Mostrando postagens com marcador Horror. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Horror. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Cinema Tentacular: Midsommar - "Que as festividades tenham início!"

 

Midsommar, o Mal não espera a Noite é uma espécie de teatro e como tal começa com a abertura de um painel (ou cortina), onde estão representados elementos importantes para o que será encenado a seguir. É curioso que o painel, que fica exposto por alguns segundos, revela o filme do começo ao fim.  

O novo e perturbador filme de Ari Aster, diretor do sensacional Hereditário, é um colorido e bizarro espetáculo sobre crença cega e devoção ardente. O filme se desenrola em uma remota vila no interior da Suécia onde o dia parece interminável. Parece estranho que uma produção de horror tenha imagens tão idílicas e belas, mas é justamente nessa ilusão - de que algo tão belo, que jamais poderia ser terrível, que reside a genialidade de Midsommar.

O esplendor bucólico de acampamento de verão e a exuberância natural das paisagens remetem a um paraíso terreno, mas tal qual um Éden, há serpentes à espreita. E estes são os moradores do local. Não é nenhum spoiler afirmar isso, trata-se de um filme de culto e nada mais óbvio do que assumir isso. A princípio os habitantes locais parecem apenas tranquilos hippies suecos, vestindo camisolas brancas e guirlandas na cabeça, com sorrisos estampados em seus rostos e uma atitude de gentileza escancarada. É claro que o espectador irá desconfiar imediatamente deles; em um filme de terror sobre um culto, os verdadeiros crentes costumam ser amigáveis, para melhor atrair cordeiros para o matadouro. Mas em Midsommar, essa máscara de simpatia holística de Nova Era, nunca se esvai por completo, mesmo quando tem início o derramamento de sangue. E essa é uma grande parte da sacada desse filme, seu poder assustador reside em fazer com que a loucura pareça uma extensão natural da vida daquela comunidade - com pessoas que não vêem a si mesmas como malignas. Aquela é apenas a crença delas, e ela não pode ser má, pode?


O gênero "Horror Folclórico" costuma ser aplicado a essa variedade de terror que explora os mitos e crenças do paganismo. É um subgênero que atingiu seu auge no início da década de 1970 com o clássico britânico "O Homem de Palha". Filmes que encaram os costumes e tradições estranhos e bizarros, como catalizador para neuroses do mundo moderno. Quem estaria certo, afinal de contas, as pessoas que conduzem esses rituais há gerações ou nós que não somos capaz de interpretá-los e menos ainda de compreendê-los? 

Talvez essas perguntas ficassem em aberto se o cineasta responsável por Midsommar não fosse tão diabolicamente talentoso. A apoteótica estréia dele em Hereditário, já mostrava uma capacidade de desenvolver uma história aterrorizante ao redor de um cabal repleto de segredos. Mas o horror em Hereditário tinha outro sentido: os arrepios vinham dos recônditos da mente de sua heroína que era um poço de tristeza, amargor e ressentimento. Hereditário assustava por mergulhar o espectador na acachapante tragédia de uma família que por acaso estava sendo manipulada por um culto.


Em Midsommar a abordagem é um pouco diferente, embora a premissa também envolva elementos de uma devastadora tragédia familiar. No filme, Dani (Florence Pugh), descobre a si mesmo sozinha no mundo, sem poder contar com ninguém além de seu namorado, Christian (Jack Reynor). O sujeito, como logo fica claro, não é exatamente o namorado mais compreensivo do mundo. Ele é distante, indiferente e trata do problema de sua namorada como um fardo. Logo no início, fica claro que ele está planejando colocar um fim na relação, plano que fracassa quando a tragédia recai sobre a sua parceira pegando os dois de surpresa. Contudo, a tensão entre eles vai se intensificando depois que Dani acaba convidando a si mesma para participar de uma viagem que Cristian estava planejando com amigos. A ideia deles é visitar a Suécia à convite de um amigo chamado Pelle (Vilhelm Blomgren) que falou a respeito de uma festividade pagã que ocorre em um vilarejo nos confins do país.

O ambiente então muda, da cidade escuras e coberta de neve dos Estados Unidos para os campos verdejantes e ensolarados de Hälsingland, o idílico lar dos Harga, uma tribo de neo-hippies. Logo ficamos sabendo que os Harga possuem seus próprios costumes que incluem as tais cerimônias. Eles esperam ansiosamente por um festival que ocorre a cada 90 anos e que está prestes a ser realizado. A intenção do grupo de amigos é assistir as festividades, conhecer os rituais de um ponto de vista acadêmico, já que um deles é estudante do assunto e se possível tomar parte das festividades.


Como naquela velha piada, na qual os exploradores visitam uma aldeia canibal e perguntam qual o prato do dia, o grupo não tem a menor ideia que está se metendo em algo extremamente perigoso e perturbador.

Após alguns dias no vilarejo desfrutando da amabilidade dos Harga, os visitantes começam a se dar conta de que não apenas viajaram para um local isolado e distante, mas que parecem também ter viajado no tempo. A civilização com a qual estão familiarizados ficou para trás, cedendo lugar a um modelo de tradições incomuns. Quanto mais o grupo se entranha nos costumes dessa comunidade fechada, mais eles começam a entender que algo supremamente bizarro está prestes a acontecer.

O roteiro consegue de forma brilhante causar arrepios involuntários, nem tanto pelo que mostra, mas com sutis sugestões do que está para acontecer. Cada cena parece cuidadosamente construída para despertar uma sensação de estranheza desconcertante. Os Harga são apresentados como uma mistura de várias crenças e tradições pagãs da Europa, sem se identificar com um grupo em especial. Lenta, porém gradualmente, os cultistas vão se aproximando dos forasteiros, sempre sorrindo enquanto se preparam para fechar sua armadilha.


O zelo com que o diretor constrói sequências perturbadoras impressiona. Ele sabe como esticar uma cena até os limites do suspense afim de extrair dela desconforto, confusão e choque em doses cavalares. Em mais de um momento, é preciso desviar os olhos para não encarar o pesadelo que vai se revelando sem pudores. Há uma boa dose de gore, mas o que perturba não é o sangue escorrendo, mas o caráter grotesco e quase antropológico dos rituais primitivos encenados. Em se tratando de um filme sobre as atividades e crenças de um Culto, Midsommar talvez tenha a dúbia honra de fornecer um dos retratos mais excruciantes. É um exame de uma faceta escura da humanidade, pintado em cores vibrantes em plena luz do sol.

Com um elenco extremamente afinado e bem conduzido, uma trilha sonora sinistra e efeitos práticos que funcionam à perfeição, Midsommar é o tipo de experiência que impõe uma espécie de "ame ou odeie" ao seu público. Alguns irão reclamar que os personagens deveriam desconfiar que algo errado está prestes a acontecer, irão se queixar de alguns excessos do roteiro ou até mesmo da longa duração (140 minutos). Apesar disso, é indiscutível que ele tem méritos, inúmeros.

Midsommar definitivamente é um filme que foge do estilo de horror ao qual estamos acostumados, talvez seja até difícil chama-lo de "terror". Ele investe pesado na atmosfera, mas jamais em sustos baratos. O espectador se sente perturbado na poltrona, mas não chega a saltar dela. O horror se insinua por baixo da sua pele e é difícil evitar coçá-lo. Ele é estranho, hipnótico e surreal, como qualquer experiência religiosa deve ser quando assistida pela primeira vez. 

Trailer:



domingo, 29 de setembro de 2019

O Fazedor de Bonecas - O sinistro caso do Profanador Russo



ATENÇÃO: O texto desse artigo é descreve situações perturbadoras de maneira crua, então aconselhamos discrição para aqueles que se impressionam com narrativas sobre crimes reais.

Com base no artigo da página "Strange Universe" e "All That's Interesting"

Existem crimes tão terríveis que são capazes de nos chocar além da conta.

São casos que servem para pavimentar uma nova e obscura estrada de depravação e perversidade e que nos levaram a um caminho sem volta nos desvios da mente humana. Algumas vezes não parece haver limites para as profundezas escuras da alma. O mal pode realmente ser aterrorizante, um abismo no qual a luz não penetra, e do qual não existe escapatória.

Recentemente um crime perturbador cometido por um russo, cruzou a fronteira da bizarrice quando ele começou a profanar sepulturas de jovens mulheres na tentativa de traze-las de volta a vida para popular sua própria visão distorcida da realidade.

A série de medonhos eventos teve início na cidade de Nizhny Novgorod, na Russia, a quinta maior cidade do pais, onde vivia um jornalista e historiador que atendia pelo nome de Anatoly Yurevych Moskvin. Moskvin era bastante respeitado nos círculos acadêmicos, como um especialista em cultura Celta, folclore e linguagem, sendo fluente em nada menos do que 13 idiomas. Apesar de sua inteligência, ele também era conhecido pelas suas manias e excentricidades. Moskvin era um recluso, vivendo num grande apartamento que pertencera aos seus pais. Jamais tendo casado, ele dizia se abster de beber, fumar, fazer sexo e da maioria das formas de interação social. Sua vida se resumia a estudar, escrever e consultar sua imensa coleção de livros, documentos e antiguidades. Em retrospecto, qualquer pessoa que prestasse atenção em seu comportamento poderia perceber que havia algo errado, contudo, não é raro que genialidade e loucura andem de mãos dadas. O que importava se o sujeito era um tanto peculiar, se sua acuidade a académica era notável? Por muito tempo ele foi considerado apenas como um acadêmico dado a excentricidades, ninguém poderia imaginar que ele possuía um lado negro que traía sua faceta tranquila.


