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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Velhos Guerreiros não morrem jamais - Visões no Campo de Batalha


Artigo publicado originalmente em 09 de abril de 2011

O artigo sobre a Batalha de Towton ainda rendeu a descoberta de curiosas lendas a respeito de fantasmas e aparições na região. Um material bem interessante para ambientações de horror e que eu penso em usar futuramente em algum cenário.

Em um entardecer de agosto de 1936, Stephen Jenkins, um rapaz de 16 anos, explorava a região de Selby, em Yorkshire, próximo de onde havia acontecido a Batalha de Towton no século XV.

Ele não conhecia a história da região e não sabia praticamente nada a respeito do local. Passava as férias escolares na casa de parentes e gostava de vagar pelos arredores apreciando a paisagem idílica.

Enquanto contemplava o entardecer, Jenkins subitamente assombrou-se diante de uma visão impossível: um exército de guerreiros medievais com armaduras havia surgido diante dele. Vestiam mantos vermelhos, brancos ou pretos e suas montarias estavam ajaezadas de acordo. Os homens tinham olhares austeros e um dos guerreiros, com a mão na espada, olhava fixamente para onde ele estava.

Os soldados pareciam reais e embora ele não fosse capaz de ouvir o som que eles produziam, podia perceber que eles estavam cientes de sua presença e tinham expressões curiosas. Ansioso por observá-los de perto, Jenkins deu um passo à frente mas, ao se mover, o exército desapareceu tão repentinamente quanto havia surgido.

Jenkins voltou para o vilarejo próximo e relatou o que viu, mas na ocasião ninguém o levou à sério, embora as pessoas tenham lhe contado à respeito da sangrenta batalha que teve lugar naquelas mesmas planícies no distante ano de 1461.

Jenkins só retornou a região 38 anos mais tarde, desta vez com um mapa nas mãos e acompanhado da esposa; queria rever o lugar onde teve a visão da qual jamais se esqueceu. Segundo ele, enquantoprocurava o lugar exato a visão surgiu exatamente como antes e desapareceu do mesmo modo. Igualmente estupefata, a mulher contou que também foi capaz de ver o exército medieval nitidamente.

Mas dessa vez Jenkins não estava só e quando relatou o que havia visto em Selby descobriu que naqueles anos, muitas pessoas haviam visto a mesma coisa. Um grande número de indivíduos andando pelas planícies, se depararam com o exército medieval: cavalos de batalha, cavaleiros em armaduras, soldados armados e arqueiros em marcha.

Jenkins se impressionou ao saber que algumas pessoas afirmaram serem capazes não só de ver a tropa mas também de interagir com eles, falar e até tocá-los brevemente.

Em 1943, um pastor de ovelhas chamado Paul Suthecliff relatou ter encontrado o exército em plena marcha, não ao longe como contou Jenkins, mas de bem perto. Os homens surgiram do nada ao seu redor e Paul ficou perto o bastante deles para sentir o cheiro de suor emanando de suas armaduras e ouvir palavras em um inglês arcaico. Suthecliff disse que os homens o olhavam como se ele fosse um estranho (e de fato o era!) e o ignoraram a medida que marchavam. A visão sumiu quando ele tocou o flanco de um dos cavalos.

Em 1950 outro caso foi relatado desta vez envolvendo uma família inteira que afirmou ter parado o carro em que viajavam na estrada e descido para ver a multidão de homens e cavalos que se deslocava para o Leste. Os cavaleiros olhavam assustados para a campina onde estava o veículo e alguns apontavam incrédulos como se não conseguissem compreender o que estavam vendo diante de si. A família disse que gritou para eles, imaginando que se tratava de algum tipo de encenação teatral, e quando o fez percebeu a reação de alguns que em seguida desapareceram.

Rory Gety e Silvia Perth, um casal de namorados, presenciou algo incrível quando cruzavam as planícies depois de um piquenique em 1968. Os dois contaram que enquanto voltavam para Selby ouviram um som trovejante de galope. Ao voltar-se, se depararam com um enorme cavalo de batalha montado por um homem trajando uma armadura medieval. O cavaleiro passou por eles velozmente os lançando para fora da trilha e continuou correndo rumo ao bosque onde desapareceu sem deixar vestígio.


O que todas essas visões tem em comum é que parecem envolver guerreiros que travaram a sangrenta Batalha de Towton.

A Parapsicologia, ciência que estuda manifestações sobrenaturais, explica que em lugares onde intensas emoções foram despertadas - como cenas de assassinato ou locais de tragédias em grande escala - uma energia residual se mantém ativa. A analogia usada para explicar o fenômeno envolve imaginar um incêndio. Suponha que um fogo tenha consumido uma casa. Dias depois as chamas já se apagaram e o lugar pode até ter sido limpo, mas o cheiro de fumaça ainda pode ser sentido no ar evidenciando que algo aconteceu ali. Com essas emoções acontece a mesma coisa, a diferença é que elas permanecem no ar por séculos marcando o local. É essa energia que seria detectada propiciando visões como as dos soldados medievais.

Estudiosos de fenômenos fantasmagóricos acreditam que Towton é um lugar onde emoções fortes foram despertadas pela Batalha de 1461. O horror daquelas pessoas continuou suspenso no ar explicando porque eles ainda eram capazes de se materializar diante de testemunhas incrédulas. Alguns afirmam que os soldados são os espectros dos guerreiros marchando para uma das mais terríveis batalhas da Guerra das Rosas, homens condenados a vagar pelos séculos eternamente em um limbo.

Um dos casos mais notáveis teria contecido em setembro de 1977, um comerciante chamado Donald Pierson, morador da região descia as planícies à caminho de casa quando ouviu o som de uma pessoa pedindo socorro. Ele correu rapidamente para o lugar de onde vinham os gritos e quase pisou em um homem esparramado na relva baixa. Acreditando que ele havia sofrido um acidente Pierson começou a fazer perguntas mas o homem era incapaz de explicar coerentemente o que havia acontecido. Pierson acendeu um isqueiro e na luz trêmula percebeu que o sujeito vestia roupas medievais, uma tabarda branca e vermelha e tinha uma flecha enterrada no abdomen. Pierson tentou confortar o sujeito mas não obstante ele acabou morrendo em seus braços.

Pierson voltou para Towton e quando chegou lá contou o que havia presenciado. As pessoas, no entanto, estavam mais preocupadas com o comerciante que tinha as roupas cobertas de sangue. Voltando ao local exato onde tudo aconteceu, o guerreiro moribundo havia desaparecido sem deixar vestígios.

Defensores das Ciências Ocultas tem uma explicação ainda mais fantástica para o fenômeno.

Eles acreditam que os campos no entorno de Yorkshire são vias cobertas por Linhas de Ley (Ley Lines). O conceito é que estas são linhas invisíveis que cortam a terra como se fossem rios, que no lugar de água conduzem energia psíquica. Em certos lugares em especial, linhas se cruzam criando nódulos ou interceções onde essa energia psíquica transborda.

Diz-se que vários fenômenos paranormais estão associados ao cruzamentos de Leys, e os pesquisadores defendem que essas "linhas telúricas" existem em todo o mundo.

Para alguns as Leys seriam uma espécie de ligação entre o mundo visível, o nosso, e os mundos invisíveis, em certos momentos funcionando como passagens dimensionais entre diferentes realidades, no tempo e no espaço.

No passado distante, feiticeiros e druidas que desenvolviam uma sensibilidade especial eram capazes de seguir as energias emanando dessas Leys. Os locais onde as linhas se interceptavam eram tidos como marcos, considerados sagrados ou mágicos. Marcos de pedra e memoriais eram erigidos nesses lugares que tinham importância ritualística no sentido de magnificar os feitiços ali realizados.

Para os defensores dessa teoria, as Leys existentes nas planícies de Towton se cruzariam em determinados pontos gerando os nódulos onde passado e presente se encontram. Jenkins e as outras testemunhas, teriam então sido fisicamente transportadas ainda que momentâneamente para um lugar no passado e visto os soldados pouco antes da batalha.

Mas seria possível que os soldados tivessem compartilhado da mesma visão? Não há nenhuma menção ou registro histórico sobre visões perturbadoras no dia em que a batalha aconteceu e provavelmente a crônica da própria batalha ofuscaria qualquer um desses relatos.

Não se trata de um aconteciemnto isolado, há diversos relatos de ocorrências incomuns em locais que tiveram um passado conturbado o que inclui outros campos de batalha.

