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segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Muralha de Adriano - Os Limites do Império Romano na Escócia


Próximo do fim do primeiro século, os Romanos já haviam incorporado ao seio do Império a maior parte do território hoje pertencente à atual Inglaterra. Não havia sido nada fácil dada a resistência dos povos locais decididos a não se submeter ao jugo dos invasores. Os romanos já haviam experimentado um histórico de violentas rebeliões no sul, sendo a mais famosa o levante comandado pela rainha celta Boadicea, em 61, que resultou na destruição de Londinium, povoado romano que deu origem a Londres. Outros levantes causavam sérios danos e constituíam um obstáculo às pretensões do Império. Havia líderes tribais hostis e os druidas, representantes das velhas crenças pagãs, condenavam a invasão dos romanos, que haviam recentemente adotado a crença cristã.

Demorou quase um século, apenas quando Cláudio chegou ao trono, para as operações nessa região se intensificarem e surgirem resultados favoráveis para os romanos. O que hoje é conhecido como Inglaterra, em especial a região sul e leste, foi enfim conquistada pelas legiões.

Em meados de 70 dC, a atenção dos romanos se voltou para o norte, um território chamado Caledônia, que oferecia vastas riquezas na forma de escravos e metais. Essa conturbada região que hoje corresponde à Escócia sinalizava como o próximo alvo natural para as expansões imperiais. Tratava-se de uma região selvagem e pantanosa, habitada por inúmeras tribos e clãs bárbaros que formavam um povo conhecido pelos romanos como Pictos. Os Pictos eram vistos como uma grave ameaça à seu domínio. Seu nome em latim significava "pintados" e se referia às tatuagens e pinturas corporais que eles adotavam quando iam para a batalha. Esses guerreiros implacáveis, de cabelos negros e pele morena, se entregavam ao calor da batalha de uma forma que assustava até os legionários mais calejados.  Os pictos lutavam nus e tinham uma bravura que beirava a insanidade. Saltavam para o combate com lanças e machadinhas, investindo sem se importar com a própria segurança.


As primeiras incursões romanas na Caledônia ficaram marcadas por mais derrotas do que vitórias. Os pictos se mostraram inimigos ferozes e dispostos a tudo para preservar as suas terras. Eles sabiam como se mover rapidamente pelo território e armavam emboscadas mortais que causavam sérios danos às tropas romanas. No mais famoso e ousado desses ataques, uma emboscada noturna teria causado baixas consideráveis à IX Legião. Os homens que retornaram da expedição à uma charneca foram literalmente massacrados pelos pictos usando flechas envenenadas. Os poucos que voltaram com vida estavam muito feridos ou enlouquecidos pela experiência.

De acordo com Tacito, cronista principal do Governador Julius Agrícola, o ponto de virada para os romanos foi a vitória conquistada em 83 dC, na sangrenta Batalha de Mons Grapius, que resultou numa verdadeira carnificina. Os romanos conseguiram atrair um grande contingente de seus inimigos para uma luta em campo aberto onde, sabiam, levavam vantagem. Acreditando que sua vantagem numérica lhes daria a vitória, os pictos invadiram o campo de batalha aos milhares. Foram derrotados pela melhor organização e disciplina dos romanos. Hordas de pictos foram rechaçadas uma após a outra pelas centúrias romanas dispostas ao longo do campo. Segundo o historiador, a ferocidade do combate foi tamanha que os caledônios que se viram forçados a bater em retirada abateram suas próprias mulheres e crianças temendo a represália dos inimigos. A maioria deles escapou para as Terras Altas no Norte da Ilha.

Parecia então questão de tempo até que os romanos conseguissem estabelecer controle total sobre as disputadas terra do norte. Contudo, não foi isso que aconteceu. Embora tenham conquistado uma vitória decisiva, ela não se mostrou definitiva já que os pictos restantes não estavam dispostos a ceder seu território sem luta.


Sabendo que não poderiam fazer frente aos romanos no campo de batalha, os Caledônios adotaram outra estratégia para enfrentar os invasores. Passaram a atacar os povoados e fortes estabelecidos pelos romanos, usando para isso bem elaboradas táticas de guerrilha. Os ataques aconteciam à noite e logo que os romanos se organizavam para o contra-ataque, os pictos escapavam para algum território pantanoso que conheciam bem e no qual podiam se refugiar para se defender melhor. Os romanos perderam muitos homens nesses ataques e nas perseguições que se seguiam. Isso afetava enormemente o moral das tropas que passaram a temer os pictos e reputar a eles rumores apavorantes. Diziam que os guerreiros eram mais feras que homens e que seus feiticeiros podiam se transformar em serpentes venenosas.

Os pictos por sua vez se mostravam cada vez mais ousados nas suas incursões. Os primeiros assentamentos romanos sofreram pesadas perdas nas mãos de saqueadores que roubavam gado, incendiavam fazendas e espalhavam o terror entre os colonos. Deixavam após sua passagem um rastro de morte e destruição ao longo de toda fronteira. A Caledônia logo passou a ser considerada uma das regiões mais perigosas do Império e o risco de se estabelecer nesse lugar selvagem afugentava a maioria dos colonos. Os constantes ataques de clãs pictos se tornaram um incômodo para Roma que precisava realizar campanhas regulares que consumiam fortunas em recursos e homens. Eles podiam ter conquistado as terras, mas os pictos continuavam sendo uma incômoda pedra em sua sandália.

Entra em cena então o Imperador Adriano.


Adriano havia reformado os exércitos, equipou as tropas e ganhou enorme respeito entre os militares ao adotar para si a vida de um soldado comum, marchando e carregando equipamento como qualquer outro legionário à serviço do Império. Mas embora contasse com o amor e devoção de seus exércitos, Adriano ainda tinha inimigos políticos - e temia ser assassinado em Roma. Decidido a manter distância desses rivais, ele deu início a uma série de visitas às Províncias do Império. Até então, aquilo era uma novidade, já que o Imperador raramente deixava Roma. Durante essas viagens ele arbitrava disputas, pacificava querelas e espalhava sua boa vontade, assumindo o papel de grande conciliador. Adriano defendia que Roma deveria estabelecer limites para o Império e refrear seu ímpeto de conquistas em favor de consolidar as terras que já possuía.

Um dos lugares visitados pelo Imperador Adriano foi a problemática Província da Britânia que constituía um exemplo perfeito para sua visão anti-expansionista. Do seu ponto de vista, de nada adiantava anexar novos territórios, se aqueles já governados estavam sujeitos a levantes e rebeliões. Adriano queria assegurar a posição de Roma sobre a Britânia e garantir que as terras fossem consolidadas de uma vez por todas.

O ideal seria manter os revoltosos à distância e impedir que eles cruzassem a fronteira para realizar ataques aos fortes e povoados já existentes. Tendo esse objetivo em mente, os romanos planejaram erguer um muro, protegido por sentinelas e fortificações. Dizem as lendas que o conceito do muro partiu do próprio Adriano que fez o desenho da muralha. Com esta criavam uma zona de exclusão capaz de manter os inimigos à distância, o que garantia a segurança e desenvolvimento dos assentamentos estabelecidos. Traçando esse limite, mostrariam que os romanos estavam ali para ficar. 


As obras para a construção da colossal muralha se iniciaram no ano 122 dC, à mando do Imperador Adriano em pessoa. O muro de pedras se estendia por mais de 120 quilômetros, atravessando planícies como uma linha divisória. Sua extensão cobria de costa a costa a região em que o território britânico se estreitava como um gargalo. Para acompanhar a construção do muro, os romanos despacharam tropas incumbidas de fazer a segurança dos operários. Pontuaram essa fronteira com nada menos do que 260 fortificações responsáveis por suprir os trabalhadores vindos de todos os cantos do império. Em meio à construção, mudaram o foco e os próprios soldados começaram a se ocupar do trabalho de erguer o muro.

A maior parte da matéria prima, pedra e turfa, foram obtidas no local, ainda que o transporte de um canto para o outro tenha sido um desafio considerável. Os operários talhavam as pedras, enquanto escravos as transportavam até o local desejado para sua colocação. Madeira e metais foram trazidos de longe ou negociados com líderes britânicos locais que se tornaram aliados dos romanos da noite para o dia. A edificação do muro ironicamente ajudou a pacificar rivais de longa data que se viram atraídos pela possibilidade de enriquecer com o enorme empreendimento.   

Os romanos fizeram de tudo para economizar onde podiam na obra, mas apesar disso, a qualidade da construção impressionava. O muro demorou quase 6 anos para ser construído e contou com pelo menos 15 mil operários. No final das contas, era uma obra sólida e extremamente resistente que cumpria a sua função de imediato. Com uma altura média de 4,5 metros por 2,5 metros de largura o muro fornecia uma defesa eficiente contra invasores. O seu topo era percorrido por uma estrada de 1 metro de largura, por onde transitavam as sentinelas. Os quartéis espalhados ao longo do muro, com torres de observação ofereciam abrigos de onde era possível ver os arredores e se precaver da aproximação de inimigos. Mais do que isso, os soldados podiam dormir, descansar e cozinhar sem abandonar o posto.


A Muralha de Adriano não foi erguida apenas por questões de segurança. Ela servia a outra importante função - gerar renda para o Império. Historiadores acreditam que a barreira possuía postos que cobravam taxas sobre circulação de mercadorias e pedágio para a passagem de pessoas. A muralha também ajudou a atrair um fluxo de colonos que se sentiam protegidos por ela. Não por acaso, povoados começaram a nascer junto da muralha ou próximo a ela permitindo a colonização da Província. Curiosamente, alguns povoados de caledônios também começaram a se instalar perto da muralha por indivíduos interessados no comércio que se desenvolveu gradualmente.