Desde a infância, o estranho porém  pacato estudioso demonstrava um fascínio quase obsessivo pela morte. Passava horas em cemitérios, apreciando a arquitetura das tumbas, o trabalho artístico das estátuas e a forma dos jazigos. Comparecia a enterros e cortejos fúnebres sempre que possível, acompanhando os parentes chegando a chorar em algumas ocasiões. Por vezes, visitava esses lugares a noite, interessado em deitar sobre os túmulos de pedra. Na quietude da madrugada removida as próprias roupas e permanecia nu sob as estrelas, estirado sobre as tampas de mármore, na companhia da carne morta repousando abaixo dele.

Seu fascínio teria começado quando aos 11 anos ele foi levado pelos pais ao enterro de uma menina que vivia na vizinhança. Os pais o forçaram a beijar o cadáver na testa como uma forma de despedida. Algo naquele ato aparentemente inocente causou uma mudança em sua mente e despertou uma mórbida devoção por tudo relacionado à morte. A lembrança de seus lábios tocando a testa fria da menina o deixavam em um estado de excitação. Moskvin passou a estudar e ler vorazmente tudo que podia encontrar à respeito dos cemitérios em sua cidade natal. Logo ele se converteu em um tipo de autoridade no assunto, chegando ao ponto de conhecer cada rua e cada bloco dos principais cemitérios de sua cidade, bem como quem estava enterrado lá e em que local.

Os outros acadêmicos tinham-no como um sujeito peculiar, mas ainda assim um renomado conhecedor da história local, verdadeira autoridade no que dizia respeito às necrópoles russas. Forneceram a Moskvin uma relação com listas e mapas de mais de 700 cemitérios na região. Ele afirmava estar escrevendo uma tese sobre o assunto e chegou a receber uma bolsa com base em um rascunho.


Pode parecer esquisito que este homem estivesse vagando pelos cemitérios no meio da madrugada, espreitando nas sombras como se fosse um fantasma ou assombração, mas aquele era seu trabalho, e ninguém parecia realmente se importar com a sua presença. Tamanha era sua familiaridade com os cemitérios que lhe permitiram dormir lá dentro e ter chaves que abrissem portões.  

Tudo isso mudaria em meados de 2011, quando os vigias do maior cemitério da cidade fizeram uma horrível descoberta: alguns túmulos de crianças haviam sido profanados nos mesmos cemitérios em que Moskvin era visto frequentemente. Embora nessa época ninguém tenha feito qualquer conexão entre o estudioso e os incidentes, ele jamais foi considerado um suspeito. Afinal de contas era uma pessoa muito respeitada, um professor e acadêmico famoso que realizava um trabalho importante. Ninguém suspeitava dele e dado o seu conhecimento a respeito dos cemitérios, a polícia o procurou para saber na sua opinião que tipo de pessoa poderia ser responsável por aqueles incômodos acontecimentos.

No curso das entrevistas, os investigadores acabaram criando uma crescente suspeita de que Moskvin, sabia mais do que estava dizendo. Um dos detetives acabou fazendo amizade com o professor, ganhando sua confiança e então acesso ao apartamento em que ele residia em total reclusão. Lá descobriu além de livros, documentos e mapas algumas coisas muito estranhas, sobretudo uma vasta coleção de brinquedos novos e antigos, além de roupas para crianças espalhadas pelo quarto. Havia entretanto algo mais... um cheiro ocre dominando o apartamento, a despeito do morador tentar disfarça-lo com velas perfumadas e incenso. O detetive que se amigou de Moskvin passou a desconfiar de um aposento anexo que sempre era mantido trancado quando ele visitava o lugar.


Eventualmente as suspeitas resultaram em um mandato oficial para a revista completa do lugar. Nesta, a porta do aposento trancafiado foi enfim aberta. Lá dentro os policiais estarrecidos se depararam com uma coleção de estranhas bonecas em tamanho natural sentadas em poltronas ou deitadas em camas. Aquilo era muito estranho, e quando perguntado a respeito, o homem começou a balbuciar palavras sem sentido em vários idiomas, como se estivesse prestes a ter um colapso nervoso.

Os policiais só entenderam que estavam diante de um dos casos mais detestáveis da história criminal russa, quando resolveram investigar melhor as bonecas. Descobriram que elas eram na verdade corpos de crianças cuidadosamente mumificados e envolvidos com tiras de pano e gaze. Algumas foram engessadas para permanecer rígidas e não se desmanchar por inteiro. O rosto dos jovens cadáveres fora coberto por estranhas máscaras feitas de porcelana na qual foi desenhada uma face angelical. Eram os numerosos corpos das crianças sepultadas nos cemitérios da cidade, roubados pelo profanador cuja identidade agora se revelava.

No total foram descobertos 29 cadáveres no apartamento, perfeitamente vestidos com roupas e posicionadas como macabras bonecas em tamanho natural. No aposento acharam ainda manequins que serviam para expor as roupas, dois armários repletos de trajes para crianças e manuais sobre como construir bonecas. Na última gaveta de uma cômoda os investigadores acharam medonhos troféus que Moskvin havia subtraído em suas incursões noturnas aos cemitérios: joias, anéis, pedaços de roupa e uma miscelânea de outras coisas, como um ursinho de pelúcia e pequenos sapatinhos de bebê feitos de crochê. Acharam ainda um sortimento de dentes, dedos, orelhas e unhas humanas guardados em caixas e latas. 


Havia ainda muitos registros fotográficos em polaroide mostrando os cadáveres em diferentes momentos de sua preparação. O criminoso dava preferência aos corpos previamente embalsamados, mas aparentemente havia aprendido a extrair órgãos e fluidos quando necessário - conforme evidenciavam livros versando sobre anatomia e necropsia.

Os corpos estavam dispostos em uma espécie de semicírculo, no qual parecia evidente, o profanador se colocava no centro. Ali, naquele meio havia uma cama de armar com cobertores de pele e mantas, alguns manchados com semen.     

A mente degenerada responsável por aquele horrendo festival desmaiou ao ser desmascarada pelos detetives, mas logo em seguida foi reanimado e afirmou estar disposto a cooperar. "Não tenho vergonha do que fiz, essas crianças são minhas e eu escolhi cuidar delas", teria dito enquanto era interrogado. Moskvin só aceitou deixar o apartamento depois que o detetive que havia conquistado sua amizade garantiu que nada seria removido sem a sua autorização.

Na Estação Policial, Moskvin explicou como ele havia realizado seus crimes ao longo de mais de uma década. Contou a respeito de suas técnicas de mumificação, usando uma combinação de sal e bicarbonato de sódio nos corpos. Para preservar os cadáveres e garantir o processo, o professor movia os corpos para outros cemitérios escolhendo lugares secos que ofereciam as condições ideais. Eventualmente os corpos eram preenchidos com bolas de algodão e então envolvidos com faixas de gaze e pedaços de pano para evitar a deterioração. A última etapa era transportar a boneca para o apartamento, usando uma entrada pelos fundos do prédio que só ele tinha acesso. O profanador então escolhia uma roupa e a posição na qual a boneca seria disposta. Em alguns casos, pequenas caixas de música eram colocadas na caixa toráxica das múmias para permitir que elas "cantassem". Moskvin revelou ainda que alguns dos primeiros cadáveres subtraídos haviam sido devolvidos para os cemitérios quando apresentaram deterioração. Isso levou o professor a aprimorar suas técnicas de mumificação até quase a perfeição.


Quando questionado a respeito de seus motivos, o sujeito contou que costumava realizar festas para as bonecas, conversar com elas, dar nomes e até brincar como se estivessem vivas. Os detetives se perguntavam se haveria algum componente erotizante no caso, como ocorre com fetichistas contumazes. Embora os psiquiatras considerassem possível, o prisioneiro negava tal coisa veementemente. Ao ser confrontado a respeito da cama de armar e amostras de semen ele respondeu candidamente: "Eu a uso para dormir e para zelar por elas à noite. Algumas tem medo do escuro". Embora os psiquiatras acreditem que Moskvin extraía de sua conduta algum tipo de gratificação, não ficou claro se era de natureza sexual.

Foi determinado que embora existissem 29 "bonecas" no apartamento, Moskvin era responsável por nada menos do que 150 profanações de sepulturas. Suas vítimas preferenciais eram crianças e adolescentes, mas os ataques visavam também algumas mulheres adultas. O homem justificava suas ações afirmando sentir simpatia pelas meninas mortas, acreditando que seria capaz de devolver a elas a vida por meios sobrenaturais. Ele defendia que as crianças poderiam  ser salvas da morte, trazidas de volta à vida depois que ele cuidasse delas em sua casa por algum tempo. Moskvin de fato acreditava que as crianças falavam com ele e respondiam, dando permissão para que ele agisse daquela maneira. Fazia parte de seu "ritual" beijar a testa de cada "boneca" e sussurrar em seu ouvido palavras de incentivo para que voltassem. Os psiquiatras acreditam que, em sua mente doentia, o sujeito de fato pensava estar ajudando aquelas pobres crianças.

