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quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Nos confins do Império - Explorando o passado na Muralha de Adriano


Em maio de 2019, tive a incrível oportunidade de viajar para o Norte da Inglaterra onde pude visitar a Muralha de Adriano. Foi algo surreal estar lá e explorar aquele lugar impressionante, carregado de significado histórico.

Durante toda viagem mantive um diário com anotações para cada lugar que visitei e fiz alguns comentários baseado no que ouvia e no que encontrava de informações. Algumas anotações foram feitas no próprio local para aproveitar a emoção que sentia.

Como estamos falando especificamente a respeito da Muralha de Adriano, quis compartilhar isso aqui no blog junto com algumas fotos que tirei no local. São alguns parágrafos soltos - não se trata de um texto corrente, mas trechos com apontamentos.

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17/05/2019

Ponto alto da Excursão Fronteira Histórica - Visita às ruínas da Muralha erguida pelo Imperador romano Adriano.

Curiosamente a muralha não foi erguida apenas para manter os bárbaros afastados, mas com o intuito de estabelecer limites e constituir uma fronteira protegida para o Império. Ela também era uma maneira de consolidar os interesses dos romanos na região. 

Os romanos viam essa Província (Britânia/Caledônia) com grande interesse e desejavam consumar seu domínio, mas não dispunham do contingente necessário homens e nem de recursos financeiros para tanto. Os pictos, as tribos que habitavam a Caledônia (Escócia), ofereciam grande resistência. Atacavam os postos avançados, pilhavam as cidades, matavam os colonos e incendiavam as fazendas. Eram considerados como bárbaros aos olhos dos romanos e dos britânicos já romanizados que foram enviados para colonizar a área.

A construção da Muralha se iniciou em 128 d.C por sugestão do próprio Imperador que via a necessidade de manter os bárbaros do lado de fora e salvaguardar suas fronteiras. Ele também desejava consolidar a posse das terras conquistadas. Considerava que ali seria o limite do Império, a "Fronteira da Civilização" - tudo que estivesse além daquele muro deveria ser considerado como "bárbaro" e "primitivo".

Trecho da Muralha
Restos de uma casa exterior colada ao muro
A construção da Muralha demandou pelo menos 12 anos. Os romanos não tinham como contratar operários ou pedreiros, escravos também eram muito caros para serem usados em uma tarefa como aquela. Decidiram utilizar como força braçal num primeiro momento prisioneiros de guerra, principalmente para o trasporte dos blocos. Posteriormente empregaram os próprios soldados na tarefa de cortar as pedras no formato desejado e edificá-las. 

Os soldados trazidos para o trabalho vinham de todos os cantos do Império: Gália, Grécia, Norte da África, Galícia, Pérsia, Egito... em geral eram soldados em final de carreira (25-30 anos) e com experiência como pedreiros e trabalhadores braçais. Os soldados que se juntavam à empreitada ganhavam um abono no momento em que aceitavam a incumbência. No final de 5 anos de serviço na Muralha recebiam pequenas propriedades na região onde poderiam se instalar e aproveitar sua aposentadoria. Era uma maneira de incentivar a colonização na região.

Segundo a guia, exames de DNA feitos na população local, realizados em 2013, apontaram que as famílias que hoje habitam a região possuem diversos traços raciais distintos. Herança do Leste Europeu, Oriente Médio e Norte da África. Muitas destas pessoas possuem antepassados que provavelmente foram trazidos de outros cantos do Império para trabalhar na construção da Muralha.

Parede do Portão de Entrada para o Forte de Vindolanda
Trecho do muro e contorno de uma construção externa provavelmente um posto de vigilância

O trabalho principal dos soldados durante a construção era o transporte das pedras e assentamento das mesmas para a construção da muralha. Era um trabalho repetitivo e pesado que envolvia trazer pedras usando carroças puxadas por mulas. As pedreiras ficavam há pelo menos 20 quilômetros de distância. O regime de trabalho era bem organizado, com horários bem definidos e turnos estabelecidos para descanso e rotatividade de funções.

A Muralha começou a ser erguida no sentido Leste-Oeste de costa a costa, começando e terminando no mar. 

Postos de Guarda foram dispostos a cada 500 metros, com pontos de observação para as sentinelas. Cada ponto tinha um contingente permanente de 8-10 soldados que permaneciam na vigília. Eles forneciam suporte uns aos outros e proteção no caso de uma invasão, a regra é que os homens deviam ficar a uma distância em que um grito pudesse ser ouvido.

As fortificações eram erguidas em pontos estratégicos que forneciam uma vantagem de observação. O objetivo era que os guardas pudessem enxergar os arredores e perceber a aproximação de invasores. O terreno baixo e plano da Escócia ajudava nesse sentido para que uma sentinela pudesse ver pelo menos 1 quilômetro adiante. Do posto de guarda que visitei era possível ver em todas as direções, o que sem dúvida oferecia uma excelente vantagem estratégica para as sentinelas incumbidas de vigiar os arredores.


Trecho do Muro
Posição defensiva e visão da muralha exterior do Forte

Cada forte funcionava de maneira autônoma e podia hospedar pelo menos uma guarnição de soldados - uma centúria (100 homens). Os fortes ofereciam alojamento para os soldados, refeitório e contavam com depósitos para estocar suprimentos. Os maiores fortes contavam com forja, curtume, pelaria, casa de banho, taverna e bordéis. Um muro adjacente a Muralha circulava os fortes e garantia a proteção. Colado ao muro era normal surgirem casas de civis que escolhiam viver perto do forte que concediam proteção. Muitas dessas famílias eram compostas por esposas, filhos, pais ou familiares de soldados ou ex-soldados que serviam naquela guarnição.

Os soldados podiam levar suas famílias, em especial esposas e filhos para dentro dos fortes em caso de ataque inimigo. Apenas os comandantes podiam trazer suas famílias para viver dentro do forte permanentemente.

Segundo o guia muitos dos soldados trazidos para trabalhar na construção da Muralha acabaram casando com mulheres da região  e com o tempo também acabaram se tornando nativos, aprendendo idioma, tradições e costumes dos povos escoceses.

Subindo até o topo do monte na direção do Forte com o muro aos fundos
O Imperador esperava que os bárbaros acabassem "assimilados" pelos romanos, mas no fim das contas os costumes de romanos e dos nativos acabaram se misturando. Aos poucos algumas tradições romanas foram abandonadas em nome de costumes locais. Os soldados se ressentiam da distância  e muitas vezes acabavam incorporando costumes locais que vinham de sua interação com os "bárbaros".

O Imperador Adriano jamais visitou a Muralha depois de sua conclusão. Ele jamais teria colocado os pés na Fronteira mais ao norte da Britânia por considerar uma região muito perigosa. Ele teria dito que a Muralha marcava o "Fim da Civilização", o que existia além daquele ponto era a barbárie em estado puro. A antítese do poder civilizatório de Roma.

O local parecia carregado de um profundo significado histórico. As ruínas em si não mostravam muito, estavam realmente muito deterioradas pelo tempo, ainda que as paredes se conservassem íntegras como se tivessem sido erguidas ontem e não 1800 anos atrás. Havia uma emoção no ar, a certeza de estar entrando num lugar de importância histórica, igualmente estranho e fascinante.

A trilha que margeava a encosta era ingrime e aberta aos elementos. Ao menos não estava chovendo apesar do céu estar bastante escuro e coberto de nuvens. Estava frio e úmido, com um vento gelado que cortava através dos três casacos que eu usava. Do local onde a van da excursão nos deixou, no sopé do monte até o forte no alto deste, seria uma caminhada de 30 minutos. O problema é que se tratava de uma subida bem aguda, então o esforço foi considerável. A trilha era coberta de cascalho que ao menos estava firme. 

Posição defensiva no forte
Visão do Forte em ruínas e de construções defensivas


Ovelhas pastavam ao redor e o cheiro de esterco era tão forte que chegava a arder no nariz. Havia bolas de lã presas na vegetação baixa de um verde quase cinzento. As ovelhas escocesas tem o corpo forte e parecem enormes bolas andantes de lã cinzenta. O rosto delas é de um preto muito escuro, assim como as patas. Quando elas fazem barulho o som é longo e arrastado.... Béééééééééééé. E quando uma começa a balir todas outras acompanham. Felizmente elas pareciam estar acostumadas com visitantes e simplesmente se afastavam a medida que eu passava por elas.

Um sol tímido me saudou quando atingi a metade do monte. A vista era incrível! Dali era possível ver as ruínas que se encontravam a mais uns 100 metros através de uma outra trilha. Depois de um esforço como esse, o suor pela atividade física era um problema. Escorria por dentro do casaco e através das mangas em tanta quantidade que pensei estar molhado de sereno. Eu nem cogitei tirar o casaco, pois o vento estava gelado.

No topo da colina, antes do forte havia uma loja de conveniência com café fresco que pareceu maravilhoso. Ali ficava ainda a bilheteria para quem quisesse entrar nas ruínas propriamente ditas. A loja apresentava alguns objetos achados nas ruínas, fotografias, maquetes e mapas. 

Mais uma subida ainda mais ingrime, com um trecho final escorregadio. Mas chegamos ao forte (Castrum) de Vindolanda.  

No entorno das ruínas foi colocado um muro de ferro com cancela que estava aberta.

A latrina
Ruínas da Latrina e Casa de Banho romana
Os visitantes tinham liberdade para passear pelas ruínas na ordem que bem entendessem, o que acaba sendo um pouco frustrante já que não há uma indicação por onde começar. Eu tentei traçar um caminho que me levasse a todas as construções antes de retornar. As únicas referências visuais são pequenas placas que identificam os prédios (ou o que resta deles). Há ainda placas maiores com representação de como deveriam ser os prédios no auge da ocupação e uma breve explicação de sua função.