Mas os planos de Adriano de desenhar os limites do Império Romano e consolidar as terras esbarraram na ambição de seus sucessores. Em 138 dC, o Imperador Antonino ordenou uma nova invasão da Caledônia, reascendendo as disputas com os Pictos. As tropas romanas avançaram de forma significativa em território escocês, a ponto de construírem uma segunda muralha dedicada a Antonino, 160 km ao norte da de Adriano e já bem mais próximo das Terras Altas.

A Muralha de Antonino era menor, com 63 km de extensão, e erguida com barro em vez das pedras como a fortificação original. A construção só resistiu por 12 anos, até 154. As linhas romanas retrocederam para a Muralha de Adriano que se firmou como o ponto defensivo mais ao norte. O império faria mais quatro grandes invasões, incluindo uma, em 209, com 40 mil homens. Em 211, chegou-se a um acordo de paz com os clãs locais, já bastante romanizados tendo adotado tradições, religião e até mesmo o idioma.


Com a decadência do Império Romano nos séculos que se seguiram, a Muralha de Adriano, que ficava longe demais da sede do Império começou a perder homens e teve sua manutenção negligenciada. No século IV, os caledônios lançaram uma ofensiva que a muralha não foi capaz de conter. Às voltas com as invasões bárbaras em Roma, mais e mais tropas foram deslocadas das ilhas britânicas, até que em 410 teve fim a administração romana. Os povos locais passaram a controlar a Muralha que foi então gradualmente abandonada.

Os romanos, no entanto, haviam deixado um legado indelével tanto na paisagem quanto na história local. Britânicos e também os caledônios haviam assimilado muito de sua cultura. Roma também incentivou o surgimento de cidades o que ajudou a desenvolver a região antes isolada e perigosa. O comércio se estabeleceu e a adoção de leis diminuiu os riscos para os que viajavam. Estradas ligavam pela primeira vez os centros urbanos, assim como canais para abastecimento de água e técnicas de cultivo e colheita nos campos.

A Muralha de Adriano existe até hoje, é uma construção magnífica, verdadeiro testemunho da genialidade dos romanos e de sua capacidade de mobilização nos tempos antigos. Milhares de turistas a visitam anualmente e se impressionam com sua grandiosidade.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

O Antiquário - O Homem que desenterrou o passado de Londres


Era uma pequena loja em uma das partes menos elegantes de Londres, mas ela possuía a mais peculiar das clientelas. De segunda a sexta o lugar ficava fechado, e seus únicos visitantes eram estudantes que vinham espiar através da vitrine as maravilhas em exposição. Aos sábados a loja abria as suas portas e as pessoas vinham admirar o que estava à venda. O proprietário - descrito por um conhecido como um "genial batráquio", era baixo, com uma barriga proeminente, cabelos grisalhos rareando e olhar curioso. Ele tinha o hábito de fumar seu cachimbo com um tabaco de odor pronunciado. Sentava-se atrás do balcão, esperando pacientemente pelas pessoas despejarem ali seus tesouros. Ele ficou lá por muitos anos - de 1895 até sua morte em 1939, e nesse período acumulou artefatos valiosos, muitos dos quais posteriormente adquiridos pelos principais Museus de Londres.

O jornalista H.V. Morton escreveu para seus leitores em 1928 as seguintes palavras no Sunday Times:

"Talvez seja a mais estranha e incomum loja de Londres. A tabuleta sobre a porta de entrada mostra o símbolo de egípcio do Deus Ra, não uma simples placa, mas um artefato removido de uma tumba ancestral no Vale dos Reis. As prateleiras e armários estão sempre tomados por centenas de objetos. Os períodos históricos dispostos lado a lado. Vasos chineses e ânforas gregas ao lado de espadas japonesas, broches elizabetanos, cabeças de flecha saxãs, moedas romanas, estatuetas celtas...

Há pedaços de tecido usado para envolver múmias, fragmentos de vidro colorido, uma sandália romana em perfeito estado, encontrada abaixo do pavimento de Londres, um pequeno objeto encolhido e ressecado que é uma mão humana mumificada... todos objetos genuínos, podendo ser adquiridos por alguns shillings".

Essa valiosa coleção de tesouros ou simples tranqueira dependendo de seu ponto de vista era coletada por George Fabian Lawrence, um antiquário nascido na área de Barbican, em Londres no ano de 1861. A maior parte do estoque havia sido reunida clandestinamente, e mais de uma vez museus da região visitaram o lugar para reaver alguma peça surrupiada de uma exposição pelos dedos leves de um visitante. A loja não perguntava a procedência dos itens negociados, comprava e pagava em dinheiro... sem fazer perguntas.


Por praticamente meio-século, instituições augustas, do célebre Museu Britânico até os pequenos museus itinerantes de curiosidades, faziam visitas regulares ao Antiquário localizado em West Hill. Ele supria acervos com coisas vindas de todos os cantos do mundo. Entre as mais valiosas peças obtidas por Lawrence estava a cabeça de uma estátua representando um Deus Marinho grego, peça que foi comprada pelo Museu de Londres e até os dias atuais é uma de suas principais atrações. O Museu Britânico adquiriu no Antiquário uma tábua etrusca com maldições que desde então consta em seu acervo. Foi dali que veio também o Tesouro Cheapside, uma inestimável coleção de jóias com mais de 500 itens incluindo gemas, broches, anéis, pulseiras e colares encontrados em um porão pouco depois da Grande Guerra. Foi um verdadeiro triunfo para a carreira de Lawrence ser ele o intermediário nessa barganha, já que ela compõe a maior e mais completa coleção de jóias do período Elizabeth e Stuart até hoje. Isso sem mencionar os broches egípcios, os instrumentos musicais celtas, os artefatos da Babilônia, os tesouros israelitas, as peças romanas e todo o resto.

O método de negociação de Lawrence era simples e engenhoso. Por muitas décadas ele vagava pelos bairros periféricos de Londres sempre nos horários de almoço e folga dos trabalhadores que lá viviam. Pagava bebidas e perguntava se aquelas pessoas estariam dispostas a vender coisas que tivessem encontrado ou que estivessem em suas famílias há gerações. Lawrence sabia que os antepassados daquelas pessoas haviam viajado pelo mundo, conhecido terras exóticas e visitado lugares distantes. O Império Britânico havia espalhado sua influência até os limites da Terra e seus súditos tinham uma sede inesgotável de novidades e curiosidades. Quando retornavam para suas casas, traziam consigo pequenas lembranças que ficavam na família passando de pai para filho. 

Também eram essas pessoas que escavavam, procuravam e desenterravam fragmentos da longa história de Londres. A velha Londres que havia visto tantas gerações que a chamaram de lar. Nos porões e subterrâneos encontravam peças da antiguidade, quando a cidade ainda era jovem mas já fervilhava com vibrante comércio e incontáveis visitantes. O antiquário sabia que eram os trabalhadores e operários da cidade quem tinham maior chance de encontrar tais objetos, já que eles eram os responsáveis por demolir os velhos prédios e erguer os novos. Eles tinham um contato mais íntimo com o mundo antigo que a maioria dos estudiosos jamais teria.


Lawrence era um intermediário que pagava em dinheiro pelos tesouros que lhe eram oferecidos. Logo se tornou conhecido: as pessoas passaram a procurá-lo com mercadorias retiradas das profundezas do Tâmisa, das margens lodosas de rios, de ruínas escavadas e de fundações abandonadas há séculos. Tudo que podia ter valor histórico acabava passando pelas suas mãos. 

De acordo com Morton, que visitou o Antiquário em West Hill ainda jovem em meados de 1912, Lawrence era tão conhecido entre a população simples de Londres que muitos o consideravam um colega de trabalho. Alguns o chamavam de "Stoney Jack", um sujeito disposto a pagar shillings por pedras e lixo aparentemente sem valor. O antiquário explicava aos interessados o que estava buscando: qualquer coisa antiga, estranha, peculiar e incomum. Ainda que não parecesse ter valor, ele estava interessado em ver o que era oferecido e dar seu veredito. Disseminou dessa maneira um "rudimentar treinamento arqueológico" para quem quisesse aprender. Permitia que pobres, destituídos e vagabundos visitassem sua loja para ter uma noção do que ele desejava. Voltavam dias mais tarde carregando peças embaladas em sacos de aniagem e caixotes velhos de madeira. Assim chegavam às suas mãos ávidas aquelas cabeças de múmias, punhais romanos, capacetes normandos e outros tesouros.

Lawrence fazia a maioria de suas negociações cara a cara, sem a necessidade de agentes. Ele mantinha os bolsos cheios de meia-coroas, shillings e sixpence usados para recompensar contatos e informantes que lhe traziam dicas de onde encontrar as peças. Algumas de suas negociações ocorriam em pubs e tavernas, com contrabandistas, ladrões de sepultura e viciados em ópio despejando sobre uma mesa suja algum fragmento vivo da história. O antiquário avaliava ali mesmo, pegava, pesava, ponderava e depois disso enfiava a mão no bolso removendo algumas moedas.