Para os que acreditam em fenômenos dessa natureza, as planícies de Towton são uma prova de que há muito ainda a ser compreendido à respeito da natureza do tempo e realidades paralelas.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O Viajante Árabe - Quem foi o verdadeiro Ibn Fadlan?


O mais importante testemunho a respeito das atividades dos Rus foi feito por Ahmed Ibn Fadlan, uma personalidade sobre a qual pouco se sabe, mas cuja Risala foi traduzida para vários idiomas. Segmentos chave são citados em livros modernos a respeito dos povos nórdicos. Foi a sua narrativa que inspirou o autor Michael Crichton a escrever em 1976 o livro Devoradores de Mortos, a base para o filme "O 13o. Guerreiro". "Ibn Fadlan constitui uma fonte única," diz Noonan. "Ele estava lá, e foi capaz de descrever em detalhes os acontecimentos. Ele descreve como as caravanas viajavam, como elas cruzavam montanhas e rios. Ele fala a respeito da flora e fauna encontrada na jornada. Ele mostra exatamente como o comércio da época era realizado. O relato é completo, vibrante, algo que remete a realidade."
Ibn Fadlan foi um faqih, um especialista em jurisprudência Islâmica, que serviu como secretário geral da delegação do Califa al-Muqtadir em 921 que visitou o Rei dos Búlgaros, e ofereceu conselhos a respeito de negócios. Eles auxiliaram o monarca a construir um forte e um mosteiro, bem como o instruíram nos princípios da religião islâmica. Os Búlgaros na época eram súditos dos turcos Khazar e falavam um dialeto derivado do árabe. Um grupo migrou para o oeste e foi assimilado pelos eslavos que fundaram o que se tornaria a moderna Bulgária, a oeste do Mar Negro; um outro grupo se estabeleceu no norte do Volga, onde continuaram servindo aos Khazars, cujo domínio no Cáucaso se estendia até o Mar Cáspio, marcando a fronteira com o Império Abássida. Buscando uma aproximação com Bagdá, o Rei dos Búlgaros pretendia uma aliança que o livrasse dos Khazars.
Presumivelmente a fim de evitar passar pelas terras dos Khazar, a delegação do Califa optou por circular a Capital da Bulgária, onde acabaria sendo recebida pelo monarca. Ibn Fadlan se tornou amigo do Rei, e o impressionou a tal ponto que este lhe deu o apelido de kunya, que significa "confiável" - um título honorífico de grande importância e distinção.

A delegação árabe viajou mais de 4000 quilômetros desde Bagdá até o Reino da Bulgária. Em sua Risala, Ibn Fadlan descreve os vários povos que encontrou na sua viagem, sendo que dedicou boa parte de sua narrativa exclusivamente aos Rus. "Eu jamais vi um grupo de indivíduos tão perfeito fisicamente, altos como palmeiras, fortes, saudáveis, com cabelos e pele clara," ele escreveu, "Cada homem tem o seu próprio machado, sua espada, e uma faca que mantém ao alcance da mão a todo tempo. São guerreiros ferozes, mas honrados. Os homens tem tatuagens complexas, feitas com tinta verde escura que lhes cobrem os dedos, os braços e até o pescoço."
O artesanato nórdico e o talento desse povo para a joalheria é bem descrito por Ibn Fadlan que fala também da presença de mulheres Rus vestidas com seda, ouro e prata., "Os tesouros mais valiosos para as mulheres são contas de vidro verde, que elas usam ao redor do pescoço. Elas usam essas peças como moeda e trocam pelo nosso dirham de prata. Essas contas de vidro são perfuradas e usadas ao redor do pescoço em longos colares. Elas usam também broches ovalados presos às capas, amarradas aos cabelos longos ou presas à bainha das facas que pendem na cintura". Ibn Fadlan descreve "armaduras de couro reforçado que mesmo as mulheres gostam de usar ara proteção".
Apesar de elogiar os Rus, Ibn Fadlan não os poupou quanto aos seus hábitos higiênicos: "Eles devem ser as mais imundas criaturas que Deus colocou na Terra," observou. Embora tenha reparado que os Rus lavavam mãos, face e cabelos ao menos uma vez ao dia, ele ficou perplexo com a maneira como o faziam: "é uma das coisas mais nauseantes que já testemunhei" escreveu o árabe ao contar que os Rus usavam uma mesma bacia comunal onde todos se lavavam, um costume Germânico disseminado entre os povos nórdicos. Apesar disso, ele afirmava que as roupas eram mantidas limpas e sempre que necessitavam recebiam costura.

O contato com o islã fez com que alguns Rus abraçassem a religião, embora Ibn Fadlan astutamente percebesse que velhos hábitos eram difíceis de serem esquecidos: "Eles gostam muito de carne de porco e de bebidas fermentadas, e é um grande sacrifício para eles se abster desses alimentos."
A maioria dos Rus continuava a observar suas práticas religiosas, que incluíam a oferta de sacrifícios. Ibn Rustah menciona o trabalho dos sacerdotes Rus que viajavam com os comerciantes e que tinham um alto status entre seus compatriotas. O árabe testemunhou um ritual no qual mercadores Rus celebraram a travessia segura pelo Volga em 922. Ibn Fadlan descreveu como eles rezavam para seus deuses misteriosos e ofereciam figuras de entalhadas em madeira que eram lançadas na água. .
Ele também escreveu a respeito de um dramático funeral ocorrido nas margens do Volga, em que um chefe Rus foi cremado com seu barco e tesouros. Sua descrição dessa cerimônia é tão rica que por muito tempo foi considerada a mais fiel já feita - "Tesouros de ouro e prata, belas armas e ornamentos jaziam aos pés do velho chefe que foi colocado deitado no centro do barco de fundo chato. Haviam jarros com bebida forte e carne salgada, bem como seu cão favorito, um boi, um pônei e os corpos de duas garotas que em vida foram suas escravas, ambas voluntárias para acompanhar seu senhor na jornada do pós-vida. O barco foi embebido com alcatrão e quando chegou ao meio do lago foi incendido ardendo furiosamente até afundar levando o líder e sua riqueza para as profundezas". 
Além disso, Ibn Fadlan também comentou que os Rus tinham um fraco para a bebida e para as brincadeiras agressivas ou de conotação sexual. Para um devoto religioso, esse comportamento era chocante, mas o árabe compreendia que aqueles eram costumes tolerados: "Os homens gostam de contar vantagem, piadas e estórias sobre suas proezas amorosas. Nem todas são verdadeiras, mas eles se divertem com isso".
O cronista devotou boa parte de sua narrativa elogiando as habilidades marciais dos Rus. "Estes homens são incrivelmente valentes e a coragem não esmorece em momento algum". Ele comentou que cada um deles carregava um arsenal de armas letais, incluindo lâminas, escudos, armaduras, adagas, machados e martelos. Ele percebeu que as armas eram muito bem feitas e que a lâmina das espadas permanecia afiada por um bom tempo, mesmo com o uso contínuo.

Embora as relações entre os comerciantes Rus e povos árabes tenha sido em geral pacífica, houve algumas situações delicadas que descambaram para violência. Nas proximidades do Mar Cáspio, uma tribo de Rus se voltou contra muçulmanos em pelo menos duas ocasiões durante o século X. Eles saquearam a cidade de Abaskun em 910, e depois em 912 a cidade de Baku, matando e conquistando espólios. Nessa campanha em especial, oficiais árabes teriam sido enviados com tropas para capturar os Rus tratados como bandidos. Al Muhadi, um historiador da época comenta que os Khazar emitiram uma ordem de captura dos "estrangeiros de cabelos e pele clara, acusados entre outras coisas de atacar, roubar e assassinar cidadãos indefesos sob  a proteção Khazari". Desse grupo rebelde, alguns poucos teriam escapado para a Bulgária onde foram capturados e executados pelo Rei aliado dos árabes. Mas estes foram casos isolados.
Ibn Fadlan firmou uma amizade duradora com os Rus e chegou a empreender a longa viagem até o Norte da Europa e a terra dos Nórdicos. A viagem teria ocoriido em 929, com a primeira parte o levando até Córdoba, na Península Ibérica, à época governada pelos árabes. Desse ponto, existiam rotas de comércio consolidadas que levavam mercadores rumo a Escandinávia com relativa facilidade. Contando com amigos e aliados entre os Rus que ele havia conhecido na Ásia, Ibn Fadlan foi recebido com respeito e curiosidade pelos nórdicos em sua visita. Ele se estabeleceu na cidade mercantil de Hedeby, na atual Dinamarca, onde se impressionou com o tamanho da cidade. 