As placas ajudam a imaginar como deveria ser o assentamento e como era a vida das pessoas que lá viviam.  Coisas simples como onde ficavam os guardas, onde eram os alojamentos, onde as armas ficavam guardadas, como os soldados dormiam, onde era a cozinha, onde ficava o refeitório e a latrina.

O forte era uma construção bem maior do que eu pensava. Estima-se que ele oferecia alojamento para até 5 centúrias de soldados, ou seja 500 homens, mas raramente contou com esse contingente. O mais provável é que ele fosse o lar de uma centena de homens. Isso sem contar as famílias que viviam coladas ao muro primeiro em acampamentos e depois casinhas simples de alvenaria. 
Posto de Observação dos soldados - repare na visão que eles tinham
Prédio externo - estábulo e galpão

Essas construções externas contavam com uma pensão, galpão, depósito usado para estocar grãos e estábulos. A maioria dos prédios do lado de fora do muro eram temporários e portanto feitos de madeira, por isso pouco restou deles.  


Do lado de dentro do forte, o alojamento e a latrina eram os prédios em melhores condições. Era possível reconhecer perfeitamente a latrina que tinha espaço individual para receber até 30 pessoas ao mesmo tempo. Sim, as pessoas simplesmente sentavam umas ao lado das outras quando precisavam usar a latrina sem nenhum senso de privacidade.

O prédio do alojamento era largo, com 30 metros de lado a lado e espaço para até 100 homens segundo estimativa do guia. Ele possuía duas lareiras com chaminés para garantir o aquecimento. O prédio ao lado servia como refeitório onde a comida era servida aos soldados e mais a frente ficava a cozinha e o depósito para estocar alimentos.

As lareiras eram essenciais para manter o conforto dos homens, os prédios não tinham janelas, mas possuíam dutos de ventilação no teto que podiam ser abertos ou fechados dependendo da estação do ano. Eles ajudavam a escoar a fumaça e permitiam a ventilação. No inverno a temperatura nessa região pode chegar a -20 graus, com neve, geada e vento forte. Durante o resto do ano a temperatura média é de 10 a 20 graus, com períodos de muita chuva.

Ruínas do Alojamento de soldados
As fundações de um prédio do Forte
Infelizmente a casa do Comandante da Guarnição desapareceu por completo, restando apenas duas paredes e o piso no chão. Todos os pisos por sinal são idênticos com pedra lisa unida por concreto. Há escadas e rampas que permitem o acesso às diferentes áreas da ruína. Não restou nenhuma construção com telhado inteiro e não existem também janelas nos prédios. O máximo de ventilação é proporcionado por frestas.

Já nos muros existem espaço para observação, que poderiam ser interpretados como brechas ou frestas através das quais os sentinelas podiam fazer a vigília. Eu tentei me colocar no lugar das sentinelas observando o horizonte cinzento e contemplando atentamente pelas frestas algum movimento suspeito. Dali era possível ver o entorno da fortificação e antecipar qualquer avanço inimigo.

À noite deveria ser frio, escuro e absurdamente assustador ficar olhando o vazio enquanto se esperava por um possível ataque. Os soldados ficavam nesse pequeno posto de vigilância, batendo os pés para afastar o frio da madrugada, esfregando as mãos para se aquecer minimamente. Nas noites mais frias eles podiam usar um manto comprido de lã que concedia alguma proteção contra o clima gelado, mas para pessoas vindas de regiões quentes do mediterrâneo, aquilo devia ser horrível.


Casa do Comandante Pretoriano
Caserna de guarda com a fresta para vigília
Fico imaginando o que pensavam e por onde seus pensamentos viajavam enquanto esperavam ali pelo amanhecer. Talvez pensassem a respeito do lugar onde nasceram, sobre suas famílias e sobre as dificuldades do dia a dia. Quais seriam suas expectativas, medos e esperanças? O que será que pensavam ao mirar o horizonte, tentando conciliar seus pensamentos com a  tarefa de vigilância. 

Quantos soldados ao longo de séculos não se enfiaram naquela mesma caserna apertada de vigília e se debruçaram para observar melhor o exterior enevoado? O que sentiam ao ver as planícies verdes, as trilhas ingrimes e as nuvens baixas? Será que temiam os povos locais, será que eram felizes ou estavam simplesmente aterrorizados de viver nesse lugar ermo? 

É difícil dizer, provável que a maioria deles eventualmente acabasse se acostumando à vida nos limites do Império. A maioria deles casava, tinha filhos e iniciavam suas famílias naquelas terras estranhas. Imagino que devia ser extremamente difícil para os soldados recém chegados. Devia ser inquietante especialmente à noite. Esses homens não tinham ninguém a quem recorrer exceto seus companheiros de armas.

Ao lado da estátua do Imperador Adriano
Busto do Imperador
Não é de se estranhar que os soldados criavam laços com os habitantes locais. Naquele lugar distante de tudo, os vínculos tinham de ser estabelecidos até por uma questão de sanidade. O isolamento era incrível! Não havia ninguém por perto. Viver ali devia ser uma provação. Era realmente uma fronteira e é impossível invejar a vida dura que essas pessoas levavam.

Quando enfim o Império Romano começou a desmoronar, os homens que habitavam esses fortes distribuídos ao longo da Muralha de Adriano  começaram a se sentir abandonados. Eles tinham cada vez menos notícias de Roma e havia cada vez menos legados e visitantes imperiais. Em dado momento devem ter se sentido desobrigados de continuar a vigília. A essa altura, a maioria já havia se misturado aos locais. 

Aos poucos os homens foram deixando as muralhas e a vigília. Sem olhar para trás juntaram seus poucos pertences, suas famílias e partiram para algum vilarejo. Se tornaram "bárbaros", como aqueles que deviam vigiar.

Poucos séculos depois, a Muralha de Adriano abandonada pelos seus soldados e com a manutenção sonegada regrediu a um estado de ruína. O forte foi sendo tomado pelo mato e ninguém o usou por muitos séculos. Durante a Idade Média ela era apenas uma curiosidade deixada pelos romanos um testamento de uma época em que um grande povo tentou traçar os limites entre civilização e barbárie.


Hoje a Muralha de Adriano continua lá e provavelmente continuará muito depois que eu (e todos que estão lendo isso) tiver partido. Foi nisso que pensei ao me me afastar do lugar e olhar uma última vez por cima do ombro enquanto descia pela trilha. 

Juro que ao me voltar para o posto de vigília onde havia estado poucos momentos antes, senti como se um sentinela romano estivesse ali. E foi impossível não levantar a mão em uma despedida solitária para algum soldado fantasma que observava. 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Muralha de Adriano - Os Limites do Império Romano na Escócia


Próximo do fim do primeiro século, os Romanos já haviam incorporado ao seio do Império a maior parte do território hoje pertencente à atual Inglaterra. Não havia sido nada fácil dada a resistência dos povos locais decididos a não se submeter ao jugo dos invasores. Os romanos já haviam experimentado um histórico de violentas rebeliões no sul, sendo a mais famosa o levante comandado pela rainha celta Boadicea, em 61, que resultou na destruição de Londinium, povoado romano que deu origem a Londres. Outros levantes causavam sérios danos e constituíam um obstáculo às pretensões do Império. Havia líderes tribais hostis e os druidas, representantes das velhas crenças pagãs, condenavam a invasão dos romanos, que haviam recentemente adotado a crença cristã.

Demorou quase um século, apenas quando Cláudio chegou ao trono, para as operações nessa região se intensificarem e surgirem resultados favoráveis para os romanos. O que hoje é conhecido como Inglaterra, em especial a região sul e leste, foi enfim conquistada pelas legiões.

Em meados de 70 dC, a atenção dos romanos se voltou para o norte, um território chamado Caledônia, que oferecia vastas riquezas na forma de escravos e metais. Essa conturbada região que hoje corresponde à Escócia sinalizava como o próximo alvo natural para as expansões imperiais. Tratava-se de uma região selvagem e pantanosa, habitada por inúmeras tribos e clãs bárbaros que formavam um povo conhecido pelos romanos como Pictos. Os Pictos eram vistos como uma grave ameaça à seu domínio. Seu nome em latim significava "pintados" e se referia às tatuagens e pinturas corporais que eles adotavam quando iam para a batalha. Esses guerreiros implacáveis, de cabelos negros e pele morena, se entregavam ao calor da batalha de uma forma que assustava até os legionários mais calejados.  Os pictos lutavam nus e tinham uma bravura que beirava a insanidade. Saltavam para o combate com lanças e machadinhas, investindo sem se importar com a própria segurança.


As primeiras incursões romanas na Caledônia ficaram marcadas por mais derrotas do que vitórias. Os pictos se mostraram inimigos ferozes e dispostos a tudo para preservar as suas terras. Eles sabiam como se mover rapidamente pelo território e armavam emboscadas mortais que causavam sérios danos às tropas romanas. No mais famoso e ousado desses ataques, uma emboscada noturna teria causado baixas consideráveis à IX Legião. Os homens que retornaram da expedição à uma charneca foram literalmente massacrados pelos pictos usando flechas envenenadas. Os poucos que voltaram com vida estavam muito feridos ou enlouquecidos pela experiência.

