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terça-feira, 5 de março de 2019

Lugares Estranhos: A Montanha Faminta da India - Terra de beleza, mortes e mistérios


Em todos os cantos do mundo existem lugares estranhos que podem ser descritos como "famintos".

Seja lá por qual razão, eles possuem a estranha tendência de fazer as pessoas desaparecerem, como se as devorassem e absorvessem, digerindo os corpos até não restar nenhum traço ou evidência para ser encontrada. Um desses lugares sinistros, fica nas Montanhas do Himalaia, um local ao mesmo tempo deslumbrante e mortal, e que há anos tem sido o destino final de pessoas que sumiram sem deixar vestígios.

Esparramado entre as majestosas montanhas ocidentais do Himalaia na porção mais ao norte da India encontramos uma vasta cadeia montanhosa chamada Himachal Pradesh, literalmente "A Província da Neve Eterna". Seu nome parece muito adequado, uma vez que esse é um domínio remoto de paisagens de tirar o fôlego, com picos nevados, florestas de pinheiros intocados, vales isolados além de, é claro, fissuras, cânions e gargantas rochosas com quedas vertiginosas. Nesse ambiente selvagem, as montanhas preenchem o horizonte até onde a vista alcança criando uma terra de gelo e neve absolutamente inóspita.

Ele é ao mesmo tempo um lugar de beleza notável, mas extremamente traiçoeiro em que o menor descuido pode se provar fatal. Mesmo os guias mais experientes temem essa região, com suas trilhas acidentadas, montanhas escarpadas e terreno rugoso. A temperatura pode variar mais de 20 graus entre o dia e a noite e ventos furiosos formam-se repentinamente derrubando as pessoas. Além disso, há trechos em que a pedra congela tornando a face da montanha escorregadia. Por esses motivos, a região é associada a um apelido histórico Kulanthapitha, que significa "O Fim do Mundo Habitável".


Para completar o panorama, essa é uma terra repleta de mistérios, conhecida como "Vale dos Deuses" pelos nativos, habitada por espíritos e entidades sobrenaturais e onde segundo a lenda, o Deus Hindu Shiva teria parado para meditar por 1,100 anos. A mistura natural de esplendor, beleza e aventura concede uma aura quase mística que atrai viajantes e aventureiros de todas as partes do planeta. 

Algumas das pessoas que visitaram o local ao longo de séculos pareciam estar à procura de algum tipo de Shangri-La, outros buscavam por paz ou iluminação, enquanto outros ainda ansiavam por emoção e aventura. E haviam aqueles que buscavam uma combinação disso tudo. A região contudo, desenvolveu uma reputação duradoura como um lugar de onde alguns jamais retornam.  Himachal Pradesh se tornou um lugar conhecido pelas misteriosas mortes e desaparecimentos, a ponto de que a área inteira recebesse apelidos pouco convidativos como "O Vale do Esquecimento"  e "O Recanto da Morte".

Embora dúzias de visitantes estrangeiros tenham desaparecido sem deixar vestígio ou morrido de forma misteriosa ao longo dos anos, apenas recentemente um caso ganhou ampla publicidade. Em agosto de 1996, um estudante britânico de 21 anos da Universidade de Bristol chamado Ian Mogford desapareceu nas montanhas sem deixar pistas após visitar um templo. Estranhamente, até mesmo os registros de sua passagem por um hotel na região se perderam. No mesmo ano, outra turista estrangeira, a italiana Alessandra Verdi de 32 anos, que alugava uma casa no vale adjacente também sumiu sem deixar qualquer indício. Manchas de sangue foram encontradas em sua casa que estava trancada. Seu corpo foi localizado semanas mais tarde nos bancos do Rio Beas, a quilômetros de distância sem nenhuma evidência do que poderia ter acontecido - autópsias posteriores apuraram que ela havia morrido aparentemente de causas naturais, mas como seu corpo chegou até o lugar onde foi achado é um mistério.  


Depois disso, vários outros casos de desaparecimento ocorreram em uma rápida sucessão o que levou as autoridades a se perguntar se um assassino ou uma gangue, estaria atacando estrangeiros. O estudante canadense Ardavan Taherzadeh desapareceu em 1997, Maarten de Bruijn, de 21 anos, filho de um proeminente banqueiro holandês sumiu em 1999, e um famoso repórter russo, Alexei Ivanov, desapareceu da face da Terra em 2000, pouco depois de sair para fazer uma trilha nas montanhas. Estranhamente, ninguém soube o que aconteceu com Ivanov, mas alguns objetos pertencentes a ele, como uma garrafa de oxigênio e uma mochila, foram achadas após uma intensa busca nas montanhas em uma área muito distante de onde ele pretendia explorar. Mais estranho ainda, durante as buscas, um time de resgate localizou outros três cadáveres nas perigosas montanhas, mas o corpo de Ivanov jamais foi encontrado.

No mesmo ano de 2000 dois turistas alemães foram brutalmente atacados enquanto dormiam em seu acampamento na mesma região. Um deles Jorge Weihrauch morreu em decorrência de mais de 30 ferimentos de faca, mas seu companheiro, Adrian Mayer-Tasch, consegui escapar e sobreviver, rastejando através de um terreno escarpado e extremamente perigoso apesar de sustentar severos ferimentos. Mayer-Tasch contou que não conseguiu ver quem (ou o que) os atacou, mas se recordava de acordar em meio a uma sucessão de apunhaladas desferidas por uma sombra empunhando uma arma longa e afiada. Apesar de sobreviver ao ataque, o turista ficou com sequelas e traumas profundos o resto da vida. 

Não demorou muito a surgir mais um caso chocante, dessa vez envolvendo o turista inglês Martin Young, sua esposa, e seu filho de 14 anos. A família foi atacada por um ou mais agressores no meio da madrugada enquanto dormiam em sua tenda. A esposa e o adolescente morreram, vítimas de repetidas facadas, Martin sobreviveu saltando de uma ravina e mergulhando na escuridão. Por milagre ele foi encontrado na manhã seguinte por um grupo de buscas, com uma perna quebrada e vários ferimentos. Uma vez mais, nenhum sinal do assassino foi encontrado, e não existiam suspeitos ou pistas para levar a uma captura.

Por algum tempo, as chocantes notícias afugentaram turistas que passaram a evitar as trilhas e a região, mas em 2013, um explorador americano de 35 anos, chamado Justin Shetler foi vítima de seja lá quem vaga por essas montanhas. Shetler mantinha um blog atualizado com suas aventuras e seu último comentário poderia lançar uma luz sobre o que teria acontecido com ele: 


"Um Sadhu (o povo local que habita as montanhas) me convidou para um tipo de peregrinação religiosa nas montanhas. É um tipo curioso, mas me pareceu confiável. Ele alertou de que seria um percurso duro através de uma zona de altitude, mas que valeria a pena. Lá no alto, segundo ele, existe uma caverna remota ideal para a prática da ioga. Ele assegurou que a meditação lá o coloca em contato com entidades superiores. Uma experiência transcendental! Eu decidi acompanhá-lo, pois isso deve render uma boa história. Devo retornar ao mundo da Internet apenas na metade de setembro se tudo correr bem. A trilha é famosa por ser traiçoeira, portanto, todo cuidado é pouco! Se estiverem lendo isso, torçam para tudo dar certo".

A postagem foi feita pelo próprio Shetler, terminando com um emoji de piscadela, como ele costumava fazer. Aqueles que seguiam o blog relatando as intrépidas expedições do aventureiro, asseguraram que a entrada havia sido escrita por ele. Infelizmente, a mensagem curta foi a última coisa que ele escreveria. 

Em 3 de setembro, um grupo de montanhistas franceses cruzaram com Shetler próximo de uma encosta no Lago Mantalai. Ele estava acompanhado de um taciturno Sadlu que se manteve calado durante todo encontro e que os turistas assumiram não falar inglês. Eles contaram que Shetler parecia exausto, e que em alguns momentos durante a conversa perdia o foco e dizia algo sem sentido, como por exemplo repetir que tinha um encontro marcado com o "Deus da Montanha".

Os franceses ficaram preocupados com as condições gerais do americano, mas ele garantiu que estava bem e que podia prosseguir em sua jornada. Chegando em uma estação nas montanhas, relataram a história e as autoridades decidiram não correr riscos e enviar um grupo de resgate por precaução. Após uma busca cuidadosa, a equipe de socorro avistou um suspeito vagando pelas montanhas, um "baba" ou homem santo chamado Satyanarayan Rawat. Ele foi levado para a estação para questionamento depois de tentar se esconder e fugir. Infelizmente nada foi apurado, já que Rawat cometeu suicídio enquanto estava sob custódia numa cela. O homem ingeriu raízes venenosas e levou consigo quaisquer segredos que conhecia sobre o destino de Shetler. As investigações apuraram que Rawat provavelmente era o "Sadlu taciturno" visto na companhia do americano, mas os franceses não estavam certos a respeito. 