Da mesma forma, ele negava que aquilo fosse um tipo de hobby ou uma perversidade. Embora seu maior desejo fosse alegadamente salvar as crianças, essa explicação não ajudou a confortar as famílias das meninas transformadas em bonecas. A maioria dos pais, que continuavam a prantear suas crianças inocentes não sabiam que estavam visitando covas vazias. É claro, eles reagiram de maneira furiosa ao ultraje sofrido. Com o retorno dos restos mortais e com a localização de cadáveres enterrados em outros lugares, finalmente as famílias puderam devolver suas crianças ao solo. 


Moskvin foi processado por profanar as sepulturas, mas diagnosticado como esquizofrênico foi declarado incapaz de passar por um julgamento. Ele acabou enviado para uma Instituição Psiquiátrica onde permanece até hoje. O chefe do Comitê de Investigação da Federação Russa na região de Nizhny Novgorod, descreveu o caso como excepcional e sem paralelo na literatura policial. 

Os jornais russos apelidaram o criminoso de "Fazedor de Bonecas" e "Senhor das Múmias", expondo cada detalhe da investigação de maneira minuciosa. As circunstâncias chocantes do caso deixaram a população apavorada. A carreira acadêmica de Anatoly Moskvin obviamente foi encerrada depois do ocorrido e sua tese jamais foi publicada ou divulgada, embora alguns teóricos que tiveram acesso ao que ele já havia produzido concordavam que ela era nada menos que brilhante.

O que faz uma pessoa escavar cemitérios em busca de cadáveres humanos? Prepara-los e dispô-los como se fossem bonecas. Que mente distorcida criaria tamanho sacrilégio em nome de um bem maior? Seja lá o que for que motivou a história do "Fazedor de Bonecas", ele se tornou um dos crimes mais absurdos e sinistros de que se tem notícia.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Para o caso deles retornarem - Os horríveis costumes de um vilarejo medieval


Em verdes prados, margeando um bosque, jaz um povoado sem nome.

Um dia, ali floresceu uma comunidade medieval, ainda que não particularmente grande ou significativa: um mero vilarejo que um dia ocupou a fronteira Oeste de Yorkshire na Inglaterra.

Não restou muito desse lugar perdido no tempo, exceto pelas suas fundações de pedra e pelas ruínas do que um dia foi uma igreja dedicada a São Martinho. A construção era o centro do vilarejo e onde a comunidade se desenvolveu em um período de quatro séculos, até ser completamente  abandonado pelos seus habitantes.

O que torna esse simples vilarejo notável e ao mesmo tempo estranho, é sua perturbadora história secreta, uma que envolve superstição e medo. Os habitantes desse vilarejo cujo nome se perdeu, mutilavam seus mortos na esperança de assim evitar que eles retornassem para atacar os vivos.

As origens do vilarejo podem ser traçadas até o século X. Essa região é mencionada no Domesday Book, tratado que dispõe sobre as províncias de Yorkshire. Ela é  citada com o nome de Warron, que se refere ao Bosque, não à cidadezinha em si. De acordo com arqueólogos, está região teve uma população bastante ativa desde a pré história, embora seu auge tenha ocorrido do século XI até o XII.

Muito do que se sabe vem das numerosas escavações arqueológicas na área, já que não há praticamente nenhum registro escrito que tenha sobrevivido. Graças a fotografias aéreas, o padrão irregular dos campos nas redondezas foi percebido, o que motivou a realização de escavações em areas específicas.


Um exame mais cuidadoso revelou que o vilarejo possuía ao menos duas grandes propriedades e um total de 35 a 40 casas menores. As fundações eram edificadas em pedra, mas como as paredes eram de madeira, precisavam de frequente manutenção, bem como os telhados. Não por acaso, tudo isso desapareceu.

Os limites ao sul do povoado terminavam em pequenos montes relvados, enquanto ao oeste se erguia uma elevação semelhante a um platô. Nessa posição provavelmente foi erguido um forte ou posto de guarda que permitia vigiar todo perímetro. Restos de estacas de madeira cravadas fundo no solo atestam que em determinado momento pode ter havido também uma cerca ou paliçada que contornava o povoado, garantindo uma defesa mais eficiente. Até mesmo uma trincheira foi escavada junto da cerca para dificultar qualquer aproximação indesejada. Os restos de um portão ao norte atestam que os habitantes prezavam pela sua segurança.

De fato, eles pareciam temer enormemente a possibilidade de sofrer uma invasão.


Outra característica peculiar é que os historiadores encontraram fechaduras em algumas portas. Estas sobreviveram pois eram construídas com madeira reforçada trazida de regiões vizinhas. Fechaduras eram um verdadeiro luxo no mundo medieval, sobretudo em regiões isoladas dos grandes centros. Em geral a segurança de uma casa era garantida por barricadas dispostas no lado de dentro, mas no vilarejo, as fechaduras evidenciavam uma busca notável por segurança.

O que levava essas pessoas a se proteger de tal forma? O que fazia com que elas agissem com tamanha desconfiança?

A resposta provavelmente se encontrava a cerca de um quilômetro e meio do centro do povoado.

Seguindo por uma estrada tortuosa em direção a um pântano os historiadores encontraram os restos de um muro de pedra que limitava o que descobriam ser um grande cemitério.


O vilarejo sobreviveu aos horrores impostos por William o Conquistador que submeteu com os habitantes dessa região com mão de ferro. No período, toda Yorkshire sofreu com um rígido controle no qual qualquer sinal de revolta era tratado com brutalidade. Mais de um povoado foi incendiado e seus habitantes submetidos a punições por parte do monarca cujo reinado foi marcado por execuções.

Acredita-se que em determinado momento, os arredores de Warron foram palco de uma ou mais batalhas sangrentas. Como os mortos eram abandonados no campo de batalha, era costume que camponeses fossem forçados a enterrar os cadáveres em covas coletivas. Quando os arqueólogos começaram a escavar o cemitério encontraram várias dessas valas transbordando com esqueletos que haviam perecido em combate.

Não bastasse isso, havia ainda um grande número de sepulturas marcadas com um círculo preto que indicava o local onde uma vítima da Peste Negra havia sido enterrada. No meio do século XII, a Peste atingiu com força Warron matando boa parte da população residente.

Em uma época de extrema superstição, a presença de inúmeros cadáveres de forasteiros, mortos violentamente ou vitimados pela peste, depositados no cemitério local, deve ter causado um medo considerável nos habitantes do vilarejo.

Entre os povos medievais, os mortos despertavam um terror extremo. Havia muitas crendices a respeito de mortos vingativos e espíritos malignos capazes de escavar suas sepulturas para arrastar consigo os vivos.

Lendas a respeito de Revenants ou Espíritos de Vingança, eram comuns. Elas relatavam como homens e mulheres que haviam sofrido mortes violentas podiam retornar para levar a cabo uma terrível vingança contra os vivos. Seu desejo de extinguir a vida dos outros lhes concedia força sobre-humana e um ímpeto perverso para espalhar o mal.

Os Revenants eram como esqueletos animados, sua carne apodrecida se desprendida dos ossos expostos. Eles caminhavam lentamente, mas as orbes vazias onde um dia estiveram seus olhos, pulsavam com um brilho amarelado. Suas mãos estavam sempre prontas para agarrar uma vítima e puxa-la para de baixo da terra, sufocando-a lentamente ou partindo seu pescoço. Mais terrível de tudo, o Revenant quando fixava sua ira em uma pessoa jamais desistia de seu objetivo. Poderia ser depositado na terra uma, duas, cem vezes, mas encontraria uma maneira de voltar, nem que se arrastando de sua campa pútrida para extrair seu desejo de vingança.

Não por acaso, a literatura medieval está repleta de casos envolvendo Revenants. Eles eram tratados como um problema grave, com real temor e preocupação pelos aldeões.

Os almanaques medievais afirmavam que padres podiam por um fim aos Revenants benzendo a terra onde os restos mortais eram lançados. Outras medidas práticas envolviam deitar os cadáveres de bruços e trespassa-los com uma estaca de ferro ou ainda prender seus pés com correntes. Uma receita considerada infalível envolvia colocar na boca do cadáver uma raiz de acônito e costurar os lábios com linha. Outra dava conta de tatuar na testa do cadaver um desenho da cruz e pingar sobre seus olhos cera quente. Como se pode ver, os métodos flertavam de perto com noções de necromancia.

Mas como se certificar de que um espírito desses não voltaria para atormentar os vivos? E caso voltasse, como contê-lo?


Os arqueólogos que escavaram os restos do cemitério se surpreenderam com os métodos usados pelos aldeões.

Cerca de 230 ossadas datando do século XI a XIII demonstravam sinais inequívocos de mutilação post morten. Marcas de faca, que cortaram até o osso foram achadas onde se encontravam os tendões e músculos. Da mesma maneira, pernas e pés foram amputadas dos cadáveres, geralmente na altura da canela a fim de limitar a capacidade de movimento, caso os mortos se erguessem para cumprir seus propósitos nefastos.

Ao menos sete cadáveres tiveram os pés arrebentados por marretas. Uma dúzia tiveram braços e mãos serrados na altura do cotovelo e pulso. E pelo menos um foi totalmente esquartejado para resolver de vez o problema.