Suas maiores descobertas, contudo foram feitas em suas peregrinações por Wandsworth. As peças dessa região portuária e movimentada eram trazidas de longe pelos homens do mar da orgulhosa Marinha de Sua Majestade e por marujos estrangeiros que vinham de toda parte. Eram objetos que viajavam no porão de navios cargueiros, negociados diretamente, trocados por alguma quinquilharia ou arrancados dos dedos de algum nativo recalcitrante. Não demorou para que os próprios marinheiros, cientes da fama de Lawrence, trouxessem itens que podiam lhe interessar. Quando um navio chegava do Cairo, dos Mares do Sul, do Oriente Distante ou de outras paragens, lá estava o Antiquário para recepcioná-lo, com seus bolsos cheios de moedas.

"Lawrence compreendia que aquelas pessoas eram simples e não tinham noção do que estavam oferecendo por alguma ninharia. Ainda assim, ele não considerava que estava ludibriando seus parceiros, a maioria daquelas coisas seriam descartadas ou jogadas no lixo se não fosse por ele. Muitas das pessoas que os traziam, achavam que elas estavam sendo espertas e que Lawrence era o idiota".

Os informantes e negociantes que procuravam o Antiquário se espalhavam pela cidade, mas seu alcance era ainda maior, chegando a Bristol, York, Birminghan, Oxford... em tempos em que a informação era transmitida face a face, Lawrence conseguia criar uma rede de informantes como um King Fagin.      

Dois outros toques de genialidade garantiam que o velho Stoney Jack permanecesse como um favorito da classe operária. Primeiro, ele era justo! Se um objeto trazido até ele fosse negociado por um valor muito superior com alguma instituição, ele rastreava quem havia trazido originalmente e oferecia uma recompensa. Além disso, Lawrence jamais deixava de oferecer uma recompensa aos que traziam algo para ele. Ele dava alguma gorjeta como forma de cativar seus fornecedores. Mesmo as descobertas mais modestas recebiam um agrado, nem que esta tomasse a forma de uma caneca de cerveja ou prato de ensopado. A atitude de Lawrence cativava as pessoas, era ele, afinal de contas um estudioso, homem letrado e distinto, mas disposto a tratar as pessoas de modo gentil. Sua atitude lhe valeu outro apelido entre os pobres, "Old six-pence", um testamento a sua generosidade.


Lawrence viveu num tempo em que a arqueologia estava emergindo como uma disciplina acadêmica, mas embora tivesse uma carreira profissional como oficial de construção da cidade, e ganhasse um bom salário, ele se considerava acima de tudo, um antiquário. A pequena loja em West Hill poderia ser apenas um hobby, mas aquilo era de fato, o que ele mais gostava de fazer.

Filho de um penhorista, ele teve contato com objetos antigos desde criança. Lawrence abandonou os estudos e com entusiasmo abraçou o ofício que era de seu pai, tornando-se um auto-didata. Sabia que o pai perdia dinheiro vendendo objetos de valor por ninharia, sem conhecer a origem das peças. Para não cair no mesmo erro vasculhava os livros da Biblioteca do Museu Britânico em busca de informações em livros e catálogos, tentando descobrir a história dos itens que passavam pelas suas mãos. Ali descobriu que uma moeda romana podia valer cem vezes o valor da compra. Soube como diferenciar metal amarelado de ouro, como reconhecer peças originais e como separar bijuterias de jóias. Logo ele substituiu o pai no comando da loja de penhores, mas esse emprego não duraria já que ele queria algo mais íntimo. Ele desejava ter acesso às peças, manipular, ver, estudar...

Para Lawrence, o passado parecia mais real e infinitamente mais fabuloso do que o presente. Ele dizia ser capaz de sentir quem havia sido o dono daquelas peças, quem as havia usado e em algum momento, amado. Ele podia segurar uma sandália de couro usada na Londinium no século I e inventar toda uma narrativa de como ela teria sido perdida indo parar num túnel antigo até ser encontrado por acaso séculos mais tarde. Stoney Jack oferecia uma história colorida de diferentes períodos de Londres. Uma época que ele jamais conheceu, mas da qual falava com discernimento. Não existia ninguém mais aficionado pelo passado do que ele. 

Controverso em suas aquisições e métodos, Lawrence era o homem certo no lugar correto para conservar a herança histórica de Londres. Não é exagero dizer que ele foi essencial para que muitos daqueles tesouros inestimáveis fossem salvos de um triste destino. Entre 1890 e 1930 a cidade passou por uma reforma urbanística comparável apenas a reconstrução por conta do Grande Incêndio de 1666. Prédios antigos eram demolidos e substituídos por novas construções, prédios mais altos e com fundações mais profundas. O subsolo de Londres era constantemente remexido, fazendo aflorar dele tesouros ocultos há gerações. Nos anos que antecederam a moderna engenharia civil, operários eram vitais para escavar e colocar abaixo as construções georgianas que substituíram em ordem cronológica prédios elizabetanos, medievais, saxônicos e romanos. O estrato de eras passadas vinha à superfície expondo a vida dos seus antigos moradores.   


Foi a era de ouro das escavações, com trabalho feito com pás e picaretas, lenta porém gradualmente. Só isso tornou possível preservar tantos tesouros que seriam destruídos por bate-estacas e perfuradoras modernas. Ainda assim, não existia um sistema para identificar antiguidades ou artefatos e muito deve ter se perdido. É lamentável imaginar quantos tesouros foram descartados em pilhas de entulho já que seus descobridores desconheciam do que se tratava. Lawrence ajudou a diminuir essa perda.

Sua intervenção salvou pelo menos 12 mil objetos que foram negociados diretamente com o Museu de Londres e mais 3 mil que foram parar nas estantes do Museu Britânico. Isso sem falar de outros tantos. Do lodo do rio ou do pó das ruínas, as peças precisavam de alguém com os olhos aguçados do antiquário de West Hill para reconhecê-las.   

Quando George Fabian Lawrence morreu aos 79 anos, ele não era um homem rico ou reconhecido. Sua fortuna totalizava cerca de mil libras (aproximadamente 87 mil em valores corrigidos) e sua pequena loja acumulava dívidas.

Para aqueles que o conheceram, o antiquário foi um exemplo, o jornalista H.V. Morton escreveu na ocasião de sua morte que "ao encorajar operários a encontrar tesouros do solo e lutar para que eles fossem reconhecidos como tal" Lawrence fez mais do que um "exército de acadêmicos".

Talvez as palavras mais importantes sejam de Sir Mortimer Wheeler, um dos diretores responsáveis pelo Museu de Londres, e negociante habitual da pequena loja. Na ocasião do funeral ele disse com propriedade:

"A história tem um débito para com o senhor Lawrence e seu incansável trabalho como antiquário. Graças a ele e seus esforços em conscientizar as pessoas da importância desses artefatos, evitou-se que uma parte importante da história da cidade, do país e do mundo caíssem no esquecimento. Graças a ele podemos olhar para quem fomos e pensar em quem aspiramos um dia vir a ser".

Nada mal para um homem que andava com os bolsos cheios de trocados. 

sábado, 2 de novembro de 2019

O Machado Sangrento - A Onda de crimes que aterrorizou Nova Orleans



A história está repleta de misteriosos assassinos que agem na calada da noite e cuja identidade jamais é descoberta. Esses criminosos parecem se materializar direto de pesadelos, para atacar das sombras e lançar terror no coração das pessoas. Esses enigmáticos monstros parecem vir de lugar nenhum para invadir nossas cidades e mesmo nossas casas, capturando-nos em um medo paralisante. E quando concluem seu trabalho sangrento, simplesmente desaparecem novamente deixando para trás vítimas e perguntas que nem sempre são respondidas. 

O mais famoso desses espectros malignos, sem dúvida foi o sanguinário Jack, o estripador que assombrou Londres no final do século XIX. Mas nem de longe ele foi o único a deixar um legado sombrio após sua passagem. De fato, um dos mais persistentes e brutais assassinos do século XX não é tão conhecido, mas os seus feitos assombrosos causaram enorme comoção na América dos anos 1920. Com um furor assassino que teve duração de 2 anos , essa figura semeou o terror na cidade de Nova Orleans, na Louisiana. Seu reinado de terror foi tamanho que as pessoas na cidade temiam pelo pior, trancava-se em casa e compravam armas para se defender desse inoportuno visitante noturno. Alguns, no entanto, afirmavam que nada daquilo adiantava, pois o matador teria ao seu dispor poderes diabólicos, usados para lhe garantir força sobre-humana, além é claro, invisibilidade que lhe permitia ir e vir conforme desejasse. Seus crimes se tornaram lendários, com uma aura quase mítica de mistério indecifrável que permanece sem solução até hoje. 


O reinado de terror da misteriosa figura que ficaria conhecida como "O Homem do Machado" (The Axeman) começou na noite de 22 de maio de 1918, quando Jake e Andrew Maggio, foram alertados pelo que pareciam ser murmúrios de uma pessoa vindos do quarto adjacente, onde seu irmão Joseph Maggio e a esposa, Catherine estavam dormindo. Os dois irmãos ficaram preocupados e levantaram para investigar o que estaria acontecendo. Bateram na porta, mas não houve qualquer resposta. Os dois perceberam momentos depois que a porta da cozinha da casa havia sido cuidadosamente arrombada. Realmente preocupados os dois voltaram a porta e decidiram derrubá-la. Lá dentro, se depararam com uma descoberta aterradora.

O quarto parecia ter sido inteiramente tingido de vermelho - a cama e lençóis, os armários, as paredes e o chão, nada havia escapado incólume. Encontraram o irmão Joseph ainda vivo, mas sangrando em profusão de vários ferimentos direcionados na cabeça. Ao seu lado estava Catherine, que já não se encontrava com vida. Ela havia sido morta por dezenas de golpes violentos que por pouco não seccionaram seu tronco.  

