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domingo, 26 de novembro de 2017

Helter Skelter - A loucura conspiratória da Família Manson


California 1967, o ano conhecido como "Verão do Amor".

O ex-detento Charles Manson fica atônito com as transformações do mundo desde que ele havia sido preso em 1960. O slogan "faça amor, não faça a guerra" estava na boca de todos, enquanto grupos de rock da Costa Oeste, como Beach Boys, Grateful Dead, Jefferson Airplane sonham com o sucesso. As garotas se tornavam liberadas e drogas passam de mão em mão. Entusiasmado, ele se une a comunidades hippies de San Francisco, onde se dedica a tocar guitarra e se apresentar nas ruas. Ao se sentir bem recebido em toda parte, ele se pergunta se essa não é uma nova chance de mudar de vida. Se ele não morreu e chegou ao paraíso.  

Uma jovem bibliotecária chamada Mary Brunner, de apenas 23 anos, o acolhe sem fazer perguntas em sua casa. Manson fica intrigado principalmente com a forma como as pessoas passaram a questionar as instituições: Governos, empresas, professores, religiosos, os juízes e carcereiros, todos que haviam abusado dele estavam sob constante observação e crítica. A sociedade estava em ebulição, clamando por mudanças em sua própria estrutura. O sistema era visto como algo a ser derrubado, destruído pela revolta popular que ansiava por mudanças imediatas. Por fim, ele havia encontrado um mundo com jovens dispostos a se engajar em causas, desde que estas fossem consideradas legítimas por eles.

Mary Brunner também mostrou a Manson que os tempos eram outros no que dizia respeito às relações entre homens e mulheres. Havia muita liberação, e Manson logo explorou as possibilidades recolhendo Darlene, uma garota de 16 anos que havia fugido de casa e trazendo-a para morar com os dois. O triângulo parecia conviver bem, seguiam o lema "nada e ninguém pertence a ninguém". Manson ficava com Darlene durante o dia e à noite com Mary. Isso deu a ele uma ideia a respeito de comunidades hippies.


Em pouco tempo, influenciada por Manson, Mary decidiu largar o trabalho na biblioteca universitária e viajar com ele e Darlene a bordo de um velho ônibus escolar que Manson havia comprado com o restante do dinheiro da amante. O trio passou a visitar comunidades hippies ao longo da Califórnia onde Manson se apresentava como um artista em busca de reconhecimento e sucesso. Logo, o ônibus passou a receber novos adeptos, na maioria adolescentes que não tinham para onde ir e queriam chegar à Los Angeles. Manson os recebia com um sorriso encorajador e dizia que eles poderiam fazer o que quisessem enquanto viajassem com ele. Não haveriam regras e nenhuma forma de autoridade seria tolerada. 

A trupe, composta de 10 ou 12 pessoas viajou pela Costa Oeste, do Oregon até Los Angeles parando em cidades abandonadas ou no meio da estrada. Manson convencia os rapazes e meninas a se prostituir para conseguir dinheiro para comida, drogas e combustível. Ao chegarem a Los Angeles, o riqueza das mansões e o glamour de Hollywood contagiou a todos. Eles estavam em uma cidade rica e cheia de novas perspectivas. Os seguidores acreditavam que Charlie logo conquistaria o estrelato e todos iriam desfrutar de seu sucesso e viver numa daquelas mansões enormes, com comida e fartura para todos. No espírito da época, o grupo de hippies era recebido em comunidades de beira de estrada e chegaram a dormir na propriedade de artistas que apoiavam a contra-cultura.

Uma das pessoas que recebeu o bando foi Dennis Wilson, baterista dos Beach Boys que incentivou Manson a gravar suas canções folk. Wilson apresentou Charlie a alguns produtores da indústria fonográfica e ele chegou a gravar algumas demo-tapes para serem distribuídas entre agentes de talentos. Para pagar as contas ele exigia que os membros do bando conseguissem mais dinheiro, o que os levava a prostituição e venda de drogas.



Mas as músicas gravadas por Manson não fizeram o sucesso que ele esperava, o que o deixava furioso. Não demora muito e ele acaba descontando sua raiva nos engenheiros de som que fizeram a gravação das fitas, acusando-os de terem sabotado seus esforços e atrapalhado deliberadamente sua busca pelo estrelato. Alguns dos membros da Família decidem se afastar de Manson que fica paranoico achando que todos estão contra ele. Sabendo que a única forma de recuperar o controle sobre o restante da Família é mantendo-os ao seu alcance, ele decide usar o que sobrou de seu dinheiro para alugar uma velha fazenda nos arredores de Los Angeles. O grupo passou a residir em Rancho Spahn, uma propriedade rústia que estava abandonada. Lá Manson se tornou o líder espiritual de todos e deu início a um período marcado por viagens psicodélicas, experiências com LSD, amor livre e total cumplicidade entre os membros do grupo que passam a se apresentar como integrantes da mesma "Família", a Família Manson.

Apesar da penúria em que viviam, os membros da Família Manson se diziam felizes e satisfeitos com sua opção. Eles compartilhavam praticamente tudo e acreditavam ser parte de um movimento que ajudaria a reformar a humanidade, resultando em uma Nova Era de paz e compreensão. Apesar de seus princípios pacíficos, Manson incentivava seus seguidores a roubar e cometer pequenos delitos. Alguns deles passaram a roubar automóveis, entrar em casas, subtrair objetos em lojas ou simplesmente mendigar nas ruas. Drogas e álcool eram aceitos na casa, mas Manson decidia quem do grupo teria acesso, como forma de controlar a família. Ganhava uma porção maior quem obtinha mais dinheiro na semana. Não demorou muito até que Manson também se envolvesse com tráfico de drogas, trazidas por motoqueiros que transitam pelos estados. Ele conseguiu algum dinheiro agenciando mulheres como cafetão ou chantageando clientes.

Mas apesar de todos seus planos, Manson não conseguia fazer sucesso com sua música. Culpando todos ao seu redor - menos a si mesmo, ele se torna rancoroso e adverte seus seguidores que a sociedade não está pronta para ouvir a sua palavra transformadora. A essa altura, Manson já plantara na mente de seus jovens seguidores o conceito de que era uma espécie de Profeta.


Certo dia, ele ordena que seus seguidores arrumem as coisas e que partam com ele na busca de um novo lugar para viver. A Família encontra uma granja abandonada nos limites do Deserto conhecido como Death Valley onde resolvem se estabelecer. O Rancho Baker se converte no santuário da Família e Manson assume a postura de um líder messiânico, afirmando que ali eles ficarão em segurança quando chegar o Fim dos Tempos. Mesclando citações bíblicas e canções dos Beatles, adicionando algumas gotas de ódio racial e terrorismo, Manson começa a elaborar uma teoria aceita cegamente pelos seus seguidores, a de que o Apocalipse estava próximo. Grande fã dos Beatles, ele afirma ter recebido uma revelação na forma de profecia ao escutar repetidas vezes o famoso "White Album" da banda. Ele relaciona a faixa "Revolution no 9" com o Capítulo 9 do Livro das Revelações, no qual o quinto anjo do Apocalipse anuncia a vinda do "Filho do Homem", que Manson afirma ser ele próprio.

Em seu delírio, ele assume a postura de um Messias que irá limpar a Terra dos infiéis e abrir os Sete Selos para o início do Apocalipse. O "Fim dos Tempos" conforme suas palavras viria com Guerras Raciais que colocariam brancos e negros em lados opostos de uma Guerra Civil sangrenta, um evento chamado de Helter Skelter, o nome de outra faixa do mesmo álbum dos Beatles. Para Manson o conflito teria fim com a vitória dos negros, mas estes acabariam por se sujeitar a ele e a Família, reconhecendo-os como líderes que viriam a governar o que restou do mundo. Influenciado por sua própria insanidade, Manson fica cada dia mais paranoico, sobretudo quando a polícia investiga suas ligações com tráfico de drogas. Temendo que fosse uma questão de tempo até ser preso, ele decide antecipar o Helter Skelter. 

Na tarde da sexta-feira 8 de agosto ele envia quatro seguidores de confiança, Susan Atkins, Patricia Krenwinkel e Leslie van Houten, acompanhadas de Tex Watson, até a casa 10500 em Cielo Drive. onde Manson acreditava que um produtor musical chamado Terry Melcher ainda vivia. Ele não sabia que a propriedade havia sido alugada alguns meses antes: o inquilino era o Diretor de cinema Roman Polanski. Manson havia dado ordens expressas para que seus seguidores fossem até a casa e matassem quantos porcos (na linguagem deles, pessoas ricas) conseguissem. O líder da Seita fornece ao grupo uma arma de fogo e várias facas e porretes, além das instruções de como entrar na casa e promover o massacre. O objetivo era fazer com que a polícia culpasse ativistas negros e que esse fosse o estopim para o Helter Skelter (Guerra Racial).

Naquela noite fatal, Sharon Tate, esposa de Polanski, com oito meses de gravidez estava recebendo convidados para passar a noite com ela na propriedade. Seu marido estava fora do país, filmando e ela se sentia solitária. Foi um infortúnio tantas pessoas estarem presentes na mansão. O ataque foi rápido e brutal, os assassinos entraram, acuaram as pessoas na casa, as juntaram na sala e as massacraram sem piedade usando facas e porretes. Os que resistiram foram alvejados.

