. A imagem era tão real que ele conseguiu ouvir o som de soluços evidenciando que eles estava chorando. Mais tarde, o convidado relatou o que havia visto e chocados os anfitriões disseram que a descrição do indivíduo encaixava perfeitamente na aparência do falecido avô do Conde".

Outros visitantes contaram histórias similares a respeito de ruídos estranhos, figuras espectrais e correntes d evento frio soprando de lugar nenhum. Virginia Gabriel, uma famosa cantora foi hóspede do Castelo em 1896 e contou ter testemunhado estranhos fenômenos na propriedade entre os quais o som de correntes e batidas que vinham de trás das paredes. Andrew Ralston, outro ilustre hóspede contou que durante uma tempestade teve de ser mudado de quarto por não conseguir dormir com a sinfonia de batidas e arranhões que ouvia provenientes das paredes.    

Ele escreveu em seu diário o seguinte comentário:

"Lady Strathmore certa vez confidenciou a minha esposa que sofria de grande ansiedade quando era obrigada a vir ao Castelo que pertencia a Família de seu marido. Ela desejava desvendar o mistério, mas temia que a revelação pudesse ser por demais chocante. Seu marido a proibiu de falar a respeito do que ele classificava como tolices, mas ela sabia que havia de fato algum segredo em Glamis. Algo que perturbava não apenas seu marido, mas outras pessoas próximas a ele que juraram preservar o segredo".


Um dos rumores persistentes é que o 13o. Conde faleceu em 1910 sem compartilhar com seu herdeiro a natureza do segredo. Outros afirmam que ele ordenou aos depositários do segredo que poupassem seu filho do infortúnio de conhecê-lo. Há rumores de que estes tentaram revelar a história, mas que o herdeiro se negou a ouvi-los e os expulsou de sua presença. Pouco antes de morrer em 1960, o 14o. Conde Strathmore declarou que desconhecia e que jamais desejou saber, do que tratava o Segredo de Glamis. "Eu nunca soube de nada e fico feliz de não saber de nada. Essa revelação aparentemente não trouxe nada a minha família senão tristeza".

Isso no entanto, não quer dizer que o segredo se perdeu por completo.

Pessoas muito influentes na nobreza britânica supostamente continuaram compartilhando do mistério sem jamais deixá-lo transparecer ao público, quase como uma Irmandade incumbida de proteger Glamis e seu passado. Qual o teor desse segredo e porque ele era tão importante, ninguém sabe ao certo. Presume-se que o segredo envolveria a alta nobresa britânica, talvez até uma indiscrição quanto a linha sucessória.

Em 1976, o então Conde de Strathmore decidiu alugar o Castelo de Glamis a um valor bastante elevado. O fato do Conde aceitar alugar a ancestral propriedade de sua família sugere que toda e qualquer conexão existente dele com o celebrado mistério haviam desaparecido. Não havia mais necessidade para manter segredos ou salvaguardar os aposentos secretos.


Será que o Mistério do Castelo de Glamis não passava de uma mera fofoca?

Os rumores de aposentos ocultos e passagens secretas, de herdeiros monstruosos e horrores diabólicos provavelmente não passavam de simples fábulas e como tal elas foram caindo no esquecimento a medida que as pessoas perdiam o interesse nelas.

Mas o que dizer das muitas histórias sobre assombrações e bruxaria? De passagens secretas e câmaras que serviam a vis propósitos? De monstros deformados escondidos? Será que tudo isso também não passava de lenda?

Bem, a verdade nesse caso parece fadada a não ter uma solução.

Ao menos, não nessa vida...

domingo, 22 de janeiro de 2017

O Assassino do Aqueduto - O maior assassino da história de Lisboa


Assassinos em série não são um fenômeno localizado.

Indivíduos que matam repetidas vezes sem aparente motivo ou por motivos torpes não são uma exclusividade de um determinado lugar, de uma determinada condição social ou mesmo de uma determinada época.

Infelizmente eles podem surgir em qualquer lugar e qualquer época.

No início do século XIX, Lisboa, a Capital de Portugal era um lugar seguro e pacífico que atraía viajantes e comerciantes de toda Europa. Embora o Império Ultramarino português já estivesse em franca decadência se esfacelando e perdendo suas mais importantes possessões Além Mar, o Reino ainda guardava uma aura cosmopolita graças ao influxo de estrangeiros aos portos, misturando seus costumes, tradições, cores e idiomas.

Mas em 1837, os habitantes de Lisboa foram apresentados a um horror sem nome que os aterrorizava e deixava a cidade em um estado de profundo medo e paranoia. Lisboa de uma hora para outra se transformava na capital do crime e de assassinatos, algo sem precedente até então.

Cidadãos ricos e pobres eram as vítimas. Homens, mulheres, velhos e crianças, gente de rua, lisboetas e estrangeiros de passagem, mercadores, mascates, marinheiros, prostitutas... em suma, qualquer um podia ser vítima do maníaco sem face que atacava na área do Aqueduto das Águas Livres. As vítimas do louco eram estranguladas e então atiradas do alto do  Aqueduto, vindo a se estatelar no piso de pedras dezenas de metros abaixo. Alguns caíam ainda aos berros, ecoando seu grito pesaroso enquanto mergulhavam. As cabeças batiam e se estraçalhavam no pavimento como melões maduros, lançando miolos e fragmentos de ossos, espirrando sangue que lavava os azulejos e ladrilhos.

As autoridades lisboetas pareciam sempre um passo atrás na caçada pelo culpado.

Cartão com a imagem do Aqueduto como era no século XIX
De nada adiantava dispor guardas armados ou homens à paisana nas ruas e arredores se misturando aos andarilhos que frequentavam o lugar. O matador continuava a ludibriar a todos. Logo após arremessar uma nova vítima, desaparecia sem deixar pistas como se fosse feito de fumaça, conforme sugeriam algumas pessoas. Logo se espalhou o boato de que não se tratava de um homem, mas de um demônio perverso, saído do próprio Inferno para testar a fé dos religiosos portugueses.

Pessoas rezavam e pediam proteção aos seus santos de devoção. À noite, ninguém saía sozinho, qualquer expedição às ruas desertas de Lisboa era feita em grupos que gritavam escandalosamente logo que avistavam alguém vindo no sentido inverso. Em mais de uma oportunidade, inocentes foram acusados de serem o louco e surrados pela turba aterrorizada. Mas a despeito dos esforços, as mortes continuavam acontecendo fora de controle.