De acordo com Tacito, cronista principal do Governador Julius Agrícola, o ponto de virada para os romanos foi a vitória conquistada em 83 dC, na sangrenta Batalha de Mons Grapius, que resultou numa verdadeira carnificina. Os romanos conseguiram atrair um grande contingente de seus inimigos para uma luta em campo aberto onde, sabiam, levavam vantagem. Acreditando que sua vantagem numérica lhes daria a vitória, os pictos invadiram o campo de batalha aos milhares. Foram derrotados pela melhor organização e disciplina dos romanos. Hordas de pictos foram rechaçadas uma após a outra pelas centúrias romanas dispostas ao longo do campo. Segundo o historiador, a ferocidade do combate foi tamanha que os caledônios que se viram forçados a bater em retirada abateram suas próprias mulheres e crianças temendo a represália dos inimigos. A maioria deles escapou para as Terras Altas no Norte da Ilha.

Parecia então questão de tempo até que os romanos conseguissem estabelecer controle total sobre as disputadas terra do norte. Contudo, não foi isso que aconteceu. Embora tenham conquistado uma vitória decisiva, ela não se mostrou definitiva já que os pictos restantes não estavam dispostos a ceder seu território sem luta.


Sabendo que não poderiam fazer frente aos romanos no campo de batalha, os Caledônios adotaram outra estratégia para enfrentar os invasores. Passaram a atacar os povoados e fortes estabelecidos pelos romanos, usando para isso bem elaboradas táticas de guerrilha. Os ataques aconteciam à noite e logo que os romanos se organizavam para o contra-ataque, os pictos escapavam para algum território pantanoso que conheciam bem e no qual podiam se refugiar para se defender melhor. Os romanos perderam muitos homens nesses ataques e nas perseguições que se seguiam. Isso afetava enormemente o moral das tropas que passaram a temer os pictos e reputar a eles rumores apavorantes. Diziam que os guerreiros eram mais feras que homens e que seus feiticeiros podiam se transformar em serpentes venenosas.

Os pictos por sua vez se mostravam cada vez mais ousados nas suas incursões. Os primeiros assentamentos romanos sofreram pesadas perdas nas mãos de saqueadores que roubavam gado, incendiavam fazendas e espalhavam o terror entre os colonos. Deixavam após sua passagem um rastro de morte e destruição ao longo de toda fronteira. A Caledônia logo passou a ser considerada uma das regiões mais perigosas do Império e o risco de se estabelecer nesse lugar selvagem afugentava a maioria dos colonos. Os constantes ataques de clãs pictos se tornaram um incômodo para Roma que precisava realizar campanhas regulares que consumiam fortunas em recursos e homens. Eles podiam ter conquistado as terras, mas os pictos continuavam sendo uma incômoda pedra em sua sandália.

Entra em cena então o Imperador Adriano.


Adriano havia reformado os exércitos, equipou as tropas e ganhou enorme respeito entre os militares ao adotar para si a vida de um soldado comum, marchando e carregando equipamento como qualquer outro legionário à serviço do Império. Mas embora contasse com o amor e devoção de seus exércitos, Adriano ainda tinha inimigos políticos - e temia ser assassinado em Roma. Decidido a manter distância desses rivais, ele deu início a uma série de visitas às Províncias do Império. Até então, aquilo era uma novidade, já que o Imperador raramente deixava Roma. Durante essas viagens ele arbitrava disputas, pacificava querelas e espalhava sua boa vontade, assumindo o papel de grande conciliador. Adriano defendia que Roma deveria estabelecer limites para o Império e refrear seu ímpeto de conquistas em favor de consolidar as terras que já possuía.

Um dos lugares visitados pelo Imperador Adriano foi a problemática Província da Britânia que constituía um exemplo perfeito para sua visão anti-expansionista. Do seu ponto de vista, de nada adiantava anexar novos territórios, se aqueles já governados estavam sujeitos a levantes e rebeliões. Adriano queria assegurar a posição de Roma sobre a Britânia e garantir que as terras fossem consolidadas de uma vez por todas.

O ideal seria manter os revoltosos à distância e impedir que eles cruzassem a fronteira para realizar ataques aos fortes e povoados já existentes. Tendo esse objetivo em mente, os romanos planejaram erguer um muro, protegido por sentinelas e fortificações. Dizem as lendas que o conceito do muro partiu do próprio Adriano que fez o desenho da muralha. Com esta criavam uma zona de exclusão capaz de manter os inimigos à distância, o que garantia a segurança e desenvolvimento dos assentamentos estabelecidos. Traçando esse limite, mostrariam que os romanos estavam ali para ficar. 


As obras para a construção da colossal muralha se iniciaram no ano 122 dC, à mando do Imperador Adriano em pessoa. O muro de pedras se estendia por mais de 120 quilômetros, atravessando planícies como uma linha divisória. Sua extensão cobria de costa a costa a região em que o território britânico se estreitava como um gargalo. Para acompanhar a construção do muro, os romanos despacharam tropas incumbidas de fazer a segurança dos operários. Pontuaram essa fronteira com nada menos do que 260 fortificações responsáveis por suprir os trabalhadores vindos de todos os cantos do império. Em meio à construção, mudaram o foco e os próprios soldados começaram a se ocupar do trabalho de erguer o muro.

A maior parte da matéria prima, pedra e turfa, foram obtidas no local, ainda que o transporte de um canto para o outro tenha sido um desafio considerável. Os operários talhavam as pedras, enquanto escravos as transportavam até o local desejado para sua colocação. Madeira e metais foram trazidos de longe ou negociados com líderes britânicos locais que se tornaram aliados dos romanos da noite para o dia. A edificação do muro ironicamente ajudou a pacificar rivais de longa data que se viram atraídos pela possibilidade de enriquecer com o enorme empreendimento.   

Os romanos fizeram de tudo para economizar onde podiam na obra, mas apesar disso, a qualidade da construção impressionava. O muro demorou quase 6 anos para ser construído e contou com pelo menos 15 mil operários. No final das contas, era uma obra sólida e extremamente resistente que cumpria a sua função de imediato. Com uma altura média de 4,5 metros por 2,5 metros de largura o muro fornecia uma defesa eficiente contra invasores. O seu topo era percorrido por uma estrada de 1 metro de largura, por onde transitavam as sentinelas. Os quartéis espalhados ao longo do muro, com torres de observação ofereciam abrigos de onde era possível ver os arredores e se precaver da aproximação de inimigos. Mais do que isso, os soldados podiam dormir, descansar e cozinhar sem abandonar o posto.


A Muralha de Adriano não foi erguida apenas por questões de segurança. Ela servia a outra importante função - gerar renda para o Império. Historiadores acreditam que a barreira possuía postos que cobravam taxas sobre circulação de mercadorias e pedágio para a passagem de pessoas. A muralha também ajudou a atrair um fluxo de colonos que se sentiam protegidos por ela. Não por acaso, povoados começaram a nascer junto da muralha ou próximo a ela permitindo a colonização da Província. Curiosamente, alguns povoados de caledônios também começaram a se instalar perto da muralha por indivíduos interessados no comércio que se desenvolveu gradualmente.

Mas os planos de Adriano de desenhar os limites do Império Romano e consolidar as terras esbarraram na ambição de seus sucessores. Em 138 dC, o Imperador Antonino ordenou uma nova invasão da Caledônia, reascendendo as disputas com os Pictos. As tropas romanas avançaram de forma significativa em território escocês, a ponto de construírem uma segunda muralha dedicada a Antonino, 160 km ao norte da de Adriano e já bem mais próximo das Terras Altas.

A Muralha de Antonino era menor, com 63 km de extensão, e erguida com barro em vez das pedras como a fortificação original. A construção só resistiu por 12 anos, até 154. As linhas romanas retrocederam para a Muralha de Adriano que se firmou como o ponto defensivo mais ao norte. O império faria mais quatro grandes invasões, incluindo uma, em 209, com 40 mil homens. Em 211, chegou-se a um acordo de paz com os clãs locais, já bastante romanizados tendo adotado tradições, religião e até mesmo o idioma.


Com a decadência do Império Romano nos séculos que se seguiram, a Muralha de Adriano, que ficava longe demais da sede do Império começou a perder homens e teve sua manutenção negligenciada. No século IV, os caledônios lançaram uma ofensiva que a muralha não foi capaz de conter. Às voltas com as invasões bárbaras em Roma, mais e mais tropas foram deslocadas das ilhas britânicas, até que em 410 teve fim a administração romana. Os povos locais passaram a controlar a Muralha que foi então gradualmente abandonada.

Os romanos, no entanto, haviam deixado um legado indelével tanto na paisagem quanto na história local. Britânicos e também os caledônios haviam assimilado muito de sua cultura. Roma também incentivou o surgimento de cidades o que ajudou a desenvolver a região antes isolada e perigosa. O comércio se estabeleceu e a adoção de leis diminuiu os riscos para os que viajavam. Estradas ligavam pela primeira vez os centros urbanos, assim como canais para abastecimento de água e técnicas de cultivo e colheita nos campos.

A Muralha de Adriano existe até hoje, é uma construção magnífica, verdadeiro testemunho da genialidade dos romanos e de sua capacidade de mobilização nos tempos antigos. Milhares de turistas a visitam anualmente e se impressionam com sua grandiosidade.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

O Antiquário - O Homem que desenterrou o passado de Londres


Era uma pequena loja em uma das partes menos elegantes de Londres, mas ela possuía a mais peculiar das clientelas. De segunda a sexta o lugar ficava fechado, e seus únicos visitantes eram estudantes que vinham espiar através da vitrine as maravilhas em exposição. Aos sábados a loja abria as suas portas e as pessoas vinham admirar o que estava à venda. O proprietário - descrito por um conhecido como um "genial batráquio", era baixo, com uma barriga proeminente, cabelos grisalhos rareando e olhar curioso. Ele tinha o hábito de fumar seu cachimbo com um tabaco de odor pronunciado. Sentava-se atrás do balcão, esperando pacientemente pelas pessoas despejarem ali seus tesouros. Ele ficou lá por muitos anos - de 1895 até sua morte em 1939, e nesse período acumulou artefatos valiosos, muitos dos quais posteriormente adquiridos pelos principais Museus de Londres.