O assassinato de Leno e Rosemary La Bianca foi perpetrado no dia seguinte para reforçar a conspiração mentirosa de que as chacinas haviam sido conduzidas por radicais negros. Nessa ocasião, o próprio Manson acompanhou o grupo destacado para a tarefa. Deu a eles uma dose de LSD e escolheu a mansão mais adequada, aquela habitada por "porcos". Manson pulou o muro, e se esgueirou pelo pátio até a janela da sala que estava aberta. Ele voltou aos seus discípulos e lhes deu a ordem: - "Entrem e matem todos! Me deixem orgulhoso!", em seguida foi embora.


Transcorrendo os meses de agosto e setembro, a polícia continuava sem encontrar uma resposta para os crimes. Nesse meio tempo, Susan Atkins, se envolveu no assassinato de um rapaz chamado Gary Hinman e acabou sendo detida para interrogatório. Enquanto estava presa, deixou escapar para suas colegas de cela detalhes sobre suas viagens de LSD, sobre seus companheiros da Família Manson e finalmente, sobre o prazer que tinha em matar. Em 12 de outubro, a polícia interrogou Susan uma segunda vez e ela acaba revelando sua ligação com Charles Manson e a Família ainda escondida no Rancho Baker. A polícia que já desconfiava saquela Seita Estranha, acredita ter encontrado os responsáveis pelos massacres de Los Angeles.

Várias viaturas policiais convergem para o local e os detetives da homicídios dão ordem de prisão para o grupo que se rende sem resistência. Na propriedade encontram objetos comprometedores, sobretudo a arma de fogo utilizada na invasão. Drogas, álcool e menores de idade também são apreendidos e a Família Manson começa a ser relacionada com uma série de crimes que incluem tráfico de drogas, roubo, agressão e cárcere privado, além é claro, da participação nos assassinatos ocorridos em 8 e 9 de agosto.

O julgamento se estende por um ano e meio e transforma-se em um evento para a mídia. Manson é chamado de arquiteto da tragédia, um verdadeiro demônio capaz de persuadir adolescentes a matar com prazer e cometer atos impensáveis apenas para agradá-lo. Entretanto, apesar de sua participação intelectual, Manson se defendia alegando não ter matado ninguém em pessoa.


As três meninas angelicais que acompanham os trabalhos judiciais, mudavam de aparência constantemente, raspando os cabelos, se vestindo como hippies e distribuindo flores aos jornalistas. Diante de um juri atordoado, elas confessam alegremente seu papel nas chacinas. Reconhecem ter cometido os crimes como um "ato de amor" em nome de seu líder espiritual. O próprio Manson dá mostras de instabilidade: tenta atacar o juiz, agride à socos e ponta-pés seu próprio advogado, grita e esperneia, entalha um "x" na própria testa, depois o transforma em uma suástica... o público assiste tudo incrédulo.

Em março de 1971, após um desgastante julgamento vem a sentença: Manson, Susan Atkins, Patricia Krenwinkel e Leslie van Houten são condenados à morte, assim como Tex Watson e Bobby Beausoleil em outro processo correndo em paralelo no Texas. A sentença, no entanto acaba sendo comutada para prisão perpétua com uma mudança no Estatuto Judicial da Califórnia. 

Nos anos que se seguem, os membros da Família Manson acabam se dispersando ou sumindo de circulação. A maioria dos que foram presos se dizem arrependidos de participar dos crimes e de tomar parte nos crimes. Culpam seu líder tresloucado e as drogas pelos atos impensados cometidos e afirmam que Manson detinha sobre eles uma espécie de controle quase sobrenatural. Alguns sequer se recordam de seus anos no seio da Família, as lembranças parecem turvas e distantes. No cárcere, Tex Watson e Susan Atkins se convertem em Cristãos Renascidos. Alguns menores de idade conseguem voltar para suas famílias e alguns até mudam de nome para romper de vez com sua participação nesse medonho caso.


Mas é claro, havia exceções e alguns membros da Família permaneceram leais à Manson e sua filosofia demente. O Rancho continuou servindo como santuário para jovens até a polícia debandar seus moradores; logo depois a propriedade foi derrubada para não se tornar destino para desajustados e curiosos. O caso mais grave envolvendo ex-membros da Família Manson ocorre em 1975 quando Lynette Fromme, uma jovem desajustada, tenta assassinar o então presidente dos Estados Unidos Gerald Ford.

De forma sinistra, a filosofia torpe de Manson continua bem viva no mundo atual. A crença de que é preciso assassinar pessoas para promover uma mudança social, encontra ecos nos dias atuais com o terrorismo radical e os crimes perpetrados por inimigos da tecnologia como o UnaBomber. Já o racismo de Manson, um admirador confesso de Hitler e da solução final, continuou sendo compartilhado pelos milícias supremacistas brancas e por neonazistas. Finalmente, o caráter religioso da Família, uma Seita no modelo Messiânico encontra similaridade com os Daividianos que promoveram uma matança durante o Cerco de Waco em 1993.

Ainda hoje, psicólogos e pesquisadores comportamentais estudam o que atraiu tantos jovens a uma companhia tóxica como Charles Manson, um homem que os levou a  matar sem escrúpulos. Culpar apenas o uso de drogas parece uma resposta muito simples para essa questão. É óbvio que Manson detinha sobre eles um tipo de controle vigoroso graças ao seu carisma e manipulação. Mas como ele foi capaz de criar um vínculo tão forte, uma verdadeira unidade familiar ainda choca os especialistas.


Nas palavras de Susan Atkins, "Manson era uma figura paterna que todos queriam agradar. Todos desejavam que ele sorrisse e dissesse algumas palavras incentivadoras, e quando ele o fazia, era como experimentar a maior felicidade do mundo. Não há como explicar! Nossa vida estava nas mãos dele... se ele pedisse para morrermos por ele, nós simplesmente morreríamos".

Charles Manson permaneceu confinado à uma cela isolada na Prisão de San Quentin, Califórnia desde sua condenação em 1971. Seus pedidos para obter liberdade condicional foram negados apesar de exaustivas tentativas. Semana passada, Manson morreu de causas naturais, aos 83 anos de idade.

A despeito de sua morte, o horror de suas ações continuará a nos assombrar por muito tempo.

Para ler mais a respeito da Família Manson leia aqui:

Os Crimes da Família Manson

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Lobotomia - Ferindo o olho da Insanidade


Por Marco Poli de Araújo

A idéia de uma lobotomia (na verdade leucotomia - ressecção células brancas do tálamo) existia em 1890, sendo apresentada e efetuada formalmente em 1935, quando o cirurgião português ANTONIO EGAS MONIZ, de Lisboa, descobriu que a interrupção do córtex frontal ao tálamo aliviava os sintomas psicóticos em alguns de seus pacientes. O procedimento era uma cirurgia e não era indicado para todos os casos.

Em 1936, o americano WALTER FREEMAN desenvolveu a "lobotomia com picador de gelo". Efetuada rapidamente e com anestesia local, o procedimento consistia em martelar um picador de gelo acima de cada olho e movimentá-lo de um lado ao outro (posteriormente o picador foi substituído por um espeto mais elegante, com a mesma função). O procedimento não era complicado e demorava alguns minutos nas mãos de um cirurgião experiente.

Entre 1936 até 1950 cerca de 40 a 50 mil pacientes foram submetidos à lobotomia para as mais diversas afecções, psiquiátricas ou não (como rebeldia ou desvios sexuais por exemplo). Hoje considerada ultrapassada, foi fundamental como origem e teoria das atuais cirurgias neuropsíquicas exterotáxicas.

A lobotomia corta as conexões do tálamo anterior, responsável pelas transmissões para as zonas racionais do encéfalo, eliminando as respostas conscientes aos impulsos emocionais.

Walter Freeman realizando uma demonstração do procedimento de Lobotomia.
Em casos de psicoses, o paciente fica "calmo e tranquilo", pois os disparos emocionais constantes causadores da doença cessam. Diferente de uma psicocirurgia estereotáxica, a lobotomia é muito grosseira. As interconexões cortadas são importantíssimas; levando à perda da empatia, noções de auto preservação, interpretação e conscientização de emoções, atenção focada, controle de estados conscientes e a perda de alguma agressividade e medo tidos como saudáveis.

O indivíduo fica dócil, comportado e treinável, mas perde características de personalidade tidas como humanas, que decorrem justamente da conscientização emocional.

As descrições clínicas de sucesso dizem respeito à casos extremos de psicose (que realmente melhoram com o procedimento) ou consideram sucesso a adequação do indivíduo aos moldes sociais aceitáveis para a época. Daí a percepção pública que a lobotomia "mata a alma" da pessia, tornando-a apática.

Aspectos como linguagem, escrita, coordenação, pensamento racional e sentidos NÃO SÃO afetados em procedimentos bem feitos. Também ficam preservados os impulsos iniciais de medo e ódio, sendo reações inconscientes. O indivíduo percebe estas emoções mas não consegue processá-las ou interpretá-las (pode reagir mas não conscientizar a reação).

Usando Lobotomia em Chamado de Cthulhu

Lobotomia traria vantagem à um personagem de CoC em relação a perda de sanidade? Considere o resultado: o procedimento é irreversível (exceto talvez por mágica) e sujeito à complicações graves tanto físicas quanto mentais. A incapacidade de interpretar emoções já restringiria o personagem como investigador. Mesmo um procedimento moderno, sem os mesmos riscos, acarretaria isto.

As ferramentas da Lobotomia
Se considerarmos magia, as restrições aumentam. Podemos imaginar que qualquer interrupção na integridade das conexões cerebrais (seja por conceito anatômico, chakras, cabala etc.) inviabilizaria o personagem de usar QUALQUER feitiço, ou mesmo resistir a seus efeitos. Embora fosse seguro admitir que resistiria a feitiços que causem medo ou insanidade, poderia ficar mais vulnerável a compulsões, encantos, dominações ou mesmo ilusões.