"Hedeby era barulhenta, cheia e suja, com os habitantes pagãos pendurando animais para sacrifício em postes de madeira no meio das ruas, em frente das casas. As pessoas se alimentam de peixe, porque há pesca abundante. Apesar de ser uma cidade grande, as pessoas parecem se conhecer e são normalmente amistosas e curiosas quando encontram alguém diferente deles próprios. Eles constantemente fazem perguntas a respeito de minha terra natal e se mostram intrigados com nossos costumes".   
Como Ibn Fadlan escreveu, as diferenças culturais eram incrivelmente vastas: "Uma terra onde o sol raramente brilha sobre a cabeça de seus habitantes acaba conspirando para uma atmosfera opressiva", escreveu ele quando a saudade de sua terra já se fazia sentir. O cronista resolveu retornar para a Espanha moura seis meses após a sua visita a Dinamarca e quando chegou a Córdoba escreveu várias cartas a respeito dos costumes e tradições de seus anfitriões do norte gelado.


Hoje, mais de um milênio depois, historiadores ainda buscam nas cartas escritas por Ibn Fadlan, informações a respeito do contato travado entre duas culturas muito diferentes que um dia andaram lado a lado. As moedas árabes encontradas pelos arqueólogos na Escandinávia (mais de 10 mil delas!) constituem uma prova inequívoca de que o comércio entre árabes e nórdicos floresceu por algum tempo e que os dois povos se beneficiaram com esse inusitado contato.

Contudo, o maior débito que os escandinavos tem para com os povos muçulmanos repousa em manuscritos que revelam como era a vida de seus antepassados. Neles, vozes silenciadas há séculos podem ser ouvidas e compreendidas por pesquisadores interessados em conhecer o passado dos Rus e as suas inúmeras façanhas. 

domingo, 22 de junho de 2014

Navegadores Audazes - As Jornadas dos Vikings ao oriente


Mais de um milênio atrás, temidos saqueadores vindos do norte gelado lançavam medo no coração de todos que viviam na Europa Ocidental. Outros povos nórdicos entretanto se voltaram para o comércio e para rotas que os levavam para o oriente. Com grande ousadia e força de vontade, eles carregavam mercadorias exóticas: peles, âmbar, ferramentas e artesanato para os povos que habitavam as estepes que hoje conhecemos como Ucrânia, Bielorrússia e Rússia. Em suas viagens encontraram mercadores muçulmanos que pagavam pelas mercadorias trazidas de longe com moedas de prata, que os nórdicos não cunhavam, mas que cobiçavam.
Haviam várias rotas, e em meados do século X, uma rede de comércio regular foi estabelecida. Alguns desses comerciantes viajavam por terra e por rio, enquanto outros navegavam pelo Mar Cáspio e Negro, juntavam-se a caravanas e cavalgavam nas costas de camelos até grandes cidades como Bagdá, que na época estava sob o governo da Dinastia Abássida e tinha uma população de quase um milhão. Lá os comerciantes da distante Escandinávia encontraram um empório que ia muito além de seus sonhos, uma vez que nada em suas terras se comparava àquilo.
Para os árabes em Bagdá, a presença dos nórdicos não causava surpresa, uma vez que eles já estavam acostumados a encontrar povos das mais variadas culturas e civilizações. Eles também eram excelentes observadores, sempre interessados em se familiarizar com costumes de terras distantes. Os historiadores abássidas e os enviados do califado anotaram detalhes a respeito desses comerciantes, deixando um valioso registro que lança uma nova luz sobre um capítulo pouco conhecido da história desses povos.
Desde as primeiras invasões nórdicas à Inglaterra no início do século VIII e ao longo dos 300 anos que se seguiram, os navegadores escandinavos se aventuraram mais longe do que qualquer outro povo na Europa. Eles se lançaram ao mar, mapeando o Atlântico Norte, fundaram colônias e até estabeleceram assentamentos na América do Norte pouco depois da virada do milênio. Essas explorações voltadas para o oeste eram realizadas por povos das atuais Noruega e Dinamarca, enquanto jornadas para o leste eram empreendidas predominantemente por suecos que chegavam a destinos tão distantes quanto Kiev e Novgorod, onde a elite que enriqueceu com esse comércio se converteu em governantes e príncipes. Foi nessas terras que eles encontraram pela primeira vez historiadores árabes.
Os estudiosos muçulmanos não chamavam aqueles homens altos, loiros e de pele clara de "Vikings," ou mesmo "nórdicos", preferiam o termo Rus (pronuncia-se "Roos"). A origem do termo é obscura, e embora alguns apontem similaridade com um dialeto sueco, não se sabe ao certo de onde ele surgiu. Ainda assim, escritores bizantinos e árabes se referiam aos comerciantes e colonizadores suecos genericamente pelo nome Rus, que séculos mais tarde daria origem ao nome da moderna Rússia. 

Esse nome era aplicado apenas aos povos do leste. Na França e Sicília, os navegadores nórdicos eram conhecidos como Normandos. Uma guarda de elite formada no Império Bizantino, composta por estrangeiros com descrição similar aos nórdicos era conhecida como Varangianos. Em al-Andalus (a Andaluzia governada pelos árabes), na Espanha Mourisca, eles eram chamados de al-majus, ou "adoradores do fogo," uma referência pejorativa às suas práticas pagãs.
Além da própria Escandinávia, apenas os povos britânicos chamavam os saqueadores de "Vikings," e essa palavra decorre de vik, ou baía, e Viken, como Fjordes eram chamados. Outras fontes acreditam que o termo surgiu no Velho idioma nórdico, significando I-viking, o equivalente a "saqueadores". Mas "Viking" jamais foi um nome que se referiu a todos os povos que habitavam a região de onde eles partiam em suas jornadas. "Nós podemos nos referir a Era dos Vikings, a sociedade Viking, mas é importante entender que nem todos os povos da Escandinávia eram Vikings," diz Jesse Byock, professor de literatura nórdica na Universidade da California em Los Angeles. "Eles próprios utilizavam o termo para se referir a saqueadores que também os atacavam. Certamente o termo não servia para caracterizar fazendeiros e comerciantes que também viviam naquela região".
Na Europa Ocidental, ataques de Viking foram normalmente registrados por monges e padres cujo interesse era retratar aqueles homens como selvagens e sanguinários. E de fato, os saqueadores eram guerreiros ferozes que pareciam não temer nada, capazes de promover massacres e pilhagem. Entretanto, no oriente, as estórias eram bastante diferentes. Os Rus eram considerados exploradores, colonizadores e comerciantes, e embora eles sempre viajassem bem armados, os muçulmanos os descreviam primeiro como mercadores e depois como guerreiros. Os Rus tinham interesse no comércio Abassida e nos dirhams (a moeda corrente) que fluía pela região e que era aceita em praticamente todas as grandes cidades da época (até na China e Índia). Os árabes concordavam com esse comércio de bom grado pois era uma prática rentável para os dois lados. 
Não se saberia muito a respeito dos Rus, se não fosse pelos cronistas muçulmanos que tiveram contato com esses navegadores. De todos, o embaixador Ibn Fadlan, escreveu no século IX, uma série de Risala (Cartas) com o mais completo registro existente. Suas cartas formavam uma espécie de diário que detalhavam seu encontro com os Rus nas imediações do Volga. Ele descreveu mais tarde uma viagem empreendida a uma cidade dinamarquesa na qual revelou detalhes muito interessantes sobre as atividades do dia a dia desse povo. Outros registros, como o al-Mas'udi's, escrito em 943, e o al-Mukaddasi's, composto em 985, também mencionam os Rus de maneira respeitosa, como mercadores honestos e sérios com quem valia a pena fazer negócios. 