O Aqueduto era um caminho vital para os lisboetas, sobretudo os que viviam do comércio de hortaliças. Cruzar o Aqueduto era um atalho para o centro da Capital; estudantes passavam apressados e mercadores carregando cestas, sacas e caixas de um mercado para outro usavam as escadas para cortar caminho. Ao regressar para suas casas, muitos faziam o mesmo percurso, trazendo nos bolsos o dinheiro ganho durante o dia de trabalho árduo. Alguns estavam cansados e desatentos o que os tornava presas fáceis para o louco.

O modus operandi do assassino era sempre o mesmo. Ele esperava em um dos vários recessos e cantos pouco iluminados do Aqueduto. Quando escolhia uma presa, atacava com precisão, às vezes com uma facada precisa na garganta para limitar os pedidos de ajuda, em seguida capturava a vítima e à arrastava para um dos nichos escuros onde a estrangulava ou apunhalava outras vezes. Ali o desacordava e o deixava entre a vida e a morte. Em seguida, apanhava o pobre coitado e o lançava para uma morte certa. Antes disso, o assassino removia tudo que fosse de valor, dinheiro e jóias se as tivesse. O roubo parecia motivar a maioria das mortes, contudo, em alguns casos, o louco parecia agir apenas pela maldade em sua alma, matando mendigos sem um tostão.

O caminho através do Aqueduto mudou pouco ao longo dos anos.
Sem conseguir dar uma solução para as mortes, a polícia decidiu fechar o Aqueduto das Águas Livres e proibir o acesso dos transeuntes após o cair da noite, medida que se prolongou por vários anos. As mortes nesse caso cessaram, ainda que apenas o modo de atuação do criminoso tenha mudado, ele continuou matando indiscriminadamente pela cidade.

Ninguém sabia, mas o assassino estava bem de baixo do nariz de todos, um homem forte de nome Diogo Alves que trabalhava carregando mercadorias de um lado para o outro do Aqueduto e que já havia feito serviço no porto como estivador.

Nascido na Espanha, ele havia cruzado a fronteira para se instalar em Lisboa com apenas 10 anos. A bela cidade o acolheu de braços abertos nos primeiros anos de 1800, mas o rapaz nãos e dava bem com praticamente ninguém. Era calado, introspectivo e com uma índole violenta que afastava as outras crianças. Dizem que quando criança gostava de encurralar gatos e cães para estrangulá-los. Erguia os animais com as mãos e apertava seus pescoços com força enquanto mirava em seus olhos, observando a vida se esvaindo a medida que aumentava a pressão de seus dedos. Todos eram da opinião que o menino de cabelos loiros e olhos azuis era muito mal. Quando repreendido ficava quieto, olhava para os pés e pedia desculpas sempre dissimulando o ódio que lhe ardia no peito.

Já adulto, Diogo, que era chamado de galego arranjava confusão em tavernas, mas sempre se safava com um talento para arranjar desculpas e culpar os outros. Havia se metido em vários roubos e furtos, mas nunca havia sido preso graças ao talento de se esquivar de qualquer acusação. Nessa época conheceu uma mulher chamada Gertrudes Maria que tinha um estabelecimento na Zona de Palhavã e de quem se tornou amante ocasional, apesar de lhe agenciar como cafetão.

O Aqueduto em fotografia do século XIX
Imagem de um filme realizado em Portugal no ano de 1909 a respeito dos crimes.
Gertrudes, que respondia pelo apelido de "Barreirinha" estimulava o comportamento violento de Diogo Alves dizendo que alguém forte e esperto como ele estava fadado a grandes coisas. O trabalho não traria qualquer benefício, era preciso tomar dos outros o que eles tinham. Dizem que foi a influência de Gertrudes que lançou o Galego no mundo do crime. Ela atraía homens, na maioria marinheiros estrangeiros para seu quarto, onde Diogo os roubava. Mas não demorou para que os roubos evoluíssem para algo mais sério, visto que tanto Diogo quanto Gertrude tinham enorme prazer em ferir suas vítimas até o ponto de quase matá-los. Não se sabe, mas é razoável assumir que nesse período Diego e Gertrude tenham matado algumas de suas vítimas, abandonando seus corpos em vielas escuras, bordéis sórdidos e tavernas desertas para onde a mulher os conduzia.

A carreira de assaltante de Diogo deu uma importante guinada quando ele conseguiu arranjar as chaves que garantiam acesso ao Aqueduto, possivelmente subtraída de um dos vigias responsáveis por preservar o lugar. O aqueduto tinha vários caminhos estreitos, escadarias e acessos muitos deles barrados por portões de ferro batido que geralmente ficavam trancados para evitar a passagem das pessoas. Diego começou a perambular toda noite pelo lugar, descobrindo quais as chaves que abriam as portas e memorizando as rotas de fuga mais rápidas e nas quais não cruzaria com ninguém.

Quando já estava satisfeito, Diogo começou a roubar transeuntes, arrastando-os para dentro de algum corredor, trancando rapidamente a passagem impedindo assim qualquer chance de fuga. Seu objetivo era o roubo, "aliviar" a vítima de qualquer coisa de valor, dar-lhe uma surra, deixá-lo desacordado e escapar pelos corredores. Quando esse plano evoluiu para assassinato não se sabe, mas é provável que ele tenha começado a matar suas vítimas para evitar que elas o reconhecessem. O método de Diogo era rápido e à prova de falhas, o Aqueduto e seus arcos, tinham 65 metros de altura e uma pessoa lançada lá de cima dificilmente sobreviveria à queda mortal.

Fosse para preservar sua identidade ou para eliminar qualquer pista que pudesse incriminá-lo, o fato é que Diogo logo tomou gosto por matar. Como era muito forte, não era difícil para ele erguer as vítimas acima de sua cabeça e lançá-los como se fossem um fardo, da mesma forma que fazia em seus dias como estivador.

Picnic aos pés dos Arcos do Aqueduto
Assistir o corpo girar no vazio um instante antes da gravidade puxá-lo para o derradeiro mergulho. Ouvir o som do cadáver se estatelando no piso de pedra. Escutar o burburinho e os gritos das primeiras pessoas a testemunhar o horror. Provavelmente tudo isso o enchia com um prazer mórbido. O mesmo prazer que os serial killers experimentam ao concluir sua sangrenta tarefa, uma catarse emocional, misto de alívio e excitação. Infelizmente, como sabemos através da análise comportamental, essa catarse se torna cada vez mais fugaz e o desejo de reviver a sensação se torna recorrente... em outras palavras, Diego experimentava o que muitos assassinos sentem no auge de seus crimes, o vício de matar.