A investigação policial conduzida foi muito criticada pela conclusão oficial de que Shetler teria simplesmente sofrido um acidente e caído em uma ravina onde veio a falecer. Seu corpo jamais foi encontrado! Investigadores contratados pela família de Shetler e enviados para fazer questionamentos sobre o caso apuraram que a polícia não quis se aprofundar no envolvimento de Rawat por considerá-lo um "homem santo". Posteriormente apurou-se que Rawat era tido como uma pessoa instável, com um passado de violência e agressão. 

Não muito tempo depois, outro turista desapareceu misteriosamente, o polonês Bruno Muschalik, que estava hospedado na casa de um amigo até agosto de 2015. Muschalik planejava fazer uma trilha nas montanhas e uma excursão ao Vale de Parvati. Ele preparou todo seu equipamento, apanhou um ônibus que o levou até a área e lá sumiu sem deixar traço. 

Ele se juntou a longa lista de estrangeiros que desapareceram ao visitar a região de Himachal Pradesh. Segundo fontes não oficiais, mais de 20 casos envolvendo estrangeiros desaparecidos ou mortos ocorreram por lá nos últimos 10 anos, sendo que a maioria dos casos não foi solucionado. Por vezes, objetos pessoais pertencentes aos desparecidos são achados, roupas ou calçados, mas os corpos simplesmente somem. Como se eles tivessem sido devorados pela montanha. 

A explicação mais óbvia para o grande número de desaparecimentos é que essas pessoas devem ter morrido em decorrência do terreno perigoso. A região é habitada apenas esparsamente, preenchida por verdadeiras armadilhas naturais que resultam em incontáveis perigos. Por detrás da bela paisagem escondem-se abismos, trilhas escorregadias, avalanches e um clima adverso que parece conspirar contra os ousados (ou tolos) que escolhem enfrentá-lo. Mesmo exploradores veteranos afirmam que as montanhas constituem um desafio formidável.

Não é difícil imaginar que estrangeiros possam ser ludibriados pelas belezas naturais e inadvertidamente atraídos para perigos invisíveis. Ainda assim, é difícil imaginar que tantas pessoas tenham simplesmente desaparecido na região.

Outro fator agravante é que muitos turistas visitam a montanha em busca do potente hashish que cresce por lá e que é comercializado abertamente por tribos locais. Sob o efeito de drogas poderosas eles podem se perder na vastidão gelada mergulhando em fissuras e gargantas, morrendo sem que seus corpos sejam localizados. Teria sido esse  destino de tantas pessoas? Ou algo mais sinistro habita essas montanhas?  


Além dos perigos naturais, existe a ameaça das pessoas que vivem na região. Há muitas histórias e rumores sobre moradores nessa montanha que consideram a presença de turistas uma ofensa e que se ressentem de sua visita. Para alguns, as montanhas são sagradas e a presença de forasteiros constitui uma invasão e uma quebra de seu modo de vida. Embora, em geral, a reação dessas pessoas raramente envolva violência, quem pode saber como elas se comportam quando estão longe da civilização?

Os investigadores contratados para visitar Himachal Pradesh em busca de pistas, mencionaram ter encontrado resistência quando perguntaram a respeito do sentimento quanto a estrangeiros. Ainda que a região tenha um dos índices de crime mais baixos em toda Asia, ela ganhou notoriedade nas últimas décadas por se tornar o refúgio de bandidos, traficantes de drogas e falsos faquires dispostos a enganar turistas e roubar seu dinheiro. Há boatos de quadrilhas especializadas em contrabando de entorpecentes agindo impunemente, gozando da conivência da polícia  para não serem incomodados. Junte a isso o esmagador silêncio da população que prefere se abster de fazer comentários, e temos um cenário de conspiração e suspeita. As investigações concluíram que vigora uma lei de silêncio imposto por grupos interessados em manter as coisas como estão. Há um temor muito forte de que pessoas envolvidas com o contrabando de drogas intimidam a população usando histórias sobre cultos e criaturas sobrenaturais. 

As montanhas, segundo alguns, são o habitat de entidades malignas que servem a pessoas inescrupulosas e extremamente perigosas que as controlam. Fala-se sobre Yeti, tulpa, espíritos demoníacos, fantasmas e outras coisas assustadoras que integram a rica mitologia local. Alguns creem que deuses e entidades de tempos imemoriais habitam o interior das cavernas no topo da montanha, fazem destes lugares seus templos que escondem segredos que não deveriam ser vistos por olhos humanos. E todos que encaram a face desses deuses são arrebatados dessa existência.   

A verdade possivelmente envolve um pouco de cada teoria, mesmo as mais fantásticas, mas isso não torna menos frustrante e angustiante para as famílias de pessoas desaparecidas não saber. No final das contas, tudo o que resta é uma paisagem intocada e selvagem, quase um reino místico que parece faminto por devorar aqueles que ousam invadir sua santidade.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Mau Presságio - Um desastre iminente estaria à caminho do Japão


Os japoneses temem a chegada iminente de um desastre natural depois de terem sido encontrados nos últimos dez dias, na baía de Toyama, três peixes de águas profundas e cuja presença na costa é encarada como prenúncio de terremotos e tsunamis.

De acordo com jornais locais, dois destes três peixes foram encontrados na mesma costa, enquanto o terceiro espécime, que media mais de quatro metros de comprimento, ficou preso numa rede de pesca no porto de Imizu.

Os animais típicos de grande profundidade possuem longos corpos em tons de prata e barbatanas vermelhas, são raramente vistos na superfície, embora a lenda indique que o peixe-remo – conhecido no Japão como o “mensageiro do palácio do Deus do Mar” – sobe à superfície de tempos em tempos. Ele seria uma espécie de arauto de maus presságios, com a função de anunciar catástrofes e dificuldades vindas do mar. 


A origem dessa crença decorre de uma lenda muito antiga cuja origem se mistura com mitos.

Segundo ela, no passado longínquo, pescadores teriam encontrado o filho preferido do Deus do Mar na forma de um peixe-remo. Ele ficou preso em recifes e agonizava a medida que a maré baixava. Os homens do mar o salvaram e o devolveram ao mar. Como recompensa, o Deus, agradecido, prometeu enviar um mensageiro sempre que houvesse um desastre iminente.

Esta não é obviamente a primeira vez que esta espécie de peixe aparece no litoral japonês.




Em 1896 o Terremoto de Meiji-Sanriku causou devastação e a morte de 22 mil pessoas. Poucas semanas antes do tremor, 14 peixes-remo teriam sido avistados em praias na região. Em 1933, outro Terremoto em Sanriku destruiu milhares de casas e provocou 3 mil mortes. Dias antes, peixes-remo foram encontrados o que desencadeou grande comoção e demonstrações de desespero. Mais recentemente, antes do Grande Terremoto que atingiu o Japão em 2011, cerca de 20 peixes-remo foram encontrados nas praias da região de Tohoku. Naquela ocasião, o tremor de 9,0 na escala Richter - o maior da história do país, acabou por originar um tsunami que vitimou 29.000 mil pessoas. 

Os cientistas não chegaram ainda a um consenso a respeito deste mau presságio. Alguns especialistas defendem que não há uma ligação definitiva e direta entre o aparecimento dos peixes e terremotos, enquanto outros admitem que é possível que estas espécies sintam a chegada de desastres naturais que os obrigam a buscar a superfície.

Kiyoshi Wadatsumi, sismólogo chinês, afirma que os peixes de águas profundas são criaturas “muito sensíveis a movimentos irregulares” oriundos do fundo do mar. E, por este motivo, sustenta que é possível que o aparecimento destes animais esteja associado à um tremor submarino.


“Não há nenhuma evidência científica para a teoria de que os peixes-remos estejam associados a grandes terramotos, mas não podemos negar essa possibilidade“, considerou Kazusa Saiba, diretor do Uozu Aquarium, no Japão, em declarações à CNN.

A espécie, também conhecida como "serpente marinha" também foi encontrada na costa de outras regiões, como na Califórnia, nos Estados Unidos e no México, curiosamente ambas as regiões propensas a abalos sísmicos.

Não são apenas os japoneses que associam o aparecimento de determinadas espécies marinhas em alto mar a presságios de desastres naturais. Em 2018, uma criatura de grandes dimensões apareceu sem vida em uma praia das Filipinas, levando alguns locais a acreditar na chegada do Apocalipse. O animal em questão era uma Lula Gigante bastante rara. Segundo crenças de pescadores filipinos, o surgimento destes animais são sinal de má sorte e desgraça.