O jornalista H.V. Morton escreveu para seus leitores em 1928 as seguintes palavras no Sunday Times:

"Talvez seja a mais estranha e incomum loja de Londres. A tabuleta sobre a porta de entrada mostra o símbolo de egípcio do Deus Ra, não uma simples placa, mas um artefato removido de uma tumba ancestral no Vale dos Reis. As prateleiras e armários estão sempre tomados por centenas de objetos. Os períodos históricos dispostos lado a lado. Vasos chineses e ânforas gregas ao lado de espadas japonesas, broches elizabetanos, cabeças de flecha saxãs, moedas romanas, estatuetas celtas...

Há pedaços de tecido usado para envolver múmias, fragmentos de vidro colorido, uma sandália romana em perfeito estado, encontrada abaixo do pavimento de Londres, um pequeno objeto encolhido e ressecado que é uma mão humana mumificada... todos objetos genuínos, podendo ser adquiridos por alguns shillings".

Essa valiosa coleção de tesouros ou simples tranqueira dependendo de seu ponto de vista era coletada por George Fabian Lawrence, um antiquário nascido na área de Barbican, em Londres no ano de 1861. A maior parte do estoque havia sido reunida clandestinamente, e mais de uma vez museus da região visitaram o lugar para reaver alguma peça surrupiada de uma exposição pelos dedos leves de um visitante. A loja não perguntava a procedência dos itens negociados, comprava e pagava em dinheiro... sem fazer perguntas.


Por praticamente meio-século, instituições augustas, do célebre Museu Britânico até os pequenos museus itinerantes de curiosidades, faziam visitas regulares ao Antiquário localizado em West Hill. Ele supria acervos com coisas vindas de todos os cantos do mundo. Entre as mais valiosas peças obtidas por Lawrence estava a cabeça de uma estátua representando um Deus Marinho grego, peça que foi comprada pelo Museu de Londres e até os dias atuais é uma de suas principais atrações. O Museu Britânico adquiriu no Antiquário uma tábua etrusca com maldições que desde então consta em seu acervo. Foi dali que veio também o Tesouro Cheapside, uma inestimável coleção de jóias com mais de 500 itens incluindo gemas, broches, anéis, pulseiras e colares encontrados em um porão pouco depois da Grande Guerra. Foi um verdadeiro triunfo para a carreira de Lawrence ser ele o intermediário nessa barganha, já que ela compõe a maior e mais completa coleção de jóias do período Elizabeth e Stuart até hoje. Isso sem mencionar os broches egípcios, os instrumentos musicais celtas, os artefatos da Babilônia, os tesouros israelitas, as peças romanas e todo o resto.

O método de negociação de Lawrence era simples e engenhoso. Por muitas décadas ele vagava pelos bairros periféricos de Londres sempre nos horários de almoço e folga dos trabalhadores que lá viviam. Pagava bebidas e perguntava se aquelas pessoas estariam dispostas a vender coisas que tivessem encontrado ou que estivessem em suas famílias há gerações. Lawrence sabia que os antepassados daquelas pessoas haviam viajado pelo mundo, conhecido terras exóticas e visitado lugares distantes. O Império Britânico havia espalhado sua influência até os limites da Terra e seus súditos tinham uma sede inesgotável de novidades e curiosidades. Quando retornavam para suas casas, traziam consigo pequenas lembranças que ficavam na família passando de pai para filho. 

Também eram essas pessoas que escavavam, procuravam e desenterravam fragmentos da longa história de Londres. A velha Londres que havia visto tantas gerações que a chamaram de lar. Nos porões e subterrâneos encontravam peças da antiguidade, quando a cidade ainda era jovem mas já fervilhava com vibrante comércio e incontáveis visitantes. O antiquário sabia que eram os trabalhadores e operários da cidade quem tinham maior chance de encontrar tais objetos, já que eles eram os responsáveis por demolir os velhos prédios e erguer os novos. Eles tinham um contato mais íntimo com o mundo antigo que a maioria dos estudiosos jamais teria.


Lawrence era um intermediário que pagava em dinheiro pelos tesouros que lhe eram oferecidos. Logo se tornou conhecido: as pessoas passaram a procurá-lo com mercadorias retiradas das profundezas do Tâmisa, das margens lodosas de rios, de ruínas escavadas e de fundações abandonadas há séculos. Tudo que podia ter valor histórico acabava passando pelas suas mãos. 

De acordo com Morton, que visitou o Antiquário em West Hill ainda jovem em meados de 1912, Lawrence era tão conhecido entre a população simples de Londres que muitos o consideravam um colega de trabalho. Alguns o chamavam de "Stoney Jack", um sujeito disposto a pagar shillings por pedras e lixo aparentemente sem valor. O antiquário explicava aos interessados o que estava buscando: qualquer coisa antiga, estranha, peculiar e incomum. Ainda que não parecesse ter valor, ele estava interessado em ver o que era oferecido e dar seu veredito. Disseminou dessa maneira um "rudimentar treinamento arqueológico" para quem quisesse aprender. Permitia que pobres, destituídos e vagabundos visitassem sua loja para ter uma noção do que ele desejava. Voltavam dias mais tarde carregando peças embaladas em sacos de aniagem e caixotes velhos de madeira. Assim chegavam às suas mãos ávidas aquelas cabeças de múmias, punhais romanos, capacetes normandos e outros tesouros.

Lawrence fazia a maioria de suas negociações cara a cara, sem a necessidade de agentes. Ele mantinha os bolsos cheios de meia-coroas, shillings e sixpence usados para recompensar contatos e informantes que lhe traziam dicas de onde encontrar as peças. Algumas de suas negociações ocorriam em pubs e tavernas, com contrabandistas, ladrões de sepultura e viciados em ópio despejando sobre uma mesa suja algum fragmento vivo da história. O antiquário avaliava ali mesmo, pegava, pesava, ponderava e depois disso enfiava a mão no bolso removendo algumas moedas.


Suas maiores descobertas, contudo foram feitas em suas peregrinações por Wandsworth. As peças dessa região portuária e movimentada eram trazidas de longe pelos homens do mar da orgulhosa Marinha de Sua Majestade e por marujos estrangeiros que vinham de toda parte. Eram objetos que viajavam no porão de navios cargueiros, negociados diretamente, trocados por alguma quinquilharia ou arrancados dos dedos de algum nativo recalcitrante. Não demorou para que os próprios marinheiros, cientes da fama de Lawrence, trouxessem itens que podiam lhe interessar. Quando um navio chegava do Cairo, dos Mares do Sul, do Oriente Distante ou de outras paragens, lá estava o Antiquário para recepcioná-lo, com seus bolsos cheios de moedas.

"Lawrence compreendia que aquelas pessoas eram simples e não tinham noção do que estavam oferecendo por alguma ninharia. Ainda assim, ele não considerava que estava ludibriando seus parceiros, a maioria daquelas coisas seriam descartadas ou jogadas no lixo se não fosse por ele. Muitas das pessoas que os traziam, achavam que elas estavam sendo espertas e que Lawrence era o idiota".

Os informantes e negociantes que procuravam o Antiquário se espalhavam pela cidade, mas seu alcance era ainda maior, chegando a Bristol, York, Birminghan, Oxford... em tempos em que a informação era transmitida face a face, Lawrence conseguia criar uma rede de informantes como um King Fagin.      

Dois outros toques de genialidade garantiam que o velho Stoney Jack permanecesse como um favorito da classe operária. Primeiro, ele era justo! Se um objeto trazido até ele fosse negociado por um valor muito superior com alguma instituição, ele rastreava quem havia trazido originalmente e oferecia uma recompensa. Além disso, Lawrence jamais deixava de oferecer uma recompensa aos que traziam algo para ele. Ele dava alguma gorjeta como forma de cativar seus fornecedores. Mesmo as descobertas mais modestas recebiam um agrado, nem que esta tomasse a forma de uma caneca de cerveja ou prato de ensopado. A atitude de Lawrence cativava as pessoas, era ele, afinal de contas um estudioso, homem letrado e distinto, mas disposto a tratar as pessoas de modo gentil. Sua atitude lhe valeu outro apelido entre os pobres, "Old six-pence", um testamento a sua generosidade.


Lawrence viveu num tempo em que a arqueologia estava emergindo como uma disciplina acadêmica, mas embora tivesse uma carreira profissional como oficial de construção da cidade, e ganhasse um bom salário, ele se considerava acima de tudo, um antiquário. A pequena loja em West Hill poderia ser apenas um hobby, mas aquilo era de fato, o que ele mais gostava de fazer.

Filho de um penhorista, ele teve contato com objetos antigos desde criança. Lawrence abandonou os estudos e com entusiasmo abraçou o ofício que era de seu pai, tornando-se um auto-didata. Sabia que o pai perdia dinheiro vendendo objetos de valor por ninharia, sem conhecer a origem das peças. Para não cair no mesmo erro vasculhava os livros da Biblioteca do Museu Britânico em busca de informações em livros e catálogos, tentando descobrir a história dos itens que passavam pelas suas mãos. Ali descobriu que uma moeda romana podia valer cem vezes o valor da compra. Soube como diferenciar metal amarelado de ouro, como reconhecer peças originais e como separar bijuterias de jóias. Logo ele substituiu o pai no comando da loja de penhores, mas esse emprego não duraria já que ele queria algo mais íntimo. Ele desejava ter acesso às peças, manipular, ver, estudar...