Joseph tentou falar alguma coisa para seus irmãos, mas estes não conseguiram entender o que ele dizia. Quando um médico enfim foi chamado, ele já estava morto pela perda maciça de sangue. A polícia também foi chamada imediatamente . Um exame rápido dos detetives apurou que Catherine havia sido morta com um corte profundo na garganta que quase a decapitou, em seguida, sua face foi golpeada repetidas vezes até ser completamente desfigurada. Joseph recebeu três ferimentos na face, um deles tendo deixado um profundo sulco diagonal em seu rosto. A suspeita inicial de que havia sido uma arma pesada se confirmou quando um dos detetives localizou um machado ensanguentado enrolado em uma camisa que pertencia a Joseph no banheiro. Ali estavam também várias roupas que aparentemente pertenciam ao assassino que decidiu trocar de roupa evitando deixar o local coberto de sangue. Uma navalha também foi encontrada na pia do banheiro.

Um retrato do que havia acontecido começou a se desenhar rapidamente. Foi deduzido que o assassino arrombou a porta usando um formão e um martelo para remover a porta em painel e entrar na casa. Uma vez lá dentro, ele se moveu sorrateiramente sem despertar as pessoas na casa, atacando violentamente o casal enquanto este dormia. Os golpes com o machado deixaram Jospeh e Catherine sem reação. Em seguida, ele usou a navalha para cortar a garganta de Catherine de uma orelha a outra. Os dois receberam então mais uma sucessão de golpes direcionados na cabeça com intento de matá-los de uma vez por todas. O legista posteriormente contou que Joseph recebeu um total de 5 ataques enquanto que Catherine somou 9 golpes de machado.

Nas proximidades da casa, os detetives encontraram outra pista bizarra; uma mensagem rabiscada com giz similar a uma caligrafia infantil. As palavras escritas no muro diziam o seguinte:

"Sra. Maggio irá sentar-se essa noite da mesma forma que o Sr. Toney"

Ninguém foi capaz de entender quem poderia cometer tamanha brutalidade contra o casal. Os dois eram jovens e bem quistos na vizinhança, um casal no início de sua vida. Ninguém conseguiu decifrar o que significava a estranha frase, não havia nenhuma "Sra. Toney" na vizinhança e ninguém soube dizer a quem a mensagem poderia se referir. Roubo também não parecia ser a motivação para o crime, já que a carteira de Joseph e a caixa de jóias de Catherine permaneceram intocadas. Os detetives concluíram que a intenção única do assassino era matar suas vítimas e deixar o local sem ser visto.

Os irmãos que ocupavam o quarto ao lado afirmaram ter chegado da rua pouco antes da meia noite e que não ouviram nada de estranho. Eles usaram a porta da frente e por isso não perceberam que a porta da cozinha havia sido arrombada. Também não perceberam qualquer ruído ou movimento suspeito.

O primeiro suspeito do assassinato foi exatamente o irmão mais velho do falecido, Andrew Maggio. A suspeita principal recaiu sobre ele depois que descobriu-se que a navalha usada para cortar a garganta de Catherine pertencia a ele. Andrew se defendeu dizendo que a navalha de fato era dele, mas que o instrumento, usado em sua profissão de barbeiro ficava no banheiro e poderia ter sido facilmente encontrado pelo assassino quando este vasculhava a casa. A postura fria de Andrew, mesmo depois da descoberta dos corpos, também depunha contra ele. O suspeito contou que estava na cidade celebrando seu último dia de folga antes de se juntar à Marinha para lutar na Grande Guerra. Ele contou ter bebido bastante e que retornara por volta de 23:50, já encontrando as luzes apagadas e a casa em silêncio. Ele e Jake tinham a chave da casa e afirmaram ter entrado em silêncio. A despeito de suas explicações, Andrew Maggio foi preso e considerado como  o principal suspeito até que se determinasse não haver provas concretas. Ele foi liberado alguns dias depois.  

A polícia interrogou vários suspeitos que poderiam estar envolvidos no crime, mas não conseguiu fazer mais nenhuma prisão.  A medida que eles cavaram o caso, descobriram que haviam outros assassinatos similares que haviam ocorrido em uma vasta área entre Louisiana e Texas durante os anos de 1911 e 1912. Uma busca mais criteriosa localizou relatórios de 49 mortes, incluindo famílias inteiras, que foram executadas de modo implacável com machado em suas próprias camas. Em ao menos um desses crimes, uma mensagem críptica foi deixada na forma de uma anotação onde se lia: "Quando Ele fez a inquisição em busca de sangue, Ele não esqueceu do choro dos humildes". Embora não existisse nada concreto para ligar esses casos ao caso Maggio, além das similaridades, uma pista parecia promissora. A última vítima feita em 1912 era um homem chamado Tony Schiambra, que segundo alguns amigos próximos atendia pelo apelido de Toney. 

Mesmo sem qualquer indício ou evidência sólida para ligar os crimes, eles suspeitavam que a morte dos Maggio poderia ser o prenúncio de uma nova onda de crimes. Contudo, o que a polícia podia fazer a essa altura era esperar e ver o que iria acontecer a seguir. 

Eles não tiveram de esperar muito. 

Pouco menos de um mês depois, na manhã do dia 28 de junho de 1918, as portas de uma padaria cujo dono era o imigrante polonês Louis Besumer foram encontradas trancadas por um entregador. Achando aquilo um pouco estranho, o entregador, foi até a entrada dos fundos que também estava trancada. Foi um choque quando de repente o padeiro apareceu na janela coberto de sangue, afirmando ter sido atacado por um homem armado com um machado. A polícia foi chamada e logo ficou-se sabendo que Louis e sua amante Anna Lowe, haviam sido atacados por um agressor portando um machado  que acertou o padeiro na têmpora direita e o deixou inconsciente. Anna também foi atacada, golpeada repetidas vezes até perder os sentidos, sua orelha foi arrancada por uma navalha e levada. Assim como aconteceu no caso Maggio, um painel de madeira da porta dos fundos foi removido com cinzel e martelo. Mais uma vez, o agressor não levou objetos de valor. A arma usada no ataque foi encontrada colocada atrás de uma porta e foi reconhecida pelo padeiro como sendo a arma usada pelo invasor. 

Levada ao hospital para tratamento Anna Lowe começou a fazer um estranho relato repleto de elementos contraditórios. Primeiro ela disse ter sido atacada por um homem alto e negro, mas depois ela mudou de ideia e começou a acusar Besumer afirmando que ele havia sido o responsável pelo ataque. Ela também começou a fazer acusações infundadas, inclusive de que Besumer era um espião alemão infiltrado. As alegações deram origem a uma série de artigos sensacionalistas em jornais da época, mas tudo indica que nenhuma dessas alegações fosse real. O caso atraiu muito a atenção do público, em parte por conta das teorias conspiratórias e pelas escandalosas circunstâncias em que o padeiro (que era casado) foi encontrado na companhia de uma amante.  

Alguns dias depois, Lowe acabou morrendo em decorrência de complicações cirúrgicas na tentativa de recuperar os nervos de sua face. Besumer chegou a ser acusado formalmente, mas a falta de provas acabou por inocentá-lo. Ele alegava não ter visto o agressor que o atacou enquanto o casal estava dormindo.


Em 5 de agosto de 1918, bizarramente, no mesmo dia em que Anna Lowe morria na mesa de cirurgia, um homem chamado Edward Schneider voltou de viagem  encontrando sua casa estranhamente silenciosa, sem que sua esposa grávida o recebesse. No quarto do casal ele faria a horrível descoberta da jovem mulher caída em uma poça de sangue coagulado. O escalpo da Sra. Schneider foi parcialmente aberto por um golpe e alguns de seus dentes foram quebrados por outro que lhe atingiu a mandíbula. Uma investigação do apartamento onde o casal vivia apontou para um arrombamento na porta dos fundos com martelo e cinzel. Mais uma vez, nada foi subtraído da cena do crime.

Felizmente, ela ainda estava viva e um médico foi chamado às pressas para tratar do ferimento.  No hospital, a Sra. Schneider disse ter sido vítima de um invasor armado com um machado. A figura escura, nas suas palavras parecia "um tipo de assombração escura", como uma sombra. Ela era incapaz de recordar detalhes do ataque. A despeito de seus ferimentos a mulher ainda conseguiu levar a gravidez ao fim e dar a luz a uma saudável menina. 

Com o ataque a Schneider e um claro modus operandi da parte do agressor, a polícia começou a acreditar que estava diante de um criminoso que atacava em série e esse foi o momento em que o pânico se instaurou na cidade de Nova Orleans. As suspeitas seriam comprovadas quando um novo ataque ocorreu apenas cinco dias mais tarde. Em 10 de agosto de 1918, duas irmãs chamadas Pauline e Mary Bruno foram acordadas no meio da madrugada por um estranho som emanando do quarto de seu tio, Joseph Romano. Quando elas saíram para verificar, se depararam com uma sombra alta e sinistra, vestindo um sobretudo marrom e chapéu enterrado na cabeça. Quando Pauline soltou um grito de horror, a figura sem se voltar na direção delas, saltou para a escada e correu velozmente escapando em segundos. Pauline posteriormente descreveu o movimento do invasor como "estranhamente ligeiro". As duas irmãs encontrariam seu tio deitado na cama, coberto de sangue, com uma série de medonhos ferimentos na face causados por uma arma afiada e pesada. Embora ainda estivesse vivo quando foi levado para o Hospital mais próximo, Joseph acabou sucumbindo em face dos ferimentos no dia seguinte. Foi descoberto que embora o aposento tenha sido revirado, nada de valor foi evado. Um machado ensanguentado foi então encontrado no pátio dos fundos da casa, por onde o invasor escapou após o grito de Pauline. Assim como havia ocorrido em todos os outros casos, a porta dos fundos havia sido arrombada daquela mesma maneira que se tornou um tipo de cartão de visitas do Homem do Machado.