Diferente de muitos cronistas europeus, os escritores árabes não guardavam rancor contra os Rus, reação presente nos comentários de vários outros povos. Os relatos árabes possuem um certo afastamento e aos olhos de pesquisadores atuais, são mais confiáveis. Pesquisadores acreditam que os comerciantes da Escandinávia, aqueles que viajavam para o leste, acabaram sofrendo com a má-fama que seus compatriotas dedicados a saquear, destruir e conquistar. Uma vez que os nórdicos dispunham apenas de um alfabeto rúnico, usado majoritariamente em rituais e para marcar lugares, eles não estavam em posição de deixar um registro sobre si mesmos. Suas sagas eram compartilhadas de forma oral e dessa forma, seus heróis e deuses, não seriam conhecidos pela literatura até meados do século XII. 
Muitos dos relatos muçulmanos foram traduzidos para idiomas europeus nos últimos dois séculos, e eles tem se mostrado valiosos para interpretar evidências arqueológicas que continuam emergindo. Centenas de sepulturas da Era dos Vikings e tesouros enterrados, quando descobertos revelam moedas árabes ainda brilhantes, "a moeda que ajudou a abastecer a Idade dos Vikings," de acordo com Thomas S. Noonan da Universidade de Minnesota. Noonan é um dos maiores especialistas na Escandinávia medieval e de sua conexão com o mundo árabe, e um especialista na história da numismática.
É aceito como fato que o dirham ajudou a atrair o interesse dos navegadores nórdicos para o oriente. Prata se tornou a forma favorita de troca, mas com poucas fontes do precioso metal nas florestas do norte, eles tiveram de buscar em outros lugares. Mercadores árabes começaram a circular moedas de prata na região do Volga no século VIII, e comerciantes, desejando obter aquele tipo de pagamento pelas suas mercadorias, seguiram para o Báltico com suas embarcações abarrotadas.



Na Russia, eles foram pioneiros em desbravar o sistema de rios, rumando de um tributário para o outro, descendo corredeiras e enfrentando tribos de nômades até atingir os centros de comércio, sobretudo os mercados controlados pelos Khazars. Estes mercadores turcos haviam se tornado um poder dominante nas estepes do Cáucaso, e eles realizavam comércio com o mundo islâmico por mais de 300 anos. Aqui, em uma rede de rios navegáveis, os Rus suecos estabeleceram o primeiro contato com os árabes, persas e gregos. Daqui, alguns seguiram adiante até o Mar Negro, chegando a "Sarkland," uma terra que hoje podemos relacionar ao Azerbaidjão e norte do Irã; até a Fortaleza de Sarkel, às margens do Mar Negro; e as terras que os mercadores nórdicos chamavam de serk, significando "silk" (ou seda) para todos aqueles que pagavam grandes quantias.
As referências mais antigas sobre o contato entre árabes e nórdicos foi feito no início do século IX por Ibn Khurradadhbih, um mercador que trabalhava para o Califa al-Mu'tamid e servia como conselheiro político. Em 844 ele escreveu sobre as suas viagens e sobre os saqalibah, um termo normalmente usado para definir povos europeus de pele clara. Ele contou ter entrado em seus barcos e descreveu como eles eram marinheiros competentes. Descreveu também suas mercadorias: peles de castor, de lontra e arminho, armas de boa qualidade, artigos de couro curtido e madeira de qualidade trazidas dos recantos mais distantes. Ele descreveu que os Rus faziam transporte pelo mar, mas que também se aventuravam em terra, alugando ou comprando camelos que os levavam em caravanas até cidades na costa do Mar Cáspio. Alguns deles chegaram até Bagdá, contando com guias que falavam o idioma e serviam de intérpretes.
Bagdá, era a mais bela joia do Império Abássida. Uma cidade circular com 19 quilômetros de diâmetro, embelezada por parques, palácios de mármore, jardins, promenades e mosteiros. O mercador do Golfo, geógrafo e enciclopedista Yakut al-Rumi descrevia a cidade como um verdadeiro paraíso sobre a terra com todas as comodidades que a tornavam ela um dos lugares mais civilizados de sua época. 

Ela era muito mais avançada do que qualquer coisa da Europa. Os Rus nunca haviam visto nada como aquilo. Suas cidades não passavam de vilarejos se comparadas àquela metrópole. De fato, eles não tinham prédios maiores do que dois andares, seus muros eram baixos comparativamente e seus palácios estavam mais para casas modestas se comparadas. Ibn Rustah, um historiador da época descreveu que estrangeiros ficavam intimidados e fascinados com a grandiosidade de Bagdá, uma cidade que recebia visitantes de todos os cantos do mundo. Segundo Rustah, os Rus que visitavam Bagdá ofereciam excelentes lâminas e espadas, calças e vestimentas confortáveis e peles finas. Eles eram leais uns aos outros e preferiam a companhia de seus conterrâneos: "Sua maior preocupação é realizar comércio e retornar para suas casas, assim que negociavam suas mercadorias e recebiam seu pagamento, preparavam-se para zarpar de volta para seu porto de origem." ele escreveu, "Eles preferem moedas, que muitas vezes furam e prendem em cordões ao redor da cintura."
Os comerciantes nórdicos davam valor às moedas e aprenderam a usar o sistema de peso árabe para medir a quantidade de prata que tinham. Muitas vezes, a prata era derretida em lingotes ou em braceletes que podiam ser transportados mais facilmente. O mercado consumidor para produtos trazidos do norte da Europa foi aquecido por nobres que desejavam artigos luxuosos como pele de raposa negra, capas de arminho e botas com interior de pele de esquilo. Os senhores mais ricos e suas damas podiam pagar verdadeiras fortunas por esses artigos distintos. Outros itens comercializados incluíam cera, mel, couro de cabras, nozes secas, madeira, dentes de peixes e armas. Âmbar também era algo muito desejado, e embora os Rus não tivessem abundância dessa resina em suas terras, aprenderam a comprar carregamentos durante suas viagens e vender com um grande lucro para seus clientes árabes. Havia também espaço para o comércio de escravos, já que árabes tinham interesse de possuir escravos brancos, sobretudo como criados pessoais.

Mas e Ibn Fadlan especificamente? Quem foi o diplomata árabe que conheceu os Rus e escreveu o maior relato sobre eles de quem se tem notícia? Esse é o material da segunda parte desse artigo.

domingo, 27 de outubro de 2013

A Canção do Executor - Bem vindos ao Macabro mundo da Arqueologia da Execução


Os locais de execução logo abaixo das forcas e patíbulos tendem a ser ignorados pelos historiadores. Mas recentemente alguns arqueólogos tem demonstrado interesse em desvendar e compreender como prisioneiros medievais eram torturados e mortos - e como viviam os seus executores.

O jornal alemão Der Spiegel publicou um extenso artigo descrevendo o trabalho da arqueóloga Marita Genesis e Jost Auler, ambos especialistas na história por tráz das execuções públicas e privadas. 

De fato, o que não falta na Europa são lugares usados para essa sinistra atividade, muitos deles sancionados pelos governos como forma de impor a lei e a ordem. Marita e Jost já realizaram escavações em vários lugares e atualmente tem planos de escavar a colina de Pottenstein no sudeste da Áustria para ver o que descobrem no lugar, usado por mais de dois séculos como campo de execução de criminosos e traidores bávaros. 

A pesquisa meticulosa desses lugares, considerados por muitos uma atividade macabra e a análise dos restos mortais encontrados nesses sítios tem se mostrado extremamente valiosa do ponto de vista histórico. 

"Estamos desvendando um passado do qual pouco se fala, por ter sido considerado tabu até pouco tempo. Execuções públicas e privadas marcam a história da Europa. Praticamente todas as nações praticaram execuções em algum momento de sua história, mas essas jamais foram matéria de um estudo profundo. É uma pena pois, podemos aprender muito a respeito de uma sociedade examinando a maneira como essa mesma sociedade se livrava de seus indesejados" contou Jost.


O trabalho dos cientistas tem revelado uma surpreendente quantidade de informações, muitas das quais ausentes dos textos e documentos sobreviventes. Por exemplo:  

Evidências encontradas em um campo usado para execuções nos arredores de Dover, na Inglaterra atestam a brutalidade da Idade Média. Os cientistas descobriram restos de ossos espalhados por um descampado que servia de cemitério na época. Eles acreditam que partes da anatomia dos criminosos executados, eram negociadas por coveiros com camponeses em busca de "lembranças". Um assassino famoso, depois da execução podia ser secretamente esquartejado por um coveiro ganancioso que negociava os restos do indivíduo com curiosos que quisessem levar para casa um souvenir.

Em alguns lugares, durante o período de grande superstição, vigorava a crença que certas partes da anatomia de um indivíduo executado podiam vir a ser úteis. Dentes de um criminoso condenado, as mãos de um ladrão, a língua de um delator, as orelhas de um guarda ou mesmo a genitália de um estuprador poderiam ser surrupiados na calada da noite por pessoas que acreditavam que aqueles pedaços continham alguma força mística ou concediam algum poder sobrenatural.

Em um cemitério de condenados na Hungria, os arqueólogos descobriram que uma quantidade considerável de crânios estavam ausentes. Ao estudar os costumes locais, os pesquisadores descobriram que na Idade Média as famílias de pessoas afetadas pelo condenado ofereciam dinheiro para receber a cabeça do criminoso. Em alguns casos essas cabeças eram queimadas e suas cinzas espalhadas por plantações. Vigorava a crença de que as cinzas da cabeça de um condenado propiciavam uma farta colheita.