A lobotomia poderia ser usada em um feiticeiro para impedi-lo de continuar a praticar magia; uma solução "mais humana" que a fogueira...

Sugiro que os personagens lobotomizados testem primeiro sua CON (pode ser um teste percentual no CoC moderado ou como preferir no seu sistema) para ver se sobrevivem ao procedimento, seguido de um teste de sanidade (1d10/2d10) onde insanidade temporária ou indefinida fossem catatonia ou apatia. Verdadeiras cirurgias (a original de Egas ou a psicocirurgia) dispensam testes de CON e levam a menor perda de sanidade (1d6/1d10). Sobrevivente ou recuperado, o personagem teria:

Penalidade em todas as habilidades sociais/investigativas (20% ou -4)
Penalidade em aparência, carisma (-1)
Impossibilidade de praticar magia (itens mágicos, exceto pergaminhos OK)
Penalidade em resistir efeitos mágicos de encanto/domínio/ilusão (-20% ou -4)
Bonus em resistir efeitos mágicos de medo ou emoção (+ 25% ou +5)
Imune a efeitos mágicos de insanidade

Propaganda dos anos 1920 para material de Lobotomia
Procedimentos mal sucedidos que não matem o personagem resultam em insanidade permanente, o dobro das penalidades além de penalidades em atividades motoras de 20% (-4). Mas mantêm os bonus e imunidades.

Insanidade:

O personagem NÃO precisaria testar sanidade. Nunca mais. Nem sofrer seus efeitos. Mas SEMPRE perderia o MÍNIMO de sanidade nos encontros (a parte inconsciente do horror). Também não recuperaria sanidade com tratamentos ou magia, apenas receberia o mínimo de recompensa após a sessão, mas sempre receberia.

A falta de conscientização e racionalização dos horrores cósmicos, embora proteja o indivíduo de seus efeitos piores, não impediria a gradativa e inexorável degradação do investigador, mesmo que ele não percebesse.

Racionalmente ele até poderia entender que faz algo heróico, mas seria incapaz de processar totalmente o resultado de suas ações, para o bem ou para o mal.

ANATOMIA E FISIOLOGIA:


O cérebro tem uma organização vertical, onde áreas superiores são mais conscientes que as inferiores. A central de recepção e retransmissão dos vários impulsos entre o cérebro consciente e o cérebro instintivo é o tálamo (estrutura ovóide em cada lado do córtex). Nele estão as interconexões entre o córtex e os vários sistemas cerebrais, como o límbico e o hipofisário.

O córtex cerebral é responsável pelas sensações conscientes, pensamento racional e abstrato, memória, raciocínio e planejamento. O sistema límbico é responsável pela emoção e memória de longo prazo, assim comi respostas ao ódio e medo (região da amígdala).

O córtex frontal abriga os centros racionais e de interação social. Quando ocorre um estímulo emocional, as informações do sistema límbico são enviadas ao córtex frontal e pré frontal, produzindo as sensações e ações conscientes. Este circuito depende da integridade das conexões tálamo - córtex, onde as ligações com o sistema hipotálamo - hipófise - amígdala são fundamentais para as reações conscientes e respostas à raiva e medo.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Baralho de Insanidade - Tire uma carta e enlouqueça por completo



Opa pessoal,

Esses dias me dei conta de que não havia compartilhado as imagens do Baralho de Insanidade que fiz para Call of Cthulhu 7th Edition. E já tem um tempo que fiz esse recurso para as aventuras.

Eu tive a ideia com base no Baralho original da Chaosium e encontrei algumas ideias para cartas na internet. outras eu produzi usando o mesmo estilo e padrão de layout.

Essas cartas substituem as rolagens de dado para determinação da Insanidade obtida, tanto a Temporária quanto a de longa duração. Produzi um total de 26 cartas com desenhos bem evocativos de cada insanidade. Eu venho usado nas minhas mesas e tem funcionado muito bem.

Fiz a impressão em papel fotográfico e protegi com esse plástico de crachá, mas sem dúvida sleeves específicos para jogos de tabuleiro também seriam adequados.  

As cartas seguem o mesmo modelo com o nome da Insanidade, uma breve explicação do seu efeito e a duração em horas ou rodadas.

Essa é a coleção inteira.

Algumas insanidades são específicas, elas não estão originalmente nas tabelas da 7a edição, mas acho que funcionam muito bem. Self Mutilation (Auto- Mutilação) por exemplo, é uma insanidade bem malvada que pode deixar o personagem rapidamente em maus lençóis.

As cartas de "Histeria Física/Explosão Emocional" e de "Surdez, Cegueira e Paralisia Psicosomática".

A carta Violence (Violência) sinaliza uma explosão de agressividade que já saiu algumas vezes nas minhas aventuras. Amnesia (Amnésia) e Intense Phobia (Fobia Intensa) 

Compulsive Rituals (Rituais Compulsivos) que força o personagem a alguma atividade repetitiva e Strange or Deviant Eating Desire (Desejo bizarro de Comer) uma insanidade especialmente cruel diate de alguma coisa nojenta. 

E um dos meus "favoritos" Strange Sexual Desire (Desejo Sexual Bizarro) que também não é nada bom quando se está frente a frente com um horror gosmento e tentacular.

terça-feira, 14 de março de 2017

Visões Aterradoras - Explicando as Alucinações sofridas por Assassinos e Vítimas



"Estes pensamentos horrendos e sanguinários, do que nasceram? 
Como puderam povoar a minha mente de modo tão vívido"?

Macbeth


Um dos aspectos mais sinistros no caso de Jesse Pomeroy, o Menino Demoníaco que aterrorizou Boston no século XIX, talvez sejam as declarações dele a respeito do Demônio Vermelho, uma espécie de alter ego que ele assumia sempre que ele estava prestes a cometer um de seus horríveis crimes.

[Se você não leu o artigo a respeito desse caso chocante, leia o link]

O Demônio Vermelho nas palavras do próprio assassino seria uma entidade independente, uma criatura maligna que se manifestava sobre ele e lhe conferia capacidades sobrenaturais. Pomeroy afirmava que o demônio lhe concedia força, rapidez, furtividade e a capacidade de ficar virtualmente invisível. A criatura teria ocultado Jesse e uma de suas vítimas, Horace Millen quando os dois estavam numa praia bem diante de testemunhas que não perceberam a presença de assassino e vítima a poucos metros de distância. Mesmo enquanto Millen chorava e pedia ajuda, duas pessoas próximas foram incapazes de ouvir as lamúrias.

Ao relatar essa história, o assassino afirmou categoricamente que a crença de que era "ajudado" por uma criatura sobrenatural foi essencial para ele continuar matando. De fato, Pomeroy atestou que se não tivesse sido capturado, provavelmente continuaria colecionando vítimas inocentes: "O Demônio me inspirava e ajudava a fazer isso".

Ao descrever os crimes, tanto as surras quanto os assassinatos de maneira minuciosa, Jesse explicava ver a si mesmo na forma do Demônio Vermelho, uma criatura com pele escarlate, olhos brancos e chifres. Enquanto utilizou um depósito de ferrovia como seu covil, ele chegou a pendurar um espelho na parede, para que pudesse ver a si mesmo na forma diabólica. O garoto contou aos seus entrevistadores que ao pintar o rosto com tinta vermelha ou sangue, sentia de imediato a presença do Demônio Vermelho. Era como uma senha para que ele pudesse se transformar.


A Psiquiatria reconhece que assassinos em série, desenvolvem cada qual, um elaborado ritual pessoal no qual fantasiam com determinado acontecimento. Quando este cenário, visto e revisto em suas mentes incontáveis vezes, é trazido para a realidade, eles são arrebatados por um turbilhão de emoções. Do ponto de vista neurológico, seus cérebros se ativam, produzindo elementos químicos em enorme quantidade capazes de promover delírios alucinatórios.

Muitos assassinos que sofrem de Esquizofrenia e outras Desordens Psicóticas também recorrem a elaboradas fantasias para justificar seus crimes. Alguns se vêem como indivíduos diferentes, capazes e perfeitamente inabaláveis. Outros enxergam a si mesmos no papel da vítima, isso quando não imaginam a vítima como alguém que desejam ferir. Não são raros aqueles que acreditam que há pessoas ao redor testemunhando o crime, os que ouvem vozes, sentem cheiros e que se vêem transportados a outros lugares significativos. A avassaladora onda de elementos químicos produzidos pelos seus cérebros e liberados pela consumação da fantasia, manifesta todo tipo de experiência. 

Jefrey Dahmer, o Canibal de Millwaulkee via a si mesmo como um homem bem mais forte do que realmente era. Ed Gein e Ted Bundy enxergavam respectivamente em suas vítimas, as figuras da mãe e de uma antiga namorada. A visão os preenchia de uma profunda determinação e os impulsionava a matar impiedosamente. O maníaco Andrei Chikatilo ouvia as prostitutas que se tornariam suas vítimas rindo dele momentos antes, mesmo quando elas estavam em silêncio. O Filho de Sam (apelido pelo qual assassino David Berkowitz ficou conhecido), escutava vozes dando ordens em meio aos latidos de cães da vizinhança, comandando-o a matar. Richard Ramirez acreditava que Satã enviava mensagens em meio aos solos de guitarra de bandas de heavy metal compelindo-o a matar. Durante o estado de frenesi atingido nos crimes que praticou, ele via a si mesmo como um demônio, em um delírio muito semelhante ao de Jesse Pomeroy.

