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domingo, 28 de julho de 2019

Norton I - A vida e o reinado do Primeiro e Único Imperador da América


O escritor Neil Gaiman escreveu que "é um pouco de insanidade que nos mantém sãos". 

É possível encontrar verdade nessas palavras examinando a vida de um homem chamado Joshua Abraham Norton, o primeiro e único Imperador na história dos Estados Unidos da América.

Norton nasceu na Inglaterra e foi criado na África do Sul. Ele se mudou para a cidade de San Francisco em 1840 com o objetivo de investir sua herança. A título de curiosidade, antes ele passou pela América do Sul, e no Brasil se encantou pela noção de um Império Tropical. Com cerca de um quarto de milhão de dólares - quantia mais do que considerável na época, ele planejava realizar investimentos no mercado de arroz. Norton comprou arroz no Peru, mas uma praga inesperada fez com que ele perdesse a safra, um segundo contratempo, dessa vez envolvendo uma fraude de seguro fez com que ele perdesse o restante do dinheiro.

Arruinado e de um momento para o outro levado à bancarrota, Norton desapareceu. Supostamente ele perdeu a razão, contemplando o suicídio e o esquecimento por algum tempo. 

Demorou dois anos até ele ressurgir em San Francisco, disposto a comunicar a todos uma nova e surpreendente notícia. Carregando um papel onde escreveu seu discurso, Norton marchou para o escritório do San Francisco Bulletin, um dos mais importantes jornais da cidade, onde leu sua proclamação:

"À todos cidadãos e companheiros americanos, Eu, Joshua Norton, doravante conforme o pedido e desejo de cidadãos dos Estados Unidos, declaro a mim mesmo Imperador da América e Protetor do México".

E com isso, teve início seu reinado de 21 anos.

A primeira medida de Norton foi ordenar a dissolução do Congresso Nacional sob suspeita de corrupção e fraude. Quando estes se negaram a obedecer, sua segunda ordem foi que o exército ocupasse os salões de Washington e expulsasse os políticos envolvidos em esquemas ilícitos. É claro, as autoridades se mostraram relutantes em acatar as ordens do Imperador Norton I.   

Mas seria um erro pensar que todos os decretos de Norton tenham sido ignorados. Foi ele o primeiro a dar sugerir a construção de uma ponte cruzando a Baia de Oakland, embora sua opinião tenha sido acatada somente 70 anos mais tarde, com a construção da Golden Gate. Ainda mais impressionante foi o conselho do Imperador para a criação de um organismo que representasse as nações e deliberasse a respeito das disputas entre os países membros, diminuindo assim o risco de guerras. Norton não chegou a dar nome para essa Assembléia, mas seu modelo foi adotado no final da Primeira Guerra quando nasceu a Liga das Nações, que antecedeu por sua vez a Assembléia das Nações Unidas.


Norton I foi acima de tudo um governante consciencioso, sempre disposto a ouvir o seu povo e cuidar das questões trazidas pelos súditos. Vestido com um uniforme militar, decorado com botões brilhantes e medalhas, o Imperador andava pelas ruas, muitas vezes atraindo aplausos e acenando para o povo. 

Ele desfilava diariamente, inspecionando os arredores. Quando encontrava algo de que não gostava imediatamente anotava em um bloco de papel e mandava para algum colaborador, de preferência alguém que trabalhasse para os jornais e desse destaque para sua crítica. Um dos seus colaboradores mais próximos era Samuel Clemens, que mais tarde ficaria famoso sob o pseudônimo de Mark Twain. 

O Imperador cobrava ordem e esperava respeito dos seus súditos, mas por vezes alguns o tratavam de forma inadequada. Certa vez, um policial o prendeu sob acusação de desacato e ele foi levado para uma delegacia sob protestos. Uma multidão se mobilizou para liberá-lo e no fim do dia, o Chefe de Polícia se apresentou em pessoa para liberá-lo. Um Juiz teria dado a seguinte declaração:

"Até onde sei, o Sr. Norton jamais roubou seus súditos, derramou sangue ou espoliou qualquer nação, o que na minha opinião é mais do que pode ser dito a respeito da maioria dos Imperadores".  

Norton aceitou de forma magnânima as desculpas do policial que o prendeu e concedeu a ele um Perdão Imperial. Depois disso, todos os policiais que passavam pelo Imperador respeitosamente passaram a saudá-lo tirando o chapéu, referindo-se a ele como Majestade.

De fato, a maioria dos moradores de San Francisco eram muito calorosos com seu Imperador. Restaurantes o convidavam para as refeições, cocheiros lhe ofereciam viagens gratuitas e muitas vezes pessoas o convidavam para beber. Norton I fazia questão de pagar por todos os seus gastos. Ele havia emitido notas promissórias que podiam ser trocadas por dólares, ao menos até que as notas imperiais ficassem prontas. Suas notas eram aceitas no comércio local e trocadas quando necessário. Além disso, a cidade ofereceu ao Imperador um segundo uniforme de gala para que ele pudesse usar em seus passeios. Todos que o saudavam, recebiam um aceno cortês, educado e gentil, como seria esperado de um Governante amado pelo seu povo.

Alguns afirmam que Norton I tornou-se popular sobretudo por ser bom para o turismo. Jornais em todo canto do país falavam do Imperador vivendo em San Francisco e pessoas vinham de longe para conhecê-lo. Norton cobrava uma pequena taxa, na forma de impostos devidos, para conversar e trocar ideias com súditos de terras distantes. Ele chegou a dar autógrafos e tirar fotografias, fazendo desses encontros ótimas oportunidades para colecionadores de souvenirs.


Uma das principais razões para o Imperador ser amado envolvia sua boa índole. Sua bondade pode ser presumida por um incidente ocorrido durante os sangrentos levantes anti-Chineses que ocorreram em 1860 em San Francisco. Na ocasião, lojas e comércio de asiáticos foram destruídos por agitadores racistas. Quando Norton encontrou um grupo de pessoas perseguindo um homem que pretendiam linchar, ele caminhou para o meio destes e começou a proferir o Pai Nosso em voz alta. As pessoas eventualmente acabaram se dispersando, sentindo-se envergonhadas de si mesmas.

Outro dos seus decretos que ganhou o coração dos súditos da cidade, foi uma lei na qual ele proibia o uso do apelido "Frisco" para nomear a cidade que tanto amava. As pessoas podiam usar "San Fran" ou "SF", mas jamais chamar a cidade de "Frisco".

"Nenhuma pessoa que tenha sido alertada, deverá usar a abominável alcunha "Frisco" para designar esta cidade e aqueles que o fizerem, deverão pagar uma multa no valor de 25 dólares".

Norton I foi um Imperador ciente do mundo à sua volta. Ele previu guerras e manifestou sua opinião a respeito de questões diplomáticas do seu tempo. Também sugeriu uma união entre a América e a Grã-Bretanha, através de seu casamento com a Rainha Victória, garantindo assim que os países se tornassem irmãos uma vez mais. Lamentavelmente a Rainha declinou da oferta.

Infelizmente, após 21 anos à frente do Império, Norton I sofreu um infarto e faleceu no final de uma tarde chuvosa. Uma carruagem foi enviada para recolhê-lo assim que cidadãos o reconheceram. Na manhã seguinte, os principais jornais da cidade estampavam a manchete:

"O Rei está morto"   

Em um editorial repleto de sentimento e respeito, o San Francisco Chronicle escreveu:

"No chão comum, na escuridão de uma noite sem lua, Norton I, por graça divina, sagrado Imperador dos Estados Unidos da América e Protetor do México, partiu desta vida deixando um vazio na alma de seus súditos".

Seu funeral foi pago pela comunidade de comércio e homens de negócio. Uma testemunha comentou que durante a passagem da carruagem a caminho do cemitério, todos que se depararam com o féretro tiraram o chapéu em sinal de respeito: "Do Capitalista mais rico, ao mendigo mais miserável, do sacerdote mais justo ao ladrão mais vil, das damas da sociedade, às mulheres da vida. Nenhuma pessoa ficou alheia ao ocorrido".

A procissão fúnebre contou com um cortejo que se estendeu por duas milhas e com mais de 30 mil pessoas. Estas vieram prestar seus respeitos ao Imperador Joshua Abrahan Norton, um homem que muitos poderiam considerar louco, mas que através de suas ações foi mais são e amado que a maioria dos Reis e Rainhas desse mundo.

*          *          *

Eu comecei o texto mencionando Neil Gaiman e concluo fazendo-o novamente. 

O escritor britânico, criador de Sandman, contou à sua maneira a história de Joshua Norton, relacionando sua existência a uma aposta realizada por Perpétuos, entidades que representam as facetas da existência humana. Sonho deu ao homem uma razão para viver, tornar-o um Imperador e ele, com dignidade, desempenhou a função sem jamais perder-se nos reinos do Delírio, Desejo ou Desespero.