Seu impulso homicida era tamanho que por vezes o roubo era apenas uma desculpa para o que vinha depois. Mesmo quando não lograva êxito no assalto, não dispensava o frenesi do assassinato, talvez por conta disso, o fechamento do acesso ao Aqueduto tenha sido um duro golpe. De nada lhe valia circular pelo lugar deserto, não haviam mais vítimas que ele pudesse roubar e depois arremessar lá de cima. Até então, estima-se que ele já havia feito mais de 70 vítimas e continuava livre.

A despeito disso, continuou em sua carreira criminosa, associando-se a uma quadrilha que perpetrava roubos à casas de famílias de posses. Passou a ser conhecido pelo apelido de "Pancada". Por algum tempo, os roubos sustentaram sua agressividade, mas aquilo não se comparava ao seu desejo de matar. Em um de seus assaltos a quadrilha assaltou a casa de um importante médico de Lisboa. Diogo provavelmente estava no limite, e naquela noite não refreou seus instintos homicidas: a família inteira foi massacrada a golpes de faca e porrete.

Dessa vez o crime atraiu a opinião pública e obrigou as autoridades a flexionar seus músculos. Não se tratava afinal de um pobre coitado que não tinha onde cair morto, mas de um médico influente, sua esposa e jovens filhos que haviam sido chacinados na santidade de seu lar. Uma simples investigação conseguiu descobrir o paradeiro de objetos valiosos subtraídos da propriedade pelos ladrões que se encontravam com um receptador. Este entregou imediatamente quem lhe havia vendido os itens. Os comparsas de Diogo foram ainda mais rápidos em apontar os dedos acusadores para o "Pancada" que havia agido como um animal selvagem na ocasião em que chacinou a família.


Levado a julgamento, Diogo Alves foi acusado dos homicídios e condenado à forca. Na cadeia ele acabou confessando ser também o culpado pelas dezenas de mortes no Aqueduto. Adorando a atenção que havia conquistado, não poupava os interlocutores de descrições gráficas de como havia matado cada uma de suas vítimas. Ironicamente, Diogo não chegou a ser acusado destes crimes que sequer foram incluídos no inquérito. Não havia como ligar seu nome aos crimes, a não ser pela sua confissão e na ausência de ferramentas e técnicas forenses nada foi provado.

O Tribunal da Cidade de Lisboa votou rapidamente a sentença do maníaco, ele seria enforcado em 19 de fevereiro de 1841, no Cais do Tojo. Uma multidão se reuniu para ver a morte do Assassino do Aqueduto das Águas Livres. A essa altura os boatos já circulavam entre a população que revoltada ofendia o matador a caminho da forca. Em resposta, ele sorria ironicamente desafiando a todos.

Mas em meio ao povo que xingava furioso pedindo a morte daquela pessoa vil, estava um homem fascinado pelo caso. Era o médico José Lourenço da Luz Gomes. Cirurgião de grande reputação, tinha enorme influência na Casa Real, uma instituição famosa internacionalmente pelas descobertas e pelas técnicas avançadas de cirurgia com que fazia muitas operações inéditas naquela época.

Lourenço Gomes havia acompanhado o desenrolar de todo caso e quando se deparou com a oportunidade de estudar a mente daquele monstro humano não sossegou até ser atendido. Fundador e diretor da antiga Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, o médico aproveitou sua posição para fazer um requerimento atípico: queria levar consigo a cabeça de Diogo Alves logo após a execução.

Seus motivos eram louváveis, o médico, um entusiasta da frenologia - ramo médico muito em voga no período, esperava desvendar os mistérios contidos naquela mente perturbada examinando o cérebro e descobrindo o que o tornava um assassino. Era uma busca pelas raízes da maldade, talvez alguma má formação ou disfunção demonstrasse a razão de seu comportamento agressivo. Convencido, um Juiz levou o caso ao próprio Rei que deu a autorização necessária.

Logo após a execução no patíbulo, um verdugo dispôs o corpo de Alves sobre uma tábua e usando um machado decepou a cabeça que foi entregue ao médico e mergulhada num frasco com formol. Lourenço Gomes preservou a cabeça de Diogo Alves até o fim da Escola Médico-Cirúrgica e depois a transferiu para a recém-criada Faculdade de Medicina de Lisboa, onde era diretor.


O frasco, claro, foi ganhando fama e acumulando histórias com o tempo. Dizia-se que era algo maldito, que sussurrava nos ouvidos dos vivos memórias sangrentas e reminiscências homicidas na tentativa de convencer outros a enveredar pelo mesmo caminho. Falava-se também de fantasmas e espíritos decapitados espreitando nos lugares onde a coisa era mantida.

Décadas mais tarde, o estranho artefato foi adicionado à coleção do Museu da Faculdade de Medicina, sendo exposto com alguma frequência também no Museu Nacional de Arte Antiga como um verdadeiro tesouro.  

Até os dias de hoje, a cabeça de Diogo Alves, o infame Assassino do Aqueduto das Águas Livres existe preservada. Ela está guardada em um armário, mergulhada em um grande frasco transparente contendo formol, e vai circulando pelos museus de Lisboa tal qual uma relíquia profana trocada por Igrejas em dias santos.

A cabeça ainda mantém seus detalhes, perfeitamente preservada: a pele pálida, os traços bem marcados que denotam um indivíduo bem apessoado, os cabelos loiros, o bigode fino e cavanhaque bem aparados, tudo perfeitamente conservado a ponto de se imaginar que a qualquer momento Diogo Alves poderia sorrir através do vidro e orgulhoso compartilhar tudo que fez.

E se você aproximar seu ouvido do frasco, talvez ele o faça.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Penny Dreadful Recap - episódio 2 - "Predadores próximos e distantes"


O segundo episódio de Penny Dreadful manteve o nível da fantástica season premiere.

Tivemos momentos empolgantes com Dorian Grey e Lily derramando sangue de maneira "divertida", Ethan lembrando a todos nós sobre sua natureza bestial, Dr. Frankenstein preparando uma experimento conjunto com o Dr. Jekyl, Dracula se aproximando cada vez mais do objeto de sua sinistra obsessão, a encantadora Senhorita Vanessa Ives que por sua vez conhece melhor o zoólogo Alexander Sweet.