Muitos pesquisadores contemporâneos acreditam que Pomery delirava com o "Demônio Vermelho" como uma forma de externar suas frustrações pessoais. Uma vez que ele tinha um histórico de agressão, sofrendo frequentes maus tratos por parte de seu pai, ele criou um Alter Ego capaz de não apena suportar essa brutalidade, mas redirecioná-la aos outros. Jesse via a si mesmo como uma criança fraca, mas quando surgia o Demônio Vermelho, se tornava poderoso e capaz de ferir as pessoas da mesma maneira que seu pai o feria. Jesse se igualava ao pai, compartilhava de sua força e autoridade.


Não é totalmente estranho, portanto, que assassinos durante o frenesi experimentem alucinações, mas o que dizer das vítimas que descrevem assassinos como se fossem demônios, monstros e criaturas não-humanas?

Não são raros os testemunhos de vítimas que sofreram violência extrema ou tortura e que descrevem seus algozes como monstros sobrenaturais. Até recentemente, muitos desses testemunhos eram desqualificados em face de suspeitas de que o criminoso pudesse estar usando um disfarce no intuito de aterrorizar a vítima. Também não se podia descartar a possibilidade do assassino usar drogas (PCP, LSD etc) ou outras substâncias capazes de provocar alucinações.

Contudo, um estudo aponta que alucinações podem ocorrer em pessoas que não sofrem de doenças mentais. Privação severa do sono, inanição e desidratação podem resultar em alucinações. A transição do estado desperto para o de sono e vice versa repetidas vezes também pode gerar um esgotamento e ocasionar alucinações. Finalmente, o stress desencadeado pelo choque pós-traumático (PTSD) e por situações extremas (como tortura) são catalizadores eficazes de delírios alucinogênicos. Segundo o estudo, vítimas de violência extrema podem enxergar seus agressores como monstros ou demônios. Em alguns casos, as vítimas experimentam não apenas alucinações visuais e auditivas, mas também olfativas e tácteis que são consideravelmente mais raras. 

Uma gravação feita pelo atroz assassino em série Denis Rader (mais conhecido como B.T.K) com uma de suas vítimas, denota um delírio dessa natureza. A vítima, uma mulher que havia enfrentado uma terrível tortura física e mental, passou a enxergar Rader como um monstro abominável e não como um ser humano. Após repetidas sessões de tortura, ela gritava sempre que ele aparecia na sala que lhe servia de cativeiro. Dizia coisas como "Você é um demônio! Eu vejo como você é de verdade!".  O assassino, em entrevistas posteriores, contou que várias de suas vítimas demonstravam esse comportamento.

Uma das vítimas de Peter Sutcliffe, que escapou de ser morta por ele, descreveu o infame "Estripador de Yorkshire" como uma criatura infernal, com direito a pernas de bode e chifres. Ela foi incapaz de fazer seu reconhecimento positivo durante o julgamento. Tudo o que ela lembrava era de estar frente a frente com um monstro demoníaco e não com um homem.


Outro sobrevivente, dessa vez atacado pelo maníaco da Costa Oeste dos Estados Unidos, o infame Zodíaco, agonizou aos pés do assassino após ser repetidamente esfaqueado. Apesar de ter escapado com vida e de ter visto o matador a poucos metros, tudo que ele conseguiu descrever foi que ele exalava um fedor insuportável de enxofre.

A tese muito debatida, é que a mente da vítima cria alucinações para aplacar o horror pelo qual está passando. É uma maneira do cérebro processar a informação interpretando que "nada no mundo real poderia ser tão terrível". Essa teoria ainda é muito controversa entre pesquisadores encontrando defensores e ainda mais, críticos.

Poderia ser essa a explicação para vários "monstros assustadores" que as pessoas acreditavam existir no passado, como vampiros e lobisomens. A origem desses monstros da ficção, tudo sugere, tem raízes na realidade e em monstros muito reais de carne e osso.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

"A mais horrível das Mortes" - A Execução do Cidadão Damiens em Paris


Robert François Damiens tinha 42 anos de idade quando morreu de forma medonha.

Ele foi morto em uma tarde fria em 28 de março de 1757. O tamanho do horror infligido a ele ainda nos assombra. Não apenas em função dos detalhes grotescos e da narrativa das várias testemunhas que estiveram presentes ao suplício encenado na Place de Greve, Centro de Paris, mas por ser um daqueles momentos que desafiam a nossa noção de civilização. Que tipo de pessoa realiza tal coisa? Que tipo de criaturas produzem tamanho horror de forma proposital?

Para muitos, a execução do Cidadão Damiens foi um dos pontos mais baixos da história humana. O equivalente em pequena escala ao Holocausto e aos Campos da Morte. Um momento em que deliberadamente não se matou uma pessoa, mas se vitimou a humanidade como um todo. Eles fizeram o que fizeram, por que podiam, e por que ninguém fez nada para pará-los.

O crime de Damien foi agredir o Rei Luis XV e feri-lo com um canivete. Damiens, era um humilde serviçal doméstico que trabalhava no Colégio Jesuíta de Paris. Até então, contaram as pessoas que o conheciam, ele jamais havia dado sinal de ser um indivíduo violento. Mas o que o levou a atacar o homem mais poderoso da França? Alguns acreditam que ele era membro dos Jansenitas, uma seita cristã tratada como herética e que criticava abertamente a monarquia e seus excessos. Para alguns, ele tinha problemas mentais e interpretou equivocadamente as palavras de um pastor em seu sermão.  Acreditava que matasse o Rei, iria para o paraíso. Seja com for, não há dúvidas de que ele agrediu o monarca, ainda que alguns levantem suspeitas de que sua intenção não era matá-lo. Após o ataque desajeitado, Damiens foi capturado e levado para uma masmorra. Lá foi torturado para que revelasse o nome de possíveis comparsas. Torturado com pinças em brasa, ele jurou que havia agido sozinho e que não era parte de uma conspiração. Terminaram acreditando nele. 

Logo após o ataque houve muitos rumores desencontrados. Alguns acharam que o monarca corria risco de vida em face do ferimento, tanto que um padre foi trazido para dar a Extrema Unção. Médicos foram chamados para tratar de seu ferimento e por alguns dias chegaram a achar que o Rei estava entre a vida e a morte. Na verdade, o ataque produziu apenas um corte superficial em Luis XV. O casaco grosso que ele usava na ocasião serviu para desviar a lâmina e fazer com que ela meramente arranhasse seu peito.

O Parlamento de Paris acusou o réu de "Tentativa de Regicídio", uma transgressão tão ofensiva e grave que, segundo os promotores, merecia uma punição à altura. Não houve julgamento ou inquérito formal, as testemunhas deixaram claro que ele era culpado. E se as testemunhas não fossem suficientes, a versão dada pelo Rei não deixava dúvidas de que o homem preso na Masmorra era responsável pelo ataque.

A sentença foi proferida: Damiens seria levado para a Place de Greve e lá despedaçado por cavalos.

A cerimônia de execução foi cuidadosamente planejada com semanas de antecedência. Os espectadores tiveram a oportunidade até de comprar lugares na primeira fila, bem diante do patíbulo que foi montado no centro da praça. Camponeses dormiam ao relento para garantir o melhor lugar e o vendiam por um valor equivalente a um mês de trabalho. A multidão esperada para assistir ao evento era tão numerosa que as autoridades cogitaram mudar o lugar para que todos pudessem assistir o aguardado suplício. A sede de sangue da população era tamanha que não se falava de outra coisa nos mercados e ruas de Paris. Decidiram manter a Place de Greve por considerar de mau gosto conduzir aquele espetáculo em outro lugar. 

Homens e mulheres com interesse em crueldade e perversidade, vieram de províncias distantes, viajando dias pelas estradas para chegar a tempo de testemunhar a execução. Era um assunto de estado para os franceses, mas isso não impediu que sádicos de outras nações viessem. Vários nobres e plebeus ingleses fizeram questão de atravessar o Canal da Mancha, entre os quais o baronete George Selwyn, que em suas próprias palavras "não perderia o espetáculo por nada". Selwyn viajou com a esposa, quatro filhos, duas filhas, genros, noras e netos além de uma entourage de criados. Ele era descrito pela filha mais nova como um pai gentil e amoroso. Um famoso Juiz italiano chamado Abruzzo também desejava estar presente e chegou a agendar viagem, mas ficou doente na véspera. Ele enviou uma carta a um primo distante que vivia nos arredores de Paris e pediu a ele que fosse em seu lugar e que tomasse notas de cada procedimento para depois lhe fazer um relato minucioso, "sem esquecer nenhum detalhe, do mais inocente ao mais vil".

Aparentemente, o Rei não estava de acordo com o espetáculo planejado. Ele não queria que Damiens fosse torturado na masmorra e não desejava que o suplício fosse prolongado ou que tivesse a participação do público. Luis XV, não estava satisfeito com nada daquilo, sobretudo por que tudo estava sendo feito em seu nome. Infelizmente as pessoas ao seu redor, nobres, legisladores e clérigos garantiam que aquela era a única maneira de salvaguardar a monarquia contra outros assassinos traiçoeiros. Uma demonstração à altura mostraria a todos que o Rei era inatingível e desencorajaria novas tentativas de assassinato. Até o último momento, o Rei tentou cancelar a realização daquele sangrento evento, mas nos últimos dias a coisa havia atingido uma repercussão tamanha que se fosse cancelado, a população poderia se revoltar. Contrariado, o Rei se trancou em seu palácio e dizem, quando enfim lhe contaram como transcorreu a execução, afundou em profunda depressão.