A história de Norton I, pode parecer ficção, mas é totalmente real.

Não sei quanto a aposta dos Perpétuos, mas não duvido de nada...

Essa é uma das minhas histórias favoritas, o Sr. Gaiman estava em um momento de inspiração sublime quado decidiu contá-la.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

O Diário do Terror - Relato de uma trágica Expedição ao Norte Gelado


O relato a seguir foi feito por exploradores no ano de 1909 que informaram de forma dramática os acontecimentos de que tomaram parte. 

Esses acontecimentos foram registrados no diário oficial da expedição liderada por William Leydell Sandhurst, antropólogo da Universidade de Montreal e explorador com ampla experiência no norte do Canadá. Os demais membros da expedição eram o médico Richard Musgrave, o Tenente Joseph Benson da Polícia Real Montada, o botânico e geólogo Dieter Kunrad e o Professor Stanley Fredericks especialista em zoologia. 

A expedição partiu de Manitoba seguindo para os territórios do Norte com objetivo de mapeamento e exploração da flora e fauna local. Também visava fazer um reconhecimento das tribos nativas e assentamentos além da fronteira.

O caderno de notas a seguir foi transcrito na íntegra a partir do vigésimo terceiro dia de exploração que até então transcorria sem incidentes. Ele marca a chegada do grupo ao território norte de Nunavut, província mais setentrional do Canadá. 

12 de Julho de 1909

Deixamos a aldeia Iqaluit, habitada majoritariamente por esquimós (Inuit) com quem conseguimos estabelecer uma relação cordial. Os nativos ficaram bastante curiosos a respeito de nossa presença em seu território. De fato, poucos deles pareciam já ter tido contato com indivíduos de descendência européia, e mesmo assim através de postos na fronteira mais ao norte de Manitoba. 

Os Inuit nos trataram com gentileza e permitiram que ocupássemos uma de suas cabanas onde pudemos descansar e nos refazer da árdua jornada. Quando perguntamos a respeito de guias para nos ajudar em nossa exploração, a maioria dos nativos se entreolhou e tentou nos dissuadir de seguir pelo caminho que pretendíamos - e que não foi mapeado. Muitos se mostraram extremamente contrariados quando mencionamos nossos planos, e por isso, achamos melhor não insistir.

Crianças e mulheres da vila Iqaluit

14 de Julho de 1909

Fizemos amizade com Igoolik, um homem da tribo, já de meia idade mas com enorme energia e disposição. Trata-se de um sujeito extremamente jovial, que demonstra curiosidade a respeito de nossos modos quase tão grande quanto nós a respeito dos dele. O Dr. Musgrave parece fascinado pelas tradições e fez vários registros e exames dos membros da tribo, inclusive mulheres e crianças.

Após alguma negociação, Igoolik concordou em nos guiar pelo território. No entanto, ele estabeleceu a condição de não seguir pelo caminho que havíamos traçado, afirmando que isso nos levaria através de uma área considerada perigosa pelos locais. Igoolik, disse que poderia nos conduzir por uma trilha margeando uma floresta de coníferas, cerca de 5 dias para o noroeste. Ele se mostrou irredutível a esse respeito e temendo que nossa insistência pudesse prejudicar nosso acordo acabamos concordando. 

Estamos à disposição dele e quando ele escolher partir seguiremos viagem.

Igoolik em foto fita por Kunrad
15 de Julho de 1909

Ficamos na casa de Igoolik e hoje pela manhã, três membros da tribo apareceram na cabana de nosso anfitrião. Uma vez que falavam em um dialeto próprio, não consegui entender tudo que disseram, contudo foi possível captar um certo grau de animosidade. Os três pareciam contrariados a respeito de alguma coisa e acredito que nós, enquanto forasteiros, possamos ser o motivo dessa altercação.

Em tempo, conseguimos extrair de Igoolik que a razão do debate envolvia o fato de terem descoberto que ele iria nos acompanhar. Alguns pareciam especialmente irritados com isso. Felizmente nosso guia, conseguiu tranquilizar os demais membros de sua tribo. Ele explicou que o território ao norte é uma área de caça tradicionalmente usada por membros de uma tribo rival, os Puytevah que estabeleceram um equilíbrio delicado com o povo da aldeia.

Segundo o guia não haverá problemas, desde que não entremos no território dos Puytevah.

18 de julho de 1909

Depois de uma longa espera, partimos, conduzidos pelo nosso guia. O Tenente Benson ficou responsável pelos suprimentos e ele conseguiu repor a maioria de nossos recursos. Os cães e trenós são de ótima qualidade e estamos plenamente motivados.

Kunrad registrou nossa partida com uma fotografia pouco antes de deixarmos o vilarejo.

20 de julho de 1909

Encontramos rara beleza selvagem nessas terras raramente exploradas ou trilhadas. Trata-se de um território isolado, no qual o povo Iqaluit raramente coloca os seus pés. Nosso guia afirma ter passado por aqui há 12 anos e que conhece o caminho. As diferenças entre seu povo e os Puyvetah se referem principalmente a religião, sendo que eles veneram divindades diferentes, ou foi isso, o pouco que consegui extrair dele.

William Sandhurst e Dr. Musgrave

22 de julho de 1909

Os dias tem sido de marcha forçada e pouco descanso.

Seguimos pela imensidão gelada nos trenós puxados pelos huskies, encontrando nada a não ser neve, coníferas e de tempos em tempos formações rochosas no horizonte. A vastidão dessa terra nos faz pensar a respeito dos pontos ainda não explorados ou conhecidos do planeta. É um privilégio estar aqui e ver em primeira mão aquilo que se abre diante de nossos olhos atônitos. 

O céu de um azul escuro está límpido e ainda que exaustos pelo esforço, estamos confiantes de que nosso guia sabe por onde está nos conduzindo.

23 de julho de 1909

Nosso guia nos trouxe até a margem de uma floresta de coníferas conforme havia prometido. Seu plano é tangenciar essa floresta  composta de magníficos Abetos, Chamaciparis, Ciprestes da Caledônia e Cedrus da Nova Escócia. Kunrard, nosso botânico está maravilhado com a flora do ambiente e recolheu algumas folhas para analisar posteriormente. Fredericks também demonstrou interesse na tímida fauna local. 

De um modo geral, estamos satisfeitos com o progresso e agradecidos pelo tempo estável.

24 de julho de 1909

Igoolik ficou preocupado a respeito de um avistamento ontem. 

Ele acredita ter visto homens da tribo Puytevah nos observado do alto de uma ravina. Sua preocupação era clara, e para evitar problemas, decidiu nos guiar para o leste. Ele espera que assim evitemos qualquer contato. 

Quando o antropólogo dentro de mim apelou para fazer contato com essa tribo, explicando nosso interesse de barganhar com eles, o homem me olhou com incredulidade. Ele sequer quis pensar no assunto e disse que a expedição deve evitar qualquer aproximação. Uma vez que dependemos dele, não quis argumentar.

William Sandhurst escrevendo em seu diário
26 de julho de 1909

Uma descoberta inusitada!

Encontramos uma clareira vasta com aproximadamente 400 metros de diâmetro na borda da floresta. É um espaço onde a neve parece ter sido profundamente remexida, talvez por uma tempestade ou vendaval. Não apenas os arbustos e a vegetação mais frágil foi afetada, mas árvores de tamanho considerável foram arrancadas da terra com raízes e tudo. O fato mais surpreendente é que a área fustigada pela tempestade parece ter se confinado nesse ponto em especial, com o entorno dos limites da clareira preservados ou pouco incomodados pela estranha perturbação climática que aqui se abateu. Não sou glaciologista, mas minha suposição é que a tempestade deve ter desancado há menos de 72 horas. Seria difícil não captar esse grau de atividade climática, mas ainda assim, nada percebemos.

Igoolik não parecia interessado em revistar a área. De fato, ele tentou nos afastar dela e apenas com grande negociação concordou em nos conceder algumas horas para explorá-la. Ainda assim, ele preferiu se afastar e fazer um reconhecimento do terreno adiante à pé, prometendo voltar antes do anoitecer.

Mais tarde - Escavamos a área e descobrimos atônitos alguns objetos enterrados - uma bolsa rústica e uma cacimba de água feita de terracota. Essas descobertas nos levaram a outro achado muito mais impressionante, provavelmente o dono desses itens. Encontramos o cadáver de um homem de 30-35 anos que estava soterrado sob a neve a uma profundidade de 1,20 metros. Trata-se obviamente de um nativo, e o Dr. Musgrave supõe que ele esteja morto há pelo menos um ano. O corpo apresenta, segundo seu exame preliminar, sinais evidentes de hipotermia e tudo indica ele tenha sido apanhado por uma forte nevasca. Não se trata de algo estranho, visto que aqui, as condições climáticas oferecem variações perigosas. 