O Caso Romano marcou o início do pânico e paranoia que se espalhou como um incêndio por Nova Orleans. As pessoas começaram a temer que o lunático poderia estar e qualquer lugar e que eles poderiam ser a próxima vítima. Ninguém se sentia seguro, e passou a ser comum que as pessoas trancassem as portas e erguessem barricadas por temer ficar cara a cara com a lâmina afiada do maníaco. Grupos de vigilância começaram a se formar, indivíduos armados ofereciam seus serviços para proteger ruas e bairros, mantendo estranhos sob observação. Foi mais ou menos nesse momento que os jornais da cidade começaram a chamar o terrível intruso de "Homem do Machado".

Informações falsas e dicas de suspeitos de ser o Homem do Machado começaram a pipocar por toda Nova Orleans, a maioria destas absurdas ou ilusórias. Em um caso, um vendedor afirmou ter encontrado um formão na casa de um vizinho que acabou sendo acusado. Em outro episódio bizarro, testemunhas afirmavam que o assassino se disfarçava de mulher para vagar pela cidade sem que ninguém percebesse. Uma testemunha afirmou ter viso o "demônio" pulando uma cerca e uma caçada humana teve início resultando na agressão de um turista que sequer estava na cidade à época dos crimes. Em outro violento incidente, um ladrão foi capturado e arrastado para uma praça onde por pouco não foi linchado por uma multidão que suspeitava que ele poderia ser o Homem do Machado. Várias pessoas relatavam que a porta de suas casas eram forçadas, descobriam machados em seus jardins e afirmavam estarem sendo perseguidas por homens furtivos. A histeria se espalhou pela cidade sem controle e as pessoas se perguntavam quando o maníaco atacaria novamente.


A Polícia estava totalmente perdida em sua caçada ao culpado. O homem não deixava pistas, nenhum traço de sua passagem foi encontrado nas cenas dos crimes. As autoridades tentaram até buscar impressões digitais, um método até então novo e revolucionário, mas nada foi achado de conclusivo. As vítimas não tinham nada em comum, nenhuma delas se conheciam ou viviam próximas umas das outras, tudo indicava que os crimes eram motivados pela oportunidade que se apresentava para o matador, sem uma razão, sem um propósito ou motivo. Tudo o que poderia se supor a respeito dele é que o homem arrombava as portas, entrava armado com um machado que ele próprio trazia e utilizava para matar. Em seguida ele partia tão silenciosamente que ninguém o via.

Depois do ataque a Romano, a despeito dos muitos relatos e alarmes falsos, nenhum ataque aconteceu por meses deixando a impressão de que a loucura havia se dissipado. Contudo, o terror estava apenas se preparando para uma nova e assustadora reviravolta. Em 10 de março de 1919, o matador atacou novamente, dessa vez em um bairro de imigrantes chamado Gretna, localizado nos bancos do Rio Mississipi. Nessa noite, um homem chamado Charles Cortimiglia foi atacado por um sujeito portando um machado. 

Por volta das 23 horas, Rosie, a esposa de Cortimiglia ouviu gritos no fim da rua e abriu a janela bem a tempo de testemunhar o marido sendo atacado. O assassino não se deteve, percebendo a mulher que ainda estava na janela, ele correu na direção desta e a derrubou com um soco, saltando para o interior da casa. Lá dentro ele encontrou Mary, a filha de apenas dois anos do casal. Apesar dos gritos desesperados de Rosie implorando por piedade, o louco golpeou a criança repetidas vezes com a arma a deixando morta no chão. Não satisfeito ele ainda acertou dois golpes na mulher que foi abandonada em uma poça de sangue.

Um vizinho chamado Iorlando Jordano veio em auxílio da família e encontrou a cena do massacre. Rosie, mesmo com o crânio fraturado por um golpe da arma ainda estava abraçando o corpo sem vida de sua filha. Embora a criança tenha morrido em decorrência do ataque brutal, Charles Cortimiglia e sua esposa sobreviveram ao encontro que lhes deixou além do trauma, profundas cicatrizes na cabeça e pescoço, bem como fraturas.  


Quando a polícia chegou ao local, eles encontraram um machado coberto de sangue encostado no alpendre e cabelo das vítimas ainda grudados na lâmina. Nenhuma impressão digital foi descoberta na arma ou na janela que o matador usou para ganhar acesso à casa. Quando estava bem o bastante para contar à polícia o que viu, Rosie Cortimiglia descreveu seu agressor como um homem velho e gordo, exatamente a descrição de Iorlando Jordano, o sujeito que veio em seu socorro. A polícia desconsiderou o testemunho acreditando que Rosie estava confusa e que o ataque havia se tornado um borrão em sua memória. Charles Cortimiglia deu um testemunho diferente no qual descreveu o maníaco como um homem alto, forte e com cabelos pretos longos.    

O incidente causou uma segunda onda de terror nas ruas de Nova Orleans. A polícia por sua vez começou a trabalhar com teorias cada vez mais bizarras que beiravam o surreal. Alguns detetives acreditavam que o responsável pelos crimes trabalhava em um Circo como homem forte, outros defendiam que ele era um índio selvagem, outros assumiam que seria um imigrante russo de mais de dois metros e meio de altura... a teoria mais bizarra, talvez fosse a que supunha que o responsável pelas mortes não fosse humano, mas um gorila que teria fugido do Zoológico local. Jornais lançaram teorias ainda mais estapafúrdias, de que o assassino podia ser um anão que aproveitava sua baixa estatura para enganar a todos. 

O público tinha as suas teorias favoritas, sendo que uma começou a ganhar enorme popularidade. Segundo algumas pessoas, o Homem do Machado não podia ser capturado e não deixava pistas por um motivo muito simples: ele era uma criatura sobrenatural!

Alguns sussurravam que o assassino seria um tipo de fantasma, demônio ou ainda, uma entidade mágica. Essas noções eram reforçadas pelas circunstâncias misteriosas dos ataques. O matador teria força sobrenatural e velocidade que lhe permitia saltar cercas e derrubar portas. Outros poderes atribuídos ao matador incluíam a capacidade de transformar seu próprio corpo em fumaça e assim adentrar moradias por frestas e batentes da porta. Um jornal publicou uma matéria na qual afirmava categoricamente que uma presença alada havia sido vista sobrevoando o Bairro de Gretna na noite do ataque. Na manhã seguinte, uma manchete bizarra estampava a primeira página de um jornal: "Homem Alado é visto voando sobre os Bancos do Mississipi". Haviam ainda os que faziam um paralelo entre o assassino de Nova Orleans e o mais famoso matador do século XIX - Jack, o Estripador. Para estes, o Homem do Machado não era outro senão o próprio Estripador londrino, que havia imigrado para a América afim de prosseguir em seu sangrento trabalho.


Por mais bizarra que já estivesse a situação, ela estava prestes a se tornar ainda mais surreal. Apenas três dias depois do ataque à Familia Cortimiglia, o assassino entraria em contato com o público, de uma maneira bastante similar a utilizada por Jack, o estripador em seu reinado de mortes décadas antes. A comunicação veio na forma de uma carta endereçada ao editor do New Orleans Times-Picayune na sexta feira, 14 de março de 1919. A missiva, que parecia ter sido escrita por um louco, alimentou as especulações já existentes a respeito de forças demoníacas em ação no caso. Ela também permitiu um vislumbre da mente anormal do matador e de suas claras intenções de ganhar publicidade e manipular o público em seu benefício próprio.

A carta tinha o seguinte texto:

"Estimados mortais:

Eles nunca me apanharam e nem jamais conseguirão. Eles nunca me viram, pois sou invisível, como o éter que envolve a Terra. Eu não sou um ser humano, mas um espírito demoníaco da parte mais quente do inferno. Eu sou o que vocês Orlenianos e sua polícia estúpida chamam de Homem do Machado. Quando eu achar apropriado, voltarei para coletar mais vítimas. Eu já escolhi quem devem ser elas. Eu não deixarei nenhuma pista, exceto meu machado sangrento, com os miolos de quem escolhi para me fazer companhia no outro lado.


Se vocês quiserem, digam à polícia para ser cuidadosa em suas buscas. Eu sou um espírito razoável. Não me ofendo com a maneira como eles conduziram a investigação no passado. De fato, eles tem sido tão estúpidos que não apenas eu, mas Sua Majestade Satânica também fica impressionada. Digam a eles para tomar cuidado. Que eles não tentem descobrir o que eu sou, pois nesse caso acabariam por incorrer na ira do Homem do Machado. Por outro lado eu sei que a polícia continuará se esquivando de me capturar, como já aconteceu antes. Eles devem temer me capturar.