É interessante imaginar o que se passava na cabeça das pessoas que compunham os três estados que compunham o Ancient Regime. As mentes mais brilhantes do Iluminismo clamavam por uma resposta, bem como os nobres que queriam coibir revoltas. Os Religiosos diziam que era a maneira de proceder contra quem atentava contra o Governante Divino. A população estava faminta e ansiosa por um espetáculo macabro. Todos concordavam em um ponto: o réu deveria sofrer e nada seria considerado cruel demais nesse caso específico.

Escoltado de sua cela até uma carroça, Damiens teria dito assim que viu a saída: "O dia hoje será difícil" - estava certo! Ele foi levado pelos soldados até a Place de Greve sob uma chuva de frutas podres e xingamentos, passando lentamente através da multidão que lotava as ruas. A Gentlemans Magazine, uma publicação da época, descreveu cada momento do suplício em detalhes que fizeram a alegria de seus leitores. A revista em sua edição do mês vendeu como nunca.


O verdugo, um homem pitoresco chamado Charles Henri-Sanson - que no final da carreira contabilizava mais de 3 mil execuções, iniciou os procedimentos usando um instrumento chamado "boots" que comprimia as pernas de modo extremamente doloroso. Mas aquilo era apenas o início. A mão com a qual o agressor atentou o crime recebeu atenção especial: ela foi queimada com enxofre, cera quente, óleo fervente e chumbo derretido. Unhas arrancadas e cada osso das falanges feito em pedaços por marretas. Em seguida, pinças afiadas aquecidas em uma fornalha foram usadas para arrancar pedaços de carne da barriga e das costas de Damiens. A multidão urrava e aplaudia a cada momento do show grotesco, sobretudo quando bocados foram jogados para um grupo de cães de rua. O espetáculo durou mais de quatro horas com o executor deixando a vítima descansar e então recomeçando seu sangrento trabalho.

Finalmente o especialista decidiu que era o suficiente, temia que mesmo com todo seu conhecimento de anatomia, continuar seria perigoso e frustraria a platéia. Ele ordenou que quatro cavalos fossem trazidos junto com as cordas para serem amarradas nos pulsos e tornozelos da vítima. Uma grande ovação se seguiu a entrada dos grandes cavalos, cedidos por uma popular estrebaria de Paris. Sanson verificou se as cordas estavam bem presas e ordenou que os animais começassem a puxar em quatro direções diferentes. Os animais puxaram e puxaram, mas eles não conseguiram separar os membros do corpo, provavelmente porque os cavalos estavam muito assustados com os gritos da multidão.

Finalmente depois de quatro tentativas infrutíferas, o assistente de Sanson, um rapaz de 17 anos, sobrinho do executor, sugeriu cortar os tendões para facilitar o serviço.

"Está bem!" teria dito Sanson e mandou o rapaz ir buscar um machado. Um espectador que por acaso estava nas primeiras filas era um cirurgião e pediu permissão para se aproximar e demonstrar onde seria melhor fazer as incisões para desalojar os membros com maior facilidade. O cirurgião chegou a ser aplaudido pela turba enquanto mostrava como deveriam proceder. Fez inclusive uma propaganda de seu consultório na Rua de Liddy. Finalmente, através desse método eles tiveram sucesso. Os cavalos devidamente chicoteados puxaram com força e desmembraram braços e pernas que foram devidamente secionados. Um rugido pode ser ouvido em meio a multidão comemorando a "justiça"!

Alguns afirmam que Damiens ainda estava vivo, mesmo reduzido a torso e cabeça. E que ficou vivo enquanto se acendia uma pira onde onde o que havia restado dele seria queimado. Dizem até que ele demonstrou curiosidade ao ver a turba disputando braços e pernas arrancados pelos cavalos como troféus: "Aquela é minha perna? Aquele é meu braço?" teria perguntado.

Finalmente o espetáculo foi concluído, quase sete horas depois de se iniciar, quando o que havia restado enfim foi lançado em uma pira acesa para se transformar em cinzas dispersas pelo vento.


Diante de tudo que aconteceu, o famoso amante veneziano Giácomo Casanova, que assistiu a execução em um lugar privilegiado, escreveu em seu diário:

 "Todos pareciam enfeitiçados pelo espetáculo e assistiam por horas e horas (...) Em diversas ocasiões fui obrigado a olhar para o outro lado, fechar meus olhos e tampar meus ouvidos para não ver ou ouvir o que estava acontecendo. Não podia deixar meu lugar, pois a multidão não se movia um centímetro, alguns riram quando eu tentei evitar aquela visão infernal. Mesmo com metade do corpo de Damiens despedaçado, as pessoas pediam mais, mais, mais (...) Lambertini e Madame XXX, no entanto não moviam um músculo. Será que seus corações haviam endurecido de tal forma? Eles me contaram mais tarde, e eu fingi acreditar, que o seu horror era tamanho que eles não conseguiam dar vazão ao seu desejo de implorar pelo fim daquele tormento".

Outra coisa que chocou Casanova foi a presença de mulheres e crianças na platéia: "elas gritavam mais do que qualquer um, a cada corte e golpe desferido vibravam em satisfação". Segundo ele, algumas senhoras lançavam seus lenços sobre o patíbulo para que eles ficassem empapados de sangue, tornando-se assim itens valiosos, ligados diretamente à mais famosa execução que Paris jamais assistira.

Finalmente, terminado o espetáculo macabro, uma grande turba marchou até a casa de Demiens com intuito de saquear, destruir e finalmente incendiar o lugar até o chão. Na loucura, roubaram e incendiaram também as casas dos vizinhos. Os familiares de Demiens foram perseguidos, mas aparentemente conseguiram escapar, alertados de que a multidão poderia vir atrás deles. A maioria teve o bom senso de mudar de nome e deixar Paris. Distúrbios e quebra quebras se seguiram nos dias posteriores com assassinatos, estupros e agressões sendo cometidos impunemente. Qualquer um que dissesse estar comemorando a execução parecia ter um "salvo conduto moral" para participar da baderna. Um homem que tinha o sobrenome Damien - e que aparentemente não era parente do réu, quase foi linchado nas ruas alguns dias mais tarde. Um estrangeiro que chamou os franceses de bárbaros foi agredido e por pouco não morreu com o crânio despedaçado por uma garrafada. Paris estava alucinada pela violência e nada parecia ser capaz de saciá-la.

A sede de sangue continuava forte, era como se o rumor ainda pudesse ser ouvido: "Mais, mais, mais".

Por décadas a lembrança daquele dia sangrento e da bruma escarlate que desceu sobre a população, enlouquecendo a todos, continuou fresca na memória dos parisienses. Boatos sobre o fantasma desmembrado atravessaram as décadas, com rumores de que ele assombrava a Place de Greve. Até os cavalos usados na execução dizem, se tornaram amaldiçoados, tendo posteriormente provocado a morte de todos os seus donos em acidentes inexplicáveis. As cordas usadas para despedaçar o corpo de Damiens teriam sido usadas à bordo de um navio que afundou matando toda tripulação. O poderoso Robespierre que teria estado presente à execução de Demiens e que perdeu a cabeça na guilhotina, teria sonhado com o martírio do primeiro na noite anterior ao seu encontro com a "Mademoiselle Guilhotine".

Décadas se passaram e o pesadelo da execução continuava reverberando.


Contudo, a morte infernal de Demiens foi apenas o prelúdio do que estaria por vir na França depois de 1789. Morte, Sangue e Caos lavariam as ruas de Paris em uma torrente que resultaria na Revolução que derrubou o Regime e mudou o futuro da Nação para sempre. No fogo da revolta, o nome de Demians seria gritado pelos sans-culottes, enaltecido como de um revolucionário pioneiro que tentou assassinar o tirano. O primeiro revolucionário, alguns assim o chamaram. Curiosamente, a mesma população que vibrou com sua morte no patíbulo, alçaria seu nome à constelação dos Heróis da Revolução. 

O terrível acontecimento, chamado de "A mais terrível das mortes" inspirou teóricos e filósofos a escrever tratados condenando a tortura e a pena de morte de modo veemente. Até hoje, a execução é um líbelo contra a pena capital citado por juristas. De Cesare Beccaria a Michel Foucault, vários pensadores redigiram importantes trabalhos que ajudaram a ecoar o sentimento de repúdio diante das execuções públicas, tratadas doravante como um espetáculo cruel e despótico.

Mas quando cai a noite, o som ainda é ouvido nas ruas assombradas da Cidade Luz. O rugido de uma população que se entregou ao desejo de vingança no mais bizarro espetáculo lá encenado.

Mais, mais, mais...

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Sanidade, Insanidade e a força do Mythos - Por que investigadores enlouquecem?


Once I had a little game 
I mean the game called "go insane"
Forget the world, forget the people 
And we'll erect a different steeple

Jim Morrison - A Little Game

No coração das ambientações inspiradas pelo Horror Cósmico está o conceito de Insanidade, um abrigo pessoal no qual os personagens buscam refúgio quando a realidade se torna assustadora demais e insuportável além da conta.

A maioria dos indivíduos diagnosticados com algum tipo de insanidade nasce com uma anormalidade mental com a qual terão de conviver até a morte. Os heróis de Call of Cthulhu, no entanto, são pessoas normais que enlouquecem em decorrência de seu contato com o perigoso mundo dos Mythos.

Eles se tornam insanos como um mecanismo de defesa diante da absoluta falta de humanidade daquilo que é conhecido como Cthulhu Mythos. Investigadores e outros personagens de ambientações lovecraftianas compartilham de uma mesma fraqueza, afinal de contas, todos eles são humanos. Não há super poderes, magia ou capacidade sobrenatural capaz de blindar a mente do investigador que se embrenha nessa rota abominável.