Ainda assim, havia outro detalhe no mínimo peculiar no que diz respeito a causa da morte. O Doutor acredita que ele tenha sofrido impacto condizente com uma queda. Sem um exame mais profundo, não havia como saber com certeza, mas o Doutor insiste que as fraturas no corpo remetem a uma queda de uma altura considerável. Como tal coisa pode ter ocorrido em uma região de planícies nos escapa à percepção. 

Outro detalhe a respeito do pobre diabo é sua aparência geral, que não condiz com a de nenhuma tribo local. Francamente, tudo me leva a crer, e o Tenente Benson partilha dessa opinião, que não se trata de um Inuit, mas de um Cree Naskapi, habitante dos Grandes Lagos. Ainda que a distância crie dúvidas sobre essa presunção. Além disso, os objetos incomuns que ele carregava, nos deixaram desconcertados. Os trajes do homem não se assemelham ao das tribos que encontramos na área e o couro do animal que do qual confeccionou a roupa não condiz com o de animais aborígenes. Para falar a verdade, nem mesmo Fredericks foi capaz de determinar de que couro batido suas roupas eram feitas. Os calçados dele também parecem impróprios para a neve densa dessas paragens perpetuamente congeladas. Mais estranho (!), em suas roupas haviam sinais de grãos que não existem nessa região. Por estranho que possa parecer, tudo indica que o homem é proveniente de terras muito distantes, o que o tornaria tão forasteiro nessas paragens quanto nós.

Em seu pescoço, Fredericks encontrou um estranho colar ou amuleto onde pendia uma pedra escura - uma turmalina bruta em formato de bala, que nos chamou a atenção por claramente ter sido talhada e polida. Ainda que trabalhada de forma rústica, a peça denotava talento artístico, permitindo intuir que se refere a face de um homem com evidentes traços antropo-zoomórficos - "algo ferais", como sugeriu o Dr. Musgrave.

Enquanto estudava-mos o objeto, Igoolik retornou e ao perceber que havíamos encontrado um corpo reagiu com nervosismo. Compreendo que os costumes tribais podem ter falado mais alto e que ele viu nosso ato como um tipo de profanação. Contudo foi quando viu o amuleto que que realmente ficou inquieto. Entre gestos e passes de proteção, exigiu que colocássemos a coisa no lugar e enterrássemos o cadáver sem demove-lo de suas posses. Eu e Fredericks tentamos argumentar com nosso guia, mas ele se mostrou irredutível. À contra gosto, meu colega devolveu o objeto ao cadáver e este à sua cova natural que foi coberta.

Uma visão do vazio ártico
28 de julho de 1909

Houve uma mudança acentuada no clima e estamos em uma corrida para buscar abrigo. Não consegui arranjar muito tempo para escrever nesses últimos dias. Os cães tem agido de moo arredio e parecem incomodados pela mudança súbita.

Ontem pela manhã ficamos incapacitados de prosseguir devido a uma forte nevasca que surgiu do nada e nos forçou a montar acampamento. Igoolik nos incentivou a continuar assim que a tempestade diminuiu, ele afirma que estamos atravessando um território perigoso e percebi repetidas vezes que ele olha com uma expressão preocupada para o céu. Parece estar estudando as nuvens cinzentas que se formaram de uma hora para outra. 

Francamente nunca vi uma mudança climática acentuada assim, em tão pouco tempo.

Sem data

Avançamos sem parar, com o guia nos forçando a andar rápido. Ele espera chegar a um local onde afirma ter encontrado abrigo na última vez que passou pela área. O som dos trenós e dos cães em esforço é tudo que ouvimos por horas.

Os homens estão cansados, e a marcha acelerada tem causado danos ao moral. Fredericks reclama constantemente de Igoolik, referindo-se a ele como "nosso cruel feitor". 

Sinto como se algo estivesse errado, eu tenho sonhado com...

A equipe da Expedição 1909 - Sandhurst, Musgrave, Kunrad e Fredericks 
30 de julho de 1909

Kunrad desapareceu!

Uma forte nevasca nos atingiu em cheio e ficamos temporariamente perdidos, sem conseguir ver um palmo diante de nossos olhos. A geada surgiu repentinamente! Tivemos de preparar um acampamento às pressas, proteger os animais e graças à presteza dos homens conseguimos nos refugiar nas barracas corta-vento, mas fomos divididos em dois grupos. 

Quando a tempestade amainou, cerca de 7 horas depois, descobrimos que Kunrad não estava conosco! Cada grupo achava que ele estivesse com o outro. Como pudemos ser tão descuidados?

Quando a nevasca cedeu, fizemos um reconhecimento e procuramos pelo Professor, mas não encontramos sinal dele. Lamentável, um homem tão capaz provavelmente enterrado nesse lugar esquecido por Deus. A despeito dos pedidos de Igoolik para continuarmos, dei ordens para que os homens continuassem a busca pelo corpo dele. 

Mais tarde: Nada encontramos... Fizemos um enterro simbólico. O Tenente Benson tomou a câmera de Kunrad e disse que assumiria o papel de fotógrafo no lugar de nosso colega. 

1 de agosto de 1909

Uma discussão acalorada entre o Dr. Musgrave e Fredericks. Por pouco não chegaram às vias de fato. 

Nenhum dos dois quis explicar as razões para essa ríspida discussão e o Tenente teve de separá-los. Depois de discutir nossa situação, decidimos retornar para a aldeia Iqaluit de onde partimos e lá esperar por condições melhores. Nessa época do ano o tempo não deveria estar tão ruim, essas nevascas são atípicas e quem sabe no mês que vem, já tenham melhorado. 

Creio que todos ficaram aliviados com essa decisão. 

Mais tarde - A nevasca continua forte e impede nosso progresso. Estamos fazendo uma distância cada vez menor, a cada dia. O retorno deve demorar mais do que imaginamos... 

 2 de agosto de 1909

Ontem vimos nativos da tribo Puytevah, estavam nos observando novamente em cima de pedras. Tentei sinalizar para eles, mas não me devolveram o sinal, ficaram observando por mais algum tempo e quando fizemos menção de nos aproximar (a despeito dos protestos de nosso guia), eles se esconderam. Eu os estudei pelo binóculo: são Inuit, mas de uma tribo diferente, mais baixos e corpulentos, com a pele escura e cabelos lisos. Seus trajes são rudimentares e percebi que carregavam lanças e arpões.

Ao chegar ao local onde estavam, não achamos sinal deles. Contudo, encontramos uma curiosa formação rochosa na forma de pedras empilhadas formando o que parecia ser um tipo de totem. O estranho monumento media quase dois metros de altura e foi erguido com pedras empilhadas e troncos atados com cordames. A figura era estranha, um animal selvagem, ou espírito protetor de algum tipo. É inegável que guarda semelhança com a coisa representada no amuleto do homem que achamos morto dias atrás. Haviam símbolos estranhos desenhados na coisa, espirais em sua maioria.

Pode parecer tolice, mas não quis me aproximar ainda que a descoberta fosse notável. A coisa me deixou apreensivo! Havia manchas de sangue em sua base, em quantidade considerável.

Benson se aproximou para examinar aquela maldita coisa. Cavando na base do ídolo grosseiro, fez uma descoberta aterradora, um cachecol que parecia muito com o que Kunrad usava quando sumiu. Estava enrolado e ensanguentado. Foi impossível pensar no pior. 

Igoolik assumiu uma expressão taciturna e não se pronunciou a respeito, apesar de eu tentar extrair dele alguma coisa. Ele apenas disse uma palavra em seu idioma e se afastou fazendo seus passes de proteção.

O estranho Totem de pedra
Madrugada - Algo medonho ocorreu. Algo para o qual não tenho explicação e nem sou capaz de fazer conjecturas.

Enquanto descansávamos no acampamento, o silêncio noturno foi quebrado por um som aterrorizante que preencheu todo o vale e congelou nosso sangue. Um tipo de grito ou uivo, como jamais ouvi e que ecoou como um mau agouro. Benson apanhou seu Lee-Enfield e disparou para o alto, sem enxergar nada na escuridão completa. Os cães, grandes huskies e mongrels habituados ao mundo selvagem, latiam e ganiam aterrorizados. O Dr. Musgrave pareceu igualmente afetado pelo ruído e caiu de joelhos dizendo tolices, como se de um momento para o outro sua sanidade tivesse desmoronado. Ele começou então a fazer acusações contra Fredericks. Entendi o motivo de sua briga: Fredericks havia guardado consigo aquela maldita peça de turmalina escura que encontramos com o cadáver e que mandei ele deixar para trás. O Dr. Musgrave havia visto a coisa com ele e ficou furioso!