Para Lawrence, o passado parecia mais real e infinitamente mais fabuloso do que o presente. Ele dizia ser capaz de sentir quem havia sido o dono daquelas peças, quem as havia usado e em algum momento, amado. Ele podia segurar uma sandália de couro usada na Londinium no século I e inventar toda uma narrativa de como ela teria sido perdida indo parar num túnel antigo até ser encontrado por acaso séculos mais tarde. Stoney Jack oferecia uma história colorida de diferentes períodos de Londres. Uma época que ele jamais conheceu, mas da qual falava com discernimento. Não existia ninguém mais aficionado pelo passado do que ele. 

Controverso em suas aquisições e métodos, Lawrence era o homem certo no lugar correto para conservar a herança histórica de Londres. Não é exagero dizer que ele foi essencial para que muitos daqueles tesouros inestimáveis fossem salvos de um triste destino. Entre 1890 e 1930 a cidade passou por uma reforma urbanística comparável apenas a reconstrução por conta do Grande Incêndio de 1666. Prédios antigos eram demolidos e substituídos por novas construções, prédios mais altos e com fundações mais profundas. O subsolo de Londres era constantemente remexido, fazendo aflorar dele tesouros ocultos há gerações. Nos anos que antecederam a moderna engenharia civil, operários eram vitais para escavar e colocar abaixo as construções georgianas que substituíram em ordem cronológica prédios elizabetanos, medievais, saxônicos e romanos. O estrato de eras passadas vinha à superfície expondo a vida dos seus antigos moradores.   


Foi a era de ouro das escavações, com trabalho feito com pás e picaretas, lenta porém gradualmente. Só isso tornou possível preservar tantos tesouros que seriam destruídos por bate-estacas e perfuradoras modernas. Ainda assim, não existia um sistema para identificar antiguidades ou artefatos e muito deve ter se perdido. É lamentável imaginar quantos tesouros foram descartados em pilhas de entulho já que seus descobridores desconheciam do que se tratava. Lawrence ajudou a diminuir essa perda.

Sua intervenção salvou pelo menos 12 mil objetos que foram negociados diretamente com o Museu de Londres e mais 3 mil que foram parar nas estantes do Museu Britânico. Isso sem falar de outros tantos. Do lodo do rio ou do pó das ruínas, as peças precisavam de alguém com os olhos aguçados do antiquário de West Hill para reconhecê-las.   

Quando George Fabian Lawrence morreu aos 79 anos, ele não era um homem rico ou reconhecido. Sua fortuna totalizava cerca de mil libras (aproximadamente 87 mil em valores corrigidos) e sua pequena loja acumulava dívidas.

Para aqueles que o conheceram, o antiquário foi um exemplo, o jornalista H.V. Morton escreveu na ocasião de sua morte que "ao encorajar operários a encontrar tesouros do solo e lutar para que eles fossem reconhecidos como tal" Lawrence fez mais do que um "exército de acadêmicos".

Talvez as palavras mais importantes sejam de Sir Mortimer Wheeler, um dos diretores responsáveis pelo Museu de Londres, e negociante habitual da pequena loja. Na ocasião do funeral ele disse com propriedade:

"A história tem um débito para com o senhor Lawrence e seu incansável trabalho como antiquário. Graças a ele e seus esforços em conscientizar as pessoas da importância desses artefatos, evitou-se que uma parte importante da história da cidade, do país e do mundo caíssem no esquecimento. Graças a ele podemos olhar para quem fomos e pensar em quem aspiramos um dia vir a ser".

Nada mal para um homem que andava com os bolsos cheios de trocados. 

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Mistério Ancestral - Os Enigmas da Cidade mais Antiga do Mundo


Ocupando a Planície de Konya, na região da Anatólia, sudeste da Turquia e se espalhando por centenas de quilômetros por uma área remota e selvagem, encontramos a ancestral cidade de Çatalhöyük (pronuncia-se Cha-tal uy uk). Repousando às margens de um rio seco há mais de um milênio atrás, o misterioso assentamento é fonte de mistérios e enigmas insondáveis.

Desaparecida da face da história há tantos séculos, ela foi encontrada por acaso em 1958 quando o arqueólogo James Mellaart e sua equipe buscavam indícios de ocupação humana. As escavações motivadas pela descoberta de fragmentos de vasos sinalizavam com uma descoberta importante, mas eles não tinham ideia do que haviam encontrado até as primeiras ruínas serem desenterradas. O que foi removido do sítio se provou muito mais antigo e consideravelmente mais bizarro do que eles poderiam imaginar. Lentamente, a escavação revelou paredes, artefatos e os restos deixados por uma civilização que habitou aquele recanto isolado do planeta, quando a própria humanidade era jovem. A cidade desconhecida não apenas era uma joia da antiguidade e palco de um extraordinário passado, como desafiava tudo o que se presumia a respeito dos povos pré-históricos.

O primeiro aspecto intrigante de Çatalhöyük é sem dúvida a sua incrível idade, os arqueólogos estimaram que ela teria sido ocupada no Período Neolítico, em algum momento de 7500 a.C, fazendo as ruínas romanas erguidas nas proximidades, mais de 6 milênios depois, positivamente modernas em comparação. Para se ter uma ideia, as Pirâmides de Gizé, no Egito datam de 2700 a.C. Após sua descoberta a cidade foi imediatamente apontada como um dos mais antigos assentamentos organizados na face do planeta, merecendo o título de "Mais Antiga Cidade do Mundo". O que realmente impressiona é o fato de que nesse mesmo período a maior parte da humanidade se resumia a tribos esparsas de nômades e andarilhos. 

Desenho da cidade em seu auge
Fora dos limites da cidade, os pesquisadores encontraram evidências de campos usados para agricultura, um conceito revolucionário para esses caçadores-coletores, algo praticamente desconhecido no período. Mas não é só isso... além de campos de plantio, as escavações revelaram ossadas de milhares de ovelhas, cabras, cavalos, cães, porcos, coelhos e outros animais domésticos. Isso sugere que a população da cidade não apenas sabia como domesticar esses animais, um conhecimento notável, como sabia como reunir e tratá-los em cativeiro. Ao invés de caçar, os habitantes da cidade criavam animais para seu sustento. A cidade é um testemunho da transição do homem de uma condição de subsistência baseada em caça e coleta, para a habilidade no cultivo e domesticação de animais. Foi ali possivelmente se deu a transição do homem nômade para o colono, um momento marcante em nossa evolução.

Mas essas coisas não são o que mais impressionou os pesquisadores a respeito da cidade. Mellaart e outros arqueólogos ao longo dos anos descobriram que Çatalhöyük possuía uma estrutura social extremamente complexa. Para começar, a cidade não possuía ruas: os moradores transitavam por muros baixos de barro e sobre os telhados das casas. Estas eram construções de tijolos e gesso sem janelas, arregimentadas em grupos e com entradas no topo ao invés de portas. A planta da cidade, em formato de uma colmeia incluía uma rede de ladeiras e rampas que conectavam os prédios e permitiam aos moradores navegar pelo alto das construções onde também haviam áreas comunais. Não se sabe ao certo de que forma se dava o conceito de propriedade ou mesmo se ele existia. É um tipo de organização social diferente de tudo o que já foi encontrado e ainda não inteiramente compreendido pelos estudiosos.

Mas há outras coisas estranhas. As casas possuíam adornos e elementos artísticos que as diferenciam entre si, com características que deviam refletir o gosto pessoal de seus ocupantes. Várias das casas apresentavam pinturas adornando as paredes tanto dentro quanto fora, desenhos geométricos e glifos complexos que denotam uma sensibilidade para refletir o mundo e o que as pessoas viam. Além disso, crânios de animais, sobretudo touros e bodes ganhavam destaque, dispostos nas paredes em nichos. O interesse pelos crânios não é exatamente estranho em muitas culturas, mas em Çatalhöyük ele parece ser um elemento significativo. Crânios de animais eram colocados pelos habitantes em lugar de destaque nas casas. Além de crânios, ossos polidos e fragmentos de obsidiana talhada demonstram a inclinação artística dessas pessoas que gastavam tempo e se dedicavam a construir figuras e estatuetas. 

A Cidade de Çatalhöyük, ou como ela deve ter sido
Os arqueólogos se surpreenderam com a descoberta de objetos anômalos achados na cidade, como um mural que retrata uma vista aérea ou panorâmica da cidade e do vulcão Hasan Dagi localizado a cerca de 12 quilômetros de distância. O mural é tido como o mapa mais antigo do mundo, já que ele mostra a posição relativa da cidade e dos seus arredores. Os pesquisadores também ficaram maravilhados com a descoberta de uma obra de arte, a representação de uma cabeça humana feita de gesso e pedra, adornada com olhos de obsidiana. A peça não havia sido largada, mas colocada cuidadosamente em uma urna de pedra talhada que foi depositada em um nicho de uma das casas, quase como se tivesse sido guardada ali.

A maioria das casas era equipada com um tipo de rudimentar lareira usada para fornecer calor e também permitir o preparo de alimentos. Cada casa tinha ainda uma espécie de janela ou exaustor utilizado para ventilação que permitia manter o ambiente fresco, ainda que protegido de poeira. As pessoas em  Çatalhöyük tinham uma vida diferente de todos no mesmo período, com segurança e conforto único.

Outro aspecto exclusivo diz respeito a como os mortos eram tratados na cidade. Os arqueólogos à princípio não encontraram nenhum sinal de cemitérios comunais, o que os levou a acreditar num primeiro momento que os mortos eram enterrados no deserto ou queimados em algum local distante. Isso indicaria que as pessoas na cidade tinham pouco interesse em tratar os mortos com devoção. Contudo, as suposições dos estudioso não poderiam estar mais equivocadas! Os mortos em Çatalhöyük não eram colocados em cemitérios, mas sob os alicerces das casas, possivelmente para ficar o mais perto possível de seus parentes e amigos.

Sepultura na base das casas
O tratamento dispensado aos cadáveres também chama a atenção. Em vários casos o crânio era removido, possivelmente seguindo algum propósito ritualístico, e só enterrado posteriormente. Há indícios de que certos crânios desapareceram ou foram movidos para outros lugares, possivelmente até mesmo o interior das moradias. Seguindo o raciocínio de que crânios animais eram usados como adornos, é possível imaginar que as cabeças de entes queridos seriam decepadas e então dispostas no interior das casas. Lá ficariam, à vista de todos, até serem retornadas para as sepulturas com os demais restos.

Quem sabe o que significava esse costume ou a razão para ele ser seguido? Contudo, ao que parece, essa tradição fazia parte da vida das pessoas na cidade, sendo praticado ao longo de gerações. Talvez eles achassem que os entes queridos deveriam continuar de alguma forma participando de suas vidas. Ainda assim, é um conceito no mínimo bizarro de se imaginar.

A despeito desse estranho costume, a cidade de forma geral demostrava ser inusitadamente limpa, com indícios de que o lixo e os refugos fossem queimados ou enterrados. Além disso, os prédios possuem sinais claros de restauração e manutenção preventiva. Com efeito, as pessoas que residiam em Çatalhöyük eram incrivelmente saudáveis para os padrões neolíticos. Também graças à sua limpeza e asseio notáveis, a expectativa de vida era quase 15 anos maior do que qualquer outro local no período.

Vista de Çatalhöyük 
Em seu auge, a ancestral cidade de Çatalhöyük contou com uma população estimada em pelo menos 10,000 habitantes, fazendo dela não apenas a mais antiga das cidades, mas também a maior de seu período. Em termos neolíticos, um assentamento dessas proporções seria o equivalente a uma metrópole urbana atual.

Além de seu tamanho, a cidade também impressiona pela sua longevidade. As escavações revelaram ao menos 18 camadas de ocupação humana, tendo ela sido construída e reconstruída por milênios com acréscimos e melhorias. As suposições mais conservadoras sugerem que a cidade pode ter se mantido ocupada por ao menos um milênio, enquanto outros acreditam que sua ocupação pode ter perdurado por mais de dois mil anos.

Também impressiona a estrutura da sociedade em si. Embora não existam registros escritos, o estudo dos restos mostram muito pouca diferença na qualidade de vida entre homens e mulheres, sendo as casas bastante similares, em alguns casos quase idênticas. Também há poucas divisões sociais, apontando para um tipo de sociedade igualitária. Não foram encontrados indícios que apontem para qualquer tipo de governo ou centro administrativo responsável por regular a lei e a ordem na cidade. Todos os habitantes parecem ter a mesma importância com acesso aos produtos e o mesmo grau de saúde, o que seria uma verdadeira utopia atingida na pré-história.

Entretanto, embora os arqueólogos defendam a existência de uma igualdade social, há sinais de que em outros aspectos a sociedade não era inteiramente livre. Os moradores pareciam obrigados a se submeter a um controle social rígido - sendo que, aqueles que não se enquadravam neste eram presumivelmente forçados a partir. O que Çatalhöyük comprova é que para a sociedade funcionar havia a necessidade de certo grau de homogeneidade. Por gerações, os costumes foram preservados de forma ferrenha e qualquer desvio, era visto como inaceitável.

Representação da Deusa Mãe da Fecundidade
Mas se havia tanto equilíbrio, o que pode ter causado a derrocada de um lugar como Çatalhöyük? Como uma cidade de 2 mil anos de ocupação teria sido esvaziada e abandonada por famílias que ali residiram por gerações em total paz e tranquilidade?

Há mais de uma teoria, ainda que nenhuma pareça ser conclusiva. É possível que brigas internas, motivadas por acúmulo de riqueza tenha sido uma das causas de desentendimento entre setores da população. As moradias mais "novas" apresentam crescimento e ensejam a possibilidade de que alguns moradores se tornaram "mais importantes" ou "mais ricos" do que outros.

A outra teoria para a derrocada de Çatalhöyük envolve o surgimento de diferentes religiões, cada qual com os seus próprios princípios e dogmas. Os arqueólogos encontraram várias estatuetas de caráter religioso nas ruínas: as mais antigas envolvendo representações de uma Deusa da Fecundidade, englobada pela imagem da Grande Mãe que provê a vida. Essas imagens mais antigas parecem ter sido gradualmente abandonadas em favor de outras divindades, a maioria delas antropomórficas, sendo que uma divindade com Cabeça de Touro se tornou muito popular. É possível que o advento desses novos deuses tenha causado uma cisão na perfeita harmonia da cidade. A existência de pelo menos dois templos "recentes" desse Deus Touro aponta para o fato de que religiões começaram a surgir e demandar uma porção cada vez mais importante da cidade. Para reforçar essa teoria, os pesquisadores encontraram regalia e objetos luxuosos que faziam parte da indumentária de sacerdotes que aos poucos passaram a constituir uma classe social à parte.

Não há como dizer ao certo se esse foi o motivo principal para a queda da cidade, mas parece ser uma excelente suposição. Disputas motivadas por interesses pessoais e religiosos frequentemente se tornaram ao longo da história um fator de turbulência social, ao que parece, até mesmo no Neolítico.

É possível que um dia eventualmente acabemos descobrindo o que aconteceu com essa grande cidade à frente de seu tempo. Mesmo hoje, apenas uma pequena fração dela foi desenterrada e é possível que as respostas para tantos questionamentos ainda se encontrem ocultos sob a terra. Por enquanto, ninguém é capaz de saber e a queda de Çatalhöyük, bem como quase tudo ao seu respeito, permanece como um mistério ancestral.

*     *     *

Usando a história totalmente real dessa incrível cidade e do povo que a habitou, é possível encaixar facilmente elementos dos Mythos de Cthulhu e escrever um Cenário.

Dos estranhos costumes e tradições com os cadáveres cujas cabeças eram removidas e guardadas no interior das casas, até os Deuses Ancestrais para os quais eles prestavam homenagem, tudo aqui grita MYTHOS!

Daria uma excelente aventura tendo como pano de fundo uma Expedição Arqueológica na Anatólia Turca. Eu iria situá-la em algum ponto de 1930 e incluir mais algumas lendas locais e questões políticas - já que em 1930 a Turquia era um verdadeiro barril de pólvora de disputas. 

Se valendo dos elementos descritivos, temos uma "Deusa Mãe", figura clássica que representa Fertilidade e Fecundidade que se encaixa perfeitamente no etos de Shub-Niggurath e um Novo Deus com Cabeça de Touro que poderia ser o Touro Negro, um dos Avatares menos conhecidos de Nyarlathotep. Talvez a derrocada da cidade tivesse sido causada por uma disputa religiosa entre facções de cultistas.

O Touro Negro, avatar de Nyarlathotep
Uma equipe de arqueólogos poderia encontrar nas escavações de Çatalhöyük indícios dessa cisão e a disputa entre divindades, bem como registros a respeito do que aconteceu nesse lugar. Talvez pudessem achar câmaras ocultas onde artefatos e fragmentos da história ancestral estariam aguardando para revelar sua verdadeira (e aterrorizante) história. 

O material é tão bom e repleto de possibilidades que a aventura praticamente se escreve sozinha...

domingo, 10 de novembro de 2019

O Retorno da Deusa de Sangue - A verdadeira história de Magdalena Solis


O mundo é um lugar muito estranho.

Esses dias vagando pela internet me deparei com uma história tão absurda e surreal que perguntei a mim mesmo se realmente havia acontecido ou se não passava de um boato.

A história envolvia um tipo de culto criado por dois golpistas que convenceram o povo de um pequeno vilarejo no México que eles eram Sacerdotes Astecas. Mas fica pior: eles demandavam obediência total e impunham sua vontade, obrigando as pessoas a se submeter a eles. Mas como não poderia deixar de ser, piora ainda mais! Para provar o que diziam, os dois arranjaram uma prostituta para fazer de conta que ela era a encarnação de uma Deusa. E para completar, em dado momento, a mulher não apenas passou a acreditar que era a tal Deusa, como deu início a uma série de sacrifícios e rituais medonhos.

Pesquisando mais a fundo essa história, acabei descobrindo não apenas que a coisa realmente aconteceu no ano de 1963, mas que existiam ainda mais detalhes macabros e perturbadores do que eu poderia imaginar. Com base nisso, surgiu esse artigo a respeito de uma mulher chamada Magdalena Solis - alguém que deveria se passar por uma deusa encarnada, mas que em algum momento passou a acreditar na sua mentira, com consequências bizarras.  

Antes de Solis entrar na narrativa nós precisamos voltar ao ano de 1961.