*     *     *

Sempre que me deparo com notícias assim, me recordo que conhecemos muito pouco a respeito das profundezas do mar. É irônico que saibamos mais a respeito de outros planetas do que a respeito do que existe nas profundezas insondáveis do planeta que tratamos como "nosso".

O que habita as profundezas? O que existe muito abaixo da superfície? Quantos mistérios ainda temos a descobrir nos abismos insondáveis?

Talvez, para o nosso próprio bem, seja melhor não saber...

domingo, 30 de dezembro de 2018

A Donzela de Ferro - Uma Horrenda e Infame Forma de Execução


Won't you come into my room, I wanna show you all my wares
I just want to see your blood, I just want to stand and stare
See the blood begin to flow as it falls upon the floor
Iron Maiden can't be fought, Iron Maiden can't be sought

Iron Maiden - Iron Maiden

O torturador empurrou a pobre vítima para dentro da Donzela de Ferro, enquanto ela gritava em desespero.

"Não! Isso, não! Piedade! Piedade!" ela gritou e implorou quando viu a Donzela de Ferro aberta à esperando..

Mas de nada adiantava. Uma vez posicionada no interior da Donzela de Ferro a porta foi fechada e seu abraço extraiu da pobre mulher um lamento longo e doloroso. O som era música para os ouvidos do torturador. E logo um fluxo de sangue começou a escorrer do interior do instrumento de tortura a medida que os espinhos penetravam cada vez mais fundo em sua carne.

*     *     *

Donzelas de Ferro talvez sejam os aparelhos de tortura mais notórios e temidos.

Mas será que eles realmente foram usados ao longo da história?

A resposta mais simples para a questão provavelmente é: Não.

A presença de Donzelas de Ferro em praticamente todas as câmaras de tortura é um mito disseminado a partir do século XVIII, quando esses impressionantes instrumentos de suplício se tornaram acessórios em peças teatrais a respeito da Era Medieval. Elas se tornaram extremamente populares em montagens de histórias góticas e nas famosas peças de Grand Guignol em que morte e tortura eram encenadas para o delírio do público. Contudo, a probabilidade de que esses terríveis aparelhos de tortura tenham sido largamente utilizados na Idade Média, é pequena.


Isso não torna a ideia da Donzela de Ferro menos aterrorizante. A Donzela de Ferro (Iron Maiden) é descrita como uma caixa de metal do tamanho de uma pessoa adulta. No interior desse aparelho diabólico eram colocadas pontas agudas de metal que ficavam presas na parede interna e na porta. A vítima era colocada dentro da caixa e a porta fechada fazendo com que os espetos perfurassem seu corpo em lugares chave. O ideal era que os cravos não atravessassem nenhum órgão vital, para que a tortura pudesse se prolongar. Para tornar a coisa ainda mais terrível, as Donzelas de Ferro possuíam um dispositivo de manivela operado pelo torturador que permitia mover a parede, fazendo com que os cravos avançassem empalando lentamente a vítima. Esta experimentava um sofrimento indescritível e uma morte lenta causada pelo choque do sangramento.

Ok, sinistro.

Mas basicamente pura ficção. A primeira referência histórica a respeito da Donzela de Ferro é feita muito depois da Idade Média, no final do século XVII. O filósofo alemão Johann Philipp Siebenkees escreveu a respeito de uma alegada execução ocorrida no ano de 1515. A vítima teria sido um falsificador de moedas da cidade de Nuremberg que enfrentou o abraço da donzela e sucumbiu em seu interior depois de dois dias de tortura incessante.

Na mesma época que a descrição foi feita por Siebenkees, Donzelas de Ferro começaram a aparecer convenientemente em museus na Europa. Isso inclui a infame Virgem de Nuremberg, possivelmente a mais conhecida das peças de tortura que ficou exposta no Museu da cidade como uma relíquia de tempos menos tolerantes. Curiosamente, a Virgem de Nuremberg jamais foi usada para torturar, ela foi construída no início de 1800 para ser exposta. A peça teria sido destruída em um bombardeio aliado em 1944 e uma substituta foi forjada em 1954. 

Siebenkees não foi o primeiro a imaginar o uso da terrível caixa de metal cheia de cravos como aparelho de tortura. Um livro em latim, chamado "A Cidade de Deus", escrito no século quinto depois de Cristo, relata uma medonha tortura sofrida pelo General romano Marcus Atilius Regulus nas mãos dos cartagineses. Segundo a narrativa ele foi trancafiado em uma caixa de metal com espinhos de ferro. Marcus não teria morrido no aparelho, ele foi levado dentro da caixa até o local de execução onde acabou sendo decapitado.

O historiador grego Polybius, que viveu no ano 100 aC, também ajudou a espalhar uma história similar. Polybius contava que o tirano espartano Nabis mandou construir um engenho de metal com a face de sua esposa Apega na porta. No interior da caixa haviam pregos de metal que se enterravam no corpo dos que eram postos ali dentro. O diabólico mecanismo era usado em cidadãos que se recusavam a pagar impostos ou que ousavam se rebelar contra o governante.  

Polybius escreveu em uma crônica a seguinte descrição do aparelho sendo usado:

"Quando o homem foi colocado na caixa, a porta foi fechada e seus gritos puderam ser ouvidos. Seus braços e mãos, bem como suas costas, foram atravessadas por pregos aguçados de ferro que cobriam as paredes internas da caixa. Quando a porta foi empurrada por Nabis, os espetos perfuravam a vítima em um abraço mortal... ele fez o homem prometer que jamais falaria novamente contra seu Rei. Aquele homem sobreviveu, mas outros tantos não tiveram a mesma sorte e pereceram no interior da infame Caixa de Metal que era carregada para as praças com intuito de intimidar os revoltosos".

É difícil dizer se qualquer dessas narrativas são verdadeiras - historiadores da antiguidade tinham forte tendência a exagerar e criar situações, mas o conceito da Donzela de Ferro não parece ter surgido na Idade Média. De fato, o período é associado a vários tipos de tortura, mas a grande maioria delas foram adaptadas a partir de métodos bem mais antigos. Mesmo o famoso rack de tortura, um instrumento associado a tortura medieval, usado para estender braços e pernas provocando o rompimento de articulações, não foi concebido no período. Ele já era conhecido nos tempos de Alexandre, o Grande. Da mesma forma, existem menções sobre cadeiras de ferro em que vítimas eram amarradas e o assento aquecido gradualmente até queimar o pobre diabo. Tal implemento, famoso na Europa Medieval parece ter sido uma criação dos persas. Os persas também teriam criado o conceito da crucificação que os romanos usaram extensivamente como forma de execução. Uma vez que a crucificação passou a ser identificada com o martírio de Cristo, ela deixou de ser utilizada na Idade Média.

Tudo indica que os torturadores medievais eram menos engenhosos do que se pensa, já que foram poucas as modalidades de tortura desenvolvidas no período.

Isso, no entanto, não significa que a tortura não acontecia na Idade Média. Ela ocorria, e com enorme frequência. Tortura era empregada como forma de extrair confissões de culpa, para preparar uma pessoa condenada, para punir certos tipos de transgressão e em alguns casos, usada como ferramenta da própria execução.


Existia a noção na Era Medieval de que as pessoas se tornavam realmente honestas quando eram sujeitas a considerável sofrimento. A verdade aflorava através da dor e da punição ao corpo. Os torturadores eram instruídos a jamais produzir ferimentos graves o bastante para causar a morte antes que a vítima confessasse seus crimes. Um torturador experiente conhecia seu ofício bem o bastante para prolongar o sofrimento de sua vítima por horas ou mesmo dias, extraindo cada gota de sofrimento através do uso de suas ferramentas.

Entretanto, a tortura medieval não era tão elaborada quanto imaginamos. Cordas, ferros em brasa e chicotes eram as ferramentas preferidas dos torturadores. Estes não eram particularmente criativos em seus métodos. Dispositivos de tortura eram algo incomum, mesmo nas famosas masmorras e câmaras de tortura dos castelos medievais. De certa forma, aparelhos como estes eram pouco confiáveis e os torturadores por vezes iam longe demais e acabavam matando as vítimas antes da hora. Métodos mais simples, podiam ser mais eficazes, afinal, causar dor não é uma ciência complexa. De fato, alguns historiadores medievais acreditam que muitos aparelhos de tortura até podiam adornar as masmorras, mas eles eram usados muito mais para intimidação do que na prática.

A frase, "mostre os instrumentos" era comumente utilizada como forma de intimidar e soltar a língua da vítima antes mesmo que qualquer ferimento fosse produzido. Um prisioneiro podia ser levado até a masmorra e apresentado aos terríveis aparelhos de tortura e isso muitas vezes era suficiente para que ele confessasse tudo, mesmo aquilo do qual não sabia ou pelo qual não era responsável. Donzelas de Ferro podem ter cumprido justamente essa função, a de ser um estímulo a confissão, através de uma ameaça clara do que ela representava.