Decapitações também pareciam ocorrer com frequência. Ao menos duas dúzias de restos apresentavam sinais de que as cabeças haviam sido separadas pouco antes do enterro. Curiosamente, as cabeças eram enterradas em covas afastadas, depois da boca ser devidamente preenchida com alho, terra consagrada ou uma mistura de ervas ou raízes. Em alguns casos, mandíbulas e dentes eram partidos a marteladas afim de evitar mordidas.

A preocupação dos aldeões com Revenants era tamanha que eles chegaram a construir um muro ao redor do cemitério. Dispunham ao longo deste, bonecos semelhantes a espantalhos que imitavam a aparência de pessoas. A ideia é que como ninguém jamais havia testemunhado um morto escavar sua sai da da cova, eles só o faziam quando não eram vigiados. Os espantalhos poderiam coibir suas ações.

Não se sabe exatamente o que motivou esse terror e essas precauções da parte dos aldeões. Também se desconhece as circunstâncias em que o vilarejo foi abandonado no século XIII, embora a Peste Negra seja a causa mais provável de sua deserção.

Hoje, o Vilarejo na região de Warron é considerado como um dos assentamentos medievais mais bem preservados de que se tem notícia. Ele é uma espécie de relíquia da Era das Trevas, alimentando os pesquisadores com evidências de dias obscuros e assustadores.

Tempos em que temia-se que os mortos andassem.

domingo, 8 de setembro de 2019

Então você quer narrar um Cenário Cthulhiano? - Tópicos para entender esse tipo de ambientação


Artigo originalmente publicado em 10/01/2017

O lançamento da nova edição de Chamado de Cthulhu, além de trazer novos ares ao mercado brasileiro de RPG também incentiva uma nova geração de mestres a narrar suas primeiras aventuras no mundo imaginado por H.P. Lovecraft.

O Livro Básico contém todas as informações para entender "qual é a do jogo", mas talvez seja interessante dedicar algumas palavras aos Guardiões de primeira viagem que em breve devem mergulhar no medonho Universo do Mythos.

Em que uma ambientação tipicamente Cthulhiana se difere de um RPG de aventura medieval, de horror pessoal ou dedicado a super heróis?

Há algumas particularidades que tornam esse jogo diferente dos outros, senão vejamos:

1 - CENÁRIOS E NÃO AVENTURAS


Já me perguntaram em mais de uma ocasião porque costumo chamar de "cenários" as aventuras baseadas na obra de Lovecraft. A resposta é simples: os personagens não estão envolvidos em uma aventura, é mais uma luta desesperada contra uma escuridão primordial e um mal desconhecido. Um confronto enlouquecedor para deter um horror ancestral, um culto maligno, uma tragédia que se aproxima rapidamente de forma inexorável.

Cada cenário, mesmo aquele com inclinação para o Pulp aventuresco, é uma história dramática sobre pessoas enfrentando forças absurdamente inumanas.

Uma "aventura" em Chamado de Cthulhu não é sobre obter tesouros, matar monstros, salvar donzelas, explorar terras exóticas e colher os louros dessas conquistas. Ele envolve sobreviver, salvaguardar valores humanos e descobrir um perigoso conhecimento. Não há recompensas imediatas e sejamos francos, nem a longo prazo.

Não há glória. Não há agradecimentos. Não há tesouros. No final, os personagens terão feito o melhor possível, provavelmente terão sofrido física e mentalmente, e estarão tão desgastados que possivelmente jamais irão se recuperar. Chamar isso de aventura, chega a ser piada!

Um cenário tipicamente lovecraftiano envolve um mistério que serve de isca, uma investigação que os leva cada vez mais perto de uma verdade horrenda: "O que pretende o maníaco que vem matando e arrancando a cabeça das vítimas?", "Quem - ou o que - matou o professor de Arqueologia que havia desenterrado aquele templo egípcio?", "O que aconteceu com a tripulação do navio encontrado à deriva?", "O que essas pessoas fazem nas noites de lua cheia, cantando e dançando em volta de uma estátua medonha?".

Coletar evidências, analisar pistas, entrevistar testemunhas, relacionar fatos e então, munido desse arcabouço confrontar a ameaça - é disso que trata um Cenário Cthulhiano. O trabalho é na maioria das vezes mental e quando as coisas se tornam físicas, os personagens desejam jamais ter saído de casa.

As recompensas, quando estas surgem, são artefatos sobre os quais sabe-se muito pouco. Livros contendo conhecimento antigo, objetos amaldiçoados e magias que podem lançar uma luz sobre a natureza do Mythos, mas aprender esses segredos leva o mais sensato dos homens à ruína da insanidade. Nunca é fácil! Nunca mesmo...

É impossível chamar uma jornada dessas, rumo às profundezas da loucura e do terror, de aventura, ela é ao invés disso, uma experiência demolidora.

2 - INVESTIGADORES E NÃO AVENTUREIROS


Assim como não há aventura, os protagonistas não são aventureiros.

Quase todos os jogadores e mestres de RPG estão acostumados a criar personagens cheios de coragem e virtude. Eles são heróis capazes de realizar façanhas incríveis. Seja enfrentar e matar dragões gigantescos e monstros medonhos, participar de batalhas épicas, destruir exércitos com magias ou invadir masmorras inexpugnáveis. são Heróis no melhor sentido da palavra!

Em um Cenário Cthulhiano os personagens dos jogadores são pessoas absolutamente comuns.

Gente que tem trabalho, família, sua para ganhar salário, pagar contas e progredir na vida. São, contudo, homens e mulheres que em algum momento da sua existência, esbarraram em uma inconveniente verdade e que agora não podem fugir a essa revelação. Eles descobriram que o mundo é um lugar muito mais perigoso do que se pode imaginar. Dessa forma eles se tornaram Investigadores do Mythos, aquela que talvez seja a mais perigosa ocupação do mundo.

Em lugares proibidos e isolados existem coisas muito mais terríveis do que imaginamos e essas coisas não ficarão confinadas na escuridão para sempre. Pior, eles estão prestes a escapar, motivados pela cobiça, pelo fanatismo, pela loucura. Eles sempre voltam e nós sempre sofremos. Diante dessa descoberta, os investigadores decidem se erguer contra o mal e fazer o que for preciso para salvar o mundo de arder nas chamas.

De certa forma, esses personagens, muitas vezes sem acesso a armas, magia ou recursos são mais heróicos do que os aventureiros e super-seres das outras ambientações. Eles são a última linha de defesa contra aquilo que ameaça varrer a humanidade da existência e se colocarão no caminho da obliteração de olhos abertos para o horror supremo.

3 - HORROR CÓSMICO


Dentro do Gênero Horror existem subdivisões.

Um cenário que, por exemplo, envolve vampiros aprendendo a enfrentar a dura realidade de sua nova existência se difere de uma ambientação que versa sobre humanos caçando monstros e fantasmas, embora as duas possam ser encaradas pela ótica do Horror.

Rastro de Cthulhu faz parte de um subgênero talhado por autores como Lovecraft, que costuma ser chamado de Horror Cósmico.

Nos Cenários de Horror Cósmico as coisas são especialmente dramáticas e aterrorizantes para os personagens. O medo que permeia esse subgênero é muito maior, muito mais dantesco que aquele representado por um fantasma, uma múmia ou mesmo uma horda de vampiros sedentos de sangue.

O Horror das criaturas do Mythos é totalmente inumano. Por mais bestial que seja um lobisomem ele ainda guarda similaridades com o seu lado humano, já em cenários lovecraftianos, as coisas que habitam a escuridão - e que são o grande inimigo - não são e nem nunca foram humanas. Eles são verdadeiros titãs de maldade insondável. O mero vislumbrar dessas entidades é o bastante para causar histeria e loucura.

Em cenários de Horror Cósmico sempre há uma ameaça oculta espreitando e as consequências do despertar desse mal serão catastróficas. Essa força maligna espalha seus tentáculos pelo mundo pervertendo tudo que toca. Ela vem do espaço, de além do tempo, de além das esferas, do espaço entre as dimensões, ou de lugares ainda mais distantes. O fato é que elas existem e que elas são como radiação para a mente humana, a hora que você for tocado, pode apostar, você não vai escapar ileso.

O cenário se concentra em descobrir a extensão dessas ameaça e tentar de todas as maneiras contê-la pelo tempo que for possível, pois esse mal jamais será extinto. No máximo será possível ganhar tempo!

4 - UM MUNDO CINZENTO


A ação de Chamado de Cthulhu acontece no mundo real, ou ao menos como ele era nos anos 20. Porque essa época em especial? Porque não trazer os cenários para os dias atuais e fixar em elementos do nosso dia a dia? Não seria mais acessível jogar em nossos dias atuais?

Alguns respondem a essa pergunta dizendo que os contos de H.P Lovecraft se passavam nessa época e nada mais natural que os cenários se desenvolvam no mesmo período. 

Eu prefiro outra resposta.

Os anos 20 são um momento muito interessante na história humana. O período em que o homem acreditava piamente que o Universo girava ao seu redor e que explorar os seus confins era seu Direito. O Homem havia retirado Deus do pedestal e orgulhoso havia assumido seu lugar. Ciência era o novo dogma, curiosidade a nova moda, ambição estava na ordem do dia.