Na Itália, os restos de bruxas condenadas eram especialmente valiosos. Dedos, línguas, unhas, pelos pubianos e fios de cabelo eram resgatados para se transformar em amuletos de proteção contra o mal olhado de outras feiticeiras. Persistia a crença de que as bruxas tinham uma espécie de resistência a magia carregada em seus corpos mesmo após a sua morte. Ter um amuleto confeccionado com o dedo de uma bruxa e seu cabelo para usar em volta do pescoço podia afastar feitiços. Na Alemanha, epiléticos coletaram o sangue do famoso fora da lei Schinderhannes, comparado a Robin Hood, por acreditarem que isso poderia curá-los. Dizem que a cabeça do notório pirata alemão Klaus Störtebeker teve de ser vigiada por guardas a fim de que ela não fosse roubada. 


A tarefa de resgatar essas "lembranças" na maioria das vezes era facilitado pelos procedimentos empregados após a execução. Na maioria das cidades da Europa, os cadáveres das pessoas executadas ficavam em exposição, como um recado para outros criminosos. Os restos eram pendurados em portões, muros e praças públicas. Em alguns lugares eles adornavam a entrada de prédios públicos, cadeias e quartéis. Na Sérvia por exemplo, o cadáver dos executado ficavam pendurados no portão de entrada das cidades com um grande cartaz onde ficava registrada a razão da condenação. Para os que todos soubessem do crime, pessoas instruídas eram pagas para ler em voz alta o que dizia o cartaz para cada um que chegava.

Não devia ser uma visão agradável adentrar uma cidade e encontrar cadáveres e restos humanos pendendo nas muralhas, secando ao sol. Corvos costumavam se agrupar nessas muradas para bicar o rosto dos mortos, arrancando nariz, lábios e orelhas. Os olhos eram o alvo principal das aves carniceiras atraídas pelo brilho. Há um registro histórico, de que certa vez os corpos de mais de trinta criminosos foram dispostos sob o portão de entrada da cidade de Augsburg, próximo de Munique. Na ocasião, uma comitiva imperial que passava pela região, deu meia volta ao se deparar com a hedionda visão. 

Em meados do século XVI, algumas cidades adotaram leis reservando um local específico para a horrível exposição dos mortos. Isso porque às vezes o local escolhido ficava perigosamente próximo de poços públicos de água e de mercados onde se vendia comida.


Em uma época de enorme superstição, surpreendentemente, essas leis desagradavam grande parte da população. As pessoas queriam desejavam ver os corpos apodrecendo sem ter que se deslocar de um canto para outro da cidade. Visitar os cadáveres expostos parecia ser algo extremamente interessante na Idade Média, tanto que guardas e executores cobravam uma pequena comissão para permitir aos interessados se aproximar e ver de perto os corpos, em alguns casos até tocá-los.

Depois de algum tempo de exposição pública, os corpos já em estado deplorável eram descidos do local onde ficavam por dias ou até semanas, transportados até um cemitério qualquer e lançados em alguma vala como lixo. Esses enterros em solo não consagrado eram muito comuns. Não raramente os cemitérios de executados eram considerados como lugares assombrados, terreno fértil para proliferação de mortos vivos e vampiros. Na Itália, o cemitério de Ravena era benzido a cada seis meses para evitar qualquer levante sobrenatural indesejado. 

As execuções públicas eram um grande passatempo, um verdadeiro acontecimento que atraia gente de todos os cantos interessados em assistir (e vibrar) com o tormento alheio. Quanto mais notória a vítima ou o crime por ela cometido, maior o interesse. Nobres, ricos senhores e traidores conseguiam atrair verdadeiras multidões ao pátio de execução: homens, mulheres e crianças que se acotovelavam para ver o sangrento espetáculo. Além de curiosos, havia ainda mercadores, vendedores de comida, ladrões, prostitutas e religiosos interessados em aproveitar a comoção.

Poucas coisas eram mais celebradas do que as sessões públicas de tortura que antecediam as execuções. E dentre todas as ignomias e punições aplicadas, a roda talvez fosse a mais terrível. Através desse medonho objeto circular de madeira, o corpo da vítima imobilizada era torcido e lentamente despedaçado para alegria das testemunhas. Alguns poucos minutos na roda podia partir costelas, deslocar ossos e arrebentar a coluna dorsal.

"A multidão fazia um tenso silêncio para ouvir atentamente o som dos ossos se partindo a cada torção do aparelho e quando esta acontecia vibravam e festejavam". contou Auler com base em um documento oficial.

A qualidade do executor era medida pela forma como ele conseguia levar à cargo sua tarefa. Executores podiam ganhar um bom dinheiro agradando a população que lhes oferecia presentes em troca de uma boa performance. Um executor também podia ganhar um bom dinheiro se conseguisse negociar com a vítima ou com um parente desta para garantir uma morte rápida e limpa. Mas tal atividade podia ser arriscada: nos autos de um processo em Toledo, na Espanha, consta que um executor foi condenado a ser açoitado depois que ficou claro que ele havia executado uma vítima de forma muito rápida mediante acordo com o marido desta para que "ela não sofresse demasiadamente".

A roda contudo não era o único método de tortura empregado nas execuções públicas na Europa. Cada lugar possuía os seus métodos característicos.

Robert François Damiens, condenado a execução pública por ousar atacar o Rei Louis XV, sofreu uma sentença incomum levada adiante em praça pública. Oficiais de Justiça usaram pedras de enxofre aquecidas para queimar sua pele e fazê-la descascar. Em seguida usando pinças arrancaram a pele de seus braços, peito e virilha, para que então as feridas fossem cauterizadas com chumbo derretido.

Outro criminoso famoso, o patriota rebelde escocês William Wallace (o mesmo do filme Braveheart) foi torturado no patíbulo de Londres diante de uma multidão. Wallace foi enforcado, suas costelas foram quebradas depois de ser suspenso numa polia, teve partes de seu corpo arrancadas com pinças quentes, seus intestinos foram removidos e queimados quando ele ainda estava vivo, até que, finalmente, ele foi decapitado.

As evidências arqueológicas confirmam que um dos métodos preferidos de execução na Idade Média era a decapitação. O condenado tinha de se ajoelhar diante de um banco e repousar a cabeça sobre esse cepo expondo seu pescoço. O executor usando uma lâmina pesada, geralmente uma espada, executava o golpe mortal. No final do século XVII, machados e blocos de corte passaram a ser utilizados. As guilhotinas entrariam em operação no século seguinte fazendo enorme sucesso na Revolução Francesa, quando elas trabalharam sem parar.

Jovens executores, é claro, tinham de passar por testes que demonstrassem as habilidades necessárias. Documentos encontrados pelos arqueólogos, na cidade alemã de Alkersleben atestam que um executor tinha de praticar por pelo menos dois meses cortando repolhos e abóboras antes de se dedicar a arte de separar cabeças de corpos.  despeito do "treinamento", alguns executores ficavam nervosos e erravam o golpe fatal. Vários crânios encontrados pelos arqueólogos atestam que muitas vezes, mais de um golpe era necessário para concluir a tarefa.

Erros podiam ocorrer, os executores não estavam livres de vacilos. Em um cemitério alemão, foi encontrado um corpo com vários ferimentos na coluna que apontavam para erros sucessivos na tentativa de decapitação. É possível que a vítima tenha tentado se levantar depois do primeiro golpe, o que obrigou o carrasco a realizar vários golpes.  

A forca também era um método popular de execução. Para enforcar um condenado uma corda devidamente preparada, besuntada com óleo era amarrada em volta do percoço do criminoso e lançada sobre uma apara de madeira ou um galho forte de árvore. A vítima era jodaga de uma altura e se essa fosse suficiente seu pescoço se partia causando a morte imediata. Do contrário, a corda comprimia as artérias do pescoço induzindo a sufocação e asfixia alguns segundos. Alguns executores seguravam os pés da vítima ou se pensuravam em suas pernas para acelerar o processo garantindo uma "morte limpa". 

Apesar da importância de seu trabalho e de serem em alguns casos admirados pela sua habilidade, a maioria dos executores tinha uma vida complicada. Genesis e Auler devotaram boa parte de suas pesquisas a conhecer um pouco sobre a vida desses homens que ganhavam o pão de cada dia torturando e matando.  