Muitas das lendas a respeito de tortura medieval surgiram no século XVIII e XIX, quando as pessoas pareciam interessadas em atribuir aos seus antepassados um perfil mais brutal do que o seu. A ideia era atribuir ao período medieval um caráter selvagem para torná-los menos selvagens.

Mas com todos esses fatos, será então que a Donzela de Ferro nunca passou de uma lenda?

Talvez não... existem documentos e documentos que confirmam a existência de tais instrumentos em tempos medievais, ainda que fossem extremamente raros, restritos apenas aos maiores castelos comandados pelos Senhores mais poderosos que podiam se dar ao luxo de mandar construir tais engenhos de sofrimento.

Criar uma Donzela de Ferro demandava grande capacidade em metalurgia e conhecimento em manipulação de metais. A peça conforme descrita é muito mais do que uma simples caixa com espetos agudos, estes precisavam ser soldados, a porta devia possuir molas e o mecanismo de manivela deveria demandar ainda mais engenhosidade por parte do ferreiro.

Os documentos mais confiáveis a respeito da existência de Donzela de Ferro vem das Terras Germânicas. Eles mencionam a existência de um dispositivo chamado Schandmantel que pode ter servido de inspiração para a construção das Donzelas. O Schandmantel (que significa barril da vergonha), era um tipo de barril de madeira reforçado com ferro no qual uma pessoa era colocada. As paredes desse barril tinham cravos de ferro rebitados que se enterravam na carne da vítima,sobretudo quando ele era rolado no chão para frente e para trás.


Existem inclusive desenhos de Shandmantel com figuras femininas entalhadas na tampa, que podem ter servido como inspiração direta para as Donzelas de Ferro que se tornaram mais tarde populares.

No Museu da Tortura de Praga, na atual República Checa, existe um dispositivo datando do século XVI que parece muito com uma Donzela de Ferro. Ela é uma espécie de caixa do tamanho de uma pessoa adulta, com uma estrutura de metal mas recoberta de couro, dotada de furos. Nesses espaços intermitentes, lanças ou cravos podiam ser enfiados para perfurar uma pessoa presa no interior.

Curiosamente, não existe no mundo nenhuma Donzela de Ferro que comprovadamente foi construída (e usada) na Idade Média. Muitos museus possuem em seu acervo tais instrumentos de tortura, mas mesmo as peças mais conhecidas não passam de versões construídas após o século XVII. Embora tudo leve a crer que as Donzelas de Ferro não passem de uma ficção, não há como se descartar a brutalidade e violência que o ser humano é capaz de desencadear. A concepção desse e de outros instrumentos de tortura apenas demonstram como nossa espécie é criativa e eficiente quando se trata de nos ferirmos uns aos outros.

domingo, 16 de dezembro de 2018

A Lenda de Bloody Mary - Repita seu nome diante de um espelho, se tiver coragem


Todos já ouviram a história.

Muitos, inclusive, já devem ter brincado disso quando criança ou adolescente.

Consiste em parar diante de um espelho, e repetir uma, duas, três vezes o nome de alguma entidade. Segundo as histórias, quando o nome é dito pela terceira vez, a criatura (espectro, fantasma ou sombra) se manifestaria de forma visível e poderia ser percebida no reflexo do espelho.

Parece familiar? Pois bem, variações dessa história são conhecidas em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.

A origem da lenda é difícil de ser determinada, mas acredita-se que ela tenha surgido com o nome de Bloody Mary na Inglaterra em meados de 1800.

A Lenda de Bloody Mary também é conhecida por outros nomes como Maldição de Mary Worth e Aparição de Mary Whales. Todas elas parecem se referir a mesma entidade, cuja aparência e história tem poucas variações. 


O Fantasma é descrito como uma mulher bonita e pálida, cabelos loiros e longos, vestindo um traje simples como uma camisola, igualmente imaculada. Essa forma frágil, no entanto, esconde a natureza perversa de Bloody Mary. Ao abrir os olhos, estes transbordariam de ódio e ressentimento pelos vivos. De sua boca, escorreria sangue em profusão, e seu pescoço penderia num ângulo impossível, evidenciando estar quebrado. Uma marca clara de corda poderia ser visto, onde o nó foi apertado até arrancar de seu corpo o último suspiro.

Em algumas versões, a cabeça da Bloody Mary poderia se soltar do corpo e rolar pelo chão deixando um rastro de sangue. Em outra, os pés do espectro não tocariam o chão, e ela flutuaria no ar. Finalmente um terceiro rumor diria que quando a Bloody Mary se manifesta, ocorre uma queda acentuada da temperatura, na qual o ambiente fica sombrio e frio.    

Uma das lendas mais difundidas sobre a origem da assombração diz respeito a uma mulher que teria vivido nos tempos da Inquisição. Mary seria curandeira e parteira, prestando serviços para os aldeões de um vilarejo próximo. Bonita e independente ela atraía a inveja das mulheres e o ódio dos homens, já que não se sujeitava a nenhum marido. Mary teria sido acusada de praticar malefícios contra os aldeões e de ter causado a morte de uma mulher e seu bebê durante o parto. Ela foi denunciada como bruxa e presa, acabando por ser condenada à morte. A forma escolhida de execução foi a degola, feita com uma cinta de couro que foi passada em torno de seu pescoço e apertada com uma manivela até que ela asfixiasse. 

Dizem que durante a execução, assistida por todo o vilarejo, Mary amaldiçoou seus algozes. Aqueles que repetissem seu nome, seus filhos e descendentes, seriam amaldiçoados e encontrariam seu espírito inquieto em busca de vingança.


Em 1978, a escritora Janet Langlois publicou um livro intitulado “Mary Whales: Eu acredito em você”. No ensaio ela traçou as origens da lenda e tentou encontrar a verdadeira Mary através de registros históricos e documentais. Segundo as pesquisas de Langlois, uma mulher chamada Mary Whales teria sido executada em 1662, acusada injustamente de prática de bruxaria em Devon, no sul da Inglaterra. 

Ela acredita que esse incidente tenha dado origem à lenda que posteriormente se espalhou pelo país.

O livro apresentava ainda o relato de pessoas que teriam testemunhado a aparição de Mary após repetir seu nome diante de um espelho, uma crença que aparentemente sempre fez parte da lenda.

A brincadeira, um típico jogo de desafio e coragem, incorporava um método consagrado de invocação espiritual que envolve o nome e um espelho. A brincadeira é, portanto, embasada em princípios consagrados do ocultismo ritualístico. Nomes sempre foram parte importante de rituais. Tradições ancestrais ditam que o "nome verdadeiro" é uma maneira de se invocar entidades, desde espíritos, até gênios, passando por anjos e demônios. Conhecer o nome verdadeiro é a maneira correta de realizar uma invocação e sujeitar a entidade à vontade do realizador. O espelho também é uma parte importante, uma vez que constituiria uma conexão com o mundo sobrenatural. Seria através de espelhos que portas e portais poderiam ser abertos. A superfície cristalina seria uma espécie de janela para outra realidade, pela qual seria possível ver e ser visto, falar e ouvir.

Em algumas variantes da lenda, seria possível usar a invocação de Bloody Mary para ter um vislumbre do futuro. Se a pessoa em questão demonstrasse respeito, na superfície do espelho apareceria uma visão clara de seu futuro, que poderia ser bom ou ruim. Segundo a lenda, algumas vezes, via-se um futuro desejado com riquezas, amor e sucesso, em outros a profecia de acidentes, morte e tristeza. Segundo consta, a tal visão se concretizaria, independente da vontade da pessoa. 


As histórias mais populares, contudo, atestam que invocar Bloody Mary poderia resultar em grande perigo.

Se o espectro ouvisse seu nome sendo repetido três vezes com grande concentração e propósito, ele surgiria no espelho atrás da pessoa que realizou o chamamento. Em algumas versões, o espectro surge vingativo, disposto a matar e desfigurar o rosto da pessoa que ousou chamá-la. Alguns no entanto, afirmam que ao surgir, o choque causado pela assombração, é tão apavorante que pode matar de medo, provocando um ataque cardíaco fulminante. Os sobreviventes da experiência poderiam ficar com sequelas: gagueira, loucura ou teriam os cabelos totalmente embranquecidos.

Como evolução da lenda, mais recentemente, Bloody Mary se tornou um nome invocado para obter vingança. A assombração poderia ser invocada por pessoas interessadas em pedir que ela realizasse uma vingança contra um inimigo, em especial alguém que foi injusto ou cruel. Mary saberia reconhecer uma alma atormentada, assim como a dela, e aceitaria ajudar. Para isso, o nome da pessoa contra a qual se desejava extrair vingança deveria ser escrito na superfície do espelho, ao contrário para ser lido pela assombração do outro lado. Esta então apareceria para a pessoa em questão, saindo de um espelho para puni-la pelos seus maus feitos.