De certa forma essa é a época que definiu os rumos da nossa civilização para os dias futuros. Nada mais justo que essa época de realizações, quando o homem começou a domar a natureza, gerar energia em quantidade nunca vista, cruzar distâncias inimagináveis e conquistar o ar, fosse a escolhida para confrontar nossa raça com a grande verdade: que nós somos um mero acidente e que existem forças muito mais poderosas no Universo. Forças estas que desafiam nossa razão e nossa compreensão e que poderiam nos extirpar da face da Terra em instantes.

Um dos elementos mais interessantes em um cenário de horror cósmico é a descoberta da Insignificância Humana. O pessimismo de saber que o Universo é tão incrivelmente vasto e tão inconcebivelmente hostil diante de nossa inerente fragilidade.

Contrapor o progresso humano, sua inventividade e suas conquistas com a crueza de uma realidade em que esses valores nada representam, torna a ambientação ainda mais assustadora.

Na maioria dos mundos de RPG sempre há uma esperança, não importa o quão negras sejam as coisas. Mesmo quando Orcs marcham de Mordor, quando Dragões voam nos céus ou quando alienígenas invadem as cidades, lá está ela... a esperança de que dias melhores virão! E essa esperança repousa nos ombros dos heróis que lá estão para lutar até o último sopro de vida. Eles podem fazer a diferença (e em geral fazem!).

Já nos cenários assolados pela mácula do Horror Cósmico, nada pode ser feito, além de ganhar tempo e olhar para as estrelas temendo o pior.

5 - SEGREDOS NEGROS E INSONDÁVEIS


Vou dar um conselho a quem está prestes a narrar pela primeira vez um cenário cthulhiano para um grupo de jogadores que não sabe absolutamente nada a respeito da ambientação (exceto que ela tem um nome quase impronunciável).

Deixe os seus jogadores no escuro. Muito provavelmente eles sabem que se trata de um jogo de terror, mas não o tipo de horror que os personagens vão enfrentar.

Mantenha as coisas desse jeito. 

O Universo do Mythos é bizarro, estranho e incompreensível. Os jogadores não precisam saber que ghouls habitam as entranhas das cidades se alimentando dos mortos. Eles não precisam saber que Azathoth habita o centro do Universo e que suas convulsões provavelmente deram origem a tudo que existe. Eles não carecem saber que Nyarlathotep possui 1000 máscaras e que adora brincar com os humanos. Eles não precisam saber que Cthulhu mora no fundo do mar e que seus pesadelos evidenciam seu retorno.

Hush-Hush! Shhhhh....

Uma das coisas mais interessantes sobre uma ambientação cthulhiana é que ninguém, nem mesmo o Guardião conhece todos os segredos. Porque então os jogadores deveriam saber de algum detalhe?

Em Chamado de Cthulhu, a própria noção do que são os Deuses e Entidades Ancestrais, os monstros e as criaturas nos escapa. O livro é genial ao oferecer diferentes pontos de vista sem jamais afirmar qual deles, se é que um deles é real. Tem-se teorias, conjecturas e suposições metafísicas, sendo que estas por vezes não podem ser sequer compreendidas.

Lembre-se, o choque de uma revelação é muito mais dramático quando acontece de forma inesperada. Se você acabou de receber seu exemplar de Chamado de Cthulhu, mantenha-o longe dos olhos dos seus jogadores, eles não precisam saber o que esse livro inocente encerra nas suas páginas.

Bem é isso...

O Horror dos Mythos, o Horror Lovecraftiano, os cenários cthulhianos estão ao alcance de suas mãos. Como mestre, você tem uma enorme responsabilidade, a de guiar seus amigos pelas veredas do horror, pelos caminhos pavimentados com medo e paranoia, em uma jornada que será igualmente fantástica e assustadora.

O que existe atrás dessas páginas?

Loucura, esquecimento, temores, e muita diversão!

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Carta de Boas Vindas - Bem vindos ao Mundo de Chamado de Cthulhu


Caros investigadores e cultistas,

Chamado de Cthulhu está chegando ao Brasil depois de muita ansiedade através da New Order. 

Valeu a pena esperar...

Tenho certeza de que muitos já receberam ou estarão recebendo muito em breve seus livros e mal podem esperar para começar a ler e conhecer em primeira mão seus mistérios.

Faz alguns anos, vendi uma edição extra que tinha de Chamado de Cthulhu e coloquei uma carta escrita à mão dentro de um envelope para a pessoa que comprou de mim.

A ideia era dar as boas vindas a um novo jogador, fazer de conta que ele estava recebendo um tomo arcano de verdade, repleto de conhecimentos profanos e rituais blasfemos. Acho que ficou bem legal na ocasião.

Sei que não sou eu quem está enviando esses livros, mas acho que ainda é adequado saudar novos jogadores que em breve estarão jogando esse incrível RPG. Sendo assim, decidi reeditar a referida carta como se fosse ela, boas vindas a todos!



Caro Sr XXX

Espero que essa carta o encontre de forma célere e segura. No interior do pacote que recebeu, o Senhor achará um material peculiar de notória reputação. Trata-se de um volume conhecido nos meios ocultos e arcanos, por causar furor, debate e considerável instabilidade em quem tem acesso a ele. 

Alguns poderiam até dizer que se trata de um compêndio perigoso para a mente humana e para a sanidade de modo geral. Muitos mergulharam em seus mistérios e se viram estranhamente afetados. Pois ele tem essa capacidade: a de mudar tanto corpo, quanto mente e mais ainda, espírito. Marque minhas palavras, ninguém que o lê sai incólume.

Nessas páginas encontrará noções e conceitos considerados na pior das hipóteses como delírios de mentes insanas, na melhor, tolices supersticiosas. Mas não são nos devaneios que encontramos frequentemente os alicerces para a genialidade? Não repousa no fantástico a base para a criatividade e engenhosidade humanas?

Perdão se estou divagando.

Esse livro que agora tens em mãos, contém combustível para maravilhosos sonhos e sinistros pesadelos, muitos deles eivados de maus agouros e desagradáveis presságios. Há revelações sim, mas estas cobrarão, a seu tempo, um elevado preço. Conhecimento e perigo convivem aqui em delicado equilíbrio. Feitiços e Magia Negra, Maldições e Portentos, o aguardam. Até onde estais disposto a ir, caro amigo? Faça a si mesmo essa pergunta antes de iniciar, pois como um turbilhão revolto, esse saber profano ameaçará afogá-lo em águas turvas. 

Se estiveres resoluto das suas faculdades e confiante das suas habilidades, segue adiante.

Leia-o por inteiro e aprenda com seus segredos; ele tem muito a oferecer. Havendo dúvidas ou incertezas, lembre-se que estou ao seu dispor e poderei vir em vosso auxílio, visto que já exploro essas sendas à considerável tempo e minh'alma se encontra calejada pela torpe experiência. Ainda que inexpugnável, abri trilhas nessa selva. Se tiver perguntas a fazer, faça-as sem receio!

Aventure-se nestas páginas e deixe-se envolver pela escuridão, pelo conhecimento atávico e pelas promessas sussurradas por vozes distantes além do Tempo e Espaço.

Ouça o Chamado... 

Mythos de Cthulhu o aguarda para relatar suas histórias. À você caro Guardião, caberá narrá-las diante de plateias ansiosas. 

Não vou detê-lo mais, comece sua leitura 
e boa sorte.




Dedicado a todos que estão abrindo o livro de Chamado de Cthulhu pela primeira vez.


sábado, 31 de agosto de 2019

O Povo Pálido - Encontrando os horrores que vivem na escuridão


Entre os vários tipos de estranhos encontros com o sobrenatural, existem aqueles particularmente perturbadores. São incidentes que estão além da nossa capacidade de classificação ou mesmo compreensão. São assombrações, animais misteriosos, alienígenas, criaturas de outras realidades? O que? Não há respostas claras nesses incidentes e eles continuam a nos assombrar na fronteira de nossa razão. 

Uma das histórias mais bizarras e que já ganhou o status de lenda urbana envolve algo que convencionou-se chamar de Povo Pálido. Criaturas que se arrastam, rastejam e espreitam pelas cidades e que constituem uma grave ameaça para todos que tem o azar de cruzar com eles. Mas o que seria o Povo Pálido? 

Provavelmente o casos mais conhecido de contato com essas estranhas entidades é o incidente que ficou conhecido como os "Rastejadores de Fresno". O primeiro relato a respeito dessas criaturas verdadeiramente bizarras e não-identificadas veio à superfície em 1990, quando uma câmera automática filmou alguma coisa estranha espreitando nos arredores da cidade de Fresno, na Califórnia. O video foi feito por uma família que instalou câmeras de vigilância na sua propriedade, temendo a presença de invasores já que os cães latiam noite após noite. As câmeras automáticas eram acionadas quando captavam algum movimento e começavam a filmar. Elas foram distribuídas em lugares chave como no muro de entrada, na porta da garagem e no pátio dos fundos.

A família esperava descobrir alguma raposa ou quem sabe um coiote, talvez até um vagabundo pulando o muro, mas quando assistiram a gravação tiveram um choque ao ver duas figuras pálidas se movendo pelo pátio. As criaturas tinham pernas compridas, estranhamente finas e se moviam de forma estranha. A qualidade da filmagem não permitia ver muitos detalhes, mas parecia claro que eles estavam nus, seus corpos eram muito magros e seus movimentos eram estranhamente fluidos.