Penny Dreadful está se tornando rapidamente minha série preferida nessa temporada. Enquanto Game of Thrones ainda está esquentando (o que não tenho dúvida ainda fará!), a série de Horror Vitoriano começou à mil com um roteiro envolvente e uma reconstituição de época primorosa. A impressão que tenho é que deram uma bombada no orçamento de Penny Dreadful permitindo que a série vá além das ruas escuras de Londres e revele horrores em outros cantos do mundo com direito a um Novo México árido, isolado e muito sinistro.

A montagem da série funciona muito bem alternando os acontecimentos entre as localidades, Novo México, Londres (com Ives, Grey e Frankenstein em diferentes pontos) e Sir Malcolm em alto mar. Para facilitar as coisas, vou falar de cada bloco de personagens sem obedecer a ordem em que eles aparecem no episódio. 

Desse modo, vamos ao que aconteceu de importante no segundo episódio "Predadores Próximos e Distantes" (Predators far and Near). Saibam que obviamente desse ponto em diante temos SPOILERS, então leia se não se importar com isso ou se já tiver assistido ao capítulo, já disponível no NOW e na HBO plus.


O capítulo já começa bem, mostrando por onde andam Dorian Grey e Lily que ficaram de fora do eletrizante primeiro episódio. Ainda em Londres, o dândi e sua bela acompanhante, ambos imortais, comparecem a um Clube para Cavalheiros no submundo de Chinatown. O Clube promove algo que o recepcionista na porta anuncia como "incrivelmente violento" e "absolutamente ilegal", algo que obviamente só pode ser apreciado por cavalheiros de alta estirpe e gostos peculiares.

Quando adentramos o aposento escuro e sórdido percebemos como a coisa é barra pesada. Um grupo de aristocratas sentado confortavelmente em poltronas mal pode conter a excitação quando uma moça nua é trazida ao seu meio e apresentada a uma mesa com implementos de tortura. Essa é a versão "Snuff Movie" do Universo de Penny Dreadful e é claro, não poderia deixar de ser brutal e aterrorizante. Uma massa de músculos encapuzada, responsável por coordenar a "brincadeira" escolhe cuidadosamente a ferramenta para dar início ao "espetáculo de carnificina". Mas no momento que ele opta por um chicote de couro, Grey e Lily correm para salvar a pobre mocinha.


Em um turbilhão de sangue e morte, a dupla começa a despachar os aristocratas e convivas de uma maneira rápida eficiente. No fim, não resta ninguém de pé, a não ser os dois e a vítima que depois descobrimos se chamar Justine (um nome resgatado da obra do Marquês de Sade, sem dúvida!). "Eu salvei você, e agora você é minha" diz Lily antes que a garota desmaie.

Levada para a Mansão de Dorian Grey, Justine encontra seus salvadores dançando sob os olhares austeros dos quadros no Salão de Baile. Os dois são incrivelmente agradáveis e simpáticos (como sempre são no início) e oferecem a Justine o benefício de um teto e os prazeres da alta-sociedade. Lily, no entanto, é quem tem algo mais a oferecer... tendo ela mesma sido acolhida na vida de faz de conta de Dorian Grey, quando ainda era a imigrante irlandesa Brona Croft, ela pode falar do que a aguarda. Resgatada de um mundo podre e maligno Lily compreende como ninguém o que a menina almeja. Não simples redenção e proteção, mas uma forma de se vingar de homens rudes que a brutalizaram e exploraram desde sua infância. "Nós daremos a você minha querida uma vingança monumental"

Sem pestanejar, ela aceita a proposta, pois vingança e retribuição é uma das molas dos eventos em Penny Dreadful. Vai ser interessante descobrir até onde Justine será moldada pelos dois imortais. Mas por ora, ficamos aqui.


Ainda na escura Londres, na parte menos favorecida deste lado do Tâmisa, Victor Frankenstein e seu novo associado o Dr. Henry Jeckyl conversam a respeito de seus experimentos e de suas origens. Ficamos sabendo da triste estória familiar do Dr. Jeckyl, cujos pais, pessoas de etnias diferentes (um deles indiano e o outro britânico) sofreram com esse enlace romântico, uma transgressão, considerada desprezível pela sociedade vitoriana. Jeckyl a seguir relata como teve sucesso em seus experimentos a respeito da dualidade do ser humano. É interessante pois esse é um dos pontos chave da obra "O Médico e o Monstro", no qual Robert Louis Stevenson trata justamente da divisão das partes que compõem a personalidade humana. No romance bem e mal podem ser divididos através da aplicação de princípios químicos capazes de destilar a essência do bem e do mal.

Jeckyl confessa que teve sucesso em experimentos que vem sendo conduzidos em Bedlan, o maior e mais temido manicômio da era vitoriana. A reconstituição de Bedlan nos mínimos detalhes é assustadora! Os corredores escuros, repletos de internos gritando e chorando, acorrentados à paredes ou escoltados por atendentes armados causa uma sensação de claustrofobia.

Mas é na parte mais escura e profunda do manicômio, onde eles mentém os "assassinos de crianças" e "canibais" que Henry Jeckyl conduz seus notáveis experimentos, em uma cadeira de barbeiro "especialmente adaptada". É nesse antro que Victor espera livrar Lily de sua metade negra e devolver a ela a bondade e inocência que ele conheceu através de Brona Croft. Para mostrar como ele vem acumulando sucesso com sua experiência, Henry manda um atendente trazer um psicótico escocês (um sujeito que havia supostamente ameaçado a Rainha, o que rende uma boa piada "Nunca ameaça a monarquia nesse país").

Amarrado na cadeira de barbeiro adaptada, Jeckyl ministra uma dose cavalar de seu soro no infeliz raivoso e surpresa! De um momento para o outro, após uma série de espasmos e gritos de gelar o sangue, a metade maligna do rebelde escocês é esconjurada restando um sujeito de semblante pacífico que pede um copo de água da maneira mais educada possível. 

Fascinado pelo resultado, Victor pondera sobre como isso irá funcionar com Lily. Com sua esperança renovada, ele vai visitar a mansão onde "sua noiva" reside atualmente. Ele passa uma tarde observando pela janela até que Lily aparece e resolve descer para ter algumas palavras misericordiosas com seu criador. Ao invés de matá-lo (como seria de se esperar), ela afirma que o cientista irá superar sua perda quando chegar o momento. Mais importante ela salienta que Victor pode tê-la criado, mas foi ela quem o transformou em algo diferente. Finalmente, Lily deixa uma ameaça no ar, dizendo que ele não deve mais retornar, pois "você não vai gostar de saber no que estou me transformando". 