Igoolik ao entender o que se passava, assumiu uma postura derrotada em grave silêncio por longos minutos. Quando Fredericks reconheceu que havia desobedecido minha ordem direta, ele me acusou de dar ouvidos demais a "superstições dos selvagens". 

Nosso guia então se levantou e colocou-se de joelhos no solo repetindo alguma ladainha em um dialeto que eu não consegui entender. Me pareceu que ele estava pedindo perdão ou desculpas ao céu, com os braços erguidos em uma posição de absoluta submissão. Tentei despertá-lo daquele transe, mas ele continuou balbuciando aquelas palavras, olhando para o alto, enquanto lágrimas corriam de seus olhos e congelavam em suas bochechas.

4 de agosto de 1909

Correndo contra o tempo. 

A nevasca cai pesada e não cessa. É um risco seguir nessas condições climáticas, mas o guia afirmou que nos deixaria para trás se não fossemos com ele. A expressão do homem me levou a crer que ele falava a verdade.

Noite - O maldito uivo novamente! Uivo, grito, brado ou seja lá o que for... que animal produz tal som? Nada que eu conheça seria capaz disso! Alguns cães fugiram, correndo para a imensidão gelada como loucos.

Se havia ainda uma parcela de razão no Dr. Musgrave esta também se esvaiu por completo. Ele começou a gritar como um demente e passou a repetir algumas das estranhas palavras que Igoolik mencionou na noite de ontem. 

"Itaqua, Itaqua!" gritava e babava, olhando para as nuvens que se tornavam cada vez mais densas e volumosas. Parecia um demente!

Mandei que ele fosse amarrado pois temia que pudesse ferir a si mesmo, ou quem sabe algum de nós. 

Fredericks enterrou a peça de turmalina negra na neve e disse que não falaria mais a respeito do assunto. Ele mencionou que "esse maldito lugar não o deixa dormir e que causa pesadelos". Imagino se ele também tem sonhado com vales de gelo negro, ventos inclementes e algo que vive na nevasca. 

A imensidão e desolação

5 de agosto de 1909

Fredericks também desapareceu. Simplesmente sumiu de nossa barraca como se tivesse sido subtraído na calada da noite. Vi o homem se deitar em seu saco de dormir na noite passada e considero absurdo ele ter levantado e saído por conta própria. Não o faria em meio a essa escuridão e nevasca. Não obstante, ele sumiu sem deixar sinal!

Musgrave não conseguia parar de rir. Uma gargalhada histérica que depois se transformou em um lamento. "É o gigante silencioso, ele nos observa do alto!". Ninguém disse nada.

Não havia rastros ao redor da barraca, a neve e o vento poderiam desfazer uma trilha de pegadas que indicassem a saída de Fredericks, mas ainda assim, teria de haver algo... Igoolik não quis sequer procurar por algum indício e o Tenente Benson nada encontrou. 

Quando indaguei o que poderia ter acontecido o Inuit apenas olhou para o céu e Musgrave explodiu em nova gargalhada histérica.

Tarde - Ouvimos o uivo novamente, mais uma vez... aquele maldito som profano! Benson carrega seu rifle e a espingarda que pertencia a Musgrave e diz ter a impressão de ver coisas se movendo na nevasca. Eu gostaria de dizer que é apenas a sua imaginação pregando peças, mas também estou vendo... há algo nos seguindo por essas planícies e nada que se diga pode mudar essa certeza tétrica.

Outro sonho estranho enquanto descansávamos. Despertei em um sobressalto. Eu escrevi sobre isso, mas é absurdo... arranquei as páginas do diário para não ter de colocar no papel tais pensamentos. Não quero pensar em tais coisas! Não devo, em nome de minha sanidade!

O Tenente Joseph Benson em 1906
Noite - Igoolik libertou o Dr. Musgrave das cordas que o amarravam e os dois nos abandonaram.

Quando tentei argumentar com o guia e detê-lo, ele explicou que não conseguiríamos retornar: "A Tempestade vem vindo! O Andarilho do Vento está chegando", ele disse, ou ao menos foi o que consegui entender. Musgrave, com uma expressão febril, apenas repetiu aquela palavra estranha no dialeto local, que se refere provavelmente a algum Deus, demônio ou espírito temido pelos Inuit: 

"Itaqua".

Por algum motivo não tentei detê-los... nem que quisesse, poderia fazer algo para impedi-los, exceto atirar neles e isso não faria. Os dois se meteram na mata, penetrando na floresta de coníferas que os engoliu rapidamente.

Uma forte tempestade está se formando! O Tenente Benson, meu único companheiro agora foi até lá fora fotografar as nuvens densas que se formaram com a câmera que pertencia a Kunrad. Eu ainda encontrei forças para admirar seu zelo em registrar nossa triste situação. 

Quando enfim retornou percebi que sua expressão estava perdida e sua face pálida como a neve. A constatação de nossa condição lastimável o atingiu em cheio. Desde então se manteve silencioso. 

Depois eu o ouvi rezando. 

Não tenho grandes esperanças! Estou trilhando esses caminhos selvagens a tempo suficiente para saber que nossa situação é desesperadora. Será muito difícil atingir a civilização com os poucos e cansados animais que restaram. Sem um guia, temo que acabamos nos desviando de nossa rota. Talvez tenhamos entrado no território dos Puytevah e precisaremos negociar com eles. 

A tempestade já recomeçou... não sei se o que ouço é o vento ou aquele maldito uivo. Os dois parecem a mesma coisa, cada vez mais alto.

Deus tenha piedade.

A equipe ainda em Manitoba, em uma estação da Polícia montada, se prepara para a viagem

NOTA FINAL

O diário da expedição foi encontrado em 1947 por prospectores, que acharam o caderno nas mãos do cadáver congelado do Professor William Leydell Sandhurst.

O corpo apresentava extensivos ferimentos condizentes com um forte impacto causado por uma queda de altura considerável. De fato, ele foi identificado apenas após a realização de exames que confirmaram se tratar do Professor Sandhurst. A grande dúvida quanto a identificação residia no fato de que o cadáver foi encontrado nos arredores do vilarejo de Kirkland, cerca de 1200 quilômetros de distância da última posição assinalada pelo professor em seu diário. Não se sabe como o cadáver teria chegado a essa localização tão afastada.

O paradeiro do Tenente Joseph Benson da Real Polícia Montada do Canadá e dos demais membros permanece desconhecido.

Contudo, o estojo da máquina fotográfica Weiss que pertencia a Dieter Kunrad e que ficou em poder do Tenente foi achado após uma busca nos arredores. Por milagre a câmera em seu interior ainda estava intacta e foi possível revelar o filme. As fotografias que ilustram essa narrativa foram obtidas nessa câmera.

A imagem mais notável é justamente a última, que supostamente foi tirada pelo Tenente Benson segundo a derradeira anotação do diário. A fotografia está reproduzida abaixo e há mais de 60 anos divide opiniões no que diz respeito ao que ela mostra.      

A fotografia final da expedição.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Dissertando sobre Lovecraft - Entrevista com a autora Nathalia Sorgon Scotuzzi


O Mundo Tentacular entrevista a autora Nathalia Sorgon Scotuzzi, responsável pelo Projeto de Financiamento Coletivo via Catarse, de um livro inspirado pela sua Dissertação "Relances vertiginosos do desconhecido: a desolação da ciência em H. P. Lovecraft".

Nathalia fez sua graduação em História mas, para o mestrado, decidiu mudar sua área de pesquisa para Estudos Literários. Tendo cursado o mestrado entre os anos de 2015 e 2017, desenvolveu a dissertação deste projeto na UNESP de Araraquara.

Em sua carreira acadêmica, até o momento, publicou artigos em revistas científicas, tanto sobre a obra de Lovecraft quanto outros assuntos relacionados ao fantástico e o gótico. Também fez parte da coletânea Contos Reunidos do Mestre do Horror Cósmico da Editora Ex Machina, considerada uma das melhores publicações da obra de Lovecraft no Brasil. Neste volume, contribuiu com dois artigos a respeito da obra do autor.

Nathalia também é uma das editoras da Diário Macabro e administradora do Lovecraft Brasil, maior grupo brasileiro sobre o autor. Atualmente está cursando o doutorado, também na UNESP, onde pesquisa a respeito do horror cósmico.


Mundo Tentacular - Olá Nathalia, obrigado pela entrevista. Vamos começar pelo mais importante: você lançou um Financiamento Coletivo do de sua dissertação "Relances vertiginosos do desconhecido: a desolação da ciência em H. P. Lovecraft" no formato de livro (que já foi bem sucedido em atingir suas metas). Fale um pouco sobre qual a proposta e o tema desse livro. 