Os Mitos são como uma substância radioativa, uma espécie de plutônio que corrói a mente, contaminando e deteriorando a razão de tal maneira que nem mesmo o mais sensato dos homens, o mais razoável dos indivíduos, escapará incólume de sua depredação. Uma mente tocada pelos Mitos jamais irá se recuperar por inteiro.

Mas antes de mergulhar na questão dos Mitos e como ele afeta a mente humana, devemos estabelecer o que é Sanidade.

A Sanidade é o estado mental de consciência existencial. A Sanidade representa o controle, a estabilidade e a capacidade de racionalização do indivíduo. Nos jogos Lovecraftianos, a sanidade também representa a capacidade do personagem de suportar e se proteger de choques emocionais arrebatadores. Aqueles que iniciam o jogo com um número alto de sanidade possuem uma mente forte. Eles são capazes de racionalizar coisas absurdas, afastar lembranças nocivas e repudiar visões devastadoras. Aqueles com pouca sanidade são mais frágeis, e portanto são mais suscetíveis ao choque e horror que os conduz a loucura.


No jogo, é o choque emocional que causa a insanidade. Mas de onde vem esse choque emocional?

Em primeiro lugar, a grande maioria das Entidades dos Mitos de Cthulhu são absolutamente terríveis. São a matéria de pesadelos manifestadas no mundo real da maneira mais direta e crua possível. As criaturas que compõem os mitos são monstruosidades blasfemas que na concepção humana não deveriam existir ou ao menos não deveriam ocupar um lugar no universo natural em que vivemos. Lovecraft deliberadamente optou por fazer suas criaturas serem alienígenas ao extremo. Em sua obra, podemos sentir que ele tenta desesperadamente encontrar adjetivos capazes de descrever essas entidades, mas a tarefa se mostra impossível pois não existem palavras capazes de fazer jus a tais seres. Eles são por definição impossíveis, indescritíveis, imponderáveis... e quanto mais estranha aos nossos olhos a sua forma, maior o choque produzido.

Saber da existência de tais poderes cósmicos faz com que a percepção familiar de um universo em ordem e compreensivo, desmorone por inteiro. A mera existência dos Mitos, e sua capacidade de perverter as Leis da Natureza se apresentam como um ponto de ruptura para a mente humana. Os Mitos de Cthulhu desafiam os conceitos de razão e dedução, não há como entendê-lo sob um prisma seguro, ele está além de qualquer conceito estabelecido pela humanidade. Humanos não podem começar a compreender essa força, sem de alguma forma baixar suas defesas e abrir a mente para essas noções. Em suma, ao sentir o pulso dos Mitos reverberando em todas as coisas; a razão e a sanidade são sacrificadas para sempre. Abraçar a loucura é a única maneira de continuar vivendo depois de tocar esse coração profano.

Para aqueles que esbarram no conhecimento pérfido dos Mitos, loucura ou a ameaça constante da loucura, se torna uma companhia constante. Nos jogos, conhecimento a respeito do Cthulhu Mythos reduz os pontos de sanidade exponencialmente. Quando um personagem toca os segredos do Mitos ancestrais, o peso emocional e a sobrecarga mental dessas revelações se tornam um fardo pesado para ser carregado. A mente sofre com essas revelações e vai deteriorando cada vez mais: ele falha em testes de sanidade cada vez mais frequentemente, a insanidade permanente passa a ser uma realidade a medida que a espiral de loucura puxa o indivíduo cada vez mais fundo.


Muitos jogadores vêm o aumento da habilidade Cthulhu Mythos como uma espécie de recompensa da aventura. Na realidade, esse conhecimento é como uma doença que se instala na mente, um câncer disposto a crescer sem controle se for alimentado. Embarcar na busca de pontos de Mythos de Cthulhu é uma forma de condenar o personagem a um destino cruel do qual não há volta.

Cabe ao mestre explicar claramente o que representa esse saber e fazer com que os jogadores compreendam no que estão se metendo. Nenhum personagem, exceto os suicidas, os já insanos ou os que tem pré-disposição para se tornarem cultistas se embrenham profundamente nessa busca desejando de corpo e alma desvendar seus mistérios profanos.

Mas como fazer com que os jogadores compreendam o que significa ser exposto aos Mitos? Como fazer com que os jogadores não apenas quantifiquem o custo de sanidade em termos de pontos perdidos?

Na minha opinião, o Mitos deve produzir uma espécie de cicatriz nos personagens. Ele não deve se limitar a perda de uma quantidade determinada de pontos e nada mais. O Mitos deve repercutir na existência e na alma do personagem, dali em diante o saber adquirido causará no personagem efeitos dos quais ele não poderá (e não conseguirá!) se dissociar.

Muitos dos jogadores iniciantes em Chamado de Cthulhu perguntam por que seus personagens estão sujeitos a loucura e ficam impotentes diante dos horrores. Alguns não entendem a causa da insanidade que acomete os personagens.


Eu gosto de explicar da seguinte maneira:

Ser exposto ao conhecimento dos Mitos Ancestrais equivale a ser suplantado por uma onda de horror, pessimismo e impotência diante de uma força inacreditável. Equivale a descobrir de uma hora para outra que o universo não se importa com a humanidade. Que nossa espécie é um mero acidente no percurso cósmico e que de um momento para o outro, nós podemos ser varridos da existência e ninguém sequer saberia disso. Mais do que a constatação da insignificância, os Mitos representam a certeza de que o universo não é organizado e sim caótico, não é perfeito e sim falho, não é benevolente mas absolutamente indiferente.

Não é apenas a feiúra dos monstros ou suas formas absurdamente bizarras, é a constatação de que aquilo simplesmente NÃO DEVERIA EXISTIR que obriga os investigadores a procurar na loucura o único alento restante.

Em seu próximo cenário, pondere como você jogador reagiria ao se deparar com as revelações do Horror Cósmico, e então, tenha pena de seu pobre personagem, pois no mundo deles, esses horrores são muito reais.

E tudo que resta, é a doce loucura...

sábado, 4 de abril de 2015

Fervor Divino - Sete surtos de loucura nascido da fé

8 Short-Lived Religious Manias That We're Lucky Didn't Stick Around
“A beleza dos surtos religiosos é que eles tem o poder de explicar praticamente tudo. Uma vez que Deus (ou Satã) é aceito como a causa de tudo que acontece no mundo mortal, nada mais resta... logica pode ser alegremente jogada pela janela.”


Stephen King - The Stand 

*     *     *

Todos os tipos de manias exercem influência sobre o inconsciente coletivo de tempos em tempos. E definitivamente manias religiosas estão incluídas no pacote. Isso não significa de modo algum afirmar que religião é sinônimo de bizarrice,  mas é impossível dissociar certos acontecimentos estranhos de interpretações errôneas de uma determinada doutrina religiosa. Felizmente, alguns dos mais intensos, assustadores e estranhos movimentos religiosos tiveram vida curta e desapareceram nos anais da história. Hoje, a maioria nem sequer é lembrada ou levada a sério, mas houve uma época em que surtos religiosos eram algo corriqueiro.  

Aqui estão sete movimentos religiosos que chamam a atenção pelo seu aspecto... peculiar.

7. As Condenações do Monge Savonarola


O monge italiano Girolamo Savonarola não estava totalmente errado em seus discursos. Se analisarmos o que ele dizia a respeito dos excessos da Igreja, podemos até concordar com muitas coisas. Na concepção de Savonarola a Igreja Romana estava contaminada por corrupção e só existia para se perpetuar no poder e alimentar seus luxos. Na época, em pleno Renascimento, muitas pessoas acreditavam que servir a Deus incluía entre outras coisas, construir grandes igrejas e catedrais e enchê-las com belas obras de arte: esculturas, pinturas, afrescos... Savonarola, no entanto condenava tudo isso. Em seus discursos nas ruas de Florença, o monge condenava artistas e mecenas que encomendavam a criação de obras de arte, na sua concepção decadentes e impuras. Dizia ele: "O belo é uma das máscaras prediletas do diabo. Amar o belo é compactuar com o inimigo de Deus". 

Foi então que as coisas ficaram assustadoras. As pessoas que ouviam os sermões do monge foram tomadas por um tipo de histeria, e levaram as palavras dele ao pé da letra. Elas corriam para casa ansiosas por destruir tudo que era belo. Na sua sanha não poupavam instrumentos musicais, adornos, jóias e nem mesmo animais de estimação. Sabe-se de cavalos e cães de raça que foram trucidados e de trajes finos que foram retalhados. Pintores consagrados da Renascença, incluindo Botticelli, foram afetados por esse discurso. Eles próprios ateavam fogo nas suas telas. Alguns artistas ficaram tão impressionados com os discursos que abandonaram suas carreiras. Logo que as pessoas terminavam de destruir o que tinham de bonito, elas se voltavam para seus vizinhos. Um ateliê pertencente ao artista La Chaclo foi invadido por uma turba que se pôs a destruir as esculturas que encontrassem pela frente. Na Catedral de Florença um afresco foi dilapidado a golpes de marreta e coberto de cal. Imagens sacras foram despedaçadas e verdadeiros tesouros destruídos. No auge da loucura, como forma de destruir qualquer forma de beleza, mulheres tiveram os cabelos raspados, crianças foram marcadas com ferros em brasa e olhos chegaram a ser perfurados. 