Sem dúvida, vocês Orlenianos me vêem como um simples assassino, mas eu sou muito pior que isso. E eu posso ser ainda pior! Se eu quisesse, poderia fazer minhas visitas toda noite. Eu poderia assassinar milhares de seus melhores cidadãos, pois eu estou em contato com o próprio Anjo da Morte. Prestem atenção pois na próxima quinta-feira, por volta de 12:15 eu estarei em Nova Orleans novamente. Entretanto, na minha infinita piedade, farei a vocês uma proposta. Aqui vai:


Eu gosto muito de jazz, e juro por todos os demônios e diabos das regiões abissais que pouparei aqueles que colocarem para tocar em suas casas, na maior altura possível, discos de jazz. Se todos tiverem um disco de jazz tocando, bem será melhor para vocês. De uma coisa podem ter certeza, qualquer casa silenciosa nessa quinta-feira poderá receber minha visita e do meu machado.


Bem, uma vez que sinto frio e falta do calor de meu Tártaro natal, devo deixá-los por hora, terminando por aqui. Espero que publiquem essa carta, e que tudo corra bem, mas saibam que sou o pior espírito que já existiu, seja aqui ou no reino da fantasia.


Seu,

Homem do Machado

A noite mencionada na carta se tornaria uma ocasião lendária que seria lembrada nos anais da história de Nova Orleans. Clubes, bares e casas atenderam prontamente a proposta do monstro e tocaram Jazz até o raiar do dia, em um volume altíssimo como se suas vidas dependesse disso. Pessoas em todos os cantos da cidade tocaram Jazz e dançaram, o ar ficou cheio de energia e som. O famoso compositor Joseph Davilla chegou até a escrever uma música especificamente para a ocasião que ele chamou apropriadamente de "The Mysterious Axeman’s Jazz (Don’t Scare Me Papa)" que se tornou um enorme sucesso. Nessa fatídica noite de Jazz e festividades não ocorreu nenhum ataque na cidade, como havia sido prometido, ainda que não se saiba se foi pelos motivos extravagantes do assassino, ou não. Em certos clubes e casas, as pessoas compareceram armadas esperando que o assassino pudesse aparecer, mas nada aconteceu. Foi uma noite agitada, mas sem maiores eventos. Por um instante as pessoas acharam que as coisas voltariam à tranquilidade e se dedicaram apenas a festejar e aproveitar a vida... mas infelizmente, isso não iria durar.


Em 10 de agosto de 1919, um comerciante local, conhecido como Steve Boca bateu a porta da casa de seu vizinho, Frank Genusa no meio da madrugada. Boca estava ferido e sangrava em profusão, e depois de ser atendido desmaiou e foi levado ao hospital mais próximo. Ele posteriormente iria se recuperar dos ferimentos, mas seria incapaz de lembrar como havia se dado o ataque. Tudo que ele se recordava era de uma figura alta e vestida de preto na ponta de sua cama. A polícia descobriria que nada havia sido levado da casa, embora os sinais inequívocos de arrombamento estivessem à vista. 

Os ataques continuaram em 3 de setembro de 1919, quando vizinhos foram checar a casa de Sarah Laumann e a encontraram inconsciente com uma enorme ferida na cabeça em sua própria cama. A porta da frente havia sido arrombada e um machado estava encostado na cadeira de balanço onde ela costumava sentar no pátio. Pouco depois ocorreu outra tentativa de arrombamento feita pelo misterioso assassino, mas dessa vez o ataque foi frustrado pelo dono da casa, William Carson que ouviu um som suspeito e foi averiguar. Carson disparou várias vezes na porta, mas o assassino conseguiu fugir, deixando para trás um formão e martelo, além do machado que pretendia usar. 

No mês seguinte, em 27 de outubro, o matador fez a suas últimas vítimas oficiais ao assassinar um imigrante chamado Mike Pepitone, sua esposa e filho. Uma vizinha de sobrenome Albano viu um homem fugindo da casa de Pepitone, saltando pela janela e ganhando a rua. Enquanto escalava a fachada ele deixou pegadas sangrentas no parapeito e um machado caído no quintal. O homem foi descrito como um sujeito muito grande, extremamente rápido e ágil, ainda que a aparência geral dele não tenha sido registrada pela testemunha.

Curiosamente, um ano depois dessa morte, a Sra. Albano disparou e matou um homem chamado Joseph Mumfre em Los Angeles, que ela acreditava ser o mesmo sujeito que atacou seus vizinhos em Nova Orleans. Embora não houvesse nenhuma prova conclusiva ou sólida que apoiasse a conclusão da mulher, haviam alguns detalhes curiosos que sugeriam que Mumfre poderia estar de alguma forma envolvido. Munfre era um ex-presidiário violento que começou a cumprir pena em 1911, pouco depois da primeira onda de crimes cometidos pelo assassino. Ele também foi liberado da cadeia em 1918, pouco antes dos crimes recomeçarem. Além disso, ele teria se mudado para a Costa Oeste no final de 1919, justo quando os crimes do Homem do Machado cessaram em Nova Orleans. Munfre era descrito como um sujeito alto, forte e estranho, com um ódio cego por imigrantes, em especial italianos. Ele havia sido preso por agressão e por participação em um esquema de extorsão contra Ítalo-Americanos. De fato, a maioria das vítimas do Homem do Machado eram justamente imigrantes, muitos dos quais vindos da Itália. Ainda assim, à despeito de todas as suspeitas e coincidências não havia uma prova concreta capaz de ligar Mumfre aos crimes.


É interessante perceber que a história a respeito de Mumfre e seu envolvimento foram muito questionados, sobretudo nos últimos anos. Pesquisadores apontam para o fato de não haver nenhum registro oficial que mencione a morte de Joseph Mumfre em Los Angeles. Também não há nenhuma informação sobre o que teria acontecido com a Sra. Albano após ela supostamente ter matado o sujeito. Com essa falta de provas, é até difícil dizer se realmente tal coisa aconteceu. Alguns historiadores que se debruçaram sobre esse tema afirmam que o homem em questão não se chamava "Mumfre", mas que ele seria Frank "Doc" Mumphrey, um criminoso que foi condenado por atirar em italianos em meados de 1900 e que de fato se mudou de Nova Orleans para Los Angeles em 1919. De qualquer maneira, não há nenhuma menção a respeito dele que possa colocá-lo na cena dos crimes.

Seja qual for a verdade sobre o mistério de Mumfre, o assassinato da Família Pepitone foi o último ataque do infame Homem do Machado de Nova Orleans que deixou a polícia perdida e a população aterrorizada. Nenhum suspeito foi julgado pelos crimes e o enigma permanece sem solução até os dias atuais.

Não se sabe quais podem ter sido os motivos para os brutais ataques e o que fez o homem entrar em um surto de violência sem sentido. Muito se comentou a respeito das vítimas serem comerciantes e imigrantes tentando abraçar o sonho americano de enriquecer, mas não parece haver nada que conecte diretamente as pessoas que sofreram nas mãos desse monstro. Ele tinha como alvo pessoas de todas as idades e classes sociais, homens, mulheres e crianças. O assassino jamais removeu algo de valor da cena dos crimes e deixava para trás seu cartão de visitas na forma de um machado sujo de sangue. A excitação e o prazer bestial de matar parecia ser seu objetivo.


Assassino demoníaco, fantasma ou espírito maligno, os boatos a respeito dos crimes continuaram frescos no inconsciente coletivo de Nova Orleans por décadas após os sinistros acontecimentos daqueles sangrentos dois anos. Por vezes, um crime era atribuído ao matador e as pessoas pareciam prender a respiração cada vez que um ato de violência acontecia, imaginando se este não estaria de alguma forma conectado ao caso. Muitos achavam que ele teria morrido ou deixado a cidade, mas ninguém podia ter certeza. Machados se tornaram armas muito temidas na cidade. Membros da perigosa Máfia local passaram a usar machados para intimidar a comunidade local de italianos, sobretudo quando estes se negavam a pagar proteção. Pelo menos um assassinato com o uso de machado ocorreu posteriormente em 1925, mas o responsável um texano que assumiu os crimes do Matador do Machado, descobriu-se posteriormente, sequer estava no país em 1919 e não podia ser o responsável pelos acontecimentos.

No campo do sobrenatural, alguns achavam que o demônio havia adormecido satisfeito depois de coletar um determinado número de almas para servi-lo no Inferno. Para apaziguar sua ira diabólica, as pessoas continuaram a tocar Jazz no volume máximo sempre na mesma noite em que ele demandou tal coisa. Até hoje, o dia é reservado em Nova Orleans como uma espécie de tributo pago ao assassino, para que ele deixe a cidade em paz. 

Tudo indica que o matador não passava de um maníaco sem nada a perder, um serial killer que entrou em uma incontrolável espiral de morte e depravação como tantos outros antes e depois dele. Apesar de toda especulação e debate sobre a identidade do matador, ninguém jamais chegou a uma conclusão sobre quem ele era ou o que pretendia. Ainda assim, o Homem do Machado de Nova Orleans permanece como o mais bárbaro, cruel e odioso assassino da história da cidade conhecida como "A Cidade do Pecado".

Para quem ficou curioso a respeito do Axman's Jazz, aqui vai ele:

domingo, 20 de outubro de 2019

O Ataque dos Homens Mortos - Uma história aterrorizante da Grande Guerra


Não faltam histórias estranhas e narrativas arrepiantes a respeito da já centenária Grande Guerra (1914-1918), episódio histórico que definiu boa parte do mundo como conhecemos hoje.

A Primeira Guerra trouxe o horror do conflito em Escala Industrial, no qual armamentos novos e mortais, táticas antiquadas e um número elevado de envolvidos, contribuíram para desencadear uma tragédia sem precedentes. Entre as armas mais abomináveis empregadas com pioneirismo nos campos de batalha estava uma que se tornou sinônimo de terror; o Gás Venenoso.