Nathalia Sorgon Scotuzzi - Oi Luciano, eu que agradeço pela entrevista! O conteúdo do livro é o texto de minha dissertação de mestrado, com algumas pequenas alterações para se encaixar melhor como um livro. O tema da dissertação é o papel da ciência dentro da obra de Lovecraft, e para chegar a uma conclusão discorri sobre assuntos como a espacialidade dentro da literatura e a filosofia do cosmicismo, que considero um projeto estético de Lovecraft. 

MT - Como foi o trabalho de pesquisa e quais fontes você consultou para produzir sua monografia? Você teve alguma surpresa a medida que fazia essa pesquisa? 

Nathalia - Cheguei ao meu tema por uma sugestão de meu orientador, o Cido Rossi. Tendo o tema definido, fui aos poucos construindo o que eu queria falar. Cada capítulo trata de um assunto diferente, mas no final todos se relacionam para chegarmos à conclusão quanto ao papel da ciência.

O primeiro capítulo é bastante biográfico, e nele apresento o contexto em que Lovecraft nasceu e viveu, usando autores como S. T. Joshi e Cecelia Tichi, sem falar de trechos de cartas do próprio autor, que utilizei em todo o trabalho. O segundo capítulo falo um pouco das origens do pensamento de Lovecraft, com a influência de autores como Ernst Haeckel e Bertrand Russell. Também faço algumas comparações entre a obra de Lovecraft e alguns de seus predecessores, como Poe. O terceiro capítulo é dedicado à racionalidade humana e o quanto de nossa realidade podemos compreender. Para isso usei, primordialmente, o pensamento de Hugh Elliot e Kant. No capítulo seguinte eu adentro a obra de Lovecraft, analisando “Um sussurro nas trevas” e Nas montanhas da loucura, com foco na espacialidade literária e suas implicações. No capítulo final analisei as possíveis revoluções científicas que o texto de Lovecraft sugere, a partir de obras de teóricos da história da ciência, como Paul Feyerabend e Thomas Kuhn.

Talvez a maior surpresa que eu tive durante minha pesquisa foi que Lovecraft era duro demais consigo mesmo e muitas vezes pintava uma imagem de si que no fundo não correspondia com o que ele era. Exemplo disso é sua relação com os escritores modernistas: apesar de afirmar que achava sua estética desprezível, no fundo o autor compartilhava da filosofia desses artistas.


MT - Eu sempre gosto de perguntar como cada pessoa que escreve ou pesquisa a respeito de Lovecraft, descobriu a obra dele e em que momento foi "fisgado" por ela. Como aconteceu com você? E qual aspecto de sua literatura chamou mais a sua atenção? 

Nathalia - A primeira referência que tive do mundo de Lovecraft foi a música do Metallica, “The Call of Ktulu”. Apesar disso, demorou um tempo para eu ir atrás de ler o autor. Depois de ver referências a ele em diversos lugares decidi que era hora de conhecer sua obra. Assim, fui até uma livraria em minha cidade e comprei o único exemplar que tinham: O caso de Charles Dexter Ward. Foi terror à primeira vista, e não consegui mais parar de ler.

MT - É curioso como Lovecraft foi redescoberto. De autor obscuro, conhecido em um pequeno nicho, ele foi se tornando, após sua morte, mais e mais conhecido. Hoje ele é amplamente conhecido. A que você acha que se deve essa popularização? 

Nathalia - Acho interessante que houveram “saltos” na popularidade de Lovecraft. Nos anos 80 foi quando ele ficou conhecido na cultura pop, mas não realmente conhecido para os padrões do Brasil, por exemplo. Desde que comecei a pesquisá-lo, em 2013, até agora, em 2019, vi um salto tremendo em sua popularidade no Brasil. Acredito que isso acontece porque finalmente as pessoas têm dado a ele o crédito merecido, reconhecendo o quanto ele influenciou MUITO do que gostamos nos dias de hoje.



MT - Qual o grau de importância hoje em dia da obra de Lovecraft? Ela continua atual mesmo em um mundo tão diferente? Como você contextualiza a importância dele para a Literatura? 

Nathalia - A obra de Lovecraft é incrivelmente atual por simples motivos: os temas com os quais ele trabalha continuam um grande mistério para a humanidade: o espaço continua obscuro, fazendo com que entidades alienígenas não possam ser descartadas; o fundo do mar ainda causa pavor e continua também deveras desconhecido; e o caos do universo cada vez se tona mais palpável no nosso mundo onde a religião morre a cada dia. Lovecraft escreveu, no século XX, uma literatura que dialoga diretamente com os pensamentos do XXI.

MT - Depois desse Financiamento bem sucedido, qual o próximo projeto? Suponho que você tenha outros temas que queira explorar. 

Nathalia - Acabamos de revelar nosso próximo projeto: a tradução de O enigma de outro mundo, de John W. Campbell, que inspirou o filme de John Carpenter. A tradução que faremos é da versão chamada Frozen Hell, uma versão completa e recém-descoberta da novela Who Goes There?, que Campbell publicou em 1938. Essa versão acabou de ser publicada nos EUA, e era inédita até o momento. Ela tem cerca de 40 mil palavras a mais do que a versão que era conhecida.


MT - Quais as suas recomendações para quem nunca leu, ou conhece pouco a respeito da bibliografia de Lovecraft? De que forma, na sua opinião, o leitor iniciante deve encarar a obra e por onde começar?

Nathalia - Eu costumo recomendar que comecem por contos que funcionem muito bem sozinhos e possuam características marcantes do cosmicismo, como “A cor que caiu do espaço” e “A sombra de Innsmouth”. Depois “O chamado de Cthulhu”, para situar o Mythos e apenas por último Nas montanhas da loucura. A essas obras sugiro intercalar outras que não sejam necessariamente do mythos e funcionem bem sozinhas, como “O modelo de Pickman” e “ A música de Erich Zann” –um de meus contos favoritos do autor.

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O Financiamento ainda está correndo. Ele já está financiado, então não há nenhum risco quanto ao apoio, mas não deixem para a última hora, só tem mais 5 dias. Quem se interessar pelo tema, deve dar uma olhada na página do Catarse.

Vale a pena também ler a Introdução da Monografia que foi disponibilizada.

Para mais detalhes, click no link abaixo: 

CATARSE Página do Financiamento

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Os Salgueiros - O Mestre Algernon Blackwood nos leva às profundezas da Floresta


É difícil encontrar uma história de horror capaz de capturar nossa imaginação e criar uma sensação de terror, ao mesmo tempo sutil e descritivo, como "Os Salgueiros" de Algernon Blackwood (1907).

Lembro que li esse conto pela primeira vez em uma antologia chamada Depois, reunida por Heloísa Seixas nos anos 2000. Os Salgueiros era a história principal e a mais celebrada pela organizadora que rendia a ela elogios rasgados. Aquilo me convenceu e li, como dizem, de uma sentada só, engolindo vírgulas, devorando pontos, ansioso pelo parágrafo seguinte que trouxesse uma revelação ou um alívio da tensão brutal que aquelas linhas impunham.

Não é demais reputar a Algeorn Blackwood o título de Mestre do Horror. H.P. Lovecraft o considerava assim, como um dos grandes do gênero, um degrau pequeno abaixo de Poe. Além disso, chamava "Os Salgueiros" de "a maior história estranha (weird tale) jamais escrita". Não é pouca coisa! 

Os fãs mais dedicados ao gênero devem conhecer a obra de Blackwood, mas aqueles que não conhecem não precisam se envergonhar: publicado relativamente poucas vezes no Brasil, ele permanece oculto do grande público. O que não significa que seus contos estejam inacessíveis.


Recentemente, a Editora Empíreo lançou uma edição caprichada da mais conhecida história de Blackwood, "Os Salgueiros". O volume vem em uma edição de capa dura, com ilustrações e com um extra valioso, em versão traduzida em português e na versão original, conforme concebida pelo autor. O fato de poder apreciar o conto em uma edição bilíngue é algo sensacional!

O texto só ganha em poder e ambientação quando lido em inglês. A tradução é primorosa, mas as linhas lavradas por Blackwood vibram com as descrições exasperantes de um pesadelo do qual não há como escapar. Estejam avisados portanto, que Os Salgueiros é daquelas histórias para grudar em sua imaginação e ser lembrada quando, e sempre que, você se afastar suficientemente da civilização e entrar em uma mata silenciosa sozinho. É daqueles contos para ser recordado quando ouvir um ruído desconhecido num bosque ou quando escutar o som de algo caindo num até então plácido lago.