No Brasil, a história foi traduzida como a Lenda da Maria Sangrenta ou então da Bruxa do Espelho, Maria Degolada e mais tarde daria ensejo à famosa Loira do Banheiro que assombra os banheiros de colégios de todo país. 

Ela teria sido introduzida no país através de alunos de escolas britânicas que carregaram a história de Bloody Mary para outros países. Registra-se que no Brasil, ela foi citada pela primeira vez em meados de 1910 como uma "brincadeira" de crianças na famosa Escola Inglesa no Rio de Janeiro.  

Outra lenda, igualmente difundida no Brasil, e possivelmente uma adaptação à história original, diz que Mary era uma mulher muito bonita, mas um tanto superficial quanto a sua aparência. Ela teria sofrido um acidente automobilístico no qual seu rosto ficou horrivelmente marcado por cicatrizes. Para esconder as deformidades ela passou a andar por aí com um véu preto cobrindo-lhe o rosto. Certa vez, o tal véu teria caído em um evento social e as pessoas ficaram horrorizadas pela aparência dela. Mary então correu para casa e destruiu o espelho de seu banheiro. Com um estilhaço de vidro, cortou a própria garganta. Enquanto o sangue se esvaia, sua alma teria ficado aprisionada no espelho.

Enlouquecida e sem descanso, ela passou a habitar todos os espelhos, enxergando as mulheres se arrumando e maquiando com uma inveja mortal. Quando seu nome era repetido três vezes, por alguma pessoa diante de um espelho, ela poderia sair dele, espalhando morte e loucura.

E você?

Você teria coragem de repetir esse nome diante de um espelho depois de conhecer esses detalhes da lenda?


terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Olhos Negros - Uma Lenda Urbana sobre Crianças Malditas


Elas podem bater na porta da sua casa no meio da madrugada. Podem também se aproximar de seu carro em uma estrada escura. Podem ainda o cercar em uma rua deserta.

Elas parecem perfeitamente inofensivas e muitas vezes alegam precisar de ajuda, não representam perigo, pois são meras crianças. Mas não se deixe enganar pelas aparências! Apesar de parecerem crianças de 8 a 14 anos, elas não o são... seriam algo muito mais estranho e perigoso. Seus olhos são completamente negros, refletindo a escuridão de suas almas.

Essas são as Crianças de Olhos Negros.

Rumores a respeito dessas crianças sinistras tem se multiplicado nos últimos anos. Em geral, elas são compartilhadas em páginas da internet e grupos de discussão que tratam de fenômenos inexplicáveis ou Lendas Urbanas. Não se sabe exatamente onde ou quando a lenda urbana surgiu, quem a inventou e por qual motivo, mas é fato que ela continua se espalhando. Não há qualquer comprovação da existência de fato dessas crianças amaldiçoadas, não existem vídeos, fotografias ou registro da captura de uma delas. Contudo, não faltam testemunhas e relatos a respeito de pessoas que tiveram um contato muito próximo (e apavorante) com elas.

Reais ou não, histórias a respeito delas tem sido compartilhadas na internet, como essa escrita por uma pessoa de Denver, Colorado:

"Eu estava em casa assistindo um filme, quando de repente ouvi o barulho de alguém batendo na porta. Eu levantei e fui devagar até a porta para abrir, mas então imaginei que já era tarde e como não estava esperando ninguém, resolvi perguntar quem era. Ninguém respondeu. Voltei para a sala e então, ouvi a batida novamente. Fui até lá e perguntei mais uma vez, e dessa vez ouvi uma voz abafada de criança. Não consegui entender o que ela dizia, mas como parecia se tratar de uma criança abri uma fresta pequena o bastante apenas para poder ver quem estava ali. Haviam três crianças paradas ali. Uma delas disse que elas estavam perdidas e que precisavam de ajuda para encontrar sua mãe. Elas pediram para usar o telefone, e esse foi o maior erro da minha vida, pois fiquei com pena e abri a porta. Eu as deixei entrar, uma de cada vez e foi então que percebi. Elas tinham os olhos escuros, muito assustadores. Eu fiquei paralisado por um instante, apenas o tempo suficiente para uma delas se aproximar. Felizmente eu tive um estalo e consegui correr para fora de casa. Olhei para trás e vi as três paradas na entrada da minha casa como se estivessem lamentando que eu havia escapado. Voltei apenas duas horas mais tarde, acompanhado de dois amigos. Não havia ninguém na casa, mas o lugar havia sido todo revirado - portas e gavetas abertas, armário revirado, roupas e objetos atirados no chão. As crianças no entanto, haviam sumido".


Outro relato feito pela internet vem de uma pessoa de Chicago, Illinois:

"Eu olhei pelo olho mágico... lá fora haviam duas crianças... eu tive uma sensação desagradável, pois embora fossem apenas crianças, havia algo nelas que me encheu de apreensão e medo. Eu pensei em fazer de conta que não havia ninguém em casa, mas então uma delas bateu a porta e eu acabei me assustando e perguntando "Quem está aí"? Uma das crianças, um menino perguntou então se poderia entrar para usar o telefone. A voz, embora fosse de uma criança me pareceu esquisita, soou oca. Eu disse que o telefone não estava funcionando e ela bateu a porta novamente e fez a mesma pergunta, no mesmo tom. "Posso usar seu telefone?" Ela então levantou a cabeça e pude ver que os olhos eram grandes e muito escuros, negros como tinta preta. Eu fiquei sem ação. Ela olhou na direção do olho mágico e bateu na porta mais uma vez. "Nossa mãe está preocupada", ele disse e continuou batendo. Eles ficaram lá batendo por pelo menos mais dez minutos até irem embora. Eu nunca soube o que era aquilo, mas fiquei apavorado".

As histórias a respeito de crianças de olhos negros abordando pessoas não se restringe a casas, mas inclui também automóveis:

"Eu vi algumas crianças andando de um lado para  outro da calçada em frente ao meu carro. Eu estava estacionado e elas se aproximaram, com a cabeça baixa... um dos meninos se aproximou da janela e espiou para dentro. Seus olhos eram enormes, e negros. Eu consegui dar uma boa olhada neles e fiquei apavorado. Se você jamais viu uma criança com os olhos daquele jeito, é difícil de explicar o que senti. As pupilas eram pretas como a noite. O menino sussurrou através da janela: "Me deixa entrar", e eu tranquei a porta instintivamente e passei para o assento do carona. Ele ficou na porta batendo e arranhando a janela, eu não conseguia me mover de tanto medo. Quando meu amigo, quem eu estava esperando, enfim chegou, me encontrou caído no banco de trás. Ele teve que gritar até eu perceber que era ele e abrir a porta. As crianças haviam desaparecido".

É curioso, mas histórias como essas tem se multiplicado mundo afora graças à internet. De modo geral, não há como provar essas narrativas, contudo a maioria das pessoas que afirmam ter tido uma experiência com crianças de olhos negros relatam um detalhe similar: o profundo medo!


Sempre que uma criança de olhos negros aparece e a pessoa tem a chance de olhá-las cara a cara, parece haver uma sensação sobrenatural de pavor. Há muitos relatos de pessoas afirmando que ficam paralisadas, como se os membros ficassem enrijecidos ou incapazes de reagir. A reação típica é querer fugir e correr. A maioria dos relatos é confuso nesse pormenor, mas todos afirmam categoricamente que o medo os deixa sem reação, virtualmente à mercê das crianças.

Uma testemunha tentou explicar a situação pela qual passou, afirmando que seus músculos ficaram sem força e que ele se viu de um momento para o outro incapaz de dar um passo sem cair. Isso também explicaria porque algumas pessoas afirmam não serem capazes de gritar ou pedir ajuda. Elas ficam totalmente sem ação!

Não há como dizer, mas tal coisa poderia acontecer em decorrência da natureza sobrenatural dessas crianças. Algo nelas seria tão estranho e perturbador, que causaria uma reação física, não apenas psicológica. Seria o que alguns psicólogos chamam de "pavor congelante", uma reação similar ao que descrevem aqueles que experimentam a paralisia do sono.  

À primeira vista, as crianças de olhos negros não parecem diferentes de crianças comuns e suas características bizarras podem passar desapercebidas. Apenas quando se está perto o bastante é possível perceber a estranheza delas - leia-se seus olhos negros. Segundo algumas descrições, as crianças parecem se mover de maneira incomum, quase como sonâmbulas. Também teriam a pele muito clara, em um tom de palidez quase mortiço. Suas vozes soam distantes e monótonas, pouco naturais. Em geral, as crianças vestem roupas simples, em várias narrativas elas usam casacos com capuz que ajudam a disfarçar seus olhos anormais. Para alguns seriam fantasmas, assombrações, ou até mesmo alienígenas. A interpretação de sua origem varia muito de pessoa para pessoa.