Nós pensamos na famosa Fogueira das Vaidades, como um evento em que as pessoas de bom grado se livravam de suas roupas finas, jóias e obras de arte como forma de abraçar a humildade, mas na verdade muito do que foi queimado pertencia a outras pessoas. Em meio ao frenesi, grupos de crianças batiam a porta das casas e observavam se quem morava no lugar tinha algo bonito e portanto imoral entre as suas posses. Se fosse o caso, uma turba armada com facas, machados e tochas podia lhe fazer uma visita. A situação era tão surreal que uma comissão foi formada para avaliar o que era belo e o que não era aos olhos de Deus.

Uma fogueira foi a maior realização de Savonarola, mas ela também representou a sua queda. Todos sabiam que o monge havia colecionado inimigos ao apontar as extravagâncias da Igreja, mas como o homem era extremamente popular não podiam simplesmente removê-lo de uma hora para outra. Foi então que entrou em cena um pregador florentino que desafiou o monge a participar de um "julgamento pelo fogo". Ele propôs o seguinte desafio: se Savanarola estivesse completamente certo de que seus atos eram vontade divina, ele deveria colocar as mãos em uma fogueira. Se por vontade divina ele não fosse queimado ficaria provado que seu trabalho tinha o aval do altíssimo. Talvez ele estivesse iludido ou louco, o fato é que o monge aceitou o desafio. Como resultado ele se queimou diante de toda população da cidade. Em poucas semanas o monge perdeu sua influência em Florença, seus seguidores debandaram. Ele foi preso, torturado e executado pouco depois.

6. O Culto da Irmã Agnese Firrao


O Convento de St Ambrose, em Roma, foi fundado por uma freira chamada Agnese Firrao. Ela era conhecida pela sua extrema devoção e pela prática de provocar em si mesma sofrimento, algo que em meados dos anos 1800 já era considerado desnecessário. Ela fazia coisas como vestir máscaras de metal com cravos e espinhos, usava um chicote com cacos de vidro para se flagelar e mantinha uma enorme pedra de sal amarrada na língua. Ela alardeava que o sofrimento físico a deixava mais perto de Deus.

As coisas começaram a sair de controle quando a freira começou a andar pelas ruas supostamente curando os doentes. Isso a tornou cada vez mais popular, sobretudo entre os pobres. Em uma demonstração pública, ela ordenou ser flagelada e ofereceu gotas de seu sangue como unguento curativo para toda e qualquer aflição. Em outra ocasião ela ofereceu sexo oral a homens doentes que estavam sendo tratados em um albergue, alegando que poderia curá-los daquela maneira. 

O comportamento da freira era absurdo e a diocese desconfiava que ela fosse mentalmente perturbada. Acharam por fim melhor transferi-la para outro lugar onde ela não pudesse fazer tanto alarde. Assim foi feito, mas Agnese continuou se correspondendo com suas colegas.

No antigo convento em que ela viveu, as freiras se convenceram de que sua colega realizava milagres à distância e que era necessário propagar seus feitos. Elas criaram um Culto devotado a Irmã Agnese e decidiram que a melhor maneira de demonstrar sua devoção seria oferecendo favores sexuais à população de Roma. Através da consumação do ato sexual, elas acreditavam que doenças simplesmente desapareceriam e milagres seriam operados diante de todos. Não é difícil imaginar o tamanho do escândalo que as freiras de St Ambrose causaram na sociedade romana. Quando um grupo foi preso pelas autoridades acusadas de imoralidade, três delas tentaram se suicidar ingerindo veneno. Uma quarta freira tentou assassinar uma noviça que havia escapado do convento depois de testemunhar os estranhos rituais da irmandade. Ela foi detida e as demais seguidoras do Culto acabaram capturadas. 

A Igreja tratou do caso com discrição, tentando ocultar o escândalo. Posteriormente a ordem foi dissolvida, as freiras restantes mandadas para o interior e o convento demolido. 

5. O Movimento do Arrebatamento de Bryce

O Grande Desapontamento de 1844 dos Milleritas é bem conhecido. Nele, um grupo religioso acreditava que o Mundo terminaria em uma data prevista por seu profeta e quando o fim não chegou houve um grande... bem... desapontamento. As pessoas, afinal estavam certas de que o mundo terminaria e que elas seriam transportadas para o paraíso.

Outros movimentos surgiram na esteira dessa profecia não realizada. O Movimento Bryciano, surgiu na quatro anos depois do do Grande Desapontamento. Ele era liderado pelo pastor William Atherton Bryce que acreditava ter sido avisado por Deus da verdadeira data em que ocorreria o Fim dos Tempos.

Bryce contava com um séquito de pelo menos trinta pessoas, todas elas desiludidas e ansiosas pelo fim do mundo e pelas recompensas do além. O auto-proclamado profeta antecipou que o dia do arrebatamento viria logo e que seus fiéis se mantivessem sempre vigilantes e preparados, pois Deus havia revelado a ele a data exata do Fim dos Tempos, mantida em segredo. A medida que o tempo passava e o dia não chegava, os seguidores do pastor começaram a se perguntar se ele realmente sabia do que estava falando. Havia dúvida razoável, sobretudo porque Bryce começou usar de sua influência para desposar e deflorar as jovens filhas de seus seguidores mais fiéis, alegando que essa era a vontade divina. Quando confrontado mais incisivamente a respeito da data do fim dos tempos, ele não teve dúvidas e disse que ele aconteceria dali a uma semana.

Os fiéis ficaram exultantes e Bryce os conclamou a fazer uma peregrinação até o interior do estado do Kansas onde o profeta havia tido uma visão reveladora do lugar onde o arrebatamento se daria. Os membros do movimento o seguiram até o local escolhido, uma ravina ingrime e deserta onde eles deveriam aguardar o momento da revelação, marcado para a meia noite. Exatamente à meia noite, nada aconteceu, o mundo não acabou e não houve o prometido arrebatamento. Temendo que os fiéis fossem embora e o abandonassem, o profeta tentou seu último trunfo alardeando que o arrebatamento só ocorreria mediante um Salto de Fé no qual os fiéis deveriam confiar inteiramente no poder divino. Bryce convenceu seus fiéis que eles deveriam saltar da ribanceira e que ao invés de caírem seriam sustentados por anjos que os levariam para o céu. O pastor devia ter uma lábia considerável pois conseguiu convencer 12 de seus seguidores a se lançar no vazio.

Obviamente nenhum deles foi salvo e todos atingiram o fundo da ravina, metade morreu na queda.

Bryce foi preso e condenado por um tribunal do Kansas. Anos mais tarde ele foi posto em liberdade e formou uma nova congregação na qual tentou vender uma vez mais um miraculoso arrebatamento sem grande sucesso.

 4. A Epidemia de Freiras que Mordiam e Miavam


Muitas manias religiosas parecem se instaurar pela vontade de pessoas que acreditam estar cumprindo os desígnios de Deus. Essa, no entanto, parece ter começado com pessoas que não tinham muita certeza se Deus estava do lado delas. 

No século XV, uma freira num convento da Baviera começou a se comportar de maneira estranha. A jovem mordia as outras irmãs. Tudo muito esquisito, mas o pior é que comportamento dela, parecia contaminar as demais. Logo, todas as freiras mordidas, também estavam mordendo. A Madre Superiora ordenou que as freiras afetadas pela loucura fossem trancadas em seus quartos, mas de alguma forma elas conseguiam escapar do confinamento, levantando a desconfiança de que forças sobrenaturais estivessem em ação.

Finalmente um padre foi chamado e ele considerou que aquilo só podia ser uma obra do demônio. As freiras foram devidamente exorcizadas em praça pública e durante o horrendo espetáculo tiveram de usar mordaças feitas de ferro! 

O pior é que a coisa não terminou por aí. 

A epidemia continuou a se espalhar além das fronteiras chegando à Holanda e Itália, sempre afetando freiras em conventos isolados. Em Cremona, na Itália, as freiras não tiveram a mesma sorte de suas colegas alemãs, além de terem passado por um exorcismo tiveram seus dentes arrancados com alicate. Em Khelm, um povoado na Holanda as pobres freiras tiveram a boca costurada com linha grossa para não poderem morder ninguém.

Poucos anos mais tarde, outra epidemia estranha se instalou nos claustros da Itália. As freiras dessa vez, não conseguiam parar de miar. Pode parecer bobagem hoje em dia, mas os gatos, embora fossem animais necessários para controlar a população de ratos, eram frequentemente associados com o diabo e com a feitiçaria. Quando as freiras não conseguiam se controlar e miavam sem parar, alguns acharam que elas estariam sem dúvida se comunicando com os mensageiros de Satã. Passando quem sabe instruções para planos malignos. 

A primeira medida foi caçar e eliminar todos os gatos da região. Mesmo assim a loucura não terminou. Oficiais da Inquisição foram chamados para averiguar o perigo e depois de interrogar algumas moças decidiram que elas deveriam ser mandadas para outros conventos. Até onde se sabe, as moças então pararam de miar e as coisas voltaram ao normal. 

3. O Culto do Sagrado Huagen



Esse talvez seja um dos casos mais bizarros de fervor religioso. Ele ocorreu na India supostamente no século XVI e carece de muita corroboração.

Behrong Huagen, mais conhecido como Sagrado Huagen foi um homem santo, considerado divino na região do Rajastão, uma das áreas mais turbulentas na Índia. Segundo rumores o Sagrado Huagen fundou um Culto devotado à sua pessoa no qual ele era tratado como o Filho encarnado de um Panteão de vários deuses obscuros. Desafiando o restritivo sistema de castas, o faquir conquistou grande influência realizando supostos milagres, exorcizando demônios e curando leprosos por onde passava. Ele também teria realizado uma enorme façanha, impedindo o fim do mundo ao gritar com o sol e assim evitando que este explodisse e destruísse o planeta em uma conflagração de chamas. Em outra demonstração de seus poderes ele teria ordenado o desaparecimento da lua e a aproximação de uma estrela que se precipitou dos céus. 