Não pretendo falar demais da trama para não estragar. Boas histórias, como essa devem ser descobertas lentamente. Apenas sugiro ao leitor que leia essa história sem interrupções, que comece, continue e só pare quando chegar à última linha. Não trapaceie lendo o final e não caia na armadilha de pular um parágrafo. Salgueiros não é longa, é possível ler em algumas horas, preferencialmente antes de dormir. Dormir depois, já é outro assunto.


Nessa história, dois amigos decidem partir em uma viagem de canoa através do Rio Danúbio, em uma das regiões mais isoladas da Europa Central. Após dias percorrendo rios margeando florestas ermas, os dois acabam indo parar em uma pequena ilha - quase um banco de areia no meio de um pântano, à caminho de Bucareste. Esta parte do rio é descrita como uma "região de singular isolamento e desolação… coberto por um vasto mar de salgueiros". 

Com base nesse ambiente insalubre de opressiva natureza, se desenrola a trama. Não existe escritor capaz de conjurar uma aura de horror perante o mundo natural como Blackwood. Outras histórias dele, como "O Wendigo," também captura um senso de ameaça presente na natureza selvagem, com um predador selvagem tão terrível quanto em "Os Salgueiros", mas aqui ele vai além.

A floresta em que os canoístas adentram é uma presença viva, praticamente um personagem que participa ativamente da trama. A mata é como uma entidade cheia de olhos e ouvidos, observando constantemente os dois pobres sujeitos perdidos em uma ilha que parece diminuir. As plantas e criaturas que habitam esse lugar afetam a percepção febril dos dois e faz com que eles se perguntem constantemente "se estamos sozinhos, então por que sentimos que alguém está observando"?

Essa sensação desagradável vai se tornando cada vez mais incômoda e logo a sanidade cede espaço para a paranoia e o medo. A construção da história é incrível, o leitor sente a tensão aumentando a cada página e lá pela metade, é impossível não ficar angustiado querendo saber como vai terminar a trama.


Os elementos do pântano, da floresta, da mata virgem parecem conspirar, criando um ambiente muito propício a loucura e desespero. Em um dos momentos mais memoráveis, alguma coisa, que parece ser um homem - mas que pode ser "qualquer outra coisa" aparece flutuando  na água - talvez o cadáver de um pescador que eles encontraram anteriormente, mas talvez outra coisa desconhecida.

A aventura romântica da exploração e da jornada através do rio, em uma das últimas regiões selvagens da Europa, é muito bem narrada. Passando-se no início do século XX, ela poderia ser retratada em qualquer época no passado, já que a floresta intocável que os cerca é idêntica a que existia ali ao longo dos séculos. Essa refúgio selvagem permaneceu fechado para o homem moderno que tolamente acredita explorá-lo. Na verdade ele é meramente atraído para uma armadilha em seu interior. 


A narrativa descreve um manto verde que impede os amigos de enxergar o horror que está bem diante de seus olhos, um horror profano, à princípio curioso com essa invasão de seus domínios, mas que pode se tornar furioso a qualquer momento.

Blackwood manipula as palavras, extraindo um senso de reverência e inquietude dos personagens. Um dos pontos principais da história é mostrar como a mente deles próprios acaba dando asas aos seus medos mais profundos. Mesmo sem ver nada, a mente conspira para criar um pavor do qual não há escapatória, não existe trégua, não cabe recurso...

Como dito, a edição bilíngue da Empíreo acerta em cheio, sendo imperdível para os entusiastas do medo e da tensão. 

Salgueiros está em meu top 5 de histórias de horror favoritas.  

Para saber mais sobre Algeorn Blackwood, leia aqui AQUI


sábado, 13 de abril de 2019

Resenha de "Imperiais de Gran Abuelo" de M.R. Terci - O Inferno na Maldita Guerra


Não é de hoje, o Mundo Tentacular fala da obra de M.R. Terci. No quesito horror gótico brasileiro, esse autor e poeta paulista se destaca como expoente máximo, criando um terror extraído e destilado, diretamente da nossa história.

Ok, eu sei o que alguns vão pensar... para muitos a história do Brasil soa um tanto monótona. Não tem o mesmo frescor e empolgação da história de outras nações, forjadas a ferro e fogo e com personagens famosos. Ledo engano! Talvez, a nossa insatisfação com a história nacional se deva a aulas sem graça e ao decoreba de datas e acontecimentos. Sem um contexto e sem emoção, história acaba sendo tão interessante quanto leitura de bula de remédio. Por isso, talvez as histórias narradas nos livros de Terci conseguem nos atingir em cheio! Ele pega aquilo que é monótono e imprime emoção, sentimento e angústia como poucos. Apelando para palavras rebuscadas e incomuns, termos do vernáculo dos séculos passados e descrições das mais elaboradas, temos um panorama empolgante e visceral da nossa história. 

Eu já havia acompanhado os trabalhos anteriores dele, a trilogia do Bairro da Cripta, na qual ele nos apresentou a cidadezinha de Tebraria, o mais assombrado dos lugarejos brasileiros, local onde, segundo dizem, sempre é treva. Seu livro seguinte, Caídos, transporta a ação para o período colonial, acompanhando as peregrinações de um jovem aprendiz de feitiçaria português, que faz uma jornada infernal até dar em nosso quintal sinistro.


Mas é o quinto livro do Terci, "Imperiais de Gran Abuelo" (lançado pela Pandorga) que mais despertou minha atenção. Sou um fã do tema abordado, e estava muito curioso para saber como o autor lidaria com um dos capítulos mais sangrentos e obscuros da nossa história, a Guerra do Paraguai.

É curioso (e ao mesmo tempo lamentável) que o mais dramático dos conflitos do qual o Brasil tomou parte, seja sumariamente ignorado pelo seu povo. A Guerra do Paraguai, no entender da maioria, parece ter acontecido há tanto tempo que não faz sentido saber quando, e tão longe, que não interessa saber onde. Chocaria a muitos saber que não faz tanto tempo assim, e que a Guerra, embora tenha sido travada majoritariamente além de nossas fronteiras, esteve mais próxima do que se pode imaginar. Mais importante que tudo isso: brasileiros comuns foram para a luta, pegaram em armas, derramaram seu sangue, mataram e morreram. É triste que esse conflito seja uma mera nota de rodapé na maioria dos livros de história.

A despeito da imagem que se tem, a Guerra do Paraguai, chamada assim por ter ocorrido dentro e nos arredores dessa nação, foi monumental. Foi o maior conflito do continente, com envolvimento de participantes e baixas. Também transformou a história dos envolvidos: teve alto custo, acarretou perdas monumentais e reduziu ao menos um dos países à ruínas fumegantes. Não por acaso, ela é chamada pelos demais participantes de "Guerra Grande" ou ainda, "Maldita Guerra".

Ao se debruçar sobre a Guerra do Paraguai, o autor, mergulha nas entranhas do confronto. Relata com a costumeira competência acontecimentos fictícios, costurando sua trama ao tecido histórico. Como não poderia deixar de ser, mantém os dois pés fincados no horror, contando as idas e vindas de uma tropa, os Imperiais; veteranos de combates, familiarizados com massacres e atrocidades da guerra encarniçada. Os Imperiais não são apenas um bando de soldados, são verdadeiros guerreiros que respiram fumaça, tomam banho de sangue e pedem mais. 

Na história, cuja cronologia salta de trás pra frente e de frente pra trás, vamos sendo apresentados aos integrantes dessa Legião de Malditos. O personagem do título, o Gran Abuelo (ou vovôzão) é ninguém menos que Manuel Luis Osório, patrono do Exército brasileiro, comandante responsável por treinar os homens e levá-los à vitória. Uma vez morto e (à muito custo) sepultado, assume o comando o narrador da história, apelidado de Papá. É ele quem faz a ligação do comando com a soldadesca, e vai contando as experiências macabras vividas durante o desenrolar do conflito. 

Além desses dois personagens centrais, aos quais vamos conhecendo mais a fundo através dos flashbacks, temos vários coadjuvantes interessantes, identificados através de apelidos - doido, medroso, covarde, cicatriz, maluco... Cada qual com suas particularidades e um colorido que os tornam bastante reais. Cabe contudo, um alerta, não se apegue em demasia a nenhum deles...  

Acreditem em mim, eu adoraria descrever as aventuras medonhas e os percalços sinistros pelos quais a tropa passa em maiores detalhes, mas receio estragar a diversão alheia. Entrar de olhos vendados nessa trama é essencial para desfrutar de suas muitas surpresas e de seu panorama devastador. Posso adiantar entretanto, que embora seja um livro curto, com pouco mais de 200 páginas, o conteúdo é explosivo. Não falta ação, tiroteios, descrições de batalha sendo travadas entre homens e coisas piores, bruxaria, superstição, sangue e pólvora. O terror está em todo canto e espreita os Imperiais em sua descida por um Hades Negro além da fronteira Guarani. Mas há espaço para acidez e humor. Em mais de um momento, me surpreendi rindo com alguma peripécia inusitada. A leitura corre fácil e virar as páginas é ato contínuo, coisa que sempre considerei virtude de bons romances. 