"Um executor era evitado por todas as pessoas que conheciam sua ocupação. A profissão era tida como "desonrosa". O dono de uma taverna podia se negar a vender bebida ou aceitar um executor em seu estabelecimento. Era, afinal, ruim para os negócios. Alguns mercadores se negavam a vender para esses homens e em alguns casos, padres não davam a eles sequer a extrema-unção. Era difícil um homem nessa profissão conseguir casar e constituir família.

Muitos executores guardavam segredo sobre a sua atividade, e se valiam dos capuzes que usavam para esconder a sua identidade. Alguns deles ganhavam um dinheiro extra realizando atividades úteis: matando animais doentes, castrando cães ou limpando prisões. A proximidade de corpos humanos e cadáveres, permitia que eles aprendessem noções básicas de anatomia e medicina. Um executor alemão que viveu em Rheims no século XVII chegou a desistir do seu trabalho e se dedicar a curar, extirpando tumores e órgãos doentes nas ruas da cidade, o equivalente a um médico itinerante.

A despeito de seu conhecimento anatômico, executores mantiveram sua sinistra reputação. Embora fossem elogiados por fazer um trabalho necessário no "Sachsenspiegel" ("Espelho dos Saxons"), um código legal rascunhado no século XIII, a maioria deles eram evitados pela sociedade. Na Áustria uma lei os obrigava a usar luvas, pois não deveriam encostrar as mãos em ninguém. 

Por muito tempo esses homens figuraram como coadjuvantes em momentos importantes da história, a mão que aplicava a justiça bárbara e sangrenta. 

Suas vozes e seu lado jamais foram ouvidos, mas com o trabalho de especialistas como Auler e Genesis isso tende a mudar.

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domingo, 15 de setembro de 2013

Lugares Estranhos: Poveglia - A Ilha mais Assombrada do Mundo


Uma estação medieval de quarentena para a peste negra, um asilo de doentes mentais e mais recentemente um enorme depósito de material hospitalar. A pequena Ilha de Poveglia na Lagoa de Veneza serviu a muitos propósitos desagradáveis ao longo dos anos, mas hoje ela está vazia. O que resta de seu passado apodrece lentamente ao sol. São os restos de uma série de construções abandonadas em ruínas, prédios tomados pela vegetação que cresce selvagem a pouco mais de duas milhas do brilho e esplendor do Grand Canal.

Lendas e rumores a respeito de Poveglia são quase tão numerosos quanto as ervas daninhas que recobrem a superfície da ilha. E há material para centenas de estórias de terror, uma vez que essa pequena faixa de terra já testemunhou cenas que poderiam estar inseridas nos capítulos da Divina Comédia sobre o submundo.

Dizem que a quantidade de pessoas afligidas pela peste negra enviadas para a colônia na Ilha desde o período romano foi tão grande que mais 50% do solo atual é constituído por cinzas humanas. Na época, qualquer um que apresentasse os sintomas ou estivesse sob suspeita de ter contraído a doença, era despachado compulsoriamente no porão de um navio para a ilha. Mais que uma colônia de quarentena, em Poveglia os doentes eram descartados permanentemente. Haviam grandes fossos que serviam como crematórios que eram o destino final dos cadáveres restantes do flagelo. E as piras instaladas em Poveglia arderam por séculos. Embarcações carregadas de doentes já meio mortos, despejavam sua macabra carga na praia para que prisioneiros condenados os empilhassem e queimassem. Quem desembarcava em Poveglia jamais retornava. A última grande epidemia, que motivou a transferência de mortos e doentes para a ilha ocorreu no século XVII, não há como quantificar quantas pessoas foram mandadas para lá, mas uma estimativa afirma que o número ultrapassa os 160 mil.

A fama de assombrada é conhecida entre os pescadores que preferem contornar a ilha à distância. Dizem que lançar as redes nos arredores de Poveglia dá azar, pois além de recolher peixes com cores doentias e horrivelmente deformados, por vezes as redes retornam das profundezas com ossos humanos. Os pescadores contam que há navios mercantes etruscos e romanos naufragados na costa recortada de Poveglia, haveria ainda alguns cargueiros venezianos que afundaram na área levando para as profundezas tesouros valiosos. Mas ninguém jamais ficou rico mergulhando nessas águas. Alguns afirmam categoricamente que sob as ondas existem terrores antigos que atraem os marinheiros e os puxam para a escuridão.


Há ainda as histórias sórdidas contadas sobre os tempos em que um asilo funcionou na ilha. O hospital erguido no século XIX seria uma espécie de manicômio judiciário que recebia pacientes perigosos e perturbados: maníacos e psicóticos em sua maioria, havia espaço para assassinos, estupradores e necrófilos. A ilha chegou a abrigar mais de 500 pacientes de uma só vez. É claro, as instalações eram insalubres, para dizer o mínimo. Uma das irmãs de caridade que servia na enfermaria, teria sido vítima de um grupo de pacientes que a violentaram brutalmente. Após levar à termo uma gravidez indesejada ela teria se suicidado lançando-se de uma antiga torre para o mar revolto. Há rumores de que a criança nascida desse horrível ato cresceu na ilha para se tornar ele próprio um enfermeiro sádico que torturava e lobotomizava os condenados. Alguns chegam a atestar que foi esse tratamento brutal que motivou o fechamento do hospital em meados de 1925. Outros preferem culpar os espíritos dos criminosos insanos que dizem, continuam vagando pelo lugar como uma presença espectral maligna emergindo das cavernas sob a ilha.
        
Poveglia atraiu a atenção de vários escritores fascinados pela sua conturbada estória. Angelo Beolco escreveu que "as próprias ondas relutam em quebrar em sua costa tristonha", já o poeta Carlo Goldoni foi mais incisivo "a ilha não é nada mais além de uma fossa de tudo o que é ruim e maligno no mundo". Os vizinhos dessa incômoda ilha, os venezianos, fizeram de tudo para dirimir os rumores a respeito de Poveglia. A maioria nega temer o lugar, mas preferem não mencionar os fossos repletos de ossos da época da praga ou os restos carcomidos do asilo. Um artigo recente publicado na Revista Venezia, tentou desmistificar o passado de Poveglia, contando um pouco de sua história.

Mas enquanto, a ilha permanecer fora do alcance dos curiosos, os rumores irão continuar a se multiplicar. A aura de antigo mistério e horror permeia toda a ilha, taxada como "não visitável" para os milhares de turistas que vão a Veneza anualmente. Os gondoleiros não podem se aproximar mais do que um quilômetro e meio da praia principal sob o risco de perderem a licença de trabalho. A "Ilha do Terror" como alguns se referem a ela, está fora dos limites e há pesadas multas para qualquer um que se aproximar. A razão para esse cuidado, segundo as autoridades tem a ver com questões de saúde pública. Poveglia por algum tempo foi usada como depósito de lixo hospitalar - mais uma das nada amáveis facetas da ilhota.

O repórter Francesco Nerio que escreveu o artigo na Revista Venezia recebeu autorização para visitar Poveglia em 2012 e conhecer em primeira mão o local. Foram meses de negociações com as autoridades que por fim acabaram cedendo. Nerio pôde conhecer a "Ilha mais assustadora do mundo" desde que acompanhado de três oficiais da Marinha Italiana.  


Ele teve a oportunidade de ver as ruínas das estruturas erguidas pelos venezianos a partir do século XII. Na face ocidental da ilha, ainda existem os restos de uma igreja com um campanário. A torre com cerca de 10 metros, posteriormente foi usada como farol no século XVIII, e dela a enfermeira da estória teria saltado para a morte. A ilha possui outro marco histórico, a estrutura conhecida como "octógono", um forte construído no século XIV para repelir os Genoveses (inimigos mortais dos venezianos). Durante as Guerras Napoleônicas, o forte foi restaurado e usado por Britânicos para vigiar a entrada de embarcações em Veneza. Isso até que os soldados imploraram para serem mandados de volta, por "não suportar a presença de fantasmas na ilha". Um dos marinheiros que acompanhou o repórter contou que pelo menos dois navios franceses teriam encalhado próximo ao Octogon e seus ocupantes foram feitos prisioneiros pelos vigias ingleses. Pouco antes de receber a ordem para partir, os prisioneiros teriam morrido em um incêndio na prisão do forte.  

Mais adiante do antigo forte, atrás de uma série de árvores ficam as ruínas do manicômio judiciário. Foi nesse lugar, onde havia ainda um simples atracadouro de madeira, que a pequena expedição desembarcou para fazer a sua visita. O barco foi amarrado e o grupo seguiu a pé, com as recomendações de não se afastar.