Um dos mais perturbadores combates da Grande Guerra aconteceu na Batalha da Fortaleza de Osowiec, no Oeste da Polônia, onde tropas alemãs enfrentaram o mais próximo de verdadeiros mortos vivos.

Era 6 de agosto de 1915 e a guerra estava em seu primeiro ano, com a estagnação que marcou todo conflito já instalada. Com as linhas de frente traçadas, os combatentes permaneciam uns diante dos outros em suas trincheiras, avançando e retrocedendo, ganhando apenas alguns metros que não faziam muita diferença.

No front oriental, os alemães estavam na ofensiva; enfrentavam tropas russas e polonesas que empreendiam uma ferrenha resistência. A defesa se concentrava num antigo forte medieval chamado Osowiec que protegia a entrada de um vale e impedia a invasão dos soldados do Kaiser. Os russos tinham cerca de 900 homens dentro da fortificação, sendo que a maioria deles eram civis que receberam armas e a missão de defender o local. Da posição que ocupavam eles conseguiam perceber a aproximação dos alemães e disparar de um ponto vantajoso. A tática de aguardar e repelir os avanços estava dando resultado e o forte se mantinha inconquistável passados oito meses.


O Comando alemão decidiu então concentrar seus esforços na tarefa de tomar o forte a todo custo. Preparou para isso um assalto pesado. Foram destacados nada menos do que 14 batalhões de infantaria, com sapeiros e artilharia pesada - os temidos canhões Big Bertha do Exército que disparavam os maiores projéteis da época. O objetivo era reduzir a fortaleza à pó e remover esse obstáculo inconveniente.

Os alemães iniciaram o bombardeio e mantiveram uma barragem constante fazendo cair sobre a cabeça dos russos bombas e explosivos. Ainda assim, quando avançavam tentando tomar o forte encontravam homens no alto das muradas prontos para alvejá-los. Por dias, a situação continuou indefinida, com os alemães usando artilharia, mas com os russos mantendo a defesa sem permitir a conquista da posição. Os defensores usavam criptas subterrâneas para se proteger e ficavam escondidos durante os bombardeios, em túneis escavados na rocha.

Finalmente, depois de semanas, os Generais alemães se enfureceram com o revés. Sentiam-se humilhados pelo pequeno contingente capaz de deter batalhões inteiros. Decidiram que precisariam usar a mais temida arma de seu arsenal, o Gás Venenoso. Uma combinação de duas substâncias foi escolhida para ser lançada sobre os russos, o Brometo e o Gás Clorídrico. O Brometo é por si só um componente que causa irritação nas vias respiratórias, mas não chega a ser mortal, contudo, quando combinado com o Gás de Cloro eles formam uma combinação letal. Juntos, viram ácido hidro-clorídrico reagindo dentro do corpo da vítima. Literalmente, no momento que o gás é aspirado, ele reage com a umidade natural do pulmão e se transforma em uma substância que queima a carne e as membranas internas. A vítima morre de dentro para fora. O terror desse cocktail letal não para por aí, afetando as demais mucosas, ele fustiga os olhos, podendo deixar a vítima permanentemente cega, faz o nariz sangrar em profusão e cobre a boca de doloridas feridas.


Contudo, é o sistema respiratório que mais sofre com a ação. As mucosas pulmonares tem uma grave deterioração e começam a dissolver. Com sorte, a vítima morre rápido, afogada em seu próprio sangue que transborda para os pulmões. Poucos minutos são fatais, mas aqueles apenas parcialmente expostos, podem sofrer por semanas com os efeitos danosos. Com a capacidade respiratória reduzida, morrem após uma prolongada agonia.

Os alemães sabiam que o gás teria sucesso em remover os russos e poloneses. O serviço de espionagem havia colhido a informação que seus inimigos não dispunham de máscaras de proteção contra gás. Os russos tinham apenas máscaras de pano, pouco eficazes contra a combinação química.

Os componentes foram colocados em projéteis de artilharia e disparados a alguns metros da entrada do forte. Quando uma nuvem esverdeada se ergueu no campo repleto de crateras de explosões, os homens na murada entenderam o que aquilo significava. Muitos correram para se proteger no interior dos túneis. Outros usaram as máscaras de pano encharcadas com água para tentar respirar, mas isso não os salvou. Alguns em meio ao desespero usaram até mesmo urina para molhar as máscaras, pois acreditavam que tal coisa pudesse bloquear os efeitos.


Os homens começaram a tossir e engasgar, cegos e aterrorizados, muitos deles vomitavam torrentes de sangue. 

Os alemães esperaram alguns minutos e então enviaram um grupo com máscaras para verificar os resultados do ataque. Eles acreditavam que encontrariam apenas corpos se contorcendo e cadáveres, mas ao invés disso se depararam com algo mais bizarro. Haviam sim soldados cobertos de sangue, sujos de vômito e urina, cuspindo pedaços de seus próprios pulmões, mas ainda estavam vivos e dispostos a lutar. As queimaduras químicas afetaram os soldados e os deixaram com uma aparência dantesca. Para os soldados alemães incumbidos de entrar no forte era como se os portões do inferno tivessem sido abertos, vomitando uma legião de mortos vivos furiosos.

As ordens dos russos e poloneses era manter posição até o fim. Mas ao invés disso, os homens sabendo que iriam morrer, fizeram aquilo que era menos provável: contra-atacaram. Os alemães não esperavam um ataque e muitos que estavam simplesmente aguardando nas trincheiras, comendo ou descansando, foram surpreendidos pelo avanço de uma coluna de moribundos possuídos. O avanço desabalado ficou conhecido como O Ataque dos Homens Mortos, pois era exatamente isso que eles pareciam.

De acordo com algumas fontes, menos de 100 homens tomaram parte do ataque, mas a visão daquela cena foi o suficiente para atingir os alemães em cheio. Ninguém esperava ter que encarar tal pesadelo. É possível que a visão dos resultados do gás tenha causado um dano psicológico nos soldados, pois a maioria daqueles homens jamais haviam presenciado o uso do gás. Naturalmente temiam que aqueles expostos a ele pudessem transmitir seus efeitos. Em uma palavra, ficaram aterrorizados.


Os alemães começaram a debandar em massa, retrocedendo sem olhar para trás. Abandonando suas posições, muitos ficaram presos no arame farpado ou esqueceram de campos minados. Os russos não pararam e continuaram perseguindo o batalhão horrorizado. Há relatos de que alguns gargalhavam e gritavam, talvez pelo efeito que os devorava internamente, mas o fato é que aquilo acrescentou ainda mais terror à investida.

Pode parecer improvável que 100 homens prestes a morrer conseguissem colocar para correr mais de 7 mil. Mas é isso que diz a história... A 226a Infantaria Russa, chamada de Regimento Zemlyansky entrou para a história, mas um nome se destacou em meio aos demais, o sub-tenente Vladimir Kotlinsky. Ele não era o oficial de maior graduação, mas foi quem deu a ordem de contra-atacar.

Sua missão não tinha esperança de sucesso, mas os homens sob seu comando decidiram que lutariam até o último fôlego e tombariam em combate. Kotlinsky morreu durante a investida, dizem que gargalhava e brandia numa mão uma pistola e na outra uma pá com a qual golpeava os inimigos em fuga.    

Após o ataque, nenhum dos soldados russos e poloneses sobreviveu. Segundo os cálculos, além dos que participaram da investida, outros 350 homens foram encontrados mortos dentro do forte e cerca de 100 nos túneis abaixo da fortaleza. Curiosamente após o ocorrido, a Fortaleza acabou sendo destruída com cargas explosivas. O comando alemão não desejava usar as instalações depois do ocorrido e os próprios soldados detestavam a ideia de ficar ali dentro. Logo rumores se espalharam - boatos de que os russos haviam levantado dos mortos para defender o forte.


O Ministério da Guerra Alemão tentou censurar as histórias sobre soldados mortos vivos, mas como impedir que tamanho rumor fosse compartilhado? Além das histórias, o lugar se converteu numa espécie de Terra Devastada, com a grama se tornando negra e as folhas das árvores amareladas e ressecadas. Objetos de metal ficavam oxidados, incluindo armas, fragmentos de bombas e veículos. Tudo parecia coberto por uma camada de limo esverdeado. Uma das explicações oficiais para o incidente é que a concentração de gás foi mal calculada e isso permitiu que alguns homens resistissem aos seus efeitos por mais tempo. Nunca saberemos ao certo... 

Os alemães abandonaram as ruínas da Fortaleza e seguiram em frente invadindo a Polônia, mas logo a Guerra iria empacar novamente e uma nova Terra de Ninguém iria se desenhar. 

A Conquista da Fortaleza foi celebrada pelos alemães como uma grande vitória, todavia, havia pouco a comemorar. Os russos por sua vez aproveitaram a História de Coragem de seus homens para contagiar os demais. Todos soldados que combateram na Fortaleza ganharam comendas por bravura e o sub-tenente Vladimir Kotlinsky foi postumamente agraciado com a Medalha da Ordem de São Jorge, uma das mais importantes condecorações da Rússia czarista.

Apesar da derrota, os russos não esqueceram do ocorrido. Músicas e adaptações da história foram escritas. Uma canção tradicional com o título "Os Russos jamais se rendem", se tornou muito popular e passou a ser cantada pelos soldados para motivá-los. Infelizmente após a Revolução de 1917, a música foi censurada pelos bolcheviques que não queriam os soldados do regime anterior sendo admirados. Ainda assim, a canção podia ser ouvida nos campos da Segunda Guerra, quando os russos precisavam acreditar que era importante jamais se render.