Para os conhecedores do Bairro da Cripta, existem menções diretas e indiretas a velhos conhecidos, e o leitor atento pescará referências a personagens e lugares. Mas aqueles que ainda não exploraram os mistérios de Tebraria (o que esperam?), não precisam se preocupar, trata-se de uma história à parte, a primeira de uma trilogia já planejada. 

Pouco antes do lançamento, o autor me convidou para escrever o Prefácio e ler em primeira mão o livro. Confesso que fiquei preocupado com a tarefa, sobre o que iria escrever e se estava à altura. Mas depois de concluir a última página, as palavras fluíram facilmente. Espero ter conseguido transmitir em alguns parágrafos a sensação que tive ao ler o livro, e seguindo a cartilha do que é escrever um Prefácio, ter convidado à contento o leitor a avançar nas páginas seguintes.

Com tudo isso, recomendo a leitura de "Imperiais de Gran Abuelo" a todos os amantes de horror e aos órfãos da nossa história nacional. Aqui temos a rara chance de, através de entretenimento de altíssimo nível, vislumbrar um momento delicado de nosso passado. 

Aproveitem a viagem, sintam o aroma da pólvora seca, pois ele tem cheiro de história.

Adendo:
E fiquei sabendo que O Bairro da Cripta em breve ganhará uma nova edição com alguns novos contos e roupagem. Para quem não conhece, prepare-se...


domingo, 3 de março de 2019

Re-lendo Lovecraft - "O Depoimento de Randolph Carter"


"Era numa depressão profunda e úmida, coberta de mato alto, musgo e curiosas ervas rasteiras, envolvido por um vago fedorque minha fantasia ociosa associava absurdamente a pedras putrefatas. Por toda a parte havia sinais de abandono e decrepitude e eu parecia perseguido pela ideia de Warren: nós éramos as primeiras criaturas vivas a invadir um silêncio letal de séculos".

Estamos de volta com Re-lendo Lovecraft e dessa vez com "O Depoimento de Randolph Carter" um conto menor de H.P. Lovecraft e aparentemente bem simples, mas que possui uma série de detalhes interessantes. Escrito em dezembro de 1919 e publicado pela primeira vez em maio de 1920 numa edição da revista The Vagrant.

Sumário: Randolph Carter está prestando um depoimento formal após o desaparecimento de seu amigo Harley Warren. Ele conta tudo o que é capaz de lembrar para os oficiais de polícia a respeito da noite em que Warren desapareceu - de fato, ele conta tudo, várias vezes. A polícia pode prendê-lo ou mesmo executá-lo se provarem que Carter tem alguma ligação com o desaparecimento. Parece haver uma desconfiança e os detetives não estão certos a respeito de suas explicações. Carter se apega ao seu depoimento e repete que não pode ajudá-los em mais nada... Ele espera que Warren tenha encontrado um "esquecimento pacífico".


Warren era um estudante do estranho, com uma vasta coleção de livros bizarros versando sobre temas proibidos, muitos deles em árabe. Carter aceita assumir uma posição de subordinado em um experimento realizado por Warren, um em que ele parece ter esquecido o propósito. Esses experimentos são em geral assustadores e o último, tudo indica, causou o desaparecimento de Warren. Recentemente Warren falou a respeito estranhas teorias a respeito de como "certos cadáveres parecem não se deteriorar, ficando íntegros firmes e gordos em suas tumbas por milhares de anos".

Uma testemunha teria visto Warren e Carter na estrada de Gainesville, que segue para o Pântano de Big Cypress. Carter não consegue se recordar detalhes a respeito disso, mas não nega a possibilidade. Ele também não nega que estivessem carregando estranho equipamento: pás, lanternas elétricas e um aparato de telefone portátil. Warren também carregava consigo um livro que havia recebido da India no mês passado, um com uma linguagem que Carter não foi capaz de reconhecer. Carter também está certo que os dois se dirigiam para um antigo cemitério em uma área isolada e insalubre do pântano. Nessa terrível necrópole ocorre uma cena que ele nuca será capaz de esquecer.

Warren encontra um sepulcro meio aberto, que ele e Carter limpam de terra e vegetação. Eles revelam então três placas de mármore, uma que eles tem sucesso em remover. Gases miasmáticos os afastam assim que ela é aberta. Quando o fedor diminui eles verificam o interior e descobrem escadas descendo para o subterrâneo.

Warren decide descer sozinho, uma vez que Carter parece ser propenso a crises nervosas, e não ficaria à vontade com o que existe lá embaixo. Carter sequer imagina de que seu amigo está falando. Finalmente Warren decide descer usando um receptor de telefone para relatar o que está vendo no subterrâneo ao seu companheiro na superfície.


Warren desaparece na escadaria, deixando Carer sozinho imaginando procissões de sombras amorfas desfilando diante da lua cheia. Quinze minutos depois de ter descido, o telefone toca e Warren dá sinais avisando que chegou a uma câmara. Ele fala com um estranho sotaque que não parece ser seu. O que ele encontra é inacreditável e monstruoso, ele poupa Carter de detalhes, póis nenhum homem deveria saber o que existe naquelas profundezas.

Infelizmente, Warren parece encontrar algo ainda mais aterrador. Ele começa a advertir Carter a recolocar a peça de mármore e fugir enquanto pode. Carter promete que não deixará o colega para trás e que antes irá descer para ajudá-lo. Warren continua a implorar para que ele fuja o quanto antes, a voz vai ficando cada vez mais distante,, até que um chiado irrompe, seguido de uma frase bizarra:“Malditas coisas infernais… legiões… meu Deus! Vá-te! Vá-te! Vá-te! (“Curse these hellish things—legions—My God! Beat it! Beat it! Beat it!”)

Segue-se um período de silêncio. Carter evita de descer pelos degraus. Ao invés disso, senta e murmura para si mesmo, esperando o contato de seu amigo. Será que Warren ainda está lá?

Eventualmente ele ouve a coisa que o deixa em um estado de pavor e o obriga a fugir pelo pântano, onde ele é encontrado na manhã seguinte. Ele ouve uma voz, oca, distante e inumana, talvez até incorpórea. Não é a voz de Warren, e ela entoa: 

"SEU TOLO, WARREN ESTÁ MORTO."


DISSECANDO O CONTO:

O que é tipicamente Lovecraftiano: Algumas vezes, a única maneira de descrever o indescritível é usando um monte de adjetivos. UM MONTE! Lovecraft sempre fez isso, como ninguém. Ele é o Rei dos adjetivos, mas nesse conto, nesse conto em especial, ele vai muito além do repertório normal: "profundo, vazio, gelatinoso, remoto, alienígena, inumano, incorpóreo" apenas para citar alguns da lista. E nós ainda somos abençoados com um novo e infelizmente pouco usado termo tipicamente lovecraftiano: "sombras necrofágicas."

O que é Degenerado: Não há muita degeneração nesse conto. Há uma suposição de que uma coleção de livros adquiridos por Warren estão escritos em árabe - mas até aí, não há nenhuma suposição de que eles possam ter causado alguma degeneração no personagem. Há uma menção a um livro escrito em um idioma desconhecido e que parece muito suspeito. Por outro lado, há centenas de linguagens por aí, e não conhecer uma delas não significa que se trate de algo especialmente sinistro.

O que pertence ao Mythos: Randolph Carter é um dos únicos personagens recorrentes na carreira de H.P. Lovecraft, supostamente o seu alter-ego, ou alguém que ele gostaria de ser. Ele aparece em outras histórias e é o mais próximo de um herói/investigador dos Mythos. Embora aqui ele pareça em "início de carreira" e bem longe de demonstrar suas habilidades como erudito e veterano da Legião Estrangeira, Carter ainda vai se tornar um aluno do hall de honra da Universidade Miskatonic e um viajante experiente que chegará até a distante Kadath. Nada mal para quem começou babando pelo sumiço de seu colega.

Tomos e Livros Blasfemos: A expedição às profundezas do cemitério parece ter sido motivada por algo que Haley Warren leu em um suspeito livro de origem indiana. Para variar, o conhecimento prova ser perigoso para aqueles que tentam desvendá-lo. Me pergunto o que teria acontecido com os livros da coleção de Haley Warren.