Não sei quanto a vocês, mas eu estou adorando o que ela está virando! Esse bloco está se tornando rapidamente um dos mais interessantes da temporada. 


Mas não há tempo para pensar muito, rapidamente somos transportados para a paisagem desértica do Território selvagem do Novo México.

A cena de abertura desse bloco abre com um fotógrafo tirando daguerótipos dos indivíduos mortos à bordo do trem que levava Ethan Chandler (Talbot) prisioneiro. Esse era um costume muito corriqueiro no Oeste Selvagem, fotografar os mortos para vender as imagens como "cartão postal".

Num escritório encontramos o agente Rusk em uma reunião com o xerife responsável pelo caso. É claro, até nessa época já existiam conflitos de jurisdição, mas a resolução desse é boa demais: "Rusk afirma que não vai desistir de perseguir sua presa uma vez que ele representa os interesses do Império Britânico" e mandando uma tremenda banana para o delegado americano avisa que já sabe onde buscar pela "posse de bandoleiros" que resgatou Ethan. Em suas palavras o bando só pode estar à caminho da Propriedade Talbot (uma ENORME área no mapa atrás do delegado - achei bacana o fato de ser o cor de rosa a cor usada para assinalar a área, trata-se da cor usada nos mapa mundi para designar as possessões do Império Britânico). Do lado de fora, a bruxa Hecate ouve a estória e se apressa em seguir para a localização mencionada.

Corta a cena e vemos Ethan sendo mantido como prisioneiro pelos bandoeiros contratados pelo seu misterioso pai. Os caras estão em um empório comprando suprimentos para seguir viagem, só não contavam com um "pequeno problema". A lua que desponta no céu do Novo México é uma lua cheia que surge de trás das nuvens. E antes que os pobres bandoleiros possam reagir, a lua já agiu sobre Ethan transformando-o numa besta lupina. Tiros para todo o lado, mas o resultado é um só... o Lobisomem acaba com todos seus captores com requintes de crueldade.


Hecate aparece em meio ao massacre e ainda aproveita para despachar um dos bandoleiros depois de assumir sua forma original com direito a pentagrama invertido talhado no peito nu e garras afiadas. Finalmente ela o encontrou, "Como senti sua falta", ela diz antes de abraçá-lo. Resta saber o que ela pretende.

Pouco antes disso, Ethan havia sido contatado pelo Apache Kaetenay que está cruzando o Atlântico na companhia de Sir Malcolm com destino à America. O plano de Kaetenay é oferecer ajuda a Ethan, que ele afirma tratar como a um filho. Numa conversa com Sir Malcolm, no entanto, ficamos sabendo que Ethan foi o responsável por matar a verdadeira família do Apache, provavelmente em meio a um frenesi de licantropia. Kaetenay menciona que capturou Ethan e o caçou para obter deve vingança, mas que o passar do tempo fez com que que seu ódio diminuísse até se tornar "outra coisa". Malcolm pressupõe que se trata de uma relação semelhante a que ele próprio estabeleceu com Vanessa Ives, que ele odiava por todo mal e traições que ela causara na sua família, mas que eventualmente se tornou uma "filha".

Seja como for Kaetenay entra em contato com Ethan através de um transe estabelecido fumando um cachimbo. Ele consegue falar com Ethan que adverte ao Apache para não ir atrás dele sob pena de morrer em suas mãos. Não é possível saber qual o plano de Kaetenay, ou o que ele pretende, mas parece óbvio que Ethan não tem interesse de encontrá-lo. É possível que o apache esteja mentindo e leve Sir Malcolm consigo por algum motivo ainda não revelado. Logo descobriremos esse mistério, mas por enquanto não há como saber com certeza o que vai acontecer. 
      

E deixamos o melhor por último, falemos de Vanessa Ives que é sem dúvida uma das personagens centrais nessa terceira temporada de Penny Dreadful.

"Vamos começar falando de pecados" diz a Dra. Seward para Vanessa quando dá início a sua sessão de psicoanálise. "Qual a duração desse cilindro de gravação?" reponde Vanessa. A médica grava as palavras de Vanessa e mesmo a médica calejada acaba ficando chocada com a estória de vida da jovem Srta. Ives, por tudo aquilo que ela passou: seu aprendizado no mundo da feitiçaria, as entidades malignas que a perseguem e sua traição para com Mina e seus amigos. Ao terminar de relatar tudo o que fez, Vanessa está devastada, revelar tantos horrores a deixou em frangalhos. "Nós acharemos uma cura para tudo isso" promete a Dra. Seward claramente impressionada. Resta saber se ela acreditou em tudo, ou se supõe que Vanessa não passa de uma maluca extremamente criativa. Talvez uma perfeita candidata para o já citado Asilo Bedlan.

Antes de mandar Vanessa embora, ela recomenda que sua paciente tente algo diferente, "algo que pode resultar em felicidade, nem que seja por um momento".

E o que poderia fazer Miss Ives feliz agora? A única coisa que ela pode pensar é em visitar o zoólogo Alexander Sweet no Museu de História Natural e assistir uma de suas tediosas palestras. Os dois acabam desfrutando da companhia um do outro de tal maneira que na manhã seguinte combinam novo encontro para assistir uma apresentação teatral de 20.000 Léguas Submarinas de Julio Verne (autor que Sweet elogiou anteriormente).  Os dois parecem muito satisfeitos e tudo leva a crer que Vanessa e Alexander poderão desenvolver mais do que uma amizade no futuro.


Finalmente, vemos Vanessa retornando com espírito refeito após o encontro. Talvez Vanessa possa finalmente encontrar a felicidade depois de tantas tragédias e horrores. Talvez ela mereça um novo começo. Na-na-na... isso é Penny Dreadful, se sabemos de uma coisa ao certo, é que nenhuma tristeza pode ser maior do que aquela que vem logo depois de uma alegria repentina.

A medida que chegamos a última cena do episódio encontramos o secretário da Dra. Sewel, Renfield, ouvindo as confissões de Vanessa Ives para levar as informações até seu mestre. Nós já sabemos que ele serve a Drácula!

Renfield vai até o covil do vampiro e de seus servos, onde implora por sangue. Em troca de algumas informações sobre a reação da médica diante das confissões, Drácula se aproxima abrindo suas veias para permitir que o serviçal beba seu sangue. E a medida que a câmera vai se afastando vemos que Drácula não é outro senão o próprio Alexander Sweet!