As ruínas não passam de meia dúzia de prédios em escombros, alguns realmente caindo aos pedaços com o teto ruindo e paredes perfuradas ou descascadas. O que foi erigido com tijolo e concreto ainda resistia bravamente às interpéries, mas o efeito do vento e principalmente da maresia havia deteriorado aquelas construções. Como resultado, muita coisa estava prestes a cair e coberto de vegetação. O grupo seguiu através das ruínas, entrando em um ou dois prédios que pareciam seguros. O repórter encontrou restos de mobília, na sua maioria estruturas de camas e alguns objetos pessoais que um dia pertenceram aos atendentes e aos internos: um pé de sapato, uma panela esmaltada, uma colher entortada... os marinheiros não permitiram que nada fosse removido e o grupo seguiu adiante depois de algumas fotografias.

Perto dali ficava a antiga sede da estação de quarentena chamada Lazaretto Vecchio fundado oficialmente em 1403, mas que já era usada desde a época do Império Romano. A praga e as doenças eram um imenso problema no mundo medieval, especialmente em grandes centros de comércio, como Veneza. Para manter a doença longe da cidade, os governantes sancionaram uma lei sanitária impondo que qualquer pessoa com suspeita de doença deveria ser enviada para Lazaretto Vecchio a fim de ser separado dos indivíduos saudáveis. Sem o conhecimento de como germes e infecções funcionavam, muitas pessoas eram enviadas para o isolamento sem ter realmente a doença, ou por sofrer de uma simples gripe. Infelizmente, em contato com o ambiente onde haviam inúmeras pessoas afligidas pela doença era questão de tempo até se contrair alguma enfermidade. Ao chegar em Poveglia, os recém chegados tinham de remover as roupas, tomar banho com vinagre e fulminar uma mistura de cal no corpo, que alguns acreditavam era uma forma de controlar a doença. Depois disso, estavam por conta própria recebendo alguns mantimentos de instituições de caridade, mandados em barcos. 


Para os padrões de saúde medievais, Veneza era considerada uma cidade modelo. No auge da peste que atingiu a Itália - com muita força no século XVI, a contagem de mortos na cidade foi bastante reduzida em função das leis sanitárias em vigor. Se uma pessoa apresentava sinais de contaminação, nobre ou camponês não importava, era mandado para fora da cidade. Médicos vestindo máscaras de couro com um longo-nariz para filtrar os miasmas, inspecionavam as vítimas e decidiam quem devia partir. Mas se essas medidas garantiam a paz de espírito dos habitantes de Veneza, o mesmo não se podia dizer dos que tinham o azar de ser mandados para Poveglia. 

A Ilha era um verdadeiro inferno, com mortos e doentes largados em todo canto. Os condenados que viviam em Poveglia vestiam um tipo de jaleco amarelo e máscaras simples. Eles andavam com carrinhos usados para empilhar os cadáveres e transportá-los até os crematórios. Madeira e combustível eram deixados todo mês para manter as piras ardendo. Em 1568, o historiador Formoso di Granci, escreveu que em Veneza era possível ver a nuvem negra dos crematórios de Poveglia lançando no ar cinzas que eram sopradas pelo vento. Dependendo para onde ele soprava, uma nevasca cinzenta cobria ruas e canais. "É a neve da vergonha e do medo" escreveu o historiador.

Em 1968, bem depois da desativação do manicômio, pensou-se em construir um museu na ilha, mas a ideia foi abandonada em favor de uma medida bem menos popular, a de transformar a ilha em um aterro sanitário para material médico e hospitalar. Boa parte do lugar foi aterrado e remexido pelos operários que derramaram toneladas de lixo até meados de 1975, quando ambientalistas levantaram questões sobre o que aconteceria com o material caso ele fosse um dia levado para o mar em alguma enchente.


A partir de 1980, Lazaretto Vecchio começou a ser escavado por arqueólogos em busca de peças de um quebra-cabeças de 500 anos. Indícios da história negra de Poveglia começaram a ser removidos da terra coberta com a poeira cinzenta que em tudo adere. Em um descampado, localizaram um imenso fosso onde encontraram as ossadas de mais de 1500 vítimas da peste.  

Os arqueólogos fizeram outra descoberta macabra escavando um antigo cemitério: um vampiro. Na verdade, o cadáver de uma pessoa que os supersticiosos habitantes da ilha acreditavam ter sido um morto-vivo. O esqueleto tinha um grande pedaço de tijolo enfiado entre os dentes, em um costume medieval que visava impedir que o morto-vivo retornasse. Por garantia, um espeto de ferro foi enfiado em seu peito e ali permaneceu por séculos.  

Existem novamente planos de construir um museu na ilha, mas eles sempre esbarram na mesma questão de saúde pública. Há alguns anos surgiu a ideia de remover os detritos e o lixo hospitalar, mas os planos não chegaram a ser colocados em prática ironicamente porque um trabalho dessa natureza causaria dano ao patrimônio histórico. Mais recentemente, a Ilha esteva à venda, mas não chegou a atingir o valor necessário para sua posse ser transferida. Uma das condições para aquisição de Poveglia é revitalizar a ilha, o que demandaria um projeto milionário.

Enquanto nada é decidido, a Ilha de Poveglia continua fora dos limites dos curiosos, um lugar com uma aura de estranheza e uma história bizarra que perdura há séculos.

Ela é considerada a Ilha mais Assombrada da Itália e um dos lugares mais mórbidos do mundo. Francamente, com tudo o que se conta a respeito dela, o título é mais do que merecido.

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domingo, 19 de maio de 2013

Vingança Viking - A Temida Águia de Sangue


Com base no texto da Smithsonian Magazine

Desde a década de 1960, os Vikings e muito de sua cultura passaram por uma espécie de filtro revisionista que suavizou a sua violenta fama.

Até então, as estórias mais frequentes a respeito dos povos da Dinamarca e Noruega no curso da Idade das Trevas, os apresentava como guerreiros sanguinários, que matavam, destruíam e pilhavam outros povos. Se eles não estavam cultuando seus deuses pagãos, estavam navegando em seus navios de batalha para saquear monastérios, estuprar virgens e conquistar um lugar de destaque na história, como homens ferozes e obstinados.

Mas as coisas começaram a mudar a partir da publicação do influente livro "The Age of Vikings" de Peter Sawyer em 1962 que redimiu, ao menos em parte, os vikings. Atualmente, muitos historiadores continuam afirmando que a fama desses povos como guerreiros ferozes, dados a estuprar e assassinar, é um exagero que encobre o fato deles serem na verdade comerciantes e exploradores. As realizações dos povos escandinavos são muito laureadas - eles navegaram até a América e alguns acadêmicos chegaram ao ponto de apontá-los como agentes que estimularam a economia, que foram "vítimas de inimigos em maior quantidade", e até (como um estudo da Universidade de Cambridge sugeriu) "homens que preferiam se embelezar, a pilhar", que chegavam a carregar instrumentos para remover a cera dos ouvidos. Para citar o arqueólogo Francis Pryor, eles "se integravam em comunidade" e "aceitavam o sistema de propriedade" nas nações que invadiram.

Ivar Boneless, um dos mais temidos guerreiros 
Os Vikings realmente construíram uma civilização, eles possuíam fazendas e trabalhavam metal com habilidade. Mas, como aponta o medievalista Jonathan Jarrett, as evidências históricas também demonstram que eles capturavam milhares de escravos e mereciam sua reputação como temíveis guerreiros e mercenários. Eles podiam ser  inimigos implacáveis e gananciosos, e ao longo dos séculos levaram vários reinos fortes e ricos (como, por exemplo, a Inglaterra Anglo-Saxã) a beira do colapso. Na maior parte do tempo, os mesmos homens que trabalhavam nas fazendas e na metalurgia eram também responsáveis por estuprar e matar - afinal era um imperativo que eles tivessem de buscar outras fontes de sustento, no caso pilhando, sobretudo quando o solo pobre de sua terra não rendia bons resultados. Finalmente, como Jarrett destaca, se embelezar e ainda assim continuar sendo um soldado brutal, não é uma contradição. Um dos guerreiros vikings morto na Batalha de Stamford Bridge em 1066 por exemplo, atendia pelo nome de Olaf, the Flashy (Olaf, o Espalhafatoso).