Outro ponto curioso é que ninguém sabe dizer ao certo o que querem essas crianças. Embora muitos comentem que elas desejam entrar em casas e automóveis, para se aproximar das pessoas, ninguém sabe explicar qual o seu objetivo e o que fariam se conseguissem se aproximar o bastante. Elas usam como pretexto estarem perdidas ou separadas de seus pais, assim buscam comover aqueles que abordam. Dada a reação aterrorizada das testemunhas, é de se supor que aqueles que não conseguem reagir à tempo acabam se tornando vítimas delas. Estes morreriam em decorrência do extremo terror causado.

Investigadores amadores e pesquisadores do sobrenatural tentaram desvendar esse mistério e oferecer explicações razoáveis para o fenômeno das Crianças de Olhos Negros. Uma explicação comum é que poderia ser uma condição chamada midríase (mydriasis), uma dilatação acentuada da pupila ocasionada por diferentes fatores que incluem uso de drogas ou trauma. Alguns sugerem que o comportamento das crianças, com movimentos erráticos e quase mecanizados, poderiam apontar na direção de drogas que produzem midríase. É difícil entretanto, acreditar que pudesse ser algo tão corriqueiro. A hipótese parece pouco provável, pois as testemunhas afirmam que os olhos são completamente negros, o que inclui a esclerótica e a iris. Pupilas dilatas não parecem nada com olhos completamente obscurecidos.


Buscando no folclore, é difícil encontrar menções a histórias sobre crianças de olhos escuros.

Pesquisadores tentaram achar alguma menção nesse sentido, mas retornaram de mãos vazias. Histórias sobre crianças de olhos negros estão presentes na internet e em livros sobre o mundo sobrenatural, mas apenas de 1998 em diante. Não há nada no folclore ou em tradições antigas, para todos os efeitos, parece ser algo bastante recente.

Tentar traçar as origens de uma Lenda Urbana é algo complicado, mas alguns apontam para uma antiga publicação do ano de 1997, escrita por Brian Bethel, um morador de Abilene, Texas. Ele escreveu a respeito de um encontro apavorante com o que ele descreveu serem crianças pálidas que tinham os olhos totalmente negros.

Bethel relatou o ocorrido em um fórum de troca de histórias aterrorizantes:

"Eu estava apanhando meu carro na garagem do prédio em que trabalho. O lugar estava deserto e normalmente é bem escuro, iluminado por lâmpadas esparsas. De repente, ouvi um barulho e quando olhei para trás percebi que uma criança, um menino de uns 12-13 anos estava ali comigo apoiado em um carro. Ele perguntou se eu sabia da sua mãe e se podia ajudá-lo, pois estava perdido. Eu me aproximei para ajudar, mas foi aí que percebi que os olhos dele eram pretos. Pretos como carvão. Eu levei um susto e corri o mais rápido que pude para meu automóvel que estava estacionado a uns 10 metros de distância. Abri a porta, entrei e fechei o mais rápido possível. O menino ficou na janela, diante da porta batendo no vidro, pedindo que eu abrisse. Eu não conseguia me mover de tanto medo. Ele ficou ali por um tempo até que sumiu, e só então eu consegui voltar para o banco do motorista e ir embora".

Bethel manteve a sua história, relatando cada detalhe de sua experiência aterrorizante. Entrevistado alguns anos depois, quando a lenda urbana já havia se espalhado, ele sustentou o que havia acontecido:

"Eu não sei o que era, eu não sei explicar... sei apenas que aconteceu e que fiquei realmente apavorado. Até hoje, quando entro em um lugar fechado e escuro, fico nervoso. Tenho medo de ver uma dessas crianças novamente e não sei como iria reagir se tal coisa acontecesse".


Alguns estudiosos de Lendas Urbanas cogitam que a história das crianças de olhos negros possa ser uma expressão espontânea de Alucinação Coletiva. O fenômeno à luz da parapsicologia envolve uma manifestação do inconsciente coletivo que se forma graças a uma forte sugestão, basicamente as pessoas passam a acreditar que algo existe e essa coisa acaba se manifestando fisicamente no mundo real. Seria algo similar ao tulpa do folclore tibetano, entidades que se materializam mediante um pensamento coletivo que lhes dá corpo.

Contudo, seriam as narrativas sobre crianças de olhos negros, suficientemente populares para manifestar uma criatura no mundo real?

Em um estudo realizado pelo Centro de Psicologia da Flórida em 2014, relatos sobre Crianças de Olhos Negros se converteram uma das Lendas Urbanas mais frequentemente lembradas e populares, ultrapassando avistamentos do Pé Grande e tomando o lugar até do famoso Slenderman. O número de pessoas relatando encontros com tais "criaturas" teve um aumento acentuado entre 2014 e 2015.

A "febre" das crianças de olhos negros atingiu seu ápice na internet em 2013, quando um vídeo de dois minutos foi ao ar no "Weekly Strange", um web site da MSN. Não é de se estranhar entretanto que o vídeo tenha sido lançado na mesma época de um filme de horror baseado na lenda urbana.

O jornal britânico Daily Star também fez um levantamento a respeito do avistamento de criaturas sobrenaturais ocorridos na Inglaterra e o resultado foi surpreendente. Crianças de Olhos Negros ficaram entre as cinco manifestações mais comuns no país, entre vampiros e extraterrestres. Segundo o escritor científico Sharon A.Hill, relatos sobre "Crianças de Olhos Negros" lembra as típicas histórias assustadoras do folclore, no mesmo nível dos cães negros, fantasmas, aparições e monstros misteriosos. "Não são sobrenaturais, é provável que nem sequer tenha havido algum encontro. Mas isso não impede as pessoas de continuarem a imaginar e temer sua existência. Alguns até acreditando ter experimentado tal coisa".


A Lenda Urbana parece ter gerado sua própria mitologia, disseminando-se em diferentes lugares com uma velocidade impressionante. Há relatos a respeito de Crianças de Olhos Negros na Europa, América do Norte e no extremo Oriente. Ao que tudo indica, é uma história moderna de "Bicho Papão" que acabou caindo nas graças das pessoas, como a "Loira do Banheiro" ou o "Maníaco com o Gancho".

Seja como for, quando você junta narrativas a respeito de crianças estranhas se comportando de forma sinistra, não é difícil que a coisa acabe crescendo, quase por conta própria. Nosso medo diante do desconhecido, do bizarro e do inexplicável se traduz na matéria prima para construir uma enorme e aterrorizante tapeçaria.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

A Casa dos 200 Demônios - A história real da Casa mais assombrada de Indiana


A noção de possessão demoníaca está entre nós há séculos, e a ideia de que nós possamos nos tornar veículos para forças sinistras e diabólicas tem nos assombrado e assustado desde eras passadas.

Mas seria possível que um lugar se tornasse o portão de entrada para algo maligno? Seria possível que algo inanimado fosse tomado por uma força sobrenatural de tal maneira que ela inteira fosse compelida pelo mal? Nesse contexto, pode uma família inteira ser afligida por essas forças?

Em um caso recente, uma família alegou que seu lar estava sob a influência de entidades malignas, inteiramente infiltrada por demônios e presenças aterrorizantes. Assim, surgiu a lenda da Casa Demoníaca. O local se localiza no estado norte-americano de Indiana e se tornou rapidamente um dos endereços mais macabros e aterrorizantes do país. Alvo de muita especulação e histórias inacreditáveis.

Em novembro de 2011, uma jovem mulher chamada Latoya Ammons, sua mãe, Rosa Campbell, e três crianças com idades de 7, 9 e 12, chegaram a cidade de Gary, Indiana e se mudaram para uma modesta e tranquila vizinhança. Eles passaram a residir no número 3860 da Rua Carolina, um lugar aparentemente como qualquer outro. No início eles estavam felizes lá, e embora a casa fosse apenas um lugar como outro qualquer, ela se tornou sua Casa dos Sonhos. Entretanto, tão logo a família Ammons chegou e começou a se estabelecer, estranhos e curiosos fenômenos também tiveram início. Como uma praga invisível, algo começou a se manifestar e agir contra os novos moradores fazendo com que eles temessem pela sua sanidade e mesmo, pelas suas vidas. 