Ok, não chega a ser uma reviravolta... eu já esperava algo nesse sentido, mas ainda vamos descobrir o que Drácula pretende se disfarçando como um Professor de Zoologia. Mais interessante é saber que o Drácula de Penny Dreadful obedece a cartilha do personagem clássico de Bran Stoker. Ao contrário dos vampiros normais, Drácula não é destruído pela luz do sol. Ela apenas o priva da plenitude de seus poderes sobrenaturais. Para alguns, ver o vampiro andando em plena luz do dia foi um choque, mas isso está de acordo com o romance.

O que podemos esperar do terceiro episódio... além de torcer para a semana passar rápido?

terça-feira, 10 de maio de 2016

Penny Dreadful: Recap - Episódio 1: "O Dia em que Tennyson Morreu"


Meio que escondida em meio ao alarde da estréia mundial de Game of Thrones, uma outra espetacular série abriu a sua terceira temporada na HBO esse final de semana.

Estou me referindo a Penny Dreadful, a fantástica série criada por John Logan que relata a saga de um grupo (podemos chamar de "Liga") de Indivíduos Extraordinários na escura Londres Victoriana que se alternam no papel de caçadores de monstros e de presas, enquanto tentam exorcizar seus próprios demônios internos.

Faço aqui um mea culpa, o Mundo Tentacular deveria dar um pouco mais de destaque a essa série, uma vez que ela se encaixa perfeitamente no que qualquer fã do Horror Gótico poderia desejar. Penny Dreadful recebeu uma resenha genérica quando da estréia de sua primeira temporada (que pode ser lida Resenha) e dois artigos nos quais os personagens principais eram adaptados para Chamado de Cthulhu (links parte 1 e  parte 2). 

Mas nunca passou disso... De fato, a segunda temporada (que também contou com episódios sensacionais) passou batido aqui no blog e não mereceu nem um único artigo. Mea culpa, mea culpa, minha máxima culpa!

Pois bem... não mais!

No estilo dos recaps de True Detective, vou dar início a um recap semanal dos acontecimentos mais importantes de Penny Dreadful com destaque para a terceira temporada que começou a ser exibida pelo HBO sexta feira passada e que já está disponível na grade do NOW no canal HBO. Além disso, é possível assistir as duas primeiras temporadas no Netflix seja para lembrar dos acontecimentos que nos conduziram a atual situação, seja para dar apresentar um dos mais assustadores e bem executados programas sobre o gênero horror da atualidade (que vão me desculpar, coloca qualquer outra no chinelo!)

Então, sem mais delongas, eis aqui

Ah sim... estejam cientes que isso é um RECAP, não uma review portanto é óbvio que teremos enormes SPOILERS daqui em diante. Siga por conta e risco!  


Anteriormente em Penny Dreadful as coisas terminaram de forma dramática e desesperadora para a maioria dos protagonistas de nosso grupo de caçadores caçados. O episódio final da segunda temporada mostrou Sir Malcolm, Ethan Chandler, a Criatura e Vanessa Ives no que parecia uma competição particular para descobrir qual deles fugiria para o canto mais distante de Londres. Tudo bem... digamos que o final da temporada anterior foi no mínimo dramático. O confronto final com o diabólico cabal de feiticeiras que estava atacando os protagonistas foi especialmente desgastante e ao fim dele, todos apresentavam dolorosas feridas físicas e mentais.

Sembene, o fiel valete e guardião de Sir Malcolm havia caído diante das bruxas e seu patrão tomou para si a tarefa de levar seu corpo para ser enterrado na África. Ethan Chandler, cuja natureza bestial veio a tona na temporada anterior, se rendeu ao Detetive Rusk e estava sendo escoltado para a América onde deve ser julgado, a Criatura de Frankenstein embarcou em um navio com destino ao polo norte; enquanto em Londres Miss Ives tenta se recuperar de todo o horror que tomou parte na sua luta final com as feiticeiras. Ela mais do que ninguém sofreu em demasia, visto que foi o pivô de todas as tragédias ocorridas. Vanessa ao contrário de seus colegas não deixou a Capital do Império, mas sua dor a fez retroceder para dentro de si mesma o que é, última análise, constitui uma espécie de fuga.

O episódio tem início justamente com Vanessa Ives residindo no que restou da Grande Mansão dos Murray em Londres. A casa está abandonada, escura e populada de insetos voadores e rastejantes que se alimentam do que restou. Nesse ambiente insalubre encontramos Vanessa se esgueirando pelos cantos escuros como um dos animais que infestam o lugar. Quebrada e reduzida, ela apenas sobrevive de memórias amargas e da auto-comiseração. Até mesmo a beleza exótica de Eva Green parece apagada, estando ela imersa em tamanha sujeira e insalubridade. Felizmente ela ainda conta com alguém que pode oferecer uma ajuda nesse momento de incerteza: enquanto os sinos das igrejas da Grã-Bretanha dobram sem parar avisando da morte de Alfred Lord Tennyson (o poeta máximo do período), Vanessa recebe a visita do Sr. Ferdinand Lyle. Após muita insistência ela enfim abre a porta lacrada da mansão e permite a sua entrada para o antro de sombras que o lugar se transformou: "Eu adorei o que você fez com o lugar", ele deixa escapar uma brincadeira ao ver a decadência reinante.


Finalmente, Lyle consegue convencer Vanessa de que ela deveria buscar ajuda para se ver livre da culpa e do terror pelo qual passou. Desistir das aranhas e moscas e "ao menos procurar se reintegrar a companhia de outros mamíferos" (Lyle como sempre, tem ótimas frases no roteiro!). Uma vez que está em seus limites, ela acaba cedendo e concorda com a sugestão de consultar um alienista (na verdade UMA alienista, o equivalente a um psiquiatra vitoriano, algo que para a comunidade médica do período equivalia a ir se consultar com um shaman tamanha a reprovação a esses especialistas).

O argumento de Lyle é que a pessoa que ele está recomendando, ninguém menos do que uma Dra. Seward!) seria capaz de devolver a ela sua auto-estima. Além do que, foi essa médica quem permitiu a Lyle abraçar a (aham) "fabulosidade" que ele era incapaz de aceitar até então. Miss Ives também aceita renovar seu cabelo e fingir um sorriso de quem está disposta a reconstruir sua vida despedaçada incontáveis vezes.  Mas pobre coitada, nem imagina o que está por vir...