O que é Insano: Warren assegura a Carter que ele não é forte o bastante para suportar as revelações do que existe no subterrâneo do Cemitério. Parece um bocado rude, mas Carter realmente reage mal à noção de que coisas abjetas e horríveis habitam aquele lugar ermo. Ademais, ele pensa repetidas vezes em descer para ajudar  colega, mas não o faz; em parte pelas recomendações para que ele fuja, mas em parte porque ele mesmo provavelmente não queria descer e ver com os próprios olhos. Se Carter descesse nós teríamos uma noção de quem, ou o que, avisou a ele que Warren estava morto. Mas possivelmente não veríamos Carter em outras histórias. De mais a mais, apenas ouvir as palavras foi o bastante para fazer Carter correr para o pântano onde foi encontrado na manhã seguinte vagando sem destino. Típico teste de sanidade mal sucedido!

Comentários e Considerações:

- O personagem Harley Warren, teria sido inspirado em Samuel Loveman, um crítico literário, colecionador de livros e colega de correspondência de H.P. Lovecraft. A ideia para esse conto surgiu após um sonho de Lovecraft no qual ele e Loveman exploravam um cemitério, embora os detalhes tenham sido adicionados posteriormente. Outro conto, "Nyarlathotep" também foi inspirado em um sonho de Lovecraft envolvendo Loveman. Curiosamente Loveman era judeu e mesmo assim se converteu em um amigo e correspondente regular de Lovecraft. Após a sua morte, Sonia Green, ex-esposa de Lovecraft teria se encontrado com Loveman e contado a ele das opiniões anti-semitas de seu ex-marido o que levou Loveman a queimar e destruir parte da correspondência que ainda estava em seu poder.

Samuel Loveman em meados de 1925
- O conto aparentemente se passa na Flórida, no Pântano de Big Cypress, que realmente existe e que atualmente é uma área de preservação ambiental protegida pelo Governo Federal. Na época ele era considerado como um pântano isolado e de difícil acesso, uma excelente escolha para uma história de horror. Localizado ao norte do Everglades, contudo, ele não fica próximo da cidade de Gainesville, como afirma o texto e não há nenhuma "Estrada Gainville" hoje ou na época passando através dele. Ao que parece Lovecraft inventou boa parte das informações a respeito da área e de seu passado. A necrópole descrita por ele também parece muito européia e antiga em relação aos cemitérios do período colonial na Flórida. Além disso, o estado é conhecido pelas cheias e terreno arenoso o que tornaria praticamente inviável a construção de uma cripta subterrânea profundo no período colonial, quanto mais em um terreno pantanoso.

- A lista de personagens na obra de Lovecraft que são afetados por um terror insuportável e perdem parcialmente a memória dos acontecimentos é longa. Talvez por isso o depoimento de Carter seja marcado por lacunas e a incapacidade de compreender os acontecimentos e fatos. Lovecraft parecia acreditar que experiências de horror extremo podiam causar um choque tão grande que a mente humana simplesmente se desapegava dos acontecimentos afim de proteger o indivíduo dessas memórias traumáticas. Algo semelhante ocorre em "Um Sussurro nas Trevas" e em "O Festival" quando os narradores se mostram incapazes de conceder uma explicação plausível dos acontecimentos.

-  "Depoimento" é a primeira aparição de Randolph Carter na obra de Lovecraft, um de seus únicos personagens recorrentes. Ele apareceria novamente em "O Inominável" ("The Unnamable" - 1923), "A Procura de Kadath" (The Dream Quest of Unknown Kadath - 1926), "A Chave de Prata" ("The Silver Key - 1926), "Através dos Portões da Chave de Prata" (Through the Gates of the Silver Key - 1932) e faria uma pequena aparição em "Além das Eras" ("Out of the Aeons" - 1932).

Randolph Carter na série Providence
- Carter entretanto tem uma primeira aparição bem pouco auspiciosa para um personagem de sua importância. Seus problemas de memória e os nervos frágeis fazem com que ele fique paralisado e impassível diante do horror. Em sua segunda aparição em O Inominável, Carter também é de pouca utilidade em uma emergência e ele parece aterrorizado diante de porões assombrados e ossadas. Já o Carter nos contos e na Novela devotados ao Reino dos Sonhos é consideravelmente mais ousado e corajoso, um verdadeiro aventureiro e explorador do desconhecido. Talvez essa transformação se dê por ele estar na Terra dos Sonhos ou talvez por ele dispor de um conhecimento invejável e aliados poderosos nos reinos oníricos. No mundo desperto, Carter também se junta a Legião estrangeira francesa e combate no Oriente Médio nos anos posteriores a Grande Guerra, o que concede a ele um pouco mais de fibra e uma aura de heroísmo. O desenvolvimento do personagem, tratado como um alter ego do próprio Lovecraft, é interessante demonstrando que o aprimoramento de Carter nas artes místicas ocasiona uma mudança também em sua personalidade.    

- Embora tenha sido um autor que criou ou ao menos ajudou a criar um gênero acessório dentro do Horror - o Horror Cósmico, Lovecraft por vezes se rendia ao gótico clássico. Ele escreveu repetidas vezes a respeito de cemitérios, casas assombradas, porões e catacumbas onde habitavam coisas aterrorizantes que não deveriam existir. Nas suas descrições estes lugares geralmente são extremamente antigos, abandonados, evitados e temidos por acontecimentos no passado. Em "Depoimento", o Cemitério Colonial é tão isolado e esquecido que os detetives que prendem Carter sequer lembram de sua existência e afirmam que nada parecido com aquilo existe.  

- Finalmente, resta a questão do que seria a criatura ou criaturas que habitam os recessos do Cemitério e fazem dele seu covil. A descrição de Warren a respeito do que ele estava vendo é bem pouco concreta, ele não fala o que estava vendo na escuridão à luz de sua lanterna elétrica e parece utilizar de metáforas para descrever essas tais coisas. Sem dúvida ele menciona algo cadavérico, putrefato e medonho, mas falha em dar mais detalhes sobre a sua natureza. Por exemplo, seria algo material como um cadáver morto-vivo e semi-decomposto ou um tipo de fantasma incorpóreo?

Um ghoul lovecraftiano
- Há suposições de que Warren pudesse ter encontrado ghouls nos subterrâneos. Essa teoria encontra sustentação em vários elementos, sobretudo se tratar de um cemitério, o habitat dessas criaturas que vivem de devorar os mortos e que se escondem nos subterrâneos. Ghouls são uma boa opção também visto que são capazes de falar e reter conhecimento dos tempos que andavam entre os seres humanos. Essa explicação é mais confortável e se encaixa bem com a frase final do conto... não se imagina que um horror ancestral tentacular fosse capaz de falar em inglês e menos ainda de operar um telefone para enviar uma mensagem assustadora para a superfície. Já um ghoul se enquadra perfeitamente em tal comportamento. Se de fato, Warren foi morto por ghouls, é pouco provável que um grupo de resgate enviado ao local encontre vestígio dele. Ghouls aparecem pela primeira vez na obra de Lovecraft em "O Modelo de Pickman" (Pickman's Model - 1925), mas não são criaturas criadas por ele, fazendo parte do folclore. Eles fariam uma nova aparição em "A Procura de Kadath".

- Um equipamento chama a atenção nesse conto: O Telefone Portátil. Essa engenhoca era considerada uma novidade incrível na época de Lovecraft e na que o conto foi escrito. Os primeiros telefones portáteis similares ao usado no conto, foram criados pelo inventor sueco Lars Magnus Ericson em meados de 1910. A ideia original é que automóveis fossem equipados com esse tipo de aparato que era conectado a postes telefônicos ao longo da estrada. O projeto foi considerado pouco prático e abandonado já que as conexões tornavam necessário escalar um poste e entender um mínimo de eletrônica para fazer as conexões corretas. A ideia de telefonia portátil, no entanto, continuou sendo extremamente atraente, tanto que outros inventores deram prosseguimento no projeto de Ericson. Durante a Grande Guerra, estabelecer centrais de comunicação seguras entre os comandantes e os soldados no fronte era uma necessidade, o que permitiu mais pesquisas na área. No final da Guerra, as tropas americanas introduziram os primeiros telefones de campo que eram grandes, pouco confiáveis e complicados de serem operados, em condições adversas.

Telefone militar portátil do tipo usado em trincheiras da Grande Guerra
Uma demonstração de utilização de um telefone portátil em 1922.
- Os telefones de campo portáteis (ou mais ou menos portáteis já que a caixa deles podiam pesar algo em torno de 45 a 55 quilos) funcionavam como uma central de telefonia móvel interligando duas pessoas. A fiação do telefone podia se estender a uma distância de até 100 metros e ela era amplificada por microfones instalados na peça do receptor que permitiam a comunicação com certo grau de distorção. É provável que no conto Carter e Warren se comunicassem com um Telefone Portátil Militar, talvez uma sobra da Grande Guerra ou quem sabe um protótipo dos projetados no período. Seja como for, o método era considerado tecnologia de ponta e Lovecraft foi especialmente genial ao incorporar esse invento a um conto de horror.

Então é isso!

Até o próximo!