Isolado, empobrecido e triste, o povoado de Yerba Buena era um lugar de poucos atrativos. Com pouco mais de 100 habitantes, ele não se diferenciava de tantos outros típicos povoados localizados no sul do México. Seus moradores eram simples lavradores, a maioria iletrada, enfrentando dificuldades e privações monumentais. Não havia escolas, não existia saneamento, água encanada, energia elétrica ou qualquer comodidade da vida moderna, de fato, a cidade parecia congelada no tempo. As pessoas não viviam de maneira muito diferente de seus antepassados no Império Asteca.

Yerba Buena nos dias atuais
Em algum momento de 1961, dois forasteiros chegaram a Yerba Buena dispostos a explorar as crenças desse povo simplório. Os irmãos Santos e Cayetano Hernandez eram bandidos comuns, envolvidos com extorsão e esquemas ilícitos em vários cantos do país. Os dois planejaram um golpe que colocaria a cidade aos seus pés, tornando-os indivíduos importantes. Proclamando a si mesmos como sacerdotes astecas exilados, a dupla ofereceu aos camponeses o que diziam ser os "costumes dos antepassados". Usando seu poder de convencimento, eles afirmavam ao povo local que poderiam ensinar a eles os velhos costumes e que, com isso, os deuses iriam sorrir para Yerba Buena. Como recompensa pela sua devoção, os campos iriam florescer com fartura, não haveria doença e nem pobreza. Além disso, havia uma lenda local a respeito de valiosos tesouros escondidos em cavernas nas montanhas próximas. Os golpistas convenceram o povo que os deuses revelariam a localização dessa riqueza se fizessem conforme eles diziam.

No início, alguns dos camponeses ficaram incrédulos a respeito das promessas, mas logo as dúvidas foram se dissipando diante dos discursos cada vez mais vibrantes dos golpistas. Usando trajes típicos, a dupla reunia cada vez mais pessoas nas montanhas, prometendo a elas riqueza que sequer podiam imaginar. A medida que as pessoas se convenciam de suas promessas, eles diziam claramente que o único obstáculo para obter tudo aquilo eram os infiéis que ainda existiam no povoado. Não demorou para que os últimos que ainda resistiam aos sacerdotes fossem expulsos de Yerba Buena.      

Com a população sob o seu controle, Santos e Cayetano passaram a governar o vilarejo conforme bem entendiam. Como uma espécie de tributo aos "Deuses" eles exigiam lealdade completa e devoção. Obedientes, as pessoas ofereciam a eles comida, bebida e o pouco dinheiro que tinham. Mas a dupla não parou por aí: demandavam ainda favores sexuais. Os alegados rituais astecas que eles apresentaram ao povo envolvia o consumo de drogas pesadas, em especial peyote e mescalina, que serviam como combustível para medonhas orgias. Estupro, incesto, pedofilia e bestialidade eram apenas alguns dos elementos inseridos nos tais rituais, tudo permitido sob a desculpa de serem uma "homenagem aos Deuses".

Os irmãos mantiveram seu esquema por um ano, até que alguns membros do Culto começaram a perceber que as coisas não estavam funcionando conforme prometido. Muitos se ressentiam de que o Pacto com os deuses não lograva muitas recompensas. De fato, a sucessão de rituais orgiásticos havia custado a colheita e os campos não pareciam ter se beneficiado com os rituais realizados. Enfim, havia ainda mais pobreza e fome que antes. Os sacerdotes explicaram que os deuses estavam realizando uma espécie de teste com o povo de Yerba Buena, para descobrir se eles iriam se manter fiéis mesmo diante de um período de adversidades. Salientaram que se eles continuassem leais, as recompensas seriam ainda maiores. Isso acalmou os ânimos, mas também acendeu um sinal de alerta para a dupla que precisava oferecer algo em troca para apaziguar os questionamentos.

Magdalena Solis em uma foto de registro penal
Os dois concluíram que precisavam acrescentar algum elemento extra ao seu esquema. Decidiram ir até a cidade de Monterrey em busca de alguma ideia e lá acabaram conhecendo Magdalena e Eleazar Solis uma dupla de aproveitadores tão sórdidos quanto eles próprios.

Magdalena era uma prostituta que trabalhava nas ruas de Monterrey, agenciada pelo próprio irmão Eleazar. Eles costumavam operar pequenos crimes, ainda que Eleazar já tivesse várias passagens pela polícia por violência e roubo. Os dois estavam interessados em deixar Monterrey e se esconder em algum lugar, ao menos até a poeira de um último problema com a lei baixar. Os Irmãos Hernandez contaram aos dois sobre seu esquema em Yerba Buena e eles imediatamente ficaram interessados em assumir o papel.

É importante destacar que Magdalena e Eleazar, embora fossem irmãos, mantinham uma relação conturbada, para dizer o mínimo. Praticavam incesto desde a adolescência, Eleazar havia convencido a irmã de que ela só poderia confiar nele e que deveria fazer tudo o que ele ordenava. Ele era extremamente agressivo e ferozmente possessivo quanto a Magdalena, alternando momentos de carinho doentio com profundo desprezo. Segundo se apurou posteriormente, a dupla estava envolvida em prostituição, mas se dedicava a realizar fetiches extremos e raptava crianças nas ruas de Monterrey para oferecer a círculos de pedofilia. Eram pessoas inescrupulosas e perturbadas, o ingrediente definitivo que levaria a tragédia a Yerba Buena.

Uma vez de volta ao povoado, os irmãos Hernandez se depararam com uma nova onda de questionamentos e dúvidas por parte de sua congregação. Nas semanas em que estiveram longe, uma forte chuva destruiu as parcas plantações que ainda resistiam e os camponeses estavam furiosos. Onde estava o favor dos Deuses? Quanto tempo ainda teriam de esperar? 

Coatlicue, Deusa de Sangue
Os "sacerdotes" prometeram que as respostas seriam dadas no final de semana e que a verdade seria apresentada diante deles. Os dois convenceram a população inteira do povoado a ver com os próprios olhos um milagre que aconteceria em uma caverna que passou a ser chamada de Sagrada. Lá, diante dos olhos da população, Eleazar foi apresentado como um novo sacerdote Asteca que havia vindo para salvar o vilarejo. Incorporando o papel, o sujeito subiu em uma pedra e começou a gritar palavras em algum idioma imaginário e então, em meio a uma explosão de fumaça e enxofre surgiu uma mulher nua que foi apresentada como a encarnação da Deusa Coatlicue.

Não foi necessário mais do que alguns truques baratos com fumaça e pólvora para convencer a população da Yerba Buena de que eles estavam diante de uma Deusa de verdade. Magdalena incorporou perfeitamente o papel que lhe deram e ao se aproximar dos camponeses, estes imediatamente começaram a se colocar de joelhos. Alguns choravam, gritavam ou simplesmente se atiravam aos seus pés para beijá-los. Eles imediatamente aceitaram seu aparecimento como um milagre e qualquer dúvida desapareceu diante da presença da Deusa que caminhava entre eles.

Tendo pesquisado minimamente a respeito de Coatlicue, os golpistas descobriram que ela era uma "Deusa de Sangue" que através de sacrifícios ofereceria aos seus seguidores grandes recompensas. Além disso, a divindade não iria admitir que qualquer pessoa desafiasse sua autoridade (ou a dos seus sacerdotes), instituindo que aquele que o fizesse, fosse declarado inimigo e imediatamente removido do seio da comunidade.

Magdalena assumiu de tal forma o papel que lhe deram que os irmãos Hernandez ficaram imediatamente impressionados. Por vezes, ela fugia do roteiro, mas quando se dirigia aos camponeses o fazia com tanta autoridade e força que logo, ninguém duvidava de quem ela alegava ser. Magdalena instituiu estranhos rituais e deu um novo alento às orgias que passaram a acontecer na Caverna Sagrada onde ela se revelou para o povo de Yerba Buena. Toda semana, ela mandava reunir os camponeses e os obrigava a consumir doses de mescalina. Tomados por um furor causado pelas substâncias alucinógenas, os camponeses viam coisas e acreditavam realmente que testemunhavam portentos mágicos.

A Deusa mandou que as mulheres se sujeitassem a seu Alto-Sacerdote, Eleazar e que os homens trabalhassem para os Hernandez sem descanso. Mandou que dessem a eles tudo que tinham, pois receberiam em troca dez vezes o que ofertavam. A Deusa garantiu que o Tesouro dos Antigos seria revelado e que cada um teria sua parte em ouro. Para celebrar esse pacto, ela mandou matar uma cabra e colocou o sangue do animal em uma cacimba na qual misturou peyote para ser consumido. Para finalizar, ordenou uma orgia na qual os cultistas se banharam em uma piscina de sangue de vários animais.

Imagens que influenciaram o Culto de Sangue
Com o passar do tempo, as coisas foram se tornando cada vez mais estranhas no povoado. 

As pessoas que moravam nos arredores estranhavam que ninguém mais saía de lá e que não se admitia estranhos em Yerba Buena. Alguns sussurravam que as pessoas lá haviam se tornado excêntricas e paranoicas com a presença de qualquer estranho. Os lavradores não vendiam mais sua colheita nas cidades vizinhas e alguns recenseadores e médicos do governo que foram visitar o povoado acabaram expulsos. 

Mas apesar das promessas, a rotina de abuso sexual e de drogas causavam danos, em especial aos que tinham família. Alguns se cansaram de ser escravos. Dois indivíduos tentaram fugir do vilarejo, mas foram capturados e arrastados de volta para a Caverna Sagrada onde a Deusa os sentenciou a morte. Imediatamente os dois foram linchados pelo restante da população, induzida a fazê-lo após consumir Peyote e receber a ordem de matar. Ali todos limites foram cruzados e o povo enlouquecido celebrou, banhando-se no sangue dos infiéis.