O nome Seward é por si só interessante e abre uma série de questões. Seward é o nome de um dos personagens centrais no romance Drácula de Bran Stoker. Ele é o responsável pela ala de insanos do Hospital de Londres. No romance, o personagem era masculino e ele era de suma importância pois através dele Van Helsing era contactado para se envolver no caso. Aqui, infelizmente Van Helsing morreu na primeira temporada, então veremos o que irá acontecer. Mas falaremos mais a respeito da Dra. Seward alguns parágrafos adiante.


Enquanto isso encontramos um trem cruzando uma paisagem árida e descobrimos estar no Território do Novo México, acompanhando Ethan Chandler. Ethan está sendo conduzido como prisioneiro por Rusk e um grupo de homens da lei fortemente armados. Ele se entregou depois da grande matança promovida na casa das bruxas em que Sembene tombou e onde o pistoleiro deu vazão ao seu lado lobisomem. Logo percebemos que ele não está sozinho, Hécate, a bruxa mais jovem e única sobrevivente do cabal de feiticeiras, acompanha a comitiva devidamente disfarçada de mocinha recatada.

A viagem segue tranquila, tão tranquila que lá pelas tantas Rusk acaba indo até o vagão saloon para beber um chá (sério? em pleno oeste americano esses britânicos pedem um chá? Tá bem...). Seja como for, é esse desejo por um chazinho que salva sua vida de uma violenta invasão de bandoleiros que estão ali para soltar Ethan. Quando o inevitável tiroteio começa, balas voam para todo lado e quem está na linha de fogo leva a pior. Mesmo quem não tinha nada com a confusão acaba sendo baleado em uma série de execuções coordenadas por um pistoleiro barbudo (que me lembrou Wild Bill Hickock). Hecate escapa por pouco da queima de arquivo que elimina todos os passageiros que presenciaram o ataque ("Eu sou apenas uma mulher indefesa", ela diz olhando para dentro do cano da Colt de um dos bandidos).

Mas Ethan não tem muito à comemorar. A expressão dele quando se depara com os homens é de enorme desgosto. Não apenas pelo massacre promovido, mas por que sem dúvida os bandidos trabalham para seu "papai" e pretendem levá-lo até ele para uma reunião de família. Por milagre Rusk escapa da mortandade (bendito chá!), mas está claro que ele não vai deixar sua presa escapar tão fácil.  


Corta a imagem e nos vemos em Zanzibar, África Ocidental, uma das últimas regiões selvagens do Continente Negro. Os germes da escravidão, pobreza e doença estão entranhados tão profundamente na sociedade que Malcolm se sente enojado pelo que vê. Com Sembene enterrado em solo sagrado, o grande explorador bebe para esquecer as tragédias de sua vida e a perda do fiel companheiro.

Pra lá de embriagado, ele sai de uma birosca sendo abordado por uma mulher que pede dinheiro para seu bebê de colo. As propostas da mulher logo se tornam um convite a prostituição e então uma clara ameaça quando ela saca uma arma e o ameaça. Ela chama o inglês pelo apelido "John Bull", o símbolo do poder do Império em que o sol nunca se põe e se prepara para meter uma bala na sua cabeça.

Nisso surge um vendaval de estocadas e golpes e em segundos os assaltantes estão caídos. O salvador de Lord Malcolm é surpreendentemente um nativo americano chamado Kaetenay (na época do politicamente incorreto, udo bem em chamar o orgulhoso apache de "pele vermelha"). Enquanto remove o escalpo de um dos bandidos ele revela a Sir Malcolm que o está seguindo desde Londres e que ele tem que cumprir uma missão antes de poder morrer. Que missão é essa? Simples: "Enfrentar os grandes demônios da Terra e do Céu", ora bolas! 

Mas o que realmente convence Sir Malcolm a acompanhar seu exótico salvador não é a promessa de lutar contra demônios (isso ele parece fazer tem tempo), mas sim a oportunidade de ajudar Ethan Chandler que foi levado à América. Para colocar mais lenha na fogueira, o apache completa dizendo que Ethan é praticamente "seu filho". E como já sabemos, a experiência de vida de Lord Malcolm fará com que ele mova céus e terra para ajudar o jovem americano, como uma forma de superar a morte de seus filhos em circunstâncias que ele nada pode fazer.

Prontos para mais um corte?


Dessa vez estamos no meio do mais absoluto nada! Uma paisagem gelada, com um navio encalhado no gelo polar, incapaz de se mover. Os membros da tripulação discutem seu azar e a respeito da ética de se alimentar dos cadáveres empilhados no tombadilho. Alheio às agruras da temperatura inclemente, vemos a Criatura de Frankenstein isolado como sempre ouvindo as lamúrias dos homens que diferente dele precisam de coisas mundanas como calor e comida. O monstro lamenta apenas ter embarcado em um navio rumo ao nada, pois nem mesmo o esquecimento parece satisfazê-lo.

Sentado no porão congelado ele tenta dar um último consolo a uma criança cantando uma canção de ninar (Só Deus sabe por que trouxeram uma criança numa viagem dessas). Em sua mente ele tem alguns lampejos de uma vida pregressa e tocado por um pragmatismo diante da mortalidade humana, ele abrevia o sofrimento da pobre criança partindo seu pescoço. SNAP!

Em seguida, o monstro deseja aos seus companheiros de viagem boa sorte e saltando na tundra congelada começa seu caminho para "casa". A PÉ!

Esse trecho está bem de acordo com o romance original de Mary Shelley em que o monstro escapa para os confins gelados do planeta para encontrar sua paz interior. Mas em Penny Dreadful, a criatura parece ter outros planos e movido por eles, começa a voltar para seu lugar de origem. O que ele viu nesses lampejos deixa dúvidas, mas quem sabe o que motiva o monstro a continuar. Não me espanta se logo ele chegar a Londres para assombrar seu criador.


E por falar em Herr Victor Frankenstein, onde anda o genial médico ressurreicionista?

Na escura Londres, Victor está enclausurado ruminando os erros de julgamento que o levaram a criar uma "mulher perfeita" que o despreza simplesmente por ele ser "inferior" (ou melhor, vivo). Nisso ele recebe a visita de um colega de profissão, ninguém menos do que o Dr. Henry Jekyl (nessa encarnação um jovem e idealista indiano). Victor relata todos os seus segredos e fala das coisas igualmente "sinistras e belíssimas" com que se envolveu, inclusive a existência de Lily, na verdade Brona Croft (ou seria ainda Noiva de Frankenstein?)