 É possível ver essa filmagem no vídeo abaixo:

 O Povo Pálido.


A qualidade da imagem infelizmente é muito ruim, tornando quase impossível discernir detalhes. Contudo a forma estranha e a maneira como essas coisas se movem eram sinistras o bastante para que a família decidisse chamar a polícia. Não demorou muito para que a mídia descobrisse a filmagem e menos ainda para que o tema atraíssem a atenção. Embora a maioria das pessoas tenham firmado que a filmagem ão passava de uma montagem, outros acreditavam que as câmeras haviam filmado algo de outro mundo. A filmagem passou por várias análises técnicas e por uma criteriosa checagem para saber se ela havia sido de alguma forma adulterada. Os testes resultaram na certeza de que ela era genuína, e que mostrava exatamente o que havia sido filmado sem manipulação. 

A suspeita é que as pessoas que criaram a filmagem poderiam ter forjado o aparecimento de criaturas estranhas. Resta saber o que eles ganhariam com isso, já que publicidade aparentemente não era a razão uma vez que a família preferiu se manter anônima. De fato, nunca se ficou sabendo onde a filmagem foi feita e quem foi responsável por ela.

O incidente seguinte ocorreu no Parque Nacional de Yosemite em março de 2011, mais de 20 anos depois. Nesse caso, câmeras de monitoramento foram instaladas por guardas florestais para identificar invasores que vinham vandalizando uma área de camping. Mais uma vez, a filmagem parece ter captado algo que não era exatamente humano. A princípio não se fez conexão com o ocorrido em Fresno anos antes, mas é inegável que os personagens eram muito semelhantes ainda que menores.

As estranhas criaturas parecem andar pela área de camping, movendo-se da mesma maneira peculiar. Ainda que bastante parecidas, não há como dizer ao certo se as criaturas do Yosemite seriam as mesmas vistas em Fresno. Rumores de que seriam espíritos indígenas se espalharam, mas também havia aqueles que tratavam o fenômeno como algo ligado a fantasmas e alienígenas. Ninguém realmente sabia o que pensar.

Algo semelhante a esses incidentes então tomou forma de janeiro de 2004, e um caso documentado pelo pesquisador Albert S. Rosales. A ocorrência alegadamente teve lugar em Manchester, Indiana quando um rapaz estava dirigindo em uma estrada rural próximo dos limites do Condado de Dearborn. Conforme contou a testemunha, o farol do carro iluminou uma criatura alta e pálida de aspecto frágil, agachada perto do acostamento. Quando o carro passou por ela, o motorista conseguiu perceber que a coisa fez um movimento desconjuntado e estanho, entrando na mata e desaparecendo de seu arco de visão.


A coisa segundo ele era grande, "maior do que um homem adulto, atingindo pelo menos 2 metros e meio de altura". Suas pernas eram muito finas e pareciam estranhamente se "fundir" ao tronco. Estranhamente ela não tinha braços, mas havia uma espécie de rosto que mais parecia um borrão. O motorista percebeu que havia um automóvel na sua frente que havia passado pelo mesmo trecho e sinalizou para quem estava à bordo, no caso um casal de idosos. O motorista confirmou que também havia visto aquela coisa estranha na beira do asfalto e que levou o susto de sua vida.

"Aquilo não era um ser humano. Não era um homem, isso posso dizer com certeza". disse o sujeito a época. Ele se movia de uma forma absurda, como se as pernas fossem desconjuntadas. Nas semanas seguintes surgiram mais dois relatos de avistamento da criatura, avistada na mesma estrada. Alguns anos depois, no inverno de 2016, outra testemunha se deparou com algo impossível de explicar em termos racionais. Próximo ao Condado de Davies, Indiana, por volta das 20 horas, ele viu algo difícil de descrever:

"Eu cruzei um campo e estava próximo da estrada secundária que leva até minha casa quando ouvi um barulho vindo de um arbusto a cerca de 10 metros de onde eu estava. Estava escuro, mas eu tinha uma pequena lanterna à mão. Imediatamente virei o facho de luz na direção, pensando que poderia ser uma pessoa. Foi então que vi aquela coisa esquelética, com a pele pálida e as pernas muito compridas. Ela tinha um pescoço flexível e era muito alta, com mais de dois metros de altura. Eu corri sem olhar para trás, patinando pelo campo, caindo e levantando. Disparei pelo mesmo caminho por onde havia vindo. Eu conseguia ouvir a coisa correndo atrás de mim, mas não tentei olhar pra ela pois fiquei apavorado. Me concentrei em correr o mais rápido possível sabendo que ela poderia me alcançar se eu me desconcentrasse".  


Outro caso ocorreu também em Indiana no ano de 2012, em meio a uma tempestade de raios que acrescentava um elemento sinistro ao ocorrido. O incidente teve lugar nos arredores de Michigan City e permanece sem uma explicação razoável. A testemunha chamada Brett Gaines estava passando férias na casa de praia de um amigo próximo ao Lago Michigan. Um blackout causado por uma tempestade fez com que o lugar ficasse totalmente escuro. Por volta de 2 da manhã, ele ealguns amigos saíram de casa para fumar e ver os raios quando de repente perceberam que alguma coisa branca correu por um descampado a cerca de 20 metros de onde eles estavam. O grupo conseguiu perceber que se tratava de uma criatura com pernas compridas que se movia de maneira muito estranha. Ela era pálida, com uma coloração branca cinzenta e sem uma face discernível. 

A polícia foi chamada pelos rapazes e quando as autoridades chegaram Brett descreveu a coisa da seguinte forma:

"Era grande, maior do que um homem alto. Ela parecia brilhar mesmo na escuridão. Era branca ou cinza e com as pernas muito longas e finas. Parecia estar sem roupa e fazia barulho enquanto corria pisando na grama rasteira. Eu não percebi se ele tinha braços, mas acho que não havia. Estava nua e se movia de modo muito esquisito. Ela correu de um extremo da mata para o outro, sem olhar na nossa direção e bem rápido. Deve ter levado uns 5 segundos para atravessar o trecho e nos deu um enorme susto".

Os rapazes declararam que não haviam bebido ou consumido drogas e que não estavam dispostos a ficar nem mais uma noite ali. De fato, eles pediram que a polícia os escoltasse de volta para a cidade de tanto medo que sentiam.

Então, depois de todos esses relatos, o que diabos poderiam ser essas coisas estranhas?

A descrição geral sempre envolve as mesmas características, uma criatura pálida e nua, com pernas compridas e rápida se afastando ou perseguindo as testemunhas. O movimento desconjuntado da coisa parece remeter a alguma criatura de anatomia confusa. Os desenhos feitos por artistas, baseado nos relatos de testemunhas, levam a crer que a criatura realmente não parece algo humano e inteiramente desconhecida. Sua altura variava, mas ela era normalmente descrito como uma entidade alta com mais de dois metros de altura e muito longilínea. Uma das testemunhas chegou a afirmar que parecia algo saído de um video clip de Marilyn Manson. Embora em momento algum, as coisas tenham ferido alguém, sua forma bizarra era suficiente para causar um pavor extremo.  


Mas há outras descrições de Povo Pálido.

Alguns avistamentos de seres pálidos igualmente bizarros ocorreram próximo da cidade de Effingham, no Estado de Illinois. Um caso em especial, registrado na National Cryptid Society data de 2010, e envolve o testemunho de uma mulher chamada apenas de "Jade". A testemunha alegadamente estava passando pelas cercanias do Cemitério de Kasbar próximo das florestas de Effingham na companhia de dois amigos. Quando passavam perto do portão de madrugada, algo inexplicável aconteceu. 

"Eu vi alguma coisa com olhos amarelos brilhantes na beira da estrada. Era pequeno para ser um cervo, mas grande demais para ser um texugo. A medida que nos aproximamos percebemos que era algo não-humano. Era magro, sem cabelo e cinzento. Era estranho... uma coisa! Ele estava agachado , seus braços muito longos abraçando o próprio corpo. Meu coração disparo e fiquei aterrorizada. Eu sabia que aquilo não era humano. 

Ficamos em choque e não conseguíamos correr e nem chegar perto. Eu apenas olhava para aquilo. Ele estava próximo, uns cinco metros, se tanto. Ele então se moveu, devagar. O braço deslizou para o lado e a cabeça grande se levantou, os olhos voltaram-se na nossa direção. Então todos começamos a gritar. Literalmente em pânico! Por meses eu fiquei convencido de que seria um tipo de demônio. Uma coisa diabólica. Nós não chegamos a Kasbar aquela noite, voltamos para casa. Eu não durmo bem desde aquela noite".   


A testemunha depois ficou convencida de que a coisa não era um monstro ou demônio, mas um "carniçal", um tipo de criatura lendária que espreita as pessoas e se alimenta de cadáveres em putrefação.

Sobre carniçais (ou ghouls) sabemos alguns detalhes vindos de lendas bastante antigas.

São criaturas humanoides, mas não propriamente humanas. Eles devoram a carne dos mortos e por isso costumam habitar cemitérios já que ali encontram a fonte de seu sustento. Escavam sepulturas recentes, sabendo que dentro dos caixões encontra-se sua macabra ceia. Eles até podem mudar seus hábitos alimentares, se por acaso o suprimento de corpos se torna escasso. Espreitam pessoas solitárias que se aproximam de seu território, atacam de modo implacável e arrastam suas vítimas para sepulcros trevosos ou túneis escavados no solo pútrido. Lá deixam que elas morram e apodreçam para então se fartar dos restos. 