A primeira coisa estranha que a família percebeu, aconteceu em meados de dezembro, quando um número assombroso de moscas começaram a ser atraídas para o terreno da casa. Enormes moscas varejeiras apareciam zumbindo e zunindo, como se algo na casa estivesse chamando pelos insetos. Paredes e janelas ficavam escuras com centenas delas pousadas, produzindo um ruído incômodo. Os moradores perceberam que elas apareciam em maior número no final da tarde, concentradas em grande quantidade no alpendre que levava à porta de entrada ou na janela do sótão. Era muito estranho, ainda mais que se tratava de um mês frio, no auge do inverno. O pior é que essas moscas se juntavam em verdadeiras nuvens grossas e barulhentas. Sempre no mesmo local, nunca nas casas vizinhas, sempre ali, por razões impossíveis de compreender.

A família tentou lidar com o problema da maneira tradicional. Contrataram exterminadores para liquidar com a profusão de insetos, mas não importava o método usado, o problema era resolvido apenas por alguns dias e retornava logo em seguida, ainda pior. Por mais que matassem insetos eles continuavam se acumulando, entrando na casa, nos quartos e na cozinha.

Infelizmente, a praga de moscas acabaria sendo a menor das preocupações. Mais ou menos na mesma época, os moradores da casa começaram a se queixar de estranhos ruídos ouvidos no meio da madrugada. Como se alguém pesado estivesse andando pelo assoalho, produzindo passos na escada e no sótão. Portas também se abriam misteriosamente, tanto a dos quartos, quanto dos armários. Da mesma forma gavetas apareciam escancaradas e o interior revirado, mesmo depois destas serem trancadas e a chave removida. Certa noite, a família foi surpreendida por um forte estrondo, compatível com algo pesado caindo e rolando as escadas. Todos estavam dormindo, mas acordados pelo barulho, correram para ver do que se tratava: não encontraram ninguém estranho na casa. As portas estavam trancadas e as janelas fechadas, contudo, ao revistar a cozinha se depararam com pegadas enlameadas aparentemente deixadas por botas. Essas pegadas seguiam da sala para a cozinha e desapareciam misteriosamente perto da porta de saída que permanecia trancada com chave e uma corrente de segurança.

Após esse estranho incidente, numerosos casos de atividade poltergeist começaram a se manifestar a qualquer hora do dia ou da noite. Portas batiam, quadros caiam da parede, objetos eram arremessados e se moviam de um lugar para o outro. A atividade era tão forte que certa vez um copo de água foi arrancado da mão de Rosa Campbell e lançado contra a parede se despedaçando. Uma imagem santa também foi arrancada da parede e desapareceu por dias, sendo encontrada posteriormente do lado de fora, quebrada em pedaços. Em um incidente ainda mais apavorante, a Sra. Campbell certa noite percebeu um vulto escuro no corredor da casa, como uma sombra negra espreitando. A coisa literalmente sumiu em um piscar de olhos. Toda essa intensa atividade paranormal continuou crescendo, e as crianças da Família Ammons começaram a perder aulas pois ficavam acordadas a noite inteira aterrorizadas pelas estranhas ocorrências.    


A escalada de ataques sobrenaturais apenas piorou a partir desse ponto. Vários membros da família reclamavam que uma presença invisível os empurrava ou cutucava com força. Uma das crianças chegou a dizer que foi violentamente agarrada e sacudida por "mãos invisíveis". Em outra ocasião, um dos meninos, de 12 anos foi jogado pelo quarto como se fosse um boneco de pano, vindo a se chocar com uma mesa. Nada disso se comparava com o incidente ocorrido em 13 de março, quando uma das crianças, foi encontrada levitando acima de sua cama, em um estado de transe. De acordo com a versão de Latoya Ammons e Rosa Campbell as duas encontraram a menina flutuando a cerca de um metro de altura, com o corpo rígido sobre a cama. As duas gritaram aterrorizadas e então a criança despertou e caiu. Ao acordar, alegava não ter qualquer lembrança do que havia ocorrido, como se a sua mente tivesse sido apagada. 

Após este aterrorizante evento, as crianças começaram a manifestar uma série de comportamentos e surtos que sugeriam a influência de uma força sobrenatural externa. Os olhos por vezes rolavam deixando apenas o branco à mostra, elas sibilavam e rosnavam como animais, chegavam a latir e uivar durante a noite, e quando despertavam desse estado pareciam perfeitamente normais, sem memória do que havia acontecido segundos antes. Certa noite, Latoya afirmou ter acordado com um estranho som vindo do quarto de sua filha mais nova de apenas 7 anos. A menina estava em pé, diante da cama, seus olhos brancos e seu corpo rígido. A cabeça virada para trás enquanto ela pronunciava palavras sem sentido em uma língua que ninguém foi capaz de compreender. Quando percebeu que não estava sozinha, a menina irrompeu em uma série de gritos estridentes que terminaram em ameaças de "vou te matar" e "vocês todos vão morrer", com uma voz que não pertencia a criança. O surto durou alguns minutos e quando terminou, a menina precisou ser levada para um hospital, pois havia deslocado o ombro por ter se batido violentamente contra a parede.

Desesperada com tudo isso, Ammons foi aconselhada a procurar ajuda da igreja. Os padres foram bastante solícitos e entrevistaram membros da família para tentar compreender o que estava acontecendo. Chegaram a enviar um observador até a casa para testemunhar os incidentes. Nos primeiros três dias em que ele ficou como hóspede na casa, não houve nenhum incidente, mas no quarto dia, a atividade demoníaca retornou com força. Luzes piscava, objetos se moviam e uma garrafa alegadamente flutuou no ar. O observador da Igreja aconselhou a família a realizar uma limpeza espiritual no ambiente e espalhar crucifixos pela casa. Mas infelizmente nada disso surtiu efeito. Eles decidiram então contatar um médium, recomendado por um vizinho, para tentar entender que manifestação era aquela que os perturbava. 

O especialista, um senhor de meia idade conhecido pela sua seriedade, visitou a casa e andou pelos cômodos, concentrando-se. Em mais de um aposento ele parou e fechou os olhos como se estivesse incomodado com alguma coisa que apenas ele podia sentir. Seu prognóstico não foi nada bom. Segundo, o médium a casa estava "infestada" por presenças demoníacas, nada menos do que 200 entidades diferentes, todas elas malignas. Ele aconselhou a "limpar" a casa com ervas e erguer um altar religioso no sótão, que segundo ele, era o lugar mais afligido pelas presenças. Finalmente, disse que os Ammons deveriam considerar deixar a casa para sempre. Infelizmente, a família era muito pobre para simplesmente se mudar, e havia investido suas economias na compra do imóvel não tendo para onde ir.


Eventualmente o Departamento de Assistência Social acabou se envolvendo no caso. Uma agente social chamada Valerie Washington foi enviada para verificar se as crianças estavam sendo bem tratadas, uma vez que um professor denunciou que uma das meninas apresentava estranhas marcas nos braços. A agente foi testemunha então de uma das mais impressionantes manifestações na casa. Ela viu aterrorizada um dos meninos andar na parede, agarrado a ela desafiando a gravidade. A agente ficou tão aterrorizada que mais tarde deu uma entrevista relatando o que havia visto: "Ele estava agarrado na parede, passou correndo pelo teto, agachado de quatro. Era impossível! Simplesmente impossível que pudesse ser um truque. Não havia como tal coisa ser encenada. Eu acredito que alguma coisa fora do reino da normalidade está acontecendo com essa pobre família. Eles estão enfrentando uma situação terrível!".

Outras autoridades também se manifestaram a respeito dos bizarros acontecimentos na propriedade. O Capitão de Polícia Charles Austin afirmou que acreditava na explicação de que uma força sobrenatural estava atacando a Família Ammons. Ele próprio testemunhou mais de um incidente inexplicável ao ser chamado por vizinhos que se queixavam de gritos e perturbação da ordem vindos da casa. O Capitão teria inclusive, com a permissão da família,  tirado fotografias com seu iPhone, capturando em imagem estranhas formas sombrias e sons misteriosos. A despeito de tudo isso, o Departamento de Apoio a Crianças acabou preenchendo uma queixa contra Latoya Ammons acusando-a de maus tratos. As crianças foram afastadas e colocadas em um lar temporário por seis meses até serem devolvidas a sua guardiã legal.    

A essa altura, a imprensa já havia tomado conhecimento de todos os terríveis acontecimentos na vizinhança. O local foi apelidado de "A Casa dos 200 Demônios" e apareceu em várias reportagens de televisão e jornais de costa a costa. Um artigo de 2014 no Indianapolis Star afirmava que a casa era o lugar mais assombrado do estado e que fotografias tiradas pelos jornalistas enviados para cobrir o caso haviam registrado estranhas sombras nas janelas. A cobertura da mídia propeliu o caso até a estratosfera, e a terrível história de uma família tendo de lidar com a presença de demônios capturou a imaginação do público e se tornou sensação na mídia. 