Sempre foi um problema para os historiadores, que defendem terem os vikings sido um povo "incompreendido", explicar a inclinação deles - pelo menos da forma como eles são retratados em sagas e crônicas - para sangrentos Rituais de Morte. Entre as muitas vítimas iminentes dessas práticas, nós podemos citar o Rei Saxão Edmund, o Mártir - que morreu em 869, amarrado a uma árvore, após ser cruelmente açoitado e servir de alvo para arqueiros dinamarqueses que "o cobriram com tantas flechas, que ele teria ficado parecido com um porco-espinho". Outro que sofreu nas mãos dos vikings foi Aella, Rei da Northumbria, que em 867 passou pela mais terrível das provações impostas pelos povos Vikings aos seus inimigos, o ritual conhecido como "Águia de Sangue".

Não é preciso procurar muito para encontrar descrições explícitas sobre que tipo de execução medonha era a águia sangrenta. Em sua versão mais elaborada, ilustrada por Sharon Turner em History of the Anglo-Saxons (1799) ou por J.M. Lappenberg em seu History of England Under the Anglo-Saxon Kings (1834), o ritual envolvia vários estágios distintos:

A temível Águia Sangrenta
Primeiro a vítima era amarrada e imobilizada, com a face para baixo e as costas esticadas; em seguida, a forma de uma águia com as asas abertas era desenhada nas suas costas com carvão ou com a lâmina de uma faca. Depois disso, as costelas eram quebradas com um machado, uma por uma, os ossos e a carne puxados para trás a fim de criar a imagem do que parecia ser um par de asas brotando nas costas do sujeito. A vítima, segundo relatos, poderia muito bem sobreviver a essa tortura, experimentando uma agonia, nos termos de Turner, "ampliada pelo sal", - uma vez que sal grosso era esfregado dentro da enorme ferida. Depois disso, os pulmões expostos eram puxados para fora do corpo e esticados sobre as "asas", oferecendo às testemunhas uma ilusão de que elas estariam batendo, a medida que os pulmões se enchiam de ar e se esvaziavam, até finalmente a vítima expirar.

No século XIX, muitos historiadores aceitavam que a águia sangrenta além de ser profundamente desagradável, era muito real. De acordo com o eminente medievalista J.M. Wallace-Hadrill, é possível que não apenas Aella da Northumbria mas também Halfdán, o filho de Harald Finehair, Rei da Noruega, e o Rei irlandês Maelgualai de Munster; e em algumas interpretações até mesmo Edmund, o Mártir possam ter sofrido esse mesmo destino.

Para colocar essas alegações em um contexto, é necessário salientar que todos esses nobres morreram no final do século IX e início do século X, e que pelo menos dois deles Aella e Edmund - foram mortos por Ivarr the Boneless (Ivar, sem Ossos), o mais temido Viking de sua época. Ivarr, era filho do igualmente notório Ragnarr Loðbrók, cujo nome pode ser traduzido como "Ragnar Calças Peludas". Ragnarr foi supostamente o viking que saqueou Paris em 845, e - ao menos de acordo com o documento medieval islandês Þáttr af Ragnars sonum (Tale of Ragnar’s Sons - A História dos Filhos de Ragnar) ele morreu após seu barco naufragar na costa do reino Anglo-Saxão da  Northumbria. Capturado pelo monarca local, ele teria sido executado de forma incomum: lançado em uma cova repleta de víboras venenosas.

Analisando esse background compreende-se que a horrível morte de Aella parece ter sido motivada por vingança, uma vez que era ele o governante que capturou Ragnarr Loðbrók. Talhando a águia de sangue nas costas de Aella, Ivarr estava vingando a morte de seu pai. Mais que isso, os Vikings demonstraram a sua fúria com a morte de Ragnarr aparecendo na Inglaterra com um enorme exército nessa mesma época. Uma vez que esse exército e a depredação que ele causou no país foram o motor de alguns dos episódios vitais na história Anglo-Saxã - nada menos que a ascensão do Rei Alfred, o Grande, não é de surpreender que muitos respeitados acadêmicos aceitaram a realidade histórica, como o eminente Patrick Wormald, que chamou essa forma de execução de "ritual feroz de sacrifício".

O trágico destino de Ragnarr
Talvez, o mais proeminente defensor da "Águia de Sangue" como um ritual verdadeiro tenha sido Alfred Smyth, o controverso especialista irlandês sobre a história dos Reis da Escandinávia nas Ilhas Britânicas no século IX. Para Smyth, a cova das víboras preparada pelo Rei Aella da Northumbria soa como um exagero (uma conclusão sensata, dada a escassez de serpentes venenosas na Inglaterra), enquanto a águia de sangue soa perfeitamente plausível:  

É difícil acreditar que os detalhes sobre essa carnificina tenham sido inventados por copistas medievais noruegueses... os detalhes explicam precisamente do que trata a águia de sangue... [e] de fato o termo bloðorn existe como um conceito no idioma nórdico antigo, indicando uma forma de justiça pelas próprias mãos. 


Para amparar a sua tese, Smyth cita a Saga de Orkneyinga - um relato islandês do final do século XII escrito pelos Condes de Orkney, no qual outro famoso líder Viking, Earl Torf-Einar, entalha a Águia de Sangue nas costas de seu inimigo Halfdán Long-legs (Halfdán Pernas Longas) “usando sua espada nas costas e na coluna, destroçando suas costelas e virando-as em seu lombo, e arrancando para fora seus pulmões.” Smyth vai mais longe ao sugerir que ambos Halfdán e Aella foram sacrificados para os Deuses Nórdicos: “Um sacrifício pela vitória,” ele explica, “era um traço característico do Culto de Oðinn [Odin].”

A existência de alguns problemas nessas reivindicações não surpreende nenhum estudioso desse período histórico, fontes do século IX e X na Escandinávia são poucas, muitas tardias e abertas a interpretações. A identificação de Smyth de várias vítimas sujeitas a águia de sangue sem dúvida é passível de objeções. Alex Woolf, o autor de um registro completo sobre a história da Escócia durante esse período, conclui que a Saga Orkneyinga é um trabalho fictício, não verdadeira história, enquanto o destino de Maelgualai de Munster foi contado apenas séculos mais tarde later. Segundo o Cogadh Gaedhel re Gallaibh (The Wars of the Irish with the Foreigners - As Guerras dos Irlandeses contra os Estrangeiros,  escrito no final do século XII), Maelgualai teria morrido em 859 quando “sua coluna foi partida por um pedregulho” - um ato que  Smyth insiste implica em alguma modalidade de ritual de execução que “remete a águia de sangue no que diz respeito ao procedimento.” Mas a narrativa fornecida por outro cronista irlandês, no Annals of the Four Masters (Anais dos Quatro Mestres) - relata que Maelgualai foi meramente “atingido por uma pedra lançada pelos nórdicos – o que é igualmente verossímil.

De fato, os relatos sobre a águia de sangue geralmente foram escritos no séculos XII e XIII, com base nas sagas nórdicas e islandesas, que por sua vez decorrem de poesias do período. As Sagas são contadas na forma de grandes estórias, que soam sedutoras aos historiadores, que dispõem apenas evidências fragmentadas sobre o período. Mas como é difícil reconcilia-las a crônicas, elas se tornaram bem menos criveis do que registros históricos. Além disso, se Halfdán Long-legs e  Maelgualai não estão na lista daqueles que sofreram a morte pela águia de sangue - e se nós aceitarmos as sugestões de que Edmund tenha sido morto com flechadas (ou, conforme The Anglo-Saxon Chronicle, tenha simplesmente morrido em combate) - resta apenas a morte do Rei Aella como vítima dessa forma de execução ritualística.


Nesse ponto é importante citar a publicação de Roberta Frank no English Historical Review. Frank - uma acadêmica de língua inglesa e literatura escandinava, não apenas debate a fonte original da morte do Rei Aella, como salienta que “o procedimento da águia de sangue varia de texto para texto, tornando-se mais lúgubre, pagã e ritualizada com o passar do tempo.” Ela aponta que as únicas fontes a respeito da águia de sangue são trechos de poesia, aberta a várias interpretações. 

Para vários acadêmicos, o ponto central é que o ritual da águia de sangue é, e para sempre será, passível de dúvida quanto a sua existência de fato. Isso ao menos até que alguma prova documental possa ser encontrada, o que é pouco provável.

Visto dessa perspectiva, não causa surpresa - ao menos enquanto tantos acadêmicos continuarem  a tratar os vikings como fazendeiros, que ocasionalmente lutavam - que nós sejamos encorajados a duvidar da realidade da águia de sangue. É provável, entretanto, que quando a roda da história girar, como provavelmente ela o fará, não nos surpreenderemos ao ouvir historiadores mais uma vez argumentando que os guerreiros da Escandinávia sacrificavam suas vítimas aos seus deuses pagãos.

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