Imagens de carniçais retratam as criaturas sempre da mesma maneira. Como monstros pálidos, emaciados, quase pura pele e osso, dotados de presas e garras afiadas. Por vezes eles correm de quatro no chão, saltando e ganindo como cães ferozes. São normalmente covardes, mas quando famintos ou em número superior adquirem coragem. Sua postura pode se assemelhar a de um homem, andando eretos para enganar quem os vê apenas à distância. Se engana, entretanto, quem concede a eles atributos humanos: são seres movidos pelas paixões, dentre as quais, a fome é a mais ativa.

Curiosamente, histórias sobre Caniçais começaram a se multiplicar em meados de 2010. Outra, ocorrida também no estado de Illinois relata um encontro com um ser parecido. Perto do por do sol, nas proximidades do cemitério local, uma testemunha e um colega avistaram algo estranho conforme descreveram:

"Algo correu na direção do portão de entrada do cemitério. Meu colega também ouviu e deu um passo para trás de forma instintiva. Estava escuro, mas ainda era possível ver o interior do cemitério - a coisa se esgueirou entre as lápides e parou espiando na nossa direção. Parecia um homem nu, muito pálido e magro. Ele estava acocorado, apenas olhando com curiosidade. Seus olhos eram grandes e pareciam refletir a luz - como olhos de gato! Ficamos paralisados, sem mover um músculo, estávamos apavorados demais. Eu não consegui ver detalhes de seu rosto, mas ele não parecia um homem, tinha um tipo de focinho chato. E definitivamente ele não tinha pelo no corpo, parecia liso da cabeça aos pés. Eu nunca vou esquecer daquilo".

Segundo a testemunha, a coisa os observou por longos segundos e então saltou para o lado desaparecendo na escuridão para sumir entre o jardim de lápides. 


Outros avistamentos se seguiram, entre 2010 e 2013, criando uma sucessão de narrativas a respeito de carniçais como nunca havia ocorrido antes na história dos Estados Unidos.

Histórias vindas de Greenfield, Connecticut, Marsalla, Maine e Courson, Nova Inglaterra se multiplicavam fazendo as pessoas se perguntar a respeito do que as estava causando. Em comum, todas descreviam criaturas estranhamente pálidas, não-humanas, espreitando nos arredores de cemitérios em atitude suspeita. Seres de aparência chocante e assustadora.  

Em Ballard County, no Oeste de Kentucky uma testemunha relatou um encontro ocorrido numa estrada marginal por volta das duas da manhã.  

"Eu vi uma coisa branca e vagamente humana rastejando na margem direita da estrada. Quando passei por ela, pisei no freio achando que poderia ser uma pessoa precisando de ajuda, talvez um acidente. "Você está doido! Não pare!" gritou meu colega no banco do carona que também viu a coisa. Eu olhei no retrovisor e percebi que ela se levantava lentamente. Era como um homem alto e muito magro, de pele tão branca que se destacava mesmo na escuridão. Aquilo me assustou e acelerei para longe. A medida que o carro se afastava, vi que ele ficou de quatro e correu atrás de nós. Eu acelerei mais e ele continuou nos acompanhando por mais de 100 metros. O carro derrapou e eu segui em frente até que a coisa ficou para trás. Nunca vou esquecer aquilo!"


O motorista de Ballard Country jamais foi capaz de explicar o que ele e seu colega viram naquela noite. Mas quando buscaram informações a respeito na internet encontraram referências a avistamentos de criaturas semelhantes, todas com o mesmo nome: Carniçais. As imagens da criatura nas páginas de lendas urbanas se assemelhavam com o que eles viram na estrada marginal, algo magro, pálido e que não parecia humano. 

Todas essas narrativas, feitas por pessoas diferentes em diferentes lugares parecem escapar de nossa capacidade de classificação. Não se sabe ao certo se estamos lidando com criptídeos, fantasmas, monstros, alienígenas ou viajantes de outras dimensões. Seriam devoradores de mortos?  Não podemos descartar ainda a possibilidade de se tratar de simples farsa ou desinformação. No entanto, eles parecem figurar em uma área cinzenta de fenômenos inexplicáveis. Seja lá qual for a origem dessas entidades, se é que elas existem, não há como dizer, ao menos até alguém capturar uma delas. Enquanto isso, a grande histeria do povo pálido parece ter diminuído...

Talvez as criaturas estejam satisfeitas com seu estoque de comida ou em seu lado da realidade, mas até quando?

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Revelando a Ilusão - Mais cinco filmes perfeitos para KULT


E nossa lista de filmes inspiradores para KULT - Divinity Lost continua nesse artigo com mais cinco produções estranhas, bizarras e assustadoras.

Sem delongas, vamos direto para os filmes.

8 Milímetros 
(8 MM/ 1999)



Sinopse: 

O detetive particular Tom Welles (Nicolas Cage) é contratado por uma rica viúva cujo marido faleceu recentemente. Ela encontrou em um cofre um vídeo caseiro em 8 mm que mostra o brutal assassinato de uma jovem, supostamente em um snuff movie (filmes onde mortes são filmadas). Ela quer saber se o filme é verdadeiro e se o marido estava envolvido em sua produção. Welles assume a investigação que o leva para Hollywood e ao assustador submundo das produções pornográficas.    

Comentários: 


Oito Milímetros é um filme sinistro e extremamente perturbador. Massacrado pela crítica quando foi lançado, ele parece ter sido redescoberto, tornando-o mais interessante com o passar do tempo. O roteiro segue uma exploração aos porões dos filmes adultos da Califórnia a Nova York. A medida que todo esse lodo vai sendo remexida, você se pergunta se não há limite para a podridão do se humano. 

O elenco surpreendentemente bom é encabeçado por Nicolas Cage (em ótima atuação) e conta com Joaquin Phoenix, James Gandolfini e vários outros rostos conhecidos. O filme é pesado, duro e indigesto, apostando na degradação do personagem que vai aos poucos sendo afetado por tudo o que encontra em sua jornada pelos reinos da pornografia hardcore. Se tem algo nesse filme que chama a atenção é a atmosfera sinistra das situações e a motivação dos personagens. Tudo é sujo, perturbador, pervertido e incômodo.   

Por que ele lembra KULT:


Alguns vão apontar o fato de que esse não é um filme de horror, mas pergunto: "Tem certeza"?

Quando assisti 8 mm pela primeira vez eu não esperava muita coisa, mas quando terminei fiquei sem saber o que dizer. Esse é daqueles filmes que te dão um soco no estômago e ainda te chutam quando você está caído na sarjeta. 

Embora ele não tenha nada sobrenatural, é inegável que não faltam monstros, atrocidades e coisas assustadoras nesse filme. Combustível perfeito para um cenário como KULT. A aura dark, cheia de perversão é bem condizente e pode render excelentes ideias a respeito de como transcorre uma investigação no submundo. Sem falar como a exposição a essas coisas acaba afetando os personagens e mudando seu comportamento.



Livro de Sangue
(Book of Blood/ 2009)



Sinopse:

Uma parapsicóloga disposta a desvendar os mistérios da vida e da morte recorre ao medium Simon McNeal para investigar uma casa assombrada. Simon é um farsante que elabora esquemas quase perfeitos, mas quando ele começa a ver coisas assustadoras, os espíritos se apresentam dispostos a gravar em sua pele suas histórias. Após esse incidente traumático, o charlatão revela a um assassino sua história. 

Comentários:

Eu sou um enorme fã de Clive Barker e embora essa história presente na antologia Livros de Sangue tenha sido bastante adaptada para caber em um longa metragem, ela tem suas qualidades. Livro de Sangue é um filme curioso que usa a ideia batida da "casa assombrada" de uma forma bem original, transformando o endereço maldito em uma "Encruzilhada entre o mundo dos vivos e mortos". Uma verdadeira intercessão para que espíritos falem e expressem seus medos diante do desconhecido.

Barker é um mestre do macabro, do horrível e do imponderado. Ele trabalha cuidadosamente suas histórias criando situações viscerais e expondo o lado mais escuro da alma humana. O filme tem uma boa atmosfera e faz uso de uma Edimburgo arrepiante. As cenas na encruzilhada são muito boas e as imagens dos espíritos vagando em longas filas são dignas de um pesadelo. Pode não ser a melhor das adaptações de Barker, mas é um filme que vale a pena ver, nem que seja pela curiosidade.  

Por que lembra KULT:

Vida, morte, além e extremo. O que existe do outro lado? O que nos espera? Qual o preço da redenção? Esses temas estão presentes em KULT com uma intensidade assustadora.

Em Livro de Sangue, o além se manifesta, disposto a deixar sua marca (de forma literal) nos vivos. As imagens do outro lado, as cenas descoloridas e a procissão de espíritos desencarnados compõem uma paisagem desoladora, pessimista e absolutamente inspiradora. Além da história central, o trecho a respeito do assassino contratado para roubar a pele do "livro" é bizarro o bastante para figurar em KULT.