A Canção tinha a seguinte letra:

Dezenas de soldados russos fariam a diferença.

Eles não aceitariam seu destino

Queimados até os ossos

Eles correram para a Batalha

A medida que o inimigo fugia 

O medo os contaminava

Aqueles que viam

O Ataque dos Homens Mortos


A Banda Sabaton compôs um álbum temático só a respeito da Grande Guerra e dedicou uma música ao acontecimento. 

É claro, o nome não poderia ser outro além de "O Ataque dos Homens Mortos".


quinta-feira, 15 de agosto de 2019

A Verdadeira Fera - A incrível vida de Petrus Gonsalvus nas Cortes da Europa


Uma das imagens do artigo a respeito da "verdadeira" fábula da Bela e a Fera sempre me intrigou.

Trata-se da imagem, de uma pintura à óleo renascentista que mostra um homem bem vestido à moda da época, mas com a face completamente tomada de cabelos (é essa encabeçando esse artigo). Não por acaso, a imagem é frequentemente relacionada com o conto de fadas, mais especificamente com a personagem da Fera. Eu já havia visto essa imagem, mas nunca busquei sua origem.

Fiz uma pesquisa e acabei encontrando alguns detalhes a respeito dela. Quem é a pessoa retratada?Qual a sua origem? Como veio a ser retratada já que é algo que demandava muito dinheiro?

A história é mais incrível do que se poderia imaginar. começa na metade do século XVI na França, justamente na coroação de Henrique II. De acordo com registros de época, o jovem Rei recebeu um presente incrivelmente exótico de um dos seus nobres convidados, um "homem selvagem" aprisionado em uma jaula dourada.

"Homens Selvagens", ou woodwose, eram criaturas fabulosas meio-humanas e meio-animais parte da mitologia da Europa medieval. Eles eram retratados como seres cobertos de pelos que se tornavam furiosos à noite. Algumas histórias davam conta que eles eram responsáveis por roubar e devorar crianças. A presença de um alegado homem-selvagem capturado na corte de Rei Henrique causou sensação e foi fonte de enorme excitação entre os cortesões. Todos ficaram impressionados com a descoberta e pediam para vê-lo.

Temendo que tal coisa pudesse constituir um perigo para a criatura e obviamente para o público, os conselheiros do Rei enviaram o espécime para as masmorras afim de estudá-lo. 

Uma ilustração medieval que mostra um Woodwose - Hopmem Selvagem
Após uma investigação cuidadosa, os médicos da corte e acadêmicos reais determinaram que a estranha criatura não era realmente um homem-selvagem ou mesmo um homem, mas uma criança. Sua face e membros eram estranhamente cobertos de um cabelo grosso de cor castanha, mas fora isso, ele era uma criança normal.

O menino havia sido capturado nas Ilhas Canárias - um território da Espanha na costa do Marrocos.  Ele foi pego por marinheiros portugueses e levado para a embarcação como curiosidade, posteriormente foi enviado para a Europa e vendido a um nobre que então o presenteou ao Monarca francês acreditando se tratar de um ente mágico. A criança de aproximadamente dez anos, sabia falar e disse que seu nome era Pedro Gonzalez. Os médicos observaram o comportamento do menino e concluíram que ele não era tomado da selvageria que caracterizava os homens-selvagens das histórias. Pelo contrário, ele se comportava como uma típica criança de 10 anos. 

Hoje, acredita-se que Pedro sofria de uma doença congênita chamada Hipertricose (Latim para "Muito cabelo"), uma condição genética extremamente rara. Embora a Hipertricose seja melhor compreendida hoje em dia do que nos tempos de Pedro, ela ainda constitui um desafio para os pesquisadores. De acordo com dermatologistas os casos confirmados são raríssimos, limitando-se a menos de 100 indivíduos adequadamente identificados na literatura médica desde 1600. Com isso, é realmente difícil analisar a doença.

No século XVI, as pessoas ainda acreditavam na existência de seres fantásticos como gigantes, anões, fadas entre outros. Algumas pessoas que fugissem do padrão de normalidade, que fossem muito altas, muito baixas ou com aparência diferente, podiam ser vistos como descendentes ou parentes dessas criaturas mágicas. Era exatamente o caso do menino das canárias: sua aparência lhe valeu o apelido de "fera", "besta" e "lobisomem". Alguns não tão fascinados pela sua aparência clamavam para que ele fosse executado ou ao menos mantido preso na masmorra.

Contudo, a rara condição de Pedro fez com que ele passasse a ser visto com enorme curiosidade. Ele foi apelidado de "Barbet", uma raça de cão belga de pelagem comprida. Tendo concluído que o menino não era perigoso, o Rei da França ordenou que ele fosse tratado com respeito e que recebesse educação digna de um nobre. Recebeu ainda um fundo para se sustentar, além de um nome latino - Petrus Gonsalvus. Em determinado momento de sua vida, Gonsalvus chegou a ocupar uma posição relativamente importante na corte.

Catarina de Medici ao lado de Pedro Gonzales, chamado de Barbet.
Henrique II morreu em 1559 após receber um ferimento fatal em uma justa. Sua viúva, Catarina de Medici, eventualmente se tornou a regente do trono. Caterina decidiu que Petrus poderia continuar na corte e mais, ordenou que ele deveria se casar e ter herdeiros. Um dos objetivos da Rainha ao invetivar isso era saber se os filhos de Petrus nasceriam com a mesma condição do pai.

Petrus desposou uma mulher que também se chamava Catherine de sobrenome desconhecido. Acredita-se que a mulher escolhida não sabia da aparência de seu futuro noivo até o dia que foi apresentada a ele, justamente no dia da cerimônia. Petrus deveria ter 25 anos na época, a noiva 17.

Um ano após o matrimônio, Catherine deu a luz a seu primeiro filho - um menino que nasceu sem a condição do pai. O segundo filho também nasceu imune a hipertricose. Catherine deu a luz a pelo menos mais quatro crianças, em um total de seis. Destes três nasceram com hipertricose, condição que foi transmitida hereditariamente a pelo menos 3 netos.

Catherine e Petrus viajaram através da Europa com suas crianças e foram fonte de enorme curiosidade e fascínio onde quer que chegassem. Até onde se sabe, a família sempre foi tratada com gentileza. O Imperador Rodolfo II dos Habsburgos, considerado um intelectual esclarecido e excêntrico, convidou a família a visitar a Corte em Viena. Lá ele comissionou artistas a fazer um retrato da Família Gonsalvus - trajando roupas formais. Acredita-se que posteriormente a família tenha se fixado em Parma, na Itália, onde foram empregados pelo Duque Ranuccio Farnese.

Esse seria o fim da história, mas indo além descobri mais um pouco.

Entre os tesouros que um dia pertenceram a poderosa Dinastia dos Habsburgos encontra-se uma curiosa coleção de quadros executados no final do século XVI. 

A jovem Antonietta
Um desses quadros é de uma menina chamada Antonietta. A menina tinha entre 8 e 9 anos quando foi retratada, ela veste um traje amarelo fino, uma grande joia em forma de cruz e tem uma expressão plácida bastante singela. Ela poderia ser facilmente confundida com uma jovem aristocrata qualquer, não fosse um pequeno detalhe: seu rosto estar coberto de cabelo.

Antonietta é a filha mais jovem de Pedro Gonzales, tratada assim como seu pai como uma curiosidade em toda Europa. Os Habsburgos criaram um Gabinete de Curiosidades, um tipo de Biblioteca e Coleção de objetos estranhos trazidos de várias partes do mundo no Castelo de Ambras, na cidade de Innsbruck. O retrato da menina costumava ficar na parede do Gabinete. Ela teve direito a estudo e educação patrocinados pela poderosa família.

Os Habsburgos também encomendaram a criação de um tomo científico com o título "Animalia Rationalia et Insecta" que dedica um capítulo inteiro aos Gonsalvus. 

Não se sabe muitos detalhes a respeito do que aconteceu com a Família depois disso. Acredita-se que alguns deles tenham sido entregues para outras famílias aristocratas apresentar como curiosidades aos seus amigos, um costume comum na época.

A Coleção encomendada pelos Habsburgos
Ironicamente, a linhagem dos Habsburgos, enfraquecida por sucessivos casamentos consanguíneos, acabou chegando ao fim - ao menos na Espanha, onde se extinguiu por completo. Já a Família Gonsalvus, os primeiros indivíduos documentados com hipertricose na história, continuaram gerando herdeiros. Um dos filhos de Antonietta teria trabalhado para um Cardeal em Capodimente e outro se tornou um poderoso mercador. Eles se espalharam pela Europa e pelo Novo Mundo gerando inúmeros descendentes, alguns com a condição, mas a maioria sem ela.

Não há como saber quando Pedro Gonzales passou a ser associado com a fábula da Bela e da Fera, ou mesmo se tal coisa aconteceu durante sua vida, ou apenas depois de sua morte. O quadro em poder dos Habsburgos, entretanto, foi muitas vezes associado ao conto de fadas elaborado por Madame Villeneuve. Para todos os efeitos ele se tornou a imagem da Fera.

Como dizem, as fábulas, mesmo as mais fantásticas, tendem a refletir o mundo real e ao que parece "A Bela e a Fera" tem bases bastante sólidas, plantadas na história...

E numa imagem.