Em meio a toda repercussão, o Padre Católico, Reverendo Michael Maginot se ofereceu para ajudar a família, desde que seu envolvimento e o da igreja fosse tratado com discrição. Nas palavras do padre, eles não queriam que a situação se transformasse em um espetáculo para a mídia. Maginot recomendou que fossem realizados três exorcismos consecutivos na casa e nas vítimas. O Padre descreveu o lugar como um tipo de "portal para a entrada de demônios" em nossa realidade.


Especialistas no sobrenatural e investigadores do paranormal levantaram histórias a respeito do endereço. Descobriram que a casa havia sido erguida em 1990, mas que antes disso, no terreno havia uma outra casa que segundo rumores havia servido como sede para o que foi chamado de "um culto diabólico" nos anos 1960. Supostamente, uma congregação diabólica se encontrava no local realizando rituais de invocação que tencionavam trazer entidades demoníacas e deles obter favores. Segundo rumores, a tal congregação teria encerrado suas atividades em 1970, depois que a casa foi parcialmente incendiada. Apesar de não haver registros do caso, uma senhora que preferiu não se identificar, afirmou que teria participado do culto que usou o endereço como base de seus rituais. Essa senhora, que afirmava ser uma cristã renascida, arrependida de seus maus feitos, contou que reconheceu imediatamente o endereço quando o caso ganhou notoriedade.

Ela relatou que a propriedade era usada como centro para a realização dos rituais e que no período em que participou dessas reuniões testemunhou muitas coisas inexplicáveis. Segundo ela, entidades eram frequentemente chamadas para se apoderar dos corpos de membros da congregação, falar através deles e presidir os rituais. A casa original teria sido posteriormente vendida e derrubada para a construção de outra casa, que por sua vez também foi demolida para que a atual fosse erguida. Uma reportagem completa, que incluía uma entrevista com essa testemunha foi publicada no Daily Indianapolis e obteve enorme repercussão. 

Com tudo que aconteceu, a família Ammons que estava no centro do debate recebeu a ajuda de pessoas sensibilizadas com seu drama. Eles ganharam uma casa bem afastada e puderam deixar a Casa dos 200 Demônios.  

Mas a história do endereço assombrado não terminou nesse ponto. Em 2016 a casa foi alugada pela produção do programa Ghost Adventures do Travel Channel que pretendia fazer um documentário e programa especial com base nos acontecimentos. Zak Bagans, apresentador do programa aceitou se mudar para o endereço que foi equipado com câmeras, sensores de movimento, microfones de captação e outros dispositivos tecnológicos para registrar qualquer manifestação. O programa que recebeu o título "Demon House" não poupou despesas, entrevistando testemunhas, contratando atores para encenar os acontecimentos e até convencendo o Padre Maginot a relatar o que viu na casa. Apenas a Família Ammons decidiu manter distância do caso, preferindo não ter qualquer ligação com a produção.


Logo ficou claro que a manifestação demoníaca na casa e sua influência não ficariam tímidas diante do aparato montado pela produção do programa. Bagans registrou alguns discretos sons e imagens no interior da casa - muitos dos quais considerados como encenados por contra-regras interessados em criar um ambiente assustador. O Padre Maginot implorou para que Bagans e sua equipe de filmagem desistissem da empreitada, ou que ao menos fizessem uma preparação espiritual antes de permanecer na casa. Pediu ainda que eles usassem crucifixos e outras proteções religiosas, mas Bagans alegou que desejavam exatamente registrar os efeitos sobrenaturais, se estes se manifestassem. 

De acordo com o diário de produção, desde o início houveram muitas dificuldades técnicas, acidentes esquisitos com membros da equipe e acontecimentos inexplicáveis. Objetos sumiam e depois apareciam em lugares diferentes, trechos de filmagem simplesmente eram apagados e misteriosos odores podiam ser sentidos. Alguns membros da equipe desistiram do trabalho, alegando que não se sentiam a vontade para prosseguir, outros diziam que a aura da casa estava cobrando um pesado preço para quem ficava lá por tempo demais. Alguns afirmavam sentir desconforto, dores de cabeça, náusea e outros efeitos. 

A situação chegou ao limite quando o próprio apresentador se ausentou por quatro dias, tendo de ser hospitalizado em caráter de emergência em decorrência de uma repentina infecção intestinal. No hospital ele teria dito que "A filmagem estava amaldiçoada" e que tinha medo de prosseguir no trabalho, embora o Canal quisesse que ele completasse as filmagens. Os custos haviam sido elevados e era preciso cumprir o contrato. Bagans declarou posteriormente que temia que qualquer pessoa assistindo as filmagens corria perigo. Segundo ele, a casa era um "gatilho" para ampliar a aflição das pessoas, fazer com que se sentissem amarguradas e especialmente oprimidas. Dois dos membros da equipe de "Demon House" alegavam estar passando por um quadro agudo de depressão. 

Após finalizar as filmagens em 2016, Bagans, que havia comprado a casa, decidiu contratar uma empresa de demolição para derrubá-la de uma vez por todas. Sua decisão era que a propriedade deveria ser destruída e o terreno deixado vazio para sempre. De acordo com o Padre Maginot tal medida não resultaria em benefício já que nenhuma limpeza havia sido realizada previamente e o mal se manteria ali. Na sua opinião, o tal portal demoníaco se manteria aberto a despeito de haver sobre ele uma casa ou não. Maginot escreveu em uma carta aberta quando consultado a respeito:

"Eu sempre fui contrário a usar a casa em um programa de televisão. É algo extremamente perigoso usar o sobrenatural como mera forma de entretenimento. Isso não é um parque de diversões. Há perigos e não há como controlar a situação. Derrubar a casa, não trará nenhum benefício. O ideal é que ela fosse mantida no lugar e gradualmente limpa de qualquer presença maligna que a habita através do Sagrado Ritual Romano de Exorcismo. Derrubar as paredes não irá encerrar a questão. Como religioso, eu gostaria que chegássemos a um final feliz, que a casa não mais representasse um mal e que as presenças malignas fossem expulsas. Ao invés disso, com ela sendo derrubada, parece apenas que Satã obteve algum tipo de vitória"


Atualmente a casa não passa de um terreno vazio, com mato e ervas daninhas crescendo em meio aos restos. Uma cerca de arame foi erguida ao redor dela, mas isso não impede que pessoas pulem sobre ela e explorem o local em busca de algum souvenir macabro nas suas fundações. Alguns vizinhos afirmam ouvir sons estranhos e perceber sombras vagando por ali, mas compreensivamente poucos gostam de falar a respeito. Também há aqueles que afirmam que o terreno vazio se tornou um imã para curiosos e satanistas que convergem para o lugar para buscar o "Portal Demoníaco".

Os estranhos acontecimentos no local continuam sendo matéria de grande debate. Há muito ceticismo quanto a veracidade do que a Família Ammon relatou ter experimentado enquanto vivia no lugar e não faltam aqueles que consideram todo incidente como uma fraude grosseira. Mediuns e especialistas em desvendar fraudes sobrenaturais afirmaram que não captaram nada de estranho na propriedade em visitas posteriores e que o caso inteiro foi manipulado para ganhar a atenção do público. Muitas das testemunhas segundo esses céticos seriam propensos a acreditar em superstições sobrenaturais, inclusive o Capitão de Polícia e a Assistente Social que testemunharam "manifestações inexplicáveis". Segundo alguns estudiosos, o caso foi hiperdimensionado pelo sensacionalismo. Nem mesmo o Padre Maginot foi poupado de críticas, já que segundo um famoso debunker ele teria escrito três livros a respeito de sua participação na investigação da Casa dos 200 Demônios.    

A despeito de todo o ceticismo, o caso permanece como um dos mais famosos registros de atividade paranormal e o mais conhecido incidente da história de Indiana. A Família Ammons jamais quis se manifestar a respeito dos acontecimentos e se negou a dar entrevistas sobre o caso, considerando que sua participação nos eventos está finalizada. O Padre Michael Maginot realmente escreveu três livros sobre o caso, e posteriormente mais dois sobre exorcismos e a presença do mal em nosso mundo. Ele é tratado como uma espécie de celebridade em seu campo de estudo. Zak Bagans, apresentador do Ghost Adventures liberou uma versão (supostamente) editada de seu programa "Demon House" em 2018 que foi exibida em um especial de 6 partes no Travel Channel. Ele não trabalha mais com o programa e se dedica a outros trabalhos atualmente.

A Casa Assombrada da Rua Carolina continua cativando a imaginação das pessoas, apesar de não existir mais. Ela é considerada como um dos casos mais sensacionais de lugares assombrados da última década e ainda rende muita discussão quando abordado. No fim das contas, é difícil dizer se algo realmente aconteceu com a família que viveu ali e se existia uma força sinistra habitando sob o mesmo teto que ela.