Os Filhos do Medo
(The Brood/1979)



Sinopse: 

Uma mulher com graves problemas procura ajuda de um excêntrico e pouco ortodoxo psiquiatra que emprega técnicas inovadoras e teatrais para quebrar bloqueios de seus pacientes. Quando sua filha retorna de uma visita, o ex-marido percebe que ela tem marcas de ferimentos no corpo. Incidentes estranhos envolvendo crianças deformadas começam a atormentar a família a medida que a verdade sobre os métodos vem à tona em uma sucessão de morte e violência.

Comentários:

Embora eu já tenha assistido esse filme menor (e menos conhecido) do diretor David Cronenberg um bom número de vezes, ele continua perturbador. Do início ao fim, ele é mórbido e bizarro na medida certa.

Algumas pessoas podem apontar o fato do filme ter envelhecido um pouco, mas na minha opinião o terror continua bem preservado. Certas coisas não mudam! Quem não tem medo de crianças estranhas? Quem não tem receio de tratamentos esquisitos? Quem não desconfia de curas milagrosas? Quem não tem uma história de família que preferia varrer para de baixo do tapete?

The Brood (que poderia ser traduzido como "A Ninhada"), é um filme estranho pra caramba, o que é meio que "chover no molhado" quando falamos da biografia de David Cronemberg que adora fazer filmes esquisitos. Aqui, em início de carreira, ele não apenas experimenta com horror corpóreo - que iria revisitar várias vezes, em especial em "A Mosca", mas cria um suspense quase esmagador. Não faltam boas cenas, sangue e vísceras nesse clássico ainda pouco conhecido.

Por que ele lembra KULT:

Menos óbvio que os demais da lista, Filhos do Medo não envolve o sobrenatural propriamente dito. Seu terror se desenvolve através da noção de um tratamento psiquiátrico bizarro que ajuda a externar traumas e fazer com que horrores da mente assumam forma física.

É o tipo de coisa que poderia figurar facilmente no universo de KULT. Um tratamento experimental criando monstros e horrores que não deveriam existir no mundo real parece simplesmente bom demais para não usar na ambientação. A perversão da ciência, a quebra da moral, da ética e a busca por transcender a forma física são temas muito atraentes. E o que dizer da "ninhada"? 


O Último Portal
(The Ninth Gate)



Sinopse: 

Dean Corso (Johnny Depp) é um negociador de livros raros considerado um mercenário de pouca ética profissional. Ele é contratado por um renomado colecionador para verificar a autenticidade de um de seus volumes mais valiosos. De acordo com as fontes, apenas três cópias desse livro existem, e em três diferentes lugares do mundo. Sua missão vai se tornando cada vez mais perigosa, à medida que ele encontra pessoas dispostas a qualquer coisa para reclamar os mistérios do livro que pode esconder um segredo diabólico. 

Comentários:

Esse é outro filme injustiçado no momento de seu lançamento, mas que foi redescoberto e aos poucos conquistou fãs. O Último Portal é daqueles filmes que envelhecem bem e que vão se tornando melhores a medida que você o asiste repetidas vezes e pega referências.

Ele é bastante sutil. Você enxerga a engenhosidade do roteiro que brinca de esconder deixando a maioria das peças à vista. O mérito do filme é não confirmar ou negar nada. Existe o sobrenatural ou ele não passa de crendice? O livro realmente é diabólico ou apenas um rumor? Algo persegue Corso ou é apenas sua imaginação? Há muitas perguntas e poucas respostas.

O Último Portal é uma declaração de amor do diretor Roman Polanski ao gênero suspense e ao tema ocultismo. Do ponto de vista técnico ele é impecável: elenco, cenografia, fotografia e montagem são excelentes. Isso sem falar da trilha sonora aterradora que pontua o filme e contribui para construir o clima.    

Por que ele lembra KULT:

Corso, o personagem de Johnny Depp é um típico investigador de KULT. Ele usa sua profissão para obter livros raros e ser o melhor no ramo. Claro, ele tem motivações financeiras, mas é o desejo de satisfazer sua curiosidade pessoal a respeito do oculto que o impele. Corso imagina se existe algo mais, e embora se comporte como um cético, está disposto a aceitar aquela dúvida: "E se tudo isso é real?


Além disso, Último Portal acompanha uma investigação que lembra muito a estrutura de um cenário de RPG. O grande tesouro é um livro maldito, extremamente valioso e incrivelmente perigoso. Há inimigos em busca do mesmo prêmio, pessoas assustadoras, gente inescrupulosa e até mesmo cultistas membros de uma Sociedade Secreta. Se lembra KULT? E como lembra!   


Cidade das Sombras 
(Dark City/ 1998)


Sinopse: 

A vida de John está prestes a se tornar um inferno! Ele é caçado pela polícia, acusado de ser um serial killer, responsável por vários crimes que não lembra ter cometido. Enquanto tenta compreender o que está acontecendo ele precisa lidar com uma mulher que diz ser a sua esposa e com um misterioso médico que pretende continuar seu tratamento. Para piorar, um grupo de indivíduos estranhos também está no seu encalço, pessoas que possuem extraordinários poderes e que parecem controlar uma cidade onde é sempre noite e da qual não existe saída.

Comentários:

Para muitos, Dark City é um dos melhores filmes de Ficção Científica dos anos 1990. Muitas pessoas o comparam com Matrix e não é à toa. Infelizmente, os dois foram lançados bem próximos um do outro e isso acabou prejudicando o filme que acabou sendo injustamente chamado de plágio. A questão central deles é similar: "O que é a realidade"?

Diferente de Matrix, Dark City dispensa mais tempo com esses questionamentos do que com sequências de ação.  Há muita filosofia nas entrelinhas do roteiro e ele deixa escapar uma crítica ao sufocante mundo em que vivemos, onde isolamento e melancolia criam uma existência vazia.

Tudo isso para dizer o óbvio: esse é um filmaço!

Vale a pena assistir uma, duas, três vezes para pescar referências e perceber o que pode ter passado batido na primeira vez. Dark City é daqueles filmes para ser descoberto.

Por que ele lembra KULT:

Um mundo ilusório que não é o que parece ser? Confere!
A sensação de um pesadelo do qual não tem como despertar? Confere!
Estranhos poderes que começam a despertar a medida que se descobre o mundo real? Confere!
Bizarros seres que tentam manter a Ilusão de normalidade? Confere! Confere! Confere!

Assim como Matrix, Cidade das Sombras parece perfeitamente adequado para o universo de KULT. As noções e ideias parecem calcadas em cima do mote central da ambientação, e embora, o terror ceda lugar ao sci-fi, é fácil fazer uma comparação.

Na minha opinião, um filme que é quase uma adaptação do jogo.



Bônus:

E para quem gostou da lista de 10 filmes, aqui vai um décimo primeiro de bônus. Não se trata de um filme, mas de um episódio da série Masters of Horror.

Cigarrete Burns
(John Carpenter's Cigarrete Burns/ 2005)



Sinopse:

Kirby Sweetman é contratado para determinar a existência de um lendário filme de horror, "La Fin Absolue du Monde". Seu contratante é um excêntrico colecionador que lhe oferece uma recompensa. O filme, cujo título se traduz como 'O Absoluto Fim do Mundo" supostamente transforma seus espectadores em maníacos homicidas. A medida que Kirby busca pistas e procura pela única cópia restante, ele se aventura num mundo secreto e macabro. 

Comentários:

Esse talvez seja o melhor e um dos mais memoráveis episódios da série "Masters of Horror". E não é para menos!

Com a direção segura de John Carpenter eu sabia que esse seria bom, mas não esperava tanto. Eu adoraria que fosse um longa metragem e não apenas um episódio de quarenta minutos, porque a história é boa demais. A peregrinação do protagonista em busca do "Le Fin Absolue Du Monde" parece uma descida aos porões do inferno. Os rumores a respeito do filme e sua própria existência são questionadas, mas não faltam pessoas interessadas em colocar as suas mãos nele.

Cigarrete Burns (que se refere a marcação no canto das fitas de filmagem) envolve obsessão, loucura, e morte. Ele lembra bastante outros filmes, alguns inclusive nessa lista, mas há elementos de enorme originalidade e momentos do mais puro terror.    

Por que ele lembra KULT:


Na boa... eu não vou falar nada a respeito desse.

Quanto menos melhor, mas Cigarrete Burns é uma das coisas mais próximas do universo aterrorizante de KULT.

Que tal assistir por conta própria e tirar suas próprias conclusões? 



Aqui está o episódio na íntegra:



Outros filmes que se encaixam em KULT: 

E para quem quer mais material? Bom, aqui vai uma lista que pode ser especialmente adequada. Alguns são bastante óbvios, outros nem tanto

Hellraiser - Renascido do Inferno e Hellraiser II - Hellbound Heart (1986-87)
Coração Satânico (Angel Heart/ 1986)
O Mistério de Candyman (Candyman/1992)
Seven, os Sete Crimes Capitais (Se7en/1995)
Mandy (2018)
A Estrada Perdida (The Lost Highway/1997)
Scanners, sua mente pode destruir (Scanners/ 1981)
Videodrome, a Síndrome do Vídeo (Videodrome/ 1983)
Viagens Alucinantes (Altered States/1980)
Cidade dos Sonhos (Mulholand Drive/2000)
Linha Mortal (Flatlinners/ 1990)
A Cela (The Cell/ 2001)
Silent Hill (2006)