Não se sabe ao certo se foi a partir desse ponto que o Culto se converteu em algo ainda mais perverso, mas é provável que após experimentar poder de vida e morte sobre as pessoas, algo mudou em Magdalena. Ela sabia que o terror e o medo eram ferramentas essenciais para se perpetuar como a Deusa e estava disposta a estabelecer Domínio sobre o povo de Yerba Buena.

Mais perigoso do que continuar com uma encenação teatral de divindade, Magdalena começou a acreditar em seu próprio conto de fadas. Antes de participar do Culto, a prostituta já havia dado mostras de sofrer de ilusões de grandeza e egomania. Ela se proclamava a mulher mais desejada de Monterrey e sujeitava seus clientes a humilhações, sadismo e todo tipo de perversão. Muitos lembraram que Magdalena tinha um interesse grotesco por sangue e que oferecia aos seus clientes sangue extraído da palma de sua mão. Fazia com que bebessem e dizia que aquilo os tornava escravos de sua vontade. Transformar-se em uma Deusa de Sangue parecia fazer sentido em sua mente distorcida e ela começou a acreditar piamente que era uma Divindade Asteca encarnada.

A "Deusa" mandou chamar seus colegas golpistas e disse a eles que dali em diante, eles deveriam se referir a ela apenas como Coatlicue e esquecer seu "nome mortal". Deveriam também tratá-la com respeito e devoção como o restante do vilarejo. Aleazar aceitou os termos, os Irmãos Hernandez começaram a ficar assustados, pois ela parecia estar falando sério.

Na Caverna do Terror
Coatlicue instituiu que Rituais inspirados pelos Astecas passassem a ser realizados na Caverna. Esses Rituais tinham como objetivo preservar a sua imortalidade e mantê-la jovem para sempre. Nessas ocasiões, Coatlicue bebia o sangue de uma crianças ou adolescente misturado com peyote e depois oferecia para fazer sexo com um camponês afim de partilhar sua energia. Os rituais foram se tornando cada vez mais abusivos e violentos. Aleazar apontava qualquer pessoa de quem desconfiava e esta acabava sujeita a surras, cortes e queimaduras para aprender a lição. Eventualmente, um dos camponeses que ousaram desafiar a autoridade da Deusa e do Culto acabou sendo sacrificado em um altar conforme as interpretações de Magdalena do que deveria ser um ritual de sacrifício asteca. A vítima foi amarrada em uma espécie de altar de pedra e uma faca afiada usada para arrancar seu coração ainda pulsante do peito. Ao longo de nove meses após a aparição de Magdalena, seis pessoas haviam sido sacrificadas. O horror chegou ao seu ápice na pequena comunidade.

Em maio de 1963, teve início a derrocada do Culto. 

Um rapaz de 14 anos chamado Sebastian Guerrero, vivia no povoado vizinho e tinha um primo em Yerba Buena. Ele havia ouvido falar de estranhos boatos a respeito do que acontecia lá, mas como a maioria, não dava muito crédito às histórias sobre estranhos rituais e uma Deusa Asteca vivendo numa caverna. Certa noite, Sebastian decidiu ir escondido até o local e ver o que acontecia. Ele acabou descobrindo a Caverna Sagrada por acaso, atraído pelo movimento de pessoas seguindo para lá. Escondido, o rapaz testemunhou uma celebração na qual uma pessoa foi sacrificada e a orgia que se seguiu. 

Ele fugiu aterrorizado e procurou a delegacia de polícia mais próxima que ficava em Villa Gran, cerca de 25 quilômetros de Yerba Buena. Assim que chegou lá, exausto e em estado de choque, Guerrero começou a resmungar sobre coisas estranhas: "um grupo de pessoas... assassinos... mataram um homem... arrancaram seu coração e beberam seu sangue... como vampiros!"

Os policiais se entreolharam e começaram a rir. Acharam que o rapaz estava bêbado ou que tinha algum problema mental. Quando ele insistiu e começou a gritar com eles, acabaram trancando-o em uma cela para que ele se acalmasse. Na manhã seguinte, um investigador de polícia chamado Luis Martinez, amigo do pai de Guerrero, foi chamado para conversar com o rapaz. Ele não acreditou na história - afinal era muito absurda para ser verdade, mas concordou em levá-lo de volta para casa. No caminho o rapaz deve tê-lo convencido a parar em Yerba Buena para dar uma olhada no local onde o "suposto assassinato" havia acontecido.

Nem o investigador e nem Sebastian foam vistos novamente. Ao menos, não com vida.

O desaparecimento do policial Martinez acendeu um alerta em Villa Gran. Ninguém sabia o que poderia ter acontecido e acharam melhor averiguar por desencargo de consciência. Nos povoados vizinhos de Yerba Buena coletaram várias histórias estranhas a respeito de rituais que aconteciam por lá, mas ninguém sabia detalhes. Temendo estar diante de algum tipo de culto satânico, os policiais decidiram fazer uma visita ao povoado.


Em 31 de maio de 1963, duas viaturas oficiais chegaram a Yerba e foram recebidos por uma multidão armada com paus e pedras. Eles tiveram de escapar às pressas pois logo apareceram homens armados que dispararam contra os policiais. A polícia retornou algumas horas depois, acompanhada por militares chamados em um quartel em Monterrey. 

Acharam a cidade deserta!Os poucos que haviam se escondido em suas casas se entregaram afirmando ter medo da ira de Coatlicue. Contaram que o resto da população havia seguido para a Caverna Sagrada onde pretendiam pedir ajuda da Deusa. Um contingente de 300 homens armados seguiu para o local nas montanhas e achou a boca da caverna barricada. Um violento tiroteio começou, mas a superioridade numérica e equipamento dos militares falou mais alto e logo eles conseguiram entrar. 

Nada poderia prepará-los para o que acharam lá dentro!

Os camponeses estavam em pânico, muitos deles gritavam, arrancavam os próprios cabelos ou se arranhavam a ponto de se mutilar. A maioria se entregou sem reagir após o tiroteio inicial, choravam temendo o que a Deusa faria com eles. Na câmara principal da Caverna, os militares encontraram o local onde os rituais aconteciam, um tipo de mesa de pedra fazia as vezes de altar, estava coberto de sangue seco e escuro. Havia uma espécie de cadeira que servia de trono para a Deusa e vários colchões e lençóis, onde aconteciam as orgias, estavam espalhados aos seus pés. 

O pior, no entanto, era uma fenda rochosa que ficava ali do lado e da qual emanava um fedor nauseante de podridão. Ao lançar a luz de uma lanterna em seu interior descobriram que era ali que os cultistas haviam arremessado as vítimas de seus rituais de sacrifício. Havia pelo menos uma dezena de corpos em vários estados de decomposição jogados lá dentro. Entre estes, os cadáveres ainda frescos do investigador Martinez e de Sebastian Guerrero. O coração do policial havia sido removido como nos sacrifícios astecas.   

Não encontraram sinal de Magdalena e de seu irmão Eleazar que aparentemente haviam aproveitado para escapar. Entre os mortos e feridos estavam Cayetano Hernandes que foi baleado e Santos que quase foi linchado pelos cultistas depois de ordenar que eles pegassem armas para enfrentar os soldados. Santos foi interrogado e acabou revelando para onde seus comparsas haviam seguido. Segundo ele, Magdalena e seu irmão tinham uma fazenda na qual se escondiam. A polícia seguiu para lá e prendeu os dois que estavam se preparando para fugir. Além dos dois, a polícia libertou quatro adolescentes, meninos e meninas que serviam como criados e escravos na fazenda, além de uma grande quantidade de maconha, peyote e mescalina. 

Quando os policiais tentaram algemar Magdalena ela gritou e tentou mordê-los dizendo que era uma Deusa e não podia ser tratada daquela maneira. Deusa ou não, ela foi colocada em uma viatura e levada para Monterrey.     

O caso causou sensação no México e foi explorado pela imprensa ao longo de meses. O julgamento se tornou um dos acontecimentos mais aguardados no país em 1964 e a população esperava ansiosa por uma condenação exemplar dos envolvidos. No julgamento, os advogados dos irmãos alegaram que os dois eram mentalmente incapazes, visto que Magdlaena ainda acreditava ser uma Deusa e seu irmão um Alto-sacerdote Asteca. Um psiquiatra, no entanto, atestou que eles sabiam perfeitamente que seus atos eram errados e que agiram dessa forma em benefício próprio.

A Fazenda que serviu de refúgio
Na sentença, eles foram condenados a 50 anos de prisão pelos assassinatos de Guerrero e Martinez. A participação nos demais crimes, embora confirmada por membros do culto, não pôde ser provada. Magdalena continua presa numa Colônia Penal, é pouco provável que ela seja libertada um dia. Ela tem 83 anos de idade. 

Um grande número de cultistas, muitos deles arrependidos por terem tomado parte nos horríveis acontecimentos, relataram em detalhes como era o dia a dia em Yerba Buena e as atividades do Culto. Alguns membros implicados em crimes foram condenados com penas que variavam entre 20 e 30 anos de cadeia. Dois livros foram escritos por cultistas.

O caso de Yerba Buena se tornou sinônimo de lavagem cerebral e condicionamento mental de um grupo de pessoas submetida a tensão e um cenário fantasioso. Ele foi estudado exaustivamente por profissionais da área psiquiátrica como um exemplo do que pode acontecer com grupos isolados que se deixam convencer por auto-proclamados messias ou deuses encarnados. O mais chocante nesse caso talvez seja descobrir do que as pessoas são capazes e que atos hediondos estão dispostas a cometer em nome de suas crenças.