Huagen peregrinava pela India, seguido por uma multidão que o tratava como um Deus. Aos seus pés eram lançadas pétalas de flor, ele se alimentava exclusivamente de uma dieta com mel e segundo consta podia soprar a vida no corpo dos mortos ou dos enfermos. Quando o fazia, os agraciados com sua benção podiam viver por séculos. 

Em meados de 1580, algo improvável aconteceu... Huagen foi encontrado morto.

Seus seguidores não podiam acreditar! O profeta ungido pelos deuses não podia simplesmente partir daquela maneira.

Foi então que um dos discípulos mais próximos do faquir interpretou os acontecimentos. O grande mestre, segundo ele, escolhera por conta própria partir desse mundo e oferecera seu corpo aos seus seguidores, um presente com o qual todos seriam beneficiados. O corpo do Faquir foi então entregue aos cuidados de um dos seguidores que cuidadosamente arrancou toda a carne de seus ossos e o cozinhou em um enorme tacho de ferro. Em seguida, em uma cerimônia solene, cada seguidor recebeu uma pequena porção do corpo de seu mestre que foi consumida em uma ceia.

Segundo a crença no Sagrado Huagen, aqueles que se alimentaram do cadáver divino foram abençoados com uma existência extremamente sadia e longa: alguns deles teriam vivido mais de 150 anos sem jamais contrair uma moléstia sequer. Curiosamente o Culto que se formou ao redor do Sagrado Huagen após esse acontecimento, tinha como um de seus principais dogmas o sacrifício e o consumo da carne de um dos sacerdotes em um ritual. 

No lugar onde ocorreu a bizarra ceia, um santuário foi construído, mas ele teria sido colocado abaixo por hindus furiosos com a súbita popularidade do faquir e de seus seguidores. Já no século XVIII, a estória havia quase desaparecido na obscuridade, sendo considerada blasfema.

2. O Diabo visita Milão


Em 1630 as pessoas estavam muito preocupadas na grande cidade de Milão.

Havia um antigo poema alertando a população que naquele ano, o demônio envenenaria a todos na cidade. Em uma manhã do mês de Abril, os moradores acordaram e perceberam que havia um borrão de tinta vermelha na porta da casa de várias pessoas. A ideia de que aquelas pessoas haviam sido marcadas foi suficiente para deixar a população à beira da loucura.

Alguns achavam que aquele era sinal significava que as pessoas naquelas casas estavam condenadas a morrer, vítimas do envenenamento diabólico. Outros partiram do pressuposto que aquele era o sinal para que as pessoas marcadas começassem a envenenar o restante da população.

"A mente vazia é o playground do diabo", como diz o ditado, e não há nada mais aterrorizante que gente buscando motivos para temer.

Rumores começaram a se espalhar, fofocas cada vez mais sem sentido e então pessoas começaram a ser perseguidas e agredidas. Alguns suspeitos foram presos pelas autoridades e levados para as masmorras para sofrerem tortura e interrogatórios. Estas apontavam os dedos para outras e o ciclo de loucura continuou sendo alimentado. As confissões provocaram uma inundação de informações contraditórias: as frutas estavam envenenadas, as fontes estavam envenenadas, os peixes haviam sido tocados pelo diabo, depois os pássaros, finalmente o veneno maldito estava nas roupas, em um tipo de chapéu, no ar...

As pessoas tentavam se precaver, andavam com máscaras improvisadas e evitavam encostar em qualquer coisa. Um velho que antes de sentar num banco de praça, passou a mão sobre ele, foi acusado de espalhar o veneno e acabou linchado por uma turba enlouquecida. Um bando de mulheres surrou uma lavadeira que estava lavando roupas com um sabão que fazia uma espuma diferente. Um fazendeiro teve suas galinhas degoladas depois que populares descobriram um ovo com um desenho diabólico na casca. Cozinheiros e farmacêuticos estavam em maus lençóis: a população desconfiava que eles podiam estar em conluio com o demônio já que conseguiriam facilmente espalhar o veneno mortal em seu trabalho.

A loucura era tamanha que muitos milaneses pararam de acusar uns aos outros e começaram a confessar fazerem parte de uma conspiração diabólica para envenenar a população. As confissões não faziam o menor sentido, eram obviamente inventadas. Um homem contou uma incrível estória na qual ele havia sido convidado a conhecer a casa do demônio e ouvir seus planos macabros durante uma refeição. A estória se espalhou e logo dezenas de pessoas também revelaram que o demônio os convidara para participar de uma ceia em sua mansão e que haviam sido convidadas a tomar parte em seus planos. 

Deve ter sido um ano inesquecível, mas eventualmente 1630 chegou ao fim sem que houvesse o tão temido envenenamento. Com a data tendo passado as coisas voltaram ao normal.

1. O Festival da Deusa Mut



Imagine milhares de pessoas absolutamente bêbadas simultaneamente. Imagine que essas pessoas estão dispostas a se entregar de corpo e alma a uma celebração marcada pelo exagero sem limites. Imagine que em meio a bebedeira rolava muita dança, cantoria e sexo. Imagine agora que essa era uma experiência religiosa de suma importância, não apenas tolerada, mas incentivada e de fato patrocinada pelos governantes.

O Festival da Deusa Mut, ou simplesmente o Festival da Bebedeira, realizado em Tebas no antigo Egito, durante o Reinado Médio, era uma das celebrações mais importantes no calendário religioso. Ele era praticado em honra da Deusa Mut que segundo a lenda havia evitado o fim do mundo graças a seu discernimento e de um bom grau de esperteza. Segundo o mito, o fim dos tempos estava planejado para uma data específica na qual o mundo material seria varridos da existência por Sekhmet. A ira dos deuses iria recair sobre a Terra e a humanidade pagaria, pois Sekhmet estava furiosa com os mortais por eles não terem produzido nada que fosse digno de seu respeito. Mut, uma deusa menor, padroeira dos campos, das colheitas e da cerveja não queria que os mortais fossem massacrados e teve uma ideia brilhante. Ela apresentaria à Sekhmet uma das criações dos humanos: a cerveja. Dito e feito, Mut apresentou a bebida à deusa destruidora que ficou impressionada com aquele elixir mágico. Ela bebeu tanto, tanto que perdeu o interesse de destruir o mundo. Deve ter sido uma tremendo bebedeira, pois ela esqueceu de vez seus planos!

Seja como for, o mito se popularizou e em homenagem à esperteza de Mut, os antigos egípicios reservavam uma data para honrar sua salvadora, bebendo até cair. O festival se iniciava com orações e com os habituais sacrifícios de animais, mas logo se transformava em uma orgia de bebida que durava três noites. A ordem era entornar cerveja, cantar e dançar até perder a consciência e dormir onde fosse... nos templos, nas praças, nas ruas.

Tudo muito divertido, tudo muito legal, parecendo uma tremenda rave do Mundo Antigo. O problema é que o festival começou a crescer. Pesquisadores supõem que o Festival de Mut se iniciou como um ritual reservado, praticado por alguns poucos sacerdotes que se trancavam em um templo e bebiam até cair. Mas a população achou aquilo interessante e também desejava honrar Mut à sua maneira. As autoridades permitiram que isso acontecesse, mas com os anos o Festival atraía mais e mais pessoas. Chegou um ponto em que a população de Tebas mais do que triplicava.

Em um dia fatídico a coisa saiu de controle.

Não se sabe ao certo o que aconteceu: talvez a falta de bebida, talvez bebida demais. Talvez algum boato tenha se espalhado pela cidade ou talvez as pessoas estivessem simplesmente enlouquecidas. O fato é que a multidão começou a destruir a cidade em meio ao festival. Monumentos e casas foram incendiadas, pessoas foram pisoteadas até a morte, mulheres e crianças foram atacadas e muitas brigas eclodiram. O frenesi religioso potencializado pela bebedeira sem limites fez com que Tebas ardesse por dias à fio. Os sacerdotes ficaram furiosos, o povo havia pervertido o sentido da festividade, e quando os pobres sacerdotes tentaram deter a distribuição de cerveja, eles acabaram assassinados. Dizem as lendas que alguns foram ironicamente afogados em barris de cerveja ou soterrados em silos de cevada.

O Festival que deveria durar três noites, correu por mais de uma semana e só terminou quando soldados do Faraó puseram fim a loucura com armas em punho. O resultado da festa foi desastroso: Tebas quase foi destruída, prédios queimaram ate o chão, monumentos foram reduzidos a escombros, cadáveres se acumulavam nas ruas, plantações foram pisoteadas e até o porto da cidade foi devastado pela multidão. Tebas, uma das mais belas cidades do Antigo Egito quase teve de ser reconstruída.

Apesar do Caos, o Festival da Bebedeira continuou acontecendo anualmente, mas a partir de então, com um controle mais rígido.

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É incrível como esses surtos religiosos, alguns macabros, outros até certo ponto engraçados, poderiam ser adaptado para Chamado de Cthulhu na forma de velhas lendas e crendices.

Dá quase para ouvir o velho Nyarlathotep, rindo sem parar, tendo ele desencadeado cada um desses acontecimentos, usando suas muitas faces para enganar, trapacear e iludir as pessoas.

Ah, o Caos Rastejante e sua infindável necessidade de brincar com os pobres humanos.