Victor planeja destruir a sua construção, mas deixa transparecer que na verdade o que move seus planos é o rancor por ter sido escorraçado por ela e preterido pelo supremo e imortal dândi Dorian Grey. Jeckyl no entanto tem uma proposta a fazer: usar seu conhecimento de química para alterar o desejo homicida de Brona e fazer com que ela se renda ao bom Doutor. As credenciais de Jeckyl para oferecer ajuda nessa questão envolvem seu triunfo em "domar a besta dentro de si próprio". Ele acredita ser possível usar das mesmas técnicas para domesticar Lily e fazer com que ela ame Frankenstein. 

Eu me pergunto até onde essa história de "domar a besta" é real. Afinal, se há uma coisa que sabemos a respeito do Dr. Jekyl é que sua contra-parte o "simpático" Mr. Hyde não costuma se dobrar à vontade de seu alter ego. Quanto tempo teremos de esperar para ver o amável cavalheiro e que forma ele tomará, só me deixa mais disposto a seguir os episódios. E torcer que seja logo!

Então, voltamos para Vanessa Ives. Lembra que prometi falar mais um pouco a respeito da Dra. Seward? Pois bem,a primeira surpresa é que quando ela encontra a doutora se depara com uma gêmea de Joan Clayton (a bruxa que ensinou a Miss Ives tudo que ela sabe sobre feitiçaria). A doutora admite que sua família vem da mesma região e que a bruxa Clayton deve ser uma parente distante, mas até que ponto um espectador de Penny Dreadful está disposto a acreditar em coincidências. Eu diria 0,00000001%. Claro que tudo isso ainda trará grandes repercussões e descobriremos que a Dra. Seward tem muito a esconder.


Seja com for, Vanessa prova ser material "mais do que interessante" para a Dra. Seward  analisar. Seu desafio de quebrar o ciclo de depressão e amargura será monumental, mas é claro, ela não quer um paciente tedioso. Seu primeiro conselho é um tanto incomum, ela manda Vanessa dar uma volta por Londres e visitar algum lugar em que jamais pôs s pés. A ideia é fazer algo que ela nunca fez antes!

Andando pelas ruas movimentadas de Londres, Vanessa acaba chegando ao Museu de História Natural de Londres um lugar abarrotado de animais empalhados, ossadas e morte. Lá, Miss Ives acaba conhecendo um zoólogo responsável pela mostra, um cavalheiro chamado Alexander Sweet (que eu não consegui encontrar em nenhuma referência e que provavelmente é fictício). Os dois conversam a respeito de escorpiões (algo que Vanessa conhece bem - não é pequeno escorpião?) e criam rapidamente um certo grau de cumplicidade, sobretudo quando ele revela sua predileção por "aquelas criaturas pouco amadas"... todas aquelas quebradas e evitadas. Como a própria Vanessa Ives.

 Hmm... considerando tudo pelo que Vanessa já passou e sofreu,mais um interesse romântico não parece fadado a ir muito longe. Na atual conjuntura ao mesmo tempo que coleciona amantes, Miss Ives acaba perdendo cada um deles de maneira trágica. Se for assim, pobre Dr. Sweet.

O passeio faz tanto bem a Vanessa que com o espírito renovado ela decide escrever para Sir Malcolm, abrir as janelas da mansão e limpar o casarão de cabo à rabo (coisa que Eva Green faz com uma classe inabalável). Sério, se colocar essa mulher para limpar frauda de criança ou arear panela ela vai fazer isso com tanta elegância que a gente vai babar de uma forma ou de outra. Desculpe, é só um comentário... mas achei ele necessário!


Anyway...

Mas é claro, Penny Dreadful não seria Penny Dreadful se terminasse de forma alegre e jovial. Não senhor... se você quer alegria, vá buscar em outra vizinhança. Isso é uma homenagem ao gótico mais negro e aqui as coisas terminam coma  promessa de mais amargor se formando no horizonte como uma tempestade prestes a despencar.

O final desse episódio já valeria a pena por si só.

Nos últimos minutos do episódio, acompanhamos o pacato secretário da Dra. Seward em uma visita a uma prostituta. O sujeito contrata a moça e a acompanha até um beco onde "algo" mais desagradável do que o sórdido negócio acaba ocorrendo. Os dois são atacados por um vulto e a pobre mulher leva a pior. 

Quanto ao secretário, ele acorda em um porão cercado por um bando de vagabundos pálidos que se aproximam dele de forma ameaçadora. A aura de estranheza é tão grande nessa cena que é impossível disfarçar o incômodo como ela transcorre. As figuras se aproximam e parecem conversar apenas através de estalos e olhares. Reconhecemos entre os presentes um menino de rua (um desses urchins dickensonianos) e um outro sujeito visto anteriormente seguindo Vanessa em sua visita ao Museu. "Saboreie o seu dia... minha amada!" diz  menino provocando um olhar curioso de Vanessa. A criança diz que tem um problema de sangue e por isso sua compleição pálida. Tá bom...


Seja como for, os dois e outros escalam as paredes se aproximando, babando sobre sua presa "rosa com sangue". Mas antes que eles possam chegar perto, alguma coisa entra no aposento fazendo as criaturas retroceder aterrorizadas para as sombras do porão.

"Não tenha medo criança" intona uma voz sem corpo, que exige ser informado de todos os movimentos da Srta Vanessa Ives.. Quando o homem insiste que não sabe nada a respeito da nova paciente da Dra. Seward o vilão informa que ele deverá passar a saber. Para garantir sua obediência, o monstro exige que o pobre diabo estique seu pescoço, mostre sua garganta e compartilhe de seu sangue.

É claro, o pobre secretário, transfigurado de horror concorda e ficamos sabendo seu nome: Renfield.

O que não deixa dúvidas de que a sombra ameaçadora pertence a ninguém menos que DRÁCULA!

E é fim do episódio!

Holy shit! Que episódio foi esse? Penny Dreadful retornou em estilo e trouxe em meros 45 minutos uma dose cavalar de romance gótico, horror, suspense e estranheza.

E esse é só o começo de uma temporada que promete, sobretudo porque não há mais a obrigação de apresentar os protagonistas e sua motivação, basta deixar segui-los seu caminho inexorável rumo a tragédia que se abre.

Assistam ontem. Assistam agora. Mas não deixem de assistir!

Penny Dreadful está melhor do que nunca!

Trailer:


Trailer 2: